quinta-feira, 6 de junho de 2019

O CAVALO DO APOCALIPSE

O CAVALO DO APOCALIPSE


O CAVALO DO APOCALIPSE

ROGEL SAMUEL

Leio o mágico poema de Farias de Carvalho (1930-1997), “Meu cavalo chegou”, meu ex-professor (sua filha a poetisa Graça Carvalho foi minha amiga, já falecida).
A personalidade de Farias era marcante, carismática, extraordinária e nos parecia grandioso ao falar aos alunos, a voz possante, os gestos teatrais, abertos, os grandes olhos que lembrava Orson Welles.

O poema começa com:

“Meu cavalo chegou (memória e nuvem),
 a aurora derramada sobre a crina.
 Meu cavalo chegou. Fome de tudo
 estou também: engoliremos mundos.”

Que significa esse cavalo? Pois sua poesia sempre tem isso: uma reflexão sobre o tempo, os mortos, um mergulho naquele espaço misterioso. A aurora sobre a crina, a fome sobre os mundos...

“Meu cavalo chegou. E, pressentidos,
 os caminhos me espiam de suas rédeas.
 Meu cavalo chegou. Há quanto tempo
 gasto-me em pés e olhos nesta espera...”

Os caminhos vêm das rédeas, os pés são de espera, os olhos no horizonte.
E o cavalo vem do mito, do tempo, do vento, dos espaços, da espera, da morte. Do sonho:

“Meu cavalo chegou. Eu despertava
 quando o vento falou-me de seus cascos
 e a poeira garantiu-me sua presença.”

E vem sob a poeira do tempo, sua presença neste cemitério, é o fim, cumprir-me-ei, a população desse campo o cavalo vem para completar, preencher, executar, recolher e levar os mortos:

“Meu cavalo chegou. Cumprir-me-ei.
 Tanta gente cansada nessas cruzes...
 Meu cavalo chegou. Mortos, montai!...”

Enfim, o cavalo significa a viagem, a partida, a passagem, a perda, o transporte, a fuga, o escape para a fantasia, para o mundo dos mortos, dos sonhos, do levar, do que arrasta, do que leva e retira, do afastar para sempre.
O cavalo branco retira os mortos e os apaga, no esquecimento, na névoa do nunca mais.
O cavalo chegou. Vamos partir.
--------------------------
 Meu cavalo chegou (memória e nuvem),
 a aurora derramada sobre a crina.
 Meu cavalo chegou. Fome de tudo
 estou também: engoliremos mundos.
 Meu cavalo chegou. E, pressentidos,
 os caminhos me espiam de suas rédeas.
 Meu cavalo chegou. Há quanto tempo
 gasto-me em pés e olhos nesta espera...
 Meu cavalo chegou. Eu despertava
 quando o vento falou-me de seus cascos
 e a poeira garantiu-me sua presença.
 Meu cavalo chegou. Cumprir-me-ei.
 Tanta gente cansada nessas cruzes...
 Meu cavalo chegou. Mortos, montai!...

terça-feira, 4 de junho de 2019

O IGARAPÉ DO INFERNO 1

http://oigarapedoinferno.blogspot.com/



O IGARAPÉ DO INFERNO, 1
ROGEL SAMUEL
           





            – Vou contar. O quê? Você quer que eu continue? Não, não, meu menino, dos líquidos do corpo, o pus, a gosma, a saliva, o muco, as palavras ingratas: a linfa a fonte o plasma aquoso, amarelo-transparente, entende o que digo?, enzimas, digo, ceras, seivas pegajosas, urina e cerveja, você não sabe o que isso, de ontem, de outra época, das terras voadoras das palavras verazes, elásticas, humores, borracha, pau de leite, sim, tudo que esmaga e esguicha, mas o pior é o sangue, o sangue, mas sim, você me interrompeu com perguntas, e estou pegando o rumo, e você?, e você? Eu passei a vida toda de palavras de nada





            Era assim que falava Maneco Bastos, Manuel Bastos Filho, para aquele rapaz. Ele tinha o mesmo nome do falecido pai, Manuel Bastos, dono do Bar Bacurau, na João Coelho.


            A noite prosseguia.


            Estavam na Lapa, no Rio de Janeiro. Somente poucos fregueses ali, bêbados, cansados. Clima de decadência, pobreza.


            – Pois sim sim, disse ele. Meteu a unha na fenda do parafuso, forçou, dali saiu um líquido gomoso e muito vermelho escuro, mas o parafuso não cedeu, nem se moveu, e ele quase não sentia a dor, a cabeça do parafuso fendida rasgou o dedo, pingando suor em cima, cabeça de falo e fendida, emperrado impedia a focalização do binóculo.


            Aquilo era luneta de 1845, merda, por quê?, o quê? agora o olho burro vê, focaliza, e tudo vê, bem nítido e bonito, mas a imagem da orla da Praia do Cuco, a língua branca, de açúcar, que avançava até as águas do Igarapé do Inferno.


            “Tudo bem?”, perguntou ele assim. “Aquilo se move?” Agora aquilo se move?, foi o que ele perguntou e disse, ou o que disseram que ele disse.


            Do convés do “Barão do Juruá” ele observava a orla da Praia do Cuco, a copa das arvores verdes, lindo lindo. Sim, um susto, um gesto. Que é? Não é? Continuava a se mover, tinha visto, continuava ainda vendo? Via. Com nitidez, dentro do círculo de luz do fim do foco. Do fim fundo escuro do foco. Mas nada não disse do que tinha visto e estava vendo. Nunca disse. Zequinha ficou e ninguém viu quando ele desceu do navio para a floresta, e em minutos desaparecia ali.





            Oh, oh! – disse ele. O desaparecimento de Zequinha Batelão foi um desastre! Um desastre escandaloso. Ele era dos homens mais ricos e bonitos do Amazonas, do Alto Juruá, na época. Sabe? Sabe? Um segredo: Todas as jóias da família ainda estão lá, até hoje escondidas, num cofre debaixo de uma grande pedra da Praia do Cuco. Inclusive a tiara de esmeraldas e brilhantes que pertenceu à Rainha Vitória. Mas só eu sei onde está.


            O fim de Zequinha foi lá a coisa mais misteriosa, perturbou a imaginação do povo amazônico. Hipóteses absurdas, cabeludas leseiras, injustificadas. Tolices, surpresas de todo tipo do fio fino do destino. O quê? O destino é isso, seu merda. Nós morremos e é só, morremos um pouco a cada agonia. O destino é o pré-dito, os ditos, os feitos, a trama universal. Não, não é acidental. Só quando feito não era o pretendido. Nós agarramos o destino com as mãos de sangue, com as mãos cegas, com as mãos da sobrevivência, com as mãos que sangram. O acidental não tem deliberação. Cega necessidade física. Luta de vida e de morte, contra a causalidade da sorte. Violência não – causa. Quando vejo minha vida, inteira, uma serie de anos e danos escrotos, estéreis, inúteis, impunes, sinto os acontecimentos mas sem as conexões, pois eu não sei ser: ser é esperar, ser é morrer.


            Mas com você me perco. Vamos, vamos continuar.


            Zequinha desapareceu em 1912. Tinha 22 anos. Já vendido o Seringal Manixi a um homem chamado Ferreira, Dr. Antonio Ferreira, de Manaus.


            Zequinha tinha chegado da Europa, Paris era um luxo, eu estive em Paris, morei em Paris, na Rua Fondary, 30, no Hotel Fondary. Era perto da Torre. Zequinha liquidou tudo, menos o “Palácio Manixi”, o "art-nouveau" palácio, como esta minha pessoa diz que aqui falo. Adiou o regresso, meses e meses, e não tinha pressa, esperava acontecimentos.





            Zequinha era um rapaz estranho. Mas o descompasso, o contraditório, ah isso era, delicado selvagem culto. Os cabelos lisos e pretos como a mãe índia, quíchua. Ele era uma mistura de índia com uma princesa espanhola. Família Cellis. Olhinhos também pretinhos, muito vivinhos e pretos. Lábios sensuais. Príncipe! Príncipe amazônico, selvagem, sofisticado, adamado, maneiro. Pois a que beleza se reduz a só. Você é belo? O belo é o que aparece belo, para mim só. Ser é parecer. Eu fui, na juventude. Eu era um luxo. Nessa idade? O quê? Quantos anos tenho? Ah, ah, não digo não, no esconso. Tenho o tenho, no que dá. Você quantos tem? Pois, meu caro, meu caríssimo. Nenhuma, você está bêbado, você quer agradar porque eu pago. Faz bem. Continue assim. Mas era assim. Um instinto social, no que de uma propriedade das coisas, um fato em si, mas de um valor lógico, do desejo, da utilidade, do prazer, da vida, valores cognitivos. O Belo é apenas uma frase. Um atributo. Mas eu esqueço que você só tem uns poucos anos. Eu vi, vivi, estou à morte. Estou à morte. Ah, ah, ah. Sim sim. A mor-te! Ah, ah, – ria-se ele.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

A MORTE DE LAMPIÃO

A MORTE DE LAMPIÃO



A MORTE DE LAMPIÃO

ROGEL SAMUEL


             Súbito silêncio corta o céu no nosso caminho.
             Era uma navalha.
             Lampião, ergue o braço, ordena de parar.
             Pergunta os ares, instinto selvagem.
             Ausculta os cantos, expressão de ódio, dúvida.
             Não tinha medo de morrer. Já estivera vezes diante da morte. Eu sabia como ele reagia.
             Era outro sentimento, o de se ver fechado no abraço inimigo, verdadeiro exército, os soldados avançavam, várias
frente, para caçá-lo, animal acuado, para fechar sobre si o que sobrava da tropa envenenada e a doença (ele mesmo ardia em
febre), falta de munição, mantimentos.
             Maria Bonita conosco ali estava.
             Receava não poder atravessar o deserto em frente. Não poder esconder-se na caatinga, onde navegávamos como
num mar de espinhos. Não poder arregimentar as tropas dispersas, de que ainda dispunha. O fim da glória, do cego império,
do mito. Morrer humilhado.
             — Estou sentindo cheiro de macaco! - rosnou, entredentes.
             Continuávamos imóveis.
             Meu ombro ferido ardia. Como se me aplicassem ferro em brasa. O sangue coagulara-se junto à sujeira ao suor. Em
breve iria infeccionar.
             Não tivera tempo de limpar a ferida, não sabia se tinha uma bala no ombro.
             A dor de cabeça latejava, imperdoável.
             Apesar de tudo cavalgávamos há dois dias, deixando nosso rastro sangrento atrás de nós.
             Conduzíamos nossos perseguidores.
             Conduzíamos à morte.
             Lampião ouvia do silêncio a sua canção.
             Onde estariam eles?
             Ele sabia que vinham em nossa direção.
             Antes, só ele conhecia o caminho ali, no inatravessável.
             Agora as tropas dispunham de guias, saídos de nossas fileiras, comprados.
             Sim, eles estavam vindo.
             Podiam estar surgindo do Desfiladeiro do Xingó.
             Podiam estar oriundos da direção de Canindé.
             Podiam estar caminhando a contrapelo do Rio do Chico, as águas esverdeadas, pérola e esmeralda, as águas
sagradas.
             Ou podiam estar fazendo o caminho dos rochedos escarpados, altos de cinqüenta metros de altura, vereda que
Lampião bem conhecia.
             Acima estava o vale.
             Abaixo a Grota do Angico.
             E na Grota Lampião resolveu ficar.
             Ele acertava sempre, ninguém discutiu.
             Ninguém discutia com ele.
             Pensava em esconder-se ali, deixar passar o inimigo.
             Mas foi ali que a morte veio buscar-nos.
             Sitiaram-nos.
             Era um exército.
             Não havia alternativa. Abrimos fogo final.
             Nossa munição escassa, nossos homens famintos, sedentos, cansados.
             Cabras feridos, doentes.
             Lampião ferido. Menos Maria Bonita.
             Mas Lampião não revelava doença, tinha outra natureza, bicho, coisa de aço.
             Era intenso o fogo contra nós.
             Mais modernas armas usavam, poderosas, maior alcance.
             Nós começamos lentamente a morrer.
             Foi quando Lampião e Maria Bonita arrancaram para frente, avançaram contra o comando.
             Lampião queria era a morte em batalha.
             A humilhação seria pior, ser preso, vivo e torturado. A humilhação pela dor da tortura, suprema de todas as dores.
             E Lampião foi lá. Desafiava a morte.
             Lá. Seguido por Maria Bonita.
             Depois nada mais vi, engolfado por nuvem de fumaça e de dor que me tirou a vista.
             Mas foi assim que tudo se deu, conforme o digo eu, o Narrador.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

ESTRADA CLARA

depois de alguns novos passos
cheguei aquela estrada amada
simples, reta, clara, nada
impedia ao reino me levava
estrada clara
e os sóis e as madrugadas
pelos vales verdes e azuis
de repente me abriam
doce esplendor desse mundo
posso passar sem mais nada
vejo belas paisagens
entrada clara
depois de alguns passos
cheguei à estrada amada
estrada ao nada
ROGEL SAMUEL

sábado, 25 de maio de 2019

castelos de luar



castelos de luar 
de lua 
de tua 
vontade nua 
de tua 
luz de lua 
voz de suave 
paladar 
castelos no ar 
no vagar 
do imaginar 
ROGEL SAMUEL

terça-feira, 14 de maio de 2019

JARDIM ABANDONADO


Rogel Samuel
há muito tempo os poemas
jaziam no jardim abandonado
folhas secas
plantas tímidas
entre a estatuária de
deuses
e alegorias
de mármore
mas a rainha das musas
os despertou
e os fez
novamente falar
como quem experimenta desconhecidos
discos de vinil
deixados por um antigo
no fundo do melhor armário
é à noite que os fantasmas da falta
se instalam nos espaços
e sobre seus traços cegos
nos alertam
cobre a noite com seu manto
os pontos-luz e de visão
e no arco da cidade adivinho
amores outros, que não falam
ROGEL SAMUEL

domingo, 12 de maio de 2019

domingo, 5 de maio de 2019

A Nona Sinfonia de Santoro

A Nona Sinfonia de Santoro



A Nona Sinfonia de Santoro

Rogel Samuel



Ah, como lastimo: nunca mais teremos no Brasil uma orquestra como a Orquestra Sinfônica de São Paulo sob a direção de John Neschling. Sem o maestro, o conjunto será outro. É sempre assim. New York, Boston, Berlin, Chicago, Viena, Cleveland, Philadelphia etc foram grandes orquestras só sob a batuta de Barbirolli, Fürtwangler, Klemperer, Toscanini, Bruno Walter, Haitink, Bernstein, Fritz Reiner, Kleiber, Kubelik, principalmente Mravinsky, para mim o maior de todos. Não é a orquestra, mas o maestro quem faz a arte.

Por isso, depois de ouvir este CD, com as sinfonias 4 e 9 de Claudio Santoro, com todo aquele brilho, como toda aquela envergadura, com toda aquela grandiosidade, principalmente a Nona Sinfonia de Santoro, lúcida, forte, mistura de tudo o que Santoro já fez...

Custei a reencontrar este CD. Creio que está vendendo bem. Da primeira vez que o vi, numa livraria, não o comprei. Disse comigo que já tinha aquelas sinfonias em outra gravação. Quando voltei lá, todas as cópias vendidas.

Santoro levou quase 20 anos entre a oitava e a Nona Sinfonia, durante seu longo exílio. Com a Nona ele resumiu tudo o que compôs, desde as composições atonais, passando pelo parâmetro do realismo-socialista soviético, até a temática brasileira, o lirismo, o trágico, o passional, o sublime, com maestria e polifonia. Desde os compassos lentos, as passagens graves, a coloração dramática, a "homenagem a Brahms", a Nona Sinfonia de Santoro é uma obra-prima e nesta interpretação está impressionante.

Toda a sinfonia se tece em umas poucas notas que se repetem, em súbitas variações, na orquestração e nos diferentes tempos. Aí a arte é que Santoro nos leva a um tal grau de elevação espiritual e amplidão que penso que a peça deveria chamar-se SINFONIA AMAZÔNICA.

O CD ganhou o prêmio Diapason D´Or, na edição brasileira da revista francesa Diapason.


Li de uma assentada o belo livro de Elson Farias sobre Cláudio Santoro ("Cláudio Santoro - cantor do sol e da paz", Manaus, Ed. Valer, 2009).

A única vez que estive com Santoro foi no aeroporto de Frankfurt no fim da década de 70, início de 80. Voltava para o Brasil. Ele vinha da França, onde creio que tinha regido a Orquestra Sinfônica da Radio-Difusão Francesa (ORTF) de Paris.

Eu disse para o pessoal da VARIG:

- Ali está o maior compositor do Brasil, coloquem-no na primeira classe.

Não adiantou. Como ele sentou-se não muito longe de mim, eu me apresentei, disse-lhe que tinha sido vizinho de D. Cecília, sua mãe, na Vila Auxiliadora, em Manaus, onde ela vivia modestamente, junto com o filho Alberto Santoro, depois físico. Foi o bastante para a conversa se iniciar. Falamos cerca de uma hora de música e de músicos. Infelizmente não posso relatar as críticas que me fez ao meio musical brasileiro, o que seria uma indiscrição. Mas me disse que estava arrependido de ter voltado para o Brasil... Contou que o prefeito de Paris tinha ido buscá-lo no Aeroporto, enquanto que no Brasil não haveria um só funcionário do MEC para ajudá-lo com as malas...

Ele dava aula de composição na Alemanha. E comentou:

- Imagine caboclo amazonense dando aula de composição na Alemanha...

O livro de Elson Farias impressiona pela riqueza de informações, de detalhes. Grande poeta, o livro está muito bem escrito e facilmente será traduzido no exterior, onde Cláudio Santoro é muito famoso.

E escrevo ao som das Sinfonias 5 e 7 de Santoro. Regidas por ele-mesmo. Orquestra Filarmônica de Leningrado e Orquestra Sinfônica da Rádio de Berlim, respectivamente.

Gravação rara.


JOHN NESCHLING & OSESP-ORQUESTRA SINFÔNICA DO ESTADO DE SÃO PAULO & CLÁUDIO SANTORO, 2006, Biscoito Fino. ISSN: 7898324752186 

sábado, 4 de maio de 2019

O DNA do passado

O DNA do passado

Rogel Samuel

Augusto dos Anjos escreveu um soneto chamado “Debaixo do Tamarindo”que aqui transcrevo:
“No tempo de meu Pai, sob estes galhos, / Como uma vela fúnebre de cera, / Chorei bilhões de vezes com a canseira / De inexorabilíssimos trabalhos! / Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos, / Guarda, como uma caixa derradeira, / O passado da Flora Brasileira / E a paleontologia dos Carvalhos! / Quando pararem todos os relógios / De minha vida e a voz dos necrológios / Gritar nos noticiários que eu morri, Voltando à pátria da homogeneidade, / Abraçada com a própria Eternidade / A minha sombra há de ficar aqui!”
As pessoas sempre se esquecem de que o poeta era muito novo quando escreveu. Morreu com 29 anos! E o último verso: “a minha sombra há de ficar aqui!” marca que não será senão uma sombra “abraçada com a própria Eternidade” daquela “pátria da homogeneidade” de que ele fala.
A noção de “Eternidade” reside não só na árvore (genealógica?), mas na sombra da árvore. É um DNA do passado que ele vê ali naquela relíquia da flora brasileira.
Outro dia, minha amiga C. de São Paulo mandou-me por email um texto da escritura budista tradicional que diz, na minha tradução:
“O que nasce vai morrer, O que se reuniu será dispersado, O que foi acumulado se gastará, O que foi construído se destruirá, E o que é elevado será rebaixado.”
Eu já tinha lido isto em outro lugar. Parece que pertence ao “Dhamapada” na versão chinesa. Trata da não permanência de todas as coisas. É uma temática também recorrente no classicismo. Onde estão os amigos de infância? Eda adolescência, quando havia uma turma animada e agressiva? Onde estão? Os amigos de faculdade se separaram. Até os casais se separam. Novas reuniões se fazem, sim, é certo. Mas onde está aquilo que faz com que tudo passe, tudo morra, tudo se gaste e se destrua? Está no tempo? Que é o tempo?
Hannah Arendt certa vez disse que depois da destruição do império romano, nada pode ser considerado eteno.
É por isso que o Poeta escreveu que sob aquela sombra esteve “com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos!”
A Eternidade cansa!

quinta-feira, 2 de maio de 2019

A pátria real e a pátria imaginária

A pátria real e a pátria imaginária

Rogel Samuel

“Não sejas um escritor, mas um profeta”, diz o verso de Antonio Quadros (1923-1993), o poeta português. Certamente assim os poetas eram conhecidos, na Grécia antiga. Que é um profeta? Profeta é o indivíduo que prevê o futuro, o que diz o que vai acontecer. “Não digas o que sabes nos teus versos, / Deixa para trás a ciência e a consciência; / Tudo aquilo que em ti não for ausência / São ideais perdidos, ou submersos.” É o poema. Não dizer o que sabe significa não repetir o passado, mas proferir o futuro, inaugurá-lo, fundá-lo. Falar do ausente, construir a presença daquilo que ainda não existe ou do que não está lá. O poema assim se chama “Poética contraditória”:

Não digas o que sabes nos teus versos,
Deixa para trás a ciência e a consciência;
Tudo aquilo que em ti não for ausência
São ideais perdidos, ou submersos.
Abandona-te às vozes que não ouves,
E liberta os teus deuses nos teus dedos;
Não busques os sorrisos, mas os medos,
E o que não for ignoto e só, não louves.
Ser misterioso e triste, é ser poeta:
Mesmo a luz que palpita nos teus cantos.
É uma imagem heróica dos teus prantos.
Percorre o teu caminho até ao fundo,
E com os versos que achaste, aumenta o mundo.
Não sejas um escritor, mas um profeta.

É um poema do livro de António Quadros “Viagem desconhecida”, de 1952. Nesta região desconhecida do porvir o poema se lança, ouvindo as vozes, liberando os seus deuses, os seus medos, o seu mistério, o seu pranto. É um mergulho no caminho do herói, ou seja, do profeta. Do que profere. O que diz o que não sabe, o que ouve o que não foi dito, o que vê o que não está na frente de seus olhos. Ou seja, entra nos portal heróico e perigoso do mito.
“António Quadros (1923-1993) defende que a nação portuguesa na sua essência (...) é dotada de um eschaton, de uma razão teológica, que consiste num diálogo ou numa dialética entre o humano e o divino: «Talvez nenhuma história humana, como a portuguesa, em seu esplendor, em seu claro-escuro e em seu negrume, seja tão dramaticamente exemplar desta dialéctica.» (...), escreveu Antonio Quadros Ferro (que deve ser seu filho). Ele chama isso de dialética entre Pátria Real e Pátria Imaginária.
“As caravelas já não partem deslumbradas a desvelar o Cabo. Não. O tempo é outro. Mas os pescadores portugueses continuam na praia a fixar com olhos estáticos o mar infindável e a viver e a lutar e a sofrer e a morrer o destino do mar.
E na imaginação das crianças e dos adolescentes, no inconsciente dos adultos frustrados numa fixação à terra que lhes parece injusta e odiosa, a ideia da aventura, da viagem, do descobrimento palpita como uma promessa e como uma fascinação" escreveu António Quadros.
Confira em:
http://antonioquadros.blogspot.com/

domingo, 28 de abril de 2019

O FUNDAMENTO DOS SONHOS

O FUNDAMENTO DOS SONHOS

E

(FOTO DE R. SAMUEL: BIARRITZ, HOTEL MARBELA)

Rogel Samuel

       Há um escrito filosófico de Ernst Bloch que se chama "O Homem Como Possibilidade".
       Sempre gosto dele. Tanto que o inseri no nosso Site. E ali pode ser lido*.
Desde 1966, relei-o sempre. Sempre que entro em depressão política.
Existe depressão política sim, para a minha geração.
Que sinto, que sofro, desde jovem.
Além disso, desde que comecei a votar, a chamada democracia brasileira é um dispositivo para legitimar a classe dominante já estabelecida.
E não há remédio, não há medicina, para este mal.
A minha geração é profundamente, radicalmente política.
Mas começa afirmando Bloch a energia e o vigor dos nossos sonhos.
Segundo ele, Lênin lastimava que o movimento comunista havia perdido sua capacidade de sonhar.
Nós deixamos de sonhar quando nos apegamos ferrenhamente à realidade, à casca material grosseira da matéria concreta.
O sonho não, só os sonhos admitem vôos, transformações, esperanças vagas, utopias, sem a solidez, sem o peso da dura, da ríspida materialidade de ferro das coisas.
A solidez das coisas é burra, é vazia, pura aparência enganosa.
Pois o mundo não precisa ser tal como é. E nossos problemas não precisam ter para nós o peso que têm.
Por trás daquele monstro que nós mesmos criamos para nós mesmos, há um simples e inútil brinquedo de corda, meio quebrado.
A liberdade é possível...
Por quê?
Porque o nosso mundo não está totalmente pronto, não é algo pronto e acabado, que não muda nunca, mas é um processo, um processo em permanente fazer-se.
Tudo morre, mesmo os nossos problemas...
Sim, há sim espaço para a liberdade, para a felicidade, pois os castelos que se armam contra nós são feitos só de areia, não são de aço. E as armas dos nossos inimigos são de açúcar.
Hegel, que viveu e aprendeu no tempo da revolução francesa, da revolução burguesa, dizia que o futuro concreto e imutável é incerto, é "palha e vento, névoa e vapor".
Hegel "aprendeu"a dialética ao som dos canhões em sua porta.
Quem constrói o mundo futuro somos nós mesmos, com nossas próprias mãos.
Que necessidade estranha temos de sofrer?
Esta é a nossa contradição permanente:
Pois, se buscamos tanto a felicidade, por que insistimos, por que procuramos no nosso "destino", naquilo mesmo que fazemos e que chamamos de nosso destino, o processo que nos causa tanto sofrimento?
Hegel falava da passagem do reino da necessidade para o reino da liberdade.
Na verdade era a mediação do processo da utopia abstrata para a ciência mediadora.
Por tudo isso existe a consciência de que aquilo que nós chamamos de "realidade" está cercado por um mar de possibilidades muito maior do que objetivamente pensamos. Essas possibilidades são mesmo reais.
Diz Bloch: "Há condições que ainda não conhecemos ou que ainda não se apresentaram".
Sim, há as utopias.
Há a Utopia.
A utopia é o lugar daquilo que ainda não existe.
Pelo fato de que ainda não existe aquilo, não quer dizer que não existirá nunca, ou que seja impossível e irrealizável.
Há alguns anos alguém poderia pensar em televisão, penicilina, rádio, celular etc? - estas coisas hoje banais apareciam nas revistinhas de ficção científica das crianças.
Sim, sejamos crianças!
Talvez até certas utopias já existam, mas ainda não estão conscientes.
A Utopia não é uma lenda política.
Diz Bloch que sua fonte, sua origem está em Platão, Thomas Morus, Campanella, Fourier, Saint Simon, Robert Owen, etc.
"São grandiosas tentativas de se lançar no papel uma sociedade melhor".
O sonho de uma vida melhor. Ou seja, o sonho básico é o do paraíso perdido.
A utopia é "a arquitetura ainda não construída". 
A história, a vida humana está cheia de utopias, diz ele, como os sonhos da medicina, da técnica, a ficção científica, a pintura, a música, a poesia.
Parodiando Bloch:
- Ó Utopia, fica comigo amanhã, porque és tão bela e tão necessária!



sábado, 27 de abril de 2019

OS PILARES

OS PILARES

OS PILARES

Rogel Samuel


Um dia me perguntou a amiga se eu gostava de Heiddeger. Imediatamente não pude responder. Mas muito refleti. Porque Heiddeger fez parte dos pilares da formação de minha geração: aquela que se formou no torvelinho do governo militar, na época de João Goulart e no movimento estudantil de 68, etc.

Um pouco antes, todos liam Sartre, talvez sem a intensidade necessária para a formação intelectual. Sartre representava o pensamento de vanguarda, a mescla de marxismo e fenomenologia, ou existencialismo.

Depois, veio aquela época de Marcuse, Althusser, Lukacs. No Brasil autores de moda. Formadores de cabeça. E mais. Apareceram Gattari, Deleuse.

Quando estávamos fazendo pós-graduação, passamos a buscar os autores radicais: Hegel, Marx, Freud, Nietsche, Wittgenstein. Posso dizer que passamos uma década lendo esses pilares em que se sustaram, durante muito tempo, os elos do nosso edifício intelectual.

E Heiddeger.

Posso dizer que começamos com Heiddeger e Wittgenstein.

Naquela época, em que Marx era um paradoxo pouco conhecido (afinal até então poucos tinham dominado «O capital»), era muito chic citar Heiddeger, mesmo porque ele era aceito pelo pensamento dominante da Direita, e tinha umas perfumarias de jogos de palavra incompreensíveis que aformoseavam qualquer texto.

Mas Heiddeger não é bem assim só isso.

Ele é um grande poeta, antes de tudo.

Ou melhor, Heiddeger repensou a Metafísica Ocidental como somente muito poucos puderam fazer (ou talvez só ele o fez). Seu pensamento era nitidamente alemão, é claro. Radicalmente alemão. Passava muito pouco longe do nazismo, todos sabem disso (principalmente certas referências ao termo «destino», ao uso do termo «jogar» etc). Mas não se pode negar-lhe a profundeza poética dos limites do seu pensar.

Se era nazista pouco importa para nós hoje. Naquele tempo ali todos eram.

Martin Heidegger  nasceu em 1889 e morreu em 1976. Um dos maiores pensadores de sua época. Foi também vítima do nazismo. Sua obra cobre a vastidão da história da filosofia, desde os gregos até Nietzsche. Envereda pelos caminhos perdidos do Zen-budismo. Mergulha nas origens obscuras da poesia e da arte, tendo escrito sobre isso textos fundamentais.

«O pensamento de Heidegger é o esforço de nos reconduzir ao País das Maravilhas, onde o movimento de pensar é tão concentrado na identidade de si mesmo que colhe os limites de nossos hábitos de pensar e possibilidades de dizer nas próprias raízes de sua limitação. É, então, que se faz silêncio no país do Pensamento. Pois o silêncio é a Linguagem no movimento consumado do repouso, que já ultrapassou toda discursividade da língua.» escreveu E. Carneiro Leão (Aprendendo a Pensar, 1977. pg 149).

Fui aluno de Carneiro Leão.

Pouco antes de morrer, Heiddeger deu uma entrevista radiofônica em que disse que somente dois filósofos atingiram o significado do seu pensamento: um foi Carneiro Leão.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

O MAR DA FÉ

O MAR DA FÉ

Matthew Arnold


Trad. de  Rogel Samuel

A praia de Dover de Matthew Arnold

O Mar da Fé
Também existiu, no passado, cheio, e em volta da praia do mundo
Estendia-se como as dobras de uma faixa desdobrada.
Mas agora somente escuto
Seu bramido melancólico, prolongado, que foge,
Que se afasta,
Com o zunir do vento da noite
que vai para vastas e horrendas costas
E para os vazios areais do mundo.”

Ah!, amor, sejamos fiéis
Um ao outro. 
Pois o mundo, que parece 
Estender-se à nossa frente como uma terra de sonhos,
Tão diversas, tão formosas, tão novas, 
Na verdade não tem nem alegria, nem amor, nem luz,
Nem certeza, nem paz, nem lenitivo para a dor;
E estamos aqui como numa planície penumbrosa,
Varrida de confusos alarmas de combate e de fuga,
Na qual exércitos ignorantes à noite travam batalha.”

quarta-feira, 17 de abril de 2019