sábado, 14 de janeiro de 2017
OS SONHOS COMO PRINCÍPIO DAS ESPERANÇAS ÀS VEZES PERDIDAS
OS SONHOS COMO PRINCÍPIO DAS ESPERANÇAS ÀS VEZES PERDIDAS
Rogel Samuel
Há uma conferência de Ernst Bloch, conhecida como “O Homem Como Possibilidade”, que se inicia assim: “ Senhoras e Senhores, vamos começar moderadamente. Mas também com vigor e ousadia. Vamos começar com os sonhos.” Desde que a li, pela primeira vez, na década de sessenta, este texto me persegue. Bloch (1885–1977), como se sabe, foi marxista alemão que saiu para os Estados Unidos, depois de 1933, por causa do nazismo. Sua obra mais famosa é “O princípio da esperança” (3 volumes, publicada de 1952 a 1959).
Na conferência citada diz ele que os sonhos não se dão só à noite, há sonhos diurnos, quando o eu não desaparece, mantém-se presente e sem censura. Nestes nossos desejos voam, povoam, sem hipocrisia, sem camuflagem. Sem medo. Nossos desejos dominam nossos sonhos diurnos: uma bela roupa, uma jóia, uma vitrine. A casa de nossos sonhos. O livro de nossos sonhos. No mundo dos sonhos, o custo de vida não é tão alto, nem nossos salários tão baixos. Não, nada precisamos comprar, pagar, no aberto mundos dos sonhos. Somos – todos – participantes dessa sociedade de consumo de sonhos.
E pronto: parece que aí está, quase sem a gente perceber, o “princípio da esperança”, que guia nossas vidas. Parece, mas não é bem assim. O livro de Bloch é difícil e gigantesco (três volumes, em cerca de 1400 páginas na tradução inglesa!).
Bloch mistura marxismo com a doutrina judaica de redenção, e faz da dicotomia aristotélica de potência e ato a base de uma certa teoria da história à caminho da progressiva emancipação redentora, ou seja, o caminho da esperança de melhores dias, vida melhor, em melhores condições.
Segundo Douglas Kellner, que encontrei na Internet, - (“ Ernst Bloch, Utopia and Ideology Critique”) -, o primeiro volume trata do nosso consumo dos sonhos diurnos: a moda, a propaganda, as viagens, os filmes e outros objetos culturais.
O segundo volume versa sobre os sonhos de “um mundo melhor”, analisa as utopias políticas, as utopias tecnológicas, as utopias arquitetônicas, além dos ideais de paz e tranqüilidade.
O terceiro volume aborda as imagens do desejo na moralidade, na música, na morte, na religião, na natureza e no ambiente, no bem.
Todos três volumes estudam a questão cultural do “sonho de uma vida melhor”, que ele trata como mitos, formas de arte, política e religião. Enfim, a questão da “emancipação”
Lembra Bloch que Lênin lastimou certa vez que o movimento havia perdido a capacidade de sonhar. Mostra a contradição entre o feijão e o sonho: «Delicados coexistem os pensamentos, ásperas se chocam as coisas no espaço», escreveu. Lembra que estamos sempre cercados de conflitos, e que, frente aos sonhos, o mundo real é contrário e contraditório, e se acha carregado das tensões de ontem e anteontem. «O velho não quer passar. E o novo não quer chegar». Mas, «o que contrapomos ao mal, não deve ser uma loucura solitária». A realidade não é fixa, acabada, mas mutável. É possível enfrentá-la, modifica-la. As coisas estão fluindo. Ela foram feitas e por isso mesmo podem ser modificadas. Existe sempre a possibilidade de mudança. «Poder ser diferente significa poder transformar-se em outra coisa melhor».
Ora, quem sonha são os poetas, principalmente românticos, que sonham «as ilusões perdidas»:
Minh’alma é triste como a rôla aflita
Que o bosque acorda desde o albor da aurora,
E em doce arrulo que o soluço imita
O morto esposo gemedora chora.
E, como a rôla que perdeu o esposo,
Minh’alma chora as ilusões perdidas,
E no seu livro de fanado gôzo
Relê as fôlhas que já foram lidas.
E como notas de chorosa endeixa
Seu pobre canto com a dor desmaia,
E seus gemidos são iguais à queixa
Que a vaga solta quando beija a praia.
Como a criança que banhada em prantos
Procura o brinco que levou-lhe o rio,
Minh’alma quer ressuscitar nos cantos
Um só dos lírios que murchou o estio.
Dizem que há gozos nas mundanas galas
Mas eu não sei em que o prazer consiste.
- Ou só no campo, ou no rumor das salas,
Não sei porque mas a minh’alma é triste!
Como toda ilusão, a realidade já nasce «perdida», e os românticos lastimavam que, em verdade, não encontravam a materialidade de seus sonhos. Ou seja, a vida concreta (se se pode falar assim – e só em crônica se pode) não corresponde ao sonho abstrato, e aqui os gozos, os prazeres, os brincos (os brinquedos), os amores, no campo ou na cidade não correspondem ao idealizado pela imaginação. Por isso, «a minha alma é triste».
No poema de Casimiro de Abreu se pode ouvir, até mesmo, um OH! – esta exclamação lamentosa - rola, bosque, acorda, albor, aurora, soluço, morto, esposo, chora etc. – uma série de oooos, todos lamentosos acentos.
Incompatibilizados com o mundo, não é sem razão que os românticos acabem morrendo tão cedo. Morrem de inanição espiritual, depressão. Sucumbem à glória do capitalismo da primeira revolução industrial.
A poesia (mas nem sempre) pertence à categoria dos sonhos:
Conheces a região do laranjal florido?
Ardem, na escura fronde, em brasa os pomos de ouro;
No céu azul perpassa a brisa num gemido...
A murta nem se move e nem palpita o louro...
Não a conheces tu? Pois lá... bem longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu querido bem!
(Diz Goethe, na belíssima tradução do mestre João Ribeiro.)
Sim, esta é a região dos sonhos. Lá, bem longe, além. Lá é melhor. Para lá é que devemos ir, escapar, fugir. Lá está tudo o que é belo, perfeito. Lá está a felicidade. Não a conheces tu, leitor e leitora? Será que existe mesmo?
Mas... não percamos as esperanças.
O TAO
O Caminho é vasto e sem favores.
O Tao vazio é profundo.
Com um coração vazio, sua natureza é
Facilmente aprendida,
Embora seu poder abranja o cosmos.
Com sua sabedoria pode-se discernir
Os grandes mistérios da vida,
Para que o coração se torne puro
Como o trono dos imortais.
O Tao vazio é profundo.
Com um coração vazio, sua natureza é
Facilmente aprendida,
Embora seu poder abranja o cosmos.
Com sua sabedoria pode-se discernir
Os grandes mistérios da vida,
Para que o coração se torne puro
Como o trono dos imortais.
- Loy Ching-Yuen (1873-1960)
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
Dylan Thomas
ESTE LADO DA VERDADE
Dylan Thomas
Para Llewlyn
Este lado da verdade,
Meu filho, tu não podes ver,
Rei de teus olhos azuis
No país que cega a tua juventude,
Que está todo por fazer,
Sob os céus indiferentes
Da culpa e da inocência
Antes que tentes um único gesto
Com a cabeça e o coração,
Tudo estará reunido e disperso
Nas trevas tortuosas
Como o pó dos mortos.
O bom e o mau, duas maneiras
De caminhar em tua morte
Entre as triturantes ondas do mar,
Rei de teu coração nos dias cegos,
Se dissipam com a respiração,
Vão chorando através de ti e de mim
(tradução: Ivan Junqueira)
Dylan Thomas
Para Llewlyn
Este lado da verdade,
Meu filho, tu não podes ver,
Rei de teus olhos azuis
No país que cega a tua juventude,
Que está todo por fazer,
Sob os céus indiferentes
Da culpa e da inocência
Antes que tentes um único gesto
Com a cabeça e o coração,
Tudo estará reunido e disperso
Nas trevas tortuosas
Como o pó dos mortos.
O bom e o mau, duas maneiras
De caminhar em tua morte
Entre as triturantes ondas do mar,
Rei de teu coração nos dias cegos,
Se dissipam com a respiração,
Vão chorando através de ti e de mim
(tradução: Ivan Junqueira)
quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
A VILA DAS OITO BALEIAS ENCALHADAS
A VILA DAS OITO BALEIAS ENCALHADAS
ROGEL SAMUEL
Durer gostaria de morar naquela cidade onde há oito baleias encalhadas, canta Marianne Moore mãe da poesia moderna, em seu poema “The steeple-Jack”, o consertador de campanários, ou um João-ninguém no ar manso do mar das casas num dia bonito, vindo das águas-fortes de Durer onde as ondas mais parecem escamas de peixe, “com a mão direita ela as penetras – as coisas – com lápis bisturi, o verso cicatriz” - diz João Cabral - e as vê onde as gaivotas rodopiam ao redor da torre do relógio, na ronda do imaginário farol, nem mesmo precisando mover as asas de sutil papel, apenas com um estremecimento do corpo na plumagem de arrepios aéreos, o mar (diz ela, e não duvido), da cor do pescoço de pavão, uma cor púrpura, chegando a verde-anil, que é o azul daquele Arraial do Cabo na minha adolescência, as estrelas da Praia dos Anjos brilhando no chão por onde passávamos a caminho dos ninhos de amor das aventuras de lá, e a arte, na sua essencial erótica marítima, grande cascos de baleias, impotentes, jacentes, brancos, talhados em mármores familiares, estátuas jacentes pois Marianne Moore viu no avanço do risco rígido do mar em brancos barcos, e em Arraial do Cabo as sandálias de espumas multicores, aros do sol, os ácidos do sol de aço dourado a fogo, sol forte de febre, as primeiras estrelas visitantes cruzadas em desígnios e misteriosos signos, da poesia ela, pegajosa, confidencial, cheia de aritméticas pinças, de Marianne Moore, que quando escreve em vez de lápis, diz Cabral, emprega instrumento cortante, a saber, bisturi, um canivete, e faz rir de delírio geológico, ilógico, colorido, reduzido, imagem a fragmentos de sonho, lembranças do Morrro do Miranda, dos anjos da Praia dos Anjos, do Morro do Atalaia, da Ilha dos Franceses, da poesia-água-forte, água em movimento, ávido tecido vivo de esmeraldas e ametistas, mar memorial delirante em viver o azul nas sonhadas capelas e marés e nos alpendres chamuscados de matiz de águas-marinhas profundas, pois foi o que viu Bachelard ali, em “L´eau et les rêves”, no seu “ensaio sobre a imaginação da matéria”, a água domada e desumanizada, pertencente ao domínio da mitologia primitiva, diz ele, aventuras das grandes viagens marítimas em vendavais de narrativas, ao nível dos grandes mitos das poderosas forças da imaginação heróica e material, em vidro estilhaços da profundidade igual ao que não existe, ao inconsciente que marítimo é narrativo, na mitologia do chão catando pelo rastro da origem a fabulação, diz Bachelard, este buscar participando da tonificação da vida, da renovação dos quereres do amor, do amor todo nascente da água do ventre, como certas deusas, ou o nascimento de Vênus, de Botticeli, mencionada em Apeles, presente no relato da criação de Hesíodo, na Teogonia, Afrodite surgindo das espumas nascentes da mistura do sêmen e do sangue de Urano, ou em versão, não encontrada na Ilíada, onde a deusa do amor nasce da união de Zeus e Dione nas douradas praias amadas de Arraial do Cabo, no Estado do Rio de Janeiro, abstração límpida do neoplatonismo da natureza dual do amor sobre as conchas são vaginas da beleza em flor...
* * *
“O JOÃO-DA-TORRE” de Marianne Moore
(fragmento)
Dürer teria visto um motivo para viver
numa vila como esta, em cuja praia há oito baleias
para se olhar; onde a suave brisa entra na casa da gente em dia
claro, vinda de água em água-forte
com ondas formais como num peixe as
escamas.
Uma por uma aos pares e aos trios, as gaivotas não
param de ir e vir, sobre o relógio da vila voando,
ou de circunavegar o farol sem nem sequer mover as asas –
elevando-se firmes com leve
tremor de corpo -, ou então, em bando,
de miar
onde um mar da púrpura do pescoço do pavão
se transforma em verde-anil, como Dürer a degradar
o verde-pinho do Tirol no azul-pavão e no cinza-guiné.
Você pode ver uma lagosta
de onze quilos; redes a secar
ao sol. O
remoinho pífano-e-tímpano da tempestade
enverga a relva salina do brejo, perturba as estrelas
no céu e a estrela na torre da igreja; é um privilégio ver tamanha
confusão. As árvores e as flores
da costa têm a favorecê-las
a neblina
(trad. José Antonio Arantes)
O CARTÃO POSTAL
O CARTÃO POSTAL
Rogel Samuel
Eu tinha nas mãos um velho
cartão-postal. E uma edição de La vida es sueño. Era uma velha loja no
centro velho da cidade, uma loja de coisas usadas, talvez um bazar beneficente.
Estava cheia de trastes cobertos de uma poeira decadente. Quando entrei fui
logo atraído pela pilha de livros a um canto, onde descobri o livro de
Calderón. Depois descobri uma caixa de sapato cheia de velhas fotografias. O
cartão postal. Era uma foto velha, mas muito nítida, meio sépia, da minha cidade
natal. A rua era aquela. Pude reconhecer cada pedra, cada porta, cada janela.
Sabia mesmo quem habitava ali. Na grande casa da esquina morava o meu amigo de
infância X. Quando sua mãe estava grávida, uma vidente lhe disse: ia ser
menina. A família preparou um enxoval de menina. Nasceu menino. Quando tinha
sete anos de idade, disse para a mãe: queria ser bailarino. A mãe se persignou.
Nada disse para o marido, que era violento. Quando tinha doze anos entrou para
aquela escola, onde o conheci. Como era muito louro, belo, alto e feminino, na
escola só encontrou inimigos. Ninguém se aproximava. Na rua os moleques
freqüentemente tentaram agredi-lo. Quando passavam pela frente de sua casa,
gritavam palavrões. Faziam gestos indecentes. Por isso quase não saía de casa.
Mas se vestia muito bem. Família rica e conhecida na cidade. Usava umas blusas
de seda branca, que dizem ele mesmo fazia. A mãe todos os dias ia levá-lo ao
colégio. A mãe era amiga de nossa família. Mas nossas mães nos proibiam de
falar com ele. Ele só se aproximava de algumas meninas, no recreio. Mas era um
bom aluno e excelente desenhista. Quando tinha cerca de quinze anos, o pai o
surpreendeu vestido com roupa da mãe, todo pintado. Espancou-o tão
violentamente que ele ficou vários dias sem poder ir à escola, com vários
hematomas no rosto. Logo no fim do ano eu me mudei para o Rio de Janeiro e o
perdi de vista. Soube que o pai o mandara
morar com umas tias. As tias o rejeitavam, mas o pai era rico e pagava bem.
Quando o pai soube que ele dormia fora suspendeu o pagamento. As tias o
expulsaram. Contam que ele vivia nas ruas, onde se prostituía. Depois trabalhou
como cabeleireiro e manicuro. Aquela loja estava cheia de trastes velhos,
cobertos de uma poeira decadente. Quando fui pagar, a velha que me atendeu
falou, com estranha voz: “Eu nasci aí,
nesta cidade”. Era ele, o meu amigo X. Não me reconheceu. Aquela mulher tinha
os dentes estragados, o ralo cabelo branco mal pintado, amarrado para atrás.
Era um ser em ruína. Eu nada disse, paguei e saí da loja, sobraçando o livro de
Calderón, La vida es sueño.
domingo, 8 de janeiro de 2017
POEMA
Cuidado! Mesmo a lua caindo em gotas de orvalho,
Se você é atraído para assistir,
Faz-se um muro diante da Verdade.
- Sogyo (1667-1731)
...Se você é atraído para assistir,
Faz-se um muro diante da Verdade.
- Sogyo (1667-1731)
sábado, 7 de janeiro de 2017
DUGPA RINPOCHÊ
DUGPA RINPOCHÊ: Considera a amizade como uma cerimônia feliz, uma dança, uma festa em que as diferenças não se combatem, não se aniquilam. As personalidades brilham com o mesmo fogo, sem perder a sua particularidade, a sua identidade.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
PORTA CALADA
porta calada
porta calada
madrugada
o silêncio é nada
o vento me acorda
o silêncio morre
sobre esta triste noite
a quente suportada espera
volto ao sonho antigo
no sonho palavra dada
porta calada
madrugada
e que horas são?
qual tempo lembrar?
da minha janela percebo
um pedaço de rua
vento da noite nua
sopra na solidão
porta calada
madrugada
ROGEL SAMUEL
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
Cada ser humano é uma estrela
Cada ser humano é uma estrela
Rogel Samuel
"Como explicar que aquele pianista que morre de medo antes de entrar em cena depois seja possuído de grande e jubilosa alegria?", pergunta Alain. Talvez porque seus dedos não sabem o que é ter medo, e o medo é um fantasma da sua cabeça. Esse é o sentido do "treinamento" do corpo.
Em tudo podemos nós treinar. Eu escrevo diariamente como "treinamento", como um pianista que depende de várias horas de estudo por dia para poder estar sempre em forma: Quando se senta ao piano, "naturalmente" seus dedos sabem o que fazer e aquilo se torna para ele uma verdadeira natureza, ele naturalizou e se integrou com o piano. Nós somos capazes de muitas coisas desde que treinemos. Como os lutadores treinam e se adestram. E como há uma integração do corpo com a mente, vencemos alguns obstáculos.
Este é o sentido da disciplina.
A disciplina não é uma canga rígida, que estrangula o corpo. Ela permite que nos libertemos constantemente de nós próprios, disse Dugpa Rinpochê.
Creio que sem alegria não há disciplina. Sem prazer.
O maior obstáculo é aquela sensação enorme de um “eu” que há em nossa mente.
O “eu” é um fantasma que nos segue como uma sombra.
Quando começamos a nos exercitar, esquecemos temporariamente do “eu”.
Aí somos felizes.
Os conflitos, o ódio, a violência, provêm de um sentimento enorme de um eu ferido, nascido de desconhecimento de si mesmo, que gera dor e confusão, disse o Rinpochê.
“Não somos nada, tudo é o que almejamos”, escreveu mais ou menos Heidegger na Floresta Negra.
“Não duvides do teu próprio esplendor interior. Cada ser vivo é uma estrela”, disse Dugpa Rimpochê.
São pensamentos contraditórios. Mas sem a contradição não damos conta da dialética da realidade, diz o materialismo histório marxista.
Rogel Samuel
"Como explicar que aquele pianista que morre de medo antes de entrar em cena depois seja possuído de grande e jubilosa alegria?", pergunta Alain. Talvez porque seus dedos não sabem o que é ter medo, e o medo é um fantasma da sua cabeça. Esse é o sentido do "treinamento" do corpo.
Em tudo podemos nós treinar. Eu escrevo diariamente como "treinamento", como um pianista que depende de várias horas de estudo por dia para poder estar sempre em forma: Quando se senta ao piano, "naturalmente" seus dedos sabem o que fazer e aquilo se torna para ele uma verdadeira natureza, ele naturalizou e se integrou com o piano. Nós somos capazes de muitas coisas desde que treinemos. Como os lutadores treinam e se adestram. E como há uma integração do corpo com a mente, vencemos alguns obstáculos.
Este é o sentido da disciplina.
A disciplina não é uma canga rígida, que estrangula o corpo. Ela permite que nos libertemos constantemente de nós próprios, disse Dugpa Rinpochê.
Creio que sem alegria não há disciplina. Sem prazer.
O maior obstáculo é aquela sensação enorme de um “eu” que há em nossa mente.
O “eu” é um fantasma que nos segue como uma sombra.
Quando começamos a nos exercitar, esquecemos temporariamente do “eu”.
Aí somos felizes.
Os conflitos, o ódio, a violência, provêm de um sentimento enorme de um eu ferido, nascido de desconhecimento de si mesmo, que gera dor e confusão, disse o Rinpochê.
“Não somos nada, tudo é o que almejamos”, escreveu mais ou menos Heidegger na Floresta Negra.
“Não duvides do teu próprio esplendor interior. Cada ser vivo é uma estrela”, disse Dugpa Rimpochê.
São pensamentos contraditórios. Mas sem a contradição não damos conta da dialética da realidade, diz o materialismo histório marxista.
sábado, 31 de dezembro de 2016
SÁ FRANCISCA
SÁ FRANCISCA
ROGEL SAMUEL
Todo fim de ano eu me lembro de Sá Francisca, que
era uma velhinha pobre que vinha todo mês à casa de minha avó pedir comida ou
dinheiro em Manaus.
Conta a lenda que ela morava numa espécie de gruta,
um buraco de pedra ou de árvore na Vila Municipal, longe, mas ela vinha a pé...
Minha avó a fazia entrar, ela tomava café com pão,
ou almoçava num cantinho calada, e depois ia embora, silenciosa, misteriosa,
baixinha, mística.
Eu já escrevi uma crônica sobre ela: mas procurei
em vão, não encontrei, minha “produção literária” é dispersa em jornais antigos
ou sites que se perderam.
Um dia, ela desapareceu. Minha avó mandou alguém
que sabia onde ela morava que voltou com a notícia de que ela tinha
desaparecido.
Talvez encantou-se, talvez ela era um mito uma
lenda uma alucinação de velhos como eu.
Mas a sua figura sorridente nunca se me apagou.
QUE ME APARTO DE VÓS, OH ÓLEOS
que me aparto de vós, oh óleos
do Rio Negro. Das axilas
de coca-cola, de mel. Produto impuro
banho de esperma que ferve
pelas paquidérmicas chatas.
vos deixo, oh mãe de orquídeas terra
régia fera guerra estéril e amorosa
e no longo corredor me enrosco
meu aeroplano tece
sobre vossas plastificadas canoas de ferro
goma arábica ungüento espesso
caboclo jovem mãe planície
negra magra seda
de vós finalmente me aparto
oh águas lixiviadas, menstruais
lembranças de ventres de tarântulas
de cristais
de vós me aparto para sempre!
esmorecido de vós, sucumbido
por vossa fênix, por vosso lenho
vos esqueço, oh pélvica morada
de mortos deuses, de profundos silos
e neste ar meu aeroplano tece
e é expelido pelas tuas pernas.
(ROGEL SAMUEL)
sexta-feira, 30 de dezembro de 2016
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
MADRUGADA
porta calada
madrugada
o silêncio é nada
o vento me acorda
o silêncio morre
sobre esta triste noite
a quente suportada espera
volto ao sonho antigo
no sonho palavra dada
porta calada
madrugada
e que horas são?
qual tempo lembrar?
da minha janela percebo
um pedaço de rua
vento da noite nua
sopra na solidão
porta calada
madrugada
(ROGEL SAMUEL)
madrugada
o silêncio é nada
o vento me acorda
o silêncio morre
sobre esta triste noite
a quente suportada espera
volto ao sonho antigo
no sonho palavra dada
porta calada
madrugada
e que horas são?
qual tempo lembrar?
da minha janela percebo
um pedaço de rua
vento da noite nua
sopra na solidão
porta calada
madrugada
(ROGEL SAMUEL)
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
Da arte do sol
Da arte do sol

Rogel Samuel: Da arte do sol
Escrevo de madrugada. Nunca dormi muito bem, e sempre acordo durante a noite. Esta é a hora boa para ler, pensar, rever a vida. Antigamente era possível sair de madrugada. Quando eu morava em Copacabana, nessas horas eu saía para caminhar na praia e ver o sol nascer. O sol sempre nasce com esplendor, como tudo que nasce. A vida é o nascimento: o demais é um declinar-se para a morte, já pensou Heiddeger. Se nos fosse possível imaginar, diz Nietzsche, a dissonância feita criatura humana (pois o homem é uma dissonância) esta, para poder suportar a vida, teria a necessidade de uma admirável ilusão que lhe escondesse a sua verdadeira natureza, sob um véu de beleza. Esta é a finalidade da arte apolínea. Da arte do sol. O nome de Apolo resume aqui essas ilusões sem número da bela aparência que tornam, a cada instante, a existência digna de ser vivida e nos incitam a vivê-la no instante seguinte. A vida sempre renasce. Sempre que as potências dionisíacas a subverte violentamente, é desejável que Apolo, envolvido em nuvens, desça até nós, para curar a nossa escuridão, a nossa embriaguez.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2016
AUTO DE NATAL EM COPACABANA .... DE ROGEL SAMUEL

http://www.blocosonline.com.br/home/index.php
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
O METRO ADVERSO
O METRO ADVERSO
ROGEL SAMUEL
Foi assim que este soneto de natal de Machado de Assis passou a figurar em todas as nossas nobres antologias históricas, desgraçadamente mal compreendido, mal lido, mal interpretado, sem que ninguém visse o que nele se esconde: a mediocridade, a critica da mediocridade nacional, escrita pelo mais mordaz dos críticos, que fica a rir da nossa ignorância e besteira:
Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.
Escolheu o soneto . . . A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"
O que acontece é que o famoso “Soneto de natal”, de Machado de Assis, exibe a marca de algumas de suas mais famosas e misteriosas ironias: - Machado nunca está dizendo o que aparentemente diz - sempre possue algo escondido, ou melhor, aquilo que está ali precisamos verter para a sua outra verdade, que é a do (entre-)texto, procurando lá a real significação do que ele quer, no texto, apontar, - o sub-texto dos sentidos ocultos, possíveis, falíveis, omissos, mas cabíveis, ao leitor desconfiado de que Machado está traindo, escondendo o jogo, de que está ausente-presente ali, por trás dos óculos, a rir, a gargalhar, ironicamente, da nossa burrice nacional, da nossa incapacidade de ler aquele soneto “corretamente”, e da sua própria incapacidade de escrevê-lo, nesse Bin Laden dos poemas de natal.
* * *
O tal soneto começa com um indefinido: “um homem”... Um homem não é um poeta. Quem é senão a própria figura oculta de Machado? Se um certo homem resolve escrever um certo poema de natal, ou escrever um poema no dia de natal, lembrando-se da infância, e “a viva dança, e a lépida cantiga”, esse deve ser uma fotografia poética do autor - caso contrário o soneto não teria nenhum sentido estruturante.
* * *
Ora, um homem, quer dizer, um poeta, o poeta Machado - depois de lembrar-se da infância, ou por causa disso, resolve escrever um poema de natal no dia de natal, e não consegue, e nada sai, nem um verso, apenas a reflexão de que nada conseguiu, de que é incapaz de compor o mínimo poema de natal - seja porque sua lira se encontra em baixa, seja porque era mesmo Machado de Assis quem estava ali, e ele era verdadeiramente ateu, não acreditava em natais, nem naquela estória piedosa de “noite cristã etc” que só pode ser pura ironia do velho materialista - não se fie o leitor nessa estória comovente de “verso doce e ameno”, isso é pura galhofa do velho Machado - o que ali se tem é mesmo o “metro adverso”, a velhice, portas da morte, do nada, da folha em branco da morte, - a morte da inspiração, da juventude, do frescor musical de seus versos, da inspirada sensualidade juvenil - aquilo tudo que não mais existe, e em seu lugar a secura da voz, sem musicalidade nem poesia, apenas reflexão árida, cerebral, seca, vazia, amorfa, vinda do mofo interno, da mediocridade de almanaque: "Mudaria o Natal ou mudei eu?"
* * *
Mas o pior - e o mais grave, ou mais engraçado - é que a maioria dos leitores brasileiros, e os escolares, pelo tempo agora, mais de século, tem lido o soneto às avessas, ao contrario, vendo nele uma singular beleza que ali não há, que não está lá, que ele não tem, de que não dispõe, nem quis ter - pois o soneto é uma decepção, e é a expressão desta, a voz da mediocridade - pois o soneto é a escrita da incapacidade e da ausência, da insuficiência, e da não-poesia, do não-poético, pois Machado intencionalmente ironiza a incapacidade de escrever um belo soneto de natal por falta de fé, mas escrevendo um péssimo soneto sobre a sua própria falência de fazê-lo, e aquilo vem cheio de uma aparente “beleza” perfumada e barata, piegas e popular, que se traduz naquela “noite amiga”, naquela “noite cristã”, naquele “berço do Nazareno”, quando “sabemos” ou desconfiamos de que Machado não está falando sério, de que ele presumia que o leitor vulgar já ia achar o soneto maravilhoso, antológico, e realmente foi assim que o desgraçado soneto se tornou um clássico da literatura nacional, e foi assim mesmo que passou a figurar em todas as nossas nobres antologias históricas, desgraçadamente mal compreendido, mal lido, mal interpretado, sem que ninguém visse o que nele se esconde: a mediocridade, a critica da mediocridade escrita pelo mais mordaz crítico da mediocridade que foi Machado de Assis, que está a rir da nossa ignorância nacional brasileira...
* * *
E foi assim que este soneto se tornou um clássico.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
AS VAGAS DA ELEGIA DE CAMÕES
AS VAGAS DA ELEGIA DE
CAMÕES
Rogel Samuel
No início o poeta
conta que «Simônides, falando ao capitão Temístocles, um dia», lhe prometia
ensinar uma arte mnemônica que fizesse com que nunca se esquecesse de nada. Mas
o capitão tinha um passado tormentoso de batalhas e de mortes, e lhe disse que
melhor seria que lhe ensinasse esquecer de tudo o que passou:
Que, se é forçado
andar por várias partes
buscando à vida algum
descanso honesto,
que tu, Fortuna
injusta, mal repartes;
se o duro trabalho é
manifesto
que por grave que
seja, há-de passar-se
com animoso espírito e
ledo gesto;
de que serve às
pessoas alembrar-se
do que se passou já,
pois tudo passa,
senão de
entristecer-se e magoar-se?
Na realidade, este
capitão Temístocles é um outro do poeta Camões, que por guerras e desastre
passou no Oriente, e de cujos amores passados não quer lembrar. Mais um pouco e
estamos na reencarnação do amor: «Se noutro corpo uma alma se traspassa, não,
como quis Pitágoras, na morte mas como manda Amor na vida escassa». Porque para
suportar o por que ele passou, « homem fora formado de diamante».
Eis que ele começa a
narrativa de sua viagem:
Soltava Eolo a rédea e
liberdade
ao manso Favónio
brandamente,
e eu já tinha solta a
saudade.
Neptuno tinha posto o
seu tridente;
a proa a branca escuma
dividia,
co a gente marítima
contente.
O coro das Nereidas
nos seguia,
os ventos, namorada
Galateia
consigo, sossegados,
os movia.
Das argênteas
conchinhas, Panopeia
andava pelo mar
fazendo molhos,
Melanto, Dinamene, com
Ligeia.
Na Elegia, de Camões
vai olhando pras águas... «Ó claras Ninfas!», diz ele, e reclama da ausência
amada. « O coro das Nereidas nos seguia, os ventos, namorada Galateia consigo,
sossegados, os movia. »
Mas no meio da
viagem... a tormenta: «Porque, chegado ao Cabo da Esperança, .... eis a noite
com nuvens escurece, do ar supitamente foge o dia, e o largo oceano se
embravece. »
A descrição da
tempestade: «A máquina do Mundo parecia que em tormenta se vinha desfazendo, em
serras todo o mar se convertia. »
A violência: «sonoras
tempestades levantavam,
das naus as velas
côncavas rompendo.
As cordas, ao ruído,
associavam,
os marinheiros, já
desesperados,
com gritos para o Céu
o ar coalhavam. »
Depois da tempetade:
Oh, lavradores
bem-aventurados!
Se conhecessem seu
contentamento,
como vivem no campo
sossegados!
Dá-lhes a justa terra
o mantimento,
dá-lhes a fonte clara
a água pura,
mungem suas ovelhas
cento a cento.
Não vêm o mar irado, a
noite escura,
por ir buscar a pedra
do Oriente;
não temem o furor da
guerra dura.
Vive um com suas
árvores contente,
sem lhe quebrar o sono
sossegado
o cuidado do ouro
reluzente.
Se lhe falta o vestido
perfumado,
e da fermosa cor
assíria tinto,
e dos torçais atálicos
lavrado;
se não tem as delicias
de Corinto,
e se de Pário os
mármores lhe faltam,
o piropo, a esmeralda,
e o jacinto;
se suas casas d'ouro
não se esmaltam,
esmalta-se-lhe o campo
de mil flores,
onde os cabritos seus,
comendo, saltam.
Ali amostra o campo
várias cores,
vêm-se os ramos pender
co fruto ameno,
ali se afina o canto
dos pastores:
ali cantara Títiro e
Sileno.
Enfim, por estas
partes caminhou
a sã justiça para o
Céu sereno.
Ditoso seja aquele que
alcançou
poder viver na doce
companhia
das mansas ovelhinhas
que criou!
Este, bem facilmente
alcançaria
as causas naturais de
toda a cousa:
como se gera a chuva e
neve fria;
os trabalhos do Sol,
que não repousa;
e porque nos dá a Lua
a luz alheia,
se tolher-nos de Febo
os raios ousa;
e como tão depressa o
Céu rodeia;
e como um só, os
outros traz consigo;
e se é benina ou dura
Citereia.
Bem mal pode entender
isto que digo
quem há-de andar
seguindo o fero Marte,
que traz os olhos
sempre em seu perigo.
Porém seja, Senhor, de
qualquer arte,
que, posto que a
Fortuna possa tanto,
que tão longe de todo
o bem me aparte,
não poderá apartar meu
duro canto
desta obrigação sua,
enquanto a morte
me não entrega ao duro
Radamanto,
—se para tristes há
tão leda sorte.
Camões: Elegia
Poeta Simónides,
falando
co capitão
Temístocles, um dia,
em cusas de ciência
praticando,
ü a arte singular lhe
prometia,
que então compunha,
com que lhe ensinasse
a se lembrar de tudo o
que fazia;
onde tão sutis regras
lhe mostrasse
que nunca lhe passasse
da memória
em nenhum tempo as
cousas que passasse.
Bem merecia, certo,
fama e glória
quem dava regra contra
o esquecimento
que enterra em si
qualquer antiga história.
Mas o capitão claro,
cujo intento
bem diferente estava,
porque havia
as passadas lembranças
por tormento;
ilustre Simónides!
(dezia)
Pois tanto em teu
engenho te confias
que mostras à memória
nova via,
e me desses üa arte
que em meus dias
me não lembrasse nada
do passado,
oh! quanto milhor obra
me farias!
Se este excelente dito
ponderado
fosse por quem se
visse estar ausente,
em longas esperanças
degradado,
ah! como bradaria
justamente:
Simónides, inventa
novas artes;
não meças o passado co
presente!
Que, se é forçado
andar por várias partes
buscando à vida algum
descanso honesto,
que tu, Fortuna
injusta, mal repartes;
se o duro trabalho é
manifesto
que por grave que
seja, há-de passar-se
com animoso esprito e
ledo gesto;
de que serve às
pessoas alembrar-se
do que se passou já,
pois tudo passa,
senão de
entristecer-se e magoar-se?
Se noutro corpo üa
alma se traspassa,
não, como quis
Pitágoras, na morte
mas como manda Amor na
vida escassa;
e se este Amor no
mundo está de sorte
que na virtude só dum
lindo objecto
tem um corpo sem alma,
vivo e forte;
onde este objecto
falta, que é defecto
tamanho para a vida,
que já nela
me está chamando à
pena a dura Alecto;
porque me não criara
minha estrela
selvático no mundo, e
habitante
na dura Cítia, ou na
aspereza dela,
ou no Cáucaso
horrendo? Fraco infante,
criado ao peito
d'algüa tigre hircana,
homem fora formado de
diamante,
porque a cerviz ferina
e inumana
não sometera ao jugo e
dura lei
daquele que dá vida
quando engana.
Ou, em pago das águas
qu'estilei,
as que do mar passei
foram de Lete, p
ara que me esquecera o
que passei.
Que o bem que a
esperança vã promete,
ou a morte o estorva,
ou a mudança,
que é mal que ua alma
em lágrimas derrete.
Já, Senhor, cairá como
a lembrança,
no mal, do bem passado
é triste e dura,
pois nasce aonde morre
a esperança.
E se quiser saber como
se apura
nua alma saudosa, não
se enfade
de ler tão longa e
mísera escritura.
Soltava Eolo a rédea e
liberdade
ao manso Favónio
brandamente,
e eu já tinha solta a
saudade.
Neptuno tinha posto o
seu tridente;
a proa a branca escuma
dividia,
co a gente marítima
contente.
O coro das Nereidas
nos seguia,
os ventos, namorada
Galateia
consigo, sossegados,
os movia.
Das argênteas
conchinhas, Panopeia
andava pelo mar
fazendo molhos,
Melanto, Dinamene, com
Ligeia.
Eu, trazendo
lembranças por antolhos,
trazia os olhos na
água sossegada,
e a água sem sossego
nos meus olhos.
A bem-aventurança já
passada
diante mim tinha tão
presente
como se não mudasse o
tempo nada.
E com o gesto imoto e
descontente,
cum suspiro profundo,
e mal ouvido,
por não mostrar meu
mal a toda a gente,
dezia: Ó claras
Ninfas! Se o sentido
em puro amor tivestes,
e inda agora
da memória o não
tendes esquecido;
se, porventura, fordes
algüa hora
aonde entra o grão
Tejo a dar tributo
a Tétis, que vós
tendes por Senhora;
ou por verdes o prado
verde enxuto,
ou por colherdes ouro
rutilante,
das tágicas areias
rico fruto;
nelas em verso heróico
e elegante,
escrevei cüa concha o
que em mim vistes:
pode ser que algum
peito se quebrante.
E contando de mim
memórias tristes,
os pastores do Tejo,
que me ouviam,
ouçam de vós as mágoas
que me ouvistes.
Elas, que já no gesto
me entendiam,
nos meneios das ondas
me mostravam
que em quanto lhe
pedia consentiam.
Estas lembranças, que
me acompanhavam
pola tranquilidade da
bonança,
nem na tormenta grave
me deixavam.
Porque, chegado ao
Cabo da Esperança,
começo da saudade que
renova,
lembrando a longa e
áspera mudança;
debaixo estando já da
Estrela nova,
que no novo Hemisfério
resplandece,
dando do segundo axe
certa prova;
eis a noite com nuvens
escurece,
do ar supitamente foge
o dia,
e o largo oceano se
embravece.
A máquina do Mundo
parecia
que em tormenta se
vinha desfazendo,
em serras todo o mar
se convertia.
Lutando Bóreas fero e
Noto horrendo,
sonoras tempestades
levantavam,
das naus as velas
côncavas rompendo.
As cordas, ao ruído,
associavam,
os marinheiros, já
desesperados,
com gritos para o Céu
o ar coalhavam.
Os raios por Vulcano
fabricados
vibrava o fero e
áspero Tonante,
tremendo os Pólos
ambos, de assombrados!
Ali Amor mostrando-se
possante
e que por nenhum modo
não fugia,
mas quanto mais
trabalho, mais constante;
vendo a morte diante,
em mim dezia:
Se algüa hora,
Senhora, vos lembrasse,
nada do que passei me
lembraria.
Enfim, nunca houve cousa
que mudasse
o firme Amor do
intrínseco daquele
em cujo peito üa vez
de siso entrasse.
üa cousa, Senhor, por
certo assele;
que nunca Amor se
afina, nem se apura,
enquanto está presente
a causa dele.
Dest'arte me chegou
minha ventura
a esta desejada e
longa terra,
de todo o pobre
honrado sepultura.
Vi quanta vaïdade em
nós se encerra,
e dos próprios quão
pouca; contra quem
foi logo necessário
termos guerra.
Que üa ilha que o rei
de Porcá tem,
que o rei da Pimenta
lhe tomara,
fomos tomar-lha, e
sucedeu-nos bem.
Com üa armada grossa,
que ajuntara
o vizo-rei de Goa, nos
partimos
com toda a gente
d'armas que se achara,
e com pouco trabalho
destruímos
a gente no curvo arco
exercitada;
com mortes, com
incêndios, os punimos.
Era a ilha com águas
alagada,
de modo que se andava
em almadias;
enfim, outra Veneza
trasladada.
Nela nos detivemos sós
dous dias,
que foram para alguns
os derradeiros,
que passaram de Estige
as águas frias.
Que estes são os
remédios verdadeiros
que para a vida estão
aparelhados
aos que a querem ter
por cavaleiros.
Oh, lavradores
bem-aventurados!
Se conhecessem seu
contentamento,
como vivem no campo
sossegados!
Dá-lhes a justa terra
o mantimento,
dá-lhes a fonte clara
a água pura,
mungem suas ovelhas
cento a cento.
Não vêm o mar irado, a
noite escura,
por ir buscar a pedra
do Oriente;
não temem o furor da
guerra dura.
Vive um com suas
árvores contente,
sem lhe quebrar o sono
sossegado
o cuidado do ouro
reluzente.
Se lhe falta o vestido
perfumado,
e da fermosa cor
assíria tinto,
e dos torçais atálicos
lavrado;
se não tem as delicias
de Corinto,
e se de Pário os
mármores lhe faltam,
o piropo, a esmeralda,
e o jacinto;
se suas casas d'ouro
não se esmaltam,
esmalta-se-lhe o campo
de mil flores,
onde os cabritos seus,
comendo, saltam.
Ali amostra o campo
várias cores,
vêm-se os ramos pender
co fruto ameno,
ali se afina o canto
dos pastores:
ali cantara Títiro e
Sileno.
Enfim, por estas
partes caminhou
a sã justiça para o
Céu sereno.
Ditoso seja aquele que
alcançou
poder viver na doce
companhia
das mansas ovelhinhas
que criou!
Este, bem facilmente
alcançaria
as causas naturais de
toda a cousa:
como se gera a chuva e
neve fria;
os trabalhos do Sol,
que não repousa;
e porque nos dá a Lua
a luz alheia,
se tolher-nos de Febo
os raios ousa;
e como tão depressa o
Céu rodeia;
e como um só, os
outros traz consigo;
e se é benina ou dura
Citereia.
Bem mal pode entender
isto que digo
quem há-de andar
seguindo o fero Marte,
que traz os olhos sempre
em seu perigo.
Porém seja, Senhor, de
qualquer arte,
que, posto que a
Fortuna possa tanto,
que tão longe de todo
o bem me aparte,
não poderá apartar meu
duro canto
desta obrigação sua,
enquanto a morte
me não entrega ao duro
Radamanto,
—se para tristes há
tão leda sorte.
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AS VAGAS DA ELEGIA DE CAMÕES
domingo, 18 de dezembro de 2016
sábado, 17 de dezembro de 2016
Duas traduções
Duas traduções

Duas traduções
Rogel Samuel
Traduzir, além de ser uma arte, exercício útil ao escritor, para excitá-lo. Traduzir o poeta que mais amamos faz do trabalho um extremo prazer. Traduzir faz aprender, mergulhar no misterioso subterrâneo do texto e das duas línguas. Poucos tradutores agigantaram o texto original, em colaboração com a origem. No meu insignificante caso digo: ainda hei de tentar traduzir “ Le bateau ivre”, de Rimbaud, com seus 100 versos de ouro puro.
Vejamos um caso de tradução comparada, de Rainer Maria Rilke, mas sem comentário:
O torso arcaico de Apolo,
Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado
Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.
De outro modo erger-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros.
E não tremeria assim, como pele selvagem.
E nem explodiria para além de todas as fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.
(Tradução: Paulo Quintela)
Não, não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta
E brilha. Se não fosse assim a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro, onde o sexo se alteara.
Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.
Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.
(Trad. de Manuel Bandeira)
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