sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

BILAC



BENEDICITE!




Olavo Bilac




Bendito o que, na terra, o fogo fez, e o teto; 
E o que uniu a charrua ao boi paciente e amigo; 
E o que encontrou a enxada; e o que, do chão abjeto, 
Fez, e aos beijos do sol, o ouro brotar do trigo; 

E o que o feno forjou; e o piedoso arquiteto 
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo; 
E o que os fios urdiu; e o que achou o alfabeto; 
E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo; 

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano; 
E o que inventou o canto; e o que criou a lira; 
E o que domou o raio; e o que alçou o aeroplano... 

Mas bendito, entre os mais, o que, no dó profundo, 
Descobriu a Esperança, a divina mentira, 
Dando ao homem o dom de suportar o mundo! 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A ARTE DA GUERRA - SUN TZU





A ARTE DA GUERRA 

Sun Tzu

Antigamente, os guerreiros especialistas se faziam a si mesmos
invencíveis em primeiro lugar, e depois aguardavam para descobrir a vulnerabilidade de seus adversários.
Fazer-te invencível significa conhecer-te a ti mesmo; aguardar para descobrir a vulnerabilidade do adversário significa conhecer os demais.
A invencibilidade está em ti mesmo, a vulnerabilidade no adversário.
Por isto, os guerreiros especialistas podem ser invencíveis, porém não podem fazer que seus adversários sejam vulneráveis.
Se os adversários não tem ordem de batalha sobre o que informar-se, nem negligências ou falhas das quais aproveitar-se, como podes vence-los ainda que estejam bem providos? Por isto é pelo que se disse que a vitória pode ser percebida, porém não fabricada.
A invencibilidade é uma questão de defesa, a vulnerabilidade, uma questão de ataque.
Enquanto não tenhas observado vulnerabilidades na ordem de batalha dos adversários, oculta tua própria formação de ataque, e prepara-te para ser invencível, com a finalidade de preservar-te. Quando os  adversários tem ordens de batalha vulneráveis, é o momento de sair e atacá-los.
A defesa é para tempos de escassez, o ataque para tempos de
abundância.
Os especialistas em defesa se escondem nas profundezas da terra; os especialistas em manobras de ataque se escondem nas mais elevadas alturas do céu. Desta maneira podem proteger-se e lograr a vitória total.
Em situações de defesa, cales as vozes e elimine os cheiros, escondidos como fantasmas e espíritos sob terra, invisíveis para todo o mundo. Em situações de ataque, vosso movimento é rápido e vosso grito fulgurante, veloz como o trovão e o relâmpago, para que teus adversários não possam se preparar, mesmo que venham do céu.
Prever a vitória quando qualquer um pode conhecer não constitui verdadeira destreza. Todo mundo elogia a vitória ganha em batalha, porém essa vitória não é realmente tão boa.
Todos elogiam a vitória na batalha, porém o verdadeiramente desejável é poder ver o mundo do sutil e dar-te conta do mundo do oculto, até o ponto de ser capaz de alcançar a vitória onde não exista forma.
Não requer muita força para levantar um cabelo, não é necessário ter uma vista aguda para ver o sol e a lua, nem se necessita ter muito ouvido para escutar o retumbar do trovão.
O que todo mundo conhece não se chama sabedoria; a vitória sobre  demais obtida por meio da batalha não se considera uma boa vitória 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

CARTA DO SÉCULO



MARIA AZENHA - Carta do século

Óleo – Zademack


Publicado em 30 de novembro de 2015




Somos escravizados por gente maldosa fechada em gabinetes.
Somos escravizados por mentiras que sustentam o planeta.
Somos escravizados pelos medos.
Somos escravizados quando o corpo cai e ninguém lavra a terra.
Somos escravizados, Europas!
Somos escravizados, Américas!
Somo escravizados, Ásias!
Somos escravizados, Montanhas altas,
onde as mães cantam a luz acesa das estrelas!
O medo é a ditadura dos currais das trevas!
Não temos a quem gritar este grito de eremitas e de panteras acossadas.
Continentes todos, passando pelas Áfricas!,
somos escravizados duma ponta a outra da Terra!
Alguns de nós, dentro de paredes.
Outros, fora das casas, em tarefas.
Outros ainda, com as mãos postas em grades, aprisionando as pedras
que lá foram colocadas.
Todos encerrados em gaiolas como cárceres de répteis!
Abaixo a escuridão das tochas.
Têm medo de nós.
Nós temos medo deles.

O medo transformou-se no sursum corda dos escravos atuais!
Fermat é um artista matemático! Cantou o seu belíssimo teorema!
Encontrei-o a caminho de uma terra prometida!
Tenho medo!
Não! Nós não temos medo!
Esse é o mais belo Teorema da humanidade.
O Medo é uma porta de dois sentidos: a de entrada e a de saída!
Não vedes as estrelas e as vacas anunciando tudo isto e muito mais?! ?
Digo: A virgindade das sombras tem alta cotação no mercado!
Sabiam?
Quem negoceia com metáforas democráticas?
Fora a lógica! Fora as falácias!
Os ventos fluem.
O planeta tem árvores cobertas de frutos.
Quem sacia a fome de biliões de crianças nuas?
O Teorema de Fermat é minúsculo comparado com tudo isto.!
A alta finança é um navio que desliza nos subúrbios das grutas!
Foi lá que nasceu a primeira Mentira a ser vendida ao mundo!
Não vos parece, a Terra, um túmulo?
Vede os grandes transatlânticos humanos!
Vede!
Atravessamos a escuridão das fábulas.
Somos cegos de mãos dadas!
Sabemos que não acabou o banquete da miséria.
O anjo guardião das trevas continua vestido de Príncipe.
Príncipe, sim!
Batemos à porta, em turbas, cheios de fome e frio
e já aconteceu a inúmeros suicidarem-se!
O meu coração dá voltas dos pés à cabeça e não tem sossego.
Há árvores cobertas de moscas!
Sinto vontade de gritar a plenos pulmões, mas que não me chegam!
Libertem-nos !
LIBERTEM-SE!
Podemos todos escrever versos! Fazer um Poema Contínuo!
As nuvens escrevem todos os dias mais uma letra!
O Anjo do Medo está sempre escarnecendo!
Tornei-me uma mulher insuportável.
Espanco todos os dias a minha boca com palavras de amor.
Sou uma criança com fome, como todos vós .
Trago em meus lábios o verso mais puro do ódio!
Sinto-me Eléctrica !  Robot!  Maquiavélica!
O que nós fazemos é horrível!  Mentimos
uns aos outros com palavras doces!
Parece que dormi toda a noite num Inferno.
Acordei um monstro vomitando tudo o que engoli durante séculos!
Nem queiram saber!
Os meus olhos são um Abysmo-de-Ver.
Tenho uma Monumental Cabeça como numa escultura de Giacometti.
Os meus braços são janelas sem piedade!
Os meus pés pegam fogo a tudo quanto passa!
Entrámos no Inverno.
A Hora está cada vez mais próxima!
Vivemos uma aventura que dura há mais de vinte séculos.
Não fiquem sentados!
Todos em pé!
Libertemo-nos das amarras!
A partir de agora é em frente que vamos.
É a nossa Hora!



terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Proust e os signos





Proust e os signos

GILLES DELEUZE

2.ed


Forense Universitária – RJ
 2003


http://historiadosamantes.blogspot.com.br/search/label/PROUST%20E%20OS%20SIGNOS



Capítulo I
Os Tipos de Signos

Em que consiste a unidade de A la recherche du temps perdu?
Sabemos ao menos que ela não consiste na memória, nem tam­pouco na lembrança, ainda que involuntária. O essencial da Re­cherche não está na madeleine nem no calçamento. Por um lado, a Recherche, a busca, não é simplesmente um esforço de recor­dação, uma exploração da memória: a palavra deve ser tomada em sentido preciso, como na expressão "busca da verdade". Por outro lado, o tempo perdido não é simplesmente o tempo passa­do; é também o tempo que se perde, como na expressão "perder tempo". É certo que a memória intervém como um meio da bus­ca, mas não é o meio mais profundo; e o tempo passado inter­vém como uma estrutura do tempo, mas não é a estrutura mais profunda. Os campanários de Martinville e a pequena frase mu­sical de Vinteuil, que não trazem à memória nenhuma lembran­ça, nenhuma ressurreição do passado, têm, para Proust, muito mais importância do que a madeleine e o calçamento de Veneza, que dependem da memória, e, por isso, remetem ainda a uma "explicação material".l
Não se trata de uma exposição da memória involuntária, mas do relato de um aprendizado – mais precisamente, do aprendizado de um homem de letras.2 O caminho de Méséglise e o caminho de Guermantes são muito menos fontes de lem­brança do que matérias-primas, linhas do aprendizado. São os dois caminhos de uma "formação". Proust freqüentemente aborda situações como esta: em dado momento o herói não co­nhece ainda determinado fato que virá a descobrir muito mais tarde, quando se desfizer da ilusão em que vivia. Daí o movi­mento de decepções e revelações que dá ritmo a toda a Recher­che. Pode-se evocar o platonismo de Proust – aprender é ainda relembrar; mas, por mais importante que seja o seu papel, a me­mória só intervém como o meio de um aprendizado que a ultra­passa tanto por seus objetivos quanto por seus princípios. A Recherche é voltada para o futuro e não para o passado.
Aprender diz respeito essencialmente aos signos. Os signos são objeto de um aprendizado temporal, não de um saber abs­trato. Aprender é, de início, considerar uma matéria, um obje­to, um ser, como se emitissem signos a serem decifrados, interpretados. Não existe aprendiz que não seja "egiptólogo" de alguma coisa. Alguém só se torna marceneiro tornando-se sen­sível aos signos da madeira, e médico tornando-se sensível aos signos da doença. A vocação é sempre uma predestinação com relação a signos. Tudo que nos ensina alguma coisa emite sig­nos, todo ato de aprender é uma interpretação de signos ou de hieróglifos. A obra de Proust é baseada não na exposição da me­mória, mas no aprendizado dos signos.
Dos signos ela extrai sua unidade e seu surpreendente plu­ralismo. A palavra "signo" é uma das palavras mais freqüentes da Recherche, principalmente na sistematização final, que cons­titui o Tempo redescoberto. A Recherche se apresenta como a exploração dos diferentes mundos de signos, que se organizam em círculos e se cruzam em certos pontos. Os signos são especí­ficos e constituem a matéria desse ou daquele mundo. Os perso­nagens secundários já o demonstram: Norpois e o código diplomático, Saint-Loup e os signos estratégicos, Cottard e os sintomas médicos. Pode-se ser muito hábil em decifrar os signos de uma especialidade, mas continuar idiota em tudo o mais, como o caso de Cottard, grande clínico. Além disso, num domí­nio comum, os mundos se fecham: os signos dos Verdurin não funcionam entre os Guermantes; inversamente, o estilo de Swann ou os hieróglifos de Charlus também não funcionam entre os Verdurin. A unidade de todos os mundos está em que eles formam sistemas de signos emitidos por pessoas, objetos, maté­rias; não se descobre nenhuma verdade, não se aprende nada, se não por decifração e interpretação. Mas a pluralidade dos mundos consiste no fato de que estes signos não são do mesmo tipo, não aparecem da mesma maneira, não podem ser decifra­dos do mesmo modo, não mantêm com o seu sentido uma rela­ção idêntica. Que os signos formam ao mesmo tempo a unidade e a pluralidade da Recherche, esta é a hipótese que devemos ve­rificar ao considerarmos os mundos de que o herói participa di­retamente.,
O primeiro mundo da Recherche é o da mundanidade. Não existe meio que emita e concentre tantos signos em espaços tão reduzidos e em tão grande velocidade. Na verdade, estes signos não são homogêneos. Em um mesmo momento eles se diferen­ciam, não somente segundo as classes, mas segundo "famílias espirituais" ainda mais profundas. De um momento para outro eles evoluem, imobilizam-se ou são substituídos por outros sig­nos. Assim, a tarefa do aprendiz é compreender por que alguém é "recebido" em determinado mundo e por que alguém deixa de sê-lo; a que signos obedecem esses mundos e quem são seus le­gisladores e seus papas. Na obra de Proust, Charlus é o mais pro­digioso emissor de signos, pelo seu poder mundano, seu orgulho, seu senso teatral, seu rosto e sua voz. Mas Charlus, movido pelo amor, não é nada nos salões dos Verdurin; mesmo no seu próprio mundo, acabará por não ser mais nada quando as leis implícitas tiverem mudado. Qual é, então, a unidade dos signos mundanos? Um cumprimento do duque de Guermantes deve ser interpretado e, neste caso, os riscos de erro são tão grandes quanto num diagnóstico. O mesmo acontece com uma simples mímica da Sra. Verdurin.
O signo mundano surge como o substituto de uma ação ou de um pensamento, ocupando-lhes o lugar. Trata-se, portanto, de um signo que não remete a nenhuma outra coisa, significação transcendente ou conteúdo ideal, mas que usurpou o su­posto valor de seu sentido. Por esta razão a mundanidade, julgada do ponto de vista das ações, é decepcionante e cruel e, do ponto de vista do pensamento, estúpida. Não se pensa, não se ag, mas emitem-se signos. Nada engraçado é dito em casa da Sra. Verdurin e esta não ri, mas Cottard faz sinal de que está di­zendo alguma coisa engraçada, a Sra. Verdurin faz sinal de que ri e este signo é tão perfeitamente emitido que o Sr. Verdurin, para não parecer inferior, procura, por sua vez, uma mímica apropriada. A Sra. de Germantes dá, muitas vezes, mostras de um coração duro e de pouca inteligência, mas emitirá sempre signos encantadores. Ela nada faz por seus amigos, não pensa como eles, emite-lhes signos. O signo mundano não remete a alguma coisa; ele a "substitui", pretende valer por seu sentido. Antecipa ação e pensamento, anula pensamento e ação, e se declara suficiente. Daí seu aspecto estereotipado e sua vacuida­de, embora não se possa concluir que esses signos sejam despre­zíveis. O aprendizado seria imperfeito e até mesmo impossível se não passasse por eles. Eles são vazios, mas essa vacuidade lhes confere uma perfeição ritual, como que um formalismo que não se encontrará em outro lugar. Somente os signos mundanos são capazes de provocar uma espécie de exaltação nervosa, expri­mindo sobre nós o efeito das pessoas que sabem produzi-los.3
3. CG 426-431.
O segundo círculo é o do amor. O encontro Charlus-Jupien leva o leitor a assistir à mais prodigiosa troca de signos. Apaixo­nar-se é individualizar alguém pelos signos que traz consigo ou emite. É torna-se sensível a esses signos, aprendê-los  (como a lenta individualização de Albertina no grupo das jovens). É possível que a amizade se nutra de observação e de conversa, mas o amor nasce e se alimenta de interpretação silenciosa. O ser amado aparece como um signo, uma "alma": exprime um mundo possível, desconhecido de nós. O amado implica, envol­ve, aprisiona um mundo, que é preciso decifrar, isto é, in­terpretar. Trata-se mesmo de uma pluralidade de mundos; o pluralismo do amor não diz respeito apenas à multiplicidade dos seres amados, mas também à multiplicidade das almas ou dos mundos contidos em cada um deles. Amar é procurar explicar, desenvolver esses mundos desconhecidos que permanecem en­volvidos no amado. É por essa razão que é tão comum nos apaixonarmos por mulheres que não são do nosso "mundo", nem mesmo do nosso tipo. Por isso, também as mulheres amadas es­tão muitas vezes ligadas a paisagens que conhecemos tanto a ponto de desejarmos vê-las  refletidas nos olhos de uma mulher, mas que se refletem, então, de um ponto de vista tão misterioso que constituem para nós como que países inacessíveis, desco­nhecidos: Albertina envolve, incorpora, amalgama "a praia e a impetuosidade das ondas". Como poderíamos ter acesso a uma paisagem que não é mais aquela que vemos, mas, ao contrário, aquela em que somos vistos? "Se me vira, que lhe poderia eu sig­nificar? Do seio de que universo me distinguia ela?"4

MAUREEN O´HARA MORRE AOS 95 ANOS


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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

SANTOS CHOCANO


Las Orquídeas

Anforas de cristal, airosas galas
de enigmáticas formas sorprendentes,
diademas propias de apolíneas frentes,
adornos dignos de fastuosas salas.
En los nudos de un tronco hacen escalas;
y ensortijan sus tallos de serpientes,
hasta quedar en la altitud pendientes,
a manera de pájaros sin alas.
Tristes como cabezas pensativas,
brotan ellas, sin torpes ligaduras
de tirana raíz, libres y altivas;
porque también, con lo mezquino en guerra,
quieren vivir, como las almas puras,
sin un solo contacto con la tierra.

ADÉLIA PRADO






  


ADÉLIA PRADO

  
  

     Quando o encontro com alguma coisa provoca em mim um sentimento de estranhamento e de beleza, eu estou tendo, nesse momento, uma experiência poética. Essa experiência é sempre um sentimento de gozo, uma coisa prazerosa. É um sentimento de plenitude, porque ele preenche uma falta em mim, ele me tira da orfandade, porque me dá um pai, um sentido, uma ordem supra-real que me acolhe e na qual eu fico inserida.  
     Eu vejo algo quando estou tendo uma experiência poética. Eu vejo algo, é uma visão, é uma aparição. Essa experiência toca um lugar em mim onde a lógica não alcança, onde os argumentos racionais não têm ressonância. Não é um argumento que me demove dessa experiência. A pessoa que está tendo uma experiência na ordem da poesia, e isso é uma experiência dada a todos nós, ela diz assim: “Eu sei que é assim, é porque é, é como ver Nossa Senhora”. Não há como demover uma pessoa de uma visão dessa ordem, ela sabe que é assim.   
     E o discurso conotativo, quando eu quero dizer para outra pessoa que tive esta experiência de estranhamento e de beleza diante das coisas, não funciona, o discurso filosófico não adianta nada, nem o discurso doutrinário. Eu preciso, então, para registrar essa experiência, de uma língua nova, de um signo novo, uma ordem que eu chamo ordem simbólica. É isso que vai segurar para mim essa experiência porque a arte, nesse caso, é pura expressão que resolve e que sabe contar o que eu estou sentindo. Por isso a arte, a poesia, qualquer arte (cinema, teatro, pintura) é expressão pura, nunca é um discurso a respeito de alguma coisa. Ela tem de ser a coisa mesma.   
     Nós vamos a um teatro, por exemplo, ou ao cinema e, quando a coisa começa a ficar discursiva, a gente sai, a gente não agüenta, por isso a gente não suporta a arte engajada. A arte engajada é uma idéia tentando ser arte, porque a experiência da beleza pede uma linguagem que é pura expressão. Se uma rosa me comove e eu vou fazer um poema, ele não pode ser a respeito da rosa, porque a rosa eu vou ao jardim e olho para ela, ela já está lá, ela não precisa de um texto que fale a respeito. O poema tem de ser a própria rosa. E há poemas tão perfeitos, tão maravilhosos que as pessoas, às vezes, vão conferir um céu estrelado, depois que viram o céu estrelado no poema. Ou, então, conhecem o mar melhor no texto do que o mar que vêem todo o dia, por causa do poder de simbolização da linguagem poética.  
     Como a Vera já falou, a poesia é, na sua essência última, a revelação do real. Ela é maravilhosa porque ver o real é ver a beleza. Isso não é uma coisa minha. Santo Tomás de Aquino já falava isso. Todo o ser é bom, o que vale dizer todo o ser é belo. Se eu conseguir encontrar a realidade dessa taça, quem vai me mostrar isso não são os meus olhos comuns, não é o discurso da ciência, nem da filosofia a respeito, mas é o discurso da arte. Então, a pintura desse copo vai me mostrar a alma do copo, e essa visão é sempre de beleza. Ela constrange a gente. A beleza é uma coisa constrangedora. Este é o único recado que a arte tem: de me colocar diante da beleza. E beleza é igual à realidade. Isso aqui anula esse preconceito, mais infeliz do que qualquer outro, de que o artista é aquele que tem os pés fora da realidade. É exatamente o contrário: ele é que está centrado no real e que o revela. Eu sinto assim. Tem uns ipês que eu vi nessa viagem minha, uns ipês-brancos que eu nunca tinha visto, assim, dessa maneira, e certas árvores que a gente tem encontrado por aí, que geram angústia, tal é a beleza, que pede expressão. Então, eu preciso de língua para isso, e essa língua é a arte. No meu caso, a poesia. Essa experiência é, no seu substrato íntimo, uma experiência de natureza religiosa. Ela é mística por uma razão muito simples: ela me religa a um centro de natureza inconsciente que me instala numa ordem de pura felicidade. Por que a gente vai a um teatro triste, a um cinema triste? A gente vai para chorar, a gente sabe que é triste, vai e chora, e vai assim mesmo. Não é por causa da tristeza em si, é por causa da informação da tristeza na beleza da obra, é por isso. E a obra toca aquilo em mim onde nada mais toca, ela me comove, ela é dirigida aos afetos, por isso esse poder arrasador da arte.  
     Onde eu aprendi mais sobre educação de filhos foi numa peça de um cubano cujo nome esqueci, infelizmente, chamada A noite dos assassinos. Então, todo o discurso sobre educação de filhos, sobre relacionamento familiar, às vezes discursos tediosos, aquilo foi dito de maneira artística no teatro, e a peça comove, arrasta e desarma. Eu não tenho o que discutir com a obra de arte. Eu discuto com filósofo, eu discuto com político, com toda a ordem de discursos, mas eu não tenho elementos para discutir com a arte, porque ela não permite isso, é uma outra ordem de conhecimento e de abordagem, é a ordem do afeto. O mundo é movido pelos afetos. É o afeto que move o mundo, não é a pura ciência.  
     Essa experiência atinge todos os níveis da realidade física, psicológica, espiritual. É uma experiência que é dada a todo o mundo. A única diferença entre o autor e o leitor é que o autor, supõe-se pelo menos, tem elementos e poder para simbolizar uma experiência. E, quando ele dá o teatro, quando ele dá o cinema, quando ele dá o poema, o leitor fala assim: “Ah, eu sei o que que é isso! Como é que ele sabe o que eu também sei?” É exatamente porque a obra me espelha, é o caráter universal que ela tem. Essa é uma participação no inconsciente coletivo onde nos movemos. A arte me espelha e eu posso falar: “Sou humana, olha lá, a minha experiência verbalizada e simbolizada”. Por isso a arte é tão solidária, é tão fraterna. Ele me salva da angústia de não ter um verbo, o artista tem para mim.  
     Lá em Curitiba, um grupo de teatro fez, numa praça, uma representação com uma bonequinha cantando, uma espécie de fantoche. E tinha pessoas muito simples, com escolaridade muito pequena, vendo o espetáculo. Na hora em que acabou, uma moça perguntou: “Vocês gostaram?” Cada um deu uma opinião e um menino, um gari, que estava lá cuidando do jardim, falou assim: “Eu gostei muito da gesticulação”. Ele falou aquilo de uma forma tão cidadã, ele tornou-se um cidadão quando usou uma palavra pouco usual para ele, porque foi oferecido para ele um signo, uma verbalização da experiência da beleza. Então é isso que a poesia faz.  
     Eu escolhi uns poeminhas, que, espero, ofereçam para vocês uma oportunidade de verificação dessa “teoria” sobre o que eu acho que é poesia.   
  
  



Briga no beco 

  
  

Encontrei meu marido às três horas da tarde  
com uma loura oxidada.  
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.  
Ataquei-os por trás com mão e palavras  
que nunca suspeitei conhecesse.  
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,  
gritei meu urro, a torrente de impropérios.  
Ajuntou gente, escureceu o sol,  
a poeira adensou como cortina.  
Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,  
sem me reter, peixe-piranha, bicho pior, fêmea-ofendida,  
uivava.  
Gritei, gritei, gritei, até a cratera axaurir-se.  
Quando não pude mais fiquei rígida,   
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,  
eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,  
as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo graças.  
Desde então faço milagres.   
   
Casamento  
Há mulheres que dizem:  
Meu marido, se quiser pescar, pesque,  
mas que limpe os peixes.  
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,   
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.  
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,  
de vez em quando os cotovelos se esbarram,  
ele fala coisas como “este foi difícil”  
“prateou no ar dando rabanadas”  
e faz o gesto com a mão.  
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez  
atravessa a cozinha como um rio profundo.  
Por fim, os peixes na travessa,  
vamos dormir.  
Coisas prateadas espocam:  
somos noivo e noiva.  
   
A esfinge  
Ofélia tem os cabelos tão pretos  
como quando casou.  
Teve nove filhos, sendo que  
tirante um que é homossexual  
e outro que mexe com drogas,   
os outros vão levando no normal.  
Só mudou o penteado e botou dentes.  
Não perdeu a cintura, nem  
aquele ar de ainda serei feliz,  
inocente e malvada  
na mesma medida que eu,  
que insisto em entender  
a vida de Ofélia e a minha.  
Ainda hoje passou de calça comprida  
a caminho da cidade.  
Os manacás cheiravam  
como se o mundo não fosse o que é.  
Ora, direis. Ora digo eu. Ora, ora.  
Não quero contar histórias,  
porque história é excremento do tempo.  
Queria dizer-lhes é que somos eternos,   
eu, Ofélia e os manacás.  
   
Duas horas da tarde no Brasil  
Tanto quanto a vida amo este calor  
esta claridade metafísica,  
este pequeno milagre:  
no ar tórrido os alecrins de seda não se crestam,  
espalmam como os jovens hebreus cantando na fornalha.  
Quem sofre é meu coração,  
às duas horas da tarde quer rezar.  
Quem me chama é Deus?  
É Seu olho centrífugo o que me puxa?  
A vida tão curta e ainda não tenho estilo,  
palavras como astrolábio desviam-me de meus deveres,  
a forma de um nariz por semanas ocupa-me,  
seu jeito triste de fechar a boca.  
A quem amo enfim?  
Acaso fui seduzida pelo Filho do Homem  
e confundo você, mesquinho,   
e confundo você, vaidoso,  
como o que me quer com ele  
gemendo na sua cama de cruz?  
O europeu diz-se aturdido com o desperdício do sol.  
Obrigada, respondo, com vergonha de carnaval,   
de batuques, de meus quadris excessivos.  
Jesus é búlgaro? Afegão? Holandês da colônia?  
Brasileiro não é. Estranhíssimo sim,  
com seu corpo desnudo e perfumado,  
mendigando carinho, igual ao meu.  
Minha pátria, como as outras, tem folclore,  
cantigas cheias de melancolia.  
Como posso aceitar que morreremos?  
E a alma do povo, a quem aproveitaria?  
Frigoríficos são horríveis  
mas devo poetizá-los  
para que nada escape à redenção:  
Frigorífico do Jibóia  
Carne fresca  
Preço jóia  
De novo quero rezar para não ficar estrangeira  
“meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?”  
Dizei-me quem sois Vós e quem sou eu,  
dizei-me quem sois Vós e quem sou eu. 
  
  



domingo, 29 de novembro de 2015

ADEUS, NAURO MACHADO



CALENDÁRIO

Tomaste parte em nenhuma outra guerra.
Não perdeste pés ou mãos dentro desta.
Não abriste túmulo em nenhum lugar.
Nada quiseste além dos teus haveres.
Teu país de bois na aurora plantados,
levou-o o tempo na usura do ocaso.
Fizeste nada sábado, domingo,
segunda, terça, quarta, quinta e sexta.
Igual a todos, somaste semanas,
Unindo a noite ao dia e o dia às noites.
Escuta: o tempo passa! E o teu passou.
Passou o bonde, o colégio, a criança.
Já o adulto vai-se: está chegando ao fim
como um ronco doído em cosa podre,
como um enlatado para ninguém.
Made in Brazil. Tonel à água lançado
No porto noite. Minha família! Ó alma.

         Masmorra Didática, 1979


FILA INDIANA

Um atrás do outro, atrás um do outro,
ano após ano, ano após outros,
minuto após minuto, século
após séculos, continuam

(a conduzir seus madeiros
na perícia dos próprios dramas).

um após do outro, atrás um do outro,
anos após ano, ano após outros,
minuto após minuto, século
após séculos, e de novo

um atrás do outro, atrás um do outro,
até a surdez final do pó.


AS PRAGAS

Porque não estive às portas de Madri,
de onde escuto, ainda, o “no pasarán”.
Te abjuro, Senhor, enfim, e a Ti,
a quem, outrora, chamei de pai e bom.

Porque não estive às portas de Madri,
lutando, às claras, com porcos-burgueses,
luto e lutarei, em trevas, por aqui,
Te abjurando, Pai, por milhões de vezes.

Entanto, saibam-no todos, e ouvi
que aos homens-bestas, com meus punhos, sorvo-os
enquanto, ao longe, às portas de Madri,
se erguer, incólume, o sangue dos povos!

         Décimo Divisor Comum, 1972


CAXANGÁ

Há um desespero real na palavra,
um desespero contra o desespero,
enlouquecido em tudo que é palavra
incapaz de dizer o real nela,
e um desespero dentro, um desespero
da palavra assentada na palavra,
de palavra assentada nela mesma,
canal e boca de uma angústia virgem,
de um dia novo contra a noite fora
envolvendo de luto os nomes todos:
Antônio, tênis, sonho, árvores, morte.
Sombra dentro de sombra, mas girando
em rodopio eterno, o pião da sombra,
o que fazer da voz, senão clamar
em uivos de absurda sombra, à noite
geradora de braços e destroços
vagando intérminos no extinto brado?



Morreu na madrugada deste sábado (28) o poeta e escritor maranhense Nauro Machado. Aos 80 anos, ele estava internado desde terça (24) em um hospital em São Luís (Maranhão) em razão de uma hérnia de disco. O velório seria realizado, na Academia Maranhense de Letras ainda neste sábado. O enterro será no domingo (29). Traduzido para o inglês, o francês e o alemão Nauro ganhou prêmios e honrarias, inclusive da Academia Brasileira de Letras. Em agosto, recebeu uma homenagem da Academia Maranhense de Letras pelos seus 80 anos. Com 37 livros publicados, o literário autodidata lançou em novembro de 2014 o último trabalho, "Esôfago Terminal". Inspirado na sua luta para superar um câncer de esôfago, é composto de 284 poemas.




Da doença nasce a poesia: Nauro Machado lança O Esôfago Terminal


SÃO LUÍS – Versos memorizados e, somente depois, postos no papel. Assim foi o processo de criação do novo livro do escritor maranhense Nauro Machado. O Esôfago Terminal reúne poemas pensados durante a internação do literário na Casa de Saúde São José, no Rio de Janeiro, enquanto lutava contra um carcinoma no esôfago. O autor, que passou por uma cirurgia, criou 284 poemas sobre enfermidade e morte e, após sair do hospital, recompôs estrofe por estrofe. Em entrevista ao Imirante.com, ele falou sobre a obra que reafirmou qualidades como força e capacidade de memorização.

“Foi escrito durante, aproximadamente, 40 dias. Todo mentalmente. Somente depois passei a mão. Sempre fui assim. Anos atrás, eu perdi o original de um livro chamado Zoologia da Alma. Mandei pelos Correios, e foi extraviado. Eu fiquei desesperado. Consegui reconstituir todo o livro, o que causou a maior surpresa. Vírgula por vírgula o livro foi recomposto”, contou.

Machado ressaltou que escrever poesia sempre foi uma necessidade na sua vida, por isso começou bem cedo, aos 12 anos. “Poesia foi o que sempre fiz na minha vida, a vocação que eu sempre tive. É a justificativa para minha vida que algumas pessoas dizem ser inútil e frustrada. É necessária para a poesia são-luisense” afirma.


Hoje, aos 79 anos, ele entrega uma obra que nasceu do sofrimento no leito de um hospital. O lançamento de O Esôfago Terminal, pela Editora Contraponto, ocorre nesta quarta-feira (12), às 19h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, na Praia Grande.

aviso - l. ruas



aviso - l. ruas

quando vires o pássaro ferido
vagando antes que surja a madrugada
não o tanjas nem o chames
deixa-o voar. não te apiades
deixa o pássaro voar.
ele comeu a estrela
e conserva no desenho do seu vôo
as dimensões incontidas
dos humildes gestos perdidos para sempre.
não chames o pássaro ferido.
não te ouvirá pois não sabes os seus nomes.
e ninguém há de estancar o vôo
que jorra eternamente
de suas vísceras fecundadas
pela essência intocada da estrela
sua prisioneira e amor.
uma estrela de fogo e de basalto.
de basalto e fogo, não esqueças.
e o pássaro mais ferido pela luz
do que pelas cinco pontas da estrela
sempre voará.
deixa o pássaro voar. quando ouvires
o tatalar – apenas ritmo – cansado
mas não vencido
de suas penas molhadas de arrebol
deixa o pássaro voar. não tentes


http://rogel-samuel.blogspot.com.br/2015/11/l-ruas-aparicao-do-clown.html


sábado, 28 de novembro de 2015

COMO CONHECI O BUDISMO - Rogel Samuel

COMO CONHECI O BUDISMO - Rogel Samuel
Meu primeiro professor de Budismo foi um comunista ateu, meu professor de história no Colégio Estadual do Amazonas e se chamava Rodrigo Otávio. Ele era um orador brilhante. Deu uma aula sobre a vida do Buda, que ele nomeou com todas as letras: “Sidharta Gotama Sakyamuni, o Buda, o Desperto”.
Depois falou das Quatro Nobres Verdades.
Aquilo me impressionou. Nunca esqueci. Lembro-me até hoje. Eu devia ter 15/16 anos. 
Com 18 anos vim para o Rio sozinho fazer o vestibular de letras, morei em sórdidos quartos alugados, quase passei fome, logo comecei a dar aulas no Calabouço, em cursinhos e colégios, sobrevivendo à ditadura militar...
Virei vegetariano, participei da diretoria da Cooperativa dos Vegetarianos, que ficava na Praça Tiradentes, em frente à Sociedade Teosófica, onde morava o recém chegado monge Anurudha.
Um dia, com um grupo de amigos íamos acampar numas grutas no estado do Rio, mas começou a chover e o Genaro Quintanilha nos convidou a mudar de planos e ingressar num retiro “com um certo monge budista” que ia ser realizado em Araruama.
O monge era o Ven. Anurudha e então fomos inscrever-nos.
Chegando lá me impressionou aquele estranho e alto homem quase negro, vestido de manto amarelo, que se curvou à nossa chegada e como ia começar o puja, tivemos de assistir.
O Ven. cantava tristemente os sutras e aquela entoação era verdadeiramente hipnótica, como se viesse do fundo da noite escura de 2500 de história da Índia antiga e evocava um ensinamento e um mestre que saía como que de dentro de nossas próprias mentes...
Sobre o retiro eu conto depois.

POSSÍVEL FRAGMENTO DE ABUL-ATAHIA



JORGE TUFIC

POSSÍVEL FRAGMENTO DE ABUL-ATAHIA

Secos provérbios, distração noturna
à luz de chaves mortas, quanta asneira
move as palavras que não têm peneira
para reter o entulho que repugna.
Que olhos canhestros revistando a furna
da existência banal sequer a poeira
da mais restrita fábula caseira
sabem ver nos pedaços de uma urna?
Textos e sombras ardem neste alpendre
no qual, se dorme o corpo, a alma se vende
e o que foi há-de ser quando será.
Ó provérbios sem nome, quanto adorno,
quanto arabesco nesse vão retorno
do pensamento ao mesmo que virá.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

DOIS ORATÓRIOS

CLARISSE DE OLIVEIRA




Dois Oratórios‏


Na casa onde nasci, em Ipanema, havia um anexo no meu quarto, onde colocaram um Oratorio de Jacarandá.
O Oratório tinha uma cruz em cima, também de madeira negra, e incrustada no vértice do
pé e da madeira horizontal, uma cruz de ágata vermelha.
As portas eram entalhadas com ramagens ornamentais e tinham imagens de bronze incrustadas e também incustações de ágata.
Havia uma espécie de mesa diante de quem se ajoelhava, para apoiar os braços e dentro dessa mesa, eram guardados reliquias, livros de missa, e pães e folhas secas dos dias de
Ramos e Santo Antonio.
Ajoelhava-se num acolchoado de veludo violeta e na parte inferior do santuário, um grande medalhão em bronze com a cena da circunsição de Jesus Cristo.
Da cruz que batia no teto do recinto, pendia uma lamparina bizantina em correntes de prata. A lamparina era cheia com óleo e uma pequena chama boiava numa cruzinha
de papelão encerado.
Da minha cama, no quarto adjunto, eu via a lamparina acesa na escuridão.
Santos antigos em madeira entalhada, santos de porcelana e duas cruzes: uma grande,
em marfim, com Jesus entalhado e outra também em marfim com o Salvador.
A vida de minha mãe se deteriorou com os aluguéis baixos das propriedades, que, naquela época era dificil de serem aumentados e o desquite "com comunhão de bens",
que lhe levou a metade da melhor casa e negação de pensão com a declaração de renda
das proriedades - por isso, o Oratorio foi vendido com seus santos.
Eu senti muita falta do Oratorio...era ali que eu me ajoelhava e rezava, me sentindo oprimida por uma vida familiar totalmente em desacordo com minha sensibilidade.
..............................................
Herdeira, do que restou, eu estava em Madurai, Sul da India.
Visitei muitos templos e minha guia na viagem, perguntava:
- É este?
- Não, ele tem umas montanhas baixas atrás...
Depois de perguntar a um taxista do hotel onde estava hospedada por um templo que tinha umas montanhas baixas atrás, e era consagrado ao deus Shiva, o taxista respondeu:
- Eu sei o que a senhora está dizendo... o templo fica fora da cidade, mas amanhã eu levo a senhora lá...
O taxista me levou... de frente ao templo, eu não vi as montanhas, mas entrei descalça com a cabeça baixa, temendo mais uma decepção...foi então, que das paredes do santuário me chocaram os reflexos saturados de saudade de dois séculos...Tive um choque e comecei a chorar; quando quis me aproximar do altar, os hindús fizeram uma corrente com os corpos para impedir a aproximação maculada de uma ocidental. O altar
tinha imagens enegrecidas pelas fumaças dos tabletes de cânfora e o templo não tinha salas amplas, como o de Menakshe - ficou em minha lembrança na volta ao Brasil, depois de por fotos eu enfim encontrar as baixas rochas atrás do templo, a impressão de algo escuro, como o Oratório de jacarandá, que, segundo constava, pertencera à D. Pedro II, Imperador do Brasil. Prontamente, substitui em minhas preces, o Oratorio pelo recinto do Templo do Subramania, Murunga, Filho do deus Shiva.
Do Livro de Missa com capa em marfim entalhado, composto em Portugal e impresso na
França, por milagre, agora em meu poder, herança de minha avó Clarisse Indio do Brazil:
Livro da Missa e da Confissão
com
Os officios dos domingos
e principais festas do Anno
As Vesperas, Semana Santa, e outras devoções
Edição
Feita sobre a do prior d`Abrantes
Revista, emendada e augmentada
por um lente de Theologia
Aprovado por S.E.R. o Arcebispo primaz de Braga
Pariz
Antiga Casa Morizot
La Place, Sanchez E Ca, Editores
3, Rua Séguier.

Ofertorio
Preparou-se o meu coração para o opprobio e miseria; e esperei que alguem comigo se
contristasse, e não houve quem assim o fizesse. Procurei quem me consolasse, e não achei; antes me deram fel por alimento, e na minha sêde me apresentaram vinagre.
Secreta - Concedei, Senhor, como vos rogamos, que este Dom, offerecido aos olhos de vossa magestade, nos alcance a graça de uma piedade sólida e nos adquira o effeito de uma feliz Eternidade. Por Nosso Senhor Jesus Christo, que convosco vive e reina em unidade de Deus Espirito Santo.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

CIDADES


Cidades
  

Rogel Samuel


 Desta janela vejo a torre da capela, entre as árvores, no sopé da montanha. As magnólias reverdecem. O resto é floresta. Que será aquela igrejinha no meio das árvores da floresta ? Uma grande torre de nuvens se ergue no céu, parecendo mais alta do que as mais altas montanhas. Um aeroplano cruza o espaço. Em Katmandhu, quando o céu está limpo e claro, se podem ver as brancas e grandes geleiras dos Himalaias, ao longe, como uma dentadura de reluzente cristal. Eu quero muito voltar para lá, rever Boudanath e Thamel. Há cidades incorporadas na nossa substância mental : Manaus, Sydney, Katmandhu. E esta Poços de Caldas. As cidades são nossas personalidades edificadas em pavimentos e ares. Um dia, um amigo disse, em Manaus : « Amanhã o R. vai-se sentir em casa » porque eu voltava para Rio. Mas eu não consigo ver o Rio dentro de mim, senão quando estou muito longe. Aí me ocorrem imagens, lembranças, músicas. Marchas de carnaval. A estupa de Jerukhanshor, em Boudanath ; o Teatro Amazonas, em Manaus; a casa do Chris, em Portland; a UBC, em Vancouver. Onde eu realmente gostaria de estar? Não sei, não tenho raízes profundas. Um dia Lothar, em Frankfurt, me disse que ele era cidadão das cidades. Ele era da Mendelshonstrasse, onde morava. Em Manaus, morei na rua Sete de Setembro. Pelas janelas dos fundos se via o Rio Negro. Havia um  gavião que morava num buraco perto do telhado da edificação de uma velha fábrica. Todas as tardes, ao por do sol, eu ia de binóculo vê-lo. Parecia uma águia romana, desafiando o espaço, de asas abertas. Aquela fábrica datava da época da borracha. Ficava nos fundos do cinema que havia nas margens do igarapé, creio que Cine Éden, ex-Alcasar, hoje igreja evangélica. As ruas guardam também muito sofrimento, camadas de lembranças acumuladas e mortes. Como os trechos escuros de Paris. Qual a cidade mais alegre ? Depende de cada um, de suas lembranças. E das magnólias. 


(FOTO DE R. SAMUEL)

SYDNEY


A grande graça de Sydney
Acontece no Showgrow
Os hinos os finos sinos
Os trompetes o amor
Não saio daqui mais não
Sydney levo pra onde eu for
Bem tatuada no peito
Que é de namorar direito
Mais fácil é amar em Sydney
Que sua graça maior
É a liberdade de estar


                  ROGEL SAMUEL

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

ESTRASBURGO, PARIS, MANAUS




ESTRASBURGO, PARIS, MANAUS

Rogel Samuel


A caminho do Aeroporto. De volta ao Brasil. Passando pelo Metrô, ali passamos sempre. A feira, estação Duplex. Paris cinzenta, fria, elegante. Minha estada em Estrasburgo decepciona. Cidade cheia de mendigos. Na Praça Kleber, um MacDonald e outras novidades escandalosas. Placas de anúncios coloridos. Um prédio moderno agride a arquitetura. É a FNAC. Decadência. Desemprego. Prostituição. Dificuldade. A cidade anoitece deserta. Sem alma, sem vida. À noite as cidades exibem suas entranhas. 
A catedral continua um esplendor...
Em Paris, uma  chuva fina molha o chão das ruas, põe as folhas das árvores pensativas. 
Como amazonense,  adoro Paris. Manaus, que era miniatura parisiense. Na minha infância, a Casa Louvre, A la ville de Paris, Café da paz, Au  bon marché, Livraria Palais Royal, Casa Sorbonne, Bijou . "Manaus, pequena Paris". No 'Café da paz', no 'Siroco', sorvetes de creme, em bolas. Taças finas. Em frente, o Teatro Amazonas, um monumento ao esplendor, à glória, ao grandioso e adágio do passado, com seus mortos, suas sobrecasacas, seus vestidos de seda rósea, as luvas, deslumbramento dos múltiplos reflexos das quinquilharias de cristal, janelas e bandeiras das portas transformadas em lúcidas placas de reluzente e vívido ouro muito louco, Manaus rica, copia Paris. Comerciantes riquíssimos. Ostenta o Teatro Amazonas os seus reflexos de cristal. Milionários dedos jogam cartas com anelados dedos pesados de diamantes, arriscando fortunas no Hotel Cassina, no Alcazar, no Éden, no Cassino Julieta. Telhas de Marselha ao luar na Rua dos Remédios, na Rua da Glória. Arquitetura art-nouveau do palácio de Ernest Scholtz. Arandelas, bandeiras, implúvio. Intercolúnio. O cunhal, o lambrequim, a voluta, o capitel, a cornija. Arquitrave. Barrete de clérigo, adufa, muxarabi, água-furtada, muiraquitã, envasadura, atleta, estípite. O enxalso, o frontão de canela. Galilé. Lojas, magazines, charutarias, livrarias, alfaiatarias, ourivesarias. Bissoc. Pâtisserie. Du sucre, des fruits, de la crème. A la ville de Paris, Au bon marché, Quartier du temple, Casa Louvre, Livraria Palais Royal na rua Municipal, n0 85,  Livraria Universal, Agência Freitas, Casa Sorbonne dentro do Grande Hotel, a Confeitaria Bijou, a Padaria Progresso. Faroletes de pedra de morona e de puraquequara. Villa Fany. Cais dos Barés, Biblioteca Provincial. Um Serviço Telefônico serve a cidade. Manaus, a  primeira cidade brasileira a ter eletricidade. Calçadas da Praça São Sebastião, em pedras portuguesas pretas e brancas, em ondas, alegorizavam o 'encontro das águas' Negro e Solimões (posteriormente imitadas na praia de Copacabana). Bondes elétricos da Manaus-traways. Veuve Clicquot, truffes, champignon. Huntley & Palmers, Cross & Blackwell. A Cork, a Pilsen, o Bordeaux, o fiambre, o Queijo da Serra da Estrella. Lagostas, a Goiabada Christalizada. Charteuse, Anizette. Champagne Duc de Reims. O Vermouth. Água de Vichy. Leite dos Alpes Suíços. Casacas inglesas, o H. J., o pongê, o filó. Bengalas, castão de ouro. Cartolas, luvas, perfumes franceses, lenços de seda. Pistolas de prata e cabo de marfim. Gramophones de Victor. Discos duplos de Caruso. Casas aviadoras. Manaus-Harbour. Tabuleiro de Xadrez. Óperas. Diariamente. Prostitutas importadas. A Cervejaria Miranda Correia. A Praça da Saudade. O Roadway, o Trapiche. Sífilis. Malária. Vidros de Quinino Labarraque. Óleo de Fígado de Bacalhau. Vinho Silva Araújo. Regulador da Madre. Pílulas Rosadas. Café Beirão. Winchesters, cabo encerado de mogno. Asilo de Mendicidade (construído pelo Comendador). Ponte da Imperatriz, Igarapé da Cachoeira Grande. A Serraria, no Igarapé do Espírito Santo. Banhos de no Igarapé das Sete Cacimbas. Buritizal. Jogos, no Parque Amazonense. Ida a Barcelos. Noite no Jirau. Muro do Leprosário do Aleixo. Vista da Bomba d’Água. Manaus-Belém, Manaus-Santa Isabel, Manaus-Iquitos, Manaus-Marari, Manaus-Santo Antônio do Madeira, Manaus-Belém-¬Baião. Gonçalves Dias no Hotel Cassina. Coelho Neto no palacete da rua Epaminondas. Euclides da Cunha no chalé da Villa Municipal. Vaticanos, gaiolas e chatas. Inaugura-se o Teatro Amazonas, em 1896 - a mais cara e inútil obra faraônica da História do Brasil, milionária, importada, com painéis, centenas de lustres de cristal venezianos, colunas de mármore de várias cores, estátuas de bronze assinadas por grandes mestres, espelhos de cristal visotados, jarrões de porcelana da altura de um homem, tapetes persas - tudo o que, aliás, em 1912 desapareceu, esvaziando-se o Teatro para transformá-lo num depósito de borracha de firma americana. Ali o erário público foi enterrado em 10 mil contos de réis: o Teatro Amazonas custou o preço de 5 mil mansões luxuosas.  Por 900 contos de réis se constrói o Palácio da Justiça. E por 1 mil e seiscentos contos de réis se constrói o Palácio do Governo; nunca concluído. O Teatro custou 10 mil vidas. Em 1919 no Amazonas já tinham chegado 150 mil emigrantes. A borracha naqueles anos foi tão importante quanto o café. O Amazonas exportou 200 mil contos de réis em borracha, contra 300 mil contos do café paulista na mesma época. Em 1908 é fundada a mais antiga universidade do Brasil,  com cursos de Direito, Engenharia, Obstetrícia, Odontologia, Farmácia, Agronomia, Ciências e Letras... 
Annie quis passear no Jardin du Luxembourg, no dia de minha partida. No caminho, passando pela feira livre, debaixo da estação Duplex do Metrô, encontro um CD desconhecido de Nelson Freire. Andamos pelo bosque. A música dos tempos me hipnotizam, me transfiruram, me atordoa. Em pleno delírio, vôo. O Brasil logo ali, ao alcance da mão. 

domingo, 22 de novembro de 2015

Quem está preso a uma estrela



Quem está preso a uma estrela


Rogel Samuel


Disse Leonardo da Vinci: 
“Quem está preso a uma estrela não anda para trás”, no sentido de que não entra em decadência, no sentido de que consegue completar e triunfar com toda a glória tudo o que começou, todos os seus projetos, todas as belas coisas por que se inflamou. Significa que consegue trazer à tona, “trazer à luz do dia, de modo puro e formulado, os contornos do conteúdo vislumbrado” (Bloch).
Isso se aplica aos gênios como Leonardo, e aos povos. Mas também se aplica aos mortais como nós, aos nossos desejos, como escreveu o jovem Goethe: “Desejos são pressentimentos das capacidades que estão dentro de nós, prenúncios do que seremos capazes de realizar”.
É quando esses atos prospectivos trabalham em nosso favor e obtém êxito  “a partir da tremenda expectativa que deles se apoderou, a partir da afinidade com a estrela que ainda se encontra abaixo da linha do horizonte. A partir do futuro. É quando “a água que eu toco jamais foi navegada” de Dante. Citações  todas do princípio esperança de Bloch que reúne juventude, mudança, produtividade, não com arrogância, mas com a visão do que deve ocorrer nas ocasiões da criação.