domingo, 31 de março de 2019

Receita de soneto

Receita de soneto

Receita de soneto


Rogel Samuel

Em "Para fazer um soneto" descreve Carlos Pena Filho como se deve escrever um poema.
Mas a receita é difícil de seguir.
Pois o primeiro passo diz: "Tome um pouco de azul, se a tarde é clara". Sorver o azul da tarde, tarefa complicada de realizar à risca. Mas é aí que aparece a "palavra inicial" (dada por Deus). Depois, segure bem esta palavra (divina) com uma "atitude avara", ou seja: a partir daí passe a usar apenas o sol que bate na sua cara! Claro, o poeta é de Recife, terra do sol.
Com esta palavra primeira, com o sol e com um pedaço do quintal o poema se constrói.
Mas se não der certo, há uma solução de emergência.
Em vez da luz clara e azul, passe a trabalhar com o tom cinzento e meio obscuro e vago, com o pó que ainda resta em nossas vidas, com os resíduos da memória, a combustão, a borralha de certas substâncias da nossa memória.
Ali está o aniquilamento da nossa infância, o luto da lembrança, a destruição, a humilhação, a dor cinza dessa coisa vaga que são as lembranças da infância.
Não, não se apresse. O curso do rio da voz vai levá-lo ao cerne do poema, àquela escuridão onde se tece a certeza.
Aí sim. Aí o poema começa. Eis:

“Tome um pouco de azul, se a tarde é clara
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse,
antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.”

sábado, 23 de março de 2019

GABRIELA MISTRAL - O PENSADOR

GABRIELA MISTRAL - O PENSADOR
Rogel samuel
Pois ali, enquanto repete ela, e quatro vezes repete, a voz da
«carne», - «carne sem defesa», carne da cova», «carne que odeia
a morte e tremeu de beleza», «carne sulcada», aquela substância
se opõe ao noturno bronze, à morta matéria, que por duas vezes
no poema tremeu de prazer, de orgasmo, beleza, amor, vida,
daquele homem nu, implantado sobre seu soneto, traduzido por
Manuel Bandeira, sentado no alto daquele pedestal de pedra
sulcada, repassada de seus horrores, seus terrores, seus músculos
sofredores, seus humanos sentimentos - culminando com aquela
figura de bronze de Rodin dos versos de Gabriela Mistral - feita
da ferro e angústia das eróticas fesceninas massas de músculos
contorcidos, o torso se contorce, o nervo falo coberto, a fala cala,
o pensamento pende, e indefeso se exibe, se internaliza, se
outoniza, no bronze se consome, se mata, se traspassa, de verdade,
de rudeza, de certeza e tristeza:
"Apoiando na mão rugosa o queixo fino,
O Pensador reflete que é carne sem defesa:
Carne da cova, nua em face do destino,
Carne que odeia a morte e tremeu de beleza.
E tremeu de amor toda a primavera ardente,
E hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza.
O "havemos de morrer" passa-lhe pela mente
Quando no bronze cai a noturna escureza.
E na angústia seus músculos se fendem sofredores.
Sua carne sulcada enche-se de terrores,
Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte
Que o reclama nos bronzes. Não há árvore torcida
Pelo sol na planície, nem leão de anca ferida,
Crispados como este homem que medita na morte."
É estátua mas, Gabriela Mistral insiste, de homem, de gente,
de «carne», que o reclama no vivo bronze.
É imagem triste, ou antes, entristecida, entretecida,
mergulhada na sua tristeza intestina.
É escultura masculina, ou seja, de homem escultural, mas já
envelhecido por vistos femininos olhos de mulher, que o «vêem»
como o que se passa em sua mente que mente, ou melhor, se
exteriora, só para ela, se encarna: másculos músculos se fendem
em folhas de outono, mãos crispadas rugosas de árvore torcida
«em face do destino», anca de leão eriçado e ferido.
Gabriela Mistral o transforma no Amado sem defesa,
submetido ao Amor da Primavera ardente, ao Senhor forte, - ela
o ama porque o vê tão triste, e o sabe indefeso e afogado na
verdade de sua lembrança dele da Amada vaga, quem sabe
tristeza apensada destino imóvel fixidez vocabular forma fixa do
soneto, na casa do soneto onde vive, na casaca da forma e fôrma
em que criado foi, cristalizado, anelizado.
Ele o Amado que encontra em transe e em museu, já morto
sarcófago, múmia, mas vivíssimo, que não é um poema, mas
interpretação fenomenológica a dela, encontro estético, e todo
encontro de amar deve ser, e preso ao orgasmo torneado noturno
e escuro daquele ser fixo e submisso à forja morta em fogo
formado na tensão explosiva de estertor e prestes a se levantar em
fúria e ira, a se erguer da sua meditação mortal em revolta,
revolução do condenado à materialidade que ejacula na
conquistar, abraçar o ente, o vivente, petrificado, congelado,
existente, apossado porém ainda logo a se contorcer na libertação
do seu invólucro de ser de imóvel estatuária fixa fria frígida
tumular e plana.
Pois tudo aquilo está aberto ali, em perigoso mistério que
treme, freme, geme, o másculo músculo se fixando e torce, o pênis
que vibra, a pele se dilata e estica, e a respiração embora contida
se pode pressentir naquele varão muito vivo e muito tido, muito
mais intensamente vivo e ativo do que se pode esperar de um ser
feito de bronze, na intensa materialidade de arame árvore
retorcida e barroca, massa que guarda da carne a articulação e o
sentir, pulsação em puro sangue humano e no tormentoso
esplendor do amor, da dor, do prazer, do desejo do seu prazer ali
contido, comprimido, explosivo.
O Pensador reclama ter de morrer em metal, reclama do
seu, da nudez de seu destino de congelado gozo, de se expor assim
nu para todos e não só para ela, e Gabriela Mistral o captou em
sua completa e elétrica e interna e febril concretude de cimento
armado pelo pulsar do músculo macho que quente sêmen freme
escondido, enquanto medita no pleno acontecimento da sua
obscura e incompleta morte.

terça-feira, 19 de março de 2019

O IMPÉRIO AMAZÔNICO




Manaus rica, copia Paris. Comerciantes enriquecem. Ostenta o Teatro Amazonas os seus espelhos de cristal. Os milionários jogam cartas com anelados dedos pesados de diamantes, arriscando fortunas no Hotel Cassina, no Alcazar, no Éden, no Cassino Julieta. Telhas de Marselha ao luar na Rua dos Remédios, na Rua da Glória. Arquitetura art-nouveau do palácio de Ernest Scholtz - depois Palácio Rio Negro, sede do Governo. Arandelas, bandeiras, implúvio. Intercolúnio. O cunhal, o lambrequim, a voluta, o capitel, a cornija. Arquitrave. Barrete de clérigo, adufa, muxarabi, água-furtada, muiraquitã, envasadura, atleta, estípite. O enxalso, o frontão de canela. Galilé. Pequena Manaus, grande Paris!. Lojas, magazines, charutarias, livrarias, alfaiatarias, ourivesarias. Bissoc. Pâtisserie. Du sucre, des fruits, de la crème. A la ville de Paris, Au bon marché, Quartier du temple, Damas do Gabinete Villeroy, Casa Louvre, Livraria Palais Royal (na rua Municipal, n0 85, as novidades literárias), Livraria Universal, Agência Freitas, Casa Sorbonne (dentro do Grande Hotel), a Confeitaria Bijou, a Padaria Progresso. Faroletes de pedra de morona e de puraquequara. A bela Villa Fany, luxuosíssima. O Cais dos Barés, a Biblioteca Provincial (que incendiou fraudulentamente, para destruir os Arquivos Públicos, nos fundos). O prédio dos Educandos Artífices que deu nome ao bairro. Amazon Steamship Navigation Co. Um prédio importado, peça por peça, da Inglaterra: a Alfândega, montada aqui. Outro, projeto do próprio Gustavo Eiffel, de ferro: o Mercado Municipal. Um Serviço Telefônico serve a cidade. A eletricidade ilumina as ruas de Manaus no início do Século, talvez das primeiras cidades brasileiras a ter este serviço. Calçadas da Praça São Sebastião, em pedras portuguesas pretas e brancas, em ondas que alegorizavam o “encontro das águas” do Negro e Solimões (posteriormente imitadas na praia de Copacabana). Bondes elétricos da Manaus-traways. Bebe-se Veuve Clicquot, truffes, champignon. Huntley & Palmers, Cross & Blackwell. A Cork, a Pilsen, o Bordeaux, o fiambre, o Queijo da Serra da Estrella. Lagostas, a Goiabada Christalizada. Charteuse, Anizette. Champagne Duc de Reims. O Vermouth. Água de Vichy. Leite dos Alpes Suíços. Casacas inglesas, o H. J., o pongê, o filó. Bengalas de castão de ouro. Cartolas, luvas, perfumes franceses, lenços de seda. Pistolas de prata e cabo de marfim. Gramophones de Victor. Discos duplos de Caruso. Casas aviadoras. O Amazonas participa da Exposição Comercial de St. Louis, no Missouri, e posteriormente da Exposição Universal de Bruxelas, onde ganha 32 medalhas de ouro, 39 de prata, 70 de bronze, 6 Diplomas de Honra e os 13 Grandes Prêmios. Manaus-Harbour. Tabuleiro de Xadrez. Óperas, óperas, óperas. Diariamente. Prostitutas importadas. A Cervejaria Miranda Correia.
A Praça da Saudade. O Roadway, o Trapiche. Sífilis. Malária. Vidros de Quinino Labarraque. Óleo de Fígado de Bacalhau. Vinho Silva Araújo. Regulador da Madre. Pílulas Rosadas. Café Beirão. Winchesters cabo encerado de mogno. Asilo de Mendicidade (construído pelo Comendador). Ponte da Imperatriz, Igarapé da Cachoeira Grande. A Serraria, no Igarapé do Espírito Santo. Banhos de do, no Igarapé das Sete Cacimbas. Buritizal. Jogos, no Parque Amazonense. Ida a Barcelos. Noite no Jirau. Muro do Leprosário do Aleixo. No recanto - o Chalé. Vista da Bomba d’Água. Viagens. Linhas. Manaus-Belém, Manaus-Santa Isabel, Manaus-Iquitos, Manaus-Marari, Manaus-Santo Antônio do Madeira, Manaus-Belém-­Baião. Gonçalves Dias no Hotel Cassina. Coelho Neto no palacete da rua Epaminondas. Euclides da Cunha no chalé da Villa Municipal. O Amazonas Comercial, O Imparcial, O Rio Negro, Jornal do Comércio. 126 navios trafegam no interior do Amazonas. Vaticanos, gaiolas e chatas. Inaugura-se, às custas de 3,3 milhões de dólares, o Teatro Amazonas, em 1896 - a mais cara e inútil obra faraônica da História do Brasil, milionária e importada, com painéis, centenas de lustres de cristal venezianos, colunas de mármore de várias cores, estátuas de bronze assinadas por grandes mestres, espelhos de cristal visotados, jarrões de porcelana da altura de um homem, tapetes persas - tudo o que, aliás, em 1912 desapareceu, esvaziando-se o Teatro para transformá-lo num depósito de borracha de uma firma americana. Ali o erário público foi enterrado em 10 mil contos de réis: o Teatro Amazonas custou o preço de 5 mil casas luxuosas. O dólar a 3 mil réis. Por 900 contos de réis se constrói o Palácio da Justiça. E por 1 mil e seiscentos contos de réis se constrói o Palácio do Governo; nunca concluído. O Teatro custou 10 mil vidas. Sim: Em 1919 no Amazonas já tinham chegado 150 mil emigrantes. A borracha naqueles anos foi tão importante quanto o café. O Amazonas exportou 200 mil contos de réis em borracha, contra 300 mil contos do café paulista na mesma época. Em 1908 é fundada a mais antiga universidade do Brasil, em Manaus, com cursos de Direito (o único que sobreviveu), Engenharia, Obstetrícia, Odontologia, Farmácia, Agronomia, Ciências e Letras. Nessa época 12 milhões de francos franceses sumiram, roubados no Governo de Constantino Nery. Encampa-se, fraudulenta e inutilmente, a Manaos Improvements, por 10.500 contos de réis - o preço do Teatro Amazonas. A história do Amazonas é um acúmulo de loucuras corruptas.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

NUMAS: ONDE HÁ RESISTÊNCIA, HÁ PODER?

NUMAS: ONDE HÁ RESISTÊNCIA, HÁ PODER? 

Francisca de Lourdes Souza Louro (UEA) 

Resumo: O amante das Amazonas(2005),de Rogel Samuel, é um romance composto de vinte e três capítulos deforma bastante incomum, todos enumerados em modelo cardinal, porém, destaca-se na leitura de todo o textoque este autor, prima também pelo inusitado e o diferente. Escolheu-se o capítulo de número “Três – NUMAS” – por nos surpreendercom a beleza ímpar e com a forma particular de inventar a narrativa. Samuel articulaa obra com especial característica de linguagem barroca nos primeiroscapítulos e, na representação idílica da natureza, o arcadismo está visceralmente presente na paisagem por ele desenhada, para dar contorno de realidade.  Escolheu-se, para analisar o processo poético desta leitura a Hermenêutica Filosófica de Paul Ricoeur, por responder à necessidade, sentida, pelo advento da reflexão sobre a comunicação, história e a ação, de redefinir as condições do pensamento da alteridade.

Palavras-chave: Narrativa; Numa; Paraíso; Seringal; Amazônia.


INTRODUÇÃO


A verdade é que livros determinados emprestam
certas características a leitores
determinados (MANGUEL, p.30).


Sem narrativa não há acesso ao tempo, tal é o pressuposto de como encontrei coragem de ler e analisar o texto de Rogel Samuel, mesmo sabendo que ele poderá ser meu algoz se não estiver bem feito. Sim, ele já foi meu professor em algum tempo do passado, isso me dáa certeza de que ele me ensinou muitas coisas, inclusive, ler e saber o limite da interpretação que as palavras sugerem. O coração está transtornado de alegria e, para falar a verdade, sei o peso que o texto tem, e, por isso, ouso desafiar o autor a me perdoar caso vacile no desacerto do contexto. 
E, inicio com os questionamentos do narrador, ou são nossos? Como podem as palavras impactar o mundo do leitor? Ou é a Filosofia com arte que faz esse esforço dentro da linguagem de advogar e tomar posição importante e consequente? A carreira do texto subtrai-se ao horizonte finito vivido pelo seu autor. Hoje, porém, o que o texto significa interessa agora mais do que o autor quis dizer quando o escreveu. Literatura é um mundo de palavras, melhor, usarei o narrador que assevera “a poesia apronta um mundo, a prosa outro” (SAMUEL,2005, p.32), é este “outro mundo”,humano,criado na prosa, que os Numas vão ressurgir para antagonizar o outro invasor, Pierre Batallion. Sim, invasores, os Numas também chegaram de longe e se impuseram na severidade de ações dominantes de arte e terror para a sobrevivência.“Dez anos depois, voltando os Numas das montanhas peruana, o quadro mudou molecularmente” (SAMUEL, 2005,p. 25). O narrador (Ribamar de Sousa) é um adolescente viajante que saiu de Pernambuco até o Amazonas buscando refúgio e trabalho. A viagem é um diário de bordo, vai mapeando os horizontes encontrados, nominando os lugares e as pessoas. “Confesso (que todo este livro é a confissão de minha vida) uma família fodida e quebrada, assim que depois vi, me deixava sozinho, comigo, no horror de Deus” (SAMUEL,2005, p.14).
Embora o romance tenha destruído o mito e a epopeia, mas, fala-se nos nossos dias do retorno do romance ao mito. Esse retorno, cuja importância é capital para a nossa civilização, não entra no âmbito da nossa investigação, nem o antigo “Romantismo” alencariano, mas trago Francisco Gomes de Amorim, com a obra Os selvagens (1875)que, “quase”, na mesma perspectiva, trouxe, também, a questão da identidade dos índios na Amazônia. “É necessário re-descobrir a influência dos relatos na configuração de identidades e por meio deles o conjunto de laços e raízes que condicionam a possibilidade da humanidade racionalidade” (PORTOCARRERO, 2005, p.59).

... os tapajós traziam presentes na memória os motivosda sua expatriação, e a necessidade obrigou-os a aproveitar a lição recebida dos conquistadores do Peru. Expulsos, roubados e tratados cruelmente, expulsaram, roubaram e aniquilaram por sua vez os habitantes das regiões em que iam penetrando...Senhores da duas margens do rio, que deles tomou então o nome de Tapajós que tomaram emprestado o nome do rio que fugiram do atroz colonizador.Das duas raças tapajós e tupis, misturadas desse modo, pretende descender a maior parte dos índios, que atualmente habitam a vasta região compreendida entre o Madeira, o Juruena e o Tapajós; porém, os mundurucus deste último rio julgam ter mais do que ninguém indisputável direito a tão ilustre origem(AMORIM, 2004, p. 21-22).


Este aspecto teórico da literatura vai mais diretamente se inspirar na sociologia e na geografia do texto que vê estas particularidades do romance, e esse processo de mutação não dá uma forma conclusa como os outros gêneros literários. Para Ricoeur (1995),a “Orientação no mundodescreve que o laborioso nascimento do existente humano está nos limites dos saberes positivo”.Ainda, segundo Ricoeur,

A noção de trazer a experiência é a condição ontológica da referência, uma condição refletida dentro da linguagem como um postulado que não tem justificação imanente; o postulado segundo o qual pressupomos a existência de coisas singulares que identificamos (RICOEUR, 1976, p. 32).


“Onde há poder, ele se exerce? Para mim elas estavam uma na outra, se abraçando dentro d’água por baixo o que era tão fácil as mãozinhas tal como eu enxergava na minha perspectiva sexualizada. Reais, humanamente reais, lá, do outro lado - as primeiras fêmeas Numas que apareceram em todo o mundo, belas como o sol sobre a risca da Terra.E eu sufoquei de emoção. E fui largando o anzol. E fui empurrado, abaixado chulo sobre a terra, e protegido pelo capão de mato. Era o êxtase! (SAMUEL, 2005, p.32).
No textoTeoria e política da ironia de Linda Hutcheon (2000,p.16), encontrei que [...] “a ironia possui uma aresta avaliadora e consegue provocar respostas emocionais dos que a “pegam””, nosso problema não é pegar e tratar da ironia, no texto, mas perceber que poderia o narrador induzir o leitor a esse viés, e vemos, nesta cena do capitulo Três, uma força com enorme significado verbal e estrutural no desenvolvimento da civilização deste espaço amazônico.
Sem exagero, pode-se dizer que nesta obra a paisagem apresentada é discutível, pelos olhos do narrador, um de fora, um invasor do espaço reservado aos Numas, índios “arredios, móveis, vigilantes, foragidos dos Andes, empurrados por perigoso inverno, permaneceram perdidos e livres, animais persistentes, se impuseram como resistência. Não e não. Reagiram ao pacto, ao toque, ao contato”(SAMUEL,2005,p.25). 
“Onde há resistência, há poder?”(SAMUEL,2005, p.25). Sim, havia o poder de muitos e, entre estes,“Pierre Bataillon que chegou em 1876, estabeleceu seu domínio sobre as terras dos apacificados Caxinauás. Aquela era uma das inúmeras aldeias Caxinauás da Amazônia. Pierre impôs a paz, a ordem. Destruiu a cultura Caxinauá pelo progresso, novo deus que era, e a quem se submeteram sem reclamos, quase alegres” (SAMUEL,2005, p.25), bem antes de os Numas, pois, “somente dez anos depois que esses voltando das montanhas peruanas, o quadro mudou molecularmente”(p.25). Então, neste capítulo da obra de Samuel, a abordagem gira em torno dessas duas naturezas, Numas vistos como terríveis e dominadores, e os Caxinauás que foram destruídos em sua cultura ao “submeteram-se sem reclamos, quase alegres” à cultura do invasor.  Duas tribos indígenas, os Numas, estão representados pelas duas crianças tomando banho no rio:

São duas minúsculas meninas, nuas, no outro lado do rio, entre as árvores. Na outra margem do Igarapé do Inferno estão, vejo-as, entre as colunas das árvores, Vêm da curva descendente que sai do verde-escuro para o verde-cré até a fímbria da saia do aço da fria lâmina do rio. Como nessa matéria nada é absoluto, comece afirmando que as imagens dos seus lábios são, elas mesmas, somente belas. Pois o que faz a beleza é a beleza de sua aparição, naquele momento, da realização, lá, no inesperado, e surpresa. Quê! E elas vieram de lá. Estão na minha frente. São duas meninas. Duas índias Numas, inconfundivelmente Numas. Desafio. Indução. Paixão e banho clássico. Estão lá, em movimento lento. Silenciosíssimas. Que uma é menina. Outra, adolescente. Perfumam o ar em que se movem. Balanço. As pernas longas. Descendo esguias, virgens, na arqueologia da margem, o delicado encanto, e cuidado. Sim, e sim. Agora – e que sorriso se desenha nos seus olhos...  (SAMUEL, 2005, p.22).


O discurso refere-se ao seu locutor ao mesmo tempo em que se refere ao mundo. Esta correlação não é fortuita, porque é sempre o locutor que ao falar, se refere ao mundo que o cerca. É o discurso da ação - As meninas sendo observadas de longe, do esconderijo pelo viés da curiosidade e surpresa do narrador exteriorizando o intencional. A escrita toma o lugar da fala, é como se tomasse uma espécie de atalho entre a significação do discurso e o meio material, é a literatura no sentido original da palavra, o destino do discurso é confiado à littera, não a vox.  Este narrador é um personagem rico de contradições, rebelde e extrovertido, cínico e, ao mesmo tempo, delicado e sentimental, quando reverberana visão idílica sobre as meninas e a natureza. 
São duas meninas. Duas índias Numas, inconfundivelmente Numas. O uso das repetidas palavras “duas” e “Numas”, corre o risco de o narrador dar valor de significação exagerada a ambas as palavras, uma hemorragia de sentidos para representar a historiografia dos Numas. Sem contar a musicalidade da linguagem, os jogos aliterativos constituídos para oferecer sugestão ao universo profundo que geram sentidos ao leitor. Ora, isto exige que se encare de modo sério, “a linguagem como verdadeiro fio condutor de um tipo de pensar explorando dimensão semântica de toda Hermenêutica que procura caminhar entre a epistemologia e a ontologia” (SILVA, 1992, p.20).
Pois o que faz a beleza é a beleza de sua aparição, naquele momento, da realização, lá, no inesperado, e surpresa. Digo que é sempre bom captar uma forma em seu verdadeiro ponto de realização, melhor dizendo, um que nos confira uma orientação.  E eis que surge: a beleza é a beleza, mas, o que é a beleza? Se pensarmos em Estética, a beleza corresponde ao sentido e a sua forma. Exatamente como o narrador determina ao usar o verbo “fazer e o verbo ser”. Fui buscar o sempre Hênio Tavares, com sua Teoria Literária que assevera:

Na beleza residem dois elementos: o objetivo, que se fundamenta na coisa, e o subjetivo, ligado diretamente ao sujeito. Na coisa, objeto da elaboração artística, não há malícia, maldade, moralidade ou imoralidade, quando realmente ela reponta como genuína obra de arte. È no sujeito que tais sentimentos se agasalham (TAVARES, 1996, p. 11). 


Mas, o mesmo Hênio Tavares explica ainda pelo olhar do poeta Olavo Bilac, no texto A beleza e a graça, ao trazer Platão que assegura ser a beleza o esplendor da Verdade... e saiu do geral e foi ao absoluto e cuidou de chegar à beleza humana, mais restritamente“a beleza feminina, que é, e sempre foi, e sempre há de ser a inspiração, a tentação, a perdição, a salvação, o bem, o mal, a virtude, o vício, o encanto e o desespero dos homens. A beleza feminina existe e tem uma influência soberana” (TAVARES,1996, p.14).“Na obra literária está a verdade da ideologia: Elanos remete às fontes criadoras do conotado no texto e reconduz as elaborações linguísticas, psicológicas e sociais às suas fontes, isto é, à poesia como verdade do homem. A linguagem é a relação de possibilidade de estados de coisas”(SAMUEL, 1981, p.68).

Os Numas se submetiam a si mesmos, refugiavam-se em si... Eles não eram aparência, mas imanência, e quem viajou pela Amazônia sabe do que estou falando, na ambiguidade onde tudo é incerteza e não-saber herméticos, multiplicados e fortes... Seres frios, enevoados por lendas vindas das montanhas, deuses que descessem para nos justiçar das noturnas culpas. Pois era como se fossem olhos fixos em toda a parte, de tal modo a gente se sentia vigiado por aquelas estranhas criaturas. Ás vezes, deixavam entrever-se (SAMUEL, 2005,p.26-27).


Aqui, pode-se explorar a questão da ambiguidade que a frase comporta: “Eles não eram aparência, mas imanência”. A questão dos Numas, nesta obra, é a não aparência por não terem existência. Essa gente sem aparência é pelo fato de nunca terem existido. Daí o narrador afirmar que é imanência, pelo caráter de novidadeque tem de si próprio neste processo de criação, que “deslancha como experiência rara, da exceção e vem de longa habitação de um território, de um domínio específico” (KASTRUP, 2007,p.61). Daí o narrador completar com a ideia de que: quem viajou pela Amazônia sabe do que estou falando, na ambiguidade onde tudo é incerteza e não-saber herméticos, multiplicados e fortes. 
Na medida em que o inventor realiza sua obra, ele abre mão de muitas coisas que inicialmente desejaria obter, ele renuncia a ser o piloto do processo de invenção. Aí entra o elemento de imprevisibilidade do processo. Na invenção, as coisas não vão por si. Há sentimento de dificuldade, incômodo, obstáculos. O processo de criação pode comportar um grande número de vaivéns, tal qual foi dito pelo próprio autor, foram dez anos de construção, de desmanchar e construir até ver a obra concretizada. A busca é ativa e muitas vezes, dura, envolvendo tensão e demandando esforço. Por outro lado, a criação não é apenas esforço, porque ela inclui o encontro. O encontro é o refluxo da busca, pois nele somos receptivos, “escritor/leitor”. Nesse encontro tem sempre uma margem de inesperado, um elemento de imprevisibilidade e de surpresa (KASTRUP,2007, p.66).Pois era como se fossem olhos fixos em toda a parte, de tal modo a gente se sentia vigiado por aquelas estranhas criaturas.  Com esse exemplo percebe-se a performativa que o autor dá ao texto. Puro desafio de adaptação intercultural para interagir o significado social existentes nas narrativas expressas pelos povos ribeirinhos da Amazônia.

Nas transferências do modo de contar para “performatizar” a narrativa, as diferenças de filosofia, religião, cultural nacional, gênero ou raça podem criar lacunas que necessitam ser preenchidas por considerações dramatúrgicas que podem ser preenchidas por considerações dramatúrgicas que podem ser tanto cinéticas e físicas quanto linguísticas (HUTCHEON, 2013, p.201).


“Às vezes”, deixavam entrever-se. Eles estão lá, sem estar. Ágil nomadia perigosa. São homens nus, de enormes falos escuros... ou só vento, integrados nas folhas das árvores...belos, os olhos amendoados e escuros, grossos sexos expostos, corpos de criança graúda. De certa forma, delicados. Mas puros fantasmas.
O advérbio é a expressãomodificadora que por si só denota uma circunstância (aqui de possibilidade? Ou circunstancial?) está bem colocado, exatamente nas duas Numas que sedeixaram ver por Ribamar que tivesse a feliz ideia de como era essa civilização. E o narrador abriga esforços no interesse de fazer o leitor acreditar na existência do inexistente Numa. O esforço é sabedoria do tipo platônico, está temperada, sem dúvida, por uma sabedoria de tipo mundano, cética de dogmatismos, ciente do prazer, melancolicamente ligada às ideias utópicas, mas que deixa o leitor em prazer de saber, visualizar a esfinge edipiana. O temperamento, o estilo do narrador/autor intelectual performático, ludibria o leitor com temperança, sensibilidade e graça, e a agudeza é própria do amazônida com talento extraído da energia da selva, onde encontrou consolo nos vários verdes, do matiz ao cré, uma aquarela de saberes, onde avalia o mundo obtendo prazer e amor.
Eu deveria estar preparada para esta cena, o fascínio me envolve e assimilo o êxtase do narrador em verbalizar as lembranças do passado, das primeiras horas da descoberta sexual. Neste fragmento de texto, acomodei-me na arquibancada para assistir ao espetáculo. Julguei que estivesse em Roma para assistir Ovídio. n’Ars Amatoria. “Seria tudo isso, é certo: assim o haviam cantado, pelo menos, os poetas, muitos deles do seu tempo, como Propércio, Tibulo, até mesmo, Virgílio, e outros antes dele, como Catulo” (ASCENSO, p.9). Muitos cantaram o amor, o sexo, as armas, a fúria em Aquiles, e, em Samuel, a bolinação amorosa de duas índias dentro d’água assistida por um adolescente que transmite essa informação como verossímil e funciona como um índex de ideologia, valores e convenções através do qual ordenamos a experiência e predicamos a atividade. Essa história viaja e chama atenção pelo diferente processo de transformação que tem o texto sobre as naturezas humanas, um princípio de moral contra o obscurantismo de conceitos como liberdade, igualdade e amor universal que enche de fascínio o leitor.

 O rio está cheio de óleos negros. Melpomene num plinto de coluna de terraço. Naquele movimento de mínima precipitação, qualquer erro é fulminante. Ato terminal. Calor, prazer. O morno rio ressurge, como látex do sangue aquecido. Curvas. Finas. Escreção brusca, violenta, do humor que escorre. Espuma de sangue. A vista cerrada não as consigo ver. Nuvens brancas, primeiro no corpo todo. Nas partes sólidas, estreitas. Elas não me veem. Não me sabem. Só desaparecem. Uma na outra. Se acariciam. Se tocam. Se introduzem no ar (SAMUEL, 2005,p. 22-23). 


Ribamar de Sousa foi o amante das duas Amazonas, ele semantémescondido entre as árvores, assiste agoniado ao banho das duas Numas. A vista cerrada não as consigo ver. Nuvens brancas, primeiro no corpo todo. Nas partes sólidas, estreitas. Elas não me veem. Não me sabem. Este estudo caberia no argumento da ironia por ser um processo comunicativo. Porém, a cena é de cinema, e recorro à ekfrases da narrativa por reservar à literatura uma profunda reflexão, que se deve a uma tentativa constante de introspecção, de saber, de descobrir a força emocional, ainda potente liberada por essas memórias que tornamas arestas da vida tentadora tanto para interpretadores. Existem, neste fragmento, as circunstâncias que cercam o banho das duas Numas, a interpretadora deixa que a imaginação de sexualidade seja possível e plausível. “Uma na outra. Se acariciam. Se tocam. Se introduzem no ar”. 
Outra beleza é perceber o sagaz autor mostrar essa vinheta; Naquele movimento de mínima precipitação, qualquer erro é fulminante. Ato terminal. Calor, prazer. O morno rio ressurge, como látex do sangue aquecido. Esta liberdade formal propicia, com extrema facilidade, diversas modulações, no que respeita às interferências da lírica e narrativa, bem como aos diversos graus de presença de cada um desse modo literário. 
Assim sendo, liberta do constrangimento das palavras resta dizer que elas não são hostis, muito pelo contrário, é neste capitulo que está a simbiose do romance, é onde se reconhece o grande esforço do autor de dar veracidade aos Numas, que nunca existiram, mas que este pequeno quadro pintado com as tintas da sexualidade faz o leitor sonhar com poesia, quando se vê a natureza humana se revela divertidamente impregnando o mundo de tempestade de desejos. A obra inteira oscila em sons arrastados de disparos de sêmen, de terçados, de tiros, de rasteiro das histórias que de fato ocorreram, em algum dia na Amazônia.
O rio está cheio de óleos negros. Melpomene num plinto de coluna de terraço.Esta frase confirma a sexualidade e erotismo na literatura de Samuel. A musa Melpomene de pé em seu pedestal, (plinto)não está por acaso na narrativa, é filha de Oceano e Tétis, recebeu a função de cantar a tragédia, apesar de sua alegria. Assim, esta narrativa canta a tragédia da época da extração do Látex, quando muitos nordestinos tiveram fome e desejo de enriquecimento e perecerão nas águas do grande rio, e perderam a vida na malária, ou na floresta.  
Samuel manifesta uma preocupada atenção às circunstâncias, situando-se num plano de criação totalmente contrário ao que outros autores fizeram, condenando à Amazônia ao infernismo. Mesmo assim, confere à obra deste escritor, uma grande capacidade de imersão na “vida”, no tempo histórico e nas suas desencantadas circunstâncias em que está estruturada a narrativa. Por isso, se pode dizer “se quisermos a cicatriz pungente de um tempo que é o nosso eda cidade e perfídias que nos matam, é  a Literatura em nosso escritores, os desta safra, que fazem relatos fotográficos de um tempo que onera o passado, mas engrandece a existência de todos que escreveram e teremos de recorrer para conhecer. Não como um bálsamo ou enquanto filosofia de salão, antes como uma ferida que sentimos próxima. “Mas a vida é um caminho que de repente se bifurca... E certo também que voltavam gigantescos e ferozes, movendo-se sempre nas igualmente imaginárias áreas do Rio Pique Yaco, do Rio Toro, e do além mais.Mas nunca apareciam...” (SAMUEL,2005, p.31).
Essa verdade de caminhos bifurcados é de longa data uma verdade absoluta, mas serve para o narrador reafirmar sua desorientação, lamentar de tempos em tempos, pode ser aflição por não ter compreendido os fatos ou o modo correto de agir. A sabedoria dos romances contemporâneos tem mais probabilidade de ser retrospectivo, este entra no estilo de romance “Histórico” como Marinho (1999) entende: “Na impossibilidade de repetir a História, tal como os historiadores a concebem, os romancistas arrogam-se no direito de narrar prioritariamente na convicção de que o leitor interessam sobretudo os pequenos incidentes da vida familiar”pela tonalidade íntima com o passado redesenhado. Adorno assevera que “a arte não deve reduzir-se à polaridade indiscutível do mimético e do construtivo como uma fórmula invariante de construção, não de correção ou certeza objetivante da expressão, deve acomodar-se sem planificação aos impulsos do mimético, aí está a superioridade sobre a construção”(ADORNO, 1970,p.58). 
Após essa breve análise do romance de Rogel Samuel, faz-se necessário comentar sobre esse poeta, escritor, webjornalista, doutor em Letras, professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro.Sócio Correspondente da Academia Amazonense de Letras.
Publicou as seguintes obras:
Crítica da Escrita. Edição do autor,1981.
Manual de Teoria Literária. 14. ed. - Petrópolis: Vozes. 
Literatura Básica. 3 vol.  Petrópolis: Vozes, 1985.
O que é Teolit? São Paulo: Marco Zero, 1986.
120 Poemas. 1991 (Além de centenas de artigos em revistas, jornais, vários romances publicados on-line).
 Novo manual de teoria literária. 6. ed. - Petrópolis: Vozes, 2011. 
 O amante das amazonas. 2. ed. - Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2005.
 Fios de luz, aromas vivos. Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2012.
 Teatro Amazonas. Manaus: Edua, 2012.
  Modernas teorias literárias. Teresina: Editora Nova Aliança, 2014. 

Rogel Samuel tem seu nome registrado em verbete de Enciclopédia, como na Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (Editora MEC); seus poemas já foram incluídos na antologia de Anísio Mello, Lira Amazônica, publicada em São Paulo, em 1965. O Estado do Pará, na pessoa de Carlos Rocque, um diligente divulgador da literatura da grande região amazônica, também o destacou entre os principais poetas do Amazonas, em 1968, na Grande Enciclopédia da Amazônia (publicada em Belém, capital do Estado do Pará). Assis Brasil o incluiu na antologia A poesia amazonenseno século XX (publicada pela editora Imago do Rio de Janeiro em 1998). 
O romance O amante das Amazonas publicado, em 2005,foi objeto de dissertação de mestrado da professora paraense Lucilene Gomes de Lima. Em seguida,foi analisado por Neuza Machado, nos livrosO fogo da labareda da serpente sobre O amante das Amazonas, de Rogel Samuel  e Esplendor e decadência do império amazônico: o olhar interativo do narrador da pós-modernidade .Disponíveis apenas na internet. Assim sendo, a professora e críticaNeuza Machado é maior intérprete e divulgadora da obra de Rogel Samuel.Além das análises realizadas citadas anteriormente, o romance O amante das Amazonas é objeto de duas pesquisas na Universidade do Estado do Amazonas e de uma de tese doutorado em andamento na Universidade de Brasília.


BREVES CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considero este romance uma autobiografia da Amazônia, bem documentada e arranjada nos cenários de tristes casos.
O amante das Amazonas é uma obra relativamente curta, com 164 páginas de puro prazer, igualmente refinado e furtivo, assombrado. O cerne moral da obra é refigurar a época da borracha, porém, Rogel não se afogou na obediência de transformar o texto em uma tragédia do espaço, e sim revigora com prodígio uma época fracassada pelos ambiciosos especuladores da goma elástica, como ele diz: como o caráter de muitos que aqui estiveram. Traz um bocado de vidas afogadas no processo de extração, a histórica riqueza de um tempo, a construção do Palácio de Ernest Scholtz, os mortos na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em 1908, em 1908 a fundação da mais antiga universidade do Brasil, em Manaus. A construção do Teatro Amazonas, em 1896 – a mais cara e inútil obra faraônica da História do Brasil, milionária e importada. E a presença feminina na figura de Maria Caxinauá, foi acolhida como ama e depois subiu de posto, passou a ser a amante da cria. E, sempre a referência do Igarapé do Inferno que representa a braveza dos Numas. Enfim, A história do Amazonas é um acúmulo de loucuras e corruptas aventuras.


REFERÊNCIAS

AMORIM, Francisco Gomes de.  Os selvagens. 2 ed. Revista Manaus:  Editora Valer/ Governo do estado do Amazonas, 2004.
 CARLOS, Ascenso André. Ars Amatoria. Lisboa: Livros Cotovia, 2006.
DERRIDA, Jacques. Pensar a desconstrução. Trad. Evandro Nascimento. [Org.]. Trad, Evandro Nascimento...[et al.]. – São Paulo: Estação Liberdade, 2005, 352p.
GRIMAL, Pierre. Dicionário da mitologia grega e romana. Coord. Victor Jabouille. DIFEL Difusão Cultural, S.A. Lisboa-Portugal, 2009. 
HUTCHEON, Linda. Teoria Política da Ironia. Tradução de Julio Jeha – Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000.
HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Trad. André Cechinel.2 ed. – Florianópolis : ed. da UFSC, 2013.
KASTRUP, Virgínia, 2007. 
LECERT, Eric; BORBA, Siomara; KOHAN, Walter.[Orgs.]. Imagens da imanência: escritos em memória de H. Bergson. Belo Horizonte: Autêntica, 2007, p. 61.
MARINHO, Maria de Fátima. O romance histórico em Portugal.Coimbra: Campo das Letras Editores, 1999.
PORTOCARRERO, Maria Luísa. Horizontes da Hermenêutica em Paul Ricoeur. Coimbra: Ariadne editora, 2005. 
RICOEUR, Paul. Teoria da Interpretação: O discurso e o excesso de significação. Lisboa: Edições 70. 
RICOEUR, Paul. Em torno ao Político. Trad. Marcelo Perine Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 1995.
SAMUEL, Rogel. Crítica da escrita. Rio de Janeiro: Gráfica Olímpica Editora LTDA, 1980.
SAMUEL, Rogel. O amante das Amazonas. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2005. 
SILVA, Maria Luísa Portocarrero Ferreira da. A Hermenêutica do conflito em Paul Ricoeur. Coimbra: Edição: Livraria Minerva, 1992.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

O INFERNO DE DANTE, CANTO UM

O INFERNO DE DANTE, CANTO UM

O INFERNO DE DANTE, CANTO UM

ROGEL SAMUEL


Leiamos o início da «Comédia»:

A meio do caminho desta vida
achei-me a errar por uma selva escura,
longe da boa via, então perdida.
Ah! Mostrar qual a vi é empresa dura,
essa selva selvagem, densa e forte,
que ao relembrá-la a mente se tortura!
Ela era amarga, quase como a morte!
Para falar do bem que ali achei,
de outras coisas direi, de vária sorte,
que se passaram. Como entrei, não sei;
era cheio de sono àquele instante
em que da estrada real me desviei.

Assim começa o Poema. A tradução é a mais bela tradução, a de Cristiano Martins (Belo Horizonte, Villa Rica, 1991).
O meio da vida, 35 anos, dizem (valho-me das notas do tradutor). A selva seriam os vícios, os erros. O «bem», achado ali, seria Virgílio e o Paraíso. A Floresta apavora, era a Morte. Mas o poema promete contar a viagem, a grande viagem, na selva da vida, do Inferno.
Que significa o sono?
Talvez a desatenção, o descuido, o entregar-se aos prazeres dos sentidos, desatento, esquecido.
Mas tem um componente político importante: a desatenção política, o erro político, que a vida de Dante sempre nos revela. A política é a selva selvagem. E escura.

Chegando ao pé de uma colina, adiante,
lá onde a triste landa era acabada,
que me enchera de horror o peito arfante,
olhei para o alto e vi iluminada
a sua encosta aos raios do planeta
que a todos mostra o rumo em cada estrada.

Mas o Poeta prossegue. Consegue ver alguma coisa aos primeiros raios do sol. A landa é um descampado. Palavra rara. Ele vê a encosta iluminada pelos raios do sol. E seu medo, pela luz, diminui. Mas pouco. E ele olha para trás, como um náufrago olha, vê a escuridão. E repousa. Volta a andar. Tateando. Passo a passo:

Um pouco a onda do medo foi quieta
que de meu peito no imo se agitara
durante a noite de aflição secreta.
E como aquele a quem já o sopro para,
saindo da água à praia apetecida,
volta-se, fita o pélago, e repara
- assim, a alma em torpor, naquela lida,
voltei-me a remirar, atrás, o passo
de que jamais saiu alguém com vida.
Depois de repousar por breve espaço,
fui trilhando a ladeira, ampla e deserta,
bem devagar, tateando a cada passo.

Mas o que era, até ali, bom e calmo, se dissolve: na visão do animal selvagem, terrível - a pantera, que significa a luxúria, ou a cidade de Florença.

Quase ao começo da subida aberta,
eis vi uma pantera, ágil, fremente,
de pele marchetada recoberta.
Do rosto sempre se me punha à frente,
a tal ponto o caminho me impedindo,
que eu tinha que recuar constantemente.

Era no amanhecer.
E depois também aparece um leão, simbolizando a soberba, a violência:

Era o instante em que a aurora ia surgindo,
e o sol subia, ao lado das estrelas
que o seguem desde que o poder infindo
tirou do nada tantas coisas belas;
do animal a vivaz coloração
fez-me pensar, ansioso por revê-las,
na alta manhã, na plácida estação;
mas não sem que eu tornasse ao desalento
ante a súbita vista de um leão.
Parecia, raivoso, a juba ao vento,
vir contra mim, de jeito tão nefando,
que até o ar se crispava, num lamento.

E mais. Mais. Aparece a loba, que representa a Avareza. Ou a Inveja. Principalmente a Inveja Avarenta.

Seguiu-se magra loba, demonstrando
à pele os ossos, e que à ira incontida
a muita gente andou exterminando.
Veio-me um senso tal de despedida
ante a aparência rábida da fera,
que perdi a esperança da subida.
Como quem a acrescer seus bens se esmera,
mas se lhe chega o tempo da ruína
só pensa nisso, e chora, e desespera
- assim eu me sentia ante a assassina,
que, vindo contra mim, me foi forçando
de volta aonde ó sol nunca ilumina.

«Rábido», raivoso, irado, o animal o obriga a recuar para as regiões sombrias, talvez da noite, talvez a Morte. O impedimento.

Enquanto eu tropeçava, e ia tombando,
algo enxerguei que se movia perto,
a um tufo silencioso semelhando.
Ao ver aquele vulto no deserto,
"Piedade!", eu lhe gritei, "ouve os meus ais,
sejas tu uma sombra ou homem certo!"

Só então aparece Virgílio. «Na verdade, és meu mestre e meu autor», diz o Poeta, diz para o seu Modelo Poético, seu Mestre Virgílio. Dante é salvo pelos seus pecados, pela poesia, pela literatura, pois Virgílio lhe diz: «"Convém fazeres uma nova viagem», uma nova Poesia. Pois a Inveja é sua Ruína, que diz Virgílio:

A fera hedionda, que te pôs clamando,
não franqueia a ninguém a sua estrada,
e a quem encontra nela vai matando.
De natureza crua e depravada,
alimento nenhum pode saciá-la;
quanto mais come é mais esfomeada.

E o Poeta Virgílio se oferece como Guia Literário, pois Dante, para sair daquela posição, vai atravessar o Inferno. Para sair de um infortúnio, temos de mergulhar fundo na dor, no seu agravamento.

...................te guiarei quanto antes
pelos fundos desvãos do sítio eterno,
onde ouvirás os gritos lancinantes,
e verás os espíritos dolentes
que nova morte choram, pior que a dantes.

Depois o Purgatório:

Verás também aqueles que contentes
no fogo estão, porque inda esperam ir
juntar-se um dia às venturosas gentes.

E outro Guia, a amada Beatriz, conduzirá Dante pelo Paraíso. Virgílio, romano e pagão, não poderia entrar ali. Beatriz é a Musa perfeita, o tema modelar da poesia lírica. O amor é o Paraíso. Beatriz é «alma melhor que a minha». Eu disse: "Poeta, rogo-te, afinal, ... me conduzas...»

Moveu-se, então, e o acompanhei de perto.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

A GARÇA

A GARÇA














A GARÇA

Rogel Samuel

O sol na linha do horizonte é uma bola de fogo.Do outro lado está a Ilha do Fundão. E a lua. Estou indo para o aeroporto. O mar estende seu manto por toda parte. Uma leve aragem vem vindo devagar. Mas o calor se anuncia. Pássaros pelo ar sujo. Quando jovens, nadávamos naquela praia, hoje vala negra. No caminho do Galeão havia uma praia que desapareceu. Diziam que ali estavam as perigosas viúvas negras. Mortais. Meu amigo pescava ali. Fomos, pelo meio do capim, até uma outra ilha, hoje desaparecida. Na Freguesia havia um cinema de espelhos. Era o mais belo cinema do Rio. Havia espelhos de cristal até no teto. Os astros. À noite:

A gentileza da lua
no espelho das águas
brilha, nua.

Quando eu cheguei ao Rio, vindo do Norte, passei por ali. Trazia esperanças no bolso, a juventude dos dezoito anos. Tinha uma carta para o Diretor Comercial da TV Rio, escrita por sua irmã e minha amiga Alice Senna. Logo ganhei um emprego na Redação da TV, onde trabalhavam vários rapazes desconhecidos, hoje famosos. Mas não fiquei muito tempo no emprego, porque o trabalho era de noite e eu tinha aula na Faculdade pela manhã. A TV ficava no Posto Seis, defronte do mais belo mar. Foi lá que vi Juscelino pela primeira vez. Alguns anos depois ele falou na nossa FNFi. Entrou sob vaia. Demorou para conseguir iniciar. Sua fala durou uma hora. Depois respondeu às perguntas, todas contra. Não perdia o sorriso, a gentileza. Foi o homem mais educado que conheci. Saiu dando autógrafo.
Naquele mesmo salão devia falar Lacerda, como paraninfo da ala da Direita que se formava. Nós o impedimos de entrar. Fechamos as portas. Lá de cima, gritávamos: "assassino!" Lacerda, impaciente, do outro lado da rua, mandou que a PM arrombasse a porta. Nós chamamos o Exército! De Jango. Foi terrível: de um lado o Exército, armado. Do outro a PM, chefiado pelo Governador Lacerda. Penso que o Golpe de 64 nasceu ali, no meio da rua, em frente ao prédio da Faculdade Nacional de Filosofia, hoje Casa de Itália. Depois, os dois comandantes se encontraram e evitaram o pior. O Exército se retirava, e a PM também se retirava, mas sob grande vaia. Lacerda, inconformado, queria briga. Pouco tempo depois aquela mesma tropa invadiu o prédio, quebrou tudo, bateu e prendeu. Ainda bem que, naquele dia, eu não estava ali. Mas perdemos a máquina datilográfica do centro de estudos, e os discos clássicos da discoteca. Até mulher grávida apanhou.
A política daquele tempo era assim. Assisti a Jânio Quadros em Manaus, na sua campanha à Presidência. Havia um palanque montado em frente à nossa casa, na Getúlio. Primeiro falou Plínio Coelho, hoje ainda vivo. Tinha a voz nasal e era um famoso orador. Depois Jânio. Os grande olhos abertos, a voz rouca. Alucinado, abria os braços com que dominava tudo. Como Hitler, batia frenético na plataforma: "O Brasil... já tem idade... de deixar de viver... da caridade internacional!" Era um delírio.
Impressionante foi ouvir o velhíssimo Sobral Pinto na abertura das "Diretas-Já!" Já estava curvado, já era muito frágil. "Silêncio!", ele disse. "Peço silêncio! Quero falar em nome do povo do Brasil!"
A branca e bela garça sobrevoa e baila, alcançando o escuro campo onde reina. Será mesmo uma garça? Ou será uma deusa tecida de estrelas? A massa de sua luz no céu subitamente se abre e desce, sobre a penumbra do Universo. E eu me esqueço. Me esqueço.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

O pó dura para sempre

O pó dura para sempre




Hoje é sábado. Frase que se tornou clássica por Vinícius. Amanhã talvez não chova, como hoje.


"E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.


"Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?


Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua".



Isso escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Ali se esconde um novelo místico, ou científico. O que dura é o pó. Ou: "Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris" (Genesis 3:19 ). O mundo reduzido a cinzas. "In sudore vultus tui vesceris pane donec revertaris in terram de qua sumptus es quia pulvis es et in pulverem reverteris".

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O índio Arimoque

O índio Arimoque















O índio Arimoque


Neuza Machado



O índio Arimoque - possivelmente, um passageiro personagem ficcional - é citado apenas uma vez na extensão geográfico-narrativa do Seringal Manixi, mas sua presença lendária realça-se imensuravelmente, alcançando o plano ilimitado das palavras não-ditas. A sua rápida aparição põe-se em evidência justamente porque, assim como um meteoro brilhantíssimo passando pela terra, a lembrança de seu halo monumental continua a iluminar o espaço narrado. Por que um índio lendário, poderoso, se tornou “prisioneiro” dos fúnebres limites do Seringal? Seria ele também um representante da tribo dos Caxinauás pacificados? Se existiu realmente, sua fama ficou reservada por via oral apenas para privilegiados amazonenses. Nas lendas indígenas, conhecidas textualmente, não há o nome deste índio, assinalado rapidamente no romance O Amante das Amazonas.


O índio Arimoque só aparece neste parágrafo. No entanto, posso afiançar que sua rápida menção possui importância capital no desenrolar narrativo. Diz o narrador: “Suas histórias fantásticas circulam até hoje pela região”. Com a permissão do relato, vou buscá-las por meio de uma aproximação histórica intuitiva, não autorizada cientificamente.


Examinando informações generalizadas sobre os diversos nomes de tribos da região amazônica mencionadas nesta obra ficcional do final do século XX - principalmente das que se assemelhassem à possibilidade de o nome do índio Arimoque ser um patronímico, denunciando assim a sua origem genética - e procurando semelhanças fonéticas entre as grafias encontradas, avistei alhures uma referência aos índios Aruaques (comedores de farinha), também conhecidos por Kali’na ou Caraíbas. Esses Aruaques (ou Aruakes ou Arahuaco em espanhol), mesmo fazendo parte dos grupos indígenas do Brasil, são oriundos de outras localidades tais como Flórida (atualmente, região comandada pelos Estados Unidos da América do Norte), Porto Rico, Cuba, Antilhas, Bahamas, na cadeia secundária da Cordilheira dos Andes, e outros tantos e inúmeros locais da América do Sul. Os Aruaques são lendários, por isto obriguei-me a sinalizar uma aproximação genética deles com o índio Arimoque, da narrativa ficcional aqui assinalada. Possivelmente, o narrador optou por espécie de corruptela semântica para nomeá-lo rapidamente, em um criativo simulacro lingüístico. Não é a ficção pós-modernista a arte de imaginar o real? E, por ventura, a crítica literária não deveria se posicionar de acordo com o objeto estudado?


O fogo da labareda da serpente - Sobre O AMANTE DAS AMAZONAS, de Rogel Samuel

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

CONHECES A REGIÃO DO LARANJAL FLORIDO?

CONHECES A REGIÃO DO LARANJAL FLORIDO?














CONHECES A REGIÃO DO LARANJAL FLORIDO?


Rogel Samuel

No início da "Canção de Mignon" de GOETHE misterioso verso: "Conheces a região do laranjal florido?" No original há um "lá", que se repete (Dahin, dahin), objetivando transcendência que a tradução excelente de João Ribeiro manteve. Um lá (Mignon) que talvez se refere a certo lugar na Itália, diz Eça de Queiroz, n'O mandarim. Um lieder de Schubert, de 1816. A terra privilegiada onde o laranjal floresce ouro (Citronen blühen). Um "lá... bem longe, além", que aponta para lugar, a princípio
paradisíaco, onde o sujeito do poema nos convida a ir, com ele, onde dourados pomos brilham na escuridão (Gold-Orangen glühen), e no céu azul a brisa, tudo em paz, nada move, nada passa, nem a vida, nem a glória (nem o louro)... Não a conheces tu? Quisera ir-me contigo...

Conheces a região do laranjal florido?
Ardem, na escura fronde, em brasa os pomos de ouro;
No céu azul perpassa a brisa num gemido...
A murta nem se move e nem palpita o louro...
Não a conheces tu?
Pois lá... bem longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu querido bem!

[Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühen?
Kennst du es wohl? — Dahin, dahin!
Möchtl ich... ziehn.]

A estrofe epígrafe de "A canção do exílio", de Gonçalves Dias, por isso a transcrevo. Não sei alemão. João Ribeiro, sábio e erudito filólogo carioca (1860-1934), também poeta. Hoje esquecido. Não mais editado. Em 1932 escreveu um ensaio sobre Goethe. Foi jornalista, catedrático do Pedro II. Soube dar e transpor o clima da "A canção de mignon".

A casa, sabes tu? em luzes brilha toda,
E a sala e o quarto. O teto em colunas descansa.
Olham, como a dizer-me, as estátuas em roda:
- Que fizeram de ti, ó mísera criança!
Não a conheces tu?
Pois lá... bem longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu senhor, meu bem!

Súbito, Goethe introduz, nessa região maravilhosa, fantástica, irreal - uma casa! Sólida casa, como deve ser a tradição familiar: "O teto em colunas descansa". Casa paterna, a sala e o quarto, o mais íntimo das forças arquitetônicas do espírito ("sabes tu?), que olham, falam, vêem a desgraça a que fomos reduzidos ("que fizeram de ti, ó mísera criança?") - não, não a conheço, não a reconheço, a casa de meus pais, no além, no bem longe, aonde o poeta me levou. Meus familiares estátuas tumulares...

Conheces a montanha ao longe enevoada?
A alimária procura entre névoas a estrada...
Lá, a caverna escura onde o dragão habita,
E a rocha donde a prumo a água se precipita...
Não a conheces tu?
Pois lá... bem longe, além,
Vamos, ó tu, meu pai e meu senhor, meu bem!

Goethe introduz palavra-chave, palavra grave, palavra-montanha, ponto de fuga, de onde a dor se despedaça: meu "pai". Não só pai, mas pai e "senhor", com os semas que a idéia de senhor nos traz, nos põe, dispõe,
na mesa da leitura, do poder, da Lei. Do nome, do não. Goethe e João Ribeiro têm algo em comum além das "afinidades eletivas": a idéia, a ideologia do pai. João Ribeiro não teve pai (faleceu cedo), foi criado
pelo avô, "culto e liberal" (diz Afrânio Coutinho). Goethe cultuou o pai, herói. Entre eles se estabelece laço cúmplice da volta ao Pai. Meu pai, cuja língua materna era o alemão, recitava Goethe de memória. Mas a
montanha está enevoada, envolvem-se os mistérios de grandeza... os animais procuram estrada... lá reside o perigo - o dragão! - na Caverna escura, indevassável, uterina, se verte a água, da vida, que a prumo se
precipita, nas veias do destino... Não a conheces tu? É lá, lá...

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O sol do verão


O sol do verão


Rogel Samuel


O sol, o verão. O brilho intenso, os ares claros, as nuvens raras. No Rio é tempo de mar.

         Lembro-me de crônica de Rubem Braga, sobre o começo do verão.

         Um dia - e não sei se já contei - estávamos na biblioteca da Faculdade que na época era a FNFi, ou Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Ficava onde hoje está a Academia de Letras.

         Era manhã cedo.

         Entra um bêbado.

Um homem em desalinho, mas bem vestido.

Grita:

         - Tem meus livros aí?

         Ivete, a diretora da biblioteca, manda chamar os funcionários para que ponham para fora o intruso.

         Mas não deixamos e ele se reuniu conosco.

         Era Rubem Braga.

         Tinha acabado de ser embaixador, ou coisa assim.

         Não disse quem era, mas nos contou sua vida (com detalhes indiscretos que não devo contar).

Escreveu um poema para minha amiga Maria Alice (que faleceu).

         Falou de literatura, poesia, vida. De Copacabana.

         Narrou suas mágoas.

Braga é um dos maiores escritores do país.

Seu texto, comparável a Clarice, a Machado, a Francisco Manuel de Melo.

Dom Francisco Manuel de Melo (1608-1666) é autor da CARTA DE GUIA DOS CASADOS, escrita na prisão, que fala 'do amor e da obediência'.

Diz Manuel de Melo: 'Não sou já mancebo. Criei-me em cortes; andei por esse mundo; atentava para as coisas; guardava-as na memória. Vi, li, ouvi."

O texto seco, sem adjetivos, direto e elegante. Como eu gosto.

' Estes serão os textos, estes os livros que citarei a V. Mercê, neste papel; onde, juntas algumas histórias que me forem lembrando, pode muito bem ser não sejam agora menos úteis que essa máquina de gregos e romanos, de que os que chamamos doutos, para cada coisa nos fazem prato, que às vezes nos enfastia'.

Mas meu assunto é o sol.

O sol do verão me alucina.

         E de Braga a D. Francisco Manuel de Melo passei.

Precisamos aprender a escrita com D. Francisco. E a bem casar.

Minha amiga X me critica. Diz que a minha linguagem é telegráfica.

Sim. É. Corto mais do que introduzo palavras.

Meu ideal é escrever uma crônica de uma única linha.

domingo, 30 de dezembro de 2018

AS ONDAS DO TEMPO DESTE FIM DE ANO















AS ONDAS DO TEMPO DESTE FIM DE ANO



Rogel Samuel




Que a última estrofe de «O cemitério marinho» de Paul Valéry assim canta:

«Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o
Teto tranqüilo, onde bicavam velas! »

Uso a extraordinária tradução de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia.
O poema enorme, difícil.
Desde que o li, pela primeira vez, há mais de quarenta anos, tento penetrar no mar de seu sentido. Às vezes, parece entender-se. Outras vezes, inatravessável é o seu mar. Mas sempre o sinto, o que importa. O que importa é sentir um poema. Não «interpretá-lo». Os intelectuais matam o poema, intelectualizam-no. Por isso Barthes foi tão bom crítico. Barthes fazia o texto falar, deixava-o falar-se.

«Esse teto tranqüilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
um longo olhar sobre a calma dos deuses! »

Seja como for, Valéry nos abre à imaginação o grande oceano da morte. Mas «recomeçando sempre». Sempre, «sobre a calma dos deuses».
Sei que não é algo para ser lido no Ano Novo, mas que tema mais religioso do que a morte neste túmulo do oceano de «tanto diamante de indistinta espuma », onde «quanta paz parece conceber-se!».

«Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria. »


O poema tem ímpetos de infinito, abre-se para a eternidade, «massa de calma e nítida reserva»:

«Água franzida, Olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
-Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, Teto!»

Valery disse que seu poema é sua «poesia verdadeira», mesmo as passagens mais abstratas. Disse que via ali uma espécie de «lirismo» , algo «abstrato mas de uma abstração motriz mais que filosófica».


Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.

Diz da vida, do amor, da ordem e desordem da vida e do amor, do mar e do sol, das colinas das ondas, da chave do mistério do «mar de nossa conversa», como dizia Cabral:


Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.

É uma reflexão sobre o tempo:


Belo céu, vero céu, vê como eu mudo!
Depois de tanto orgulho e tanta estranha
Ociosidade - cheia de poder -
Eu me abandono a esse brilhante espaço,
Por sobre as tumbas minha sombra passa
E a seu frágil mover-se me habitua.


É uma reflexão sobre os movimentos das ondas da vida:

A alma expondo-se às tochas do solstício,
Eu te afronto, magnífica justiça
Da luz, da luz armada sem piedade!
E te devolvo pura à tua origem:
Contempla-te!... Mas devolver a luz
Supõe de sombra outra metade morna.

O poema foi publicado no número de junho de «La Nouvelle Revue française», mas ele deve ter trababalhado no poema desde muito tempo.


Oh, para mim, somente a mim, em mim,
Junto ao peito, nas fontes do poema,
Entre o vazio e o puro acontecer,
De minha interna grandeza o eco espero,
Sombria, amarga e sonora cisterna
- Côncavo som, futuro, sempre, na alma.


Aqui vindo, o futuro é indolência.
Nítido inseto escarva a sequidão;
Tudo queimado está desfeito e no ar
Se perde em não sei que severa essência,
Faz-se a amargura doce e claro o espírito.



Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o
Teto tranqüilo, onde bicavam velas!

É esta tradução de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia que me ocorre das ondas do tempo neste Novo Ano.