castelos íntimos
parte dourada
casa contemplada
por castelos
castelos ínfimos
quanta maravilha
luzes lantejoulas
fantasias caras
que nem sempre existem
na felicidade
castelos íntimos
parte dourada
de uma casa
ROGEL SAMUEL
A ÉGUA (L. RUAS)
A égua caminhava a passos largos
Por entre a lama espessa, mal cheirosa,
A égua que nasceu de barro e sopro,
Pesada e, ao mesmo tempo, vaporosa.
A égua percorreu todo o passado:
É lenda, é mito, é sombra luminosa;
Galopa semeando vida e morte,
É frágil como a flor e belicosa.
Tem alma muito embora em seu ventre
Aninhe uma fauna tenebrosa
De serpes e batráquios peçonhentos.
A égua chega sempre. Chora, às vezes.
Às vezes, come fezes. Eu a vi
Comendo, em céu de estrelas, uma rosa.
ROMANCE DO CASARÃO (JORGE TUFIC)
Terá dormido o operário
cujos pés calcaram notas
de alguma valsa perdida?
E os persistentes fantasmas
que moram nas dobradiças,
quantas pragas não rogaram?
De tudo oca, no entanto,
a foto já esmaecida
de um rosto branco, insepulto.
Perfil de brumas, rosal
de sonhos que se andaram.
Mãos que ainda tocam nos fusos
e ossadas em dispersão;
estes soluços discretos
ouvidos por trás da queda
do perempto casarão.
O Amazonas é um rio sem história
Rogel Samuel
“O Amazonas é um rio sem história”, disse Raimundo Morais. Mas em Pebas, 186 milhas acima de Tabatinga, James Orton descobriu uma fileira de conchas marinhas em 1867 e elaborou a “teoria do período glacial”, dizendo que a Amazônia tinha sido mar.
Talvez agora, com o desgelo dos pólos, volte a ser. Já se disse que um dia o sertão vai virar mar. Agora o que se diz é que a Amazônia se transforme num deserto, vire sertão, pois parte dela perdeu a capacidade de se defender do fogo, com pequenas queimadas que podem transformar-se em incêndios gigantescos. Isso foi visto em 1997 por Daniel Nepstad, do Woods Hole Research Center, de Massachusetts, depois de uma pesquisa de sete anos.
Para comprovar esta tese catastrofista, em 96 alguns pesquisadores cavaram poços com dez metros de profundidade em cinco áreas diferentes, nas partes devastadas da floresta amazônica. Anos atrás, ao realizar o mesmo exame, haviam encontrado água. Depois não acharam mais nada”.
Eles borrifaram querosene em várias áreas da floresta e acenderam fósforos: os incêndios foram imediatos. Se as árvores ainda contassem com depósitos de água no subsolo, isso não teria acontecido.
Antes a floresta era bem mais úmida, pois as árvores sugam a água do subsolo através de suas raízes e bombeiam vapor através das folhas. É isso que satura a atmosfera e deflagra as chuvas - disse Nepstad.
As reservas subterrâneas de água estariam secando?
A questão amazônica é de extrema complexidade. Será que é impossível conciliar progresso e defesa do meio ambiente?
MANAUS: A DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO
Rogel Samuel
Em 1876 corria um rio de concentrada riqueza às margens daquele rio Negro, sobre o qual se debruça a cidade de Manaus, a minha cidade natal. A extração amazonense dobrava, a cada década. De 1821 a 1830 eram 329 toneladas de borracha. Na década seguinte dá-se a expansão: 2.314 toneladas. De 1841 a 1850, 4.693 toneladas. O grande desenvolvimento foi de 1851 a 1860: 19.383 toneladas. De 1871 a 1880, 60.225 toneladas. Depois chegou a 110.048 toneladas! A cotação da borracha amazonense subia diariamente na Bolsa de Londres. Aumentava a produção dos pneumáticos. O Amazonas, único produtor de látex do mundo. Manaus rica, copiava Paris. Comerciantes enriqueciam da noite para o dia. Ostentava o Teatro Amazonas os seus espelhos de cristal. Os milionários jogavam cartas com anelados dedos pesados de diamantes, arriscando fortunas no Hotel Cassina, no Alcazar, no Éden, no Cassino Julieta. Telhas de Marselha ao luar na Rua dos Remédios, na Rua da Glória. Arquitetura art-nouveau do palácio de Ernest Scholtz - depois Palácio Rio Negro, sede do Governo. Arandelas, bandeiras, implúvio. Intercolúnio. O cunhal, o lambrequim, a voluta, o capitel, a cornija. Arquitrave. Barrete de clérigo, adufa, muxarabi, água-furtada, muiraquitã, envasadura, atleta, estípite. O enxalso, o frontão de canela. Galilé. Pequena Manaus, grande Paris! Lojas, magazines, charutarias, livrarias, alfaiatarias, ourivesarias. Bissoc. Pâtisserie. Du sucre, des fruits, de la crème. A la ville de Paris, Au bon marché, Quartier du temple, Damas do Gabinete Villeroy, Casa Louvre, Livraria Palais Royal (na rua Municipal, n0 85, com as novidades literárias de Paris), a Livraria Universal, Agência Freitas, a Casa Sorbonne (dentro do Grande Hotel), a Confeitaria Bijou, a Padaria Progresso. Faroletes de pedra de morona e de puraquequara. A bela Villa Fany, luxuosíssima. O Cais dos Barés, a Biblioteca Provincial (que incendiou fraudulentamente, para destruir os Arquivos Públicos, nos fundos). O prédio dos Educandos Artífices que deu nome ao bairro. The Amazon Steamship Navigation Co. A Alfândega é um prédio importado, peça por peça, da Inglaterra, montado aqui. Outro edifício, projeto do próprio Gustavo Eiffel, de ferro: o Mercado Municipal. Um Serviço Telefônico serve a cidade. A eletricidade ilumina as ruas de Manaus no início do Século, talvez das primeiras cidades brasileiras a ter este serviço. Calçadas da Praça São Sebastião, em pedras portuguesas pretas e brancas, em ondas que alegorizavam o “encontro das águas” do Negro e Solimões (posteriormente imitadas na praia de Copacabana). Bondes elétricos da Manaus-traways. Consome-se Veuve Clicquot, truffes, champignon. Huntley & Palmers, Cross & Blackwell. A Cork, a Pilsen, o Bordeaux, o fiambre, o Queijo da Serra da Estrella. Lagostas, a Goiabada Christalizada. Charteuse, Anizette. Champagne Duc de Reims. O Vermouth. Água de Vichy. Leite dos Alpes Suíços. Casacas inglesas, o H. J., o pongê, o filó. Bengalas de castão de ouro. Cartolas, luvas, perfumes franceses, lenços de seda. Pistolas de prata e cabo de marfim. Gramophones de Victor. Discos duplos de Caruso. Casas aviadoras. O Amazonas participa da Exposição Comercial de St. Louis, no Missouri, e posteriormente da Exposição Universal de Bruxelas, onde ganha 32 medalhas de ouro, 39 de prata, 70 de bronze, 6 Diplomas de Honra e os 13 Grandes Prêmios. Manaus-Harbour. Tabuleiro de Xadrez. Óperas, óperas, óperas. Diariamente. Prostitutas importadas. A Cervejaria Miranda Correia.
A Praça da Saudade. O Roadway, o Trapiche. Sífilis. Malária. Vidros de Quinino Labarraque. Óleo de Fígado de Bacalhau. Vinho Silva Araújo. Regulador da Madre. Pílulas Rosadas. Café Beirão. Winchesters cabo encerado de mogno. O Asilo de Mendicidade (construído pelo Comendador). A Ponte da Imperatriz, Igarapé da Cachoeira Grande. A Serraria, no Igarapé do Espírito Santo. Banhos no Igarapé das Sete Cacimbas. Buritizal. Jogos, no Parque Amazonense. Ida a Barcelos. Noite no Jirau. Muro do Leprosário do Aleixo. No recanto - o Chalé. Vista da Bomba d’Água. Viagens. Linhas. Manaus-Belém, Manaus-Santa Isabel, Manaus-Iquitos, Manaus-Marari, Manaus-Santo Antônio do Madeira, Manaus-Belém-Baião. Gonçalves Dias no Hotel Cassina. Coelho Neto no palacete da rua Epaminondas. Euclides da Cunha no chalé da Villa Municipal. Os jornais: Amazonas Comercial, O Imparcial, O Rio Negro, Jornal do Comércio. 126 navios trafegam no interior do Amazonas. Vaticanos, gaiolas e chatas. Inaugura-se, às custas de 3,3 milhões de dólares, o Teatro Amazonas, em 1896 - a mais cara e inútil obra faraônica da História do Brasil, milionária e importada, com painéis, centenas de lustres de cristal venezianos, colunas de mármore de várias cores, estátuas de bronze assinadas por grandes mestres, espelhos de cristal, jarrões de porcelana da altura de um homem, tapetes persas - tudo o que, aliás, em 1912 desapareceu, esvaziando-se o Teatro para transformá-lo num depósito de borracha de uma firma americana. Ali o erário público foi enterrado em 10 mil contos de réis: o Teatro Amazonas custou o preço de 5 mil casas luxuosas. O dólar a 3 mil réis. Por 900 contos de réis se constrói o Palácio da Justiça. E por 1 mil e seiscentos contos de réis se constrói o Palácio do Governo, nunca concluído. O Teatro custou 10 mil vidas. Sim: Em 1919 para o Amazonas já tinham chegado 150 mil emigrantes. A borracha naqueles anos foi tão importante quanto o café. O Amazonas exportou 200 mil contos de réis em borracha, contra 300 mil contos do café paulista na mesma época. Em 1908 é fundada a mais antiga universidade do Brasil, em Manaus, com cursos de Direito (o único que sobreviveu), Engenharia, Obstetrícia, Odontologia, Farmácia, Agronomia, Ciências e Letras. Nessa época 12 milhões de francos franceses sumiram, roubados no Governo de Constantino Nery. Encampa-se, fraudulenta e inutilmente, a Manaos Improvements, por 10.500 contos de réis - o preço do Teatro Amazonas. A história de Manaus é um acúmulo de loucuras. O seu signo é o Teatro Amazonas. É difícil compreender a imagem que se tem da Amazônia e de Manaus, esta cidade colocada no meio das selvas que tem como símbolo um grande teatro. Geralmente as cidades tem um símbolo cultural. Nova Iorque é a Estátua da Liberdade, Paris é a Torre Eiffel, o Rio de Janeiro é o Pão de Açúcar. Manaus é o Teatro Amazonas. A essência dominante de Manaus é o Teatro Amazonas, como signo do lazer de uma riqueza teatral, de um luxo de opereta, pelo poder de uma classe dominante enlouquecida pelo ouro negro, ouro de uma inutilidade desvairada.
AS TRÊS COLHERES
ROGEL SAMUEL
São três colheres. Três colheres de prata. Sobre o aparador da cozinha. Isso é tudo. Tudo o que coube do legado de minha avó Antonia. Será que, de toda dor, de toda perda, uma vida, só isso é o que sobra? Será que, além das fotografias velhas, algo há mais que vai permanecer? Onde, onde ficou aquilo tudo que, por tanto tempo, naquela época, prezávamos e que era para nós tão precioso e familiar, próximo e forte? Que aconteceu com o que só como fosca lembrança se esvai na fímbria da saia do horizonte em poente de inverno?
Lembro-me do último poema de Cecília Meireles, o "Cantar de vero amor", dedicado a seu companheiro, Heitor Grillo, que diz:
I
ASSIM aos poucos vai sendo levada
a tua Amiga, a tua Amada!
E assim de longe ouvirás a cantiga
da tua Amada, da tua Amiga.
Abrem-se os olhos - e é de sombra a estrada
para chegar-se à Amiga, à Amada!
Fechem-se os olhos - e eis a estrada antiga
a que levaria à Amada, à Amiga.
(Se me encontrares novamente, nada
te faça esquecer a Amiga, a Amada!
Se te encontrar, pode ser que eu consiga
ser para sempre a Amada Amiga.
II
E assim aos poucos vai sendo levada
a tua Amiga, a tua Amada!
E talvez apenas uma estrelinha siga
a tua Amada, a tua Amiga.
Para muito longe vai sendo levada,
desfigurada e transfigurada.
Sem que ela mesma já não consiga
dizer que era a tua profunda Amiga.
Sem que possa ouvir o que tua alma brade
que era a tua Amiga e que era a tua Amada.
Ah! do que disse nada mais se diga.
Vai-se a tua Amada - vai-se a tua Amiga!
Ah! do que era tanto, não resta mais nada...
Mas houve essa Amiga! mas houve essa Amada!
Cecília compôs esses versos em São Paulo, em janeiro de 1964. Ela deve ter escrito esses versos com lágrimas nos olhos. Estava morrendo, consumida por um câncer. Toda vez que leio esses versos me confronto com o horror da morte. Ela os escreveu em janeiro e faleceu em 9 de novembro, do mesmo ano, no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. (Tenho horror a hospital, essas casas de tortura – passo mal só em avistá-los de longe: no mundo que minha imaginação figura eles seriam completamente abolidos – todas as pessoas teriam o direito de morrer em paz, em suas casas, de morte natural).
De minha avó Antonia Cellis sobraram três colheres de prata. São três colheres maciças, nobres, pesadas, como era seu caráter. Nelas está ainda escrito, bem forte, "Christofle". O fabricante francês: Charles Christofle. Era uma época de riqueza, para ela. Antes de escrever esta crônica visitei o belo site http://www.christofle.com/. Ainda hoje charmoso, elegante, caro. Desde 1830. Minha família conheceu momentos de grande riqueza, e momentos de quase miséria. Meu avô Maurice, alsaciano, grande comerciante de borracha no Amazonas, terminou sem nada. São três colheres «Chinon», estilo Louis Philippe, típico do Século XVIII e tradicionalmente chamado "Vieux Paris". O Chinon se caracteriza pela sobriedade. Existe em Christofle prateado e em prata maciça. Lição do site, lição da Internet.
São três colheres... "Ah! do que era tanto, não resta mais nada..." - só três colheres de prata, sem que se possa ouvir como era profunda a tua alma. « Sem que ela mesma já não consiga dizer que era a tua profunda Amiga».
E assim aos poucos foi sendo levada, a minha amiga, a minha amada, "Ah! do que disse nada mais se diga".
Abrem-se os olhos - e é de sombra a estrada
para chegar-se à Amiga, à Amada!
Fechem-se os olhos - e eis a estrada antiga
a que levaria à Amada, à Amiga.
Tudo aquilo era se esvaiu, já me parece longínquo, fina gaze. Meu Deus! A vida é mesmo um sonho, uma visão de um mágico show. Triste ou bela, sólida ou frágil, "a vida leva-a o vento", escreveu poeta João de Deus (1830-1896), no seu "Campo de flores":
A vida é o dia de hoje,
a vida é ai que mal soa,
a vida é sombra que foge,
a vida é nuvem que voa;
a vida é sonho tão leve
que se desfaz como a neve
e como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é folha que cai!A vida é flor na corrente,
a vida é sopro suave,
a vida é estrela cadente,
voa mais leve que a ave:
Nuvem que o vento nos ares,
onda que o vento nos mares
uma após outra lançou,
a vida – pena caída
da asa de ave ferida -
de vale em vale impelida,
a vida o vento a levou!
Não, nada,ninguém define a vida que esses versos escorregadios na fluidez da vida, o dia de hoje, o que mal soa, a sombra o que foge voa nuvem sonho desfaz neve fume se esvai um momento um pensamento vento cai corrente sopro leve ave ares pena caída - "a vida o vento a levou!". João de Deus, irmão espiritual de Cecília, como ela diz:
Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
a luz que nesta vida me guiava,
olhos fitos na qual até contava
ir os degraus do túmulo descendo.Em se ela anuviando, em a não vendo,
já se me a luz de tudo anuviava;
despontava ela apenas, despontava
logo em minha alma a luz que ia perdendo.
Alma gémea da minha, e ingénua e pura
como os anjos do céu (se o não sonharam...)
quis mostrar-me que o bem bem pouco dura!
Não sei se me voou, se ma levaram;
nem saiba eu nunca a minha desventura
contar aos que inda em vida não choraram ...
(As três colheres de prata me olham do aparador.)
Casa tomada
Julio Cortázar
Gostávamos da casa porque, além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.
Acostumamo-nos Irene e eu a persistir sozinhos nela, o que era uma loucura, pois nessa casa poderiam viver oito pessoas sem se estorvarem. Fazíamos a limpeza pela manhã, levantando-nos às sete horas, e, por volta das onze horas, eu deixava para Irene os últimos quartos para repassar e ia para a cozinha. O almoço era ao meio-dia, sempre pontualmente; já que nada ficava por fazer, a não ser alguns pratos sujos. Gostávamos de almoçar pensando na casa profunda e silenciosa e em como conseguíamos mantê-la limpa. Às vezes chegávamos a pensar que fora ela a que não nos deixou casar. Irene dispensou dois pretendentes sem motivos maiores, eu perdi Maria Esther pouco antes do nosso noivado. Entramos na casa dos quarenta anos com a inexpressada idéia de que o nosso simples e silencioso casamento de irmãos era uma necessária clausura da genealogia assentada por nossos bisavós na nossa casa. Ali morreríamos algum dia, preguiçosos e toscos primos ficariam com a casa e a mandariam derrubar para enriquecer com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos com toda justiça, antes que fosse tarde demais.
Irene era uma jovem nascida para não incomodar ninguém. Fora sua atividade matinal, ela passava o resto do dia tricotando no sofá do seu quarto. Não sei por que tricotava tanto, eu penso que as mulheres tricotam quando consideram que essa tarefa é um pretexto para não fazerem nada. Irene não era assim, tricotava coisas sempre necessárias, casacos para o inverno, meias para mim, xales e coletes para ela. Às vezes tricotava um colete e depois o desfazia num instante porque alguma coisa lhe desagradava; era engraçado ver na cestinha aquele monte de lã encrespada resistindo a perder sua forma anterior. Aos sábados eu ia ao centro para comprar lã; Irene confiava no meu bom gosto, sentia prazer com as cores e jamais tive que devolver as madeixas. Eu aproveitava essas saídas para dar uma volta pelas livrarias e perguntar em vão se havia novidades de literatura francesa. Desde 1939 não chegava nada valioso na Argentina. Mas é da casa que me interessa falar, da casa e de Irene, porque eu não tenho nenhuma importância. Pergunto-me o que teria feito Irene sem o tricô. A gente pode reler um livro, mas quando um casaco está terminado não se pode repetir sem escândalo. Certo dia encontrei numa gaveta da cômoda xales brancos, verdes, lilases, cobertos de naftalina, empilhados como num armarinho; não tive coragem de lhe perguntar o que pensava fazer com eles. Não precisávamos ganhar a vida, todos os meses chegava dinheiro dos campos que ia sempre aumentando. Mas era só o tricô que distraía Irene, ela mostrava uma destreza maravilhosa e eu passava horas olhando suas mãos como puas prateadas, agulhas indo e vindo, e uma ou duas cestinhas no chão onde se agitavam constantemente os novelos. Era muito bonito.
Como não me lembrar da distribuição da casa! A sala de jantar, lima sala com gobelins, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá para a rua Rodríguez Pena. Somente um corredor com sua maciça porta de mogno isolava essa parte da ala dianteira onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos e o salão central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um corredor de azulejos de Maiorca, e a porta cancela ficava na entrada do salão. De forma que as pessoas entravam pelo corredor, abriam a cancela e passavam para o salão; havia aos lados as portas dos nossos quartos, e na frente o corredor que levava para a parte mais afastada; avançando pelo corredor atravessava-se a porta de mogno e um pouco mais além começava o outro lado da casa, também se podia girar à esquerda justamente antes da porta e seguir pelo corredor mais estreito que levava para a cozinha e para o banheiro. Quando a porta estava aberta, as pessoas percebiam que a casa era muito grande; porque, do contrário, dava a impressão de ser um apartamento dos que agora estão construindo, mal dá para mexer-se; Irene e eu vivíamos sempre nessa parte da casa, quase nunca chegávamos além da porta de mogno, a não ser para fazer a limpeza, pois é incrível como se junta pó nos móveis. Buenos Aires pode ser uma cidade limpa; mas isso é graças aos seus habitantes e não a outra coisa. Há poeira demais no ar, mal sopra uma brisa e já se apalpa o pó nos mármores dos consoles e entre os losangos das toalhas de macramê; dá trabalho tirá-lo bem com o espanador, ele voa e fica suspenso no ar um momento e depois se deposita novamente nos móveis e nos pianos.
Lembrarei sempre com toda a clareza porque foi muito simples e sem circunstâncias inúteis. Irene estava tricotando no seu quarto, por volta das oito da noite, e de repente tive a idéia de colocar no fogo a chaleira para o chimarrão. Andei pelo corredor até ficar de frente à porta de mogno entreaberta, e fazia a curva que levava para a cozinha quando ouvi alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca. O som chegava impreciso e surdo, como uma cadeira caindo no tapete ou um abafado sussurro de conversa. Também o ouvi, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que levava daqueles quartos até a porta. Joguei-me contra a parede antes que fosse tarde demais, fechei-a de um golpe, apoiando meu corpo; felizmente a chave estava colocada do nosso lado e também passei o grande fecho para mais segurança.
Entrei na cozinha, esquentei a chaleira e, quando voltei com a bandeja do chimarrão, falei para Irene:
— Tive que fechar a porta do corredor. Tomaram a parte dos fundos.
Ela deixou cair o tricô e olhou para mim com seus graves e cansados olhos.
— Tem certeza?
Assenti.
— Então — falou pegando as agulhas — teremos que viver deste lado.
Eu preparava o chimarrão com muito cuidado, mas ela demorou um instante para retornar à sua tarefa. Lembro-me de que ela estava tricotando um colete cinza; eu gostava desse colete.
Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou numa garrafa de Hesperidina de muitos anos. Freqüentemente (mas isso aconteceu somente nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza.
— Não está aqui.
E era mais uma coisa que tínhamos perdido do outro lado da casa.
Porém também tivemos algumas vantagens. A limpeza simplificou-se tanto que, embora levantássemos bem mais tarde, às nove e meia por exemplo, antes das onze horas já estávamos de braços cruzados. Irene foi se acostumando a ir junto comigo à cozinha para me ajudar a preparar o almoço. Depois de pensar muito, decidimos isto: enquanto eu preparava o almoço, Irene cozinharia os pratos para comermos frios à noite. Ficamos felizes, pois era sempre incômodo ter que abandonar os quartos à tardinha para cozinhar. Agora bastava pôr a mesa no quarto de Irene e as travessas de comida fria.
Irene estava contente porque sobrava mais tempo para tricotar. Eu andava um pouco perdido por causa dos livros, mas, para não afligir minha irmã, resolvi rever a coleção de selos do papai, e isso me serviu para matar o tempo. Divertia-nos muito, cada um com suas coisas, quase sempre juntos no quarto de Irene que era o mais confortável. Às vezes Irene falava:
— Olha esse ponto que acabei de inventar. Parece um desenho de um trevo?
Um instante depois era eu que colocava na frente dos seus olhos um quadradinho de papel para que olhasse o mérito de algum selo de Eupen e Malmédy. Estávamos muito bem, e pouco a pouco começamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.
(Quando Irene sonhava em voz alta eu perdia o sono. Nunca pude me acostumar a essa voz de estátua ou papagaio, voz que vem dos sonhos e não da garganta. Irene falava que meus sonhos consistiam em grandes sacudidas que às vezes faziam cair o cobertor ao chão. Nossos quartos tinham o salão no meio, mas à noite ouvia-se qualquer coisa na casa. Ouvíamos nossa respiração, a tosse, pressentíamos os gestos que aproximavam a mão do interruptor da lâmpada, as mútuas e freqüentes insônias.
Fora isso tudo estava calado na casa. Durante o dia eram os rumores domésticos, o roçar metálico das agulhas de tricô, um rangido ao passar as folhas do álbum filatélico. A porta de mogno, creio já tê-lo dito, era maciça. Na cozinha e no banheiro, que ficavam encostados na parte tomada, falávamos em voz mais alta ou Irene cantava canções de ninar. Numa cozinha há bastante barulho da louça e vidros para que outros sons irrompam nela. Muito poucas vezes permitia-se o silêncio, mas, quando voltávamos para os quartos e para o salão, a casa ficava calada e com pouca luz, até pisávamos devagar para não incomodar-nos. Creio que era por isso que, à noite, quando Irene começava a sonhar em voz alta, eu ficava logo sem sono.)
É quase repetir a mesma coisa menos as conseqüências. Pela noite sinto sede, e antes de ir para a cama eu disse a Irene que ia até a cozinha pegar um copo d'água. Da porta do quarto (ela tricotava) ouvi barulho na cozinha ou talvez no banheiro, porque a curva do corredor abafava o som. Chamou a atenção de Irene minha maneira brusca de deter-me, e veio ao meu lado sem falar nada. Ficamos ouvindo os ruídos, sentindo claramente que eram deste lado da porta de mogno, na cozinha e no banheiro, ou no corredor mesmo onde começava a curva, quase ao nosso lado.
Sequer nos olhamos. Apertei o braço de Irene e a fiz correr comigo até a porta cancela, sem olhar para trás. Os ruídos se ouviam cada vez mais fortes, porém surdos, nas nossas costas. Fechei de um golpe a cancela e ficamos no corredor. Agora não se ouvia nada.
— Tomaram esta parte — falou Irene. O tricô pendia das suas mãos e os fios chegavam até a cancela e se perdiam embaixo da porta. Quando viu que os novelos tinham ficado do outro lado, soltou o tricô sem olhar para ele.
— Você teve tempo para pegar alguma coisa? — perguntei-lhe inutilmente.
— Não, nada.
Estávamos com a roupa do corpo. Lembrei-me dos quinze mil pesos no armário do quarto. Agora já era tarde.
Como ainda ficara com o relógio de pulso, vi que eram onze da noite. Enlacei com meu braço a cintura de Irene (acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de partir senti pena, fechei bem a porta da entrada e joguei a chave no ralo da calçada. Não fosse algum pobre-diabo ter a idéia de roubar e entrar na casa, a essa hora e com a casa tomada.
Rogel Samuel
Escreveu Otto Maria Carpeaux: “O próprio Dante distinguiu quatro níveis de interpretação e compreensão do poema: o sentido literal e histórico; o sentido alegórico e tipológico; o sentido topológico ou moral;e, enfim, o sentido analógico ou místico. Mas será este último jamais acessível a nós mortais?” (“Meu Dante”). Mas creio que o grande poema não necessita de interpretação, nem classificação. Basta-se a si próprio. Ou melhor, seu melhor sentido é “veja-me”, “eis-me”. Ou seja: “leia-me”. O poema máximo diz:”Veja como sou bem construído, perfeito”, pois Dante é muito bom de ler, afinal ele conta algo, uma estória, tem um “enredo”, é um livro de viagem, uma viagem fantástica, extraordinária, em versos de certo modo claros, bons de ler, onde se vai a algum lugar, a um certo fim, a uma finalidade, onde se espera chegar em paz, talvez à morte, ou ao eterno, pois vida é uma vereda perigosa, onde os rochedos desabam, desmoronam (...e poucos, só poucos podem dizer no fim: “e ao brilho caminhamos das estrelas”), e esta estranha estrada não diz aonde leva, aonde vai, nem que:
Se prosseguir agora vos apraz,
passai por esta grota, onde se abriu
uma vereda, e chegareis em paz.
FOI NUMA NOITE EM SETEMBRO (ROGEL SAMUEL)
foi numa noite em setembro
que apareceu a tal lua
os lábios naquela água
o corpo dado aos amantes
amantes não sabem nada
que há tempos não se via
a gargalhada menina
da lua de rica rima
poetas que não se fiem
poetas nada sabem
que é até mesmo uma pena
que esta caneta tão prima
não seja feita mais fina
como ponta de punhal
lua (rogel samuel)
hoje em lua cheia
lua de setembro, plena
no meu lago vc aparece
No pátio, o luar
passeia no silêncio
do gato
noite de sedas, noites de segredos
noite de cartas, de telefonemas
de amplos laços esgarçados
noite de fogos, de revelações
soube trazer na noite os mesmos passos
soube fazer naquela mesma taça
velha taça de prata familiar
o sonho o resumo o aparecer na planície
entre o branco das sedas e o azul deserto
quando a praia se abre em grandes constelações
em grandes flores-palácio
e escrito está na glória das belezas
o teu sorriso claro das estrelas plenas
noite de sedas, noite de surpresas
OH, ABRE ALAS, PARA O CARNAVAL ...
Rogel Samuel
«Oh abre alas, que eu quero passar!...» A lembrança mais antiga, a do carnaval de rua. Levavam cadeiras de casa para ver o desfile. Na Avenida. Nada de escola de samba. Blocos, carros, sem alegorias, só fantasias. Só alegria. Serpentinas, confetes coloridos. Muita lança-perfume. De vidro, de metal. Grandes, médias, pequenas. «Oh abre alas, que eu quero passar!...» A Camélia, enorme boneca, passava. Saía do Olímpico. Pandeiros. No baile chic, ou de classe-média. Os ricaços da época tinham seu carnaval no Club, no Municipal, no Copa, classes sociais, distintas. Castas. O carnaval dos pobres não era ali. Pobre, pacífico no cotidiano, quando bebe quer brigar. Briga de morte. Basta uma gracinha para a sua «dama», sai morte, facadas, escopetadas, tiros. O álcool libera a morte, animal feroz. No dia seguinte,
Acorda Maria Bonita
Levanta, vem fazer o café,
Que o dia já vem raiando
E a polícia já está de pé
Assistimos à passagem do carnaval-alegria para o carnaval-espetáculo. Carnaval-mercadoria. Mecanizado. A degradante comercialização da arte do carnaval-bum-bum. A vendibilidade, dessacralização do popular. No carnaval as mulheres eram mais belas nas cabeças dos cabras embriagados:
Se você fosse sincera,
Ô ô ô ô, Aurora
Veja só que bom que era,
Ô ô ô ô, Aurora
Um lindo apartamento
Com porteiro e elevador
E ar refrigerado
Para os dias de calor
Madame antes do nome
Você teria agora
Ô ô ô ô, Aurora...
O carnaval do Rio na Rio Branco. Vinha da Central, descia a Presidente Vargas e terminava na Cinelândia. Ou melhor, terminava no Aterro, o dia nascendo, grande banho de mar à fantasia na praia do Flamengo. O Aterro, na madrugada, vivia o verdadeiro Carnaval, a orgia do Carnaval, liberado, reinando Baco. Não era iluminado, como agora. Agora predomina o mau-gosto, o grosseiro, a música automática da cultura de massa carnavalizada.
Bom era ver a descida do Salgueiro, do morro até a Saens Peña. Aquela majestade salgueirense, cantava:
Apesar
de não possuir grande beleza
Chica da Silva
surgiu no seio
da mais alta nobreza
O contratador
João Fernandes de Oliveira
a comprou
para ser a sua companheira
E a mulata que era escrava
sentiu forte transformação
trocando o gemido da senzala
Pela fidalguia do salão
Talvez o mais belo samba-enredo de escola de samba de todos os tempos. Saiu da genialidade de Noel Rosa de Oliveira e Anescarzinho, em 1963. A fantasia de Chica, usada por Isabel Valença, custou um milhão e trezentos mil. Tinha uma cauda de sete metros. As anáguas precisaram de armação de aço. A peruca media um metro e dez centímetros de altura. Ornada de pérolas. O Salgueiro investiu 40 milhões e 200 mil cruzeiros. Governo Lacerda. O enredo teve a colaboração de Joãozinho Trinta, a convite de Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona. Foi seu primeiro trabalho.
Eu sou da lira
Não posso negar
Rosa de Ouro
é quem vai ganhar
Os novos sambas-enredo seguem o molde morto do que já é aceito. O carnaval-espetáculo, belo, de rua, sucumbe ao excesso de luzes, de refletores, dos olhos das TVS. Sucumbe à busca da fama, um fantasma, contrário á beleza do anonimato singelo da arte popular. Da arte do tempo árabe dos Bailes no Sírio e Libanês.
Atravessamos
o Deserto do Saara
O sol estava quente
E queimou a nossa cara
Sim, gloriosa, Emilinha Borba, cantando, do mestre Braguinha, o hino do existencialismo:
Chiquita bacana
Lá da Martinica
Se veste com uma casca
De banana nanica
Não usa vestido
Não usa calção
Inverno pra ela
É pleno verão
Existencialista
Com toda razão
Só faz o que manda
O seu coração
O carnaval nasceu do culto da dança coletiva. Liberdade em expansão, é nele que um povo se exprime. Emilinha era rainha do povo, heroína de uma consciência social aceita. Ele era linguagem da liberdade de uma opressão de canais de comunicação sentimental, imagem social. No carnaval se ouvia cantar:
Se a canoa não virar
Olê-olê-olá
Eu chego lá
Rema, rema, rema, remador
Quero ver depressa o meu amor
Se eu chegar depois do sol raiar
Ela bota outro em meu lugar
Era a disposição irreverente que responde à realidade, desde «Oh abre alas, que eu quero passar!...», ate «é hoje só, amanhã não tem mais».
A PANTERA 24
ROGEL SAMUEL
Não mais vi Jara. Gastei muito pagando expedições no Amazonas em busca da desaparecida. Aquilo começava a chamar atenção da mídia e era falado em Manaus.
Sem Jara, fiquei em Paris no fundo da mais sombria noite de grande depressão.
Continuei meu curso de costura na “Ecole” e já fazia pequenos trabalhos em diversos ateliers além de dar aula na própria escola. Era fácil desenhar e costurar roupas para aquelas modelos altas e magras. Difícil era fazer o que eu fazia, trabalhar com senhoras de meia idade, ou mesmo idosas, algumas gordas e barrigudas como as freguesas de minha mãe. Mas eu conseguia que elas se sentissem elegantes. Sabia realizar aquele milagre. Era o que eu ensinava na escola, uns truques, com poucos alunos. Mas aquelas senhoras milionárias podiam pagar o trabalho de um estilista de alta costura.
A minha especialidade foi logo reconhecida.
Eu não era um novato, vinha de longe, e a escola reconhecia logo quem sabia fazer o difícil, os melhores em cada especialidade. E nisso era eu um consumado mestre.
Então compreendi havia algo em Jara que sempre dizia - sou livre, sou um animal selvagem, um caçador solitário da floresta.
Sim, Jara era livre, uma solitária pantera.
Mas eu quase morto, no fundo de mim algo morrera para sempre. O meu âmago chorava diariamente.
Mas resolvi esquecê-la, apesar de procurá-la pelo telefone. Depois, nem isso. A pantera é um animal solitário. Ninguém alcança no fundo da noite. Eu sabia disso.
Toquei minha vida. Sempre fui um sobrevivente, um guerrilheiro.
Não mais vivia às custas do dinheiro dela, que tinha acabado. Comecei a ganhar alguma coisa como professor, estilista, costureiro.
Passava a gozar meus instantes. Vivia modestamente. Tomava o café de manhã em casa, ia para as aulas na Escola. Voltava para casa. Dava aulas noturnas. Lia até bem tarde. Era o meu cotidiano.
Apesar do trabalho, vi que meu dinheiro era pouco. Paris é uma cidade cara. Comecei a pensar em morar num quarto no subúrbio.
balada para todo amor
rogel samuel
todo amor é assim, plágio
cópia de cópia de si, no mesmo
sim na sua visibilidade
no seu sexo. Porque todo amor
é aquela alegre repetição
doença de sonho e de tensão
acontecimento que tanto faz
se desfaz. De que não posso
dizer o que quero, ou o que vale
nem mesmo vale a pena
[O amor, seu troco.]
O caro, o espaço, o caroço
o que sobra o que falta e o falho.
Todo amor falece. Não cresce.
Não é o que se espera.
Dele nada sobra. Além do gozo.
Da calma, da cama, do colo
da palavra: só as notas altas
o cantam. As baladas mais.
A exultação mais plena.
Pois todo amor é outra vez
o mesmo amor. É sempre. É pouco.
E só se estabelece quando
impossivelmente fala a falta
do tolo amor, que já é lembrança
excessiva. Que todo amor costura
um tédio. E tem a surpresa da morte.
Somos suas presas em suas levezas.
Corre o fundo tempo por seus lodos
mostra a sua sede à noite morta.
Quem me crê sabe o que digo:
o amor já vem perdido, pois perder-se
é o destino amante. Dele vem logo
o mote o trote o corte a espada
que o amor tem em seus dentes
pois sua loucura é o nada.
[Em 14 de maio de 2.000]
OM AH HUNG BENZÁ GURU PEMÁ SIDDHI HUM