sábado, 31 de janeiro de 2009

E se a crise for pra valer?









E se a crise for pra valer?

Rogel Samuel

Quando irrompeu a revolução bolchevique, Assis Chateaubriand escreveu um artigo dizendo que aquela insurreição não ia durar uma semana. Durou meio século. Quando os militares depuseram João Goulart todos nós pensávamos que era só mais um golpe. Durou vinte anos.

E se a crise for piorando, piorando, se rebentar em guerras, em tragédias? Se os oportunistas se aproveitarem do caos e o desgoverno do capitalismo se agravar?
A crise, como as guerras, ninguém pode prever até onde vai. Diziam os antigos que uma pequena chama no capim seco pode incendiar a floresta inteira.

A vida do capital sempre foi incerta. O capitalismo globalizante é imanente ao todo. Se sair desta imanência morre. O ideal do capitalismo, que nasceu no chamado mercado aberto, é conseguir o máximo de objetividade no mínimo de riscos, medo que nunca perdeu devido à característica inicial de jogo de mercado aberto. E é por isso que o Renascimento foi uma época de tantos desastres militares. A Idade Média não foi, passada a época das invasões, a noite da história do ponto de vista da violência e da crueldade, mas sim o Renascimento: Florença assistiu a um banho de sangue. O Vaticano, logo depois de 1500, foi invadido por tropas mercenárias que transformaram a Capela Sistina numa cavalariça.

Foi lá, em pleno Renascimento, que assistimos ao nascer do Poder cruel, quando apareceram as guerras econômicas para garantir os mercados.

Hoje, o que sustenta esse sistema de capitalismo avançado é a necessidade de lucros cada vez maiores, o aumento do capital das empresas, as investidas econômicas, o progresso de sucesso dos “melhores” e dos ‘‘maiores’’, a performance do lucro líquido.

A evolução do capitalismo fez com que a luta entre a razão e o caos entre numa nova fase, na qual triunfa a irracionalidade.

Não mais se valorizam a economia e a poupança, a eficiência, a otimização, a racionalidade funcional. Agora, não crescer é morrer.

Assim, o destino e a desgraça do capitalismo é o de crescer indefinidamente. O capitalismo está condenado a crescer, a um crescimento irracional e ilimitado. O incremento da produção não se coloca mais como problema central da vida social, e uma grande crise de incerteza, desconfiança e credibilidade nasce da idéia de que não mais se justifica historicamente o próprio capitalismo.

Mas o meu medo é a guerra que pode então explodir.

O soneto sobre Olinda




O soneto sobre Olinda


Rogel Samuel



Eu já escrevi não sei quantas vezes sobre o soneto de Ernesto Penafort sobre Olinda, eis
porque eu vivi em Olinda na minha juventude alguns dos mais belos dias de minha vida. E
pretendo voltar a Olinda, não sei o que vou encontrar, como estará, se ainda existe a paz,
o sob o silêncio que descia o vale, quando era vale, o além-muro das casas e igrejas,
o vento que vinha do mar, a chuva fértil de poesia do desejo de ser, de juventude ser,
Eu não conheci Penafort, hoje morto. Ouvia sempre sua lenda de bom poeta. Como o
amor que lá vivi já passou há décadas, lembro que tudo é um grito de um fruto mudo,
tudo está no tempo passado, na linha invisível do tempo que, debaixo do sol de Olinda
em seu silêncio nasce e morre.


noutros tempos, Olinda, eras futuro.
sob sol e silêncio se descia
ao vale, e o vale fertil pressentia
a intenção dos abraços, além-muro.
vieram ventos. choveu do intento puro
o desejo de ser, no qual se cria:
pronta a rosa entendida falecia
sob sol e silêncio no chão duro.
várias chuvas passaram, hoje banho
noutras águas a vida, pois, de antanho,
só a luz do teu rosto é que me ocorre,
entre silencio e sol, mas como tudo,
se incorpora, no tempo, a um fruto mudo:
sob sol e silencio nasce e morre.



http://literaturarogelsamuel.blogspot.com/2008/11/ernesto-penafort.html

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Obsessão dos bosques







Obsessão dos bosques


Rogel Samuel


Baudelaire escreveu um poema - Obsessão - ecológico, maldito, sonoro - os bosques
têm rugidos como os grandes órgãos das catedrais, bosques em luto, em antigos choros, de duendes de fantasmas de fadas de demônios de flores das grandes árvores da montanha, os bosques se opõem aos oceanos - Baudelaire odeia os oceanos românticos, os tumultos da alma oceânica, riso amargo, sombras insultos, noite escura, sem estrelas, infinito negro, insondável, precipício, e o tradutor genial nos dá um verso extraordinário: "Porém as trevas são elas próprias as telas", telas do além dos rostos familiares, num bosque das lembranças estreladas em trevas.


Bosques, encheis de susto como as catedrais,

Como os órgãos rugis; e em corações malditos,

Quartos de terno luto e choros ancestrais,

Todos sentem ecoar vossos fúnebres gritos.

Eu te odeio, oceano! e com os teus tumultos,

Já que és igual a mim! Pois este riso amargo

Do homem a soluçar, todo sombras e insultos,

Eu o escuto no riso enorme do mar largo.

Como serias bela, ó noite sem estrelas,

Que os astros falam sempre claro em sua luz!

Busco o infinito negro e os precipícios nus!

Porém as trevas são elas próprias as telas,

Em que surgem, a vir de meu olho, aos milhares,

Seres vindos do além de rostos familiares.


BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. São Paulo: Círculo do Livro, 1995. Tradução, posfácios e notas de Jamil Almansur Haddad.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Do fundo escuro da noite




Do fundo escuro da noite


Rogel Samuel


A demissão do maestro John Neschling me fez lembrar como era importante a época em que os grande maestros eram considerados deuses, estavam acima do bem e do mal, eram respeitados pelos políticos: Mravinsky, Karajan, Furtwängler, Carlos Kleiber, Klemperer.

Muitos maestros tinham personalidade terrível, eram odiados, mas nada nem ninguém os tirava do pódio: Mravinsky era temido pelos músicos, Karajan era nazista, Carlos Kleiber
intolerável, Klemperer introvertido e nunca falava com os músicos nem obedecia ao "tempo" (o tempo era decidido na hora, de acordo com nas circunstâncias). Furtwängler e Bruno Walter faziam a orquestra repetir exaustivamente um único trecho até conseguir a sonoridade que eles impunham. E Klemperer só falava aos gritos, batendo na partitura.

Cada orquestra tem a sonoridade do seu diretor, do seu maestro. Isto aumenta com Leopold Stokowski, que transformava cada orquestra que regia em sua orquestra, com sua sonoridade pessoal característica.

As orquestras tinham donos, a ordem era imperial. Ali nem Hitler nem Stalin conseguiram se meter. Furtwängler se recusou a demitir músicos judeus. Mravinsky impôs-se ao sistema
soviético, considerando Shostakovich o maior compositor de sua época, que tinha sido vetado por histérico, louco, alienado, depressivo, "caos, em vez de música", escreveu o Pravda,
sob inspiração de Stalin. Karajan era maestro vitalício da Filarmônica de Berlin, e herdou e manteve a sonoridade de Furtwängler, vencendo e pondo Celibidache para o lado, que nunca mais quis voltar.

Quando sai o maestro, o dono, a Orquesta começa a morrer. Não se muda um maestro sem atingir mortalmente a orquestra. São insubstituíveis. Por isso a Osesp vai começar a morrer.

Alain Lompech, critico musical e editor do jornal francês "Le Monde", escreveu:

"Daqui a 20 anos, daqui a 50 anos, o nome de John Neschling será conhecido como o de um músico que realizou um trabalho excepcional no Brasil, o mais excepcional desde Villa-Lobos. Quando a Osesp fez uma turnê pela Europa no ano passado, ela
recolheu triunfos e elogios amplamente merecidos, seus músicos exibiram um nível técnico e musical indubitavelmente de primeiro nível. Nenhuma orquestra brasileira, até hoje, atingiu esse nível de qualidade. O canal cultural franco-alemão Arte transmitiu para toda a Europa e para o mundo o concerto realizado no Ano Novo pela Osesp, bem como o realizado pela Filarmônica de Viena (Áustria)! Será que o Brasil se dá conta verdadeiramente do que isso quer dizer? Eu tenho a
impressão de que não".

O que não conseguiram Stalin ou Hitler o fez o governo de São Paulo.

Os sinos de papel





Os sinos de papel

Rogel Samuel


"sinos de papel" é o título do livro de haicais de Jorge Tufic e poucos poetas em nossa língua foram capazes de dar o tom, de criar a atmosfera misteriosa de um haicai japonês.

Começa que, na poesia japonesa, a espacialidade importa, o poema não difere do quadro, da gravura, da caligrafia.

Além disso, o poeta de hauku era também um mestre zen, ou seja, o qualificado iogue na arte do vazio mental concentrado que é o zen.

Como escrevi, em outro lugar:

Há uma expressão de Zen que diz: “um espelho de boas qualidades é tão puro como a água que deixou de correr”. Isto, diz Takuzo Igarashi, representa o estado de mente em que se encontra o espírito do Zen, quando toca as coisas se refletem na “sabedoria que é como o espelho”, tão simples e tão claras, que é quando aparecem na água pura de um céu sem nuvens. O céu não está na água, nem a água está coberta de céu. A água pode estar correndo lentamente, de acordo com outra expressão do Zen: “um movimento em tranqüilidade”. Pode-se dizer que o Haicai é espelho da mente do poeta.

Tufic compôs alguns dos mais legítimos haicais em português:

oculto no dom
de não ser ninguém
o grilo é som...

pétalas de mim
cultivo num jarro velho
que já foi jardim

em tantra medito
o saber é uma pedra
a mulher, o seu grito

ah, delicadeza
a mosca, senhora tosca
baila sobre a mesa

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A árvore da gentileza




A árvore da gentileza

Rogel Samuel

A velha árvore em frente à minha janela foi completa, correta, perfeita, extremamente gentil – ao desabar depois da tempestade não prejudicou ninguém.
Para não atrapalhar o trânsito caiu no meio-fio, para não amassar um carro segurou-se na fiação e galhos, para não por em risco a vida das pessoas não se agarrou no cabo de alta-tensão, não caiu sobre minha janela – foi perfeita, morreu heroicamente e nobre.

Nem sei quantos anos ela estava ali, belíssima, portentosa.

Vai fazer muita falta, para mim, para os pássaros e macaquinhos que por ela desciam.
Para homenageá-la no seu túmulo recitei:

As Árvores

Na celagem vermelha, que se banha
Da rutilante imolação do dia,
As árvores, ao longe, na montanha,
Retorcem-se espectrais à ventania.

Árvores negras, que visão estranha
Vos aterra? que horror vos arrepia?
Que pesadelo os troncos vos assanha,
Descabelando a vossa rumaria?

Tendes alma também... Amais o seio
Da terra; mas sonhais, como sonhamos,
Bracejais, como nós, no mesmo anseio...

Infelizes, no píncaro do monte,
(Ah! não ter asas!...) estendeis os ramos
À esperança e ao mistério do horizonte.
(Olavo Bilac)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Os pedaços de lilases




Os pedaços de lilases

Rogel Samuel

L. Ruas escreveu:

Dos momentos fugazes que me comem
Nasce, agora, meu canto manso e triste.
E me visto de sombras já vividas
Que me chegam em surdina. Tarde azul.

Ó pedaços eternos que eu retive
No mistério das mãos transfiguradas!
Ó lunares desvarios destes rios
Já vividos e outrora decantados

Nas estórias, nas lendas, nos lilases
Que floriram sorrisos e jardins
Morridos, muito longe, em róseo ocaso.

Ó momentos de luz que tão fugazes
Recompõem meu poema neste agora
Com palavras mudadas em lilases!

A poética triste, elegíaca, entre arbustos das oleáceas, cujas flores, dispostas em cachos, têm coloração branca ou arroxeada, de um arbusto moribundo, e os momentos aqui são fugazes, e o comem, o consomem, personagem vestido de surdina, e naquele fim de verso um enigmática tarde azul.
Mas logo os lunares, os desvarios, o passageiro e fugaz rio, decantado, rio das estórias, das lendas dos amores dos veios de uma viagem imaginária ou lembrada, lilases em jardins tumulares, jardins morridos em ocasos, em momentos luminosos tão fugazes, felicidades rápidas – tudo isto, todo este repertório de imagens e lembranças e temáticas e recortes compõe o poema ali mesmo, poema escrito por mudadas palavras transformadas em lilases.
Tarde azul.

domingo, 25 de janeiro de 2009

O igarapé do inferno, 5




Leia o capítulo 5 do romance online de Rogel Samuel

O IAGARAPÉ DO INFERNO em

http://www.blocosonline.com.br/home/index.php

(Foto do premiado fotógrafo Alberto Cesar Araujo).

sábado, 24 de janeiro de 2009

O sonho de Deus




O sonho de Deus

Rogel Samuel

Victor Hugo era um extraordinário poeta e hoje mesmo os franceses já não o lêem como antes. Sabor antigo, imponente e politizado, seus poemas impuseram a moda literária de sua época e quando ele morreu estava tão famoso quanto a própria França. Ele era uma espécie de deus da literatura de seu tempo, e foi magnìficamente traduzido por Raimundo Correia:


DEUS SONHA

O dia acorda. Deus, por uma fresta
Das nuvens a espreitar, ri-se. A floresta,
O campo, o inseto, o ninho sussurrante,
A aldeia, o sol que finge a serrania...
Tudo isso acorda, quando acorda o dia
No fresco banho de ouro do Levante.

Deus sonha. Vaza os olhos d’água; pica
As artérias da terra; o lis fabrica,
E da matéria sonda o fundo ovário.
Pinta as rosas de branco e de vermelho,
E faz das asas vis do escaravelho
A surpresa do mundo planetário.

Homens! As férreas naus de velas largas
Monstros revéis, formidolosas cargas,
Do bruto oceano arfando as insolências
Extenuando os ventos, e nos flancos.
Largo enxame a arrastar de flocos brancos
De escuma, e raios e fosforescências...

Os estandartes de arrogantes pregas;
As batalhas, os choques, as refregas;
Náuseas de fogo de canhões sangrentos;
Feroz carnificina de ferozes
Batalhões - bando espesso de albatrozes
De asa espalmada e aberta aos quatro ventos...

Comburentes, flamívomas bombardas,
Ígnea selva de canos de espingardas,
Estampidos, estrépitos, clangores,
E, bêbedo de pólvora e fumaça,
Napoleão que galopando passa,
Ao ruflar de frenéticos tambores;

A guerra, o saque, as convulsões, o espanto;
Sebastopol em chamas, de Lepanto
A vau de lanças e clarins repleto...
Homens! Tudo isso, enquanto recolhido
Deus sonha, passa e soa ao seu ouvido
Como o rumor das asas de um inseto!

(Trad. de Raimundo Correia)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A verdade da poesia



A verdade da poesia

Rogel Samuel

Diz Emmanuel Carneiro Leão que não há verdade fora “da envergadura da comunhão da poesia”, no âmbito do logos, mythos e épos. O filósofo diz que toda criação é “atropelada” por si mesma, pois se dá “numa irrupção” – e é a própria poesia que explode e dá sentido a seu logos, à sua linguagem – “a arte não é a margem, nem o leito, mas a correnteza”.

Cita ele que Zaratustra apregoava que “o homem é uma ponte, não um ponto final” e só há ponte quando existe uma travessia, uma transversalidade, uma ultrapassagem, um avançar, um impulsionar e um transpor de uma situação que se estagnou para uma nova área, um novo patamar, o certo residir do imprevisível mas previsto, algo que estava em latência e que de repente eclodiu numa irrupção vulcânica e incontrolável. Por isso o poeta se anula para dar lugar ao ponto em que nasce a linguagem da poesia que o ultrapassa e impõe. Todo poeta é apenas um profeta, ou seja, aquele que deixa falar por sua boca aquilo que já está lá mas ninguém ouviu, ninguém viu, ninguém soube. O poeta se retrai e quem toma a vez é a poesia.

Depois do “advento” da poesia - e feliz é aquele que sabe deixar falar a linguagem, o logos da poesia – como escreveu Archibald Macleish,



Haverá pouca coisa a esquecer:
o vôo dos corvos,
uma rua molhada,
o modo do vento soprar,
o nascer da lua, o por-do-sol,
três palavras que o mundo sabe,
pouca coisa a esquecer.

Será bem fácil de esquecer.
A chuva pinta
na argila rasa
e lava lábios,
olhos e cérebro.
A chuva pinga na argila rasa.

A chuva mansa lavará tudo:
O vôo dos corvos
o modo do vento soprar
o nascer da lua, o por do sol
lavará tudo, até chegar
aos duros ossos desnudados,
e os ossos, os ossos esquecem.


(Trad. Manuel Bandeira)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Casas



Casas

Rogel Samuel


A cabei de pintar o apto. Estava preparado para o Natal. Recebo um cartão poema.
Não consegui resolver o problema de meus livros amontoados. Venho, ao longo da vida, diminuindo o tamanho de minhas casas.

Nasci num sobrado, no centro da cidade de Manaus, av Eduardo Ribeiro, 450.

Mudei-me para a 24 de Maio - casa grande, no centro. Depois, fomos para
perto da casa de Eduardo Ribeiro (será que ainda existe?), na Ramos Ferreira.

Dali para uma casa de vila na Jupurá, casa de minha avó. Depois para a Getulio Vargas, uma verdadeira mansão, hoje ocupada. Nada herdei.

No Rio de Janeiro morei mal. Mas lembro-me de um apartamento que aluguei em Ipanema, na Nascimento Silva, uma bela vista.
Era muito bom. Amplo, dois quartos, boa sala, quadros. Talvez foi o melhor.
Ipanema era um amor, a gente circulava de madrugada, ficávamos de papo até a
madrugada, no Bar Bofetada, que existe até hoje, na Farme de Amoedo.

Hoje moro na Urca. Não posso reclamar. Não tenho espaço, mas tenho as montanhas e
o mar.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Fecundar o próprio ser




Fecundar o próprio ser

Rogel Samuel


O primeiro dos SONETOS AUTOBIOGRÁFICOS de L. Ruas é cruel. É cru. É o espelho da solidão em que se esquece o eu lírico. É trágico.

Ruas sempre explora os mitos que, como ele disse na “Aparição do clown” é a verdade mascarada.

O mito não é a mentira, o cinismo, a hipocrisia, o logro, o engano, a farsa, a irrealidade. O mito talvez seja o real da realidade, por mais estranho que seja a sua fantasia e o seu fantasma. O mito é o gerador primitivo da verdade, que julga e diz. Pois quem decide onde está a dimensão da racionalidade? O poeta ou o cientista? O religioso ou o filósofo?

O mito será, no mínimo, mais antigo, mais radical, mais originário. Ele tem a sua verdade própria, explicativa, não é bárbaro nem é louco.

O saber mítico desce no abismo do medo, do sêmen, do monstro azul, do falso passo e do passo em falso, do mistério no espelho, da prece e da infâmia para depois voltar para o nada, para a contemplação de sua própria imagem no espelho da vidraça, do pranto solitário da chuva, o parado, o imóvel, a sarjeta.

Fecundar o próprio sêmen sem ter medo
De em si mesmo dar o ser ao monstro azul.
Escalar o próprio abismo desmedido
E sorrir a cada passo dado em falso.

Desmembrar a tessitura do mistério,
Dissecar a óssea face em frente ao espelho
Estancando a imagem tola no momento
Da mentira venerável — prece infame —...

E depois compor de novo a melodia,
Restaurar as cores todas distendidas,
Refazer o mesmo poema delicado

E ficar paradamente na vidraça
Contemplando a chuva grossa e intermitente
Escorrendo em borbotões pelas sarjetas.

Pássaro em vôo (conclusão)






Pássaro em vôo (conclusão)

Leitura de Aparição do clown de L. Ruas

(Comemoração dos 50 anos de publicação do livro)

[Publicado originalmente em "Leituras da Amazônia",

Universidade Stendhal-Grenoble / U. A. Ano 1, n. 1, abril-1998]


Rogel Samuel


Por isso o poeta empreende a viagem, a Oitava Parte. Viagem que não sai da praia. Em busca de si mesmo, ou seja, de seu amor perdido e mesmo desconhecido em si mesmo. Não sei, ele como que diz, não sei quem sou como objeto nem onde está o meu objeto. Ou melhor: não sei quem é o ser objetivo, a objetivação do sujeito que me constitui como sujeito e que me deu o meu signo de ser. O ser que me constitui desapareceu, e eu sujeito começo a me perder, começo a perder o sentido, deletando-me aos poucos. Não é Deus que me dá o signo, mas meu amor, meu objeto de amor que é igual a mim na face de espelho do lago da lua, a crueldade do espelho de Narciso não é se amar a si, mas sim só encontrar o objeto amado sob a pele das águas no reflexo espelho de seu lago, ou seja, tomar-se a si como outro, como se amo no outro que não tem, nem o outro, na alteridade de si mesmo, nem a si mesmo, na duplicação do que é, perde-se no mesmo. O texto, não só revela perdição, perversão, mas heresia. Dizer que há seres individuais significa dizer que são para-si - que se amam e se desejam na reciprocidade do lago. Para-si significa o retorno à unidade, a negação do outro como outro para a fusão do igual.


o mar é muito vasto e fera enraivecida
já engoliu noivos e pescadores
(...)
não procures no mar no bulício das vagas
a sombra do teu amor


A criança da praia lhe pede: "canta uma canção ao teu amor", ao que ele responde: "como cantarei cantos de amor nesta solidão? / os cantos nascem apenas da união / do brilho da estrela com o ritmo do vôo". E a criança canta uma apóstrofe, a Nona Parte, um soneto:


em vão hás de buscar pássaro triste
buscando o fruto verde não sepulto
nas praias naufragadas onde existe
a concha nacarada - peixe inculto

além de tuas patas espalmadas
o mar é brisa calma e mata bruta
as asas que se abrem limitadas
mergulham sem tocar na doce fruta

em curvas linhas retas canto e arte
te vejo entre o céu e o barro forte
comendo espaço e tempo sul e norte

buscando em vão o fruto que te farte.
quem sabe? pode ser que noutros mares
sacies teu desejo. é bom tentares



Então, na Décima Parte, o mar se abre e um dragão surge daquelas águas, o dragão e a flor. Durante a leitura de todo o poema se lê um pássaro que persegue uma estrela, como o diálogo entre a terra e o céu (como o inacessível amor, a grandeza e sublimidade do amado inatingível, como um deus). Agora, de um terceiro elemento sai o monstro que é ao mesmo tempo personificação das águas e dos seus semas femininos, como também do fogo. Terra, ar, água, céu, fogo. Se, como já se disse, houve até quem se afogasse num espelho, agora, do mar sai o dragão de si mesmo, pois o olho, que tudo vê, não se vê como dragão, o dragão do visto no visível se precipita num paradoxo da imaginação - eu não sou o outro porque nada sou no espelho das águas. O outro, que me vê, meu reflexo, surge como um dragão porque não posso sê-lo, ou melhor, não posso amá-lo - o outro é entretanto meu objeto (e sujeito de mim), o objeto é o que me impede de perder-me na vastidão do mar do sem sentido, nos sem limites do espaço do não/nada ser. Somos, eu e eu-mesmo no outro, limitados pelas dimensões significativas do espelho das águas, das águas e do nosso desejo, pelas fímbrias dos nossos seres ali confrontados. Como ser algo além da máscara? Como deixar de me confrontar com meu próprio ser se me olho no espelho das águas mascarado de palhaço de mim mesmo? No poema de L. Ruas, a aparição do clown significa aparição do monstro mascarado, da máscara monstruosa, da face da máscara do ser atrás da qual nada há: somos a máscara que nos veste, a aparência é, em si mesma, a essência, aparência que vem e ameaça quando o lago se torna o mar e o espelho do outro se personifica. É de lá, de dentro deste mar/espelho onde eu posso me ver e me afogar que nasce o dragão que me ameaça, ou seja, eu me ameaço com um dragão, eu somatizo um dragão interno que me ameaça, dragão que sai do meu peito ou das dobras de minha noite, do meu inconsciente despertar. E eu, "self made" dragão da minha interna maldade, das ruínas de mim, da arqueologia de mim ameaçando a mim mesmo... com seu amor!

uivava o mar qual leão acorrentado
sob o peso imponderável do amor
do dragão que perseguia a flor.


Ora, o amor escapa pelo pássaro para a estrela. O amor de granito, de chumbo, decola. Mas tudo se dá neste teatro assumido e de papel crepom, onde tudo é falso, o amor, a boneca, a máscara, tudo é uma farsa desempenhada no picadeiro pelo clown. O que se diz no poema é: toda grandeza cai em pedaços, tudo o que é sublime é torpe nesse picadeiro-vida - estamos todos nos vendo nas dolências de mulher da flor das flores - "oh, as flores perdidas para sempre / nos longínquos perfumes ressequidos" - e subsistimos em desgraça, na sordidez da nossa solidão.
O dragão vem anunciar que "Vênus está extinta", que o amor deixou de ser possível. Mas na praia havia uma criança que fabricava uma espada que lhe cortava a mão, espada essa para matar o cordeiro que seria servido no banquete do encontro da estrela com o pássaro - tudo muito teatral: "então a criança correu para meus braços / gritando - "não deixes o dragão me seduzir".


- que posso fazer criança que não sou
poderei salvar por acaso o eterno jogo
se habitas a praia sem dimensões
sem sol e sem luar?
por que me buscas se possues a espada
e mãos de sonho e olhos de rubi?
sou apenas sopro vento vaidade nada
pó perfume cor sonoridade luz.
que mistério é este que sugeres
tentando penetrar nestas entranhas
fecundadas pelo canto do pássaro ferido?
então o mar partiu-se lado a lado
como um véu por invisíveis mãos rasgado
e engoliu o dragão.


Segue-se um prelúdio, o prelúdio da Décima-primeira Parte, que poderia iniciar o poema todo


quatro cavalos passaram galopando
em asas de águias sustentados
relinchando como se fosse trombetas sua voz
ou ribombar de trovões enlouquecidos
olhei. estava só na praia. o mar quieto.
uma brisa dançava sobre as ondas
o prelúdio que chopin tocava soluçando.
depois vieram ninfas volitando
ao som de músicas ligeiras.
sumiram-se depois nas gotas do orvalho.
oh. a crosta espessa das palavras
que mal revelam o fulcro luminoso
da consciência do mistério vislumbrado.
quem está cantando perguntei?
rosas?
quem está cantando é o coro dos palhaços.


De que é o coral da Décima Segunda parte senão dos palhaços que dizem: "aguardai no amor / que o pássaro virá". Ao que a nênia da parte seguinte contradiz: se o pássaro não vier será a noite silenciosa, a morta noite e deserta onde "inutilmente serás". A ressurreição do baile é Décima Quarta Parte, quando o pássaro está chegando e tudo renasce, recomeça, ressuscita. Mas no retorno da Décima Quinta Parte se diz que quem retorna não é o pássaro, mas um fantasma, um anjo indiferente. Quem é esse anjo, pergunta:

quem sou? rosa anjo fagulha do inferno
semi-deus apenas gesto luz ou noite

mas nada diz do que é - ele é o amor morto do universo, o homem-mulher do positivo-negativo que move o universo mas morto, o amor está morto, é um fantasma, já se viu, ele era o fantasma dos amantes, tresloucado, que só vive nas sombras e nos sonhos: "é sombra seu império. / não trevas. mas a luz azul / que não é dia não é noite. / é luar". Aos palhaços não é dado amar, e o amor para eles são asas, somente isso: angústia "de fugir ao destino das raízes", asas de desespero, de nijinski, de ícaro, de barro, de seta, de voejos e de volutas, de anjos querubins de touros assírios de custódia de calcanhares de mercúrio de papel crepom de anjinhos meninas de procissões de avião de queda.
O fantasma é a Musa.
Mas os guizos pendentes de seus dedos dizem que ele é o clown. Ele é o Mito, o Enigma, a Linguagem. Seu corpo de feno e de melodia é o corpo amado dos quatro elementos, o motor e a paz - o sonho, a poesia a beleza o despertar a sede o que palpitante existe em nós a vida.
E ele se foi.
Deixou o seu legado, a Décima-sexta Parte. Estranho, triste e simbólico legado: deixou-nos as asas (de belzebu, de pés de bailarina, panos leves, gazes, gestos dos braços, fadas bruxas borboletas garças abelhas plumas arcanjos pássaros selvagens em bando asas de águia e asas quietas pousadas em silêncio).
O poema termina, a penúltima parte chama-se doutrina, a doutrina de ser caminhante, marinheiro, errante, sem cessar, sem ver o sol (apenas o luar / e a luz indecisa das estrelas), peregrino sempre, ave sem poder voar, clown de ser/não ser shakespeariano.
O poema termina, sim, é a despedida, a última parte:

e o velho clown partiu beijando ainda
o brinquedo que a criança abandonara
no velho palco parque ou tempo sem memória

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Pássaro em vôo, 2





Pássaro em vôo, 2

Leitura de Aparição do clown de L. Ruas

[Publicado originalmente em "Leituras da Amazônia",

Universidade Stendhal-Grenoble / U. A. Ano 1, n. 1, abril-1998]


Rogel Samuel

(Foto do padre L. Ruas na época em que escreveu APARIÇÃO DO CLOWN)


Mas como neste clown tudo é falso, a verdade se mascara de mentira, assim como o amor, que se dá num teatro:


a bailarina lhe disse chorando - eu te amo.
ele riu. palmas. a cortina cerrou-se


E todos comem o espetáculo. Consomem-no, "carne de elefante néctar de bonina alma de passarinho".
Não são espectadores, são cientistas: como "cientista da vida" é este clown. Como "anormal", o velho palhaço é inocência e maldade:


de onde vens palhaço? quê nos queres dizer?
fala que te espiamos cientista da vida
tu gargalhas no palco o que choramos na vida
......................................................................
sou criança que não aprendi ainda
o que é o belo e o feio
o pranto e a galhofa.
o que é ser e o que é não ser.
pois tu és homem palhaço tu és homem.




O centro temático do poema é este: "tu és verdadeiramente homem", e "honra e vergonha":


auréola de arcanjo
tu és verdadeiramente homem
pois tu somente revelas o segredo
honra e vergonha
que todos ocultamos



E assim se constituía, como viu Foucault, a ciência que se apoiava nos rituais da confissão e em seus conteúdos confessos, desavergonhados ou sob tortura, ciência que era uma extorsão múltipla e cujo objeto era o inconfessável, o escândalo, e é a partir daí que se constituem as ciências do sujeito, através da codificação do "fazer falar" (depois fotografar), através do interrogatório cerrado, onde havia o dever de dizer tudo e para todos (a confissão do Presidente na Internet), qualquer acidente, qualquer desvio, qualquer excesso - isto é: qualquer prazer, cujas consequências são as mais variadas, é preciso arrancar a verdade em nome da decência - e é justamente naquilo que o sujeito gostaria de esconder que se encontra o seu núcleo que tem de ser extraído à força, porque ele se esconde:


quem já viu a tua face
tua única face?
................................
todos riem somente da face mentirosa



E súbito uma heresia! O clown é a personificação do Cristo:


todos riem somente da face mentirosa
da escandalosa face que nos ofereces
dizendo que é vinho
todos beberiam porém teu sangue
seiva das árvores água dos rios lama das sargetas
e comeriam tua carne que não ofereces.
carne de elefante néctar de bonina alma de passarinho.



Mas a face engana, a máscara é vazia: atrás da face nada se esconde, a máscara oca, entre o sentido e o subjacente a máscara ri, ou melhor, faz rir: "onde está tua face palhaço onde? / além do além do horizonte / nas nuvens ou atrás da máscara?" A máscara, já se sabe, não é inútil para quem a usa. Nem inócua. A máscara é a face que a usa. E o discurso continua, "sombra de sonho".
E a máscara o convida para dançar. Ela é o inferno de si em ser o menino, "mito de farsa e de verdade".
A outra é a resposta, a Terceira Parte do poema. Que diz: "não sei", "nada sei". Apenas podemos ver as sombras sem ver a luz, como na Caverna. E aqui se encontra o magnífico verso maldito: "ser livre em essência é ser cativo".
A Quarta Parte, um aviso diz para "deixar o pássaro voar", pois a "a ilusão é mais mortífera que a desesperança". Conta que não adianta amar - o pássaro sempre voará, nunca será possível aprisionar o seu amor, e o que é aprisionado não é amor. A Quinta Parte se chama romance e aqui temos três elementos conjugados: o ar, o fogo e a água: o pássaro, a estrela e o peixe. A feminidade da água, e a masculinidade do peixe: o pássaro que devora a estrela que estava sendo devorada por um peixe. Pois o clown é dito que nasce aqui, o clown nasce da estrela, e ele, em vez de gênio, de arte, de poesia e de flor ele nasce como palhaço, palhaço dos homens. Na Sexta Parte começa o seu martírio: Prometeu que não morre, apesar de continuamente devorado vivo ("o amor nos prende e nos tortura, mas não mata"). Mas, nesse momento, seu ouve uma canção, a Sétima Parte de Aparição do clown. É uma canção de amor sem amado:


eu cantei uma canção
baixinho ao meu amado
- "não chores pequenino
não chores que eu te amo"-


eu andei por longas ruas
e por cidades perdidas
em busca do meu amor

(Continua)

domingo, 18 de janeiro de 2009

PÁSSARO EM VÔO



PÁSSARO EM VÔO

Leitura de Aparição do clown de L. Ruas

[Publicado originalmente em "Leituras da Amazônia",

Universidade Stendhal-Grenoble / U. A. Ano 1, n. 1, abril-1998]


Rogel Samuel



A primeira parte de Aparição do clown se chama descoberta:

foi no tempo do luar pois não existe sol
no velho parque - tempo não maduro
que encontrei o sempiterno clown,
queria ver-lhe a face. e sua face
era imenso lago azul parado
onde a lua se repetia. lua.

Foi o seu primeiro e mais importante livro, publicado em Manaus por Sérgio Cardoso Editores em 1958. Quarenta anos depois sai uma segunda edição (Manaus, Editora Valer, 1998, infelizmente sem a "Interpretação do clown"de André Araujo, mas acrescida de prefácio de Carlos Eduardo Gonçalves e estudo de Tenório Telles).
Ruas nasceu em Manaus em 1931, com 11 anos entra no seminário (em Fortaleza e Rio de Janeiro), depois volta para Manaus onde era "pároclo, professor, jornalista, crítico de cinema e poeta" (Gonçalves). Principalmente foi ele um dos maiores poetas deste Brasil e um dos mais desconhecidos. (Utilizamos aqui a 1a edição).
O mito que nasce da descoberta é o de Narciso. E o de Eros e Psiquê. A descoberta do clown é a descoberta de si. O ver-se no espelho da face do outro levanta desde logo a questão reflexa do igual, que se recolhe no lago. O corpo do outro recolhe o meu mesmo transformar-se, o seu corpo de barro, seu corpo de estrelas, entre o céu e o chão se fundem o alegre riso e o triste pranto. O tempo é de metamorfose no lago da lua, tempo mítico do luar. E a referência é da Metamorfose de Ovídio, mas com a lua cheia e o lago espelho da face onde o palhaço aparece: um anti-Narciso. Seu corpo é de um demônio, um sedutor demônio, corpo de chafariz (de esperma) e de terra (de barro). A feminidade pansexual do velho clown se contagia da "boneca" que ele beija:


apenas vi o velho clown beijando
uma boneca. e beijando-a chorava
e ria ao mesmo tempo que
o destino dos palhaços é fundir
à luz da lua o alegre riso e o triste pranto.



E não há sol, mas penumbra e máscara ao luar onde pouco se pode ver e saber:

e vendo ser inútil o meu esforço
de descobrir integralmente o clown
eu suplicante lhe falei assim

É a segunda parte do poema aquilo que ele fala e que se chama discurso. E o discurso se resume numa pergunta: "Quem és?", ou "O que és?" Nesse discurso também se encontram todas as principais pistas do poema, suas proposições. Canta, ó musa, o clown esbandalhado, cansado e velho, mas poderoso e eterno. Ou mesmo, em lugar de "canta", temos por antítese "faz mistério", o que é o seu propósito, esconder, esconder-se aos quatro ventos. Mas o texto diz: "canta a tua ideologia".
Mas o que isto significa? O que significa dizer "que és?"
Diz Foucault, n'A vontade de saber, que desde a Idade Média as sociedades ocidentais colocaram a confissão entre seus mais importantes rituais para a produção da verdade. Há o desenvolvimento das técnicas da confissão, o métodos interrogatórios e de inquérito, a instauração dos tribunais tudo contribui para dar à confissão um papel central, a confissão da verdade na medicina, na justiça, na pedagogia, nas relações familiares, nas relações amorosas, - confessam-se crimes, pecados, desejos, pensamentos, sonhos, doenças, em público, em particular, aos pais, aos educadores, ao médico, a si próprio, confessa-se ou se é forçado a confessar sob tortura, e tudo isso produz relatos, livros, a literatura, sob a égide do: "diga a verdade" um Presidente norte-americano se viu arguído - pois a confissão se desenrola numa relação de poder, poder que intervém, impõe, avalia, julga, pune, perdoa, consola, um ritual em que a verdade é extorquida em espetáculo.
(Continua).

sábado, 17 de janeiro de 2009

O Palácio Manixi




O Palácio Manixi


Rogel Samuel

(O adolescente da foto é o famoso jurista CARLOS ARAUJO LIMA com aproximadamente 16 anos).

O Palácio Manixi parece que existiu. Não foi só produto da minha imaginação delirante.

Escrevi todo "O amante das amazonas" em torno de um palácio imaginário construído no meio da selva amazônica, o Palácio Manixi, que muita gente identifica com o Palácio Rio Negro de Manaus, mas não é.

O Manixi era maior, muito mais luxuoso, símbolo da riqueza da borracha do Amazonas. Era uma edificação Art Nouveau e eu perdi muitos leitores com o rococó do meu estilo rebuscado imitando os escritores da época ao descrevê-lo. Gastei 10 anos escrevendo o livro, que teve 10 versões!

Naquele ponto o leitor acha o livro chato e o abandona (o leitor é uma coisa muito delicada e podemos perdê-lo com facilidade). Assim, raras são as pessoas que realmente leram o livro, e até pela maneira de falar-me sobre a leitura eu posso saber se leu ou não. Porque os meus verdadeiros leitores tiveram dificuldade e leram o livro mais de uma vez para descobriram o mistério que ali está escondido no fundo da floresta.

Eu nasci na pobreza e nela continuo até agora, mas sempre ouvi as alucinantes estórias da riqueza de meu avô Maurice Samuel que não conheci, homem culto e sofisticado de quem herdei parte da biblioteca, hoje perdida. Meu avô é a raiz do livro.

Pois bem. Foi lendo o livro do sábio amazonense Agnello Bittencourt, "Reminiscência do Ayapuá", que soube agora da existência de um grande prédio, conhecido como Casa Grande, na região do rio Purus, prédio que até pode ser um protótipo do Manixi.

Li o raríssimo livro em xeróx, ofertado por um descendente do Mestre Agnello, que foi
professor de minha falecida mãe, mas o terceiro capítulo está no nosso blog em: LIVROS ONLINE.

Na foto aparecem os netos de Loureço Mello, que é meu personagem em "Teatro Amazonas".

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O mundo de Obama



O mundo de Obama

Rogel Samuel

A partir de agora o mundo começa a ser a Era Obama.
Não sei se algo vai mudar, todo presidente é prisioneiro de si próprio, prisioneiro das corporações, dos partidos, dos bancos, das instituições, da média e do exército.
É isso que fingem não saber no Brasil.
Quando Lula assumiu as pseudo-esquerdas achavam que ele “tinha” de fazer uma revolução. Saramago, arrogante, dentro do território nacional, disse: “Lula traiu o povo” (devia ser expulso do país imediatamente por ofensa). Chomsky, americano de arrogante, chamou o nosso presidente de ignorante, ao dizer que a única coisa que aprendeu com Lula foi fatiar churrasco. E um bispo católico disse que a bolsa família vicia (ou seja, comer vicia, é claro).
Quando eu falo de política, pois, sou odiado, porque só a classe média tem computador.
Por isto tudo eu me pergunto: Que poderá fazer o Presidente Barack Obama num país controlado por poderosas forças políticas contra as quais lutar será sempre um suicídio?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A voz daquele que lê




A voz daquele que lê

Rogel Samuel

A mais antiga poetisa do mundo foi uma princesa.
Por volta do 2.300 a. C. a princesa Enheduanna, filha do rei Sargão I de Acad compôs umas série de canções em louvor à deusa do amor e da guerra, Inanna.
A princesa Enheduanna era uma sacerdotisa de Nanna, deus da Lua.
Foi ela a primeira pessoa que assinou um texto, que revelou a autoria de um poema. Isto era algo inusitado (Cf. HALLO & VAN DICJK, The exaltation of Inanna, New Haven, 1968; apud. Steven Roger Fischer, História da leitura).
Infelizmente não tenho o texto, mas uma inscrição de 1.300 a. C de um escriba egípcio diz:

O rolo de papiro é melhor que a pedra entalhada.
Um homem morreu e seu corpo se transformou em pó,
E seu povo partiu de sua terra.
É o livro que o torna inesquecível
Na voz daquele que o lê.
(Apud Fischer).

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O castelo em forma de nave



O castelo em forma de nave

Rogel Samuel

Márcia Sanchez Luz escreveu um soneto, para mim já clássico, das mazelas do amar, que diz muito precisamente o que sente e o que pergunta todo ser que (ainda) ama.
Como as mulheres entendem mais de amor do que os homens!
O poema está no seu "Imaginário", um blog que é um primor de poesia em:
http://poemasdemarciasanchezluz.blogspot.com/
O poema começa com perguntas para as feridas de um labirinto em que a autora e todos nós amantes nos perdemos: quando o amor é sensação no peito, anseio, instinto, sonho sem preconceito, conflito.
Amar é alguma doença?
Ou é cura? A cura.
Confesso que em matéria de amor só conheci o lado amargo. Talvez pelo meu pendor de só apaixonar-me pela pessoa errada, mesmo quando era jovem. E não se trata de minha idade, apenas. Sempre foi assim.
Bloch, no Princípio esperança, tem um estranho e instigante capítulo que se chama: O que resta a desejar na velhice.
Diz ele que é muito instrutivo quando pela primeira vez alguém se levanta para nos ceder o lugar. E é mesmo nesse tempo que percebemos como a vida é curta.
Por isso, quando saudamos ou festejamos um velho, este percebe instintivamente que é como uma despedida, ou seja, que tem a morte como desenlace.
O que não morre é o amor. Acompanha-nos até o fim dos dias.
O soneto de Márcia Sanchez Luz diz:


Por quem me tomas quando o amor que sinto
da carne dista, é sensação do peito?
O anseio que me assola é puro instinto
guardado no sonhar sem preconceito.

Por quem me tomas neste labirinto
de dor e medo e cheio de defeito?
O meu sentir não pode ser extinto
por conta de um conflito sem efeito.

Por ora busco alguma direção
para aquietar-me a mente tão doída
que só concebe o que não tem razão.

Se eu não achar porém explicação
passível de curar esta ferida,
me entregarei somente à solidão.

O Padre Vieira tratou do amor no seu famoso Sermão do Mandato, de 1643. Mas que saberá um padre do amor? Melhor talvez a fenomenologia do amor feita por Sartre...
Mas isto já outra estória. Pois quem entende de amor são os poetas. Como a não-explicação de Márcia Sanchez Luz. Afinal, como escreveu Ernst Bloch, em "O princípio esperança", "o amor não deixa ninguém entrar sozinho no castelo dos sonhos ou ir sozinho para o alto-mar".
O amor é a taça cintilante da aventura, a vontade de viajar, o Argo, "que é uma espécie de arca para os desejos mais importantes" de nossa juventude: "o desejo de ter um triunfo".
"A vontade despedaça a casa... e constrói o seu castelo no alto da montanha, em meio às nuvens".
O seu castelo em forma de nave.

O pai dos blogs



O pai dos blogs

Rogel Samuel

Ascendino Leite é o pai dos blogs. Seus jornais literários são os modelos de como se deve
redigir um bom e pequeno texto. Ele é meu modelo de prosa. Seu longo Jornal literário
foi lido creio que todo. Como ele escrevia sobre si mesmo e sobre os escritores, fez
ao longo da sua vida, uma espécie de auto-análise. Ainda bem vivo, nasceu em
1915. Ele revolveu seu interior com seus textos. E é um mestre. Ainda é. E bom poeta.
Leiamos seu poema:

Meu Rosto

Sou tão sincero no que faço
que penso: Deus me segue,
sorrindo e abençoado no pecado.

Sou tão sincero no que penso,
que Deus me acompanha no passado,
- velho tributário do pecado.

Sou tão voraz por entre as coisas
que, não raro, com elas me confundo.
Daí que, fiel ao que elas são,

sei que Deus me abandona no que sou.
Como, então, não creditar
a Deus, Nosso Senhor,
a sorte de, a toda hora, ter desejos?

domingo, 11 de janeiro de 2009

POEMA DO RIO NEGRO, 5






Poema do Rio Negro, 5

Rogel Samuel


hoje, em 1984
ainda sofremos o sussuro assombrado
seres ocultos na floresta
no escarro noturno na folha
ruídos surdos da morte
silvos de cobra
grito que se atrofia
que somos? apenas homens
culpas cospem jogos
línguas secam vazias de falas
o futuro desaparece no passado
ondas de óleo negro como esperma
sob um bafejo roto
louca magreza fome desterro
derrama o rio partes expostas
e geográfico não mais corta
seu beijo frio horizonte amarelo
que nada nasceu ali depois nem nascerá
nem os pássaros cegos
o céu fantasma estéril
o amor misturado ao pasmo do passado
as paisagem irritadas
as aranhas e escorpiões afiados
para sempre este
sempre urubu, sempre interno
sempre negra flor, sempre inferno
que nós nos lembramos do dia
que nos surpreende afinal
as armas tocaram as peles
o rio o sangue negro detesta
o castelo a testa a proa
a fome as estrelas a morte os ares
e há pontos de luzes verdes e vinagres
na costa desta floresta
as coisas são diamantes
e só não ouve quem não quer o ranger de dentes
espinhos venenosos se postam
preparada armada a mata
e há urubus e no cornicho atenção
dos cadáveres históricos
de um grande cemitério
(mas tudo passará. No mesmo fio da espada
e sob o mesmo tom da corte negra)
ó tristes homens mãos de pedra
- um índio vinha e subia o rio de repente
a todos se oferece o rio de cinzas
sua divina partilha
ninguém mais sabe nada
perambula entre nós cachoeira
(mas o anjo e a estrela entram na mesma pupila
sua auréola bela e amiga
refaz a alegria antiga
e eu choro o festival que nunca passou
penetro o jardim e esquecidas
as flores sobre a balsa passam
amaldiçoadas passam
de Manaus a Itacoatiara
nem sabem os demônios das margens
o chumbo soberano.
Pois perto é a morte
com sua mão afiada
E a ponte o caminho
está entre o tudo e o nada
e somos raros agora
geração aziaga).

sábado, 10 de janeiro de 2009

Villaça



Villaça

Rogel Samuel


Recebi o livro de Edmílson Caminha, O monge do hotel Bela Vista, e no mesmo dia avancei na leitura. Livro extraordinário. Tenho duas cartas de Edmílson e duas de Villaça da mesma época.

Quando conheci Villaça ele ainda não era tão famoso. Creio que foi em 1962, no apartamento de um amigo comum, que era professor. Almoçamos. Depois do almoço saímos pela calçada da Av. Copacabana. Era no Lido. Eu ainda era estudante da Universidade, muito jovem, e morava ali.

Durante anos fomos amigos. O livro do Caminha cita a minha Crítica da escrita.

Um dia Villaça me deu de presente uma raridade. A primeira edição das Primeiras estórias de Guimarães Rosa, com dedicatória. Ele era uma pessoa muito generosa. A dedicatória do Rosa é um poema, diz mais ou menos:

"A Antonio Carlos villaça
com vivo, caro apreço,
e um abraço"

E segue. Villaça, um dos maiores escritores deste país.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O futuro da poesia está no celular




O futuro da poesia está no celular

Rogel Samuel

Os celulares vão fazer videochamadas. As suas telas estão maiores, e agora podem substituir o telefone, a tv, o computador, o relógio. Podem ser de pulso, como os relógios. Podem ter uma câmera integrada que filma, fotografa, e faz conexão de rádio e tv. Podem facilitar a conversação ao vivo, e podem trazer ainda flash, Bluetooth, MP3 player, discagem por voz e
mensagens de texto.
Podemos publicar nossos poemas pelo celular. Creio que a Leila Miccolis já fez isso. Ela sempre
foi uma pioneira em tudo.
Steven Roger Fischer, no seu livro História da leitura, acha que o futuro da leitura está no celular. As novas livrarias serão grandes bancos de dados onde podemos ouvir a música escolhida, ler as notícias etc.
Poderemos ouvir os poetas recitarem seus próprios poemas.
A civilização do papel pode ter acabado.

HEIDEGGER: LA FRASE DE NIETZSCHE "DIOS HA MUERTO"


LA FRASE DE NIETZSCHE «DIOS HA MUERTO»

Martin Heidegger

Traducción de Helena Cortés y Arturo Leyte en HEIDEGGER, M., Caminos de bosque, Madrid, 1996, pp. 190-240.

La siguiente explicación intenta orientar hacia ese lugar desde el que, tal vez, podrá plantearse un día la pregunta por la esencia del nihilismo. La explicación tiene su raíz en un pensamiento que comienza a ganar claridad por primera vez en lo tocante a la posición fundamental de Nietzsche dentro de la historia de la metafísica occidental. La indicación ilumina un estadio de la metafísica occidental que, presumiblemente, es su estadio final, porque en la medida en que con Nietzsche la metafísica se ha privado hasta cierto punto a sí misma de su propia posición esencial, ya no se divisan otras posibilidades para ella. Tras la inversión efectuada por Nietzsche, a la metafísica solo le queda pervertirse y desnaturalizarse. Lo suprasensible se convierte en un producto de lo sensible carente de toda consistencia. Pero, al rebajar de este modo a su opuesto, lo sensible niega su propia esencial la destitución de lo suprasensible también elimina a lo meramente sensible y, con ello, a la diferencia entre ambos. La destitución de los suprasensible termina en un «ni esto... ni aquello» en relación con la distinción entre lo sensible (aÞsyhtñn) y lo no-sensible (nohtñn). La destitución aboca en lo sin-sentido. Pero aún así, sigue siendo el presupuesto impensado e inevitable de los ciegos intentos por escapar a lo carente de sentido por medio de una mera aportación de sentido.

En lo que sigue, la metafísica siempre será pensada como la verdad de lo ente en cuanto tal en su totalidad, no como la doctrina de un pensador. El pensador tiene siempre su posición filosófica fundamental en la metafísica. Por eso, la metafísica puede recibir el nombre de un pensador. Pero esto no quiere decir en absoluto, según la esencia de la metafísica aquí pensada, que la correspondiente metafísica sea el resultado y la propiedad de un pensador en su calidad de personalidad inscrita en el marco público del quehacer cultural. En cada fase de la metafísica se va haciendo visible un fragmento de camino que el destino del ser va ganando sobre lo ente en bruscas épocas de la verdad. El propio Nietzsche interpreta metafísicamente la marcha de la historia occidental, concretamente como surgimiento y despliegue del nihilismo. Volver a pensar la metafísica de Nietzsche se convierte en una meditación sobre la situación y el lugar del hombre actual, cuyo destino, en lo tocante a la verdad, ha sido escasamente entendido todavía. Toda meditación de este tipo, cuando pretende ser algo más que una vacía y repetitiva crónica, pasa por encima de aquello que concierne a la meditación. Pero no se trata de un mero situarse por encima o más allá, ni tampoco de una simple superación. Que meditemos sobre la metafísica de Nietzsche no significa que ahora también y muy especialmente tengamos en cuenta su metafísica, además de su ética, su teoría del conocimiento y su estética, sino que intentamos tomarnos en serio a Nietzsche en cuanto pensador. Pues bien, para Nietzsche, pensar también significa representar lo ente en cuanto ente. Todo pensar metafísico es, por lo tanto, onto-logia o nada de nada.

La meditación que intentamos hacer aquí precisa de un sencillo paso previo, casi imperceptible, del pensar. Al pensar preparatorio le interesa iluminar el terreno de juego dentro del que el propio ser podría volver a inscribir al hombre en una relación originaria en lo tocante a su esencia. La preparación es la esencia de tal pensar.

Este pensamiento esencial -que, por lo tanto, siempre y desde cualquier punto de vista es preparatorio-, se dirije hacia lo imperceptible. Aquí, cualquier colaboración pensante, por muy torpe y vacilante que sea, constituye una, ayuda esencial. La colaboración pensante se convierte en una invisible semilla, nunca acreditada por su validez o utilidad, que tal vez nunca vea tallo o fruto ni conozca la cosecha. Sirve para sembrar o incluso para preparar el sembrado.

A la siembra le precede el arado. Se trata de desbrozar un campo que debido al predominio inevitable de la tierra de la metafísica tuvo que permanecer desconocido. Se trata de comenzar por intuir dicho campo, de encontrarlo y finalmente cultivarlo. Se trata de emprender la primera marcha hacia ese campo. Existen muchos caminos de labor todavía ignorados. Pero a cada pensador le está asignado un solo camino, el suyo, tras cuyas huellas deberá caminar, en uno y otro sentido, una y otra vez, hasta poder mantenerlo como suyo, aunque nunca le llegue a pertenecer, y poder decir lo experimentado y captado en dicho camino.

Tal vez el título «Ser y Tiempo» sea una señal indicadora que lleva a uno de estos caminos. De acuerdo con la implicación esencial de la metafísica con las ciencias -exigida y perseguida una y otra vez por la propia metafísica- y teniendo en cuenta que dichas ciencias forman parte de la propia descendencia de la metafísica, el pensar preparatorio también tendrá que moverse durante un tiempo en el círculo de las ciencias, porque éstas siguen pretendiendo ser, bajo diversas figuras, la forma fundamental del saber y lo susceptible de ser sabido, ya sea con conocimiento de causa, ya sea por el modo en que se hacen valer y actúan. Cuanto más claramente se aproximen las ciencias hacia la esencia técnica que las predetermina y señala, tanto más decisivamente se explica la pregunta por esa posibilidad del saber a la que aspira la técnica, así como por su naturaleza, sus límites y sus derechos.

Del pensar preparatorio y de su consumación forma parte una educación del pensar en el corazón de las ciencias. Encontrar la forma adecuada para que dicha educación del pensar no se confunda ni con la investigación ni con la erudición, es sumamente difícil. Esta pretensión siempre está en peligro, sobre todo cuando el pensar tiene que empezar por encontrar siempre y al mismo tiempo su propia estancia. Pensar en medio de las ciencias significa: pasar junto a ellas sin despreciarlas.

No sabemos qué posibilidades le reserva el destino de la historia occidental a nuestro pueblo y a Occidente. La configuración y disposición externas de estas posibilidades no son tampoco lo más necesario en un primer momento. Lo importante es sólo que aprendan a pensar juntos los que quieren aprender y, al mismo tiempo, que enseñando juntos a su manera, permanezcan en el camino y estén allí en el momento adecuado.

La siguiente explicación se mantiene, por su intención y su alcance, dentro del ámbito de la experiencia a partir de la que fue pensada «Ser y Tiempo». El pensar se ve interpelado incesantemente por ese acontecimiento que quiere que en la historia del pensamiento occidental lo ente haya sido pensado desde en relación con el ser, pero que la verdad del ser permanezca impensada y que, en cuanto posible experiencia, no sólo le sea negada al pensar, sino que el propio pensamiento occidental, concretamente bajo la figura de a metafísica nos oculte el acontecimiento de esa negativa aunque sea sin saberlo.

Por eso, el pensar preparatorio se mantiene necesariamente dentro del ámbito de la meditación histórica. Para ese pensar, la historia no es la sucesión de épocas, sino una única proximidad de lo mismo, que atañe al pensar en imprevisibles modos del destino y con diferentes grados de inmediatez.

Ahora se trata de meditar sobre a metafísica de Nietzsche. Su pensamiento se ve bajo el signo del nihilismo. Éste es el nombre para un movimiento histórico reconocido por Nietzsche que ya dominó en los siglos precedentes y también determina nuestro siglo. Su interpretación es resumida por Nietzsche en la breve frase: «Dios ha muerto».

Se podría suponer que la expresión «Dios ha muerto» enuncia una opinión del ateo Nietzsche y por lo tanto no pasa de ser una toma de postura personal y en consecuencia parcial y fácilmente refutable apelando a la observación de que hoy muchas personas siguen visitando las iglesias y sobrellevan las pruebas de la vida desde una confianza cristiana en Dios. Pero la cuestión es si la citada frase de Nietzsche es sólo la opinión exaltada de un pensador -del que siempre se puede objetar correctamente que al final se volvió loco- o si con ella Nietzsche no expresa más bien la idea que dentro de la historia de Occidente, determinada metafísicamente, se ha venido pronunciando siempre de forma no expresa. Antes de apresurarnos a tomar una postura, debemos intentar pensar la frase «Dios ha muerto» tal como está entendida. Por eso, haremos bien en evitar toda cuanta opinión precipitada acude de inmediato a la mente al oír algo tan terrible.

Las siguientes reflexiones intentan explicar la frase de Nietzsche desde ciertos puntos de vista esenciales. Insistamos una vez más: la frase de Nietzsche nombra el destino de dos milenios de historia occidental. Faltos de preparación como estamos todos, no debemos creer que podemos cambiar dicho destino por medio de una conferencia sobre la fórmula de Nietzsche, ni tan siquiera que lleguemos a conocerlo suficientemente. Pero, de todos modos, ahora será necesario que nos dejemos aleccionar por la meditación y que en el camino de ese aleccionamiento aprendamos a meditar.

Naturalmente, una explicación no debe limitarse a extraer el asunto del texto, sino que también debe a aportar algo suyo al asunto, aunque sea e manera imperceptible y sin forzar las cosas. Es precisamente esta aportación lo que el profano siempre siente como una interpretación exterior cuando la mide por el rasero de lo que él considera el contenido del texto y que con el derecho que se autoatribuye, critica tachándola de arbitraria. Sin embargo, una adecuada explicación nunca comprende mejor el texto de lo que lo entendió su autor, sino simplemente de otro modo. Lo que pasa es que ese otro modo debe ser de tal naturaleza que acabe tocando lo mismo que piensa el texto explicado.

Nietzsche enunció por vez primera la fórmula «Dios ha muerto» en el tercer libro del escrito aparecido en 1882 titulado «La gaya ciencia». Con este escrito comienza el camino de Nietzsche en dirección a la construcción de su postura metafísica fundamental. Entre este escrito y los inútiles esfuerzos en torno a la configuración de la obra principal que había planeado aparece publicado «Así habló Zarathustra». La obra principal planeada nunca fue concluida. De manera provisional debía llevar el título «La voluntad de poder» y como subtítulo «Intento de una transvaloración de todos los valores».

El chocante pensamiento de la muerte de un dios, del morir de los dioses, ya le era familiar al joven Nietzsche. En un apunte de la época de elaboración de su primer escrito, «El origen de la tragedia», Nietzsche escribe (1870): «Creo en las palabras de los primitivos germanos: todos los dioses tienen que morir». El joven Hegel dice así al final del tratado « Fe y saber» (1802): el «sentimiento sobre el que reposa la religión de la nueva época es el de que Dios mismo ha muerto». La frase de Hegel piensa algo distinto a la de Nietzsche, pero de todos modos existe entre ambas una conexión esencial escondida en la esencia de toda metafísica. La frase que Pascal toma prestada de Plutarco: «Le gran Pan est mort» (Pensées, 695), también entra en el mismo ámbito, aunque sea por motivos opuestos.

Escuchemos en primer lugar cuáles son las palabras exactas del texto completo, el número 125, de la obra « La gaya ciencia». El texto se titula « El loco» y reza así:



El loco.-¿No habéis oído hablar de ese loco que encendió un farol en pleno día y corrió al mercado gritando sin cesar: «¡Busco a Dios!, ¡Busco a Dios!». Como precisamente estaban allí reunidos muchos que no creían en Dios, sus gritos provocaron enormes risotadas. ¿Es que se te ha perdido?, decía uno. ¿Se ha perdido como un niño pequeño?, decía otro. ¿O se ha escondido? ¿Tiene miedo de nosotros? ¿Se habrá embarcado? ¿Habrá emigrado? -así gritaban y reían todos alborotadamente. El loco saltó en medio de ellos y los traspasó con su mirada. «¿Que a dónde se ha ido Dios? -exclamó-, os lo voy a decir. Lo hemos matado: ¡vosotros y yo! Todos somos sus asesinos. Pero ¿cómo hemos podido hacerlo? ¿Cómo hemos podido bebernos el mar? ¿Quién nos prestó la esponja para borrar el horizonte? ¿Qué hicimos, cuando desencadenamos la tierra de su sol? ¿Hacia dónde caminará ahora? ¿Hacia dónde iremos nosotros? ¿Lejos de todos los soles? ¿No nos caemos continuamente? ¿Hacia adelante, hacia atrás, hacia los lados, hacia todas partes? ¿Acaso hay todavía un arriba y un abajo? ¿No erramos como a través de una nada infinita? ¿No nos roza el soplo del espacio vacío? ¿No hace más frío? ¿No viene siempre noche y más noche? ¿No tenemos que encender faroles a mediodía? ¿No oímos todavía el ruido de los sepultureros que entierran a Dios? ¿No nos llega todavía ningún olor de la putrefacción divina? ¡También los dioses se descomponen! ¡Dios ha muerto! ¡Dios permanece muerto! !Y nosotros lo hemos matado! ¿Cómo podremos consolarnos, asesinos entre los asesinos? Lo más sagrado y poderoso que poseía hasta ahora el mundo se ha desangrado bajo nuestros cuchillos. ¿Quién nos lavará esa sangre? ¿Con qué agua podremos purificarnos? ¿Qué ritos expiatorios, qué juegos sagrados tendremos que inventar? ¿No es la grandeza de este acto demasiado grande para nosotros? ¿No tendremos que volvernos nosotros mismos dioses para parecer dignos de ellos? Nunca hubo un acto más grande y quien nazca después de nosotros formará parte, por mor de ese acto, de una historia más elevada que todas las historias que hubo nunca hasta ahora.» Aquí, el loco se calló y volvió a mirar a su auditorio: también ellos callaban y lo miraban perplejos. Finalmente, arrojó su farol al suelo, de tal modo que se rompió en pedazos y se apagó. «Vengo demasiado pronto -dijo entonces-, todavía no ha llegado mi tiempo. Este enorme suceso todavía está en camino y no ha llegado hasta los oídos de los hombres. El rayo y el trueno necesitan tiempo, la luz de los astros necesita tiempo, los actos necesitan tiempo, incluso después de realizados, a fin de ser vistos y oídos. Este acto está todavía más lejos de ellos que las más lejanas estrellas y, sin embargo, son ellos los que lo han cometido.» Todavía se cuenta que el loco entró aquel mismo día en varias iglesias y entonó en ellas su Requiem aeternam deo. Una vez conducido al exterior e interpelado contestó siempre esta única frase: « ¿Pues, qué son ahora ya estas iglesias, más que las tumbas y panteones de Dios?».



Cuatro años más tarde (1886), Nietzsche le añadió un quinto libro a los cuatro de que se componía «La gaya ciencia», titulándolo «Nosotros, los que no tenemos temor». El primer texto de dicho libro (aforismo 343) está titulado: «Lo que pasa con nuestra alegre serenidad». El pasaje comienza así: «El suceso más importante de los últimos tiempos, que ‘Dios ha muerto’, que la fe en el dios cristiano ha perdido toda credibilidad, comienza a arrojar sus primeras sombras sobre Europa.»

Esta frase nos revela que la fórmula de Nietzsche acerca de la muerte de Dios se refiere al dios cristiano. Pero tampoco cabe la menor duda -y es algo que se debe pensar de antemano- de que los nombres Dios y dios cristiano se usan en el pensamiento de Nietzsche para designar al mundo suprasensible en general Dios es e nombre para el ámbito de las ideas los ideales. Este ámbito de lo suprasensible pasa por ser, desde Platón o mejor dicho, desde la interpretación de la filosofía platónica llevada a cabo por el helenismo y el cristianismo, el único mundo verdadero y efectivamente real. Por el contrario, el mundo sensible es sólo el mundo del más acá un mundo cambiante por lo tanto meramente aparente, irreal. El mundo del más acá es el valle de lágrimas en oposición a la montaña de la eterna beatitud de más allá. Si, como ocurre todavía en Kant, llamamos al mundo sensible‘mundo físico’ en sentido amplio, entonces el mundo suprasensible es el mundo metafísico.

La frase «Dios ha muerto» significa que el mundo suprasensible ha perdido su fuerza efectiva. No procura vida. La metafísica, esto es, para Nietzsche, la filosofía occidental comprendida como platonismo, ha llegado al final. Nietzsche comprende su propia filosofía como una reacción contra la metafísica, lo que para él quiere decir, contra el platonismo.

Sin embargo, como mera reacción, permanece necesariamente implicada en la esencia de aquello contra lo que lucha, como le sucede a todos los movimientos contra algo. El movimiento de reacción de Nietzsche contra la metafísica es, como mero desbancamiento de ésta, una implicación sin salida dentro de la metafísica de tal modo, que ésta se disocia de su esencia y, en tanto que metafísica, no consigue pensar nunca su propia esencia. Y así, para la metafísica y por causa de ella, permanece oculto eso que ocurre precisamente dentro de ella y en tanto que ella misma.

Si Dios, como fundamento suprasensible y meta de todo lo efectivamente real, ha muerto, si el mundo suprasensible de las ideas ha perdido toda fuerza vinculante y sobre todo toda fuerza capaz de despertar y de construir, entonces ya no queda nada a lo que el hombre pueda atenerse y por lo que pueda guiarse. Por eso se encuentra en el fragmento citado la pregunta: «¿No erramos a través de una nada infinita?». La fórmula «Dios ha muerto» comprende la constatación de que esa nada se extiende. Nada significa aquí ausencia de mundo suprasensible y vinculante. El nihilismo, «el más inquietante de todos los huéspedes», se encuentra ante la puerta.

El intento de explicar la frase de Nietzsche «Dios ha muerto» debe ponerse al mismo nivel que la tarea de interpretar qué quiere decir Nietzsche con nihilismo, con el fin de mostrar su propia postura respecto a éste. Como, sin embargo, ese nombre se usa a menudo a modo de lema y término provocador, y también muy a menudo como palabra peyorativa y condenatoria, es necesario saber lo que significa. No basta con reclamarse como poseedor de la fe cristiana o alguna convicción metafísica para estar ya fuera del nihilismo. Del mismo modo, tampoco todo el que se preocupa por la nada y su esencia es un nihilista.

Parece que gusta usar ese nombre en un tono como si el mero adjetivo nihilista ya bastase, sin añadirle ningún pensamiento a la palabra, para suministrar la prueba de que una meditación sobre la nada precipita ya en la nada y comporta la instauración de la dictadura de la nada.

En general, habrá que preguntar si el nombre nihilismo, pensado estrictamente en el sentido de la filosofía de Nietzsche, sólo tiene un significado nihilista, es decir, negativo, un significado que empuja hacia una nada anuladora. Así pues, visto el uso confuso y arbitrario de la palabra nihilismo, será necesario -antes de una explicación concreta sobre lo que el propio Nietzsche dice acerca del nihilismo- ganar el correcto punto de vista desde el que podemos permitirnos preguntar por el nihilismo.

El nihilismo es un movimiento histórico, no cualquier opinión o doctrina sostenida por cualquier persona. El nihilismo mueve la historia a la manera de un proceso fundamental, apenas conocido, del destino de los pueblos occidentales. Por lo tanto, el nihilismo no es una manifestación histórica entre otras, no es sólo una corriente espiritual que junto a otras, junto al cristianismo, el humanismo y la ilustración, también aparezca dentro de la historia occidental.

Antes bien, el nihilismo, pensado en su esencia es el movimiento fundamental de la historia de Occidente. Muestra tal profundidad, que su despliegue sólo puede tener como consecuencia catástrofes mundiales. El nihilismo es el movimiento histórico mundial que conduce a los pueblos de la tierra al ámbito de poder de la Edad Moderna. Por eso, no es sólo una manifestación de la edad actual, ni siquiera un producto del siglo XIX, a pesar de que fue entonces cuando se despertó la agudeza visual para captarlo y su nombre se tornó habitual. El nihilismo no es tampoco el producto de naciones aisladas cuyos pensadores y escritores hablen expresamente de él. Aquellos que se creen libres de él, son tal .vez los que más a fondo lo desarrollan. Del carácter inquietante de este inquietante huésped forma parte el hecho de no poder nombrar su propio origen.

El nihilismo tampoco inaugura su predominio en los lugares en que se niega al dios cristiano, se combate el cristianismo o por lo menos, con actitud librepensadora, se predica un ateísmo vulgar. Mientras sigamos limitándonos a ver solamente los diversos tipos de incredulidad que reniegan del cristianismo, bajo sus variadas manifestaciones, nuestra mirada quedará presa de la fachada externa y más precaria del nihilismo. El discurso del loco dice precisamente que la frase «Dios ha muerto» no tiene nada en común con las opiniones confusas y superficiales de los que «no creen en dios». Aquellos que son no creyentes de este modo, no están todavía en absoluto afectados por el nihilismo como destino de su propia historia.

Mientras entendamos la frase «Dios ha muerto» solamente como fórmula de la falta de fe, la estaremos interpretando teológico-apologéticamente y renunciando a lo que le interesa a Nietzsche, concretamente la meditación que reflexiona sobre lo que ha ocurrido ya con la verdad del mundo suprasensible y su relación con la esencia del hombre.

El nihilismo, en el sentido de Nietzsche, no tapa por lo tanto en absoluto ese estado representado de manera puramente negativa que supone que ya no se puede creer en el dios cristiano de la revelación bíblica, y hay que saber que Nietzsche no entiende por cristianismo la vida cristiana que tuvo lugar una vez durante un breve espacio de tiempo antes de la redacción de los Evangelios y de la propaganda misionera de Pablo. El cristianismo es, para Nietzsche, la manifestación histórica, profana y política de la Iglesia y su ansia de poder dentro de la configuración de la humanidad occidental y su cultura moderna. El cristianismo en este sentido y la fe cristiana del Nuevo Testamento, no son lo mismo. También una vida no cristiana puede afirmar el cristianismo y usarlo como factor de poder, en la misma medida en que una vida cristiana no necesita obligatoriamente del cristianismo. Por eso, un debate con el cristianismo no es en absoluto ni a toda costa un ataque contra lo cristiano, así como una crítica de la teología no es por eso una crítica de la fe, cuya interpretación debe ser tarea de la teología. Mientras pasemos por alto estas distinciones esenciales nos moveremos en las bajas simas de las luchas entre diversas visiones del mundo.

En la frase «Dios ha muerto», la palabra Dios, pensada esencialmente, representa el mundo suprasensible de los ideales, que contienen la meta de esta vida existente por encima de la vida terrestre y, así, la determinan desde arriba y en cierto modo desde fuera. Pero si ahora la verdadera fe en Dios, determinada por la Iglesia, se va moviendo hacia adelante, si, sobre todo, la doctrina de la fe, la teología, en su papel como explicación normativa de lo ente en su totalidad, se ve limitada y apartada, no por eso se rompe la estructura fundamental por la que una meta situada en lo suprasensible domina la vida terrestre y sensible.

En el lugar de la desaparecida autoridad de Dios y de la doctrina de la Iglesia, aparece la autoridad de la conciencia, asoma la autoridad de la razón. Contra ésta se alza el instinto social. La huida del mundo hacia lo suprasensible es sustituida por el progreso histórico. La meta de una eterna felicidad en el más allá se transforma en la de la dicha terrestre de la mayoría. El cuidado del culto de la religión se disuelve en favor del entusiasmo por la creación de una cultura o por la extensión de la civilización. Lo creador, antes lo propio del dios bíblico se convierte en distintivo del quehacer humano. Este crear se acaba mutando en negocio.

Lo que se quiere poner de esta manera en el lugar del mundo suprasensible son variantes de la interpretación del mundo cristiano-eclesiástica y teológica, que había tomado prestado su esquema del ordo, del orden jerárquico de lo ente, del mundo helenístico-judaico, cuya estructura fundamental había sido establecida por Platón al principio de la metafísica occidental.

El ámbito para la esencia el acontecimiento del nihilismo es la propia metafísica, siempre que supongamos que bajo este nombre no entendemos una doctrina o incluso una disciplina especial de la filosofía, sino la estructura fundamental de lo ente en su totalidad, en la medida en que éste se encuentra dividido entre un mundo sensible y un mundo suprasensible y en que el primero está soportado y determinado por el segundo. La metafísica es el espacio histórico en el que se convierte en destino el hecho de que el mundo suprasensible, las ideas, Dios, la ley moral la autoridad de la razón, el progreso, la felicidad de la mayoría la cultura y la civilización, pierdan su fuerza constructiva y se anulen. Llamamos a esta caída esencial de lo suprasensible su descomposición. La falta de fe en el sentido de la caída del dogma cristiano, no es por lo tanto nunca la esencia y el fundamento del nihilismo, sino siempre una consecuencia del mismo; efectivamente, podría ocurrir que el propio cristianismo fuese una consecuencia y variante del nihilismo.

Partiendo de esta base podemos reconocer ya el último extravío al que nos vemos expuestos a la hora de captar o pretender combatir el nihilismo. Como no se entiende el nihilismo como un movimiento histórico que existe desde hace mucho tiempo y cuyo fundamento esencial reposa en la propia metafísica, se cae en la perniciosa tentación de considerar determinadas manifestaciones que ya son y sólo son consecuencias del nihilismo como si fueran éste mismo o en la de presentar las consecuencias y efectos como las causas del nihilismo. En la acomodación irreflexiva a este modo de representación se ha adquirido desde hace décadas la costumbre de presentar el dominio de la técnica o la rebelión de las masas como las causas de la situación histórica del siglo y de analizar la situación espiritual de la época desde este punto de vista. Pero cualquier análisis del hombre y de su posición dentro de lo ente, por aguda e inteligente que sea, sigue careciendo siempre de reflexión y lo único que provoca es la apariencia de una meditación, mientras se abstenga de pensar en el lugar donde reside la esencia del hombre y de experimentarlo en la verdad del ser.

Mientras sigamos confundiendo el nihilismo con lo que sólo son sus manifestaciones, la postura respecto al mismo será siempre superficial. Tampoco se irá más lejos por el hecho de armarse de un cierto apasionamiento en su rechazo basado en el descontento con la situación del mundo, en una desesperación no del todo confesada, en el desánimo moral o en la superioridad autosuficiente del creyente.

Frente a esto debemos comenzar por meditar. Por eso le preguntamos ahora al propio Nietzsche qué entiende por nihilismo y dejamos por ahora abierta la cuestión de si, con su comprensión, Nietzsche ya acierta y puede acertar con la esencia del nihilismo.

En una anotación del año 1887 Nietzsche plantea la pregunta (Voluntad de Poder, afor. 2): «¿Qué significa nihilismo?». Y contesta: «Que los valores supremos han perdido su valor».

Esta respuesta está subrayada y acompañada de la siguiente explicación: «Falta la meta, falta la respuesta al ‘porqué’».

De acuerdo con esta anotación, Nietzsche concibe el nihilismo como un proceso histórico. Interpreta tal suceso como la desvalorización de los valores hasta entonces supremos. Dios, el mundo suprasensible como mundo verdaderamente ente que todo lo determina, los ideales e ideas, las metas y principios que determinan y soportan todo lo ente y, sobre todo, la vida humana, todas estas cosas son las que se representan aquí como valores supremos. Según la opinión que todavía sigue siendo usual, por valores supremos se entiende lo verdadero, lo bueno y lo bello: lo verdadero, esto es, lo verdaderamente ente; lo bueno, esto es, lo que siempre importa en todas partes; lo bello, esto es, el orden y la unidad de lo ente en su totalidad. Pero los valores supremos ya se desvalorizan por el hecho de que va penetrando la idea de que el mundo ideal no puede llegar a realizarse nunca dentro del mundo real. El carácter vinculante de los valores supremos empieza a vacilar. Surge la pregunta: ¿para qué esos valores supremos si no son capaces de garantizar los caminos y medios para una realización efectiva de las metas planteadas en ellos?

Ahora bien, si quisiéramos entender al pie de la letra la definición de Nietzsche según la cual la esencia del nihilismo es la pérdida de valor de los valores supremos, obtendríamos una concepción de la esencia del nihilismo que entretanto se ha vuelto usual, en gran medida gracias al apoyo del propio título nihilismo y que supone que la desvalorización de los valores supremos significa, evidentemente, la decadencia. Lo que ocurre es que, para Nietzsche, el nihilismo no es en absoluto únicamente una manifestación de decadencia, sino que como proceso fundamental de la historia occidental es, al mismo tiempo y sobre todo, la legalidad de esta historia. Por eso, en sus consideraciones sobre el nihilismo, a Nietzsche no le interesa tanto describir históricamente la marcha del proceso de desvalorización de los valores supremos, para acabar midiendo la decadencia de Occidente, como pensar el nihilismo en tanto que «lógica interna» de la historia occidental.

Procediendo así, Nietzsche reconoce que a pesar de la desvalorización de los valores hasta ahora supremos para el mundo, dicho mundo sin embargo sigue ahí y que ese mundo en principio privado de valores tiende inevitablemente a una nueva instauración de valores. Después de la caída de los valores hasta ahora supremos, la nueva instauración de valores se transforma, en relación con los valores anteriores, en una «transvaloración de todos los valores». El no frente a los valores precedentes nace del sí a la nueva instauración de valores. Como en ese sí, según la opinión de Nietzsche, no se encierra ningún modo de mediación y ninguna adecuación respecto a los valores anteriores, el no incondicionado entra dentro de ese nuevo sí a la nueva instauración de valores. A fin de asegurar la incondicionalidad del nuevo sí frente a la recaída en los valores anteriores, esto es, a fin de fundamentar la nueva instauración de valores como movimiento de reacción, Nietzsche designa también a la nueva instauración de valores como nihilismo, concretamente como ese nihilismo por el que la desvalorización se consuma en una nueva instauración de valores, la única capaz de ser normativa. Nietzsche llama a esta fase normativa del nihilismo el nihilismo «consumado», esto es, clásico. Nietzsche entiende por nihilismo la desvalorización de los valores hasta ahora supremos. Pero al mismo tiempo afirma el nihilismo en el sentido de «transvaloración de todos los valores anteriores». Por eso, el nombre nihilismo conserva una polivalencia de significado y, desde un punto de vista extremo, es en todo caso ambiguo, desde el momento en que designa por un lado a la mera desvalorización de los valores hasta ahora supremos, pero al mismo tiempo se refiere al movimiento incondicionado de reacción contra la desvalorización. En este sentido es también ambiguo eso que Nietzsche presenta como forma previa del nihilismo: el pesimismo. Según Schopenhauer, el pesimismo es la creencia por la que en el peor de estos mundos la vida no merece la pena de ser vivida ni afirmada. Según esta doctrina, hay que negar la vida y esto quiere decir también lo ente como tal en su totalidad. Este pesimismo es, según Nietzsche, el «pesimismo de la debilidad». No ve en todas partes más que el lado oscuro, encuentra para todo un motivo de fracaso y pretende saber que todo acabará en el sentido de una catástrofe total. Por el contrario, el pesimismo de la fuerza, en cuanto fuerza, no se hace ilusiones, ve el peligro y no quiere velos ni disimulos. Se da cuenta de lo fatal que resulta una actitud de observación pasiva, de espera de que retorne lo anterior. Penetra analíticamente en las manifestaciones y exige la conciencia de las condiciones y fuerzas que, a pesar de todo, aseguran el dominio de la situación histórica.

Una meditación más esencial podría mostrar cómo en eso que Nietzsche llama «pesimismo de la fuerza» se consuma la rebelión del hombre moderno en el dominio incondicionado de la subjetividad dentro de la subjetidad de lo ente. Por medio del pesimismo, en su forma ambigua, los extremos se hacen a la luz. Los extremos obtienen, como tales, la supremacía. Así surge un estado en el que se agudizan las alternativas incondicionadas hasta moverse entre un o esto o lo otro. Se inicia un «estado intermedio» en el que se manifiesta, por un lado, que la realización efectiva de los valores hasta ahora supremos no se cumple. El mundo parece carente de valores. Por otro lado, en virtud de esta concienciación, la mirada escudriñadora se orienta hacia la fuente de la nueva instauración de valores, sin que el mundo recupere por eso su valor.

Sin embargo, a la vista de cómo se conmueven los valores anteriores, también se puede intentar otra cosa. Efectivamente, aunque Dios, en el sentido del dios cristiano, haya desaparecido del lugar que ocupaba en el mundo suprasensible, dicho lugar sigue existiendo aun cuando esté vacío. El ámbito ahora vacío de lo suprasensible y del mundo ideal puede mantenerse. Hasta se puede decir que el lugar vacío exige ser nuevamente ocupado y pide sustituir al dios desaparecido por otra cosa. Se erigen nuevos ideales. Eso ocurre, según la representación de Nietzsche (Voluntad de Poder, afor. 1.021 del año 1887), por medio de las doctrinas de la felicidad universal y el socialismo así como por medio de la música de Wagner, esto es, en todos los sitios en los que el «cristianismo dogmático no tiene más recursos». Así es como aparece el «nihilismo incompleto». A este respecto Nietzsche dice así (Voluntad de Poder, afor. 28 del año 1887): «El nihilismo incompleto, sus formas: vivimos en medio de ellas. Los intentos de escapar al nihilismo, sin necesidad de una transvaloración de los valores anteriores traen como consecuencia lo contrario y no hacen sino agudizar el problema».

Podemos resumir el pensamiento de Nietzsche sobre el nihilismo incompleto de manera más clara y precisa diciendo: es verdad que el nihilismo incompleto sustituye los valores anteriores por otros, pero sigue poniéndolos en el antiguo lugar, que se mantiene libre a modo de ámbito ideal para lo suprasensible. Ahora bien, el nihilismo completo debe eliminar hasta el lugar de los valores, lo suprasensible en cuanto ámbito, y por lo tanto poner los valores de otra manera, transvalorarlos.

De aquí se deduce que para el nihilismo completo, consumado y, por tanto, clásico, se precisa ciertamente de la «transvaloración de todos los valores anteriores», pero que la transvaloración no se limita a sustituir los viejos valores por otros nuevos. Esa transvaloración es una inversión de la manera y el modo de valorar. La instauración de valores necesita un nuevo principio, esto es, renovar aquello de donde parte y donde se mantiene. La instauración de valores precisa de otro ámbito. Ese principio ya no puede ser el mundo de lo suprasensible ahora sin vida Por eso el nihilismo que apunta a la inversión así entendida, buscará lo que tenga más vida. De este modo, el propio nihilismo se convierte en «ideal de la vida pletórica» (Voluntad de Poder, afor. 14 del año 1887). En este nuevo valor supremo se esconde otra consideración de la vida, esto es, de aquello en lo que reside la esencia determinante de todo lo vivo. Por eso queda por preguntar qué entiende Nietzsche por vida.

La indicación acerca de los diferentes grados y formas del nihilismo muestra que, según la interpretación de Nietzsche, el nihilismo es siempre una historia en la que se trata de los valores, la institución de valores, la desvalorización de valores, la inversión de valores, la nueva instauración de valores y, finalmente y sobre todo, de la disposición, con otra manera de valorar, del principio de toda instauración de valores. Las metas supremas, los fundamentos y principios de lo ente, los ideales y lo suprasensible, Dios y los dioses, todo esto es comprendido de antemano como valor. Por eso, sólo entenderemos suficientemente el concepto de Nietzsche de nihilismo si sabemos qué entiende Nietzsche por valor. Sólo entonces comprenderemos la frase «Dios ha muerto» tal como fue pensada. La clave para comprender la metafísica de Nietzsche es una explicación suficientemente clara de lo que piensa con la palabra valor.

En el siglo XIX se vuelve usual hablar de valores y pensar en valores. Pero sólo se hizo verdaderamente popular gracias a la difusión de las obras de Nietzsche. Se habla de valores vitales, de valores culturales, de valores eternos, del orden y rango de los valores, de los valores espirituales, que se cree encontrar, por ejemplo, en la Antigüedad. Gracias a una ocupación erudita con la filosofía y a la reforma del neokantismo se llega a la filosofía de los valores. Se construyen sistemas de valores y en ética se persiguen los estratos de valores. Hasta la teología cristiana determina a Dios, el summum ens qua summum bonum, como el valor supremo. Se considera a la ciencia como libre de valores y se arroja a las valoraciones del lado de las concepciones del mundo. El valor y todo lo que tiene que ver con el valor se convierte en un sustituto positivo de lo metafísico. La frecuencia con que se habla de valores está en paralelo con la indefinición del concepto. Dicha indefinición, a su vez, está en paralelo con la oscuridad del origen de la esencia del valor en el ser. Aun suponiendo que ese valor tan reclamado no sea nada, no por eso deja de verse obligado a tener su esencia en el ser.

¿Qué entiende Nietzsche por valor? ¿En qué se funda la esencia del valor? ¿Por qué la metafísica de Nietzsche es la metafísica de los valores?

En una anotación (1887/88) Nietzsche dice lo que entiende por valor (Voluntad de Poder, afor. 715): « El punto de vista del ‘valor’ es el punto de vista de las condiciones de conservación y aumento por lo que se refiere a formaciones complejas de duración relativa de la vida dentro del devenir».

La esencia del valor reside en ser punto de vista. Valor se refiere a aquello que la vista toma en consideración. Valor significa el punto de visión para un mirar que enfoca algo o, como decimos, que cuenta con algo y por eso tiene que contar con otra cosa. El valor está en relación interna con un tanto, con un quantum y con el número. Por eso, los valores (Voluntad de Poder, afor. 710 del año 1888) se ponen siempre en relación con una «escala de números medidas». Subsiste la cuestión de dónde se fundamenta a su vez la escala de aumento y disminución.

Gracias a la caracterización del valor como punto de vista aparece algo esencial para el concepto de valor de Nietzsche: en cuanto punto de vista, dicho concepto es planteado siempre por un mirar y para él. Este mirar es de tal naturaleza que ve en la medida en que ha visto; que a visto en la medida en que ha situado ante sí, ha representado a lo vislumbrado como tal y, de este modo o ha dispuesto. Es sólo por medio de este poner representador como el punto necesario para ese enfocar hacia algo y así guiar la órbita de visión de este ver, se convierte en punto de visión, es decir, en aquello que importa a la hora de ver y de todo hacer guiado por la vista. Por lo tanto, los valores no son ya de antemano algo en sí de tal modo que pudieran ser tomados ocasionalmente como puntos de vista.

El valor es valor en la medida en que vale. Vale, en la medida en que es dispuesto en calidad de aquello que importa. Así, es dispuesto por un enfocar y mirar hacia aquello con lo que hay que contar. El punto de visión, la perspectiva, el círculo de visión significan aquí vista y ver en un sentido determinado por los griegos, aunque teniendo en cuenta la transformación sufrida por la idea desde el significado de eädow al de perceptio. Ver es ese representar que, desde Leibniz, es entendido expresamente bajo el rasgo fundamental de la aspiración (appetitus). Todo ente es representador, en la medida en que al ser de lo ente le pertenece el nisus el impulso de aparecer en escena que ordena a algo que aparezca (manifestación) y de este modo determina su aparición. La esencia caracterizada como nisus de todo ente se entiende de esta manera y pone para sí misma un punto de vista que indica la perspectiva que hay que seguir. El punto de vista es el valor.

Según Nietzsche, con los valores en tanto que puntos de vista se establecen «las condiciones de conservación y aumento». La propia manera que tiene de escribir estas palabras en su lengua, sin la conjunción «y» entre conservación y aumento, que ha sido sustituida por un guión de unión *, le sirve a Nietzsche para hacer notar que los valores, en cuanto puntos de vista, son esencialmente, y por lo tanto siempre, condiciones de la conservación y el aumento. En donde se disponen valores hay que considerar siempre ambos tipos de condición, de tal modo que permanezcan unitariamente en mutua relación. ¿Por qué? Evidentemente solo porque lo ente mismo, en su aspiración y representación, es de tal modo en su esencia que necesita de ese doble punto de visión. ¿De qué son condiciones los valores como puntos de vista si tienen que condicionar al mismo tiempo la conservación y el aumento?

Conservación y aumento caracterizan los rasgos fundamentales de la vida, los cuales se pertenecen mutuamente dentro de sí. A la esencia de la vida le toca el querer crecer, el aumento. Toda conservación de vida se encuentra al servicio del aumento de vida. Toda vida que se limita únicamente a la mera conservación es ya una decadencia. Por ejemplo, para un ser vivo asegurarse el espacio vital nunca es una meta, sino sólo un medio para el aumento de vida. Viceversa, una vida aumentada acrecienta la necesidad anterior de ampliar el espacio. Pero no es posible ningún aumento si no existe ya y se conserva un estado asegurado y sólo de ese modo capaz de aumento. Lo vivo es por tanto una «formación compleja de vida» constituida por la unión de ambos rasgos fundamentales, el aumento y la conservación. Los valores, en su calidad de puntos de vista, guían la visión hacia «la contemplación de las formaciones complejas». La visión es, en cada caso, visión de una mirada vital que domina sobre todo ser vivo. Desde el momento en que dispone los puntos de visión para los seres vivos, la vida se muestra en su esencia como instauradora de valores (vid. Voluntad de Poder, afor. 556 del año 1885/86).

Las «formaciones complejas de vida» dependen de las condiciones de una conservación y una permanencia tal que lo permanente sólo permanece a fin de volverse no permanente en el aumento. La duración de esta formación compleja de la vida reposa en la relación alternante de conservación y aumento. Por eso, es sólo relativa. Sigue siendo una «duración relativa» de lo vivo, esto es, de la vida.

Según las palabras de Nietzsche, el valor es «punto de vista de las condiciones de conservación y aumento por lo que se refiere a formaciones complejas de duración relativa de la vida dentro del devenir». La palabra devenir, sola y sin determinar, no significa ni aquí, ni en general en el lenguaje de los conceptos de la metafísica de Nietzsche, algún modo de fluir de todas las cosas, el mero cambio de los estados, ni tan siquiera alguna evolución o desarrollo indeterminado. «Devenir» significa el tránsito de una cosa a otra, ese movimiento y movilidad que Leibniz llama en su Monadología (parágrafo 11) changements naturels y que domina a través del ens qua ens, esto es, del ens percipiens et appetens. Nietzsche piensa ese dominio en tanto que rasgo fundamental de todo lo efectivamente real, es decir, en un sentido amplio, de lo ente. Eso que determina de este modo a lo ente en su essentia lo concibe como «voluntad de poder».

Si Nietzsche cierra su caracterización de la esencia del valor con la palabra devenir hay que concluir que esa palabra final nos señala el ámbito fundamental al que únicamente y en general pertenecen los valores y la instauración de valores. «El devenir» es, para Nietzsche, « la voluntad de poder». La «voluntad de poder» es por tanto el rasgo fundamental de la «vida», palabra que Nietzsche también usa a menudo en un sentido amplio que la pone al mismo nivel que el «devenir» dentro de la metafísica (vid. Hegel). Voluntad de poder, devenir, vida y ser en su sentido más amplio significan en lenguaje de Nietzsche lo mismo (Voluntad de Poder, afor. 582 del año 1885/86 y afor. 689 del año 1888). Dentro del devenir, la vida, esto es, lo vivo, se configura en centros respectivos de la voluntad de poder. Estos centros son en consecuencia formaciones de poder. Es en cuanto tales como Nietzsche entiende el arte, el Estado, la religión, la ciencia la sociedad. Por eso puede decir (Voluntad de Poder, afor. 715) lo siguiente: «‘Valor' es esencialmente el punto de vista para la consolidación o la debilitación de estos centros de dominio» (concretamente en lo tocante a su carácter de dominio).

En la medida en que, en la demarcación de la esencia del valor que hemos presentado, Nietzsche concibe a ésta como condición con carácter de punto de vista para el aumento y la conservación de la vida, pero entiende que la vida se fundamenta en el devenir como voluntad de poder, dicha voluntad de poder se desvela como aquello que establece esos puntos de vista. La voluntad de poder es la que estima según valores a partir de su «principio interno» (Leibniz), en tanto que nisus en el esse del ens. La voluntad de poder es el fundamento para la necesidad de instauración de valores y el origen de la posibilidad de una valoración. Por eso dice Nietzsche (Voluntad de Poder, afor. 14 del año 1887: «Los valores y su transformación se encuentran en relación con el aumento de poder del que plantea los valores.»

Aquí se hace evidente que los valores son las condiciones de la voluntad de poder puestas por ella misma. Sólo allí, en donde la voluntad de poder hace su aparición como rasgo fundamental de todo lo efectivamente real, esto es, allí en donde se torna verdadera y, por consiguiente, es concebida como la realidad efectiva de todo lo efectivamente real, se muestra de dónde surgen los valores y por medio de qué es soportada y guiada toda valoración. Ahora se reconoce el principio de la instauración de valores. La instauración de valores es a partir de ahora realizable «principalmente», esto es, a partir del ser en tanto que fundamento de lo ente.

Por eso, la voluntad de poder es al mismo tiempo, en tanto que ese principio reconocido y por consiguiente querido, el principio de una nueva instauración de valores. Es nueva, porque se consuma por primera vez conscientemente a partir del saber de su principio. Es nueva, porque se asegura ella misma de su principio y mantiene fijamente esa seguridad a modo de un valor planteado a partir de dicho principio. Pero la voluntad de poder es, en cuanto principio de la nueva instauración de valores y en relación con los valores anteriores, el principio de la transvaloración de todos los valores anteriores. Como, sin embargo, los valores hasta ahora supremos dominaban sobre lo sensible desde las alturas de lo suprasensible y dado que la estructura de este dominio es la metafísica, tenemos que con la instauración del nuevo principio de transvaloración de todos los valores se consuma la inversión de toda metafísica. Nietzsche considera esta inversión como una superación de la metafísica. Pero, cegándose a sí misma, toda inversión de este tipo sigue estando siempre implicada en lo mismo, que se ha vuelto irreconocible.

Ahora bien, en la medida en que Nietzsche concibe el nihilismo como la legalidad en la historia de la desvalorización de los valores hasta ahora supremos, pero concibe la desvalorización en el sentido de una transvaloración de todos los valores, según su interpretación, el nihilismo reside en el dominio y el desmoronamiento de los valores y, por lo tanto, en la posibilidad de una instauración de valores en general. Esta misma se fundamenta en la voluntad de poder. Por eso es por lo que la frase de Nietzsche «Dios ha muerto» y su concepto del nihilismo sólo se pueden pensar suficientemente a partir de la esencia de la voluntad de poder. Por eso, cuando explicamos qué piensa Nietzsche con la fórmula «voluntad de poder», que él mismo acuñó, damos el último paso en dirección al esclarecimiento de la consabida frase.