sábado, 17 de março de 2018

As Amazonas OLAVO BILAC

As Amazonas  OLAVO BILAC

Nem sempre durareis, eras sombrias 
De miséria moral! A aurora esperas, 
Ó Pátria! e ela virá, com outras eras, 
Outro sol, outra crença em outros dias!
Davi renascerá contra Golias, 
Alcides contra os pântanos e as feras: 
Os corações serão como crateras, 
E hão de em lavas mudar-se as cinzas frias.
As nobres ambições, força e bondade, 
Justiça e paz virão sobre estas zonas, 
Da confusa fusão da ardente escória.
E, na sua divina majestade, 
Virgens, reviverão as Amazonas 
Na cavalgada esplêndida da glória!

sexta-feira, 16 de março de 2018

MEDITAÇÃO NO PARQUE

MEDITAÇÃO NO PARQUE

MEDITAÇÃO NO PARQUE
 

Rogel Samuel

 
            Meditação no parque. Vento frio, apesar do verão. Frio, em Poços de Caldas. Reflexão no Parque. O ano de 2003. Passou. A criança passa, passa por mim, na pequena bicicleta. Olha para mim. Sorri. Nenhum plano, para o futuro. O futuro, esse não existe. Possivelmente não, nada será igual ao que planejamos. 2003 sim, foi muito bom. Mesmo. Passou, mas valeu. Se tive lá o meu cálice de lágrimas, também sorvi, e com avidez, a minha taça de prazeres e realizações. De um certo ponto de vista, esse foi um dos melhores tempos de toda a minha vida.  Não, não se deve pensar em melhorar o que é, o que está, e está bem em sua própria natureza de ser. A vida, esta coisa se oferece, como ampla paisagem, - nós tomamos o rumo. A vida é restauração, é tempo, tempo que se esgota, que se encurta, momento a momento, cada vez menor. Menos tempo, menos vida, a cada respiração mais próximos do fim, a temporalidade se põe no horizonte, como o sol, ainda muito brilhante, mas cadente. Que fizemos nós, do tempo que dispomos? Dizia o mestre Suzuky: «O Zen ordena que neguemos tudo o que se atravesse em nosso caminho, e mesmo essa tentativa de negar deve ser negada». Toda experiência de vida é única, se recusa a ser explicada. A vida, - um presente que recebemos devido à nossa coragem, ao nosso amor, ao nosso interesse pelas outras pessoas. Que fizemos nós, em 2003, na vida? Da vida? A que tipo de vida nós nos propusemos? Somo todos esquecidos,  vivemos sonâmbulos ou irrequietos. Nós nos esquecemos dela, da vida, seja o que for, do viver com amplidão de sentido. Nos esquecemos. Em 2003 escrevi essas crônicas. Com regularidade. Tive quem mas lessem. Tive alguns bons leitores. De qualidade. Veja você. Há uns poemas de Saichi, o carpinteiro poeta, que dizem:
 
                                    Onde estas tu, Saichi? No céu?
                                   Aqui é o céu.
 
                                   Esse eu, com um olho dado por ti,
                                   O olho que te vê.
 
                                  
            Soam agradavelmente aos ouvidos os ruídos do parque. Algumas vozes. Longínquas. Gritinhos estrídulos, crianças, pássaros. As velhas andam, vagarosas. Pesadas de passado. Se se libertassem do passado, dançariam, livres, leves, soltas no ar como nuvens. Como pássaros. O passado tem seu peso morto, acumulado, lastro do navio casco cheio de lodo ferro. Entre as flores passam jovens namorados, ainda jovens, ainda puros. Ele acreditam no amor, acreditam na vida. Seus corpos belos frescos, eles irradiam felicidade. Rosas. Eu hoje acredito no amor. Acredito na vida. As rosas abertas ao verão, às chuvas de verão. Sinto-me irmão daquelas velhas, confuso, lúcido, como os namorados, as crianças. Escreveu Fernando Pessoa (ou melhor Ricardo Reis, seu outro):
 
                                   Prazer, Mas devagar,
Lídia, que a sorte àqueles não é grata
Que lhe das mãos arrancam.
Furtivos retiremos do horto mundo
Os depredandos pomos.
Não despertemos, onde dorme, a Erínis
Que cada gozo trava.
Como um regato, mudos passageiros,
Gozemos escondidos.
A sorte inveja, Lídia. Emudeçamos. 
 
Sim, Pessoa, ou Ricardo Reis, tão sábio. As Erínias eram as Fúrias, seres terríveis que representavam o restabelecimento da Ordem, destruída por um crime. Eram vinganças vivas, e viviam no Erebo. Seres anteriores ao próprio Zeus. Geralmente havia três deusas, três Fúrias, tinham víboras em lugar de cabelos, cara de cão, corpo de vampiro, os olhos sanguíneos. «Erinis» significa «odiosa». O chamá-las de «Fúrias», como os Romanos, significava que eram «a loucura da vingança». Pessoa considera o prazer como um «crime», ou melhor, ele criminaliza o prazer do amor, o resvala na sua sexualidade. «Não despertemos, onde dorme, a Erínis / Que cada gozo trava»,
significa «gozemos escondidos». Como um regato entre árvores, como passageiros mudos, como adolescentes em «pecado», gozemos no escondido, no escuro, ou nas sombras do parque desta meditação do parque, com o cuidado e o medo do despertar policial das Erinis.

quinta-feira, 15 de março de 2018

O Punhal de Clarisse de Oliveira

O Punhal de Clarisse de Oliveira












O Punhal de Clarisse de Oliveira


Rogel Samuel


Um dos textos mais cortantes, mais fortes, mais plenos de significados de Clarisse de Oliveira é o seu "O punhal".

Eu o leio desde que foi escrito, há muitos anos.

Já foi elogiado até por uma crítica de literatura que mora em Paris, que me perguntou: "quem é esta escritora? eu a conheço?"

Lembrei-me dele neste início de ano, após um diálogo ardente com NEUZA MACHADO a respeito de certos pontos de minha vida.

O texto lembra um poema em prosa de Borges, mas tenho certeza de que Clarisse não se inspirou nele.

Eu conheci o Gerardo de que ela fala. E já devo ter visto esse punhal no apartamento de Clarisse quando ela morava em Ipanema e onde me hospedei.

Isso já faz muitíssimos anos.

Depois que ela se mudou para um lugar distante, só acessível por carro, não a visitei mais, pois estou há uns 30 anos sem dirigir.

Clarisse mora no meio do mato, numa floresta. Ela gosta, nada se pode fazer.

Leia O punhal:




O Punhal

(Clarisse de Oliveira)

A mão que acaricia é aberta;
Mas quando ela se fecha
no cabo de um punhal,
ela é mortal.
Quando meu amigo Gerardo morreu,
abriram seu armário de caça,
e me mandaram escolher
o que eu quisesse.
Escolho cinco assobios de madeira
que imitam os cantos dos pássaros,
e um grande e estreito punhal,
o cabo trabalhado em prata
e pedra preciosa brasileira.
Eu percebi muito tempo depois,
que a lamina do punhal
era mais pesada que o cabo
e isso permitia
que se eu o largasse de certa altura,
ele caia fincado na madeira
sem esforço.

Tive uma vida ferida,
no seio de uma familia
que não me compreendia.
Às vezes, adolescente,
eu segurava o punhal, pensando:
- Você me tiraria desta vida,
mas pressinto
que me acompanharás
o tempo todo -
companheiro agressor,
mas sustentáculo
onde muitas vezes
o amor nos ameaça
na sombra
mas o segredo da Vida
abre Asas em nosso Espirito.

O CAVALO DO APOCALIPSE


O CAVALO DO APOCALIPSE

ROGEL SAMUEL

Leio o mágico poema de Farias de Carvalho (1930-1997), “Meu cavalo chegou”, meu ex-professor (sua filha a poetisa Graça Carvalho foi minha amiga, já falecida).
A personalidade de Farias era marcante, carismática, extraordinária e nos parecia grandioso ao falar aos alunos, a voz possante, os gestos teatrais, abertos, os grandes olhos que lembrava Orson Welles.

O poema começa com:

“Meu cavalo chegou (memória e nuvem),
 a aurora derramada sobre a crina.
 Meu cavalo chegou. Fome de tudo
 estou também: engoliremos mundos.”

Que significa esse cavalo? Pois sua poesia sempre tem isso: uma reflexão sobre o tempo, os mortos, um mergulho naquele espaço misterioso. A aurora sobre a crina, a fome sobre os mundos...

“Meu cavalo chegou. E, pressentidos,
 os caminhos me espiam de suas rédeas.
 Meu cavalo chegou. Há quanto tempo
 gasto-me em pés e olhos nesta espera...”

Os caminhos vêm das rédeas, os pés são de espera, os olhos no horizonte.
E o cavalo vem do mito, do tempo, do vento, dos espaços, da espera, da morte. Do sonho:

“Meu cavalo chegou. Eu despertava
 quando o vento falou-me de seus cascos
 e a poeira garantiu-me sua presença.”

E vem sob a poeira do tempo, sua presença neste cemitério, é o fim, cumprir-me-ei, a população desse campo o cavalo vem para completar, preencher, executar, recolher e levar os mortos:

“Meu cavalo chegou. Cumprir-me-ei.
 Tanta gente cansada nessas cruzes...
 Meu cavalo chegou. Mortos, montai!...”

Enfim, o cavalo significa a viagem, a partida, a passagem, a perda, o transporte, a fuga, o escape para a fantasia, para o mundo dos mortos, dos sonhos, do levar, do que arrasta, do que leva e retira, do afastar para sempre.
O cavalo branco retira os mortos e os apaga, no esquecimento, na névoa do nunca mais.
O cavalo chegou. Vamos partir.
--------------------------
 Meu cavalo chegou (memória e nuvem),
 a aurora derramada sobre a crina.
 Meu cavalo chegou. Fome de tudo
 estou também: engoliremos mundos.
 Meu cavalo chegou. E, pressentidos,
 os caminhos me espiam de suas rédeas.
 Meu cavalo chegou. Há quanto tempo
 gasto-me em pés e olhos nesta espera...
 Meu cavalo chegou. Eu despertava
 quando o vento falou-me de seus cascos
 e a poeira garantiu-me sua presença.
 Meu cavalo chegou. Cumprir-me-ei.
 Tanta gente cansada nessas cruzes...
 Meu cavalo chegou. Mortos, montai!...

terça-feira, 13 de março de 2018

CANTO DO REI - WALMIR AYALA


CANTO DO REI - WALMIR AYALA

Rico de ouro não sou, porém. fabrico
o sol cada manhã, estendo penas
(pássaro matinal) e atinjo antenas
de desespêro no meu vôo ubiquo.

Se tu, pálio de párias, me condenas
à rude mendicância onde claudico,

abro a minha canção no espaço oblíquo
das tuas superadas açucenas.
Jardineiro não sou. Feitor dos astros,
recrio minha aurora de aderências
na prematura submersão dos mastros.

Nas quilhas dêstes barcos que me sobram,
é que o sol dos meus ouros se conforma,
e as luas do meu reino se desdobram. 

segunda-feira, 12 de março de 2018

"Benedicite"



Capa do Diário de Pernambuco, hoje.



Olavo Bilac












"Benedicite"


Bendito o que na terra o fogo fez, e o teto
E o que uniu à charrua o boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que do chão abjeto,
Fez aos beijos do sol, o oiro brotar, do trigo;

E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu e o que achou o alfabeto;
E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano,
E o que inventou o canto e o que criou a lira,
E o que domou o raio e o que alçou o aeroplano...

Mas bendito entre os mais o que no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

Ó VIRGENS QUE PASSAI AO SOL POENTE


Ó VIRGENS QUE  PASSAI AO SOL POENTE


Rogel Samuel

Sim, veja, leia: É assim que diz o famoso soneto de Antonio Nobre:

Ó virgens que passai, ao Sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido Lar.

Cantai-me, nessa voz onipotente,
O Sol que tomba, aureolando o Mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a Graça, a formosura, o luar!

Cantai! cantai as límpidas cantigas!
Das ruína do meu lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho, como um ai...
Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz... Cantai!


Antônio Nobre é poeta simbolista, portanto no seu famoso soneto, o «sol-poente» nos deve remeter a «algo», deve escamotear o sentido, para alguma outra natureza, esconde o que diz.
Não seria a velhice, pois o poeta morreu jovem, com 33 anos, em 1900.
Talvez as virgens, úberes, fartas de potencialidades, a ser fecundadas na «fartura da seara reluzente», gozosas, obreiras dessa tarde, desejantes, grávidas de prazeres, vitalidades...
Mas, por que «o sol poente»?
Por que não o despertar, o meio-dia, o pleno sol da tarde?
E, sendo «poente», por que «ardente»?
E sendo «ardente», por que tomba, por que cadente, no meio dessa seara reluzente?
E se «virgens», por que «o vinho, a Graça, a formosura, o luar!»
Sim, que de mistérios vive a poesia.
Engana o/a leitora, engana-se o/a leitora, que pensa estar, apenas, o sujeito do poema lastimando o seu «perdido lar», as suas «ilusões antigas», as ruínas do seu lar.
Sim, é certo.
Certo, certo de que tudo isso é assim, também.
E o que o poeta Nobre não se deve confundir com a pessoa Nobre.
O «personagem» do poema pode ser um velho.
Mas velho possante («O Sol que tomba, aureolando o Mar»), rico de vida, de vitalidade («A fartura da seara reluzente»).
A força, a beleza do poema reside no contraste: «suaves e frescas raparigas» X «ruína do meu lar».
E sua canção é o hino que desperta «todas aquelas ilusões antigas».
A oposição e o sentido está nas belas rimas poente-ardente, cantar-lar, onipotente-reluzente, mar-luar, cantigas-raparigas, desaterrai-cantai.
São rimas significativas, verdadeiras pontes de significação, irradiam sentidos.
Sim.
Sim, tudo isso «eu vi morrer», de súbito, sim, o lar despedaçado.
E o poeta precisa morrer, dormir, esquecer, fugir daquelas lembranças do passado familiar, feliz, longe daquelas «estradas ermas», lar que era «sol», «mar»,

A fartura da seara reluzente,
O vinho, a Graça, a formosura, o luar!

O poema se encontra consigo mesmo. No fim.
Toda a fantasia da dança feminina, ao cair da tarde, seus cantos, suas suavidades reluzentes no conjunto desses evocativos versos.
Afinal são fantásticos dias de infância recuperados ao sol poente. Na voz daquelas raparigas virgens, que passam, como passaram as vozes familiares das mulheres da infância, das irmãs, mães tias avós que passaram todas pela estrada.
O lar é isso. Conjunto de pessoas.
Não lar-casa. Mas grupo familiar.
Ó Primas e Irmãs, ó virgens, cantai!
Esta é a canção.
O poema envolve sonoridade corredia: é poema para ler lido alto, em voz alta.
Poesia alta, graça, frescura, leveza.
Aureolando o Mar, límpidas cantigas.
Fartura do canto daquelas ilusões antigas de um passado, das lembranças da infância do seu perdido lar.

domingo, 11 de março de 2018

a última dor que ela me cause

A última dor que ela me cause

Rogel Samuel


Ele se predispõe: "Posso escrever os versos mais tristes esta noite", diz, e pode, que produziria versos tristes como a noite, mas a noite não está triste, a noite está estrelada, sim, "e tiritam, azuis, os astros, à distância".

Há algo muito distante, lá longe, nos astros, na distância das estrelas. Na realidade, distante está o Amado de amar: "Eu a quis e por vezes ela também me quis".

Exercendo o que mais o lirismo sabe fazer, ele se lembra: "Eu a tive em meus braços em noites como esta. / Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito".

Sim, perdida está, seu lirismo, sua lembrança, "Ela me quis e às vezes eu também a queria".

Mas esta estranha palavra, essa estranha temporalidade, o que se interpõe: "às vezes". E o poema continua, sempre nas suas mudanças de humor, na bela tradução de Domingos Carvalho da Silva:




"Como não ter amado seus grandes olhos fixos?



Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.



Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.

E desce o verso à alma como ao campo o rocio.



Que importa se não pôde o meu amor guardá-la.

A noite está estrelada e ela não está comigo.



Isso é tudo. À distância alguém canta. À distância.

Minha alma se exaspera por havê-la perdido".




Pablo Neruda nunca foi tão simples, nunca tão perfeito, tão clássico como neste poema, o "20" dos "Vinte poemas de amor", de 1968. 


Lá, parece que o Amado só se apercebe de que ela se foi quando a perdeu. Não a vê de perto, em si, há referência a uma mulher-lua, a um luar:



"A mesma noite faz branquear as mesmas árvores.

Já não somos os mesmos, nós os de outros dias".



Esta obra da juventude de Neruda, que tinha 20 anos. Ele teve diversos amores em vida, as mais conhecidas foram Maria Antonieta Hagenaar, que ele conheceu na ilha de Java, Maria Del Carril e Maria Matilde Urrutia. O poema se encontra no seu livro "Veinte Poemas", seu mais popular e famoso livro, de 1924, que vendeu mais de um milhão de exemplares. Afinal, em 1971, Neruda ganha um Prêmio Nobel.

Mas o livro é a leitura preferencial, ideal de todos os jovens (e velhos) amantes do mundo inteiro em todas as línguas, pois para quase todas foi traduzido. Em 1950, Neruda produziu seu CANTO GENERAL, monumental obra com 340 poemas, quando tematiza a América Latina, sua luta, sua pobreza, sua libertação. Lá se encontra o famoso poema "Alturas de Macchu Picchu", escrito depois de sua visita às ruínas de Macchu Picchu, em 1943. Ali ele se torna a voz dos povos Incas que ali viveram, que ali foram dizimados.

No poema 20, dos "Veinte Poemas", o amado está confuso, ela já não o ama, é isto o que verdadeiramente dói, apenas ele está triste porque ela não está ali: porque ela existia ali ele será capaz de entristecer-se, porém já não a ama, "talvez a queira", não sabe, porque o amor é breve, longo é o esquecimento do amor. Afinal ele se desespera por havê-la perdido, mas sente e sabe o caso perdido, terminado, e que aqueles versos serão os últimos e que aquela dor será a última dor que ela lhe cause. O mais é o espaço amplo da noite, as estrelas ao largo, o vento da grandeza escura, a solidão estelar onde será possível escrever os versos mais tristes, pensar que ela será de outro, para justificar o perdê-la, para justificar o não saber amá-la, porque o amor só ama o amor, e a voz que soa nos seus ouvidos dela são para o eco de si mesmo, aos seus olhos infinito



"Já não a quero, é certo, quanto a quis, no entanto.

Minha voz ia no vento para alcançar-lhe o ouvido.



De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.

Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos.



Já não a quero, é certo, porém talvez a queira.

Ai, é tão breve o amor e é tão extenso o olvido.



Porque em noites como esta eu a tive em meus braços,

minha alma se exaspera por havê-la perdido.



Mesmo sendo esta a última dor que ela me cause

e estes versos os últimos que eu lhe tenha escrito".

sábado, 10 de março de 2018

A LEMBRANÇA DE VALQUÍRIA


A LEMBRANÇA DE VALQUÍRIA
(novas páginas do antigo diário)



Rogel Samuel


Palavras. Palavras entrecortadas. Curiosa angústia. Eu ponho tudo em jogo, eu não estou com ela. Que faço aqui? Novo grupo de policiais acaba de chegar, as imediações estão um campo de guerra, um campo selvagem. Quando a porta se abriu, nós nos precipitamos pela saída dos
fundos. Eu ainda pensei que a porta resistiria, mas cedeu de uma vez, uma invasão começou. Depois começa a lavrar o incêndio. Armários despencam aos tiros, granadas, rebentam estrondos. "Sim, fui uma juventude agredida", disse Val, anos depois. O silêncio aquece o inverno longo. Você coloca sua marca, a marca de seus dedos em tudo o que faz. Você traz no corpo o seu sinal.
            Na estação, o garoto olha para trás, e corria, assustadíssimo. A fome passa. Estou bem disposto, a viagem de trem me reanima, a vida volta a seus trilhos, volta ao natural. Sinto-me de novo participante, cidadão, digo que isso é passageiro. Não sei dar linearidade a esta narrativa, ela vai-se desenrolando de dentro – a sua ordem é desordem assim, parece impossível, fico diante do que sai de minhas lembranças, fico impotente, como sob flashes atordoantes. Os olhos dela me chegam, me abraçam. Às vezes, penso que é ela quem me reencontra, seu fantasma comigo - a minha morte - um salto surpreendente. Eu tenho de usar de muita habilidade para prosseguir o tema doloroso, o tema fundamental, o propósito verbal de minha existência devastada, não mais estando disposto à lastimação solitária de origem. Minha lembrança. Recebo minha lembrança no seio de sua
vacuidade. A emancipação desaparece, por momentos. Mas nada pode ser dito. Vivo disto. Sobrevivo disto. Vivi com o principal de meus dias de paz. «Quem colhe o mel dos deuses», diz a voz, «não mais se cura». Sei que amanha acordo melhor. Bela sensação de claridade, de espaço, daquele espaço
em que passamos nossos corpos e nos estabelecemos - quero abraçar este espaço - rematar o real nele contido - recortá-lo para o recriar. Hei de contar, de cantar a mais bela canção de amor aqui, mais bela que alguém já pode viver. Val me telefonou dizendo que Ricardo... Mas isso resiste à clareza de uma narração, de uma explicação, tenho de avançar a palmo. Com teimosia, mas com cautela. Estou perdido. Melhor seria se eu pudesse logo contar certos detalhes, tornar seguro o caminho. A situação está na reta final. Mas não, não há mais ninguém, senão você, vem você, você prossegue, sim. Todos se colocaram na ausência. Sinto-me ainda na ilha, mergulho para esquecer, deixar para trás o som de suas praias, sempre nos meus ouvidos. Não, devo clamar, duvidar. Naquele tempo vivia numa ilha. Lá estava Val, também. Tínhamos uma casa na ilha. O principal de mim estava lá. Eu amava ou não tinha outra escolha. Ali era um ser todo dissolvido - um ser úmido, onde os sentimentos mais estranhos assustavam, assaltavam, chegavam com seu trânsito nervoso, a violentação de suas multiplicidades - de não sei quantos desagradáveis motivos nervosos difíceis de aturar.

                                                           *    *    *


A tarde ia desaparecendo. Um calor brando, silencioso. Valquíria aparece. Jovem. Máxima. Ela aparece jovem. Reencontro a Valquíria adolescente na Valquíria de hoje. Estou decididamente envolvido na sua substância material. Desde sempre nos envolvemos, nos identificamos. Ela vive, dança no meu ser, à vontade. Tento compreender isso, tento a resposta. Sua voz vem de longe, do tempo. Sua voz. Quando se convive, durante toda uma vida, mesmo com intervalos, com essa voz, nunca se pode sobreviver sem ela. Pessoa que se ama sempre. Estou sempre prestes a procurá-la, de novo. Por isso nunca a liberto. Sempre fui a ela, onde ela estiver. Seu timbre sempre adquire o som de um fundo que conheço mas não sei dizer de onde. Agora é o tom do amor desfeito. Refaço. Tento. Nós corremos paralelos, juntos, nos unimos em tempos sucessivos. Eu sempre. Tenho-a em meus braços? Ou ela me domina? Agora, como depois. Como sempre antes de sempre, depois, depois de depois. Nós nos deitávamos, era a comunhão, ela tão presente, como se fosse ela o mais sólido e absurdo elo da vida. Sem ela, vivo em abstrato. Se opacifica. Eu sou agora Val. Ela cheira a floresta. Nós sempre corremos em vias paralelas, nos unimos no tempo. O bom contato de seu corpo, de sua materialidade, de seu cheiro de mato moreno, de seu calor algo que eu podia beber o insaciável. Estrada. Depois a estrada. As palmeiras, eucaliptos, rubor essencial que sempre a eterniza. E eu sei que posso ficar até o sangue correr de meus dedos, aqui, a falar e a repetir sobre ela, interminável, inesgotável, solitariamente.

quinta-feira, 8 de março de 2018

A semana

A semana



A semana

Rogel Samuel (Foto de R. Samuel)

Primeiro escrevi algo triste. Sobre a morte. Meu predileto tema. Depois mudei. Rasguei a fantasia. É certo que ela morreu naqueles dias. Eu deveria pranteá-la? Mas sua morte não me fez triste. Com a placidez, a calma com que experimentou a vida, ela morreu. Ela nunca nos passou tristeza.

A semana sim. A vida também. O tempo. A crise. Há tempos, escrevi um poemazinho ordinário, que diz: "Que é viver? / permanecer / ou passar?" Não continua, a vida. Nem se demora, a morte. Não há se não a permanência da inconstância, transitória. Nem estou aqui para a filosofia barata de domingo. A semana passou, na velocidade do seu nada, do seu vácuo.

Grossas correntes, pesadas, a morte que me faz libertar das grossas correntes. Viver plenamente a felicidade do dia presente, por que não sei se amanhã acordarei. "Vaidade das vaidades, tudo é correr atrás do vento". A vida é vento. Instilou a vida um sopro no nariz do boneco de barro que foi Adão. A vida é oxigênio. Nos planetas sem oxigênio haverá vida? Nós nos estafamos, em vão. "Ai palavras, ides no vento".

Em Long Beach, demos uma pequena caminhada a pé pela praia. Meus amigos Vitrolinha e Nenen tinham saudade de Copacabana. Do calor das águas. Almoçamos no famoso Crocodile Cafe. Mais bela é Malibu. Conheci toda aquela costa, de Malibu a Dana Point.

Vitrolinha, minha amiga de infância, tinha uma tia chamada Lula. Tia Lula era muito minha amiga. Magra, sorria. Morava no Bairro do Céu. Sem brincadeira, Manaus tinha o Bairro do Céu. Tia Lula morava na Boa Sorte. Era o nome da rua. Ninguém dizia: Rua. Só Boa Sorte. "Onde mora?" - "Moro na Boa Sorte"; ou: "No céu".

A beleza pesa como a morte












A beleza pesa como a morte

Rogel Samuel

Todos conhecemos «A CANÇÃO DE AMOR DE J. ALFRED PRUFROCK» de T. S. Eliot. E conhecemos seus labirintos, seus desvios, suas alusões. Sua dificuldades de leitura, a começar pelos primeiros versos:

Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão.
Oh, não perguntes: “Qual?”
Sigamos a cumprir nossa visita.

Os poetas mais difíceis são os que mais me impressionam. Não a dificuldade aleatória, gratuita. Mas a profundidade dos semas mais alucinantes, como no «Por de sol» de Holderlin, na tradução de Manuel Bandeira:


Onde estás? A alma anoitece-me bêbeda
De tôdas as tuas delícias; um momento
Escutei o sol, amorável adolescente,
Tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite.


Ecoavam ao redor os bosques e as colinas;
Êle no entanto já ia longe, levando a luz
A gentes mais devotas.
Que o honram ainda.

Nos versos de Elliot, o anoitecer é um «um paciente anestesiado sobre a mesa». Esta metáfora hospitalar retorna no que pergunta:

E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
- Tudo isso, e tanto mais ainda? -
Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos...

Sim, «impossível exprimir exatamente o que penso! », diz, ele, Eliot, como se «uma lanterna mágica projetasse / Na tela os nervos em retalhos...»
A beleza está no que não diz, mas retém. Silencia.
Nos versos de Holderlin a alma anoitece bêbada de prazeres, dos prazeres da poesia. O sol joga uma malha de ouro sobre tudo e começa a cantar. O som do canto ecoa nas colinas. Nos bosques. Há uma pátina de sexualidade nesse cantar, bêbado de prazeres. O adolescente-poeta escuta o ouro do cantar do sol, que leva as luzes. A noite caminha próxima, há delícias no ar desse poetar. Nesse pomar, como a «Quietude», de Ungaretti, que diz, na tradução de Menotti del Picchia:

A uva está madura e campo arado,
o monte se destaca das nuvens.

Nos poentos espelhos do verão
caiu a sombra

Entre os dedos incertos
sua luz é clara
e longínqua

Foge com as andorinhas
o último desespero

Ou «Já se desprende a magra flor», de Salvatore Quasimodo, na tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti:

Nada saberei de minha vida
escuro monótono sangue.

Não saberei quem amei, quem amo
agora que aqui contido, reduzido a meus membros,
no gasto vento de março
enumero os males dos dias desvendados.

Já se desprende a magra flor
dos galhos. E eu contemplo
a paciência de seu vôo irrevogável.

Ou, na «Imitação da alegria», diz Quasimodo:

Ali onde as árvores fazem
a tarde ainda mais abandonada
indolente
sumiu teu último passo,
como a flor que mal se mostra
sobre a tília e insiste em viver.

Buscas sentido para teus afetos,
encontras o silêncio em tua vida.
Outro destino me revela
o tempo refletido. Pesa-me
como a morte, a beleza que agora
noutras faces brilha.
Perdida está toda coisa inocente
mesma nesta voz, sobrevivente
a imitar a alegria.

O que o poeta diz é «vamos, tu e eu», «sigamos por certas ruas quase ermas, através dos sussurrantes refúgios», « Ali onde as árvores fazem / a tarde ainda mais abandonada», «nos poentos espelhos do verão / Entre os dedos incertos», vamos « tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite». Enfim, vamos buscar da poesia o poema e mergulhar no «sentido para teus afetos», pois a beleza pesa como a morte.

domingo, 4 de março de 2018

FELIZ ANO NOVO E, COMO DIZIA DONA MARIA AUGUSTA PERREIRA BATISTA, "TUDO DE BELO E DE BOM"!


FELIZ ANO NOVO E, COMO DIZIA DONA MARIA AUGUSTA PERREIRA BATISTA, "TUDO DE BELO E DE BOM"!

Rogel Samuel

Minha saudosa amiga, Dona Maria Augusta Pereira Batista, era uma senhora idosa na casa de quem eu morei na minha juventude no Rio de Janeiro.
Eu a conheci no mosteiro budista de Santa Teresa.
Habitei um quarto no apartamento dela na Praça da Cruz Vermelha, em frente ao bar Ali Babá, que era um bar de bandidos que, naquele tempo, eram amistosos e de cuja convivência privar era um privilégio.
D. Maria Augusta, que morava só, cuidou de mim como uma mãe, e certamente foi umas das melhores pessoas que conheci.
Era pobre, mas de família ilustre, meio-parente do Dr. Joaquim Murtinho e tinha – abandonada! – uma casa na Pedra de Guaratiba.
Abandonou aquela casa no dia em que faleceu o marido.
Um dia, fomos, eu e ela, ver a casa.
Ainda estava lá, tal como ela a deixou, a mesa posta para o almoço daquele dia, dez anos antes, em que o seu ex-marido faleceu.
Tudo estava intacto, como num museu, como naquele dia!
Feliz saudade, Amiga!

quinta-feira, 1 de março de 2018

Dos sonhos

Dos sonhos

Rogel Samuel

Todos nós temos alguns sonhos, que alimentamos com cuidado e que residem no mais secreto de nossas consciências. Avançamos na velhice alimentando sonhos. Quando deixamos de sonhar, entramos em processo de morte. Dessa forma, a morte é, pois, invenção da vida. A morte também é um dos nossos sonhos. Inventamos a morte, criamos nela o céu, o inferno e tudo o mais. Mas, além da morte, temos outras realizações no domínio dos sonhos.
Somos responsáveis pelo que sonhamos. Cuidado com eles, que facilmente viram realidade. Não pense que eles são “apenas sonhos”. Podem ser tão verdadeiros quanto a realidade, ou podem morar nas regiões mais distantes, e nunca aparecer.
Que são os sonhos? Não os menospreze. Seremos o que sonhamos. Concretizamos as obras que com elas sonhamos antes.
A matéria, diz Aristóteles, é o ser em possibilidade, como a cera é a possibilidade para o sinete, diz Bloch.
“Há muitos graus de realidade. A realidade não traz a justiça em si mesma. Está aberta sobre o porvir, escreveu Ernst BIoch, em “O Homem Como Possibilidade”.
O sonho pode agir criadoramente de maneira concreta. As coisas ainda não estão decididas, acabadas, concluída. Falta o quê? Falta o futuro, o Futuro.
O futuro está no espaço mágico dos sonhos, na sinfonia das nossas esperanças e aspirações, lá, lá onde tudo é possível. É lá que está aquele laranjal florido, aquela casa, aquela montanha, você a conhece?

“Conheces a montanha ao longe enevoada?
A alimária procura entre névoas a estrada...
Lá, a caverna escura onde o dragão habita,
E a rocha donde a prumo a água se precipita...
Não a conheces tu?
Pois lá... bem longe, além,
Vamos, ó tu, meu pai e meu senhor, meu bem!”
(Goethe. “A canção de Mignon”, Trad. de João Ribeiro)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

NEUZA MACHADO: SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS

NEUZA MACHADO: SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS


NEUZA MACHADO: O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE


SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL

O narrador do século XX, ficcionalmente, intuitivamente ou não, percebeu os dogmas imperialistas sobre o assunto e os ultrapassou. A sua infração sócio-ficcional se notabiliza ao longo de sua narração sobre os Numas. Por minha parte, para interpretar a cena em que o narrador Ribamar de Sousa afirma ter sido o primeiro “a ver uma fêmea Numa”, vejo-me na eventualidade de buscar, uma vez mais, auxílio cognitivo em A água e os sonhos, de Gaston Bachelard, lembrando aqui que o filósofo francês, por seu turno, não se esquivou da busca de digressões metafísicas em outros pensadores. No capítulo II do livro anteriormente assinalado (AS ÁGUAS PROFUNDAS - AS ÁGUAS DORMENTES - AS ÁGUAS MORTAS), há uma citação de Nietzsche, retirada do livro Schopenhauer, página 33: “É preciso adivinhar o pintor para compreender a imagem” . Aproprio-me da citação nietzschiana, via Bachelard, para compreender este diferenciado parágrafo.
É preciso adivinhar o pintor para compreender a imagem, afirmou Nietzsche, e Bachelard referendou-o. E se Marie Bonaparte, endossada também por Gaston Bachelard, “descobriu” “a principal razão psicológica” da “tonalidade profunda do devaneio criador” dos contos de Edgard Alan Poe, porque não poderia agir da mesma forma, esta analista e ao mesmo tempo fenomenóloga tupiniquim, ao dialogar com este texto diferenciado do final do século XX? E por que não repensar também algumas idéias de Foucault, reveladas à França e ao mundo lá pelos idos dos anos de 1970, ainda atuantes por aqui, nestas plagas também tupiniquins, nestes anos iniciais do Terceiro Milênio.


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Onças



Onças 

Rogel Samuel 


Alencar é cinematográfico. Estou relendo "O guarani". O livro começa por um "fio d'água". Alencar seduz pela leveza. Logo aparece uma cena "impossível": Peri caça uma onça preta com as próprias mãos. Perto de Manaus vivia um caboclo, caseiro meio índio, forte como touro selvagem. Certo dia uma jaguatirica, também chamada "gato do mato", do tamanho de um cão, caiu na armadilha para paca. O animal ficou entrelaçado de cordas pelo corpo, mal podia mover-se, mas arrancou-se dali. Ele ouviu aquilo, foi lá com a filha pequena. A onça conseguiu pular sobre a menina. Mas o animal estava de costas, entrançado de cordas. Ele o pegou para estrangular. Quando chegaram outros homens a onça estava ainda viva e, com as unhas da única pata livre, cortava o inimigo que quase morreu. Em Alencar, Peri enfrenta a onça preta. As onças pretas estão em extinção. Famosas. Na minha época só existiam no Norte. Meu amigo A., que viajou 40 anos pelo Amazonas, só encontrou uma, ele descendo um igarapé estreito, motor quase em silêncio, sobre um tronco de árvore caída, ao sol, ela. Deu marcha a ré. O animal voltou-se, soberano. Olhou com desprezo, voou como um pássaro, atravessou a margem. Conheci um "matador" de onças, velhote magro, vivia daquilo, no Careiro, perto de Manaus. Amarrava um porco, subia na árvore, ficava na espera. Nesta época digital estou relendo Alencar e falando de onça. Alencar é a Mata Atlântica. Alencar organiza a estória como a história do Brasil, que sai de sua obra inteira. Sente a floresta, que ele conheceu bem. Sem não me engano, ele veio, por terra, do Ceará ao Rio de Janeiro. Naquela época, uma epopéia, uma caminhada digna da coluna Prestes. Lula também fez a caminhada da cidadania assim. Meu amigo NL viajou com Lula pelo interior do Amazonas. Marta estava lá, também. Mulher bonita, a Marta. O guarani, ópera, filme, medieval, com direito a castelo, cavaleiro (Peri), donzela, rei. Alencar escrevia para o jornal, os romances saíam em seriados. Ele amava esse país de índios, negros e portugueses. É um escritor brasileiro. Veio, por terra, do Ceará ao Rio de Janeiro. Como Prestes. Minha amiga NG ficou furiosa com Lula porque em Manaus preparou-lhe um almoço com as próprias mãos e depois de comer Lula foi agradecer à cozinheira: "Companheira..." E deu-lhe um abraço. Ela é escritora, mas gosta mesmo é de ser elogiada na cozinha. Se você for almoçar lá e não elogiar a comida ela entra em depressão. Ou fúria. Seu livro x. está sendo traduzido na França. Prestes eu conheci, já muito idoso, em conferência no Fundão. Brizola também. Logo que voltou do exílio, em Nova Iguaçu. Brilhante orador, abriu e fechou o congresso do PDT. Voz metálica, imagem exata e exaltada. Conheci Juscelino, na Faculdade de Filosofia. E Lacerda. Só me faltou D. Antonio de Mariz, pai de Cecília.