quinta-feira, 31 de março de 2011

ALENCAR E TANCREDO

MORTE DE MORCEGOS PODE CURCAR 6 BILHOES



Estimativa, calculada para a América do Norte, mostra importância econômica de animais selvagens
Alessandro Greco, especial para o iG



Foto: © Science/AAAS
Colônia de morcegos deixando caverna no Texas: animais têm importância econômica
Uma análise feita por pesquisadores dos Estados Unidos e da África do Sul mostrou que a morte dos morcegos que comem insetos pode causar um prejuízo de mais de US$ 3,7 bilhões (cerca de R$ 6 bilhões) ao ano apenas na América do Norte. Eles calcularam o que aconteceria se os morcegos comedores de insetos que destroem plantações e florestas simplesmente deixassem de fazê-lo.

Os números foram publicados na edição desta semana da revista Science. “Muitos de nós, que temos conduzido pesquisas com morcegos ao longo dos anos, assumíamos e dizíamos que eles eram economicamente importantes[...], mas não havíamos percebido a magnitude do impacto dos morcegos na agricultura”, explicou ao iG Thomas Kunz, um dos autores do artigo. Por exemplo, uma simples colônia de 150 morcegos marrrons (Eptesicus fuscus) em Indiana, Estados Unidos, come 1, 3 milhão de insetos que destroem plantações ao ano, o que traz uma economia considerável em pesticidas e outros métodos de controle de pragas.

TRICÔ









O grupo de tricô The Materialistics, do nordeste britânico, está promovendo exposições com peças inspiradas em obras de arte conhecidas. Aqui, a versão de 'O Grito' (1893), de Edvard Munch. (Foto: The Customs House Arts Centre/The Materialistics)

CRONICA DE MACHADO DE ASSIS









A semana - Obra Completa de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, Vol. III, 1994. Publicado originalmente na Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, de 24/04/1892 a 11/11/1900.

Mato Grosso foi o assunto principal da semana. Nunca ele esteve menos Mato, nem mais Grosso. Tudo se esperava daquelas paragens, exceto uma república, se são exatas as notícias que o afirmam, porque há outras que o negam; mas neste caso a minha regra é crer, principalmente se há telegrama. Ninguém imagina a fé que te­nho em telegramas. Demais, folhas européias de 13 a 14 do mês passado, falam da nova república transatlântica como de coisa feita e acabada. Algumas descrevem a bandeira.

Duas dessas folhas (por sinal que lon­drinas) chegam a aconselhar ao governo da União que abandone Mato Grosso, por lhe dar muito trabalho e ficar longe, sem real proveito. Se eu fosse governo, aceitava o conselho, e pregava uma boa peça à nova república, abandonando-a, não à sua sorte, como dizem as duas folhas, mas à Inglater­ra. A Inglaterra também perdia no negócio, porque o novo território ficava-lhe mui­to mais longe; mas, sendo sua obrigação não deixar terra sem amanho, tinha de suar o topete só em extrair minerais, desbastar, colonizar, pregar, fazer em suma de Mato Grosso um mato fino.

Eu, rigorosamente, não tenho nada com isto. Não perco uma unha do pé nem da mão, se perdermos Mato Grosso. E não é melhor que me fique antes a unha que Mato Grosso? Em que é que Mato Grosso é meu? Não nego que a idéia da pátria deve ser acatada. Mas a nova república não bra­dou: abaixo a pátria! como um rapaz que fez a mesma coisa em França, há três meses, e foi condenado à prisão por um tri­bunal. Mato Grosso disse apenas: Anch'io son pittore, e pegou dos pincéis. Não des­truiu a oficina ao pé, organizou a sua. Uma vez que pague, além das décimas, as tintas, pode pintar a seu gosto, e tanto melhor se fizer obras-primas.

Pátria brasileira (esta comparação é melhor) é como se disséssemos manteiga nacional, a qual pode ser excelente, sem impedir que outros façam a sua. Se a nova fabrica já está montada (estilo dos estatu­tos de companhias e dos anúncios de teatros), faça a sua manteiga, segundo lhe parecer, e, para falar pela língua argentina, vizinha dela e nossa: con su pan se la coma.

Vede bem que a nova república é una e indivisível. Aqui há dente de coelho; pa­rece que o fim é tolher a soberania a Co­rumbá, a Cuiabá, que poderiam fazer as suas constituições particulares, como os di­versos Estados da União fizeram as suas. Eu só havia notado, em relação a estes, a diferença dos títulos dos chefes, que uns são governadores, como nos Estados Uni­dos da América, outros presidentes, como o presidente da República. A princípio supus que a fatalidade do nosso nascimento (que é de chefe para cima) obrigava a não chamar governador um homem que tem de reger uma parte soberana da União; mas, consultando sobre isso uma pessoa grave do interior, ouvi que a razão era outra e histórica, isto é, que a preferência de presidente a governador provinha de ser este título odioso aos povos, por causa dos antigos go­vernadores coloniais. Não só compreendi a explicação, mas ainda lhe grudei outra, observando que, por motivo muito mais an­tigo, foi acertado não adotar o título de juiz, como usaram algum tempo em Israel (fedor judaico) — justamente!

Entretanto, outra pessoa, sujeita ao terror político, tem escrito esta semana que alguns Estados, em suas constituições e legislações, foram além do que lhes cabia; que um deles admitia a anterioridade do casamento civil, outro já lançou impostos gerais, etc. Assim será; mas obra feita não é obra por fazer. Se o exemplo de Mato Grosso tem de pegar, melhor é que cada pin­tor tenha já as suas telas prontas, tintas moídas e pincéis lavados: é só pintar, expor e vender. A União, que não tem terri­tório, não precisa de soberania; basta ser um simples nome de família, um apelido, meia alcunha.

Depois de Mato Grosso, o negócio em que mais se falou esta semana (não con­tando a reunião do Congresso), foi o pro­cesso da Geral. Os diretores presos tive­ram habeas-corpus. Apareceu um relatório contra os mesmos, e contra outros, mas apareceu também a contestação, depoimen­tos e desmentidos, além de vários artigos, os quais papéis todos, juntos com o que se tem escrito desde começo, cortados em ti­ras de um centímetro de largura, e unidos tira a tira, dão uma fita que, só por falta de cinco léguas, não cinge a terra toda; mas, como não é negócio que se acabe com soltu­ras nem relatórios, calculam os matemáti­cos do Clube de Engenharia que as cinco léguas que faltam, estarão preenchidas até quinta-feira próxima, e antes de outubro pode muito bem

Dar outra volta completa

Ao nosso belo planeta.

Tudo isso para se não saber nada! Eu, pelo menos, de tudo o que tenho lido a res­peito desta Geral, só uma coisa me ficou clara (aqui os credores arregalam os olhos) e foi a legalização, e portanto a legitimação da palavra zangão, com o seu plural zangões. Aquele nome fora adotado antigamente com a prosódia verdadeira, — a que tinha, que era zângão, e conseguintemente fazia no plural zângãos. Mas o povo achou mais fácil ir carregando para diante, e pôr o acento na segunda sílaba, fazendo zangão e zangões. Nunca os tinha visto escritos; achei-os agora judicialmente, e não me irri­to com isso. O Sr. Dr. Castro Lopes, que há pouco tratou de bençam, querendo que se diga benção, e bênções, é que há de explicar por que razão o povo em um caso escorrega para diante e em outro para traz. Eu creio que tudo provém da situação da casca de banana, que, se está mais próxima do bico do sapato, faz cair de ventas, se mais perto do tacão, faz cair de costas. Zangão, bençam. Creiam, meus amigos, é a única idéia que há de ficar dos autos.



Rio Abaixo











OLAVO BILAC


Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da água, que as margens em redor alaga,
Seguimos. Curva os bambuais o vento.

Vivo há pouco, de púrpura, sangrento,
Desmaia agora o ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento.
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.

Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte mudo:

E o seu reflexo pálido, embebido
Como um gládio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.

ALENCAR SEMPRE BEM HUMORADO


"A alegria é uma fonte de juventude eterna". DUGPA RINPOCHE

ALMINO AFONSO NA ACADEMIA





Filho do Amazonas que se tornou uma figura pública de renome nacional, Almino Monteiro Álvares Affonso toma posse na Academia Amazonense de Letras (AAL) em cerimônia na sede da instituição nesta terça-feira (29), às 20h.

Ele ocupa a cadeira nº 15, que tem Graça Aranha como patrono. Aos 82 anos e dono de extensa trajetória na vida pública, o advogado, político e escritor revela muita humildade e gratidão à sua terra natal ao falar sobre sua eleição para a Academia.

“Somos um povo generoso, e minha eleição é uma prova a mais disso. Entenderam de achar que eu tenho qualidades para participar da Academia. Tenho minhas sérias dúvidas. Mas não poderia deixar de aceitar algo que tem um significado muito especial para mim”, afirma o novo imortal, bem humorado, em entrevista a A CRÍTICA.

Há muitos anos vivendo em São Paulo, ele se diz ligado ao cenário da cultura e das letras do Estado: “Acompanho a vida cultural da cidade, a evolução da Academia, as novas obras que surgem. Eu me sinto em casa pela relação do afeto”.

Trajetória
Nascido em Humaitá (a 600 quilômetros de Manaus) em 1929, Affonso estudou no Colégio Amazonense D. Pedro II antes de ingressar na Faculdade de Direito do Amazonas, em 1949.

No ano seguinte, ele se transferiu para a Faculdade de Direito de São Paulo, onde se formou em 1953. Daqui, levou a paixão pela literatura e ideais que marcariam toda sua trajetória posterior.

“Foi aqui que aprendi a admirar a luta em defesa do monopólio estatal do petróleo”, conta. “E onde aprendi também a gostar de ler e escrever”.

Affonso começou sua vida política também no Amazonas: em 1958, aos 28 anos, foi eleito deputado federal pelo Estado. Quatro anos depois, foi reeleito com a maior votação já alcançada à época em eleição proporcional.

“Foram dois presentes que o povo do Amazonas me deu”, declara. “Minha história com o Amazonas é tão profunda que às vezes me pergunto por que tanta generosidade”.

Em 1963, Affonso se tornou ministro do Trabalho e Previdência Social do Governo João Goulart. No ano seguinte, cassado pelo Golpe Militar, exilou-se e viveu por 12 anos na antiga Iugoslávia, Uruguai, Chile, Peru e Argentina.

Nos primeiros meses, ele, a esposa Lygia e os filhos – entre eles Sérgio Britto, que depois faria parte do grupo de rock Titãs – se mantiveram com a ajuda pessoal de amigos. Ele se orgulha de nunca ter tirado proveito de sua atividade política.

“É algo de que não se ouve falar muito hoje”, ressalta. Anistiado, Affonso voltou ao Brasil em 1976, e desde lá ocupou vários cargos públicos, como o de vice-governador do Estado de São Paulo e o de conselheiro da República, no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Prosa e poesia
Affonso é autor de mais de uma dezena de obras, entre biografias, coletâneas de discursos e livros de poesia. Dentre as primeiras, ele destaca “Comendador Monteiro – Tronco e raízes”, que narra a trajetória da família do fundador de Humaitá, na região do rio Madeira, e “Almino Affonso – Tribuno da abolição”, que conta a vida de seu avô, notório abolicionista.

“Minha história é vinculada às causas sociais no meu País. Tenho certeza de que herdei isso dele”. Na poesia, Affonso é autor de “Versos d’água doce”, que em breve ganhará uma nova edição da Valer.

A obra traz escritos da juventude que o escritor hesitava em publicar, até ser convencido pelo colega Tenório Telles. “Eu considerava que não era um poeta realizado”, alega. Hoje, Affonso se dedica a um novo livro: “João Goulart – Uma revisão da História”, em que revê o golpe de 1964.

“Há muita coisa deformada sobre a época, a começar pela personalidade do presidente João Goulart”, adianta.

Participação
Affonso considera que a AAL mudou muito da época de sua juventude até hoje. “Minha lembrança era de um cenáculo. Era fantástica, mas muito fechada”, diz.

“Hoje você sente a Academia aberta”. Anos após receber da mesma AAL a Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes, Affonso se orgulha de se tornar membro da instituição, e espera contribuir ao máximo para com ela: “Quero vir sempre a Manaus participar das reuniões, dentro das limitações de uma vida desgarrada da minha terra”.

Da luta pelo petróleo à vida política
A adesão à luta em favor do monopólio estatal do petróleo foi, segundo Almino Affonso, um de seus primeiros passos em direção à política.

“Isso me marcou de tal forma que diria que minha vida política nasce dessa luta. E isso eu aprendi no Amazonas”, ressalta ele. “Para se ter desenvolvimento econômico, é preciso ter domínio do petróleo. Hoje se fazem guerras pelo petróleo. Já era assim também naquela época”, recorda.

A questão polêmica, que contrapunha líderes militares, estudantes e esquerdistas, a favor do monopólio, e figuras públicas favoráveis ao capital estrangeiro e contrárias ao controle estatal, fez nascer em Affonso um ideal de defender as causas em favor do País.

“De lá, fui percebendo a importância dessa problemática em relação às necessidades do povo brasileiro”, afirma Affonso. Para ele, a vitória do lado nacionalista, com a criação da Petrobras, em 1955, repercute até hoje.

“Se não tivéssemos realizado essa batalha naquela época, o pré-sal hoje não seria nosso, mas de empresas estrangeiras”, diz.

Um advogado que queria ser jornalista
Antes da política e da vida pública, Almino Affonso se dedicou a atividades jornalísticas.

“Muito mais do que ser advogado, quis ser jornalista”, confessa ele, que passou, entre outras, pela redação de A CRÍTICA.

“Fui contemporâneo de (Umberto) Calderaro no colégio D. Bosco. Minha relação com o jornal foi muito afetuosa. Isso me traz lembranças muito boas, e portanto sinto alegria de falar hoje com A CRÍTICA”.

Estátua de Andy Warhol é inaugurada em praça de Nova York






DE SÃO PAULO

O "Andy Monument", escultura feita por Rob Pruitt, foi inaugurado na Union Square, em Nova York, nesta semana.

A obra, que mostra o artista plástico Andy Warhol, tem mais de três metros e é feita de mercúrio.

Para fazê-la, Pruitt escaneou a laser o corpo de um colecionador com tipo físico semelhante ao de Warhol.

A estátua ficará na praça até o dia 2 de outubro.

Shannon Stapleton/Reuters

A obra "Andy Monument", de Rob Pruitt, que mostra artista plástico Andy Warhol, na Union Square, em Nova York

quarta-feira, 30 de março de 2011

Crise na OSB






RIO - As demissões na Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) já começaram. Entre os 41 músicos que boicotaram as avaliações de desempenho e, por isso, foram convocados a comparecer nesta quarta-feira à sede da orquestra , apenas dois atenderam ao chamado. E, como esperavam, foram demitidos por justa causa. São eles o violinista Adonhiran Reis e o trombonista Marco Antônio De La Favera. Adonhiran estava há três anos na orquestra, enquanto Marco Antônio tinha 26 anos de instituição.



Os músicos foram recebidos pelo diretor administrativo da fundação OSB, Sergio Fortes, que apresentou aos músicos um documento rescindindo, por justa causa, seus contratos de trabalho. Os dois se recusaram a assinar e, com isso, o caso deve ser levado ao Ministério do Trabalho.

Orquestra Sinfônica Brasileira perde metade dos músicos


Chegou ao fim o Caso Orquestra Sinfônica Brasileira – 44 dos 79 músicos do grupo já estão em processo de demissão após quase três meses de batalha em torno das avaliações impostas pela Fundação OSB. A orquestra, durante todo esse tempo, insistiu na legalidade das audições programadas para o início de março; e os músicos, por sua vez, defendiam a posição de que as provas são uma medida autoritária e ineficaz no processo de avaliação do trabalho da orquestra.

Na justiça, a Fundação OSB conseguiu autorização para levar adiante as provas, consideradas legítimas – instituição privada, a orquestra teria direito de avaliar seus funcionários. Os músicos recorreram a instâncias como o Ministério do Trabalho, que enviou ao Rio, no começo desta semana, um representante que serviria de mediador nas negociações entre as duas partes. A Fundação, no entanto, não reconheceu a mediação do ministério e – com a decisão judicial embaixo do braço – demite agora por justa causa os artistas que se recusaram a obedecer a ordem de fazer as provas. Foi sugerido um Plano de Demissão Voluntária, mas os músicos optaram por não aceitá-lo.

Se o corporativismo às vezes resvala na teimosia, por outro lado as cartas de advertência e demissão enviadas antes da hora e a busca em audições por substitutos para vagas ainda não abertas também não sugerem a melhor das intenções. Depois da polêmica inicial em torno das provas, a fundação correu para dizer que o objetivo das avaliações jamais foi a demissão em massa. É, no entanto, justamente esse o desfecho da história. Há verdades e exageros para todos os lados. Em horas como essa, a lei parece ser um parâmetro isento ao qual recorrer: órgão privado, a OSB tem direito a demitir seus funcionários.

Mas há muitas nuances das quais a lei, em alguns casos, não dá conta. A OSB, afinal, tem dinheiro público, que vem da prefeitura do Rio, à qual correu anos atrás, quando enfrentava o risco de ser fechada por falta de verbas. Além disso, a repercussão internacional, com músicos e especialistas de todo o mundo se pronunciando, é sinal de que não estamos falando apenas da relação empregador/empregado em uma empresa específica. A proliferação de crises, que se repetem ciclicamente em orquestras brasileiras, é suficiente para mostrar que há muito mais em jogo. A lição, se é que podemos chamá-la assim, é que perdemos a chance de mudar o paradigma – ou ao menos sugerir um novo caminho – na relação trabalhista dentro de orquestras.

Ainda que uma ou outra exceção exista, o fato é que músicos e direção estão sempre em lados opostos, convivendo no limite do entendimento. Fazem música não em parceria, mas apesar do convívio. O caso OSB tem muito a nos dizer sobre a vida cultural brasileira e, mais especificamente, sobre a atividade sinfônica. É toda uma relação de trabalho – e um contexto institucional precário, prejudicial aos dois lados – que está em jogo. Saímos dessa história sem avançar um milímetro nessa questão.


Músicos estão sem emprego e, como classe, se fragilizaram mais – ainda que a coesão com que lidaram com a questão seja um exemplo raro de união em um meio marcado por individualismos de todos os tipos. Por sua vez, a OSB perdeu a chance de ter criado um sistema mais humano de substituições em seu quadro orquestral. Músicos experientes, que dedicaram uma vida toda à orquestra, poderiam ter recebido tratamento melhor no momento da aposentadoria; com menos truculência, o desejo concreto de desenvolvimento artístico talvez não tivesse parecido a tanta gente uma mera desculpa. Ainda que respaldada pela justiça, é bobagem achar que a Fundação OSB sai vitoriosa da questão. Todos – músicos, maestros, orquestras, público – saímos perdendo.


E é sob esse signo que nasce a nova OSB.

ALMINO AFONSO TOMA POSSE NA ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS


A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS






de pé: Rodolfo Amoedo, Artur Azevedo, Inglês de Sousa, Bilac, Veríssimo, Bandeira, Filinto de Almeida, Passos, Magalhães, Bernardelli, Rodrigo Octavio, Peixoto; sentados: João Ribeiro, Machado, Lúcio de Mendonça e Silva Ramos.

O QUE SE PERDEU NO INCENDIO DA UFRJ



terça-feira, 29 de março de 2011

CRONICA DE MACHADO DE ASSIS


Vês este tapume? Digo-vos que não fi­cará tábua sobre tábua. E assim se cum­priu esta palavra do Dr. Barata Ribeiro, que imitou a Jesus Cristo, em relação ao templo de Jerusalém. Olhai, porém, a diferença e a vulgaridade do nosso século. A palavra de Jesus era profética: os tempos tinham de cumpri-la. A do presidente da intendência, que era um simples despacho, não precisou mais que de alguns trabalha­dores de boa vontade, um advogado e vin­te e quatro horas de espera. Ao cabo do prazo, reapareceu o nosso chafariz da Cario­ca, o velho monumento que tem o mesmo no­me que nós outros, filhos da cidade, o nosso xará, com as suas bicas sujas e quebradas, é certo, mas eu confio que o Dr. Barata Ri­beiro, assim como destruiu o tapume, assim reformará o bicume. E poderá ser preso, açoitado, crucificado; ressurgirá no tercei­ro minuto, e ficará à direita de Gomes Freire de Andrade.

Já que se foi o tapume, não calarei uma anedota, que ao mesmo tempo não posso contar. Valham-me Gulliver e o seu inven­to para apagar o incêndio do palácio do rei de Lilliput. Recordam-se, não? Pois sai­bam que uma noite lavrava um princípio de incêndio no tapume, — algum fósforo lançado por descuido ou perversidade. Um Gulliver casual, que ia passando, correu a apagá-lo. Pobre grande homem! Esbarrou com um soldado de sentinela, ao lado da Imprensa Nacional, que não consentiu na obra de caridade daquele corpo de bom­beiro. Perseguido pela visão do incêndio (há desses fenômenos), o nosso Gulliver viu fogo onde o não havia, isto é, no próprio edifício da Imprensa Nacional, lado opos­to, e correu a apagá-lo. Não achou sombra de sentinela! Disseram-lhe mais tarde que a sentinela do tapume era a mesma que o governador Gomes Freire mandara pôr ao chafariz, em 1735, e que a Metropolitana, por descuido, não fez recolher. Vitalidade das instituições!
Mas esse finado tapume faz lembrar um tempo alegre e agitado, tão alegre e agi­tado quão triste e quieto é o tempo presente. Então é que era bailar e cantar. Dançavam-se as modas de todas as nações; não era só o fadinho brasileiro, nem a quadrilha fran­cesa; tínhamos o fandango espanhol, a ta­rantela napolitana, a valsa alemã, a habanera, a polca, a mazurca, não contando a dança macabra, que é a síntese de todas elas. Cessou tudo por um efeito mágico.
Os músicos foram-se embora, e os pares vol­taram para casa.
Só o acionista ficou, — o acionista moderno, entenda-se, o que não, paga as a­ções. Tinham-lhe dito: — aqui tem um pa­pel que vale duzentos, o senhor dá apenas vinte, e não falemos mais nisso.
— Como não falemos?
— Quero dizer, falemos semestralmente; de seis em seis meses, o senhor re­cebe dez ou doze por cento, talvez quinze.
— Do que dei?
— Do que deu e do que não deu.
— Que não dei, mas que hei de dar?
— Que nunca há de dar.
— Mas, senhor, isso é quase um debên­ture.
— Por ora, não; mas lá chegaremos.
Desta noção recente tivemos, há dias, um exemplo claro e brilhante. Uma assembléia, tomando contas do ano, deu com três mil contos de despesas de incorporação. Na­da mais justo. Entretanto, um acionista propôs que se reduzissem aquelas despesas; outro, percebendo que a medida não era simpática, lembrou que ficasse a direto­ria autorizada a entender-se com os incorporadores para dar um corte na soma. A assembléia levantou-se como um só homem. Que reduzir? que entender-se? E, por cerca de cinco mil votos contra dez ou onze, aprovou os três mil contos de réis. A razão adivinha-se. A assembléia compreendeu que a incorporação, como a ação, devia ter sido paga pelo décimo, e conseguintemente que os incorporadores teriam recebido, no máximo, trezentos contos. Pedir-lhes re­dução da redução seria econômico, mas não era razoável, e instituiria uma justiça de dois pesos e duas medidas. Votou os três mil contos, votaria trinta mil, votaria trinta milhões.
Hão de ter notado a facilidade com que meneio algarismos, posto não seja este o meu ofício; mas desde que Camões & C. puseram uma agência de loterias no beco das Cancelas, creio que, ainda sem ser Camões, posso muito bem brincar com cifras e números. Na explicação do Sr. Dr. Ferro Cardoso, por exemplo, acerca da não eleição, o que mais me interessou, foram os oito mil eleitores que deixaram de votar no candidato, já porque eram milhares, já por- que o argumento era irrespondível. Com efeito, ninguém obriga um homem a aceitar a cédula de outro; se a aceita e não vota, é porque cede a uma força superior.
Tudo é algarismo debaixo do sol. A própria circular do bispo aos vigários, acerca dos padres e sacristãos associados para vender caro as missas, reduz-se, como vêem, a somas de dinheiro. Grande rumor nas sacristias. Grande rumor na imprensa anônima. Pelo que me toca, não sendo padre nem sacristão, cito este acontecimento da semana, não só por causa dos algarismos, mas ainda por notar que o bispo adotou neste caso o lema positivista; Viver às claras. Em vez de circular reservada, fê-la pública. Mas como, por outro lado, já alguém disse que o positivismo era “um catolicismo sem cristianismo”, a questão pode explicar-se por uma simpatia de ori­gem, e os padres que se queixem ao bispo dos bispos.
Onde não creio que haja muitos milha­res de contos é na República Transatlântica de Mato Grosso. O dinheiro é o nervo da guerra, diz um velho amigo; mas um fi­no e grande político desmente o axioma, afirmando que o nervo da guerra está nas boas tropas. Haverá este nervo em Mato Grosso? Quanto a mim, creio que a jovem república não é mesmo república. Aquele nome de Transatlântica dá idéia de um gra­cejo ou de um enigma. É talvez o que fi­que de toda a campanha. Também pode ser que a palavra, como outras, tenha sentido particular naquele Estado, e traga uma significação nova e profunda. Às vezes, de onde não se espera, daí é que vem. Há dias, dei com um verbo novo na tabuleta de uma casa da Cidade Nova: “Opacam-se vidros”. Digam-me em que dicionário viram pala­vra tão apropriada ao caso.

A semana - Obra Completa de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, Vol. III, 1994. Publicado originalmente na Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, de 24/04/1892 a 11/11/1900.


Alencar, de balconista a empresário e vice-presidente da República


Carolina Pimentel
Repórter da Agência Brasil

Brasília – O ex-vice-presidente José Alencar Gomes da Silva nasceu no vilarejo de Itamuri, no município de Muriaé, na Zona da Mata de Minas Gerais, em 17 de outubro de 1931. Era o 11º filho de um total de 15 do comerciante Antônio Gomes da Silva e da dona de casa Dolores Peres Gomes da Silva.

Em 2003, Alencar foi eleito vice-presidente na chapa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O empresário mineiro teve papel fundamental para que Lula ganhasse a confiança do empresariado durante a campanha eleitoral. Em 2006, foi reeleito para o cargo.

No governo, Alencar acumulou a Vice-Presidência com o cargo de ministro da Defesa, de 2004 até março de 2006, quando se licenciou do ministério para concorrer novamente às eleições presidenciais.

Filiado ao Partido Republicano Brasileiro (PRB), Alencar fez várias críticas à política econômica adotada pelo Conselho de Política Monetária (Copom) e virou símbolo dos que pediam a redução da Taxa Básica de Juros (Selic).

Alencar deixou a casa dos pais aos 14 anos para ser balconista da loja de tecidos A Sedutora, em Muriaé. Dois anos depois, mudou-se para Caratinga (MG), onde continuou a trabalhar como vendedor.

Quando completou 18 anos, Alencar foi emancipado pelo pai, pegou dinheiro emprestado com o irmão mais velho, Geraldo Gomes da Silva, e abriu o próprio negócio. Em 31 de março de 1950, abriu a primeira empresa A Queimadeira, onde vendia tecidos, calçados, chapéus, guarda-chuvas e sombrinhas. Para economizar, morava na própria loja.

Com o apoio dos irmãos, o ex-vice presidente manteve a loja até 1953, quando decidiu vendê-la e mudar de ramo. Tornou-se representante comercial de um fabricante de tecidos do Rio de Janeiro, trabalhou na área de cereais e foi sócio de uma fábrica de macarrão. Em 1959, o irmão mais velho de Alencar morreu em Ubá, também em Minas, e ele assumiu os seus negócios.

Em 1967, em parceria com o empresário de beneficiamento de algodão e deputado Luiz de Paula Ferreira, Alencar fundou, em Montes Claros, a Companhia de Tecidos Norte de Minas, a Coteminas, que se tornaria um dos maiores grupos têxteis do Brasil. Em 1975, ele inaugurou a mais moderna fábrica de fiação e tecidos do país. A Coteminas tem fábricas de fios, tecidos, malhas, camisetas, meias, toalhas de banho e de rosto, roupões e lençóis para o mercado interno. O grupo ainda tem cinco unidades nos Estados Unidos, uma na Argentina e uma no México.

O ex-vice-presidente atuou em entidades representativas do empresariado. Foi presidente da Associação Comercial de Ubá e da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), além de vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Na vida política, em 1994, candidatou-se ao governo de Minas e, em 1998, elegeu-se senador pelo PMDB, com quase 3 milhões de votos.

No Senado, foi presidente da Comissão Permanente de Serviço de Infraestrutura e membro da Comissão Permanente de Assuntos Econômicos e da Comissão Permanente de Assuntos Sociais.

Desde 1997, o vice-presidente lutava contra o câncer. Fez tratamento no Brasil e nos Estados Unidos. Ao todo, ele passou por 17 cirurgias. Alencar era casado com Mariza Campos Gomes da Silva, com quem teve três filhos: Josué Christiano, Maria da Graça e Patrícia.

Edição: Lana Cristina

Jean diz que vai ao Conselho de Ética contra Bolsonaro






Mário Coelho

O deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) anunciou que vai entrar com uma representação por quebra de decoro parlamentar por racismo contra o também deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) no Conselho de Ética da Câmara. A representação vai ser baseada em declarações dadas por Bolsonaro ao programa CQC, da TV Bandeirantes, veiculadas na noite de ontem (28). No quadro "Povo quer saber", o deputado foi questionado pela cantora Preta Gil sobre como agiria se seu filho se apaixonasse por uma negra.

"Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco porque meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu", respondeu Bolsonaro. Caso seja aberto um processo por quebra de decoro no Conselho de Ética, a punição pode ir de censura verbal até cassação do mandato parlamentar.

Para Jean, o colega de bancada fluminense praticou crime de racismo. Ele chamou Bolsonaro de "racista homofóbico", em referência ao discurso de intolerância do deputado em relação aos homossexuais. Pelo Twitter, o deputado do Psol pediu o apoio e mobilização dos movimentos negro e LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e trangêneros). "'Amanhã vai ser outro dia'. Bolsonaro terá de responder por seu crime e imoralidade porque queremos uma sociedade justa e boa!", afirmou Jean Wyllys. O site ainda tenta contato com os deputados, mas não obteve retorno.

Jean Wyllys disse que hoje vai analisar qual o meio mais rápido de representar contra Bolsonaro no Conselho de Ética. A possibilidade maior é que o próprio partido entre com uma representação. A pergunta foi feita pela cantora Preta Gil. Ao ver a resposta no programa, ela disse, também pelo Twitter: "Advogado acionado, sou uma mulher Negra, forte e irei até o fim contra esse Deputado, Racista, Homofóbico, nojento, conto com o apoio de vocês".

"Racismo é crime! Quem pratica racismo e homofobia em tv aberta é mais que imoral; é criminoso que debocha da Constituição", disparou Jean. Ele acrescentou que a "derrota do reacionário travestido de fascista é a existência das frentes parlamentares pela Igualdade Racial e pela Cidadania LGBT". Pelo Código Penal, praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, pode gerar uma pena de um a três anos reclusão e multa. Como Bolsanaro é parlamentar e tem foro privilegiado, só pode ser processado no Supremo Tribunal Federal (STF).

Em 2009, o Congresso em Foco fez uma retrospectiva das polêmicas em que Bolsonaro já se envolveu. Confira: “Com que moral vão me cassar aqui?”




http://www.congressoemfoco.com.br/noticia.asp?cod_canal=1&cod_publicacao=36549

Rogel Samuel: O patrimônio da UFRJ que pode ter sido queimado






Pouca gente sabe que o meu ex-reitor Pedro Calmon doou para o prédio da Reitoria na Praia Vermelha vários bens de valor inestimáveis.

Lembro-me de um grande painel de espelhos sobre a parede, atrás de um console de espelhos, que talvez tenha pertencido à época do império, confrontando um grande lustre de cristal.

O gabinete do reitor, na época de Pedro Calmon, tinha uma decoração e um mobiliário digno de um rei.

Sei disso porque, quando estudante, nós éramos recebidos pelo reitor Pedro Calmon em seu gabinete. Ele era franqueado a todos. Lembro-me de uma reunião ali sobre a ampliação do bandejão.

A biblioteca de Pedro Calmon – valiosíssima – também está no mesmo prédio.

Homem elegante, muito culto e muito rico, cercava-se de objetos de arte de grande valor histórico. Afinal ele era historiador.

Lembro-me do fato de ter sido ele, na época Ministro da Educação de Getulio, o representante do governo brasileiro na coroação da rainha Elizabeth.

Eu não entro naquele gabinete desde o tempo em que era estudante.

Por isso fiquei alarmado com o incêndio do prédio da reitoria.

segunda-feira, 28 de março de 2011

TRAGÉDIA NA UFRJ






Um incêndio atingiu nesta segunda-feira (28) parte do campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) na Praia Vermelha, zona sul do Rio de Janeiro. O fogo teve início por volta das 14h30 no terceiro andar do Palácio Universitário, onde fica localizada a capela, mas se espalhou pelo prédio.

Cerca de 100 bombeiros dos quartéis do Humaitá, Catete e Gávea trabalharam no local, com o apoio de 15 viaturas da corporação. O fogo foi controlado e os bombeiros se concentram no trabalho de rescaldo, para evitar novos focos. Ninguém ficou ferido.

“O incêndio começou com proporções muito grandes no telhado e, como havia muita madeira na parte interna do prédio, houve uma grande dificuldade para combater as chamas”, explicou o comandante das unidades especializadas do Corpo de Bombeiros, coronel Valdinei Dias da Silva.

Por causa do incidente, as aulas no campus foram suspensas até quarta-feira (30). Construído em 1852, o Palácio Universitário abrigava atualmente, além da capela no último andar, o Fórum de Ciência e Cultura, algumas salas da Faculdade de Educação, três salões nobres onde eram realizados eventos e um importante acervo da UFRJ, que não foi atingido, segundo o reitor Aloisio Teixeira.


"São documentos desde a criação da universidade, atas, processos de reformas curriculares, enfim, a memória da UFRJ", disse Ana Maria Monteiro, diretora da Faculdade de Educação

O imóvel, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), estava em obras há cerca de um ano. Segundo o Iphan, o incêndio pode ter tido início com um maçarico usado na obra que era alimentado por um botijão de gás. Essa técnica, no entanto, não é irregular, de acordo com o instituto.

O maçarico teria esquentado o cobre das calhas de recolhimento da chuva localizadas no teto da capela, que teria aquecido a madeira que reveste o local, dando início ao fogo.

“Até onde sabemos, não foi gás que causou o incêndio. As informações preliminares que recebi são que de o cobre ficou superaquecido e isso pode ter causado o fogo na madeira. Mas, repito, não é uma informação oficial", destacou o superintendente do Iphan no Rio de Janeiro, Carlos Fernando Andrade.

De acordo com Andrade, “a questão de responsabilidade criminal será investigada pelos órgãos de apuração competentes”.

O reitor da UFRJ, Aloisio Teixeira, informou que o Palácio Universitário não será aberto na terça-feira (29) por questões de segurança. No local também funciona uma subestação de energia do campus da Praia Vermelha, que foi deligada logo após o incêndio.

“Testaremos a parte elétrica já que pode ter alguns problemas. Após testarmos ponto a ponto e, se tudo correr bem, vamos abrir na quarta-feira para as aulas nas partes laterais, como as Faculdades de Comunicação Social e de Educação”, disse.

A coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, Beatriz Resende, lamentou a perda do mobiliário, pois o prédio foi construído e mobiliado por D. Pedro II, que ergueu o imóvel para abrigar o Hospício Nacional Pedro II. “É uma perda nacional. Aqui está parte da história do País”, afirmou Beatriz.

Ela lembrou que pelo hospício passaram o escritor Lima Barreto, o compositor Ernesto Nazareth e o teatrólogo gaúcho Qorpo Santo. Em 1930, os internos foram transferidos para a Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio. Em 1949, o então vice-reitor da UFRJ, Pedro Calmon, pediu o prédio ao Governo Federal para instalar a reitoria da instituição de ensino.

CRONICA DE MACHADO DE ASSIS


30 de abril



Uma folha diária, recordando que as quermesses tinham sido fechadas por serem verdadeiras casas de tavolagens, noticiou que elas começam a reaparecer. Já há uma na Rua do Teatro; o pretexto é uma festa de caridade. E a folha chama a atenção da polícia.



A notícia — dizemo-lo sem ofensa — é mui própria de um século utilitário e prático. Não se poderia achar exemplo mais vivo do espírito da nossa idade, que põe a alma das coisas de lado para só admirar a face das coisas. Invertemos a caridade; ela não é, para nós, o móvel da ação, o sentimento da esmola e do benefício; é o resul­tado da coleta. Dou cinco mil réis para comprar uns sapatos de criança (se há ain­da sapatos de cinco mil réis); o mundo, se os sapatos não são comprados, grita contra a especulação. Queremos a caridade escriturada, legalizada, regulamentada, com relatório anual, contas, receita e despesa, saldo. Onde está aqui o espírito cristão?



A quermesse é tavolagem. Que tenho eu com isso, se me convida a fazer bem? Não se trata (reflita o colega), não se trata de beneficiar a um estranho, mas a minha al­ma. Vá o dinheiro para um faminto, para a escola, ou simplesmente para as algibei­ras do empresário, nada tem com isso a mi­nha salvação. A caridade não é um efeito, é uma causa. As quermesses são ocasiões in­ventadas para a prática do evangelho. O fim dessas instituições é exercitar a virtu­de, e tanto melhor se o dinheiro recolhido alimentar um vício. É o preceito de Horácio e do gasômetro: Ex fumo dare lucem.



Um exemplo. Há em certa rua, por onde passo todos os dias, um homem senta­do na soleira de uma porta, chapéu na mão, a pedir uma esmolinha. Esse homem, que deve andar por cinqüenta e tantos anos, padece de um pé sujo, — creio que o es­querdo. Quando lhe descobri essa única moléstia, travou-se em minha consciência um terrível conflito. Darei o meu vintém ao homem ou não? Fui ao meu grande S. Paulo, ao meu Santo Agostinho, fui princi­palmente aos casuístas mais célebres, e achei em todos que não se tratava do pé de um homem, mas da alma de outro. A rigor, pode-se dar até a um pé lavado. Daí em diante, dou ao homem o meu vintém certo. E não se diga que é porque fui estudar a solução do problema nos livros moralistas. Tenho visto pobres mulheres que passam com o vestidinho desbotado, a sua cor doen­tia, pararem adiante, e, às escondidas, tirarem do bolso o vintenzinho ganho à força de agulha ou de goma, e irem depositá-lo no chapéu do homem. Este, em bemol: “Os anjos a acompanhem, minha santa senhora!”



A quermesse pode ter os pés sujos. Não me cabe verificar se os vai lavar; cabe-me, sim, dar o dinheiro (e, quanto mais, me­lhor), para cumprir o preceito de Jesus: “Não queirais entesourar para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consome; mas entesourai para vós te­souros no céu, onde não os consome a fer­rugem nem a traça”.



A terra fez-se para entesourar algu­mas coisas, mas só as que não entendem com a nossa consciência moral, os atos que não vêm do coração, mas da cabeça. Que rico tesouro da terra nos deu a comissão de instrução pública do conselho munici­pal! No meio dos debates daquela casa, — tantas vezes acres e apaixonados, — é doce e consolador elevar o espírito a sentenças como esta: “Foi esta lei (a instrução) que organizou as sociedades primitivas, que re­geu seus principais destinos, que domina as condições de existência dos primeiros povos e que os obrigou a esse longo pere­grinar dos séculos”. E, depois de comparar a instrução a um elo que liga o passado ao presente e o presente ao futuro, escreve es­ta ousada e forte imagem, seguida de outra não menos ousada nem menos forte: “A hu­manidade, porém, é como a hiena faminta e insaciável. É como o Ahasverus da lenda que não pode parar, — tem de caminhar e caminhar sempre!” Não se pode pintar melhor a necessidade crescente da instrução da espécie humana.



Ao mesmo tempo, lembra-me os dias da mocidade. Ó Ahasverus! Também eu te vi caminhar, caminhar, caminhar sempre, naquela madrugada dos meus anos, tão linda, e tão remota! De noite, quando a insônia me arregalava os olhos com os seus dedos magros, — ou de manhã, quando eles se abriam ao sol, via o eterno andador, andando, andando... Lá me saiu um ver­so; há de ser algum que não me chegou a sair da cabeça.



Via o eterno andador, andando, andan­do. Justamente, um verso. Aí está o que é ter metrificado lendas em criança; não se pode falar delas sem vir à métrica de per­meio. Ó infância, ó versos! E as associa­ções? Havia algumas nesse tempo em que se discutiam e votavam teses históricas e filosóficas. Qual foi maior: César ou Napoleão? Esta era a mais comum dos debates; e se alguma coisa pode consolar esses dois grandes homens da morte que os tomou, é a certeza de que têm cá em cima da terra verdadeiros amigos e certo equilíbrio de sufrágios.



Também agora há teses, mas são ou­tras. Esta semana o Instituto dos Advoga­dos debateu um ponto interessante, a saber, se, em face da Constituição e das leis, os títulos nobiliários dados por governos es­trangeiros fazem perder a qualidade de ci­dadão. A maioria adotou a afirmativa: 16 votos contra 8. Mas, examinando a tese, o Instituto esqueceu uma hipótese. O Sr. Geminiano Maia, do Estado do Ceará, recebeu de um governo estrangeiro o título de barão de Camocim. Pergunto; esta hipótese entra acaso na tese do Instituto? O título pelo doador, é estrangeiro, mas é nacional pela localidade. Camocim é no território do Brasil. Para mim, que não tenho preparos jurídicos, este título não ti­ra a qualidade de cidadão ao Sr. Maia: an­tes o faz mais brasileiro, se é possível. Maia é um nome comum. Camocim é um nome nacional. Examine o Instituto essa hipótese.
A semana




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Texto-fonte:

Obra Completa de Machado de Assis.

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, Vol. III, 1994.



Publicado originalmente na Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, de 24/04/1892 a 11/11/1900.




Liz Taylor deixa joias avaliadas em US$ 150 milhões para instituições de caridade







(NA FOTO USANDO UM DE SEUS FAMOSOS DIAMANTES, O DE FORMA DE CORAÇAO)

A atriz Elizabeth Taylor, que morreu no dia 23 aos 79 anos de idade, deixou grande parte de sua herança, quase US$ 600 milhões em 1994, para instituições de caridade.




Elizabeth Taylor A atriz Elizabeth Taylor, que morreu no dia 23 aos 79 anos de idade, deixou grande parte de sua herança, quase US$ 600 milhões em 1994, para instituições de caridade. Todas as organizações beneficiadas foram fundadas pela estrela de olhos violeta. A informação é do jornal americano "New York Post".

A maior parte da fortuna será herdada por instituições de pesquisa para a cura da Aids e clínicas especializadas no tratamento de portadores de HIV, como o amfAR. A outra parte de sua herança deve ir para seus quatro filhos e alguns funcionários próximos.

A coleção de joias de Elizabeth Taylor, famosa por sua extensão, será leiloada em benefício das instituições de caridade. Só as joias da atriz foram avaliadas em US$ 150 milhões em 2002.

domingo, 27 de março de 2011

Vacina protege contra 3 tipos de gripe


A vacina que será disponibilizada para a população a partir do dia 25 de abril será eficaz contra três tipos de vírus causadores da gripe. O cidadão terá a oportunidade de se proteger contra a Influenza H1N1 (Gripe A), Influenza H3N3 e Influenza B, sendo os dois últimos, osvírus mais identificados na gripe comum.

A Campanha Nacional de Vacinação contra Influenza começa no dia 25 de abril e prossegue até o dia 13 de maio, desta vez, com a ampliação da cobertura vacinal, incluindo mais grupos em seu protocolo. No Estado, além de pessoas a partir de 60 anos, serão imunizadas as crianças de seis (6) meses a menores de dois (2) anos, gestantes e trabalhadores da saúde.

No Piauí 459.259 mil pessoas devem ser vacinadas.

A campanha terá seu lançamento oficial no dia 4 de Abril, onde também terão inicio, as reuniões com regionais de saúde para traçar estratégias de divulgação em todos os municípios. O Dia D da campanha será no dia 30 de abril.

“Estamos pensando estratégias de vacinação de acordo com a realidade de cada município, e essas estratégias devem ser discutidas e definidas durante as duas primeiras semanas de abril, quando devemos receber as doses de vacina do Ministério da Saúde”, afirmou Doralice Rodrigues, coordenadora estadual de imunização.

De acordo com Doralice, profissionais da Saúde também serão vacinados. “Todos aqueles que lidam freqüentemente com pacientes que apresentam problemas respiratórios agudos e suspeita de infecção por H1N1. Todos estão incluídos, desde recepcionistas, maqueiros, médicos e enfermeiros. Já as crianças, devem ter a partir de seis (6) meses e abaixo de dois (2) anos de idade. Estas devem receber a vacina em duas doses, sendo a segunda aplicada entre 21 e 30 dias após a primeira dose”, explica a coordenadora.

Para Amorim, é preciso diálogo para ter influência sobre Irã




Júlia Dias Carneiro,
Da BBC Brasil no Rio de Janeiro


Amorim foi chanceler durante os dois mandatos de Lula
O ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim acredita que o diálogo é a única maneira de influenciar o Irã, acusado por parte da comunidade internacional de violar direitos humanos e buscar desenvolver armas nucleares.

"Para você ter esse tipo de influência, você tem que ter um diálogo", disse Amorim em entrevista à BBC Brasil, afirmando que não é possível "bater forte e dialogar ao mesmo tempo".

O embaixador afirmou ainda que a aproximação com o Irã durante o governo Lula possibilitou que o Brasil intercedesse em casos como o de Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento, e da francesa Clotilde Reiss, acusada de espionagem no país.

Ministro das Relações Exteriores durante os dois mandatos de Lula, Amorim recebeu a BBC Brasil em seu apartamento em Copacabana na última quarta-feira, um dia antes de o Brasil ter votado a favor da nomeação de um relator da ONU para investigar a situação de direitos humanos no Irã.

O voto favorável no Conselho de Direitos Humanos da ONU sinalizou uma mudança na posição do Brasil, que até então vinha se abstendo em decisões sobre o Irã.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil - A presidente Dilma Rousseff deu sinais de que será mais dura na defesa de direitos humanos nos países com que o Brasil se relaciona. Antes de assumir o mandato, ela mostrou posição diferente da do presidente Lula ao falar sobre direitos humanos no Irã...

Celso Amorim - A manifestação dela nem foi sobre o Irã, foi específica sobre a situação daquela senhora, a Sakineh (Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento no Irã). Queira Deus que a situação dela melhore e que ela possa ser libertada. Não sei o que influiu no fato de ela não ter sido assassinada até hoje. Mas se teve uma coisa que contribuiu, foi o pedido do presidente Lula. Não terá sido a única.

Para você ter esse tipo de influência, você tem que ter um diálogo. Nós defendemos os direitos humanos ativamente. Atuamos em várias situações evitando agravamentos, inclusive ajudando a soltar pessoas. Outro dia, o presidente da sociedade baha’i me agradeceu porque fizemos gestões fortes em favor de baha’is condenados à morte.

Nós tínhamos condições de fazer essas gestões. Se estivéssemos permanentemente condenando o Irã, sei lá se eles teriam resolvido atender a um pedido nosso.

Eu tinha liberdade para pegar o telefone, como fiz, para falar com o ministro sobre a questão da Sakineh (...). Soltamos a (professora) francesa Clotilde Reiss – e foi o Brasil, não há a menor dúvida.

Como conseguir isso se se assume uma postura só de condenação? Você tem que optar. Não dá para fazer as duas. Acho que o presidente (francês Nicolas) Sarkozy tentou fazer as duas, bater forte e dialogar ao mesmo tempo. Os iranianos não dialogaram.

BBC Brasil - A imprensa procura ressaltar as diferenças entre os governos de Dilma e Lula. Há uma continuidade na política externa do governo Dilma, ou ela está tomando rumos próprios?

Amorim - É bom que tome rumos próprios. Cada pessoa é uma pessoa, cada momento é um momento. O momento é da Dilma. Há continuidade nas linhas básicas, mas cada situação é uma situação. À medida que o Brasil se torna maior, ele não vai ter menos problemas, vai ter mais problemas. Os momentos variam, a sensibilidade pode variar em relação à maneira de fazer determinada coisa, e cada um fará a seu modo, isso é natural.

Mas acho que em grande parte o desejo da imprensa de fazer uma separação é porque ela nunca aceitou o Lula. A verdade é essa. Nunca aceitou nossas atitudes independentes. Quando fomos à Síria a primeira vez, fui perguntado: “Mas vocês perguntaram a Washington se podia?” É achar que o Brasil tem que ser pequeno, caudatário.

Nessa questão de direitos humanos, é perfeitamente respeitável a opinião da presidenta, até pela sensibilidade pessoal que ela tem para isso. Eu nunca fui torturado, mas devo dizer que o presidente Lula foi preso e eu perdi meu lugar na Embrafilme porque autorizei um filme que tratava de tortura durante o governo militar.

Mas quando você lê a mídia brasileira, pegam isso para dizer que o Brasil não tem que se meter com o Irã, não tem que se meter com o Oriente Médio. Eles querem o Brasil pequenininho. No máximo cuidando um pouco aqui na região, sempre com uma postura agressiva em relação aos fracos e submissa em relação aos fortes.

Não é isso que queremos, e eu acho que a presidenta Dilma também não quer.

BBC Brasil - Como analista, como o senhor avalia as posições que o Brasil tomou em relação à Líbia, ao se abster no voto do estabelecimento de uma zona de exclusão aérea e ao pedir o cessar-fogo no país?

Amorim - Achei que foi um gesto correto, mas também corajoso, porque tomado na véspera da visita do presidente Obama. Havia a preocupação de proteger os civis. A tentação do lado ocidental é sempre agir com a força. A força às vezes tem que estar no horizonte, mas a melhor arma é aquela que você não precisa disparar.

Como você disparou, a zona de exclusão aérea já está gerando reação. Primeiro, está fazendo do próprio Khadafi um mártir, e mostrando que ele está liderando uma luta antiimperialista. A Liga Árabe apoiou, mas quem está lá é França, Estados Unidos, Itália dando apoio logístico, Reino Unido... Então é um grupo de países ocidentais bombardeando árabes e muçulmanos. Pelas reações que leio nos jornais, isso já está tendo efeito no resto do mundo árabe.

Acho que nesses casos a gente não pode procurar apenas satisfazer a nossa consciência moral. Sim, deve satisfazê-la, mas de uma maneira que obtenha resultados reais, que melhore a situação dos líbios. E não simplesmente ir para casa e dizer, dei um tiro no malvado. Você não sabe se o malvado matou mais dez por causa do tiro que você deu.

BBC Brasil - O senhor acredita que as revoluções no mundo árabe vão representar uma grande transformação na geopolítica do Oriente Médio?

Amorim - Eu acho que sim. O caso da Líbia hoje é muito dramático, por causa do uso da força e da repressão do governo. Mas a Líbia não é um país com grande influência no Oriente Médio. Tem mais influência na África, na verdade, porque financiou muita gente, deu apoio a Mandela.

Quem terá muita influência é o Egito. A maneira como as coisas caminharem no Egito terá uma grande influência no conjunto da região, principalmente na relação Israel-Palestina, que é o problema central. Essa mudança vai ter impacto no Oriente Médio e vai ter impacto no mundo. E é um fato novo.

Isso pode soar meio chocante, mas a Líbia de certa maneira veio a calhar para os países ocidentais. Porque até então todas as rebeliões importantes estavam se realizando contra regimes apoiados ostensivamente pelo Ocidente. Egito, Tunísia, Iêmen, Bahrein, onde há bases americanas.

Embora Khadafi fosse ultimamente cortejado pelos ocidentais por causa do petróleo e outros interesses, não se pode dizer que ele é um regime apoiado pelo Ocidente. A Líbia tirou as atenções dos outros países. Não estou dizendo que o Ocidente tenha provocado isso. Mas veio a calhar, e é uma situação que ainda por cima permite dizer que os países estão lutando pelos direitos humanos.

BBC Brasil - Os países do BRIC apresentaram voto alinhado nas Nações Unidas. Houve articulação política para tomar uma decisão conjunta?

Amorim - Eu não estou mais envolvido, não posso dizer o que efetivamente aconteceu. Mas certamente deve ter havido muita consulta entre eles. E certamente a posição de um pode ter influenciado a de outro. Acho que a posição da Alemanha também teve deve ter tido influência e tornou a nossa posição mais confortável.

BBC Brasil -A posição de abstenção do Brasil pode ser prejudicial ao pleito do país por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU? O país não terá que tomar decisões mais firmes se for para o conselho?

Amorim - Fui muito perguntado sobre isso quando votamos contra a resolução do Irã. Ali era um caso diferente, porque tínhamos feito um esforço a partir do estímulo do Ocidente e recebemos uma reação que desconsiderou totalmente o que tínhamos feito. Tínhamos mesmo que votar contra.

Mas vou repetir o que eu disse na época: se para entrar no Conselho de Segurança for preciso dizer sim a tudo, é melhor não entrar. Aquilo é para você levar a sua percepção do mundo. E a percepção do Brasil é basicamente a de tentar, sempre que possível, resolver as situações com alguma negociação.

BBC Brasil - E qual é o papel que o Brasil desempenha nesse novo panorama no Oriente Médio?

Amorim - Acho que o Brasil tem uma oportunidade. Do ponto de vista da relação com esses países, tem uma contribuição a dar, sobretudo se souber dar com humildade. Não pode chegar lá dizendo como as coisas têm que ser, mas pode se abrir, mostrar como nós consolidamos a democracia no Brasil, como foi o processo de uma Constituinte no Brasil. Nós também cometemos erros, não estou dizendo que a nossa experiência é perfeita, mas a democracia no Brasil está consolidada.

Ao ajudar e aumentar nossa presença, isso fortalece vários aspectos. Desde que começamos a aproximação com os países árabes, em seis anos o comércio se multiplicou por quatro vezes. A gente sabia que a parte comercial é importante, mas você não pode querer buscar só defender os interesses comerciais. As coisas vêm num conjunto.

Dirceu deve escapar de condenação por corrupção


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Por Felipe Recondo | Agência Estado



A história do tribunal mostra que as poucas condenações do STF só ocorreram quando obtidas provas cabais, impossíveis de serem contestadas. Por isso, dizem os ministros, seria praticamente impossível encontrar provas suficientes para condenar José Dirceu por corrupção ativa. Com a prescrição do crime de formação de quadrilha, nada sobraria contra ele no tribunal.

O mesmo vale, por exemplo, para Luiz Gushiken, ex-ministro do governo Lula, denunciado por peculato. Todos os ministros ouvidos reservadamente disseram que não havia sequer indícios suficientes sobre a atuação de Gushiken para que o tribunal recebesse a denúncia contra ele. Argumento semelhante é usado por ministros em relação ao ex-deputado Professor Luizinho (PT-SP), que foi líder do governo na Câmara.


Luizinho responde pelo crime de lavagem de dinheiro. Ministros dizem que o fato de o ex-deputado ter recebido dinheiro supostamente disponibilizado pelo PT, mas sacado do Banco Rural, não poderia ser classificado como lavagem de dinheiro.


Ao contrário do ex-procurador e autor da denúncia do mensalão, Antonio Fernando de Souza, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, nunca conversou diretamente com o ministro do STF, Joaquim Barbosa, relator do caso. Pior: os 12 pedidos de diligência feitos tardiamente pelo procurador-geral em dezembro, acabaram por atrasar o calendário previsto por Barbosa.


Pelo calendário informal do ministro Joaquim Barbosa, toda a instrução do processo estará concluída em abril ou maio. Depois disso, ele terá de analisar as mais de 42 mil páginas, reunidas em mais de 200 volumes, com quase 600 depoimentos e um calhamaço de provas colhidas.


Ao terminar seu voto, o que deve fazer até o final do ano ou no início de 2012, Barbosa repassará todo esse volume de informações para o colega que está incumbido de revisar o caso, o ministro Ricardo Lewandowski. O ministro terá igualmente de ler todos esses documentos para preparar um voto revisor.


Com isso, o processo estaria pronto para ser colocado em pauta no segundo semestre de 2012. Porém, não seria prudente o STF julgar neste período uma ação com potencial para interferir na eleição municipal. O julgamento ficaria para 2013, oito anos depois de descoberto o mensalão.
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..Dilma vira diva em noite de festa no palácio



Por Sonia Racy | Agência Estado



Nunca antes na história de Lula houve uma noite como a de sexta-feira passada no Palácio da Alvorada. Mostrando afabilidade e simpatia surpreendentes, a presidente Dilma Rousseff deu mostras de que, se é verdadeira a tese do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de que ela não venceu as eleições por conta das características identificadas com o universo feminino - se credenciando por meio de uma história pessoal na qual o sexo pouco diferença fez -, ela agora busca o caminho inverso.

Dilma está visivelmente procurando dedicar boa parte deste início de governo a “elas”. Mulher no poder faz diferença. Depois da série de entrevistas dadas à representantes do sexo feminino, durante este mês comemorativo do Dia Internacional da Mulher, a presidente Dilma abriu sua “casa” anteontem à noite a pouco mais de 50 “representantes da categoria”. Todas convidadas para assistir ao filme "É Proibido Fumar", da premiada cineasta Anna Muylaert. A atração foi seguida de um jantar.


O evento, marcado para a data em que a atriz Leila Diniz (morta em 1972 em um desastre aéreo) faria 66 anos, como bem lembrou Ana Maria Magalhães, autora de documentário presenteado a Dilma sobre a vida da atriz, começou às 19 horas e foi longe, terminando quase a 1 hora da manhã.


Ninguém do “clube da Luluzinha” se movimentou para ir embora. E a presidente, mesmo aparentando um certo cansaço, deu sinais de que estava gostando de estar ali.


Sem aparentar pressa depois de um dia certamente atribulado, que teve o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ao telefone e problemas na Vale, a sucessora de Lula não demonstrou incômodo ante o intenso assédio de algumas convidadas. As poucas representantes da imprensa, por exemplo, queriam saber quem será o substituto de Roger Agnelli no comando da Vale ou a razão pela qual Lula não atendeu ao convite de Dilma para participar do almoço oferecido a Obama.


As atrizes e cineastas estavam tão à vontade que em alguns momentos elas pareciam se esquecer de que estavam diante da dirigente máxima do País, a quem chamavam e apenas de Dilma.


A presidente se esquivou bem das questões incômodas, sinalizando que, apesar da cordialidade, será difícil fazer com que ela revele algo que não queira. Disciplina absoluta. E teve extrema paciência em responder às cineastas e atrizes. Só em um momento quase a perdeu: quando teve de ouvir uma longa defesa dos quilombolas de Alcântara (MA), que, por meio de acordo altamente vantajoso, selado com o Ministério da Defesa, já conquistaram dois terços do território da Base da Alcântara. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo
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sábado, 26 de março de 2011

STF pode adiar vigência da Lei da Ficha Limpa por 10 anos



Brasília - Depois de anular o efeito da Ficha Limpa sobre as eleições do ano passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) caminha para outro debate que pode adiar a entrada da lei em vigor por cerca de uma década. Os próximos julgamentos na Corte sobre a Ficha Limpa indicam que dificilmente a lei valerá integralmente para as eleições municipais de 2012.


O artigo 5.º da Constituição diz que "ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória". Diante de questionamentos sobre o alcance do artigo, o STF definiu que o cumprimento de uma punição só começa quando o réu esgota todas as possibilidades de recurso ao Judiciário.



Se os ministros entenderem que a inelegibilidade prevista na Ficha Limpa é uma pena - e não uma condição, como argumentam alguns -, a lei perderia uma de suas principais inovações.



Ministros do STF consultados pelo jornal O Estado de S.Paulo lembram que um processo leva anos para ser concluído. A duração depende da complexidade do caso, do juiz, ou corte que o julga, mas, como diz um magistrado, "há processos que levam uma década".



Se o entendimento da maioria for na linha de que o artigo 5.º se aplica para as cláusulas de inelegibilidade, a Lei da Ficha Limpa só poderá ser aplicada depois que o processo envolvendo um político esgotar todas as instâncias do Judiciário.



Em fevereiro de 2009, o Supremo decidiu por 7 votos a 4 que condenados pela Justiça têm o direito de recorrer em liberdade e não podem ser punidos enquanto houver recurso pendente. O debate era para saber se o Brasil deveria adotar ou não o princípio da execução provisória, isto é, se uma pessoa deve começar a cumprir pena depois de a condenação ter sido confirmada em segunda instância (Tribunal de Justiça ou Tribunal Regional Federal).



Contradição



Apesar dessa certeza jurídica, o presidente do STF, Cezar Peluso, já defendeu uma mudança radical no andamento de processos: depois de condenado na segunda instância, o réu começaria a cumprir pena, independentemente de haver recursos à espera de julgamento em outras instâncias. Essa proposta já foi negociada com o Ministério da Justiça, o que pode levar à confecção de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC). As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



AE / Portal do Holanda

PT é prejudicado com interpretação sobre Ficha Limpa


São Paulo - A bancada do PT na Câmara dos Deputados será a principal prejudicada pela decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de tornar inválida a Lei da Ficha Limpa nas eleições de 2010, segundo cálculos feitos pelo Estado.

Os petistas Luci Choinaki (SC), Professora Marcivânia (AP) e Ságuas Moraes (MT) devem ser substituídos, respectivamente, por João Alberto Pizzolatti (PP-SC), Janete Capiberibe (PSB-AP) e Nilson Aparecido Leitão (PSDB-MT).


No caso de Mato Grosso, a dança das cadeiras entre um petista e um tucano se dará por causa da validação de meros 2.098 votos de um terceiro candidato, o ex-policial militar Willian Dias (PTB), condenado em 2005, em segunda instância, pelo homicídio de dois menores.


Em Santa Catarina, a validação dos 133 mil votos de Pizzolatti fará com que as vagas conquistadas por sua coligação aumentem de duas para três. No jogo de perde e ganha, o prejudicado será o PT, cujo número de cadeiras cairá de quatro para três.


No Amapá, a troca de lugares se dará no interior da mesma coligação: Marcivânia cairá para a primeira suplência porque não mais serão considerados nulos os 28 mil votos da mulher de João Capiberibe (PSB) - que também assumirá uma vaga no Senado graças à decisão do STF.


O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ainda não recalculou o número de votos válidos da eleição. Vários candidatos barrados com base na Lei da Ficha Limpa concorreram após obter recursos na Justiça. Seus votos foram considerados nulos, mas agora terão de ser contabilizados. É pouco provável que isso altere bancadas de outros Estados.


O Estado recalculou o coeficiente eleitoral da disputa pela Câmara nas 27 unidades da federação com base em dados do TSE e do site Congresso em Foco, que publicou relação nacional de políticos barrados pela Lei da Ficha Limpa. Os dados foram checados pela rede de correspondentes do jornal.


Volta dos fichas-sujas. Além de dar vagas a novos parlamentares, o Supremo, com a decisão do julgamento de quarta-feira, garantiu o mandato de candidatos considerados "fichas-sujas" que já haviam sido empossados na Câmara beneficiados por recursos na Justiça e decisões liminares. Entre eles estão Natan Donadon (PMDB-RO), Pedro Henry (PP-MT), José Augusto Maia (PTB-PE) e Manoel Salviano (PSDB-CE).


São Paulo


Os paulistas Paulo Maluf e Beto Mansur, ambos do PP, inicialmente haviam sido enquadrados nas restrições da Ficha Limpa, mas acabaram eleitos e empossados graças a decisões judiciais posteriores. Maluf reverteu em dezembro de 2010 uma condenação no TJ-SP. Ele teve 497.203 votos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

AE / Portal do Holanda

Nossa mídia não perde tempo. Veja o caso do Irã.





DO BLOG DO ZE DIRCEU
Nossa mídia não perde uma oportunidade. No caso do voto ... Nossa mídia não perde uma oportunidade. No caso do voto brasileiro no Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre o Irã, tentaram criar a imagem de que Lula e Dilma se distanciam e que o Governo Dilma mudou nossa política externa. Lula não só apoia a decisão do governo no CDH, como ainda fez ironia, quando perguntado sobre o voto do Brasil a favor do relator especial, de fiscalização.

“Achei importante. Veja bem: votar para que haja fiscalização, o Brasil votou corretamente”, afirmou Lula, que foi indagado sobre o motivo de o Brasil não ter se posicionado contra o Irã antes, em seu governo, ao que respondeu: “Porque não houve votação, a votação só foi agora. Por que você não fez essa pergunta antes? Porque só pode fazer agora.”

PT é o alvo de proposta para fim da reeleição,diz Dirceu


São Paulo - O ex-ministro José Dirceu conclamou militantes e líderes do PT a se mobilizarem para barrar a proposta que põe fim ao estatuto da reeleição. Na opinião do líder petista, o principal alvo da proposta, já aprovada na Comissão de Reforma Política do Senado, é o partido. "Eles querem acabar com a reeleição porque esse é o momento do nosso ciclo histórico", disse. "Vamos deixar de ser ingênuos. Nós é que temos iniciativa, hegemonia, ofensiva para poder nos reeleger", afirmou, ainda, em seminário realizado hoje pelo PT para discutir reforma política.

Segundo Dirceu, aplaudido três vezes durante sua intervenção no debate, o PT também deve se mobilizar contra qualquer iniciativa destinada a por fim ao voto obrigatório - uma vez que a medida prejudicaria sobretudo o eleitorado mais próximo do petismo. Para ele, o fim da reeleição não vai reduzir os problemas de corrupção e de uso da máquina política nas eleições. "Alguém acha, em sã consciência, que vai acabar o uso da máquina a favor deste ou daquele porque vai acabar a reeleição? Se o Serra for candidato em 2014 e não o Alckmin, não vai se usar a máquina? Não tem nada a ver."


Para o ex-chefe da Casa Civil e coordenador da campanha vitoriosa de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, o PT tende a ser o partido mais beneficiado a com a reforma, por causa de sua estrutura partidária, pela base que possui e pela própria história. Para que isso ocorra, porém, é preciso fazer alianças com partidos próximos e movimentos sociais. "Não vamos ter ilusões", disse. "O PSDB e o PMDB vão caminhar juntos na reforma política."

O líder do governo na Câmara, deputado Cândido Vacarezza (SP), observou que o quadro em relação à reforma ainda é de incertezas. "Existe o risco real de ocorrer uma piora no sistema eleitoral, caso seja aprovado o voto distrital, assim como não se descarta a possibilidade de, após muita discussão, não se mudar nada", afirmou.


Vacarezza também destacou que as principais teses do partido no debate serão o fortalecimento dos partidos, o financiamento público de campanhas eleitorais, o voto em lista e o fim das coligações proporcionais.

AE / Portal do Holanda

Rio de Janeiro recebe exposição de Fernando Pessoa






Cultura
Paulo Virgilio
Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro - Entre agosto de 2010 e fevereiro deste ano, mais de 190 mil pessoas foram ao Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, para visitar a exposição Fernando Pessoa, Plural como o Universo. Agora, a mostra que celebra a obra de um dos maiores poetas da língua portuguesa chega ao público carioca, no Centro Cultural Correios, onde pode ser vista até 22 de maio, com entrada franca.

Com curadoria de Carlos Felipe Moisés e Richard Zenith e cenografia do premiado Hélio Eichbauer, a exposição conduz o visitante a uma viagem sensorial pelo universo de Pessoa e de seus heterônimos mais conhecidos, criações do poeta que tinham identidade própria: Alberto Caeiro, o poeta da natureza; Ricardo Reis, médico e discípulo de Caeiro; Álvaro de Campos, engenheiro de educação inglesa e origem portuguesa, e Bernardo Soares, do Livro do Desassossego.

A preocupação dos curadores foi a de tornar a exposição atraente mesmo para os que não têm um conhecimento prévio da obra do poeta. “Nosso propósito básico é levar Fernando Pessoa à vida do cidadão que não o conhece, e que, portanto, encontrará uma linguagem acessível”, afirma Carlos Felipe Moisés. Ele ressalta, no entanto, que aqueles já familiarizados com o universo do poeta terão na mostra a chance de descobrir aspectos e conceitos novos. “A convivência com a obra de Pessoa deve ser feita em etapas, para melhor assimilá-la”.

O projeto cenográfico de Hélio Eichbauer, inspirado em um dos livros do poeta, Mensagem, tem como identidade visual o mar e os diferentes tons de azul da água e do céu, o que remete à época dos Descobrimentos e das grandes conquistas de Portugal. “A ideia é sugerir viagens mentais e espirituais, em torno das ruas de Lisboa, das aventuras dos heterônimos e do próprio Fernando Pessoa”, diz o cenógrafo.

Ainda como parte da concepção cenográfica, há um grande pêndulo representando o tempo. Ao lado dele, trechos de poemas são projetados e apagados pelo mar em tanques virtuais de areia. Ao fundo, como se fossem duas janelas, são projetados dois vídeos, um deles mostrando pessoas, em meio a uma multidão, recitando Pessoa.

Também fazem parte da mostra algumas relíquias bibliográficas, como a primeira edição do livro Mensagem, o único publicado em vida por Fernando Pessoa, e os primeiros números da revista Orpheu, marco do modernismo em Portugal.

A exposição é uma realização da Fundação Roberto Marinho, com patrocínio de empresas privadas do Brasil e de Portugal e apoio de vários órgãos públicos, entre eles o Ministério da Cultura.

A visitação pode ser feita de terça-feira a domingo, das 12h às 19h. O Centro Cultural Correios fica na Rua Visconde de Itaboraí, 20, no centro do Rio.

Show da banda Restart no Amazonas é cancelado após declaração ofensiva do baterista




RIO - A banda Restart, uma das mais populares entre os adolescentes no Brasil, teve cancelada uma apresentação marcada para a próxima sexta-feira (01/04) em Manaus, depois de declarações desrespeitosas do baterista Thomas sobre o estado e a população do Amazonas.

RIO - A banda Restart, uma das mais populares entre os adolescentes no Brasil, teve cancelada uma apresentação marcada para a próxima sexta-feira (01/04) em Manaus, depois de declarações desrespeitosas do baterista Thomas sobre o estado e a população do Amazonas. O cancelamento foi a solução encontrada pelos promotores do show diante das manifestações publicadas nas redes sociais sobre o comentário do baterista durante entrevista para o videochat do programa "Vídeo Show", da TV Globo. "Eu queria muito tocar no Amazonas. Imagina você tocar no meio do mato. Não sei como é o público de lá, não sei nem se tem gente, civilização", disse o músico, em resposta a um fã sobre em que lugares a banda gostaria de tocar.

Eu queria muito tocar no Amazonas. Imagina você tocar no meio do mato. Não sei como é o público de lá, não sei nem se tem gente, civilização

Nesta sexta-feira, a MegaEventos, promotora do show, emitiu nota em que explica o cancelamento - segundo os promotores, o teor dos protestos na internet os levaram a temer pela segurança do Restart. "A produtora e a casa de shows decidiram atender ao clamor público, especialmente dos internautas, que vêm utilizando as redes sociais da internet para organizar manifestações e divulgar possíveis atos que poderiam colocar em risco a INTEGRIDADE FÍSICA dos artistas e do seu público, formado em sua maioria por crianças e adolescentes", diz a nota, divulgada no site da produtora Mega Eventos, responsável pelo show que aconteceria na casa de shows Studio 5. No texto, a empresa se descreve como "genuinamente amazonense" e diz que o cancelamento ocorreu "por razões de ordem pública".

De acordo com a empresa de eventos, quem comprou ingresso antecipado para o show poderá receber o reembolso apresentando os tíquetes nos pontos de vendas onde foram adquiridos, a partir do dia 29 de março de 2011 (terça-feira), no horário comercial.

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"Choupo" de Monet pode ser arrematado por US$25 mi em leilão




NOVA YORK (Reuters Life!) - Uma obra-prima de Monet da célebre série "Peupliers" ("Choupos") do artista será posta em leilão pela Christie's em maio, com a expectativa de ser vendida por até 30 milhões de dólares, anunciou a casa de leilões nesta sexta-feira.

"Les Peupliers", a maior das famosas telas de Monet que retratam choupos, executada durante os anos que o pintor passou em Giverny, será posto à venda por um colecionador asiático que a adquiriu em um leilão em 2000 por pouco mais de 7 milhões de dólares.

Após uma queda grande em seguida à crise financeira que atingiu o mundo no final de 2008, o mercado de arte voltou a crescer no ano passado, com obras superando o marco de 100 milhões de dólares, recordes de artistas quebrados e as casas de leilão voltando a lucrar.

Conor Jordan, diretor de arte impressionista e moderna da Christie's, disse que "é a primeira vez em mais de uma década que uma tela importante da série dos anos 1890 chega a um leilão".

"Prevemos grande entusiasmo de muitos colecionadores, marchands e diretores de museus que estão ansiosos por uma cena de Monet que mostra a quintessência de sua arte, como esta."

Os preços das maiores obras de Monet vêm subindo muito nas temporadas recentes, segundo a Christie's. A oferta cada vez menor de obras-primas, a recuperação dos mercados, que liberou liquidez, e a confiança crescente nas belas-artes como investimento, tudo isso vem aquecendo o mercado cada vez mais.

O recorde fixado para um trabalho de Monet em um leilão foi 80,4 milhões de dólares, valor pago em maio de 2008 por "Le Bassin aux Nympheas", da renomada série Ninféias, do artista.

A maioria das 24 telas da série "Peupliers" está em grandes museus de arte do mundo, incluindo a Tate Gallery de Londres, o Museu de Arte de Filadélfia e o Museu Nacional de Arte de Tóquio.

"Les Peupliers" será vendido em Nova York em 4 de maio, depois de ser exposto em Moscou e Londres em abril.

Monet pintou a tela no verão de 1891, depois de fechar um acordo com um lenhador para não derrubar um bosque de choupos na margem do rio perto de sua casa enquanto ele não tivesse conseguido terminar de pintá-los.

Radiação aumenta em água do mar perto da usina de Fukushima


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Por Chizu Nomiyama e Shinichi Saoshiro | Reuters




TÓQUIO (Reuters) - Os níveis de radioatividade da água do mar estão aumentando perto da usina de Fukushima Daiichi, afirmou neste sábado a agência de segurança nuclear do Japão, duas semanas depois de a instalação ter sido atingida por um grande terremoto e um subsequente tsunami.

Mesmo enquanto engenheiros tentavam bombear água radiativa da usina, localizada 240 quilômetros ao norte de Tóquio, a agência nuclear disse que testes realizados na sexta-feira mostraram que o iodo radioativo subiu 1.250 vezes acima do normal na água do mar ao lado da usina.

Autoridades disseram que os níveis de iodo-131 na água do mar a 30 quilômetros da usina estavam dentro de limites aceitáveis estabelecidos e que a contaminação não causava significativo risco para a vida marinha.

"As correntes do oceano vão dispersar as partículas de radiação e então ela ficará muito diluída quando for consumida por peixes e algas marinhas", afirmou Hidehiko Nishiyama, autoridade da Agência de Segurança Nuclear e Industrial do Japão.

Apesar dessa previsão, a situação pode muito bem elevar a preocupação internacional sobre as exportações de frutos do mar japoneses. Vários países já proibiram o leite e as produtos das regiões ao redor da usina de Fukushima Daiichi, enquanto outros estão monitorando os frutos do mar japoneses.

Os esforços prolongados para evitar um catastrófico derretimento do reator na usina elevaram as preocupações sobre energia nuclear em todo o mundo. O secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Ban Ki-moon, afirmou que é hora de reavaliar o regime internacional de segurança atômica.

Água radioativa foi encontrada nos prédios que abrigam três dos seis reatores da usina. Na quinta-feira, três funcionários tiveram queimaduras no reator 3 após serem expostos a níveis de radiação 10 mil vezes maiores do que o normal.

A crise na usina nuclear tem ofuscado os grandes esforços de ajuda humanitária e reconstrução do Japão após o terremoto de magnitude 9.0 e o grande tsunami que ele causou no dia 11 de março, deixando mais de 27.500 pessoas mortas ou desaparecidas no nordeste da nação.

O Departamento Norte-Americano de Energia disse em seu website (http://blog.energy.gov/content/situation-japan/) que não houve surgimento de quantidades significativas de materiais radiológicos nas áreas ao redor da usina desde 19 de março, de acordo com testes feitos na sexta-feira.

Nishiyama afirmou que as agências japonesas estavam tentando obter meios para "escoar com segurança a água para que ela não vá para o ambiente, e estamos tocando os preparativos".

Ele inicialmente havia dito que os altos níveis de radiação no reator 3, onde os funcionários ficaram feridos, poderiam indicar dano ao reator. Depois, afirmou que a medição pode ter vindo das operações de ventilação para amenizar a pressão ou do vazamento de água dos canos e válvulas.

O reator número 3 é o único dos seis que usa uma mistura combustível de plutônio e urânio. O plutônio é o isótopo radioativo mais letal.

Mais de 700 engenheiros estão trabalhando em turnos para estabilizar a usina, e os esforços estão avançando para o bombeamento de água que resfriaria os bastões de combustível.

Dois dos reatores da usina estão agora sendo considerados seguros, mas os outros quatro estão instáveis, ocasionalmente emitindo vapor e fumaça. Contudo, a agência de segurança nuclear disse neste sábado que a temperatura e a pressão em todos os reatores se estabilizaram.

(Reportagem adicional de Kazunori Takada, Kiyoshi Takenaka e Phil Smith em Tóquio, Chisa Fujioka em Yamagata, Jon Herskovitz em Kamaishi e Scott DiSavino em Nova York)
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Vítimas de escravidão infantil estão aprendendo a reagir





Dialika Krahe

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Crianças nepalesas se vestem com trajes tradicionais no desfile de Ano Novo em Katmandú, no ano de 2009

Assim como muitas meninas nepalesas de famílias pobres, Urmila Chaudhary foi vendida e trabalhou como escrava até ter sido capaz de libertar-se. Hoje com 20 anos de idade, ela trabalha com uma equipe de ex-vítimas, viajando pelo Nepal para libertar outras meninas das garras dos seus escravizadores.

O homem que comprou Urmila encontra-se na zona de transição psicológica entre a vida antiga e a nova da moça. Ele tira um pedaço de tabaco de mascar dos dentes e cospe uma saliva preta em um balde próximo a si na sala de estar. Urmila Chaudhary, que não é mais uma propriedade dele há quatro anos, ajoelha-se no carpete aos pés do homem e lhe entrega uma bandeja com um copo de chá adoçado.

Ela deveria odiar, amaldiçoar e condenar esse homem. Mas, em vez disso, ela faz uma mesura para ele e o chama de “pai”.

Urmila foi retirada da sua família e transformada em escrava quando era criança. Agora, aos 20 anos de idade, ela tem cabelos longos e negros e uma risada gentil e melodiosa. Ela usa brincos com “smiley faces” azuis e uma saia colorida com uma listra vermelha na bainha, a vestimenta tradicional das mulheres pertencentes à etnia tharu, do Nepal. A roupa dela diz muita coisa sobre a história de Urmila e deste homem – e a respeito das milhares de outras garotas que são vendidas todos os anos assim que atinjam uma altura suficiente para olharem por sobre a borda de uma mesa, mas ainda sejam suficientemente novas para se adaptarem aos seus novos papéis de criadas.

O seu ex-dono usa o cabelo negro cuidadosamente repartido, uma jaqueta larga e calça de moletom. Ele ficou perplexo ao ver Urmila na televisão e em uma foto de jornal que a mostrava de pé ao lado do presidente do país.
“Eu achei que você nos esqueceria”, diz ele.

“Não”, responde Urmila.

Vendida por 50 euros

Urmila conta que tinha cinco anos de idade quando este homem, um juiz de uma família respeitada, foi até à vila dela em Manpur, às margens do Rio Rapti, e fez uma oferta que acabou com a sua infância.

Era um dia de janeiro, pouco depois do início do festival Maghi, um daqueles dias frios do ano quando os tharus comemoram o Ano Novo. E era também aquela época do ano em que eles costumam vender as suas filhas.

“Eu ainda consigo vê-lo vindo até nós”, diz Urmila. Ele era um homem da cidade, que usava óculos escuros e terno. “Eu nunca tinha visto aquele tipo de roupa antes”, diz ela. Ela estava sentada à beira de uma fogueira em frente à pequena casa de barro onde a sua família de 11 pessoas morava. Abóboras cresciam no telhado de palha, e porcos ficavam deitados em valas rasas no solo. Urmila estava sentada lá com a mãe e um irmão quando o homem se aproximou.

“Eu sabia que a minha vez tinha chegado”, diz Urmila. As suas irmãs e cunhadas haviam todas trabalhado como kamalaris, ou meninas escravas. Uma das suas irmãs tinha lhe falado sobre os espancamentos a que fora submetida pelo fazendeiro que a comprou e sobre como era alimentada com restos de comida. “Eu implorei à minha mãe que não me mandasse embora”, recorda-se Urmila. A sua mãe lhe disse que nada poderia fazer em relação a isso.

O homem conversou com o irmão mais velho de Urmila, porque era ele que sustentava a família. O forasteiro ofereceu ao irmão de Urmila 4.000 rupias, ou cerca de 50 euros (US$ 70, R$ 116) por ela. A família devia dinheiro ao fazendeiro em cujas terras ela trabalhava, não havia comida suficiente para todos e as crianças usavam sapatos feitos com um tipo de vagem costurada com pedaços de corda. Quatro mil rupias. Era muito dinheiro. O irmão de Urmila aceitou a proposta e fechou o negócio.

Milhões de crianças escravas em todo o mundo

Na língua nepali, a palavra kamalari significa “mulher que trabalha duro”. Mas essas não são mulheres que são vendidas e obrigadas a trabalhar; são crianças de cinco a 15 anos de idade, meninas de braços finos que são obrigadas a trabalhar de 14 a 16 horas por dia em casas de família, a mercê dos seus senhores e sujeitas aos seus humores e aos espancamentos. Cerca de uma em cada dez dessas meninas sofre abusos sexuais.

As organizações de ajuda humanitária calculam que 10 mil meninas trabalhem como kamalaris no Nepal. Já em 1956, a Organização das Nações Unidas declarou que todas as formas de trabalho infantil e trabalho por dívidas se constituíam em escravidão e, portanto, deveriam ser proibidas. No entanto, embora o tráfico humano seja considerado oficialmente ilegal em todos os países há muito tempo, ele ainda existe em um grau significativo em cerca de 70 nações. De fato, cerca de 27 milhões de pessoas em todo o mundo são vítimas da escravidão moderna – vivendo em regime de trabalho por dívidas ou sendo obrigadas a praticar a prostituição. Entre 40% e 50% dessas pessoas são crianças, e muitas são da Ásia.

Em muitos países pobres, existe uma tradição de usar crianças escravas em casas de família. As crianças são uma opção prática porque as suas personalidades são flexíveis e tão maleáveis quanto argila nas mãos de um escultor. As crianças escravas são conhecidas por vários nomes: as kamalaris, no Nepal; as restavéks, no Haiti, e as abds, na Mauritânia.

O princípio básico é quase o mesmo em todos os lugares. De um lado estão os pais, que são incapazes de ganhar dinheiro suficiente para alimentar os seus filhos. Do outro estão os membros mais afluentes da sociedade, os fazendeiros e empresários. Em diversos casos, as pessoas que compram crianças e as criam para atender aos seus objetivos são professores, advogados e políticos. As crianças escravas são recompensadas com afeição ou refeições extras, e as punições consistem em privá-las de comida, espancá-las e brigar com elas. No fim das contas, elas não têm escolha a não ser fazer o trabalho sem reclamar.

Comprada para servir de presente

Urmila estava na mesma situação da maioria das outras crianças escravas. “Lá embaixo”, diz ela, apontando para uma porta no primeiro andar de um sobrado amarelo. “É lá embaixo que fica o quarto perto da cozinha onde eu passei a minha primeira noite”. O irmão dela a levou de ônibus a Ghorahi, uma cidade barulhenta no sudoeste do Nepal. Com os seus carros e riquixás, o lugar era totalmente diferente da vila de Manpur. Urmila ficou deitada em um colchonete no chão, perto de outra garota que o dono da casa havia comprado. Fazia frio. Uma festa de casamento estava ocorrendo na casa. O filho do fazendeiro tinha encontrado uma esposa, e havia muitos parentes entre os convidados, incluindo a filha do dono. Ela morava em Katmandu, e Urmila foi comprada como um presente para ela.

“Ela é tão magra e baixa”, disse a filha do fazendeiro na primeira vez que viu Urmila. “Como é que ela vai trabalhar do jeito certo?”. Daí por diante, Urmila foi instruída a chamar a filha do fazendeiro de “maharani”, ou senhora, e os filhos dela de “príncipe” e “princesa”.

Poucos dias depois, a filha do fazendeiro levou Urmila consigo para um apartamento em Katmandu, onde ela foi obrigada a trabalhar para 12 pessoas. Ela só veria os pais novamente quatro anos depois, e 11 anos se passariam até que ela se visse livre.
Enfrentando o passado

Neste dia no início de fevereiro, 15 anos após ter sido vendida, Urmila retornou para visitar o homem que a privou da sua infância. Urmila veio para desejar a ele um feliz aniversário, mas ela veio também para pedir a ele os pagamentos que deveria receber por mais de uma década de trabalhos árduos. Ela deseja 20 mil rupias, ou 200 euros (R$ 470) do homem.

Mas as palavras que, para ela, são normalmente fáceis de dizer – as palavras corajosas que a tornaram famosa no seu país, as palavras que fizeram dela uma líder das meninas escravas – estão agora presas na sua garganta. Ela olha para o chão e a sua voz é fraca, como se o homem tivesse recuperado a sua propriedade, e como se a mera presença dele fosse suficiente para privá-la da sua coragem.

Quando lhe perguntam qual é o motivo disso, Urmila encolhe os ombros. “Tenho medo de ofendê-lo”, diz ela, que sai da casa sem ter pedido o dinheiro. “Esta é uma família influente”, explica Urmila. “Quem sabe o que poderá acontecer se eu enfurecer essa gente”.

Escravidão ou fome

Existe uma longa tradição de repressão dos tharus, uma das castas mais baixas do Nepal, um país predominantemente hindu. Essa tradição é passada de uma geração para outra. Os tharus vivem em Terai, uma região de terras férteis perto da fronteira com a Índia.

No passado eles eram donos das terras mas, na década de cinquenta, pessoas das regiões montanhosas começaram a instalar-se na área. Eles passaram a tomar as terras dos tharus e a transformá-los em servos. Como o comportamento submisso é profundamente enraizado entre os tharus, eles não resistiram.

O pai de Urmila também foi propriedade de um fazendeiro durante a vida inteira. Quando lhe perguntam por que abriu mão da filha, ele diz apenas que era assim que as coisas funcionavam na época.

O pai está agachado no terreno em frente à sua casa. A mãe de Urmila, sentada ao lado dele, usa folhas que coletou na floresta para fazer pratos para o almoço. “Nós éramos escravos; escravos sem instrução”, diz o pai, um homem de pele bronzeada que usa óculos de sol pretos.

Os seus netos brincam pelo terreno à sua volta enquanto patos ciscam o chão. Ele fala com uma voz lenta e rouca. “Nós tínhamos que cultivar os campos para obtermos alguns sacos de arroz por ano”, diz ele. “Plantando, arando e colhendo”. Para ganhar um dinheiro extra, os homens mandavam a suas mulheres e filhas para a casa do dono da terra e para as casas de outros homens ricos.

“Os donos das terras nos chantagearam”, diz o pai. “Eles nos disseram que não conseguiríamos comida se não déssemos as nossas filhas”. Ele diz que os seus filhos – três meninas e três meninos – passavam fome.

Libertadas de uma situação ruim para caírem em uma pior

Enquanto conta a sua história, o homem mal olha para Urmila. Os pais lhe dão a bênção, conforme o costume local, sempre que ela vem visitá-los na vila. Mas não há abraços nem sorrisos.

“Às vezes eu fico furiosa com eles”, diz Urmila. “E então, eu pergunto: por que vocês fizeram isso comigo?”. Mas ela já conhece a resposta. “O que mais nós poderíamos ter feito?”. É a mesma desculpa que todos os país dão.

Realmente, muitos deles nunca ouviram falar de algo como a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, da Organização das Nações Unidas, que declara que as crianças têm o direito à educação, ao descanso e ao lazer, a participarem de brincadeiras e recreações, e a uma moradia segura.

No Nepal, o trabalho escravo só foi abolido em 2000. Isso significa que os tharus estão livres e não são mais obrigados a trabalhar nos campos agrícolas dos proprietários de terras. Mas isso significa também que eles perderam as suas fontes de renda. Sem campos agrícolas, não há arroz. Desde então, as filhas vendidas durante o festival Maghi têm se constituído na única fonte confiável de renda para muitas famílias. Quando tudo dá certo, uma família recebe uma boa soma de dinheiro, e as meninas simplesmente desaparecem, indo para uma outra cidade.

As que não têm sorte são obrigadas a trabalhar em uma família por tanto tempo que acabam se tornando incapazes de fazer qualquer coisa sem que alguém as oriente. As de mais sorte acabam em algum lugar como o albergue em Narti.

Vítimas ajudando vítimas

Mais de cem meninas moram em um albergue, que consiste de algumas casas simples com cortinas verdes e azuis. O reboco nas paredes está se desfazendo e à noite faz frio. Mas lá dentro há fileiras de camas de armar azuis, e cada menina tem a sua própria cama. O albergue transformou-se em uma casa para as meninas. Urmila também morou durante algum tempo no albergue.

A tarde está acabando e o sol poente emite um brilho alaranjado enquanto as mais de cem ex-escravas infantis caminham usando sandálias de dedo no pátio poeirento do albergue, cochichando e rindo entre elas. Elas estão usando uniformes escolares e camisas coloridas chamadas kurtas. Algumas estão usando as saias de bainhas vermelhas que as identificam como tharus. Elas fazem fila e caminham pelo pátio com os punhos erguidos e gritando: “Abaixo o trabalho infantil! Abaixo o sistema kamalari!”. A mais nova das meninas tem apenas quatro anos de idade.

O albergue faz parte do Projeto de Abolição do Kamalari. Verbas para o projeto são fornecidas pela organização de auxílio internacional Plan, que obtém uma grande porcentagem das suas doações da Alemanha. Assistentes sociais das organizações locais de ajuda humanitária se aliam a ex-crianças escravas para tentar libertar outras meninas da situação de servidão. Aquelas que não são capazes de retornar para suas famílias recebem uma cama em Narti.

Os funcionários da organização matriculam as garotas em escolas ou em programas de treinamento vocacional para costureiras ou vendedoras, e outras abrem pequenos restaurantes. O projeto inclui também as várias equipes de garotas que organizam campanhas de libertação nas vilas tharus. Elas marcham pelas ruas, fazem manifestações em frente a casas, distribuem panfletos, escrevem cartas e irritam proprietários de terras e pais. Quando nada disso surte efeito, elas obrigam os fazendeiros a libertar as meninas, ameaçando-os com processos na justiça. Urmila já utilizou essas técnicas para libertar várias dezenas de meninas. Ela foi eleita presidente das equipes de garotas no seu distrito, chamado Dang. As ex-crianças escravas e os trabalhadores de ajuda humanitária libertaram 1.758 garotas desde que o projeto teve início.

A garota escrava silenciosa

No momento, as mulheres estão marchando pela rua, obrigando homens de bicicleta e mulheres que guiam as suas cabras a ir para as margens das ruas, onde ficam observando parados, fazendo com que os motoristas de ônibus buzinem e com que as crianças sigam atrás delas. “Atenção, proprietários de terras”, gritam as meninas. “Quem mantiver o sistema kamalari será punido!”. Elas estão finalmente gritando aquilo que foram proibidas de dizer durante as suas vidas inteiras.

Em uma das primeiras filas da passeata está uma garota pequena chamada Rami, que mal pode acreditar no que está acontecendo. Rami chegou à casa das meninas libertadas há apenas duas semanas. A situação por que passou pode ser vista nas suas roupas, que ainda estão cobertas da sujeira que caracterizava a sua vida antiga, e nos piolhos nos seus cabelos negros. E também na forma como ela observa as coisas com os seus olhos penetrantes, sem saber direito se deve se sentir muito alegre ou temerosa.

Rami tem nove anos de idade. Ela vem de uma vila próxima à pequena cidade de Lamahi, onde o seu pai, a mulher dele e três outras crianças moram em um único quarto escuro. Ele é dono de um carneiro, alguns patos e uns poucos sacos de arroz e lentilhas. A sua filha mais velha é uma criança escrava em Katmandu. Ele recebe cerca de 30 euros (R$ 70) por ano pelo trabalho dela. Ele recebia ainda menos por Rami.

Mais tarde, Rami senta-se em uma pedra fria em frente ao albergue; uma garota tímida com olhos amendoados. Após passar três anos na casa de um homem velho, ela foi libertada por uma das equipes de garotas em 13 de janeiro. Rami olha para o céu, vasculhando a memória. “Não”, diz ela. “Eu não me recordo de como fui parar na casa dele”.

Rami tinha seis anos de idade quando começou a trabalhar para o homem. “Eu tinha que esfregar o chão, lavar panelas e roupas”, conta ela. “Eles me batiam quando eu não fazia o trabalho direito”.

Ainda que o seu pai morasse bem perto, ela quase nunca tinha permissão para deixar a casa em que trabalhava. Rami fala sobre os longos dias de trabalho, sobre como tinha saudade dos irmãos, de como tinha medo de fazer algo de errado e de como às vezes passava fome. “O dono da casa de vez em quando me deixava assistir um pouco a televisão”, diz ela. Esses eram os seus melhores dias.

O ex-senhor que não se arrepende

Não é difícil encontrar o ex-senhor de Rami. A sua casa, na entrada da vila, é facilmente reconhecida pelos tijolos, que são mais fortes do que o barro das cabanas em que vivem os tharus. Ela também se destaca pelo tamanho e pelos campos agrícolas atrás de si. “Ela não tinha que trabalhar muito”, diz o homem. “Eu a tratava como se ela fosse a minha neta”.

O homem de 84 anos de idade está sentado em uma armação de cama na sala de visitas da casa. Ele traz um cobertor sobre os ombros e um xale sobre a cabeça para se proteger do frio. “Devo ter tido uma 50 garotas como essa durante a minha vida”, diz ele. O seu nome é Prem Bahadur Dangi, e ele é um bahum, um membro da casta mais alta. “Eu tenho sete casas”, grita ele. O homem não escuta bem.

Dangi diz que a sua família sempre usou tharus como trabalhadores de dívidas. “Como é que eu poderia ter feito isso tudo? Os campos, as casas?”, pergunta ele. “Eu mesmo trabalhei muito”, alega ele, mostrando as mãos calosas.

A seguir ele sobe uma escada estreita que leva a alguns quartos e a uma cozinha aberta com uma vista para a sua terra, que ainda está coberta pela neblina da manhã. “Aqui”, diz ele, apontando para um quarto pouco iluminado no qual há duas camas de madeira. “Era aqui que ela dormia”. No entanto, ele não está se referindo às camas. Ele se refere a um espaço no assoalho ao pé de uma das camas. Ele e a sua mulher dormem nas camas.

Dangi ri e diz. “Nós a chamávamos de Lati”, diz ele. “A silenciosa, porque ela não falava nada. Não, eu não sei o nome real dela”, diz o homem quando lhe perguntam sobre a menina que trabalhou para ele durante três anos.

As meninas que desejavam libertar Rami apareceram à porta de Dang duas semanas atrás. Não foi a primeira vez que elas vieram até a casa dele. Elas disseram a ao homem aquilo que ele já sabia: que o trabalho infantil é ilegal e que Rami deveria estar frequentando a escola.

“Por que eu deveria ter um peso na consciência?”, questiona Dangi. “Eu a ajudei ao deixá-la trabalhar para mim”. Na verdade, observa o homem, ele estava fazendo um favor à família inteira. Como presente de partida, o velho deu a Rami 30 rupias – ou cerca de três centavos de euro.

Mulher cruel

Urmila está livre há quatro anos. Ela vive em um quarto em Lamahi, uma pequena cidade que não fica distante da sua antiga vila. Todos os dias, ela acorda às 5h para estudar e aprender um novo vocabulário. A aproximadamente 9h, ela veste o uniforme escolar, uma saia cinza com dobras, e arruma a gravata. Aos 20 anos de idade, ela é a mais velha da sua classe, e ainda assim está atrasada em muitas matérias. “Isso me deixa furiosa”, diz ela. “O fato de eles sempre terem me prometido que me mandariam para a escola e de eu ter descoberto, no final, que era tudo mentira”.

No final da tarde, ela caminha da escola para casa e muda de roupa. A seguir, ela pega o ônibus para Narti para visitar as meninas no albergue ou vai às vilas para passar algum tempo com as equipes de garotas. Ela as ajuda a decorar as palavras para peças teatrais e campanhas, manifestações e iniciativas para a libertação de outras meninas. Elas mantêm registros de garotas que desapareceram, escrevendo os nomes delas e tentando rastreá-las, mesmo se elas já tiverem sido levadas para outras cidades.

Antes de ter sido libertada, Urmila trabalhou para uma política, uma mulher rica e influente, a irmã do homem que a comprou. Depois de trabalhar para a irmã do homem por alguns anos, ela foi passada para essa mulher. Urmila a chama de a “Mulher Cruel”. A mulher trancou Urmila na sua casa em Katmandu durante anos; ela não tinha permissão sequer para sair sozinha à rua para comprar leite. Ela tinha que cozinhar, fazer faxina e servir as refeições, entre outras tarefas.

“Eu também tinha que fazer massagem nela”, diz Urmila com um sorriso triste. “Todos os dias, na parte anterior e posterior do corpo”. Ela conta que achava essa tarefa repugnante.

A política finalmente a deixou ir embora quando ela fez 16 anos. Urmila tinha começado a fazer perguntas como: Quando eu voltarei para casa? Quando verei a minha família? Ela tinha agora uma idade em que era possível se casar, um momento no qual o contrato kamalari é normalmente dissolvido. Ela também ouviu falar no projeto de resgate de meninas e descobriu que havia pessoas que a ajudariam.

Novas leis geram poucas mudanças

Quando retornou de Katmandu para casa após 11 anos, Urmila começou a frequentar a escola pela primeira vez na vida – aos 16 anos de idade. Urmila aprendeu rapidamente “o ABC” bem como “a somar, a diminuir e a multiplicar”. Os seus lábios se dobram em um sorriso quando ela fala a respeito disso. As suas professoras e os funcionários da organização de auxílio humanitário logo perceberam que Urmila não era como as outras garotas. Ela tinha confiança e desejava falar sobre os seus sentimentos e o seu passado. Não demorou muito para que Urmila fosse escolhida para liderar uma equipe de garotas. E quando 600 garotas usando saias tharus viajaram para Katmandu, a capital do país, foi Urmila que falou em nome delas para o presidente do Nepal. “Eu não estava de fato muito nervosa”, diz ela. “Afinal de contas, eu tinha algo de importante a dizer a ele”.

Pouco depois, o governo nepalês anunciou o seu plano para o fornecimento de 1,2 milhão de euros (R$ 2,8 milhões) para financiar o treinamento e a reintegração das garotas libertadas. Só recentemente o Ministério da Mulher, da Criança e do Bem-Estar Social aprovou uma legislação delineando as políticas governamentais para a proteção à infância, que proíbe a prática do kamalari. Dang, o distrito em que Urmila morava, foi agora declarado uma zona livre do kalamari. A organização de auxílio humanitário colocou placas em vários locais para informar aos moradores de quase todas as vilas sobre as mudanças.

Entretanto, meninas continuam a ser vendidas em outros distritos. Embora seja crime possuir crianças escravas, as leis não têm força, e praticamente ninguém é preso ou multado.

Isso ocorre em parte porque, tendo apenas recentemente emergido de uma década de guerra civil, o país é atualmente administrado por um governo mais ou menos ineficiente. De fato, o Nepal ainda está em um processo de transição de uma monarquia para uma república. Os maoistas, que desejam integrar os seus ex-combatentes ao exército e à polícia, são a força política mais forte. As eleições fracassaram diversas vezes, e as autoridades eleitas estão constantemente renunciando aos seus cargos. Após 16 tentativas fracassadas, um novo primeiro-ministro foi eleito, um homem do Partido Comunista do Nepal (Partido Marxista-leninista Unificado). Algumas semanas atrás, Urmila viajou para Kailali para liderar uma grande manifestação, ainda que estivesse em meio às suas provas finais da oitava série. Ela escreveu um livro, “Criança Escrava”, em colaboração com um autor alemão. O livro acaba de ser publicado na Alemanha. Urmila afirma que a sua história é a história de milhares de outras meninas.

Procurando vítimas e perpetradores

Duas garotas da organização de auxílio humanitário estão no barulhento terminal de ônibus de Lamahi, a cidade em que Urmila mora, em meio à fumaça dos ônibus que chegam ao local. Vendedores de comidas vendem os seus produtos em quiosques. As garotas entram nos ônibus e examinam as poltronas, procurando homens em companhia de meninas de aldeias.

Após algumas horas, elas encontram aquilo que procuravam. Esta é a segunda vez que isso acontece hoje. Um homem jovem está sentado ao lado de uma menina de olhar amedrontado. Ela tem menos de 1,5 metro de altura, e esconde a face arredondada com um grande lenço verde.

Com base nas roupas usadas pelo homem e a sua pele relativamente clara, as mulheres imediatamente percebem que ele é de uma outra região. Elas telefonam para as integrantes da equipe e levam o homem e a garota para o escritório da organização. Elas perguntam ao homem o que ele pretende fazer com a menina e para onde a está levando. O homem movimenta as pernas nervosamente para cima e para baixo, com os braços cruzados sobre o peito. Ele diz que a garota foi prometida a ele como esposa.

Os funcionários da organização de auxílio humanitário pegam o telefone celular do homem e ligam para os familiares dele; eles nada sabem a respeito de tal noiva.

O homem torna-se evasivo e subitamente alega que a garota é a sua cunhada. A menina – que tem 15 anos de idade e se chama Rita – manteve-se em silêncio o tempo todo, escondendo a face e segurando firmemente a sua mala. De repente, ela retira o lenço da face, olha para o homem por um momento e afirma: “Eu nunca vi esse homem em toda a minha vida”.

Tradução: UOL