AS FLORES VESTIDAS DE BRANCO
ROGEL SAMUEL
Na rua sou abordado. A mulher que me pede dinheiro. Geralmente nunca paro, nessas ocasiões.
Eu vinha de um concerto. A Filarmônica do Rio de Janeiro, de Florentino Dias, que melhorou muito. Concerto pela paz, com distribuição de muitas
flores brancas por moças vestidas de branco, como castas noivas e com a presença do cônsul americano e de sua família. Encontrei meu amigo C. no foyer. Conversamos sobre política e música. Falamos sobre Menininha Lobo, uma grande pianista brasileira. Digo: Cassar sempre me lembra os anos sessenta. O Congresso é o contrário das ditaduras. Ele não me
compreende e se irrita, acha que defendo Jader. Vejo que nossa conversa se torna cada vez mais ácida e rapidamente me despeço, pois o concerto vai começar. O começo foi fraco, a Abertura "Salvador Rosa", de Carlos Gomes. Depois a orquestra foi ficando maior, foi "esquentando", e no fim apresentou uma Quinta Sinfonia de Tchaikovsky que emocionou. Conheço a
orquestra desde o tempo do falecido amigo Nathanael Caixeiro. "Nata", violinista da orquestra, professor de filosofia e história, e tradutor.
Traduzia de várias línguas. Tinha coleção de violinos. Mas era pobre, morava mal. O apartamento dava para um viaduto horrível, o Paulo de Frontin. Eu o conheci em Campo Grande, quando professor do Estado. Logo
encontramos um ponto de apoio nas nossas conversas: a música. Nata também pintava, e muito bem. Assinava ironicamente "Petit-grand", porque era baixinho. Teve morte antológica. Um domingo cedo foi levar o cão
para passear. Depois, como sempre fazia, ia praticar o violino, sentado na cama. Sua mulher foi fazer um café. Quando voltou, ele estava morto, segurava o violino e o arco, braços abertos na cama. Sou abordado na rua
por mulher diferente, não exatamente mendiga, vestida de classe média baixa, uma viúva, ou abandonada pelo marido. Noto que suas mão tremem, pálidas. A rua deserta, me pede dinheiro, envergonhada de pedir. "Tenho de comprar comida pra minha casa", ela diz, e abre dois sacos plásticos de supermercado, onde posso ver bananas. "Não tenho mais dinheiro", diz ela, e começa a chorar. Parece doente. Suas lágrimas eram reais. Ela sofria. Via-se a pedir dinheiro e sofria. Soluçava para dentro, por sua desgraça. Os sinos, à distância, tocam. A desgraça, a fome. Lembrei-me
de que, na Sala Cecília Meireles, tocou-se a "Valsa das Flores". Das flores brancas, alvas, puras, castas. Meu pensamento fugia, voava pelo espaço. Uma menina passou, sorrindo. Era como se estivesse vestida de
branco. Sorriu. Sento-me no bar e me ponho a ler Alfonsina Storni:
Tu me queres alva,
me queres de espuma,
me queres de nácar,
que seja açucena
mais casta que todas.
De perfume suave;
corola fechada.
Nem raio de lua
filtrado me toque.
Nem a margarida
seja minha irmã.
Tu me queres nívea,
Tu me queres branca,
tu me queres casta.
Tu, que as taças todas
já tiveste à mão.
Os lábios corados
de frutos e mel.
Tu, que no banquete
coberto de pâmpanos,
as carnes gastaste
festejando a Baco.
Tu, que nos jardins
escuros do engano,
lascivo e vermelho
correste no abismo.
Ó tu, que o esqueleto,
não sei por que graça
ou por que milagre
conservas intacto,
só me queres branca,
(que Deus te perdoe!)
só me queres casta,
(que Deus te perdoe!)
só me queres alva.
Foge para o bosque,
vai para a montanha,
purifica a boca,
vive na humildade.
Segura com as mãos
a terra orvalhada.
Alimenta o corpo
de raiz amarga.
Bebe a água das rochas,
dorme sobre a geada,
renova os tecidos
com salitre e água.
Conversa com os pássaros,
lava-te na aurora.
E já quando as carnes
ao corpo te voltem,
e quando hajas posto
nas carnes a alma
que, pelas alcovas
ficou enredada.
Então, homem puro,
pretende-me nívea,
pretende-me branca,
pretende-me casta.
(Trad. de Oswaldo Orico)
sábado, 27 de janeiro de 2018
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
Carlos Castelo Branco na Academia Brasileira
Carlos Castelo Branco na Academia Brasileira

Carlos Castelo Branco na Academia Brasileira
Rogel samuel
Leio em "Os dias esquecidos" de Ascendino Leite que num dia quentíssimo do Rio de Janeiro
- fazia 43 graus, disse Ascendino - Carlos Castelo Branco foi eleito para a ABL.
Era o dia 4 de novembro de 1983.
Carlos Castelo Branco teve 21 votos, Mário Quintana derrotado 17 votos.
Quintana concorreu três vezes, sempre derrotado.
Carlos Castelo Branco sucedeu a R. Magalhães Júnior.
Entrevistado, Quintana disse:
- Não fui eleito, mas estou em boa companhia, como a de Monteiro Lobato, que tentou duas
vezes.
Ascendino, sempre ácido, chamou o poeta Quintana de "desmunhecado", o que não sei o que quis dizer. E "meio amargo".
Ascendino lembra que a Academia recusou Jorge de Lima 3 ou 4 vezes. "Vergonha irreparável",
diz.
Acontece que Jorge de Lima era meio "louco". Louco de genialidade. Contam que ela entrava em delírio, subia na mesa. Dizem que seu psiquiatra foi quem o aconselhou a escrever "Invenção de Orfeu", como terapia. Aquele psiquiatra merecia uma homenagem nacional.
Carlos Castelo Branco declarou que tinha sido eleito por seu jornalismo.
- "Minha obra literária é escassa e remota".
Mas Carlos Castelo Branco era um extraordinário escritor.
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Carlos Castelo Branco na Academia Brasileira
quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
O quarteto
O quarteto

O quarteto
Rogel Samuel
Eles conversavam e tocavam pela noite a dentro naquela casa, em Manaus, que reunia três a quatro senhores para tocar. Um era meu pai, um comerciante francês, outro um padre velho alemão, um terceiro era um músico manauara, pai do poeta Luiz Bacellar, e mais outro de que não me lembro. Tocavam para si mesmos, não para um público. O francês no piano ou no violino, o alemão com o violino, o amazonense na viola. Não me lembro se alguém tocava violoncelo. Tocavam trios ou quartetos de Beethoven. Tocavam bem. Como o teto da casa velha era muito alto, a acústica da sala era muito boa. A casa velha tinha um teto muito alto, e uns desenhos inscritos, umas pinturas onde a sonoridade das arcadas se infiltravam. A sala era muito boa. Eles conversavam e tocavam Beethoven pela noite a dentro. Em plena selva amazônica, tocavam Beethoven. Ensaiavam juntos, argumentavam, e às vezes punham algum disco da RCA VICTOR para comparar alguma passagem difícil. Beethoven era ouvido ali, e talvez algum
desconhecido que passasse pela rua àquela hora se perguntasse o que eram aqueles sublimes sons na cidade de Manaus da década de 40.
A palavra pesada
A palavra pesada
A palavra pesada
Rogel Samuel
Bilac era intelectual e emocionalmente inquieto, instável, liricamente ansioso, tanto que o titulo de seu livro é “Alma Inquieta”, onde se lê que a palavra não consegue exprimir a sua inquietude, aquilo que ele nem diz nem escreve, porque não encontra a apropriada voz ou não consegue, pois a palavra inútil não responde ao turbilhão fervente do que está só em pensamento – o pensamento, o sentimento é evanescente, leve, para a palavra pesada, fria, espessa, de pedra, uma laje, um sepulcro a palavra inútil, a palavra abafada, sem o perfume sutil que revoa e ilumina com a luz que refulge da idéia - pois quem vai conseguir moldar a expressão de tudo? quem vai conseguir colocar o risco do céu na mão da terra? quem vai dar apropriada voz à ira e ao asco e ao desespero e à fé e às confissões de amor que não saem à luz do dia?
Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
- Ardes, sangras, pregada a' tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...
O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e dano, refulgia e voava.
Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?
E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?!
terça-feira, 23 de janeiro de 2018
O mundo é uma interpretação
O mundo é uma interpretação

O mundo é uma interpretação
Rogel Samuel
"Observa o mundo de outro modo. Muda o teu olhar sobre as coisas", disse Dugpa Rinpochê.
Qual outro modo de ver o mundo? Ele nada diz. Mas sugere.
Sim. Sugere que o mundo é tal como o vemos. Ou seja, o mundo pode mudar se mudamos a maneira de vê-lo. Mudo o olhar, mudo o mundo. O mundo não é, então, algo fixo, um ser-aí final.
O mundo é uma interpretação.
Alceu Amoroso Lima escrevia uma linha no fim do dia. Só uma linha, num caderno especial, registrava um resumo do que acontecera no dia, uma retrospectiva do dia. Dizia que todo escritor deveria rabiscar um texto todos os dias, para exercitar-se. "Nenhum dia sem uma linha". Ele também redigia uma carta diariamente para a filha monja reclusa, naquela sua ilegível e apressada letra, o texto na ortografia antiga. Todos os dias uma carta sobre seu dia, sua vida cotidiana e espiritual. Todos os dias um resumo de sua vida. Uma retrospectiva das horas.
Alguns monges budistas tibetanos recomendavam que, no fim do dia, antes de dormir, deveríamos meditar sobre o que fizemos no dia colocando bolas pretas e brancas numa caixa - as pretas para nossas ações más, as brancas para nossas boas ações. Assim faríamos um balanço do dia. Num diário também. Exprimiriam nossas promessas? Composição na soma do tempo.
A vida é mesmo um sonho, uma visão de um mágico show. Triste ou bela, sólida ou frágil, "a vida leva-a o vento", escreveu poeta João de Deus (1830-1896), no seu "Campo de flores":
A vida é o dia de hoje,
a vida é ai que mal soa,
a vida é sombra que foge,
a vida é nuvem que voa;
a vida é sonho tão leve
que se desfaz como a neve
e como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
a vida é sopro suave,
a vida é estrela cadente,
voa mais leve que a ave:
Nuvem que o vento nos ares,
onda que o vento nos mares
uma após outra lançou,
a vida – pena caída
da asa de ave ferida -
de vale em vale impelida,
a vida o vento a levou!
POR ISSO VAMOS COMEMORAR AGORA!
segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
A fome é um não
A fome é um não

A fome é um não
Rogel Samuel
O mundo está com fome. A fome no mundo aumenta.
Leio que a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) prevê que o número de famintos no mundo chegará ao recorde de 1 bilhão e 20 milhões de pessoas. Um em cada seis seres humanos está passando fome.
Há uma perversa combinação da crise econômica com a elevação do preço dos alimentos.
Jacques Diouf, da FAO, disse que a crise alimentar vai por em risco a paz e a segurança mundial.
642 milhões vivem na Ásia e 265 milhões na África subsaariana.
"A fome não é um produto da superpopulação: a fome já existia em massa antes do fenômeno da explosão demográfica do após-guerra. Apenas esta fome que dizimava as populações do Terceiro Mundo era escamoteada, era abafada era escondida. Não se falava do assunto que era vergonhoso: a fome era tabu" escreveu há muitos anos Josué de Castro.
Escreveu Cassiano Ricardo:
"A fome é um não.
A fome ri. A fome é a morte ainda viva.
Ambulante".
Vejo os rostos cadavéricos da fome africana e asiática. A máscara da fome. No coro das máscaras. A face ossuda, angulada. Não é preciso perguntar: 'você me conhece'.
"A face do sub-vivo é dialética. Gera pontas de faca sob a pele" diz Cassiano Ricardo.
A máscara da fome é um feroz atestado. Uma em cada seis pessoas passa fome, no mundo.
A fome ri. A fome esculpe, cinzela as suas criaturas (ou caricaturas?)
- A fome é um Não.
Um não que não aceita explicação.
(Cassiano).
sábado, 20 de janeiro de 2018
As águas do jardim
As águas do jardim

As águas do jardim
Rogel Samuel
Omar Khayyam lastima as rosas o Irã as as xícaras de sete anéis o lugar desconhecido para onde todos se foram. Jamshyd é a mitológica figura do grande Pai iraniano, o quarto rei da sua dinastia, e aparece nas escrituras de Zoroastro. Jamshyd é a tradição, o herói nacional, o modelar, o mítico, a reserva a imagem.
Que sobrou? que ficou? Restou o jardim antigo e sua videira e suas águas que passam como o tempo passa a história e suas lendas e o velho Irã e suas mais belas tradições...
O Irã realmente se foi com todas suas Rosas,
E a Xícara de sete anéis de Jamshyd para onde ninguém sabe;
Mas ainda a Videira seus frutos de rubi antigos oferta,
E ainda há um Jardim com suas taças de Água.
Versão inglesa de Edward FitzGerald, Língua original Persian/Farsi, Trad. R. Samuel
quarta-feira, 17 de janeiro de 2018
O anel de brilhante
O anel de brilhante
Rogel Samuel
Ela ganhou um anel de brilhante. Quando ficou noiva. Era um anel com um solitário. Aquele anel acompanhou-a a vida inteira. Quando ficou velha, passou o anel para sua neta mais velha, no dia do casamento desta. – “Entregue para sua neta, no dia do casamento dela”, recomendou. Amélia, a neta, recebeu o anel somente quando sua avó estava para morrer. – “Deixe-o para sua neta”, disse-lhe a avó. Maria Antônia, neta de Amélia, deixou por herança o anel para sua neta, que o deixou para sua neta, e depois o anel foi passando, de neta em neta, por um longo período de tempo. Todas morreram, umas bem velhas, outras nem tanto. Mas o anel permaneceu vivo, inteiro e brilhante. O anel é eterno. Ficará até o final dos tempos, e ninguém saberá das vidas que ele acompanhou.
A cadeia foi quebrada por um naufrágio.
Hoje o anel repousa no fundo do mar.
Dizem que olhando, com uma boa lupa, é possível ver o rosto de todas as mulheres que o usaram.
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
há fotografias como punhais
há fotografias como punhais

há fotografias como punhais
Rogel Samuel
Para ela fotografias há que são punhais, poemas tamém, os poemas todos já foram escritos, reescritos, ela só faz este pedaço do oficio, o oficio das trevas, das argilas, dos pedaços de argila, impressos na chuvas, nos ventos, nas folhas noviças, o pai, a mãe ja partiram, e se foram numa voragem de passado remoto, a moça feia de varíola nunca amada que na taberna de Vladivostoque se ofereceu a Joseph Kessel, como pouca gente sabe, daquela guerra, deste verso, quase desconhecida guerra, mas ela lá esteve, e trouxe o verso, e por isso os outros versos todos já foram escritos, são chagas, são punhais crescendo bem como fogo, porque tudo é um problema insolúvel...
há fotografias como punhais. e poemas também.
todos os poemas que escreverei já foram escritos
dou-me apenas ao ofício das trevas
de os revelar em pedaços de argila
neles todos estão impressos a chuva e o vento
e as folhas noviças dos séculos e
meu pai e minha mãe que já partiram
esvoaçando num passado remoto
e também a rapariga feia e bela desfigurada pela varíola
que nunca fora amada porque não era bela
e que numa noite na taberna de Vladivostoque
se ofereceu derradeiramente a Joseph Kessel
talvez pouca gente saiba deste verso
que nunca terá sido dito deste modo
e foi acontecido durante a guerra sino-japonesa
quase ninguém esteve lá para o ver
mas eu estive. trouxe -o comigo.
é exactamente por esta razão que os meus poemas
já foram todos escritos.
são como chagas alastrando e crescendo em searas de fogo
estando entre a terra e as estrelas.
sei apesar de tudo porque li Juan Gelman
que cada lágrima é um problema insolúvel
MARIA AZENHA
A chuva nos espelhos
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terça-feira, 9 de janeiro de 2018
segunda-feira, 8 de janeiro de 2018
domingo, 10 de dezembro de 2017
FREI LOTHAR
FREI LOTHAR
De repente, o Frei se lembrou do Concerto Duplo - beleza! - e emendou a Partita num dos trechos de sua parte. No Concerto Duplo tudo era ânsia, sublimidade. Ele se imaginava no meio da orquestra, lembrava-se dos sonhos de ser músico, e não padre, mergulhava no concerto ouvindo o violoncelo e toda a grande orquestra. Via as galerias repletas, de onde explodia o sucesso, o aplauso, tudo aquilo bem longe do Amazonas, bem longe da morte. Ele foi levado pelo devaneio. Por quê? Do antigo misticismo não sobrava nada. Por quê? Tocava Brahms cortando ao meio a floresta Amazônica. Por quê? A noite corria no altíssimo, e o céu da Amazônia de repente ficou transparente e claro e coberto de estrelas que cintilavam, e tudo lhe apareceu de uma só natureza, num bloco em que ele não existia mas estava integrado num todo - e Frei Lothar, parando de tocar, correu para a amurada com lágrimas nos olhos, e de repente viu, em êxtase, que a Imensidão e a Eternidade apareciam subitamente ali na sua frente, vindo e chegando a ele, amplas, entrando por seus olhos, por seus ouvidos, e tudo era um só Incomensurável ... - e ele, integrado, eterno, deu um grito e se sentiu incompreensivelmente feliz
De repente, o Frei se lembrou do Concerto Duplo - beleza! - e emendou a Partita num dos trechos de sua parte. No Concerto Duplo tudo era ânsia, sublimidade. Ele se imaginava no meio da orquestra, lembrava-se dos sonhos de ser músico, e não padre, mergulhava no concerto ouvindo o violoncelo e toda a grande orquestra. Via as galerias repletas, de onde explodia o sucesso, o aplauso, tudo aquilo bem longe do Amazonas, bem longe da morte. Ele foi levado pelo devaneio. Por quê? Do antigo misticismo não sobrava nada. Por quê? Tocava Brahms cortando ao meio a floresta Amazônica. Por quê? A noite corria no altíssimo, e o céu da Amazônia de repente ficou transparente e claro e coberto de estrelas que cintilavam, e tudo lhe apareceu de uma só natureza, num bloco em que ele não existia mas estava integrado num todo - e Frei Lothar, parando de tocar, correu para a amurada com lágrimas nos olhos, e de repente viu, em êxtase, que a Imensidão e a Eternidade apareciam subitamente ali na sua frente, vindo e chegando a ele, amplas, entrando por seus olhos, por seus ouvidos, e tudo era um só Incomensurável ... - e ele, integrado, eterno, deu um grito e se sentiu incompreensivelmente feliz
quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
DOIS - A PANTERA DE ROGEL SAMUEL
DOIS - A PANTERA DE ROGEL SAMUEL
Nesse casebre, à noite, sentimo-nos ameaçados.
Sabemos estar sobre o Eldorado.
Pepitas de ouro no leito do lago.
Animais noturnos nos espreitam. O cântico da mãe da
lua aterroriza, o urutau canta suas três oitavas horrorosas.
Eu durmo com Jara numa rede alta, encostado no seio
do muro do seu silêncio.
As estrelas são vivas. E gritam.
Não há mosquitos, mas um frio vem da alma, vem do
calor da noite, dos ventos sinistros dos Andes.
Naquela noite
novamente ouvimos a presença noturna da pantera negra, ao redor da casa.
Naquela noite, ouvimos
gritos e silvos, gemidos, assobios.
Miracã-uera, o
cemitério.
Moramos em cima do cemitério
do Eldorado.
Isso nos assusta, nos
ilude, no escuro, no miúdo.
Por aqui, a floresta aparece
num grande mapa, protegida.
Nenhum civilizado
pisou esses solos amaldiçoados, protegidos por demônios encharcados de ouro.
Jara quase não fala,
companheira silenciosa.
Não sei de onde ela
veio, não sei quem é. E temo que possa matar-me, enquanto durmo.
Mas fazemos o amor
selvagem.
Quando ela vê a minha
depressão, mergulha no leito do lago e vem com uma pepita de ouro puro que vou
acumulando numa mochila já tão pesada.
Depois acende um
cachimbo de ipadu, uma espécie de coca, sopra na minha face. E me obriga a
mascar algumas folhas amargas, misturadas com cinzas da palmeira motaçu, e um
cipó amargo, chamado Tchamaru. Essa mistura me revigora, sinto uma embriaguez
deleitosa, súbita euforia, e adormeço em seus braços.
- Ipadu! Ipadu! – diz ela. Ipadu, motaçu, Tchamaru!
E eu me reconheço, e eu me recupero.
Sei que ela pressente o perigo, a guerra. O
incompreensível perigo.
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DOIS - A PANTERA DE ROGEL SAMUEL
sábado, 2 de dezembro de 2017
A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito) 1.
Eu não sei há quanto tempo já que estou aqui. Perdi
a consciência da vida e espaço, na letargia de espera, felicidade calma,
apática tristeza. Nem sei mesmo onde estou, entre essas imensas árvores, onde
os verdes pássaros gritam, os silvestres silvam, estilete no silêncio morno do
calor úmido do mormaço da tarde.
Em frente, o lago dourado se abre, largo, sinistro,
sem nome. Minha companheira pesca, ela está imóvel, como estátua nua no ar, levantada
a lança.
Talvez eu já esteja louco, isolado aqui há muitos
anos.
Talvez não.
O mundo desapareceu, mudou-se, fechou-se. O tempo
morto, lembranças mortas, espaço morto, verde incompreensível.
Por que de nada me lembro ou de nada me quero lembrar além da espera da morte, da
guerra final.
Quando o
som de arco perfura, sei que ela não
erra. Ela é jovem, bela, ombros largos, pernas longas, barriga torneada.
Está aqui há algum tempo, silenciosa, atenta,
misteriosa, meiga. Perigosa. Protetora, amante ou inimiga, não sei. Os velhos permitiram
que ela ficasse comigo, não sei por quê. Acho que ela pediu, quando apareceu. Ficou.
Vieram depois guerreiros, dias depois, buscá-la.
Ela não foi, gostou de mim, fizemos sexo, selvagem e louco.
Eles desapareceram. Nem olharam para mim.
Agora Jara é atalaia, está aqui para alertar sobre
aproximação do exército inimigo. Será mesmo que virá o exército inimigo? Talvez
Jara esteja planejando matar-me. Talvez eu seja o seu inimigo. Mas minha letargia,
minha apatia, minha indiferença faz Jara permanecer em paz.
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A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito) 1.
terça-feira, 14 de novembro de 2017
domingo, 12 de novembro de 2017
DEUS SONHA - VICTOR HUGO
DEUS SONHA - VICTOR HUGO
O dia acorda. Deus, por uma fresta
Das nuvens a espreitar, ri-se. A floresta,
O campo, o inseto, o ninho sussurrante,
A aldeia, o sol que finge a serrania...
Tudo isso acorda, quando acorda o dia
No fresco banho de ouro do Levante.
Das nuvens a espreitar, ri-se. A floresta,
O campo, o inseto, o ninho sussurrante,
A aldeia, o sol que finge a serrania...
Tudo isso acorda, quando acorda o dia
No fresco banho de ouro do Levante.
Deus sonha. Vaza os olhos d’água; pica
As artérias da terra; o lis fabrica,
E da matéria sonda o fundo ovário.
Pinta as rosas de branco e de vermelho,
E faz das asas vis do escaravelho
A surpresa do mundo planetário.
As artérias da terra; o lis fabrica,
E da matéria sonda o fundo ovário.
Pinta as rosas de branco e de vermelho,
E faz das asas vis do escaravelho
A surpresa do mundo planetário.
Homens! As férreas naus de velas largas
Monstros revéis, formidolosas cargas,
Do bruto oceano arfando as insolências
Extenuando os ventos, e nos flancos.
Largo enxame a arrastar de flocos brancos
De escuma, e raios e fosforescências...
Monstros revéis, formidolosas cargas,
Do bruto oceano arfando as insolências
Extenuando os ventos, e nos flancos.
Largo enxame a arrastar de flocos brancos
De escuma, e raios e fosforescências...
Os estandartes de arrogantes pregas;
As batalhas, os choques, as refregas;
Náuseas de fogo de canhões sangrentos;
Feroz carnificina de ferozes
Batalhões - bando espesso de albatrozes
De asa espalmada e aberta aos quatro ventos...
As batalhas, os choques, as refregas;
Náuseas de fogo de canhões sangrentos;
Feroz carnificina de ferozes
Batalhões - bando espesso de albatrozes
De asa espalmada e aberta aos quatro ventos...
Comburentes, flamívomas bombardas,
Ígnea selva de canos de espingardas,
Estampidos, estrépitos, clangores,
E, bêbedo de pólvora e fumaça,
Napoleão que galopando passa,
Ao ruflar de frenéticos tambores;
Ígnea selva de canos de espingardas,
Estampidos, estrépitos, clangores,
E, bêbedo de pólvora e fumaça,
Napoleão que galopando passa,
Ao ruflar de frenéticos tambores;
A guerra, o saque, as convulsões, o espanto;
Sebastopol em chamas, de Lepanto
A vau de lanças e clarins repleto...
Homens! Tudo isso, enquanto recolhido
Deus sonha, passa e soa ao seu ouvido
Como o rumor das asas de um inseto!
Sebastopol em chamas, de Lepanto
A vau de lanças e clarins repleto...
Homens! Tudo isso, enquanto recolhido
Deus sonha, passa e soa ao seu ouvido
Como o rumor das asas de um inseto!
(Trad. de Raimundo Correia)
sábado, 4 de novembro de 2017
sexta-feira, 27 de outubro de 2017
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
"COELHO NETTO E SUA OBRA" DE PÉRICLES MORAES
No Brasil, a fecundidade literária do sr. Coelho
Neto é um exemplo isolado. Pode-se dizer que nas nossas letras, desde que a
nossa literatura deixa de ser uma ficção para tomar forma e se revelar, não se
conhece outro escritor dotado de maior ou de igual disciplina de trabalho.
Prosador nato, dos melhores de nossa língua, a sua obra aperfeiçoa-se de dia
para dia, ramifica-se, irradia-se, exerce influências, determina uma época
literária; e muito embora a crítica de hoje, desconfiada e bisonha, faça restrições
ao seu valor intrínseco, não há como recusar-lhe a primazia com as de maior
nomeada. Não afirmaremos que o escritor tivesse tido sempre as palmas da
vitória em todas as experiências que o diletantismo de seu espírito praticou.
Mas, se como poeta o sr. Coelho Neto foi apenas um delicado amador, se não há
notícia de suas incursões na tragédia, é soberano o seu principado no conto e
no romance, que os concebeu e realizou com a mesma inexcedível perfeição dos
mais eminentes mestres universais. É certo que a sua obra nem sempre foi
meditada e sentida nos silêncios inspirativos do gabinete, o espírito calmo, o
homem desobrigado da vida nos travores de suas exigências materiais cotidianas.
Alguns dos volumes de sua bibliografia se ressentem da precipitação com que
foram planejados e compostos, o escritor operando o milagre de viver das
letras, sob a pressão de um ambiente refratário e hostil a quaisquer
manifestações da inteligência. Ainda assim do tumulto desses conflitos
desiguais, traído pela inveja, sitiado pela indiferença, emparedado entre as
muralhas dos obstáculos crescentes da vida, quantas maravilhosas obras-primas.
Obra-prima o “Tubilhão”, escrito assim, na azáfama do jornal, para o
cumprimento da tarefa diária; obras-primas o surto flaubertiano do “Rei
Fantasma” e, ainda, essa linda fantasia oriental do “Rajah de Pendjah”, ambas
realizadas da mesma forma, para o folhetim cotidiano, e que revelam de pronto o
escritor, a sua visão simultânea de colorista e de imaginativo através do
frêmito alucinado que lhe convulsiona as ideias. Já houve, aliás, quem
atribuísse a vitalidade das obras-primas, estudando-lhes a gênese, ao impulso
instantâneo do pensamento, à transição epilética que age e hipnotiza o criador
no instante da criação. Apenas Flaubert, excepcionalmente, transgrediria a
regra. Porque Saint Victor viveu assim as páginas todas do “Hommes et Dieux”;
Paul Adam escrevia na redação do vespertino em que colaborava os capítulos da
“Critique des Moeurs”; Anatole somente começava a compor as páginas de crítica
da “Vie Littéraire”, reunidas depois nos quatro volumes célebres, quando o
chasseur do jornal lhe vinha buscar os autógrafos; e Sainte-Beuve fazia
precipitadamente, ainda sob a impressão de sua última leitura, cada um dos
notáveis estudos das “Causeries du Lundi”. Quem leu a correspondência de Barbey
d”Aurevilly dirigida a Léon Bloy, sem nenhuma notoriedade naquele tempo,
humilde revisor de provas do impiedoso demolidor, avalia a desordem dos
processos de composição do autor das “Diaboliques”, sobretudo quando dinamitava
os seus contemporâneos. Faz-se mister acentuar, em proveito do escritor
patrício, a diversidade flagrante de concepção do que diz respeito às suas
ideias.
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
"COELHO NETTO E SUA OBRA" DE PÉRICLES MORAES - em e-book
"COELHO NETTO E SUA OBRA" DE PÉRICLES MORAES - em e-book - O MAIOR LIVRO DA LITERATURA AMAZONENSE DE TODOS OS TEMPOS, COM PREFÁCIO DE ROGEL SAMUEL... LEIA EM http://concultura.manaus.am.gov.br/…/Coelho-Neto-e-sua-obra…
domingo, 22 de outubro de 2017
O BULLYING NÃO É COISA NOVA
O BULLYING NÃO É COISA NOVA
ROGEL SAMUEL
Há anos já existia. Eu assisti bullying muitas
vezes. A diferença, hoje, está redes sociais. Florestan Fernandes conta como
sofreu por ser filho de mãe solteira, na Universidade. Os mais sofredores são os
alunos negros, gays e trans. Um dia eu tinha nas mãos um velho
cartão-postal. E uma edição deLa vida es sueño. Era uma velha loja
no centro velho da cidade, uma loja de coisas usadas, talvez um bazar
beneficente. Estava cheia de trastes cobertos de uma poeira decadente. Quando
entrei fui logo atraído pela pilha de livros a um canto, onde descobri o livro
de Calderón. Depois descobri uma caixa de sapato cheia de velhas fotografias. O
cartão postal. Era uma foto velha, mas muito nítida, meio sépia, da minha
cidade natal. A rua era aquela. Pude reconhecer cada pedra, cada porta, cada
janela. Sabia mesmo quem habitava ali. Na grande casa da esquina morava o meu
amigo de infância X. Quando sua mãe estava grávida, uma vidente lhe disse: ia
ser menina. A família preparou um enxoval de menina. Nasceu menino. Quando
tinha sete anos de idade, disse para a mãe: queria ser bailarino. A mãe se
persignou. Nada disse para o marido, que era violento. Quando tinha doze anos
entrou para aquela escola, onde o conheci. Como era muito louro, belo, alto e
feminino, na escola só encontrou inimigos. Ninguém se aproximava. Na rua os
moleques freqüentemente tentavam agredi-lo. Ele chorava. Quando passavam pela
frente de sua casa, gritavam palavrões, faziam gestos indecentes e jogavam
pedras. Por isso quase não saía de casa. Mas se vestia muito bem. Família rica
e conhecida na cidade. Usava umas blusas de seda branca, que dizem ele mesmo
fazia. A mãe todos os dias ia levá-lo ao colégio. A mãe era amiga de nossa
família. Mas nossas mães nos proibiam de falar com ele. Ele só se aproximava de
algumas meninas, no recreio. Mas era um bom aluno e excelente desenhista.
Quando tinha cerca de quinze anos, o pai o surpreendeu vestido com roupa da
mãe, todo pintado. Espancou-o tão violentamente que ele ficou vários dias sem
poder ir à escola, com hematomas no rosto. Logo no fim do ano eu me mudei para
o Rio de Janeiro e o perdi de vista. Soube que o pai o expulsara de casa. Foi morar
com umas tias, no Rio. As tias o rejeitavam, mas o pai era rico e pagava bem.
Quando o pai soube que ele dormia fora suspendeu o pagamento. Sem pagamento, as
tias o expulsaram. Contam que ele vivia nas ruas, onde se prostituía. Depois
trabalhou como cabeleireiro e manicuro. Aquela loja estava cheia de trastes
velhos, cobertos de uma poeira decadente. Quando fui pagar, a velha que me
atendeu falou, com estranha voz: “Eu nasci aí, nesta cidade”. Era ele, o
meu amigo X. Não me reconheceu. Aquela mulher tinha os dentes estragados, o
ralo cabelo branco mal pintado, amarrado para atrás. Era um ser em ruína. Eu
nada disse, paguei e saí da loja, sobraçando o livro de
Calderón, La vida es sueño.
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O BULLYING NÃO É COISA NOVA
HEIDEGGER
HEIDEGGER
A QUESTÃO FUNDAMENTAL DA METAFÍSICA
Trad. Emmanuel Carneiro Leão
Por que há simplesmente o ente (1) e não antes o Nada? Eis a questão. Certamente não se trata de uma questão qualquer. “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?” - essa é evidentemente a primeira de todas as questões. A primeira, sem dúvida, não na ordem da seqüência cronológica das questões. Em sua caminhada histórica através do tempo o homem e os povos investigam muito. Pesquisam e procuram e examinam muitas coisas antes de se depararem com a questão, “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?” Muitos nunca a encontram, não no sentido de a lerem e ouvirem formulada, mas no sentido de investigarem a questão, i.e, de a levantarem, de a colocarem, de se porem no estado da questão.
E não obstante todos são atingidos uma vez ou outra, talvez mesmo de quando em vez, por sua fôrça secreta, sem saberem ao certo, o que lhes acontece. Assim num grande desespero, quando todo peso parece desaparecer das coisas e se obscurece todo sentido, surge a questão. Talvez apenas insinuada, como uma badalada surda, que ecoa na existência (2) e aos poucos de novo se esboroa. Assim num júbilo da alma, quando as coisas se transfiguram e nos parecem rodear pela primeira vez, como se antes nos fosse possível perceber-lhes a ausência do que a presença e essência. Assim numa monotonia, quando igualmente distamos de júbilo e desespero e a banalidade do ente estende um vazio, onde se nos afigura indiferente, se há o ente ou se não há, o que faz ecoar de forma especial a questão: Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?
Em todo caso, quer seja mesmo investigada ou quer, ignorada como questão, perpasse pela existência como um hálito tênue, quer nos pressione mais duramente ou quer se veja preterida e recalcada por qualquer pretexto, de fato nunca é a questão que na ordem cronológica investigamos por primeiro.
Mas é a primeira questão em outro sentido - a saber quanto à dignidade. O que se explica de três modos. A questão, “por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?”, se constitui para nós na primeira em dignidade antes de tudo por ser a mais vasta, depois por ser a mais profunda e afinal por ser a mais originária das questões.
A questão cobre o máximo de envergadura. Não se detém em nenhum ente de qualquer espécie. Abrange todo ente, i. e, não só o ente atual no sentido mais amplo, como também o ente, que já foi e o que ainda será. O arco da questão encontra seus limites apenas no que absolutamente nunca pode ser, no Nada. Tudo, que não for nada, cai sob seu alcance, no fim até mesmo o próprio Nada. Não certamente por ser alguma coisa, um ente, de vez que dele falamos, mas por “ser” o Nada. É tão vasto o âmbito da questão, que nunca o poderemos ultrapassar. Não investigamos esse ou aquele nem mesmo, percorrendo um por um, todos os entes, mas antecipadamente o ente todo, ou como dizemos, por razões a serem discutidas ainda, o ente como tal na totalidade.
Com ser assim a mais vasta, a questão é ainda a mais profunda: “Por que há simplesmente o ente...? “ “Por que” significa, qual é o fundo? De que fundo provém o ente? Em que fundo descansa o ente? A questão não investiga isso ou aquilo no ente, o que ele é cada vez, aqui ou ali, como é constituído, pelo que pode ser modificado, para que serve etc... Ela procura o fundo do ente enquanto ente. Procurar o fundo, isso é aprofundar. O que se põe em questão, entra assim numa referência com o fundo. sendo, porém, uma questão, fica aberto, se o fundo (Grund) é um fundamento originário (Ur-grund), verdadeiramente fundante, que produz fundação; ou se ele nega qualquer fundação e é assim um abismo (Ab-grund); ou se o fundo não é nem uma nem outra coisa, mas dá simplesmente uma aparência, talvez necessária, de fundação, tornando-se destarte um simulacro de fundamento (Un-grund). Como quer que seja, procura-se decidir a questão no fundo, que dá fundamento para o ente ser, como tal, o ente que é. Essa questão do “por quê” não procura causas de igual espécie e do mesmo plano que o ente. Não se move em nenhuma fácie ou superfície. Afunda-se nas regiões profundas e vai até os últimos limites dos fundos. É avessa a toda superfície e planura, voltada para as profundezas. A mais vasta, é igualmente a mais profunda das questões profundas.
Por ser a mais vasta e profunda das questões, é também a mais originária. O que se deve entender por isso? Ao refletirmos sobre todo o âmbito do que se põe em questão, o ente como tal no seu todo, depara-se-nos fàcilmente o seguinte: Afastamo-nos inteiramente de qualquer ente particular, enquanto este ou aquele. Intencionamos sim o ente em seu todo mas sem qualquer preferência. Apenas um dentre eles sempre de novo se insinua estranhamente: o homem, que investiga a questão. Não obstante, não está em questão nenhum ente particular. No sentido de seu raio ilimitado de ação Lodos os entes se equivalem. Um elefante numa floresta virgem da Índia é tão bem um ente, quanto um fenômeno de combustão química no planeta Marte ou qualquer coisa outra.
Para satisfazermos, portanto, a questão, “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?”, no sentido correto de sua investigação, devemos eliminar a preferência de qualquer ente em particular, inclusive a referência ao homem. Pois o que é esse ente! Imaginemos a terra na imensidão obscura do espaço no universo. Proporcionalmente não passa de um minúsculo grão de areia com um quilômetro de extensão, e o resto é o vácuo Em sua superfície vive rastejando em profusão um punhado entorpecido de animais pretensamente astutos, que por um instante descobriram o conhecimento (Cfr. Nietzsche, Sobre a Verdade e a Mentira no sentido extra-moral, 1873 inédito). E o que significa o espaço de tempo de uma vida humana no curso de milhões de anos? Mal uma pulsação do ponteiro de segundos, um sopro de respiração. Dentro da totalidade do ente não há razão para se privilegiar este ente, que se chama homem e ao qual pertencemos por acaso.
Mas tão logo o ente em seu todo cai no campo de força da questão, investe-o a investigação, com a qual entra numa relação sui generis, porque única. Pois somente nela o ente em seu todo se revela como tal, se abre na direção de seu possível fundamento e assim se mantém em questão. Para ele a investigação não é um fenômeno qualquer dentro do real, como p . e. a queda dos pingos de chuva. A questão do “por quê” defronta-se por assim dizer, com o ente no seu todo. Dele como que se desliga, embora não de todo. E é justamente o que lhe confere uma distinção. Ao defrontar-se com o ente no seu todo, sem, todavia, se lhe poder escapar de todo, repercute o que na questão se investiga, sobre a própria investigação. Por que o por quê? Em que se funda a questão do por quê, que pretende pôr o ente no todo em seu próprio fundo. Será ainda esse “por que” uma questão sobre o fundo entendido, como superfície, de sorte que sempre se procura um ente para fundamento? Não é essa “primeira” questão a primeira em dignidade, considerada segundo o valor intrínseco da questão do Ser (3) e suas modalidades.
Sem dúvida alguma — quer se ponha a questão, “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?”, quer não, em nada se altera o ente em si mesmo. Também sem ela os planetas continuam a percorrer as suas órbitas. Também sem ela o elã da vida continua a pulsar através dos animais e das plantas.
Se, porem, for posta de maneira devida, dar-se-á necessariamente uma repercussão, do que se investiga, sobre a própria investigação. Por isso não se investiga, sobre a própria investigação. Por isso não se trata de um fenômeno qualquer mas de um evento especial, que chamamos um acontecimento.
Como todas as demais questões nela diretamente radica das, nas quais se desenvolve, a questão do “por quê” é irredutível a qualquer outra. Impele ã procura de seu próprio por quê. A primeira vista e considerada de um ponto externo, a questão “por que o por quê? assemelha-se a uma repetição jocosa, que se poderia repetir até ao infinito, da mesma partícula interrogativa. Parece mesmo uma especulação vazia e desvairada sobre significações verbais sem conteúdo. Certamente assim o parece. Trata-se apenas de saber, se nos deixaremos enganar por essa aparência demasiado fácil, dando logo tudo por resolvido, ou se ainda seremos capazes de experimentar na repercussão da questão do “por quê” sobre si mesma um acontecimento provocante.
No caso, porém, de não sermos vitimas de uma ilusão de ótica, havemos de ver, que a questão do “por quê” na qualidade de questão sobre o ente como tal no seu todo, nada tem a ver com qualquer jogo de palavras. Suposto, ainda possuirmos tanta fôrça de espírito para realizarmos verdadeiramente a repercussão sobre seu próprio por quê. Pois tal repercussão não se fará certamente por si mesma. Então faremos a experiência de fundar-se essa questão eminente num salto. No salto, em que se deixa para trás (4) toda e qualquer segurança da existência seja verdadeira ou presumida. Sua investigação ou se concretiza no salto e como salto ou não se realiza nunca. O que significa aqui “salto”, esclarecer-se-á mais adiante. A questão não é o salto. Nele se deve transformar. Ela ainda se acha inocentemente ‘defronte do ente. Por ora basta saber, que o salto dá origem (er-springt) ao próprio fundamento da investigação. Saltando, ela origina para si o fundo, em que se funda. Um tal salto, que origina para si seu próprio fundamento, denominamos, de acordo com a significação verdadeira da palavra, um salto originário. (5) Ora, uma vez que a questão, “por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?” dá origem ao fundamento de toda questão verdadeira e lhe é, nesse sentido, originária, deve-se reconhecê-la, como a mais originária das questões.
Assim, com o ser a mais vasta e profunda questão, é também a mais originária e vice-versa.
[Introdução à metafísica. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1969.]
Finlândia
Solveig von Schoultz, 1907-1996, Finlândia
O Coração
Solveig von Schoultz, 1907-1996, Finlândia
Demos-lhe sementes; não muitas,
mas quanto bastasse para não se cansar;
água lhe demos, apenas um dedal,
para a fonte lhe recordar.
Abrimos tão pouco a porta,
para que os céus lhe batessem no olhar
e à gaiola um pequeno espelho prendemos
para de frente a nuvem poder contemplar.
Quieta se sentava, com as asas palpitantes.
mas quanto bastasse para não se cansar;
água lhe demos, apenas um dedal,
para a fonte lhe recordar.
Abrimos tão pouco a porta,
para que os céus lhe batessem no olhar
e à gaiola um pequeno espelho prendemos
para de frente a nuvem poder contemplar.
Quieta se sentava, com as asas palpitantes.
Assim ela cantava.
[ trad. josé agostinho baptista ]
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
Amar e prazer
Amar e prazer

Amar e prazer
Rogel Samuel
A noite é feita para o amor, diz o poeta. No Brasil, com essas praias, com esse sol, a noite é para dormir.
Nosso amor é diurno. Ainda nos amamos? Amar é um dom precioso. Só quem sabe o amor sabe ser feliz.
Geralmente queremos ser amados, não amar.
Amar é tão mais importante que ser amado, pois nos tira de nossa solidão solipsista.
Amar não é vantajoso, pois é doação. O amor não, tira. O amor dá.
O amor que é doação
não conhece a lua sombria.
Só dando espaço ao ser amado
o teremos sempre de volta.
O poema de Byron:
Não mais prazer nos daremos
Não mais prazer nos daremos
até a noite acabar,
se bem que inda nos amemos
e como antes brilhe o luar.
A espada à bainha gasta,
as almas cansam o seio.
Coração que não se afasta
pode até ficar em meio.
Para o amor a noite é feita,
e depressa chega o dia.
Mas o prazer nos enjeita
à luz da lua sombria.
(BYRON, trad. Jorge de Sena)
QUINZE: A LIVRARIA.
QUINZE: A LIVRARIA.
AQUELE era um cômodo sem janela, debaixo da escada, e ali dentro sentia-se muito calor, umidade e mofo.
Para Ribamar, um luxo. Naquele quarto, durante uma década, vivera a finada Benedita, velha empregada de Juca das Neves, muito asseada. Mas na parede mofada a umidade alargara duas manchas pardas. Ribamar armou a rede, deitou-se. Poderia sair sem ser visto pelas pessoas da casa, pelo corredor lateral. No primeiro andar, o piano de Melina tocava uma mazurca de Chopin. Juca das Neves já se tinha recolhido. Naquele dia, Ribamar conhecera o Hotel Cassina, em decadência, a se transformar no Cabaré Chinelo. Conhecera o Alcazar, a Livraria Royal, na Rua Municipal, 85, expostas as novidades de Garcia Redondo, de João Grave, de Júlio Brandão e Bento Carqueja - autores da moda. Ali havia um livro de Carmen Dolores, outro de Haeckel. Eram panegíricos e leitura recreativa. A “Biblioteca para o Povo”, a “Biblioteca Racionalista”. Os Serões da Aldeia, de João de Lemos. Um livro se intitulava De cara alegre, de Alfredo de Mesquita e tinha sido um best-seller. Custava $50. Juca das Neves tinha parte da biblioteca de Pierre Bataillon em casa. Melina não tocava mal. Ribamar recordava-se de Pierre Bataillon tocando Schubert. Alvarengas rebocavam pélas de borracha. Ribamar passara pela porta do London Bank. As alvarengas suaves entravam na porta do Banco. Ivete, quando era servente, vivia quase nua. Ribamar estranhou encontrá-la, agora, grande dama, casada com Antônio Ferreira.
terça-feira, 17 de outubro de 2017
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
Estranho grande poema - Rogel Samuel
Estranho grande poema - Rogel Samuel
Estranho grande poema - Rogel Samuel
Escreveu Pedro Benjamín Palacios, conhecido como "Almafuerte", um estranho poema, próprio para o que vivemos nós:
"Não se dê por vencido, nem, se vencido, não se sinta escravo, nem, se escravo, não fique trêmulo de medo, imagine-se como um bravo, e ataque feroz, ainda que mal ferido, com a tenacidade do prego enferrujado que velho e gasto, mas volta a prego, sem a estupidez não covarde do pavão que amaina sua plumagem ao primeiro som, continuando como Deus que nunca chora, ou Lúcifer, que nunca lê, ou como o carvalho, cuja grandeza necessita de água, e não a implora ... que morda e se vingue rolando na poeira, sua cabeça!"
No te des por vencido, ni aún vencido,
no te sientas esclavo, ni aún esclavo;
trémulo de pavor, piénsate bravo,
y acomete feroz, ya mal herido.
no te sientas esclavo, ni aún esclavo;
trémulo de pavor, piénsate bravo,
y acomete feroz, ya mal herido.
Ten el tesón del clavo enmohecido
que ya viejo y ruin, vuelve a ser clavo,
no la cobarde estupidez del pavo
que amaina su plumaje al primer ruido.
que ya viejo y ruin, vuelve a ser clavo,
no la cobarde estupidez del pavo
que amaina su plumaje al primer ruido.
Procede como Dios que nunca llora;
o como Lucifer, que nunca reza;
o como el robledal, cuya grandeza
necesita del agua y no la implora...
o como Lucifer, que nunca reza;
o como el robledal, cuya grandeza
necesita del agua y no la implora...
¡Que muerda y vocifere vengadora,
ya rodando en el polvo, tu cabeza!
ya rodando en el polvo, tu cabeza!
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