segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

PARIS

PARIS



Paris

Rogel Samuel


Havia uma chuva fina que molha o chão das ruas e põe as folhas das árvores pensativas. Nas três vezes anteriores que estive em Paris chovia sempre. Como todo amazonense, adoro Paris. Sonho morar em Paris, como os amazonenses da época de meu avô. Manaus, réplica, miniatura de Paris. Existia a Casa Louvre, A la ville de Paris, Café da Paz, Au bon marché, Livraria Palais Royal, Casa Sorbonne, Bijou . "Manaus, pequena Paris". Boulevar Amazonas, Boulevard Álvaro Maia. "A samaritana". Manaus, toda francesa. Na "Praça da Polícia", uma réplica do "Temple d'amour", de Versailles. Quando a borracha faliu, os comerciantes quebraram, mudaram-se para Paris, Lisboa. Os jornais da época marcam anúncios, despedida. Bela maneira de ir à falência: Iam para Paris. Onde já estudavam seus filhos. Um amigo reacionário me diz, com indignação: "A filha do Lula estuda em Paris". Meu pai estudou em Paris, no entre-guerras. Na realidade, ele era francês, ainda que tivesse nascido a bordo do navio Adamastor, em Remate de Males, que eu só sei onde fica devido a um livro de Mário de Andrade. Antes que a malária matasse todas as crianças nascidas ali, meu avô, que era alsaciano, transbordou sua mulher e filho para um navio inglês que passava. O menino ficou em Estrasburgo, a bela cidade, a Catedral mais bela do mundo. Aliás, ele morava perto da Catedral. Acordava ao som de seus sinos. A catedral é maior do que a própria cidade. Um dia, estando em Frankfurt, em casa de Karl Joseph, eu disse: "Vou ver Estraburgo". E ele respondeu: "Eu levo você". Fomos, que era domingo, eu, ele e sua esposa brasileira. De Estrasburgo, mandei um cartão para meu pai, ainda vivo. Lá, depois do almoço, quiseram voltar. No dia seguinte trabalhavam. Eu disse: "Não volto sem ver e ouvir o relógio da Catedral". Passei a infância ouvindo falar daquele relógio. Karl Joseph e a mulher foram descansar num hotel, na estrada, eu esperei dar 6 horas da tarde dentro da Catedral. A primeira coisa que aconteceu foi abrir-se uma portinhola e dali sair um boneco mecânico, um esqueleto vestido de Morte, bateu com um martelinho num sininho. Aquilo ecoou por toda a nave. Ao que o grande sino da Igreja respondeu, solene. Grave. Chove sempre que estou em Paris. Com Annie Gerault, que não tem medo de chuva, cortamos o Bois de Vincennes, pelas margens do lago "des Minimes", sob chuva forte, à noite. Annie mora na Rue Fondary, não longe da Torre Eiffel. Um dia fomos ver a nova iluminação da Torre. Depois, já bem tarde, Annie quis passear pela noite, no Jardin du Luxembourg. Como carioca, logo pensei em assalto. O jardim estava deserto, mas a sensação era de calma. Lembrei-me então: não estávamos no Rio.
 
Annie já não está entre nós, faleceu há poucos anos.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O abismo do amar




O abismo do amar

Rogel Samuel

O doloroso poema de Clarisse de Oliveira “Alceu” é um dos mais fortes poemas de amor da via dolorosa que é o amar, cheia de ficares na estrada, que segue, Via Dolorosa de uma cidade tão velha quanto Jerusalém, da Porta de Santo Estevão até a Igreja do Santo Sepulcro naquela parte ocidental da cidade velha de nossas almas, cuja tradição foi traçar por este caminho a nossa cruz, com suas nove estações da cruz, ou estrada de ferro em brasa, de barro de brasa, de brado, de infidelidades confirmadas e perenes, de abismos de lugares esquecidos do Bardo, do espaço infernal e mortal do já morto, do após-vida, do depois da morte, cheio dos sopros e vendavais daquelas vozes mentirosas e dos grandes gritos dos monstros que nos perseguem, a nós que ainda amamos, que amamos sem esperança, que amamos para perder, que abandonados amantes até mesmo do perdido:
“ALCEU
“Você ficou numa estrada vendo se adiantarem amores, confirmações de fidelidades perenes, e nessa estrada que corta quatro abismos, como um local esquecido do Bardo, o vento sopra levando essas vozes mentirosas enroladas pelos sopros de Monstros Irresponsáveis.
“Os ventos eram tão fortes, que eu, por mais bem intencionada que fosse, não conseguia permanecer perto de você, para, gritando o mais possível, lhe dar
esperanças que os ventos enrolavam, enrolavam...
“Os Monstros esqueceram da Vitória que conquistou ali, sozinho na Estrada e eu sendo arrastada pelos Ventos ainda não havia tido toda a visão da sua Grande Realidade Conquistada...

domingo, 22 de janeiro de 2017

NA CASA DE GERARDO MELO MOURÃO - ROGEL SAMUEL



NA CASA DE GERARDO MELO MOURÃO - ROGEL SAMUEL
Um dia, estava no apartamento de Gerardo, famoso escritor, jornalista e político. Via-se que era homem rico, de tradicional família de políticos. Estávamos numa daquelas intermináveis reuniões de esquerda. Presentes ali lideranças políticas, representantes da "sociedade civil" (como se dizia na época), músicos, artistas plásticos, escritores. O apartamento amplo, ricamente decorado, frente para o mar, ocupava vastamente o andar inteiro da Av. Atlântica. Grande salão, onde estávamos, ao fundo majestosa, imensa biblioteca. As discussões entraram pela madrugada. Eu me enfadei, bocejava, palavras, palavras: estávamos ainda no regime militar. Sempre me canso em situações daquelas. As lideranças se entrechocavam. Orgulhosas e brilhantes.
Onde há muitos líderes, o embate é certo. Na época ainda acreditava que somente a "revolução" podia mudar alguma coisa. Era algo mítico, heróico: eu, que não matava um inseto, sonhava com revolução branca, pacífica, democrática. Pelo voto! Então, uma coisa me intrigou: como aquele homem, que era sólido intelectual respeitável, podia ostentar, em suas paredes, somente reproduções em papel de famosos quadros da pintura nacional, como Volpi, Djanira e Di Cavalcanti? Intrigado, levantei-me e fui por o nariz nos quadros e vi, terrificado, que as telas eram mesmo verdadeiras. Aquelas paredes valiam um museu! Fui examinando um a um os quadros, espantado de emoção. Pinturas famosas, que todo mundo conhece, pois estão nos livros de arte conhecidos. De repente, pressinto que havia alguém atrás de mim. Era ele.
- Mas o que tenho de mais valioso, disse-me ele, não está aqui. "Venha ver".
E pegando-me pelo braço me conduziu por uma série de salas e corredores do apartamento até um gabinete de trabalho, relativamente pequeno. Na parede havia uma peça de madeira trabalhada em altos-relevos, com motivos religiosos, galhos, folhas e frutos.
- Sabe o que é isto? perguntou ele.
- Não sei, respondi eu.
- Isto é o que sobrou da porta da Igreja da Companhia de Jesus, no Maranhão, onde o Padre Vieira pregou durante vários anos. A Igreja foi demolida!

O SONETO PARA CHE GUEVARA DE JORGE TUFIC

O SONETO PARA CHE GUEVARA DE JORGE TUFIC

ROGEL SAMUEL


O primeiro verso assim canta: “Crepita em teu boné teimosa estrela”. E é interessante este verso, e é interessante perceber desde logo, desde este primeiro verso o “crepitar” das armas, crepitar que é o estalar de metralhadoras, elas que crepitam nesses sons crepitantes:

“CRE- PI- TA em TEU boné TEImosa esTREla”.

Ali onde, naquela teimosa estrela, não se vê a intenção rebelde, a intenção revolucionária, a teimosia poética (a revolução é sempre uma utopia poética, uma licença poética armada, um ideal inscrito em versos “sobre as chagas da terra”).

Mas aquela estrela projeta, sobre a América Latina, um rumo, uma luz, um código, a estrada escancarada da libertação, a escancarada esperança de vitória.

Pois o poema diz:

Crepita em teu boné teimosa estrela
da qual nada se vê do que projeta

- e pois Guevara – o poeta revolucionário sonhador - trazia a direção na sua testa, na sua estrela, no seu caminhar, no nseu destino estelar – aquela estranha estrada projeta um projétil balístico, como uma bala, como uma balsa, ou um ideal, ou um corpo de idéias arremessado ao jogo do futuro, o seu boné militar, onde a estrela brilha, é o símbolo de um poeta que um dia chegou a vê-la, chegou a tê-la, como não o puderam ter o camponeses “na escassez de seu vislumbre”:

Só os camponeses que puderam tê-la
na escassez de um vislumbre, em noite quieta,
foram dar-te um cabrito; e a fogo e seta
molhada na esperança, enfim retê-la.

O soneto projeta uma luz sobre o futuro da América, o fogo, a seta “molhada na esperança”, o crepitar da bandeira, das chamas que iluminaram a escuridão.

O soneto é um retrato dinâmico daquele jovem sonhador, daquele poeta armado, cujas ideias projetaram sobre nós, até hoje, suas luminosidades.

O soneto é o pórtico da manifestação do porvir, seu manifesto. E faz de cada camponês um herói, um porta-voz:

Camponeses e bravos, Serra acima,
entre andantes e alegros, logo anima
saber que cada um vale por mil.

Foram dias sofridos, aqueles, foram andanças e pujanças, robustez, força e vigor sobre aqueles campos floridos e a serra, coberta de hera, contou os dias sofridos, muito de flores e de lutas, quando Guevara sonhava com rosas em seus fuzis.

Quando eu era jovem, um dia pernoitei numa casa que (dizem) serviu de abrigo a Che Guevara nas suas andanças por entre nós.

SONETO PARA CHE GUEVARA

Jorge Tufic


Crepita em teu boné teimosa estrela
da qual nada se vê do que projeta
sobre as chagas da terra onde um poeta,
de repente, a lutar, chegou a vê-la.

Só os camponeses que puderam tê-la
na escassez de um vislumbre, em noite quieta,
foram dar-te um cabrito; e a fogo e seta
molhada na esperança, enfim retê-la.

Camponeses e bravos, Serra acima,
entre andantes e alegros, logo anima
saber que cada um vale por mil.

Foram dias contados e sofridos.
Pesar de tudo os campos tão floridos?
Chega de rosas, vamos ao fuzil.

(In: Dueto para sopro e corda)


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Cláudio Santoro

Cláudio Santoro
Rogel Samuel

Li de uma assentada o belo livro de Elson Farias sobre Cláudio Santoro ("Cláudio Santoro - cantor do sol e da paz", Manaus, Ed. Valer, 2009).
A única vez que estive com Santoro foi no aeroporto de Frankfurt no fim da década de 70, início de 80. Voltava para o Brasil. Ele vinha da França, onde creio que tinha regido a Orquestra Sinfônica da Radio-Difusão Francesa (ORTF) de Paris.
Eu disse para o pessoal da VARIG:
- Ali está o maior compositor do Brasil, coloquem-no na primeira classe.
Não adiantou. Como ele sentou-se não muito longe de mim, eu me apresentei, disse-lhe que tinha sido vizinho de D. Cecília, sua mãe, na Vila Auxiliadora, em Manaus, onde ela vivia modestamente, junto com o filho Alberto Santoro, depois físico. Foi o bastante para a conversa se iniciar. Falamos cerca de uma hora de música e de músicos. Infelizmente não posso relatar as críticas que me fez ao meio musical brasileiro, o que seria uma indiscrição. Mas me disse que estava arrependido de ter voltado para o Brasil... Contou que o prefeito de Paris tinha ido buscá-lo no Aeroporto, enquanto que no Brasil não haveria um só funcionário do MEC para ajudá-lo com as malas...
Ele dava aula de composição na Alemanha. E comentou:
- Imagine caboclo amazonense dando aula de composição na Alemanha...
E escrevo ao som das Sinfonias 5 e 7 de Santoro. Regidas por ele-mesmo. Orquestra Filarmônica de Leningrado e Orquestra Sinfônica da Rádio de Berlim, respectivamente.
Gravação rara.

domingo, 15 de janeiro de 2017

jardim antigo - rogel samuel

jardim antigo - rogel samuel

um fato aconteceu
no silêncio das flores do jardim abandonado
entre os arbustos
e folhas secas
aumentaram as cores
a vivacidade variada
libertaram
não sabem a nenhum
germinam grandes entre pedaços de
estatuária
debaixo de pedras
dentro dos tanques surdos
somente perdidos anjos
e o cão preto
aquelas aves desgarradas
aquelas murtas velhas
não a vêem
à noite um lagarto verde
entre as estrelas azuis
as flores dormem
as flores há muito tempo lá estavam
elas dormem

Carta de Guia dos Casados



Carta de Guia dos Casados

D. FRANCISCO MANUEL DE MELO (Lisboa, 23 de Novembro de 1608 – Lisboa, Alcântara, 24 de Agosto ou 13 de Outubro de 1666) - Carta de Guia dos Casados



(...) Uma das coisas que mais assegurar podem a futura felicidade de casados é a proporção do casamento. A desigualdade no sangue, nas idades, na fazenda, causa contradição; a contradição, discórdia. E eis aqui os trabalhos por onde vêm. Perde-se a paz, e a vida é inferno.
Para satisfação dos pais convém muito a proporção do sangue para o proveito dos filhos, a da fazenda, para o gosto dos casados, a das idades. Não porém que seja preciso uma conformidade, de dia por dia, entre o marido, e mulher; mas que não seja excessiva a vantagem de um a outro. Deve ser esta vantagem, quando a haja, sempre a parte do marido, em tudo à mulher superior. E quando em tudo sejam iguais, essa é a suma felicidade do casamento.
Dizia um nosso grande cortesão, havia três castas de casamento no mundo: casamento de Deus, casamento do diabo, casamento da morte. De Deus, o do mancebo com a moça. Do diabo, o da velha com o mancebo. Da morte, o da moça com o velho.
Ele certo tinha razão porque os casados moços podem viver com alegria, as velhas casadas com moços vivem em perpétua discórdia; os velhos casados com as moças apressam a morte, ora pelas desconfianças, ora pelas demasias.
Mas porque estas coisas são muito gerais, e ainda os incapazes têm delas conhecimento que aos entendidos lhes sobeja, é tempo de passar a alguns mais particulares avisos.
Senhor, saiba V. M.cê que à sua alma se acrescenta outra alma de novo; à sua obrigação se junta outra obrigação. Assim devem crescer seus cuidados, e seus respeitos. E da mesma sorte que, se a um homem que possuísse uma herdade, a qual cultivasse, lhe fosse deixada outra de novo, para o mesmo efeito este tal homem, sem diminuir em sua alegria, era força que na diligência se avantajasse, por abranger com seu trabalho a ambas aquelas suas fazendas; nem mais nem menos deve o casado multiplicar o tento, e a fadiga (sem que por isso se entristeça), por não faltar ao novo cargo que tomou, e lhe entregaram, com a mulher que lhe deram; não para que a arriscasse, e perdesse (e a si mesmo com ela), mas para que com maior cómodo e descanso pudesse passar com ela a vida.
(...) Provemos a ver se será possível dar alguma regra ao amor; ao amor, que soe ser a principal causa de fazer os casados mal-casados, umas vezes porque falta, e outras porque sobeja. Armemos-lhe, se quer, as redes; caia ele se quiser; e o mais certo será que voe, e fuja delas, porque quiçá por isso o pintaram com asas.
Ame-se a mulher, mas de tal sorte que se não perca por ela seu marido. Aquele amor cego fique para as damas, e para as mulheres o amor com vista. Ou cure os olhos que tem, ou os peça emprestados ao entendimento desses que lhe sobejam. (...)
Saiba-se, e tema-se, que também há Narcisos do amor alheio, como de seu próprio.
(...) Há alguns, Senhor N., de tão pouco juízo, que fazem ostentação de seu próprio cativeiro. Igual afronta é a um casado saber-se que o manda a sua mulher, que saber-se é ela de seu marido escrava, e não companheira.
Este foro, esta prerrogativa, de que cada um é bem que use, logo ao princípio convém que se concerte. O marido tenha as vezes de Sol em sua casa, a mulher, as da Lua. Alumie com a luz que ele lhe der, e tenha também alguma claridade. A ele sustente o poder, a ela a estimação. Ela teme a ele, e ele faça que todos a temam a ela, serão ambos obedecidos.
Dissera eu que as mulheres são como as pedras preciosas, cujo valor cresce, ou mingua, segundo a estimação que delas fazemos.

sábado, 14 de janeiro de 2017

O AMANTE DAS AMAZONAS



POIS que esta narrativa - paródia de romance histórico que define com boa precisão esta minha tardia confissão - vai-lhe revelar a vida tão surpreendente de Ribamar de Sousa, aquele adolescente que eu era, aparecido num inesperado dia de inverno da Amazônia dentro da chuva compacta de um ostinato extremamente percussivo em comandos de improvisação de uma partitura imaginária, ecológica, de acordes politonais sobre o que sentado estava num banco de madeira no alpendre do tapiri ao som do suporte de compassos 5/4 do Igarapé do Inferno, que sai no Igarapé Bom Jardim, que sai no Rio Jordão, que sai no Rio Tarauacá, que sai no Rio Juruá, afluente do Rio Amazonas, o Solimões, aonde estamos retornando.
Lembro-me de que, naquele Igarapé do Inferno, mas logo mais abaixo na última linha que riscava o horizonte daquela tarde - era uma diagonal dourada com a tempestade se aproximando na outra ponta do horizonte - como num recorte de uma cena de um escrupuloso sonho histórico, soberanamente saltou sobre meus olhos o vulto belo e art-nouveau do Palácio Maxini (que era como se chamava aquela construção), sede do Seringal e residência de Pierre Bataillon, pois nós retornávamos em busca daquele passado interdito, pois nós chegávamos no fim daquela era quando o Palácio transparecia com deslumbramento nos seus múltiplos reflexos das quinquilharias de cristal, janelas e bandeiras das portas transformadas em lúcidas placas de ouro reluzente e vívido e muito louco, de um ouro muito louco e muito vivo, de um brilho vivíssimo, dourado e louco, fantasmático e delirante, desterritorializado e dIspare, produzido pela acumulação primitiva de quase um século de exploração e investimento e agenciamento de sobrepostos níveis heterogêneos de história, num engendramento de todo varrido do planeta moderno, confinado ali, circunscrito ali, centrado ali na dependência permanente de si e de seu retardado isolamento e de seu anacrônico testemunho.

OS SONHOS COMO PRINCÍPIO DAS ESPERANÇAS ÀS VEZES PERDIDAS



OS SONHOS COMO PRINCÍPIO DAS ESPERANÇAS ÀS VEZES PERDIDAS






Rogel Samuel

          Há uma conferência de Ernst Bloch, conhecida como “O Homem Como Possibilidade”, que se inicia assim: “ Senhoras e Senhores, vamos começar moderadamente. Mas também com vigor e ousadia. Vamos começar com os sonhos.” Desde que a li, pela primeira vez, na década de sessenta, este texto me persegue. Bloch (1885–1977), como se sabe, foi marxista alemão  que saiu para os Estados Unidos, depois de 1933, por causa do nazismo. Sua obra mais famosa é “O princípio da esperança” (3 volumes, publicada de 1952 a 1959). 
          Na conferência citada diz ele que os sonhos não se dão só à noite, há sonhos diurnos, quando o eu não desaparece, mantém-se presente e sem censura. Nestes nossos desejos voam, povoam, sem hipocrisia, sem camuflagem. Sem medo. Nossos desejos dominam nossos sonhos diurnos: uma bela roupa, uma jóia, uma vitrine. A casa de nossos sonhos. O livro de nossos sonhos. No mundo dos sonhos, o custo de vida não é tão alto, nem nossos salários tão baixos. Não, nada precisamos comprar, pagar, no aberto mundos dos sonhos. Somos – todos – participantes dessa sociedade de consumo de sonhos. 
          E pronto: parece que aí está, quase sem a gente perceber, o “princípio da esperança”, que guia nossas vidas. Parece, mas não é bem assim. O livro de Bloch é difícil e gigantesco (três volumes, em cerca de 1400 páginas na tradução inglesa!). 
 Bloch mistura marxismo com a doutrina judaica de redenção, e faz da dicotomia aristotélica de potência e ato a base de uma certa teoria da história à caminho da progressiva emancipação redentora, ou seja, o caminho da esperança  de melhores dias, vida melhor, em melhores condições. 
          Segundo Douglas Kellner, que encontrei na Internet, - (“ Ernst Bloch, Utopia and Ideology Critique”) -, o primeiro volume trata do nosso consumo dos sonhos diurnos: a moda, a propaganda, as viagens, os filmes e outros objetos culturais. 
          O segundo volume versa sobre os sonhos de “um mundo melhor”, analisa as utopias políticas, as utopias tecnológicas, as utopias arquitetônicas, além dos ideais de paz e tranqüilidade. 
          O terceiro volume aborda as imagens do desejo na moralidade, na música, na morte, na religião, na natureza e no ambiente, no bem. 
          Todos três volumes estudam a questão cultural do “sonho de uma vida melhor”, que ele trata como mitos, formas de arte, política e religião. Enfim, a questão da “emancipação” 
          Lembra Bloch que Lênin lastimou certa vez que o movimento havia perdido a capacidade de sonhar. Mostra a contradição entre o feijão e o sonho:  «Delicados coexistem os pensamentos, ásperas se chocam as coisas no espaço», escreveu. Lembra que estamos sempre cercados de conflitos, e que, frente aos sonhos, o mundo real é contrário e contraditório, e se acha carregado das tensões de ontem e anteontem. «O velho não quer passar. E o novo não quer chegar». Mas, «o que contrapomos ao mal, não deve ser uma loucura solitária». A realidade não é fixa, acabada, mas mutável. É possível enfrentá-la, modifica-la. As coisas estão fluindo. Ela foram feitas e por isso mesmo podem ser modificadas. Existe sempre a possibilidade de mudança. «Poder ser diferente significa poder transformar-se em outra coisa melhor». 
         Ora, quem sonha são os poetas, principalmente românticos, que sonham «as ilusões perdidas»: 


Minh’alma é triste como a rôla aflita 
Que o bosque acorda desde o albor da aurora, 
E em doce arrulo que o soluço imita 
O morto esposo gemedora chora. 
E, como a rôla que perdeu o esposo, 
Minh’alma chora as ilusões perdidas, 
E no seu livro de fanado gôzo 
Relê as fôlhas que já foram lidas. 
E como notas de chorosa endeixa 
Seu pobre canto com a dor desmaia, 
E seus gemidos são iguais à queixa 
Que a vaga solta quando beija a praia. 
Como a criança que banhada em prantos 
Procura o brinco que levou-lhe o rio, 
Minh’alma quer ressuscitar nos cantos 
Um só dos lírios que murchou o estio. 
Dizem que há gozos nas mundanas galas 
Mas eu não sei em que o prazer consiste. 
- Ou só no campo, ou no rumor das salas, 
Não sei porque mas a minh’alma é triste!

         Como toda ilusão, a realidade já nasce «perdida», e os românticos lastimavam que, em verdade, não encontravam a materialidade de seus sonhos. Ou seja, a vida concreta (se se pode falar assim – e só em crônica se pode) não corresponde ao sonho abstrato, e aqui os gozos, os prazeres, os brincos (os brinquedos), os amores, no campo ou na cidade não correspondem ao idealizado pela imaginação.  Por isso, «a minha alma é triste».
          No poema de Casimiro de Abreu se pode ouvir, até mesmo, um OH! – esta exclamação lamentosa -  rola, bosque, acorda,  albor, aurora, soluço, morto, esposo, chora etc. – uma série de oooos, todos lamentosos acentos. 
 Incompatibilizados com o mundo, não é sem razão que os românticos acabem morrendo tão cedo. Morrem de inanição espiritual, depressão. Sucumbem à glória do capitalismo da primeira revolução industrial. 
         A poesia (mas nem sempre) pertence à categoria dos sonhos:
Conheces a região do laranjal florido? 
Ardem, na escura fronde, em brasa os pomos de ouro; 
No céu azul perpassa a brisa num gemido... 
A murta nem se move e nem palpita o louro... 
Não a conheces tu? Pois lá... bem longe, além, 
Quisera ir-me contigo, ó meu querido bem! 
(Diz Goethe, na belíssima tradução do mestre João Ribeiro.)
        Sim, esta é a região dos sonhos. Lá, bem longe, além. Lá é melhor. Para lá é que devemos ir, escapar, fugir. Lá está tudo o que é belo, perfeito. Lá está a felicidade. Não a conheces tu, leitor e leitora? Será que existe mesmo? 
        Mas... não percamos as esperanças.

O TAO

O Caminho é vasto e sem favores.
O Tao vazio é profundo.
Com um coração vazio, sua natureza é
Facilmente aprendida,
Embora seu poder abranja o cosmos.
Com sua sabedoria pode-se discernir
Os grandes mistérios da vida,
Para que o coração se torne puro
Como o trono dos imortais.
- Loy Ching-Yuen (1873-1960)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Dylan Thomas

ESTE LADO DA VERDADE


Dylan Thomas

Para Llewlyn

Este lado da verdade,
Meu filho, tu não podes ver,
Rei de teus olhos azuis
No país que cega a tua juventude,
Que está todo por fazer,
Sob os céus indiferentes
Da culpa e da inocência
Antes que tentes um único gesto
Com a cabeça e o coração,
Tudo estará reunido e disperso
Nas trevas tortuosas
Como o pó dos mortos.

O bom e o mau, duas maneiras 
De caminhar em tua morte 
Entre as triturantes ondas do mar, 
Rei de teu coração nos dias cegos, 
Se dissipam com a respiração, 
Vão chorando através de ti e de mim

(tradução: Ivan Junqueira)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A VILA DAS OITO BALEIAS ENCALHADAS



A VILA DAS OITO BALEIAS ENCALHADAS

ROGEL SAMUEL

Durer gostaria de morar naquela cidade onde há oito baleias encalhadas, canta Marianne Moore mãe da poesia moderna, em seu poema “The steeple-Jack”, o consertador de campanários, ou um João-ninguém no ar manso do mar das casas num dia bonito, vindo das águas-fortes de Durer onde as ondas mais parecem escamas de peixe, “com a mão direita ela as penetras – as coisas – com lápis bisturi, o verso cicatriz” - diz João Cabral - e as vê onde as gaivotas rodopiam ao redor da torre do relógio, na ronda do imaginário farol, nem mesmo precisando mover as asas de sutil papel, apenas com um estremecimento do corpo na plumagem de arrepios aéreos, o mar (diz ela, e não duvido), da cor do pescoço de pavão, uma cor púrpura, chegando a verde-anil, que é o azul daquele Arraial do Cabo na minha adolescência, as estrelas da Praia dos Anjos brilhando no chão por onde passávamos a caminho dos ninhos de amor das aventuras de lá, e a arte, na sua essencial erótica marítima, grande cascos de baleias, impotentes, jacentes, brancos, talhados em mármores familiares, estátuas jacentes pois Marianne Moore viu no avanço do risco rígido do mar em brancos barcos, e em Arraial do Cabo as sandálias de espumas multicores, aros do sol, os ácidos do sol de aço dourado a fogo, sol forte de febre, as primeiras estrelas visitantes cruzadas em desígnios e misteriosos signos, da poesia ela, pegajosa, confidencial, cheia de aritméticas pinças, de Marianne Moore, que quando escreve em vez de lápis, diz Cabral, emprega instrumento cortante, a saber, bisturi, um canivete, e faz rir de delírio geológico, ilógico, colorido, reduzido, imagem a fragmentos de sonho, lembranças do Morrro do Miranda, dos anjos da Praia dos Anjos, do Morro do Atalaia, da Ilha dos Franceses, da poesia-água-forte, água em movimento, ávido tecido vivo de esmeraldas e ametistas, mar memorial delirante em viver o azul nas sonhadas capelas e marés e nos alpendres chamuscados de matiz de águas-marinhas profundas, pois foi o que viu Bachelard ali, em “L´eau et les rêves”, no seu “ensaio sobre a imaginação da matéria”, a água domada e desumanizada, pertencente ao domínio da mitologia primitiva, diz ele, aventuras das grandes viagens marítimas em vendavais de narrativas, ao nível dos grandes mitos das poderosas forças da imaginação heróica e material, em vidro estilhaços da profundidade igual ao que não existe, ao inconsciente que marítimo é narrativo, na mitologia do chão catando pelo rastro da origem a fabulação, diz Bachelard, este buscar participando da tonificação da vida, da renovação dos quereres do amor, do amor todo nascente da água do ventre, como certas deusas, ou o nascimento de Vênus, de Botticeli, mencionada em Apeles, presente no relato da criação de Hesíodo, na Teogonia, Afrodite surgindo das espumas nascentes da mistura do sêmen e do sangue de Urano, ou em versão, não encontrada na Ilíada, onde a deusa do amor nasce da união de Zeus e Dione nas douradas praias amadas de Arraial do Cabo, no Estado do Rio de Janeiro, abstração límpida do neoplatonismo da natureza dual do amor sobre as conchas são vaginas da beleza em flor...
* * * 
“O JOÃO-DA-TORRE” de Marianne Moore 
(fragmento) 
Dürer teria visto um motivo para viver 
                                    numa vila como esta, em cuja praia há oito baleias
 para se olhar; onde a suave brisa entra na casa da gente em dia
 claro, vinda de água em água-forte
          com ondas formais como num peixe as
 escamas.
 Uma por uma aos pares e aos trios, as gaivotas não
         param de ir e vir, sobre o relógio da vila voando,
 ou de circunavegar o farol sem nem sequer mover as asas –
 elevando-se firmes com leve
         tremor de corpo -, ou então, em bando,
 de miar
 onde um mar da púrpura do pescoço do pavão
          se transforma em verde-anil, como Dürer a degradar
 o verde-pinho do Tirol no azul-pavão e no cinza-guiné.
 Você pode ver uma lagosta
          de onze quilos; redes a secar
 ao sol. O
 remoinho pífano-e-tímpano da tempestade
          enverga a relva salina do brejo, perturba as estrelas
 no céu e a estrela na torre da igreja; é um privilégio ver tamanha
 confusão. As árvores e as flores
          da costa têm a favorecê-las
 a neblina 
                                                  (trad. José Antonio Arantes)


O CARTÃO POSTAL

O CARTÃO POSTAL


Rogel Samuel



        Eu tinha nas mãos um velho cartão-postal. E uma edição de La vida es sueño. Era uma velha loja no centro velho da cidade, uma loja de coisas usadas, talvez um bazar beneficente. Estava cheia de trastes cobertos de uma poeira decadente. Quando entrei fui logo atraído pela pilha de livros a um canto, onde descobri o livro de Calderón. Depois descobri uma caixa de sapato cheia de velhas fotografias. O cartão postal. Era uma foto velha, mas muito nítida, meio sépia, da minha cidade natal. A rua era aquela. Pude reconhecer cada pedra, cada porta, cada janela. Sabia mesmo quem habitava ali. Na grande casa da esquina morava o meu amigo de infância X. Quando sua mãe estava grávida, uma vidente lhe disse: ia ser menina. A família preparou um enxoval de menina. Nasceu menino. Quando tinha sete anos de idade, disse para a mãe: queria ser bailarino. A mãe se persignou. Nada disse para o marido, que era violento. Quando tinha doze anos entrou para aquela escola, onde o conheci. Como era muito louro, belo, alto e feminino, na escola só encontrou inimigos. Ninguém se aproximava. Na rua os moleques freqüentemente tentaram agredi-lo. Quando passavam pela frente de sua casa, gritavam palavrões. Faziam gestos indecentes. Por isso quase não saía de casa. Mas se vestia muito bem. Família rica e conhecida na cidade. Usava umas blusas de seda branca, que dizem ele mesmo fazia. A mãe todos os dias ia levá-lo ao colégio. A mãe era amiga de nossa família. Mas nossas mães nos proibiam de falar com ele. Ele só se aproximava de algumas meninas, no recreio. Mas era um bom aluno e excelente desenhista. Quando tinha cerca de quinze anos, o pai o surpreendeu vestido com roupa da mãe, todo pintado. Espancou-o tão violentamente que ele ficou vários dias sem poder ir à escola, com vários hematomas no rosto. Logo no fim do ano eu me mudei para o Rio de Janeiro e o perdi de vista. Soube que o pai o mandara  morar com umas tias. As tias o rejeitavam, mas o pai era rico e pagava bem. Quando o pai soube que ele dormia fora suspendeu o pagamento. As tias o expulsaram. Contam que ele vivia nas ruas, onde se prostituía. Depois trabalhou como cabeleireiro e manicuro. Aquela loja estava cheia de trastes velhos, cobertos de uma poeira decadente. Quando fui pagar, a velha que me atendeu falou, com  estranha voz: “Eu nasci aí, nesta cidade”. Era ele, o meu amigo X. Não me reconheceu. Aquela mulher tinha os dentes estragados, o ralo cabelo branco mal pintado, amarrado para atrás. Era um ser em ruína. Eu nada disse, paguei e saí da loja, sobraçando o livro de Calderón,   La vida es sueño.

domingo, 8 de janeiro de 2017

POEMA

Cuidado! Mesmo a lua caindo em gotas de orvalho,
Se você é atraído para assistir,
Faz-se um muro diante da Verdade.
- Sogyo (1667-1731)
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sábado, 7 de janeiro de 2017

DUGPA RINPOCHÊ

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

PORTA CALADA



porta calada
porta calada
madrugada
o silêncio é nada
o vento me acorda 
o silêncio morre
sobre esta triste noite
a quente suportada espera
volto ao sonho antigo
no sonho palavra dada

porta calada
madrugada

e que horas são?
qual tempo lembrar?
da minha janela percebo
um pedaço de rua
vento da noite nua
sopra na solidão

porta calada
madrugada

ROGEL SAMUEL

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Cada ser humano é uma estrela

Cada ser humano é uma estrela

Rogel Samuel


"Como explicar que aquele pianista que morre de medo antes de entrar em cena depois seja possuído de grande e jubilosa alegria?", pergunta Alain. Talvez porque seus dedos não sabem o que é ter medo, e o medo é um fantasma da sua cabeça. Esse é o sentido do "treinamento" do corpo.

Em tudo podemos nós treinar. Eu escrevo diariamente como "treinamento", como um pianista que depende de várias horas de estudo por dia para poder estar sempre em forma: Quando se senta ao piano, "naturalmente" seus dedos sabem o que fazer e aquilo se torna para ele uma verdadeira natureza, ele naturalizou e se integrou com o piano. Nós somos capazes de muitas coisas desde que treinemos. Como os lutadores treinam e se adestram. E como há uma integração do corpo com a mente, vencemos alguns obstáculos.

Este é o sentido da disciplina.

A disciplina não é uma canga rígida, que estrangula o corpo. Ela permite que nos libertemos constantemente de nós próprios, disse Dugpa Rinpochê.

Creio que sem alegria não há disciplina. Sem prazer.

O maior obstáculo é aquela sensação enorme de um “eu” que há em nossa mente.
O “eu” é um fantasma que nos segue como uma sombra.

Quando começamos a nos exercitar, esquecemos temporariamente do “eu”.
Aí somos felizes.

Os conflitos, o ódio, a violência, provêm de um sentimento enorme de um eu ferido, nascido de desconhecimento de si mesmo, que gera dor e confusão, disse o Rinpochê.

“Não somos nada, tudo é o que almejamos”, escreveu mais ou menos Heidegger na Floresta Negra.

“Não duvides do teu próprio esplendor interior. Cada ser vivo é uma estrela”, disse Dugpa Rimpochê.

São pensamentos contraditórios. Mas sem a contradição não damos conta da dialética da realidade, diz o materialismo histório marxista.