quarta-feira, 21 de agosto de 2019

OUTRO POEMA DE ISAAC MELLO

À JANELA A JANELAR

(foto de R. Samuel: Bournemouth, UK)

 
http://almaacreana.blogspot.com.br/
Isaac Melo
A Rogel Samuel
de palavras fartas e férteis qual o Amazonas
Talvez seja preciso escolher:
não ser nada ou representar o que é.
Jean-Paul Sartre
A Idade da Razão
Ficar à janela janelando.
O janelar ensaia o homem.
No jardim, que se abre à minha frente,
a grama me fita, sorridente,
com seus olhos verdes...
Dizem que Deus, na sua perfeição, criou a grama
de modo que a grama é exatamente o que a grama é.
Mas o diabo, por despeito, criou a filosofia
lapidou uma linguagem, teceu conceitos,
armou-se de verdades, descobriu a angústia...
Um homem maltrapilho, com um saco às costas,
vasculha o cesto de lixo... e segue tal qual
a grama que viceja à minha frente...
Os campos estão lavrados,
as perguntas semeadas.
Brotam silêncios,
as incertezas florescem
e a colheita tarda
em frutos amargos.
Voltar-se para si é gesto suicida
de quem só pode escolher a vida.
Os que se arvoram mais sábios
são os que mais fogem de si.
Sê senhor de si para evadir-se.
Sê grande para acolher
a solidão e o mar.
Sê ínfimo para amar.
Tecer castelos para disfarçar
as choupanas, rudes
e miseráveis, da alma nua.
Na rua, deserta e fria,
Perambulamos, cães vadios.
Ficar à janela janelando.
O tronco, a decompor-se,
fotografia convincente
do meu eu ausente
sob a paisagem de um céu,
imenso e vazio.
As nuvens, a chorar.
Gotas d’águas atiram-se, incessantes,
contra o vidro da janela fechada,
numa tentativa desesperada de atravessá-lo;
por fim, vencidas e exaustas,
despencam no gramado.
Não é a vida mais que gotas,
a debater-se, contra as janelas
envidraçadas da existência,
que separa o homem de toda
a verdade. Que verdade?

Também existir é uma mentira
que não deixa de ser verdade.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

POEMA DE ISAAC MELO

PARA ROGEL SAMUEL

Isaac Melo


por ocasião de

seus 72 anos



O professor, o crítico, o esteta

  amazônida com alma de poeta

Nas veias corre o Amazonas selvagem

  e na palavra, a beleza e a coragem

Filho das águas, das matas e de tupã

  com a ternura indígena e a força alemã

Vai o cronista pelo mundo afora

  plantando sonhos e memórias

Porque a magia não deve cessar

  e o destino do homem é amar

Experiente e altaneiro

  como uma samaúma ou açaizeiro

Percorre as ruas e praias sob as bênçãos

  de são Sebastião do Rio de Janeiro

Poeta a tua nau

  que começou a viagem ainda em Manaus

Tem muito mar para divisar

  porque a vida é eterno caminhar


Oh deuses, deem-me a magnitude de uma sinfonia de Brahms

para agora louvar o grande Amante das Amazonas

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

VIAGEM AO MARCO EXTREMO DE NÓS MESMOS

VIAGEM AO MARCO EXTREMO DE NÓS MESMOS

VIAGEM AO MARCO EXTREMO DE NÓS MESMOS

O TRAJETO DA VIAGEM OU A VIAGEM AO MARCO EXTREMO DE NÓS MESMOS

NEUZA MACHADO





"Porém embarcado chegaria em Manaus sem tropeços depois de 6 dias de viagem a 8 milhas por hora. E 2 dias mais tarde passava pela Boca do Purus, 5 dias após entrava na Foz do Juruá. Não navegávamos dia e noite? Na Foz do Juruá o Rio Solimões mede 12 km de largura e pássaros de vôo curto (o jacamim, o mutum, o cojubim) não conseguem atravessar, morrendo cansados afogados no fundo de ondas pinceladas de amarelo da travessia. Em 8 dias de navegação pelo Juruá chegávamos no Rio Tarauacá e atracávamos em São Felipe, de 45 casas, vila bonita, e arrumada. 9 dias depois entrávamos no Rio Jordão, de onde não prosseguiu o Barão, que não tinha calado, a gente seguindo desse modo de canoa pelo Igarapé Bom Jardim, subindo pois e encontrando nosso termo e destino, a ponta do nosso nó, o término, o marco extremo de nós mesmos, o mais longínquo e interno lugar do orbe terrestre ─ atingíamos finalmente o Igarapé do Inferno, limite do fim do mundo onde se encontrava, e envolto no peso de sua surpresa e fama, o lendário, o mítico, o infinito Seringal Manixi ─ 40 dias depois de minha partida de Belém, 3 meses e 5 dias desde a minha partida de Patos". (O Amante das Amazonas)

"Mas não disse que vinha à procura de Tio Genaro e meu irmão Antônio, aviados no Manixi. Não. Pois eles tinham sido trabalhadores seringueiros do Rio Jantiatuba, no Seringal Pixuna, a 1.270 milhas da cidade de Manaus, onde anos depois naufragaria o Alfredo. Eles freqüentaram o Rio Eiru, numa volta quase em sacado, e dali partiram em chata, barco e igarité até ao Rio Gregório, onde trabalharam para os franceses, e de lá partiram para o Rio Um, para o Paraná da Arrependida, aviados livres que eram, subindo o Tarauacá até o ponto onde dizem foi morto o filho de Euclides da Cunha, que delegado era, numa sublevação de seringueiros. Depois viajaram. E foram para o Riozinho do Leonel, seguiram para o Tejo, pelo Breu, pelo belo Igarapé Corumbam – o magnífico! –, pelo Hudson, pelo Paraná Pixuna, o Moa, o Juruá-mirim até o Paraná Ouro Preto onde, pelo Paraná das Minas entraram pelo Amônea, chegando ao Paraná dos Numas, perto do Paraná São João e de um furo sem nome que vai dar num lugar desconhecido". (O Amante das Amazonas)

Os aventureiros europeus, como os franceses e alemães, à época, por não se acharem os “donos” da Colônia, penetraram naquele templo de pureza mítica, conhecido como Floresta Amazônica, com a intenção evidente de apropriação do local. O fato era que os colonizadores espanhóis e/ou portugueses, cada um em seu tempo histórico, estavam mais preocupados com a costa brasileira, alvo de vários ataques de navios piratas (ingleses, holandeses, franceses), do que propriamente, por motivos óbvios, com a região amazônica da fronteira latino-americana: julgavam que terras tão inóspitas não iriam merecer a atenção dos aventureiros de outros reinos de Além-Mar. Por este aspecto, retomando as minhas inferências sobre o Manixi ficcional rogeliano, a partir do reconhecimento histórico de uma região sem igual, além de repensar a presença do personagem francês Pierre Bataillon, como chefe importante da região, medito sobre a presença missionária dos padres católicos alemães, na figura do personagem Frei Lothar, objetivando catequizar os indígenas e mestiços, mas sofrendo os males da expatriação, afundando-se no desmazelo corporal e no vício da bebida, e, conseqüentemente, na desilusão espiritual.


MACHADO, Neuza. O Fogo da Labareda da Serpente: Sobre O Amante das Amazonas de Rogel Samuel.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE

O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE



NEUZA MACHADO

Manifestado à moda dos lendários heróis de misteriosas histórias de cerimônias e cultos diversos, Paxiúba é a encarnação mítico-ficcional de antigos guardiões extravitais (de qualquer arcabouço esotérico da humanidade, humanidade esta quase sempre conduzida por elementos das forças sobrenaturais), os quais povoaram, ao longo do tempo, a poderosa imaginação reduplicada, sintagmática, do mundo dos conceitos veneráveis. Paxiúba se configura como o símbolo das forças da natureza selvagem do Amazonas (no caso, o estrato mítico-substancial da sociedade indígena amazonense), e, acima de sua aparência exterior, a matéria épica se faz presente no relato ficcional, realçando o prestígio prosopopaico de sua natureza humana.







Diante de semelhantes perguntas, seria possível dizer que sua “inteligência” não lhe serve para mais nada. O que ele quis fazer foi apenas aquele livro mesmo. Isto não quer dizer que ele está sempre satisfeito com esse livro; mas a obra continua a ser, em todos os casos, a melhor e a única expressão possível de seu projeto. Se o escritor tivesse tido a faculdade de dar uma definição mais simples de seu projeto, ou de reduzir suas duzentas ou trezentas páginas a uma mensagem em linguagem clara, de explicar o funcionamento de seu projeto palavra por palavra, em suma, de dar a razão de seu projeto, não teria sentido a necessidade de escrever o livro. Pois a função da arte não é nunca a de ilustrar uma verdade ─ ou mesmo uma interrogação ─ antecipadamente conhecida, mas sim trazer para a luz do dia certas interrogações (...) que ainda não se conhecem nem a si mesmas. (ROBBE-GRILLET)

Com estas palavras de Alain Robbe-Grillet, sobre o novo romance (não apenas francês), o fenômeno literário que marcou o globalizado e caótico século XX (o século que propiciou a difícil transição histórica da modernidade para a pós-modernidade), palavras estas escritas no final da década de cinqüenta, exprimo o meu empenho de dialogar reflexivamente com a obra de Rogel Samuel denominada O Amante das Amazonas[i] (publicada em segunda edição, em 2005, pela editora Itatiaia de Belo Horizonte). Recupero as asserções de Robbe-Grillet sobre o narrador do século XX (neste momento interativo da crítica literária no Brasil, e neste início de século XXI), porque medito sempre o enigma criador do ficcionista do todo do século passado, independente de sua localização de nascimento, e percebo que as “inovações” ficcionais, daquele momento, continuam hoje sob “renovadas” roupagens, e as questões teórico-críticas (que enlaçam o escritor ficcional), levantadas por Robbe-Grillet, continuam ainda a fazer parte da realidade sócio-intelectual do crítico literário brasileiro. Retomo o assunto, porque, nestes tempos pós-modernos, tempos globalizados, o escritor (seja de qualquer nacionalidade, poeta ou ficcionista ou dramaturgo ou outro direcionamento literário) se coloca na obrigação de explicar a sua criatividade à chamada imprensa cultural dominante. É matéria verdadeira que somente algumas questões visíveis são questionadas, porque, as invisíveis vão estar resguardadas no plano particular do autêntico texto-obra, a exigir que o leitor-especulador do momento histórico de sua publicação, ou de épocas futuras, as venha examinar. Sem o aval das explicações exigidas (uma vez que os textos ficcionais da pós-modernidade são de difícil entendimento), o escritor dos dias de hoje não se contempla reconhecido pela mass media como criador literário, perdendo por tal desvalimento a oportunidade de ser lido, o que, convenhamos, é o anseio normal de quem escreve.

Esta propedêutica, objetivando espelhar a posição do crítico literário atual, se fez/faz-se necessária, porque a enxergo apontada em minha direção, uma vez que, para interagir com a diferenciada obra ficcional de R. Samuel, respeitante ao espaço geográfico do Amazonas ─ social e mítico ─, lugar pouco conhecido à minha própria percepção intelectiva, movi-me, inicialmente, em busca das estimáveis explicações do próprio escritor, acauteladas nas diversas entrevistas por ele permitidas aos jornalistas-internautas.

Por intermédio das Entrevistas, Rogel Samuel ofereceu, aos leitores de seu romance, encaminhamentos seguros sobre a natureza de sua criatividade ficcional a qual reputo como autenticamente Pós-Moderna/Pós-Modernista de Segunda Geração. Autêntica, porque há no momento inautênticos autores que se fazem passar por ficcionistas pós-modernos, mas que são, em verdade, escritores-mercadores de uma literatura de massa sem nenhum crédito no âmbito da Arte Literária. Apenas foram conceituados pela mídia enganosa deste momento sócio- intelectual como bons escritores, para visarem ao lucro em detrimento da qualidade de um texto. O romance de Rogel Samuel, pelo exame teórico-interpretativo-reflexivo, ultrapassa tais exigências comerciais, pelo fato de ser uma narrativa de alto nível criativo e se inserir no que qualifico como peculiar obra pós-moderna.
NEUZA MACHADO - 2008

domingo, 11 de agosto de 2019

MEU PAI

MEU PAI

MEU PAI

Rogel Samuel

Um homem corta a grama
Do outro lado da rua.
Meu pai se foi há muitos anos,
Mas a lembrança dele me desperta.
Vem de certa cena antiga
Onde aparece com seu sorrir
E o mesmo jogo de andar
Lançando os braços para trás.
Um homem corta a grama no seu quintal.
E muito tempo se passou
E não sei por que subitamente
Choro sua morte.
Tudo está em seu lugar
E por que me vejo triste?
Meu pai já não existe
Ele se decompôs no ar.
Um velho corta a grande grama
Da outra margem desta rua.

(Walden, New York, julho 2003)

FOTO DE "ANANDA"
ÚLTIMA BARCA DE MEU PAI

Albert Samuel

Que é a Amazônia


 
Albert Samuel


 
Muito se tem escrito sobre a Amazônia e multo mais será ainda escrito sobre esta imensidão de águas e de matas. Todavia, falta ainda o escritor ou o poeta que irá dar ao mundo uma visão clara e concisa sobre o conjunto do modo de pensar e de viver de sua gente. Este livro, entretanto, não tem esta preten-são. 
Laudos áridos e burocráticos sobre definidas regiões e para definidos fins, foram elaborados para diversas autarquias e não podem dar um conceito filosófico e humano sobre a região. 
A Amazônia é um dos últimos redutos da liberdade total para aquele que, liberado dos grilhões do conforto moderno, possa viver simples, perigosa e solitariamente. 
Para usufruir desta vantagem, terá que passar, como nas câmaras iniciáticas das Ordens Secretas, pelo medo da solidão e pelo medo da natureza que lhe parecerá hostil. Tera ainda que se adaptar a uma nova alimentação, de onde desaparecerá o cafezinho pela manhã, o pãozinho quente e os pratos suculentos. Terá  que beber a agua barrenta da maioria dos rios e a aprender a dar valor às frutas silvestres. 
Então, e somente então, verificará que os sofri-mentos e privações que lhe pareciam intransponíveis dão lugar a um mundo maravilhoso. Encontrará emoções adormecidas há milhares de anos e saboreará a plenitude da vida como Deus a criou. A natureza terá nova significação. Sentir-se-á irmanado com vínculos invisíveis aos pássaros, aos insetos, à floresta, à agua e ao sol. Assim como o vozerio da família acordava a criança à vida matinal, assim a natureza, com os seus ruídos característicos será a sua nova família no seio da qual sentir-se-á em segurança. Nenhum animal lhe parecerá cruel. 
Considerá-los-á como irmãos, alguns mais respeitáveis do que outros e os quais é melhor não molestar. Assim como em uma família numerosa há sempre um menino mais irascível que os outros respeitam para não levar uma pedrada na cabeça, assim respeitará a arraia que fere, a lagarta que queima, a cobra que pica. Verificará, também, que o seu maior inimigo, mesmo no fundo da floresta inacessí-vel, ainda será o seu semelhante, quer seja de sua raça ou de outra. Mas, a verdade é que a paz reina na floresta, aquela paz profunda que Deus concedeu ao homem. 
A estatística afirma que, em Manaus, com 180.000 habitantes, ilha avançada da civilização, encrostada no seio da planície, e de onde somente é possivél sair ou chegar por água ou pelo ar, 62 pessoas morreram em desastre de trânsito durante o ano de 1965. Durante o mesmo ano, quantos dos 500.000 habitantes da planície morreram devorados por onças, cobras, piranhas e jacarés? Certamente, nem a metade. Falam-se em monstros e feras marinhas que vivem nos fundos dos rios, entretanto, se lê nos jornais que o corpo de fulano desapareceu em tal dia nas águas de tal rio, e foi encontrado flutuando em tal lugar. Falam-se em onças, jibóias e gatos selvagens, mas se lê que o caçador sicrano reapareceu à margem do rio tal, depois de tantos dias de extremas privações. 
O meio terno é prejudicial na Amazônia. Ou se tem que ser civilizado ou se tem que ser indígena. Prejudicial levar a civilização ao índio. Prejudicial querer viver como civilizado entre índios. Prejudicial, enfim, querer fazer do índio um civilizado. Por este motivo, o nordestino que sobe os altos rios à cata de fortuna e vive no meio termo entre os dois sofre mais que os outros das consequências físicas e morais. Fisicamente, fica paralisado aos trinta anos com reumatismo articular durante meses a fio, aos quarenta anos todos adoecem do fígado e muito poucos são os que chegam aos sessenta anos. Moralmente perdem a profunda ética da família, tão sagrada no nordeste. Talvez não cheguem a cinco por cento os casais que permaneçam unidos até a morte, o restante sempre “deixado da mulher” ou “deixada do marido” e assim mesmo os cinco por cento remanescente tiveram aventuras extraconjugais permanentes ou esporádicas. Os filhos já nascem raquíticos e subnutridos, cheios de verminose e doenças cutâneas oriundas da falta de higiene. Salvo na sede dos Municípios, o analfabetismo é total. 
As quatro estações do ano se resumem a duas, inverno e verão. O inverno é calor com chuvas e o verso calor sem chuvas. Contrariamente ao que se pensa, o calor sobe somente até 35o C, jamais chegando aos 40o , como na Ásia e na África ou mesmo em Nova York. Jamais alguém morreu de calor. Jamais alguém morreu de frio, embora no inverno, nos altos rios, a temperatura cai a 6o C e a menos ainda no alto das serras. 
As chuvas são torrenciais. Uma chuva grossa do Amazonas daria para inundar o Rio de Janeiro. Amolece a terra várzea que derrete como manteiga ao fogo. As margens do rio em terras várzeas -são de duas categorias, a saber: o barranco que quebra e o barranco que cresce. No primeiro, a correnteza vai minando a margem que cai como castelos de areia e no outro vai crescendo de ano em ano. No barranco que cai, as casas são construídas a 100 metros da margem do rio ou mais, para dentro de poucos anos, terem de ser desmontadas e reconstruídas além. 
As ilhas em número de milhares, se formam e desaparecem constantemente. Os práticos das grandes embarcações são os que conhecem o canal do rio, os baixios, as pedras e os troncos de árvores submersos que furam os cascos de navios, por maior que sejam. 
O canal do rio é a parte navegável o ano todo para embarcações de qualquer calado. E um  rio correndo dentro do rio. Com o decorrer do tempo, muda igualmente de rumo, porém muito mais lentamente que as ilhas e as costas. Começa a dividir-se em dois canais de um lado e de outro de uma ilha, e depois de algumas décadas, opta por um deles. 
Um prático de cem anos atrás não saberia navegar no rio para o qual estudou, prestou exames e recebeu carteira de habilitação profissional da Escola de Marinha Mercante do Pará. Esta carteira profissional é apenas para o Rio Amazonas ou um dos seus afluentes. Existem práticos que tiram carteira de habilitação de dois, três ou mesmo quatro rios. Isto é o máximo. A vida humana é curta demais para conhecer todos os afluentes do Amazonas, a Mãe de todos eles. O estudante, para tirar Carteira Profissional, necessita viajar nele durante muitos anos, ao termo dos quais deve conhecer um percurso de mil a duas mil milhas, além das passagens de pedras, naus e praias, a copa mais alta de algumas árvores que servem de referência para a travessia do rio durante as noites sem lua. Poderá, então, levar o destino de centenas de passageiros que confiarem nele. Mesmo assim, todos os anos, naufragam numerosas embarcações de todos os tamanhos e cujas posições serão assinaladas nas “derrotas” dos práticos. Estas “derrotas” são mapas regionais em rolos compridos que assinalam obstáculos -nos rios. No Rio Purus, por exemplo, existem mais embarcações em baixo das águas do que navegando por cima. 
As águas sobem e baixam de, aproximadamente, dez metros ao ano. É um volume de água impressionante. Impressionantes são as distâncias. Devido os meandros que fazem a maioria dos rios, tais como o Rio Juruá, as distâncias, por água, são quatro a seis vezes maiores do que por ar. Assim sendo, de Manaus, Capital do Estado do Amazonas, até Cruzeiro do Sul, localizado no Estado do Acre, a navegação tem de percorrer 2.394 milhas de água, ou seja, perto de 4.000 km. Cruzeiro do Sul fica, portanto, mais longe de Belém do Pará do que a África ou a Europa. 
As chuvas caem nos altos rios a partir de setembro. Os rios começam então a subir, porém na mesma época, em Manaus ou Belém, as águas 
estão baixando de nível e continuarão a baixar até fim de novembro ou início de dezembro. Em resumo: quando os altos rios estão alagados, a planície está com todas as praias no seco, e, quando os altos rios estão secos, a planície está alagada. Como se vê, a marcha das águas é lenta, o declive é pequeno. Manaus, a perto de novecentas milhas do mar, fica entre dezessete a vinte e sete metros acima do nível do mesmo, enquanto que os altos rios ficam entre cinqüenta a cento e cinqüenta metros apenas. É possível subir o Rio Juruá, por exemplo, com todas as praias de fora e, quatro dias de navegação acima, encontrar tudo alagado. Se na mesma ocasião se resolve voltar, encontrar-se novamente o rio seco antes de chegar à sua junção com o rio Solimões para onde deságua. 
Quando falamos em rio seco é necessário dizer que ainda assim qualquer afluente do Amazonas contém mais água do que qualquer rio Europeu. 
É possível, grosso modo, dividir a Amazônia em duas regiões distintas e bem delimitadas. Primeiramente, a planície ou terras várzeas; e, segundo, as terras firmes. Por ocasião das grandes enchentes, como a de 1953, a planície fica totalmente submersa, formando um imenso lago para onde deságua centenas e milhares de rios e igarapés. Naquelas épocas é possível andar de canoa semanas a fio, sem tocar terra. Milhares de casas construídas sobre pilotis surgem das águas enquanto que outras, construídas com uma elevação mal calculada, somente mostram os seus telhados. Nestas épocas, o mar pré-histórico toma posse ao que foi sempre dele. A terra firme marca os limites dos antigos continentes. Sobre ela correm rios encaixados em leitos de pedras definitivamente delineados. São rios encachoeirados de extrema beleza, ricos em minerais de toda espécie. Em muitas regiões, tais como na Cachoeira 2 de Novembro no Rio Machado, é perfeitamente visível a corrente de lava derramada nas eras do período secundário por erupções vulcânicas. 
As terras várzeas são férteis como o Nilo na África, devido a inundações periódicas que levam consigo todas as formas de vida que possam subsistir no solo e ser prejudiciais para as culturas, razão porque, e contrariando o bom senso, são mais procurados pelos hinterlandinos que as terras firmes, e aproveitam-nas para as culturas de curto ciclo vegetativo. As terras firmes, além de pobres, são infestadas por formigas devoradoras de tudo o que o homem planta. 
É incrível assistir a uma transação de terra inexistente por ocasião da enchente toda inundada, sendo delimitada pelas copas das arvores que surgem da correnteza. Em algumas regiões, tais como o Paraná do Careiro e o Paraná do Cambixe, perto de Manaus, um metro de terra de frente ao rio vale mais do que um metro de terra em subúrbio da capital amazonense. 
O sonho do caboclo é possuir uma embarcação. A embarcação é o automóvel da Amazônia. Com ela é possível ao seu proprietário, transportar-se periodicamente até às cidades, adquirir mercadorias mais baratas, vender os seus produtos por melhor preço. 
O sentimento de liberdade, já bem amplo no amazônico aumenta ainda mais, quando singra as águas para cima e para baixo dos rios. Fica totalmente dono do seu destino e do seu tempo, dependendo apenas do combustível. Alguns esquecem até do dia da semana e da hora do dia. Calendário e relógio, os dois tiranos do homem civilizado, deixam de ter importância. Há quem permaneça meses e meses nas embarcações, comprando, vendendo, pescando, amando. E muitos são os que nasceram um embarcações. 
Como em outras partes do mundo, os maus elementos deixam o interior para vir à Capital. É muito mais fácil ser espoliado e assaltado em Manaus, ou em Belém, do que em qualquer lugar do interior. 
A prostituição somente existe já perto das capitais;  quanto mais no interior, mais difícil encontrar uma prostituta vivendo do seu “metier”, embora seja fácil para o forasteiro encontrar toda qualidade de mulher, desde moças até velhas, que não façam comércio do seu corpo. A entrega de si mesma obedece, na maioria das vezes, às necessidades fisiológicas bem definidas e não tem nada de imoral. 
Neste quadro geral qual é a posição do indígena? Podemos dividi-lo em duas categorias. O índio da terra várzea e o índio da terra firme. Embora os elementos de que dispomos não nos forneçam grandes detalhes sobre estes assuntos, é de presumir que o índio da terra várzea, devido à fertilidade do solo e à facilidade de pesca, tornou-se de tempos para cá, semi-sedentário e agricultor. Como em outras raças da história da humanidade, o agricultor sempre foi pacato, opulento e pacífico. Esta é a razão porque a penetração da planície foi feita sem dificuldades. O índio foi integrado à civilização, tornando-se o caboclo que, hoje, caracteriza a Amazônia. 
Mas, para o índio da terra firme, a história transcorre totalmente diferente. O índio da terra firme foi e continua a ser essencialmente um caçador e um nômade, e como tal de uma agressividade bem maior que o seu irmão bem nutrido da planície. A onda da civilização o vem encurralando, cada vez mais nas serras, nos altos rios, alem das cachoeiras de difícil penetração. A hostilidade com o branco parece aumentar com o tempo. Não quer nenhuma integração ou acordo com ninguém. Vive confinado em lugares inacessíveis, descendo para as praias secas atras de quelônios e seus ovos, dos quais são grandes consumidores. Na maioria dos casos, são índios limpos, sadios e de elevada moral. Desconhecem a cárie dentária e os males que disseminam os índios da planície. Sua agressividade os tornaram selvagens, corajosos, altivos e belos, com costumes ainda bárbaros que caracterizam o homem pré-histórico. São francamente homens da época da pedra polida, fazendo suas flechas ricamente decoradas com cabelos de caititus brancos e pretos que podem rivalizar com qualquer tecido de nylon. 
(JAGUARETÉ, O GUERREIRO 
E outros contos amazônicos 
Manaus, 1977). 

ALBERT SAMUEL nasceu em 15 de agosto de 1911 no Amazonas. Entretanto era  francês, criado na Alzácia (Estrasburgo) até depois da Primeira Guerra, que conheceu de perto, e educado em Paris até a idade de 25 anos. Conheceu a Revolução Espanhola e vários países europeus e africanos. Falava várias  línguas como francês, alemão, inglês,  e era estudioso de várias religiões, muitas das quais nos textos originais: principalmente hinduísmo. Foi um dos primeiros a estudar e praticar Ioga e meditação no Brasil. Tocava muito bem piano e estudava violino e violão, e tinha uma memória prodigiosa. Chegava Citava Goethe em alemão. Morava no Amazonas, onde perto da natureza e de seus silêncios, que tanto amava. Ali, Albert Samuel fez longas viagens através das regiões mais remotas e da selva mais virgem, em geral só, numa pequena lancha. Faleceu em Manaus, no dia 22 de setembro de 1989. 


quarta-feira, 31 de julho de 2019

O AMANTE DAS AMAZONAS

ELE estava corrigindo as provas quando bateram na vidraça pelo lado de fora da janela dos fundos da oficina do Amazonas Comercial. Só ele e o Margarido linotipista estavam lá. Benito interrompeu o trabalho e foi ver, mas quando chegou na janela mal pôde perceber a figura evasiva de uma índia velha no escuro que lhe falou rapidamente. Ela disse-lhe algo e desapareceu.

Quando ele não conseguiu mais vê-la, voltou para a banca e, apreensivo, apagou o cigano, abriu a gaveta, de onde tirou um revólver, que pôs no bolso do paletó, e logo partiu dentro da chuva veloz em direção aos Educandos Artífices.

Benito foi até o começo da ponte de tábuas que a índia lhe tinha indicado, passagem para o Igarapé dos Educandos Artífices ligando uma ilha ao continente e onde houvera a Ponte da Glória, que atravessava o Igarapé dos Remédios. A chuva diminuía mas ainda molhava a ponte de tábuas que Benito estava usando para atravessar.

Foi quando, crescendo e avançando, a figura de um caboclo velho e negro, sinistro, alto, fedido a cumaru e urina, curvado e monstruoso vinha como um demônio armado, urrando feito fera.

Benito atirou no meio do tórax, matando-o. Benito o matou, sim, o morto era Paxiúba, o Mulo.

 

quarta-feira, 24 de julho de 2019

O AMANTE DAS AMAZONAS

- há um museu de quadros e cristais, prataria, limoges. O que aconteceu com os brilhantes de D. Ifigênia? Os brilhantes, grandes, eram a ostentação daquela casa. Um dia Ifigênia foi um Belém assistir a Pavlova, com quem jantou no hotel. Era amiga de intelectuais. Veio a Manaus para ver o autor dos best-sellers da época ... como era mesmo o nome dele?
- Coelho Neto ...
Sim. Ifigênia se correspondia, ele era uma letra maravilhosa. Ifi gênia freqüentava uma casa de Thaumaturgo Vaz. Em 1889 ela recepcionou o Conde d'Eu, na Vila Municipal. Mas ela gostava de ficar no Hotel Cassina. Lembro-me dela, em 1883, acompanhando Paes Sarmento à Conceição, para o cerimonial da entrega da comenda com o agraciado pelo Imperador - uma Comenda de Oficial da Imperial da Ordem da Rosa. Quer outro café?
Frei Lothar perdia-se em recordações.
- Mas como quem ficou como libras de ouro? - perguntou Benito, voltando ao tema central de sua visita.
- não sei. Nem os quadros.
- Os quadros estão em casa de Ferreira, disse Benito.
- verdade? A Fromentin, na sala de música. Você tem que fazer isso?
There was great silence, algo mortal, naquela sala.
- Como vai provar que eles mataram Zequinha Bataillon?
Não disse mais nada. Até que o Frei suspirou:
- quanta coisa aconteceu! Perto da Cachoeira Cristal, o Pierre construiu um chalé japonês. Tudo desapareceu. Assim também no Seringal Matrinchões, no Calama. No Ayucá, o proprietário, não me lembro o nome, antes de ir Ah, terrível Ah, sim, era o Rigoberto. Vivia em luta contra os catuquinos, contra os turcos, os campos, os maias. Na Ponta da Poedeira, eu fiz de parto, perto do Ayucá. A woman morreu ali, nas minhas mãos, mas pude salvar a criança. Não Rio Jantiatuba, que corre muito forte ...
E seguiu-se um prolongado silêncio.
- E como libras, frei, e como libras? - perguntou Benito. Com quem ficou como libras?
Mas o frei estava dormindo.

AURORA

AURORA


AURORA

Rogel Samuel


Releio com assombro e delícia o poema “Aurora” de Adolfo Casais Monteiro de 1954:


“A poesia não é voz — é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:
voo sem pássaro dentro.”


(Adolfo Casais Monteiro in “Voo sem Pássaro Dentro”, 1954). Publicado por Maria Azenha, um marco na poesia da contemporaneidade, em:
http://opodaescrita.blogspot.com/2008/06/aurora.html"A poesia não é voz — é uma inflexão", ou seja, um tom de voz, uma modalidade do dizer da voz. A poesia é uma modulação na voz. Quem diz é a prosa, no verso nada se diz, “nada se acrescenta a nada, somente / um jeito impalpável dá figura / ao sonho de cada um, expectativa / das formas por achar”. Depois, no poema, ele diz: “No verso nasce / à palavra uma verdade que não acha / entre os escombros da prosa o seu caminho”. Como vêem é pura estética, é teoria literária, no mais alto grau. Termina o seu poema reconhecendo o implacável: O homem não tem alma, não tem conteúdo, não tem destino, sentido e rumo – “E aos homens um sentido que não há nos gestos nem nas coisas: / vôo sem pássaro dentro.”
Adolfo Casais Monteiro sabia do que falava, pois ele era um excelente crítico literário. Em “Clareza e Mistério da Crítica”, de 1961, ele ataca o pedestal do maior crítico brasileiro, Afrânio Coutinho, razão por que foi odiado entre nós. Mas ele era um crítico independente e altivo! Foi perseguido por Salazar, refugia-se no Brasil, onde leciona Literatura Portuguesa. Em 1962, é professor titular em Araraquara. Mas morreu com 64 anos. Ele recebeu aquela famosa carta de Fernando Pessoa que hoje pode ser lida em:
http://www.pessoa.art.br/?p=24
Professor visitante na Universidade de Wisconsin, em Madison, (1968/69), e na Universidade Vanderbilt (Nashville, Tennessee, 1969). Dele, disse Jorge de Sena: Homem de duas pátrias, soube, da maneira mais devotada e sensível, ser inteiramente fiel a ambas, para lá de todas as falácias do nacionalismo. Porque ele foi, acima de tudo e dos condicionalismos da vida, um cidadão do mundo em língua portuguesa, que é uma maneira de esse mundo não saber que possui tal cidadão, e de a língua, que o possui, presa aos seus provincialismos, não apreciar a grandeza que por ela se afirma e realiza. (Jorge de Sena).

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Ficções do Ciclo da Borracha no Amazonas

Ficções do Ciclo da Borracha no Amazonas
Em 13 de agosto de 2009 - Lucilene Gomes Lima

A professora Lucilene Gomes Lima acabou de lançar o livro Ficções do Ciclo da Borracha no Amazonas, um estudo comparativo entre os romances A Selva, de Ferreira de Castro, Beiradão, de Álvaro Maia e O Amante das Amazonas, de Rogel Samuel. É sobre esse seu trabalho que ela nos fala agora.

Revista Literária – O que levou você a fazer esse estudo entre os romances A Selva, Beiradão e O Amante das Amazonas?

Lucilene Gomes Lima: Esses livros representam três momentos ou fases de uma produção quantitativamente expressiva sobre o ciclo. A Selva foi publicada em 1930 pelo autor, português, Ferreira de Castro. Elaborando ficcionalmente a experiência vivida num seringal amazônico, não se pode dizer que o autor dialogou com a produção anterior, de autores como Euclides da Cunha, Alberto Rangel, especialmente porque o contexto de produção em que estava inserido era o neo-realismo português. A Selva é a percepção de um autor europeu sobre a Amazônia, filtrada a partir de uma experiência de vida. O romance Beiradão, por sua vez, foi publicado em 1958, quando já estava publicada uma dezena de obras sobre o tema. A possibilidade de que Álvaro Maia tenha dialogado com essas obras não deve ser descartada, mas a mudança de enfoque na abordagem do papel do seringalista, quebrando o anátema da figura vilanesca tão ao gosto de autores que o precederam (Ramayana de Chevalier, Francisco Galvão) ocorreu mais seguramente pela percepção política e biográfica (o autor era filho de seringalista), o que o pôs no papel de redentor deste agente social, enquanto ser inescrupuloso, rude e sem visão. Portanto, a renovação empreendida por Álvaro Maia tem caráter político-ideológico superior ao caráter de diálogo e remodelação da estrutura narrativa e temática sobre o ciclo. O Amante das Amazonas, terceiro romance selecionado, publicado em 1992, é uma narrativa ficcional que acumula um diálogo com as obras posteriores. A própria mudança de direção quanto aos clichês e ao esquematismo dos aspectos em torno do ciclo já evidencia isso. Mas ainda que essa obra apresente uma mudança de ângulo na abordagem e na estrutura, guarda um ponto em comum com as outras duas – o papel da memória como propulsora da narrativa. O autor de O Amante das Amazonas, Rogel Samuel, é neto de Maurice Samuel, rico comerciante da borracha no século XIX. As memórias dessa era são, portanto, um legado familiar. O dado da experiência vivida ou revivida pela memória, direta ou indiretamente, comum aos três autores, e as abordagens que propiciaram mudanças no filão ficcional sobre o ciclo instigaram e promoveram a realização do estudo.  



RL – Existem vários outros livros sobre o ciclo da borracha no Amazonas. Por que escolheu exatamente esses três?

LGL: O estudo que eu realizei abrange a produção ficcional sobre o ciclo da borracha, por isso, outras obras também são estudadas além das três mencionadas. A seleção dos três romances deu-se após a leitura extensiva das obras ficcionais sobre o tema. Após essa leitura é que surgiu a hipótese de que a produção ficcional sobre o ciclo não apresenta reformulação em seu enfoque. No entanto, nos romances A Selva, Beiradão e O Amante das Amazonas, o tema do ciclo recebeu um tratamento diversificado das demais obras, seja pelo aprofundamento e abrangência da abordagem, seja pelo rompimento de certos lugares comuns que criaram um filão em torno da repetição dos mesmos aspectos, seja ainda pela elaboração criativa, reformulando as estruturas ficcionais já desgastadas.



RL – A que conclusões chegou após o estudo?

LGL: A principal conclusão é que o processo de aprofundamento do tema e diversificação das abordagens ficcionais não está condicionado necessariamente ao tempo em que as obras foram publicadas. A pesar de eu ter feito um recorte temporal de estudo, ao selecionar A Selva, Beiradão e O Amante das Amazonas, já que as data de publicação situam-se precisamente em décadas representativas  do início, meados e final do século XX,  penso que isso não ocorreu como forma de comprovar que as obras evoluíram no decorrer do tempo. Apenas coincidentemente as obras em que verifiquei e apontei um trabalho mais aprofundado e criativo em relação ao tema encontram-se situadas numa cronologia ascendente. A produção ficcional sobre o ciclo poderá ter muitas abordagens futuras, rompendo ou não com os clichês em torno do tema. O verdadeiro fator que contribui para a diversificação é a percepção aguda e criativa do autor.



RL – Como definiria a visão de cada autor sobre o ciclo da borracha?

LGL: A seleção das três obras pelo critério da diversificação ficcional sobre o tema também contemplou três visões distintas dos autores.  As visões de Ferreira de Castro e de Álvaro Maia nos revelam não apenas a forma como trataram o tema do “ciclo da borracha”, mas também suas percepções sobre o lugar Amazônia. Ferreira de Castro logrou ser o autor que melhor soube elaborar, organizar e apresentar, didaticamente, o tema. Talvez porque seu conhecimento sobre a exploração foi resultante de sua própria experiência num seringal, a qual sua sensibilidade soube captar e encadear criticamente em forma de narrativa literária. Por outro lado, a percepção desse autor sobre a Amazônia ainda se manifesta dentro de uma concepção etnocêntrica, com todas as antigas dicotomias paraíso/inferno; civilização/selvageria que eram a tônica nos discursos de cronistas, cientistas e ficcionistas europeus. Álvaro Maia, autor nativo, não apresenta em sua obra os sobressaltos espantos que caracterizam a percepção do autor português. Sua naturalidade nesse meio está bem exposta na clássica foto em que aparece em uma canoa, remando, integrado a natureza e aos costumes de seu lugar. No entanto, como a evidenciar que o discurso etnocêntrico deixou profundas marcas no ser nativo, em Beiradão o autor, por intermédio de seu representante ficcional, o narrador, atribui as vicissitudes e as perversões no processo de desbravamento e exploração do meio amazônico às características de sua natureza selvagem e não aos agentes sociais que empreenderam esse processo. Ademais, é o engajamento político de Álvaro Maia com o Estado Novo que norteia a mudança de percepção sobre o papel do seringalista como um agente negativo no processo econômico de exploração da borracha. Sua visão redentorista desse agente revela uma política conciliatória entre patrão e empregado, omitindo os conflitos. Rogel Samuel, professor, analista literário promove uma diversificação no tratamento do tema a partir de suas concepções teórico-literárias, que podem ser percebidas em seu livro Crítica da Escrita. Daí o aspecto não linear da narrativa de O Amante das Amazonas, consoante a ficção moderna, o destaque dado não ao enredo, mas às personagens, a intertextualidade e o caráter metalingüístico do texto. O texto, ainda, não negligencia a abordagem de aspectos da colonização, tão bem representados em personagens como Maria Caxinauá, nas oposições entre as tribos dos numa e dos caxinauá, na própria dimensão mais ampliada das razões econômicas do ciclo, parte do contexto desta colonização.



RL – Fale um pouco sobre os dois livros que você já tem, escritos, e o próximo, em processo de criação.

LGL: Escrevi um livro de contos intitulado O Mestre e o Discípulo, que foi publicado em 2000 pela editora da Universidade Federal do Amazonas. Posteriormente, em 2002, fiz uma publicação independente de outro livro de contos, O Julgamento. Atualmente estou escrevendo um livro sobre as representações discursivas do feminino na publicidade brasileira, contemplando a área de linguagem de minha formação em Letras.



- Ficções do Ciclo da Borracha no Amazonas, de Lucilene Gomes Lima

            Solicitações: lucileneglima@bol.com.br

Entrevista realizada pela Revista Literária, editada online por Evaldo Ferreira

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Traducción MARTA CORTESÃO



Traducción MARTA CORTESÃO: 
Aguas corrediças a 
partir do principe das partes da narrativa animal bajo los árboles de 70 metros de altura; las vienen de los desconocidos lugares del origen Numa; filho aguas de la supervivencia, filho olvidadas y pasan. Frías. Se pierden. Peligro; asustador. Al principio no se pueden delimitar con precision, donde las tierras de los Numas, donde las del Cauchal Manixi. Después se miran. Se sienten. En el olor. Raras, marcas, s uaves. La flecha, detenida no alto do arco, atravessa a picadura, a roja. La rama quebrada dice: “No pasarás”. Y mais allá de la Curva del Tucumán, el paso del eje del riachuelo se separa. Se puede bañar y pescar, de este lado. Pero poco a poco los Numas se infiltrado, avanzaban, atravesaban. Pasaban más allá de sí mismos, sin respetar properties promites. Atravesando el riachuelo y el orden que ejercía en la selva. A conducta, a éxtase, por encima da curva que está vivo, que tem como que o domínio que as Numas dominam sobre os múltiplos lados do riachuelo que se dibuja en “S”, el dominio invisible (nenhum vê o puede ver), y secreto, alededo del cual se distribuyen caucheros, en aquella part alta, en tierrafirme, en el prudence control casi cordial. El Cauchal é invadido todas as noites por fantasmas. O mundo se ahorra a sí mismo. Armonia, economia de gestos, de momento, involuntario, violencia, rompiendo o pacto tenue e presente do espiro do silencio armado. Não basta con saber. Não é uma boa idéia, não há palavras de alto, asegurar a paz, como um crime, como a paz depende formalmente do silêncio. Del Silencio. Sem asustarlos, sem comprovlos. Nenhum tipo de procedimento que interstale a funerária estabelecida, porque o filho fantasma e os míticos, porque viven no libertad del viento. Porque nada eran. O simplemente la nada filho. como a paz depende formalmente do silêncio. Del Silencio. Sem asustarlos, sem comprovlos. Nenhum tipo de procedimento que interstale a funerária estabelecida, porque o filho fantasma e os míticos, porque viven no libertad del viento. Porque nada eran. O simplemente la nada filho. como a paz depende formalmente do silêncio. Del Silencio. Sem asustarlos, sem comprovlos. Nenhum tipo de procedimento que interstale a funerária estabelecida, porque o filho fantasma e os míticos, porque viven no libertad del viento. Porque nada eran. O simplemente la nada filho.