terça-feira, 31 de julho de 2007

QUE QUERES?
Não vais ficar junto a
melhor fonte solitária

domingo, 29 de julho de 2007

TRIO. Sou nada
sonata de secreto
tilintar
Cale-me a calma em
conforme sou
RIMA

sábado, 28 de julho de 2007

SECO. Não. Ninguém
ou/e nada
me calará
por sobre o muro das
lamentáveis considerações
TERCEIRO. Muito
de mel e com trigo
posto
e dado
e o sorriso, ambiquerido GERALMENTE. Me tens
ao céu posto
caindo sobre a nave
do teu seio

sexta-feira, 27 de julho de 2007

SEGUNDO. Neste aqui posto
secundário ou perto
não me abraçarás
jamais

quinta-feira, 26 de julho de 2007


PRIMEIRO. De folhas
se compara a rosa
incolor da tua nudez
Depressa alcançarei
a missão textura antiga

quarta-feira, 25 de julho de 2007


que me aparto de vós, oh óleos
do Rio Negro. Das axilas
de coca-cola, de mel. Produto impuro
banho de esperma que ferve
pelas paquidérmicas chatas
vos deixo, oh mãe de orquídeas terra
régia fera guerra estéril e amorosa
e no longo corredor me enrosco
meu aeroplano tece
sobre vossas plastificadas canoas de ferro
goma arábica ungüento espesso
caboclo jovem mãe planície
negra magra seda
de vós finalmente me aparto
oh águas lixiviadas e menstruais
lembranças de ventres de tarântulas
de cristais
de vós me aparto para sempre!
esmorecido de vós, sucumbido
por vossa fênix, por vosso lenho
vos esqueço, oh pélvica morada
de mortos deuses, de profundos silos
e neste ar meu aeroplano tece
e é expelido pelas tuas pernas.

terça-feira, 24 de julho de 2007

A ESTRADA


A ESTRADA

Rogel Samuel

Da sinuosa estrada entre as montanhas verdes vem uma barreira horizontal. No alto, um céu brilha como um cristal fosco e imóvel. Estamos na Mantiqueira. E passamos a divisa dos Municípios de Delfim Moreira e Venceslau Brás. Os rios do Brasil estarão todos poluídos? Dia virá em que vamos ter falta de água potável. O Rio Sapucaí está ameaçado pelo lixo. Mas os bois, no grande pasto, parecem em paz. À margem, um caminhão tombado. É um gigante morto. Leio um poema de Guillén, traduzido por Thiago de Mello. As estrofes, os versos se embaralham na minha mente. Guillén, um dos poetas preferidos de certo aluno de literatura no Colégio Estadual. Eu já vinha lendo poesia desde que encontrei Camões num livro de primeiro grau:
Oh! lavradores bem-aventurados,
se conhecessem seu contentamento.
Aqueles versos cantam agora, vendo os bois no pasto. Até hoje ouço o compasso daqueles versos. A estrada sinuosa e verde continua. Um dia chegarei ao fim.
Mas o deserto está crescendo. Na serra da Mantiqueira, região de Piquete, desapareceram as florestas. As montanhas despontam, secas, nuas. Isso até parecia natural na Via Dutra, mas ali é novidade. Dali até o vale de Itajubá a devastação avançou em poucos meses. À direita da estrada pode-se ver um lixão às
margens do rio que vai cortar a cidade de Itajubá e onde poucos quilômetros abaixo crianças tomam banho e adolescentes nadam. De Itajubá até Poços de Caldas as antigas vilas se transformaram em cidades que, sem planejamento, estão plantadas no meio da planície deserta de avermelhado de barro. Na próxima grande chuva o rio que corta a cidade de Itajubá pode transbordar, entulhado. O nosso país caminha para um
desastre ecológico: o rios se transformaram em esgotos escuros, e os riachos se transformaram em valas negras. “O deserto está crescendo. Desventurado quem abriga desertos”.

Mas eu festejo solitariamente os 44 anos de minha poesia. O primeiro poema que publiquei na vida foi no dia 8 de fevereiro de l959 em O jornal de Manaus.
Não um poema de que me envergonhe de todo, afinal eu tinha 16 anos e aparecem versos até razoáveis como:
o vento
o córrego entre as
montanhas
a lua líquida
sobre a superfície
Havia todos os lugares-comuns da tradição poética, ou seja, poetizando a "poesia" com todos os chavões conhecidos de que não me libertei até hoje.
Sim, festejo silenciosamente os 40 anos de minha poesia. Não escrevo isto com tristeza, mas até com certa vitória. Afinal, bem ou mal foram 40 anos de produção literária. Há quem não tenha tido nem isso de vida.

sábado, 21 de julho de 2007

WOODSTOK


Rogel Samuel


À noite, no meu quarto, leio poema de James Hopkins. Ele é poeta premiado americano, autor do livro “ eight pale women”, ganhou o prêmio “ Word works”, da cidade de Washington, conferido por este organização literária. Hopkins é um rapaz jovem, bonito, com longos cabelos. Conheci-o em Walden, New York. Ele me pede que escreva sobre seu livro, que é muito bom.
Naquele dia fui a Woodstook.
Estive lá recentemente duas vezes.
Na primeira vez chegamos ao anoitecer. Fomos diretos para o alto da montanha, onde nos esperava uma reunião. Quase não sentimos o lugar. Só sua atmosfera. Não da nostalgia, ou da memória do festival de música de 1969 – que não foi mesmo realizado lá – mas no ar havia algo daquele bom tempo dos hippies que fomos, dos cabelos compridos, das nossas sandálias, das nossas artes, das nossas almas puras.
Sim, porque éramos uma geração de jovens de almas puras, amávamos a música, as fotos, as histórias, a natureza. Não vivíamos, acampávamos neste mundo. Fomos ali, em Woodstock, para reencontrar-nos. Woodstock não era uma cidadezinha nas montanhas, mas um lugar no nosso coração. Vi, logo que cheguei, que não tínhamos ficado velhos, que ainda estávamos no jogo da vida, que ainda amávamos nossa jornada.
Na segunda vez fui mais cedo, na hora do almoço, a Woodstook.
Almoçamos em pequeno restaurante onde, à noite, havia música. Os dois garçons, jovens e andróginos, já eram de outra era. A cozinha excelente. Depois, com minhas duas amigas americanas, “fomos às compras”. Woodstok agora é um grande shopping. Particularmente, nada vi interessante. Mas gosto de shopping. O melhor foram as lojas de artigos orientais. Principalmente uma, chamada “Dharmaware”. Mas tudo muito caro, para nós, brasileiros. Entro num sebo. Nada vi, que me entusiasmasse. Um rapaz, na rua, tenta-me desesperadamente vender duas fitas cassetes usadas por dois dólares. Ele tem ansiedade nos olhos, tem pressa. Arrependo-me de não ter comprado, ainda que desconfie por que ou de que ele precisa, ou por isso mesmo.
Num supermercado comprei uma caneta, que tenho usado até hoje. É um modelo antigo, de aço inoxidável. Gosto de canetas, já tive uma boa coleção. A maioria de pena. Mas hoje só consigo escrever no computador.
Faz calor, em Woodstock. Sinto-me cansado, desanimado. Estou perdendo o interesse, o gosto pelas coisas. Woodstock sem o clima místico de paz, de amor dos anos sessenta. Estamos na era Bush. “Os nossos ídolos morreram de overdose”. Já não somos os mesmos.
À noite, no meu quarto, leio um poema de James Hopkins. O poema diz, mais ou menos assim, que traduzo: “ trate \ os fantasmas \ do quase-passado \ com um pouco mais de respeito -- \ aquelas vaporosas pistas que derivam dos parques \ aproveitam as ruas \ em segredo. \ o tremor \ apenas \ no vértice \ da escuridão \ quando o vermelho \ escorreu do céu. \ a sombra que pisca \ no canto de seu olho \ antes da noite \ engolir \ a lua”.
Fecho o livro, a luz da cabeceira. Fecho os olhos. Adormeço. Rondam os fantasmas da noite.

quarta-feira, 18 de julho de 2007


Canto dois

Rogel Samuel

Sucede que assentou num banco de pedra
com todo pedantismo que de sempre
lhe era familiar. Naquela praça distante
ficava a esperar e a pensar
- mas o que estava esperando senão morte
neste ponto nem via que por ali
poderiam encontrá-lo. As lanternas
que partiam iluminavam-no violentamente
de vermelho. E ele espera calado
com suaves sentimentos depressivos
havia andado tanto depois de ter fugido
que atrás dele no largo da praça estariam
mas ele nada mais queria fazer. As crianças
corriam gritos pela noite. Morna e plácida
provinciana geografia, geometria mortal
irmã do sonho. Dois velhos caminhavam pelas
sombras da noite, cada um com seu embrulho.
Ele estava bem, ali. E até poderia
dormir sob os faróis dos carros que cruzavam
o que sentia. Em breve, porém, ficou sentindo
um gosto mole de aço e de azedume
como se o vento que vinha sobre ele reto
pudesse lhe cavar um fosso dentro
Às vezes algumas lembranças familiares
o levavam num passeio da imaginação
e era como se sua mãe, tia e sobrinha
dissessem ser agradável viver ali
e de pensar naquelas pessoas ternas
não havia os tais carros e seus sistemas.
O pregador e seu dilema. Um viver que o sustenta,
circunda, pega, o põe indiferente.
Ele nada mais via naquele fundo
tudo que estava, tudo que faltava estava ali.
A noite que o circunda nas vidraças
altas prolongava aquela letargia e acomodação.
Era tempo. Pois no dia em que almoçaram juntos
havia muito sol. Depois do almoço
andaram até a margem, a praia onde estavam
sempre. Havia um vento, uma frescura quase fria,
e o gosto na boca era de pomar
Todas as reverberações no tanque
além do gradil de ferro ofuscava por momentos
O mundo enquadrado estava claramente
limpo, sadio, em sossego. Ele tomava
de algo no bolso e começava por alguns instantes
a brincar. E o metálico do papel
que o envolvia riscava o céu de diamantes
Mas o sabor era excelente, a dissolução
lenta, excitante. Salivava. Estava alegre
de estar sentindo. Havia pássaros descendo.
Os edifícios agora na manhã
espelhos de fantásticas vitrines. A camisa
aberta com suas asas desarticuladas
exibindo o ventre arqueado. Ele tinha naquele
instante a silhueta mais de pássaro do que
do pobre rato e, descendo a vista poder-
se-ia ver a sua forte carnação. E desde o pescoço
sólido até as pernas, tesas, tensas, quase tortas
o seu corpo se contorcia e se deslocava
numa dança que andava. Tudo viu. Andou
sem jeito até bem perto do vidro. E um grupo
de turistas passava. Alegres e por detrás
no fundo da imagem. Alegres, falavam, não
o viam, nenhum deles. Sua presença era dureza
e aridez. E tendo visto saiu assombrado
da marquise, da rua com seus gritos com
seus giros e para lá se dirigiu, seus passos
sobre a calçava levavam, vagava
Um bar fechava as portas. A noite
era dos afastados lampiões que se apagavam
e uma leitosa névoa cinza anunciava
a madrugada. Seus sapatos molhados
seus olhos molhados. Na mecânica
da tristeza de andar, sem atinar, sem saber para quê.
Procurava e ter para onde vir não, não mais
chorava estava diante da nobre descoberta
passara sombra futuro deixava
inquietar pelo menos durante aquele
tempo mas como se mudava alternava era
possível que em breve nova orda deprimente
o tomaria como uma agitação nervosa
angustiante ele fugia e na realidade
procurava andava atrás da fuga era
possível que soubesse e dele era o que
não tinha bem certeza o perseguiam
hoje mesmo o pensava a fuga era uma
engrenagem necessária e exercera
como o que tentava alcançar e não sabia
e o alcançava rodeando aquela parte daquela
cidade perigosa das pessoas cujas portas
franqueavam sem que pudesse regressar
sensação de que tudo estava excluído para
quando entrou experimentou logo
a solidão daquele espaço vazio
atravessando a área descobriu no outro
o lado o disfarce a saída que apontava
e uma estrada que partia sempre
e ninguém passava por aquela estrada só
os inúteis os demônios inúteis o fundo descortinava
o vale as grandes montanhas além
morcegos de vento passavam por ali idos
musguentos com estrídulos chiados estilhaços
quebravam o ar com seus gritos suas
negrinhas asas cobrindo o sol a lua estrelas.
e ouvir o trinar grave e reto
de certas aves ocultas travo rouco baixo e grave
monstro e seu arquejar forte seu resfolegar
abrindo um túnel de torpor e medo as abas da morte
se abrindo par em par e rolando aquela parte
se postou para frente oh estrada! quando vinha
soturno a triste impressão que navegava
a luz da morte seus faróis aquela parte
obscura e perdida onde ocorria tudo
chamado vento sangue não

terça-feira, 17 de julho de 2007

A espada das mão vazias


Rogel Samuel





Fernando Pessoa é perfeito. Em tudo o que fez. Leio «O guardador de rebanhos», a sua técnica de meditação. Na melhor tradição dos mestres Zen, ele diz: sou um pastor de pensamentos.


«Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

«Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.»

Reúne ele os pensamentos como um pastor suas ovelhas. Para que não se percam. Não se extraviem. Não divaguem. Não delirem. Reúne suas ovelhas dentro de si. É o que o Zen diz: «Viver dentro da casa». Dentro da casa é dentro de si. « Permanecer como se é, estar completo em si mesmo ... cada manhã é uma boa manhã, cada dia um lindo dia, não importa a tormenta que esteja desabando... » (Suzuki, «Viver através do Zen»).

Diz Suzuki que o poeta Hakuin (1685-1768) explica aquilo assim:

«As formigas vagarosas lutam para carregar as asas de uma libélula morta;

As andorinhas da primavera pousam lado a lado num ramo de salgueiro;

As fêmeas dos bichos-da-seda, pálidas e cansadas, ficam imóveis segurando as cestas repletas de folhas de amora;

Os garotos da vila são vistos com rebentos de bambu roubados arrastando-se através das cercas quebradas.»

Mas não é para ser compreendido! Se for compreendido, terá outro sentido. Nossas experiências diárias «são de fato experiências do Zen, mas não conseguimos reconhecer isso porque nós, como seres intelectuais, perdemos algo que nos permitia entender o significado».

Que perdemos? Perdemos a beleza. A claridade. Não vemos a beleza dos pássaros no céu, as flores na terra. A luz sobre a montanha, as sombras estreladas da noite.

A vida em si é beleza, algo misterioso. Escapa à compreensão intelectual.

Sotoba, um dos poetas da dinastia Sung, escreveu:

«A chuva nebulosa no Monte Lu,
E as vagas encapeladas no Che Kiang;
Quando ainda não se esteve lá
Muita mágoa se possui;
Mas uma vez lá e para casa se encaminhando,
Quantas coisas prosaicas se observa!
A chuva nebulosa no Monte Lu,
E as vagas encapeladas no Che Kiang.»
[Suzuki, «Essays in Zen Buddhism», I, p. 22.]

«Não há nada especial»: O mesmo velho mundo... e não obstante deve haver algo novo e belo na nossa consciência, pois de outra forma não se poderia dizer: "Está tudo o mesmo".

Uma grande mudança, uma grande iluminação teve lugar. Mas tudo está o mesmo.

Por isso um monge jardineiro aproximou-se certa vez do mestre e manifestou-lhe o desejo de ser iluminado no Zen. O mestre disse: «Venha novamente quando não houver ninguém por perto». No dia seguinte, o monge observou que não havia ninguém perto e implorou-lhe para revelar o segredo. Disse o mestre: "Aproxime-se mais de mim". O monge chegou mais perto dele. Disse então o mestre: "O Zen é algo que não pode ser transmitido por palavras".

Algum segredo foi revelado? Sim, o sol brilha no luminoso dia. E ele está alegre e feliz.

Pessoa reúne seus pensamentos como um jogador reúne suas cartas de baralho. São os pensamentos-realidade, pensamentos-pedras.

Desconfia das aparências, das ilações. O Ser só existe quando se torna consciente de si mesmo, diz Suzuki. Mantêm-se na arte da atenção, da presença. Quando ver, ver. Quando ouvir, somente ouvir. Não sair. A distração, para o mestre Zen, é a morte. Como para o lutador de espadas. A alegria, a felicidade está no momento presente, no fragmento presente.

E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

O passado é um cadáver morto e podre, o futuro é ilusão e desconhecido. Passado e futuro trazem confusão mental, sofrimento. Se me deixo na confusão de minhas ilusões fico perdido e em perigo, como quem escala a montanha. Ver é ver, pensar é pensar. Cada um de cada vez. Ver e pensar ao mesmo tempo é a loucura burra das fantasias irreais. Uma realidade só se dá única. Ver e estar consciente de que estou vendo, pensar e estar consciente de que estou pensando. Um guardador de rebanhos.

É por isso que digo que Pessoa era perfeito, em tudo o que fazia, que fechava os olhos e deitava na relva. Pleno. Na rainha das meditações, a realidade plena. Plenamente alcançada. Desperto. Livre.

Como diz o Zen: «Seguro uma espada em minhas mãos e fico com as mãos vazias».

segunda-feira, 16 de julho de 2007


LUZ DE MAIO

Rogel Samuel


Você conhece a luz dos dias de maio? Já viu o céu e aquela luz filtrada em transparência luminosa, aquela luz azul, radiantemente azul, de um azul tão alto, tão nobre, tão vasto? Sabe de que é feito aquela imensa luz do universo em festa? Sabe de como tudo se transmuda em cristais de límpido brilho dos pequenos córregos que caem das altas montanhas como crianças bailarinas e jóias lantejoulas? E sobre as cidades como sobre os campos a luz de maio deita seu limo de íris e de poesia irisada. Já ouviu a música da luz de maio? A "rosa de maio", os lúcidos arpejos dessa temporada em que amamos e em que nosso espírito dança? Pois merecemos viver o mês de maio e suas fragrâncias, nos sagrados bosques de nossas florestas interiores e nos recolhimentos de nossos sonhos renovados...
A visão do mar me lembra uns versos de Valery:

"Que lavor puro de brilhos consome
"Tanto diamante de indistinta espuma
"E quanta paz parece conceber-se!
"Quando repousa sobre o abismo um sol,
"Límpidas obras de uma eterna causa
"Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria.

Valery escreveu esses versos no longo poema "Cemitério marinho", tão difícil de compreender, mas tão fácil de amar, de sentir. Mas creio que a "função" do poema é esta: a de ser sentido.
Terá a poesia alguma "função"? Precisa o poema ter certa compreensão intelectual?

"Esse teto tranqüilo, onde andam pombas,
"Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
"O meio-dia justo nele incende
"O mar, o mar recomeçando sempre.
"Oh, recompensa, após um pensamento,
"um longo olhar sobre a calma dos deuses!"

A tradução é de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia, que conheci na FNFi nos dias de estudante.
Olhar o mar é isso: ver a calma dos deuses, nas faiscações de pasta de prata. O mar acende seus pandeiros de prata, sua luz miraculosa azul.

"Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
"O sopro imenso abre e fecha meu livro,
"A vaga em pó saltar ousa das rochas!
"Voai páginas claras, deslumbradas!
"Rompei vagas, rompei contentes o
"Teto tranqüilo, onde bicavam velas!"

E eu fico pensando como é belo este Rio de Janeiro e como me sinto feliz em nele viver. Perigoso? Mas "viver é muito perigoso" já dizia, se não me engano, o jagunço Riobaldo Tatarana. Nós encontramos segurança onde? No céu, na terra, no fundo do oceano, no alto das montanhas, a morte é certa e a vida incerta.
Apesar de ser uma cidade muito grande, o ar tem estado limpo e as luzes do céu sem nuvens são azuis e profundas. O calor sumiu e uma temperatura agradável atravessa as ruas. Para ter paz no Rio de Janeiro basta não ler o noticiário, dar as costas à realidade das coisas, ouvir a música dos verdadeiros cariocas notáveis, como esta Clementina que ouço agora em surdina.
Conheci Clementina de Jesus no Teatro Casa Grande.
No meio do recital a eletricidade faltou mas ela não interrompeu o que cantava e acenderam umas velas no palco e tudo ficou muito mais bonito do que antes. Eu gosto de música "ao vivo", e para mim "música ao vivo" significa sem microfone. A microfonia altera a voz, prejudica. Gilberto Freyre só gostava de falar sem microfone em suas conferências.
Depois do show, encontrei Clementina sozinha na porta do teatro.
- Quer companhia? perguntei.
- Estou esperando quem vai me levar, me disse ela, com a sua voz de "mãe de santo", grave.
Estava linda, vestida de branco. Clementina era uma mulher belíssima. Não se encontra nas lojas de hoje um único disco de Clementina de Jesus, a grande dama, a diva do samba carioca.

'Tesouro estável, templo de Minerva,
"Massa de calma e nítida reserva,
"Água franzida, Olho que em ti escondes
"Tanto de sono sob um véu de chama,
"- Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
"Cume dourado de mil, telhas, Teto!"

domingo, 15 de julho de 2007

O SILÊNCIO ANTES DA CATÁSTROFE

Rogel Samuel

Li na internet que, de acordo com um relatório da OMS (a organização mundial de saúde) e do UNICEF, mais de 2,6 bilhões de seres humanos – ou seja, mais de 40 por cento da população mundial - não tem água de boa qualidade, e para mais de um bilhão de pessoas a água é completamente não-potável, anti-higiênica.

O relatório - "A realização de objetivos de desenvolvimento do milênio para potável e sua purificação" – avalia os anos de 1990 a 2002, e chega a dados catastróficos.

A purificação da água, em escala mundial, não será alcançada para o extraordinário e desnorteante número de um e meio bilhão de indivíduos - a maioria deles vivendo da agricultura na África e Ásia.

Os esgotos não tratados ou abertos contaminam de várias doenças e matam milhões de crianças, e deixam milhões de pessoas no limite da sobrevivência.

O mundo está para alcançar um nível crítico de consumo de água em relação ao crescimento da população, de forma que 800 milhões de pessoas beberão água contaminada até 2015.

Os efeitos catastróficos poderiam ser evitados, segundo a UNICEF e o OMS, se se tomassem as providências cabíveis e se se ensinasse uma higiene elementar para as populações.

O relatório aponta para uma crescente tendência mundial de favelização e marginalidade urbana das grandes cidades.

Por conseqüência, as famílias que moram em aldeias e em distritos deserdados pelas cidades ricas serão dominadas por um ciclo de doenças e pobreza maior.

Crianças são as primeiras vítimas, mas a falta de higiene também terá um efeito negativo no crescimento econômico mundial.

«Num mundo em que milhões de crianças nascem sem as necessidades elementares», declarou a Sra. Carol Bellamy, diretora geral do UNICEF, «a desigualdade crescente entre os que têm e os que não têm acesso a serviços de base está matando por dia aproximadamente 4.000 crianças, e são a causa de morte de 10 milhões de crianças todos os anos. Nós precisamos agir agora, caso contrário este número de vítimas vai certamente aumentar».

Nas regiões mundiais em desenvolvimento, como a África saariana, reside o maior perigo.

Na ex-União Soviética só 83 por cento da população têm acesso a instalações de purificação de água suficiente. Com o crescimento das pressões econômicas e da população essas porcentagens podem diminuir.

De acordo com o OMS e o UNICEF a inatividade de hoje terá conseqüências sérias. A diarréia será responsável pela morte de 1,8 milhões de pessoas todos os anos. Na maioria dos casos crianças de menos de cinco anos.

Na África as pessoas perdem mais de 40 bilhões de horas de trabalho para ir buscar a água que bebem. E muitas crianças, em particular as meninas, não vão para a escola por falta de latrinas, o que é um desperdício para suas possibilidades intelectuais e econômicas.

Não basta dinheiro, diz a Sra. Bellamy e o Dr Lee, para inverter essa tendência e se ir aproximando de uma cobertura mundial de água, mas de políticas nacionais de reorientar recursos para benefício das comunidades mais pobres, com a cooperação da administração local e o setor privado para a contribuição de uma solução possível.


«Para alcançar os objetivos de 2015, os países têm que criar uma determinação política e têm que constituir recursos que permitam socorrer um bilhão de habitantes de cidade novas, e diminuir em cerca de um bilhão o número de habitantes que não tem acesso a instalações de purificação de água suficiente - caso contrário nós arriscamos a deixar à margem caminho do desenvolvimento milhões ou até mesmo um bilhão de seres humanos», diz o Dr Lee.

«Temos de garantir os elementos básicos à vida até 2015».

quinta-feira, 12 de julho de 2007


ESTRASBURGO, PARIS, MANAUS

Rogel Samuel


A caminho do Aeroporto. De volta ao Brasil. Passando pelo Metrô, ali passamos sempre. A feira, estação Duplex. Paris cinzenta, fria, elegante. Minha estada em Estrasburgo decepciona. Cidade cheia de mendigos. Na Praça Kleber, um MacDonald e outras novidades escandalosas. Placas de anúncios coloridos. Um prédio moderno agride a arquitetura. É a FNAC. Decadência. Desemprego. Prostituição. Dificuldade. A cidade anoitece deserta. Sem alma, sem vida. À noite as cidades exibem suas entranhas.
A catedral continua um esplendor...
Em Paris, uma chuva fina molha o chão das ruas, põe as folhas das árvores pensativas.
Como amazonense, adoro Paris. Manaus, que era miniatura parisiense. Na minha infância, a Casa Louvre, A la ville de Paris, Café da paz, Au bon marché, Livraria Palais Royal, Casa Sorbonne, Bijou . "Manaus, pequena Paris". No 'Café da paz', no 'Siroco', sorvetes de creme, em bolas. Taças finas. Em frente, o Teatro Amazonas, um monumento ao esplendor, à glória, ao grandioso e adágio do passado, com seus mortos, suas sobrecasacas, seus vestidos de seda rósea, as luvas, deslumbramento dos múltiplos reflexos das quinquilharias de cristal, janelas e bandeiras das portas transformadas em lúcidas placas de reluzente e vívido ouro muito louco, Manaus rica, copia Paris. Comerciantes riquíssimos. Ostenta o Teatro Amazonas os seus reflexos de cristal. Milionários dedos jogam cartas com anelados dedos pesados de diamantes, arriscando fortunas no Hotel Cassina, no Alcazar, no Éden, no Cassino Julieta. Telhas de Marselha ao luar na Rua dos Remédios, na Rua da Glória. Arquitetura art-nouveau do palácio de Ernest Scholtz. Arandelas, bandeiras, implúvio. Intercolúnio. O cunhal, o lambrequim, a voluta, o capitel, a cornija. Arquitrave. Barrete de clérigo, adufa, muxarabi, água-furtada, muiraquitã, envasadura, atleta, estípite. O enxalso, o frontão de canela. Galilé. Lojas, magazines, charutarias, livrarias, alfaiatarias, ourivesarias. Bissoc. Pâtisserie. Du sucre, des fruits, de la crème. A la ville de Paris, Au bon marché, Quartier du temple, Casa Louvre, Livraria Palais Royal na rua Municipal, n0 85, Livraria Universal, Agência Freitas, Casa Sorbonne dentro do Grande Hotel, a Confeitaria Bijou, a Padaria Progresso. Faroletes de pedra de morona e de puraquequara. Villa Fany. Cais dos Barés, Biblioteca Provincial. Um Serviço Telefônico serve a cidade. Manaus, a primeira cidade brasileira a ter eletricidade. Calçadas da Praça São Sebastião, em pedras portuguesas pretas e brancas, em ondas, alegorizavam o 'encontro das águas' Negro e Solimões (posteriormente imitadas na praia de Copacabana). Bondes elétricos da Manaus-traways. Veuve Clicquot, truffes, champignon. Huntley & Palmers, Cross & Blackwell. A Cork, a Pilsen, o Bordeaux, o fiambre, o Queijo da Serra da Estrella. Lagostas, a Goiabada Christalizada. Charteuse, Anizette. Champagne Duc de Reims. O Vermouth. Água de Vichy. Leite dos Alpes Suíços. Casacas inglesas, o H. J., o pongê, o filó. Bengalas, castão de ouro. Cartolas, luvas, perfumes franceses, lenços de seda. Pistolas de prata e cabo de marfim. Gramophones de Victor. Discos duplos de Caruso. Casas aviadoras. Manaus-Harbour. Tabuleiro de Xadrez. Óperas. Diariamente. Prostitutas importadas. A Cervejaria Miranda Correia. A Praça da Saudade. O Roadway, o Trapiche. Sífilis. Malária. Vidros de Quinino Labarraque. Óleo de Fígado de Bacalhau. Vinho Silva Araújo. Regulador da Madre. Pílulas Rosadas. Café Beirão. Winchesters, cabo encerado de mogno. Asilo de Mendicidade (construído pelo Comendador). Ponte da Imperatriz, Igarapé da Cachoeira Grande. A Serraria, no Igarapé do Espírito Santo. Banhos de no Igarapé das Sete Cacimbas. Buritizal. Jogos, no Parque Amazonense. Ida a Barcelos. Noite no Jirau. Muro do Leprosário do Aleixo. Vista da Bomba d’Água. Manaus-Belém, Manaus-Santa Isabel, Manaus-Iquitos, Manaus-Marari, Manaus-Santo Antônio do Madeira, Manaus-Belém-Baião. Gonçalves Dias no Hotel Cassina. Coelho Neto no palacete da rua Epaminondas. Euclides da Cunha no chalé da Villa Municipal. Vaticanos, gaiolas e chatas. Inaugura-se o Teatro Amazonas, em 1896 - a mais cara e inútil obra faraônica da História do Brasil, milionária, importada, com painéis, centenas de lustres de cristal venezianos, colunas de mármore de várias cores, estátuas de bronze assinadas por grandes mestres, espelhos de cristal visotados, jarrões de porcelana da altura de um homem, tapetes persas - tudo o que, aliás, em 1912 desapareceu, esvaziando-se o Teatro para transformá-lo num depósito de borracha de firma americana. Ali o erário público foi enterrado em 10 mil contos de réis: o Teatro Amazonas custou o preço de 5 mil mansões luxuosas. Por 900 contos de réis se constrói o Palácio da Justiça. E por 1 mil e seiscentos contos de réis se constrói o Palácio do Governo; nunca concluído. O Teatro custou 10 mil vidas. Em 1919 no Amazonas já tinham chegado 150 mil emigrantes. A borracha naqueles anos foi tão importante quanto o café. O Amazonas exportou 200 mil contos de réis em borracha, contra 300 mil contos do café paulista na mesma época. Em 1908 é fundada a mais antiga universidade do Brasil, com cursos de Direito, Engenharia, Obstetrícia, Odontologia, Farmácia, Agronomia, Ciências e Letras...
Annie quis passear no Jardin du Luxembourg, no dia de minha partida. No caminho, passando pela feira livre, debaixo da estação Duplex do Metrô, encontro um CD desconhecido de Nelson Freire. Andamos pelo bosque. A música dos tempos me hipnotizam, me transfiruram, me atordoa. Em pleno delírio, vôo. O Brasil logo ali, ao alcance da mão.

quarta-feira, 11 de julho de 2007


A obra póstuma

Rogel Samuel



De modo que, amigo/a leitor/a, foi assim que Guimarães Rosa iniciou um discurso na Academia de Letras... pela conclusão. Um dia desses conto para você como foi o meu encontro com Guimarães Rosa. Hoje não. Hoje quero dizer que a tarde está fria. Chris, ou o seu disco, toca uma sonata de Schubert. Todas as tardes frias se parecem com uma sonata de Schubert. Eu só sei disso por ouvi-las numa tarde fria e escura. As tardes frias e escuras são profundas. Não é a toa que o carioca é leviano. Aqui não há tardes frias e escuras. Só dá para ser superficial. Chris é de Portland, no Oregon. Há paredes, na sonata de Schubert. Paredes por onde a imaginação se debate, entre esses muros ela se agita, sonha com o espaço. Ninguém pode prender um homem livre. Podem encarcerá-lo na profundeza das mais secreta masmorra, mas internamente ele permanece livre, disse alguém. Na sonata em A maior, está dito "Opus Posthumous", D. 959. É assim, nessa tarde póstuma. A sonata da morte. Mas tão leve, tão linda. Um dia estive para morrer, fui entrando num bom estado de paz, de tranqüilidade... até que o médico me deu uma injeção e despertei neste nosso mundo. Chris, eu me lembro dele em Friday Harbour, Whashington DC. Havia um piano velho, descobrimos um piano velho, no fundo do estádio, onde todos os dias Chris ia praticar. O teclado estava meio solto. O velho piano quebrado. Lá, eu, ele e Chrystal, sua esposa, ouvíamos Beethoven. Era o único piano daquela parte da ilha. Opus Posthumous, diz o disco. Tão fria, tão bela, e tão póstuma. Lembra a limpidez frígida do túmulo.
A segunda vez que o encontrei foi na Austrália. Lá ele tinha um teclado portátil, com o qual podia tocar o Cravo Bem Temperado de Bach. Som de cravo. Nós estávamos no meio de uma grande floresta, alguns quilômetros de Kyogle. Ao amanhecer havia vários animais. Nos cercavam, nos espiavam. Pessoas falavam que ali havia as mais venenosas serpentes. A Austrália é a pátria das serpentes. Negras, veludo negro liso. Aquele era um lugar extraordinário: Vajradhara Gompa. As noites punham tantas estrelas que entontecíamos só de vê-las e pensá-las. Oh, Montanhas.
Sydney. Lembro do hotel Sullivans, Oxford Street 21, em Paddington. A vida noturna da cidade. Pubs, clubs. Visitei a exposição de Sebastião Salgado ali. Sydney é a capital da fotografia. Há um erotismo no ar. Respira jovialidade e democracia. Eu quase fico lá, de vez. Não há crimes, nem violência, em Sydney. Culturas variadas em harmonia. Fraternidade universal. Em Paddington estávamos em paz. Ouvi a Quarta Sinfonia de Brahms naquela monstruosa Opera House. Infelizmente a Orquestra Sinfônica de Sydney deixa a desejar. Ou aquele maestro. É certo que sou fanático desta sinfonia. Tenho dela diferentes gravações. A melhor, para mim, é a de Bernard Haitink, com a Boston Symphony Orchestra.
Vou escrever uma crônica para deixar na gaveta. Quando eu morrer, alguém, a amiga Nappy por exemplo, deve publicá-la. E publicar com o aviso: "Opus Posthumous". Chic.

domingo, 8 de julho de 2007


NATUREZA MORTA


Rogel Samuel


De Walmir Ayala um poema, intitulado «Estação», que sempre relembro, quando vou à cozinha.
Ayala, poeta excelente, não sei por que esquecido.

Na geladeira as frutas
escurecem de mortas

O quadro ele começa. A geladeira das frutas. Mortas. Geladas. Frutas. Personalizadas. Com o matiz erótico que caracteriza a poesia dele. Frutas mortas, natureza morta, alma morta, amor morto. Na mesa da geleira, deste Himalaya morto, neste Instituto Médico Legal da autópsia do pomar.

as peras são secretas
usinas de água doce,

- dentro das peras o que está senão sua secreção, a suculenta feminidade, sua pose de ovário e úvula, a complexidade singela, aquela sua capacidade de oferta, de entrega, de lamúria, as águas mortas, internas, os entraves pântanos doces das almas das mais líquidas partes da natureza do amor, das estivais qualidades da natureza das carícias do corpo úmido, dos corpos entregues a si mesmos, que é quando são partes do mais tátil amor que se dá às mãos que deles fazem seus prazeres e mergulhos, nos gozos internos e usos, no segredo do maior e cavernoso introduzir hipodérmico da sua capacidade de sentir e de pulsar. Que é? A água doce do amor, a usina do impulso amoroso. São os líquidos doces, langorosos, das umidades humanas.

um mamão decepado
mostra a íntima carne

O mamão, macho, o masculino mamão, castrado porém, digo, amputado, calado, prostrado, exibindo entranhas estranhas, carne devastada, intimidade devassada.
O mamão, porte de guilhotinado em bastilhas vasilhas das sobremesas - mamão revolução do estraçalhado. Mamão carne vegetal gengiva mole e aberta.

e as goiabas oloram
seu verão serenado.

O cheiro das goiabas, o perfume do verão no inverno do refrigerador, em antífrase feliz as perfumadas açucaradas e brandas goiabas. O verão olorizado de sereníssimo repouso. Oferecidas ao seu saboroso cheiro do pomar tropical.


Mas são mortas e lentas
neste ofertório as frutas.

Oh, está morto, tudo está congeladamente morto, com frieza mortal da morte lenta, da morte eterna, mumificada, gelada, branca, da porta aberta esta geleira tumular, este himalaia ofertório poético.

Um vapor congelado
contorna seu mistério.

Envoltas no nevoeiro, envoltas no seu mistério frio, branco, hospitalizado, as obscurecidas frutas medicalizadas, no branco arrepio da poesia misteriosa, do mistério da poesia...

E elas posam no ardor
do branco cemitério
de seu grave pomar.

Fotógrafo, o poeta Ayala abre, no seu cemitério doméstico e culinário, a escrita de seu receituário de forno e fogão, na gravitação polar de sua tematização estival (e não outonal). No seu bosque enclausurado.

E a geladeira inventa
surdo primaverar.



Em outro poema, no AQUÁRIO ACESO, os peixes dormem, no suspensório de seus sonhos:


Os peixes submersos dormem
Nadando um sonho enorme
- o aquário é breve e claro,
com selvas silenciosas
que o todo-poderoso
nutre de grão e larva.

A poesia-aquário tem seu conteúdo em peixes que nadam sem acordar, sem perturbar, entre árvores silenciosas e águas selvagens, eternizados pela luminosidade da escrita do todo-poderoso deus que o escreve e nutre de grão e larva, Ayala pesca na profundidade de si mesmo um labirinto de significação e submersão de tentáculos poéticos onde se move como um polvo.

No entanto os peixes dormem.
Qualquer tremor das águas
e nadam aclarados
sonhando-se acordados
sonhando-se acordados.

E o leitor se enreda, se embriaga, sonha. Sonha dentro deste aquário verbal. Treme nessas águas de cristal líquido, o leitor sonha que lê, o poeta sonha-se lido, aclarado, viagem e volta ao íntimo gozo de seu interminável passeio.

No seu POMAR ABERTO, erótico, encontra entre as árvores do bosque o objeto de seu amor, o impossível de sua gestualidade desejante, o desconhecido toque de musa, o paraíso pomar de pomos de ouro e luar e perfume do ar, as suculentas frutas, a poesia de Ayala reflete sempre o domínio do delírio paradisíaco perdido, o coro de laranjais em adágio.


Teu doloroso cheiro de laranjas
inventa este pomar que me embriaga

No prazer doloroso pomar em que se perde ele cria um labirinto embriagante cheio de sucos de invenção poética. As vespas de fogo rasgam a luz da venenosa atmosfera de seu ferrão, o luar do amor abre no peito a rosa amarga do gemido gozo e o desenho do rosto grego, da estátua em pedra que não está mais para estátua eterna e solitária, mas para frutas do verão da geladeira, mortas. Um paraíso tropical em pomos de ouro a transportar, a ler.


há vespas inflamadas e um luar
enclausura em teu peito a rosa amarga
deste gemido em que és como o desenho
de um rosto antigo, de um sorriso em pedra
(eterno e solitário).


Estranho gemido do amoroso langor do gozo que enfim o sorriso corta como a lâmina de faca, como os fios da noite.


Este sorriso que de repente no silêncio medra
e corta os fios da noite em que viajo
para os sempres de mim, tão decididos:
então nos laranjais escuto o adágio,
e o coração que ocultas é sonoro
como a ilha do amor em que me perco
e onde me salvo, e para sempre choro.

Sim, o amor na sua poesia é Ilha, lá onde se salva o que se perde, e onde se perde o que se salva, e onde pela contínua solidão como sempre chora.

Porque o amor é natureza morta.

sábado, 7 de julho de 2007



O PERIGO DA DIMENSÃO TOTALITÁRIA

Rogel Samuel

Recentes críticas ao parlamento, ao Judiciário etc nos levam a crer que há uma tentativa de
desacreditar a Democracia.

O povão, enganado, começaria a dizer que "todo político é corrupto" etc e estaríamos
preparando o ambiente adequado a um golpe antidemocrático.

A Democracia vive do equilíbrio entre a monarquia despótica (o é o rei) e o totalitarismo de estado (como no nazismo, apud Leford).

A conquistas democráticas se dão no, com e pelo parlamento, aberto e sem ameaças.

Brasil não tem tradição democrática.

__._,_.___

quarta-feira, 4 de julho de 2007


BILAC

ROGEL SAMUEL




No primeiro verso do soneto "Aos sinos" diz Bilac: "Plangei, sinos! A terra ao nosso amor não basta..." Lembro-me de ter lido em Hannah Arendt que, em 1957, foi lançado o primeiro satélite, foi saudado com alegria, diz ela, como"o primeiro passo para libertar o homem de sua prisão na terra". Por que não gostamos da Terra? Por que a destruímos? "A Terra, diz, é a própria quintessência da condição humana" [A condição humana].
Cansados de ânsias vis e de ambições ferozes,
Ardemos numa louca aspiração mais vasta,
Para trasmigrações, para metempsicoses!
Entro em casa. Ouço a fita de Christopher Schindler. É a gravação do concerto de 15 de junho de 2000, Portland, a que assisti. Bilac atual, poderoso.
Cantai, sinos! Daqui, por onde o horror se arrasta,
Campas de rebeliões, bronzes de apoteoses,
Badalai, bimbalhai, tocai à esfera vasta!
Levai os nossos ais rolando em vossas vozes!
Releio sempre Bilac. Os modernistas o odiavam. Tem momentos supremos. "Politicamente, diz Arendt, o mundo moderno em que vivemos surgiu com as primeiras explosões atômicas". Chris toca o "Tango", de Castro, um argentino. Depois arremete a "Sonata Dante", de Liszt, que busco no soneto "Dante no Paraíso":
Enfim, transpondo o Inferno e o Purgatório, Dante
Chegara à extrema luz, pela mão de Beatriz:
Triste no sumo bem, triste no excelso instante,
O poeta compreendera o mal de ser feliz.
As notícias do mundo vêm devagar, entram pela TV, de muito longe, como se de outro universo, lugar muito distante, cheio de guerras, miséria. Qual o "mal de ser feliz"? Elas penetram a sala de trabalho como penetra o fio de fumaça de um incenso. A terra ao nosso amor não basta... Fio de fumo da "fragilidade dos negócios humanos". A Sonata de Liszt conta, como Carpeaux: "Meu Dante" - "Dante pode ter sido, diz ele, em vida, um homem intratável, irrascível e orgulhoso, convencido do seu direito de ser lembrado e venerado por todos os séculos. Mas essa pretensão enorme se reduz, afinal, à exigência de ser lido." Otto Maria Carpeaux foi nosso paraninfo, na Faculdade (a FNFi). Como era gago, seu discurso foi lido por um colega nosso. Atravessei a vida daquele tempo lendo seus artigos diários, no "Correio da Manhã". De tanto lê-lo, apreendi a técnica: Geralmente com quatro parágrafos. O primeiro era uma espécie de introdução. O segundo, uma tese, uma proposta, uma opinião. O Terceiro o inverso, o contrário. O quarto e último parágrafo, que era a conclusão, significava a superação da contradição. Assim, o ensaio, geralmente pequeno, era a dialética de um tema. “Todos os anos costumo reler a Divina Comédia inteira”, diz ele. Lembro-me bem, dele. Como me recordo da Universidade do Brasil. E do Reitor Pedro Calmon.
Um dia, estudando na Biblioteca, senti que alguém estava atrás de mim. Era Pedro Calmon. Interessado no que eu estava lendo. Conversamos, ou melhor, ele falou. Calmon era homem extraordinário. Como eu tinha uns 19 anos e cara de menino, perguntou de onde eu era, como morava e vivia. Indagou se a comida do bandejão era boa (dizem que às vezes comia lá, nunca vi). Disse-me que se eu precisasse de qualquer coisa teria nele um pai. Deu-me seu cartão. Era homem imprevisível. (A terra ao nosso amor não basta...) Certa vez, vindo pela Cinelândia de carro, viu um policial espancando um "pivete". "Pare o carro!" e partiu contra o guarda, aos gritos: "Pare com isso! Pare com isso! Ele é apenas uma criança!"
Vi-o numa das primeiras passeatas de estudantes. Ele apareceu sob estrondosa vaia. Queria fazer parar a massa, que rumava pela Rio Branco. Chorava. Tentava falar. "Não façam isso!" vociferava. "Não provoquem a reação! Vocês vão radicalizar!" Tinha razão, se viu depois. ("Campas de rebeliões, bronzes de apoteoses"). Anos depois fui seu vizinho, na Rua Santa Clara, Copacabana. Ele morava numa grande casa estilo (creio) normando. A esquerda sempre o desprezou, porque os presidentes da ditadura freqüentavam aquela casa. Quando ele morreu, os jornais não deram uma linha, exceto o que saiu no obituário. Mas ele vinha de longe, como se diz. Foi Ministro da Educação (1950-51). Sua "História do Brasil" em 7 volumes era citada por gente como Roberto Simonsen, que diz na "História Econômica do Brasil" se baseou em Euclides, Afrânio Peixoto, Gilberto Freire e Pedro Calmon para "fixar o valor do nosso homem, como fator de produção". Força de trabalho morena. Calmon foi um dos poucos convidados à cerimônia da coroação, na Inglaterra.
Quando a rainha esteve aqui, meu amigo Don Kulatunga Jayanetti, monge budista do Sri Lanka, foi convidado por um embaixador asiático. Havia uma fila, para cumprimentá-la. Don parou a fila, Sua Majestade conversou com ele, revelou conhecimento e interesse budista. O Príncipe, seu esposo, continuou o diálogo, lhe disse ter feito um retiro de meditação Vipássana, no Ceylão. Mas...

Ma la notte risurge e oramai
é da partir, ché tutto avem veduto.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

SUZUKI


A ILUMINAÇÃO DE BUDA

S. Suzuki


“Se você se orgulha de seus êxitos, ou se seus esforços idealistas lhe desencorajam, sua prática lhe deixará em um impasse.”
Estou muito feliz de estar aqui no dia da iluminação de Budha sob a árvore Bô. Quando ele realizou a iluminação , disse: “Que maravilha ver a natureza - Budha em todas as coisas e em todos os indivíduos!” Ele queria dizer que, quando praticamos zazen, temos a natureza-Budha, e cada um de nós é Budha mesmo. Pela prática, ele não entendia simplesmente estar sentado sob a árvore Bô, ou estar em zazen. É verdade que esta posição é para nós fundamental, ou a via original, mas o que Budha queria verdadeiramente dizer, era que as montanhas, as árvores, a água que corre, as folhas e as plantas - Todas as coisas em sí-mesmo são como Budha. Isso significa que tudo exprime a atividade de Budha, cada coisa a sua maneira. Mas a maneira pela qual existe cada coisa não deve ser compreendida como independente, em seu próprio domínio de consciência. O que nós vemos, o que nós entendemos não é mais que uma parte, ou uma idéia limitada, do que somos na realidade. Mas quando simplesmente somos - cada coisa existindo simplesmente à sua própria maneira - nós somos a expressão de Budha mesmo. Em outros termos, quando temos uma prática como zazen, então se torna presente a maneira de ser de Budha, ou natureza-Budha. Se perguntarmos o que é a natureza-Budha, ela se evapora; mas quando simplesmente praticamos zazen, atingimos a plena compreensão. A única maneira de compreender a natureza-Budha é precisamente praticar zazen, justamente ser aqui tal como somos. O que Budha entendia por natureza-Budha, era pois ser tal qual se é alem do domínio da consciência comum.
A natureza-Budha é nossa natureza original; nós a temos antes de praticar zazen e antes de a reconhecer em toda consciência.
Nesse sentido, tudo o que fazemos com esta supra-consciência é atividade-Budha. Se queremos compreende-lo, não o poderemos compreender. Quando renunciamos as tentativas de o compreender, a verdadeira compreensão estará sempre presente. Habitualmente, após zazen eu lhes falo, mas não é unicamente para me ouvir que as pessoas vem, é para praticar zazen. Não esqueçamos jamais. Se falo, é para lhes encorajar a praticar zazen como Budha. Nós dizemos que, se bem que tenhamos a natureza-Budha, se nossa idéia de fazer ou de não fazer zazen, ou se não podemos admitir que somos Budha, não compreenderemos então nem a natureza-Budha nem zazen. Mas quando praticamos zazen como o fazia Budha, compreenderemos o que é a nossa via. Não falamos de tal modo, mas através de nossa atividade, intencionalmente ou não, nos comunicamos uns com os outros. Deveríamos sempre ter o espírito bastante vivo para nos comunicar com ou sem palavras. Se isso nos escapa, a essência do budismo nos escapa. Não importa onde, não deveríamos perder essa maneira de viver. É isso que chamamos “ser Budha”, ou ser o “mestre”. Não importa onde, deveríamos ser o “mestre” disso que nos cerca: não deveríamos perder essa maneira de viver. É isso portanto que chamamos Budha, porque se existimos, sempre desta maneira, nós somos o próprio Budha, Sem tentar ser Budha nós somos Budha. É assim que realizamos a iluminação. Realizar a iluminação, é ser/estar sempre com Budha. A força de repetir continuamente a mesma coisa, adquirimos esta compreensão. Mas se isso nos escapa e sentimos orgulho de nossos êxitos, ou se nosso esforço idealista nos conduz ao desencorajamento, nossa prática nos conduzirá a um impasse. Não deveríamos nos colocar em um impasse levantado por nós mesmos. Também, à hora do zazen, simplesmente devemos nos levantar, e ir fazer zazen com nosso mestre, lhe falar e escuta-lo, depois entrar em nós-mesmos - todos esses atos formam nossa prática. Desta maneira, sem nenhuma idéia de aquisição [ganho], nós somos sempre Budha. Esta é a verdadeira prática de zazen. Talvez então compreendamos o verdadeiro sentido das primeiras palavras de Budha: “Vejam a natureza de Budha nos diversos seres, e em cada um de nós”.