segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

DOGEN

Dogen - ROGEL SAMUEL




Que coisa extraordinária, o grande gol, a grande meta não é tornar-se um Buda Supremo, mas o principal é entender que um pensamento segue um pensamento, um após outro, infinitamente, no fluxo mental, e, enfim, deixá-los ir, não se concentrar em nenhum deles, não ser nenhum deles, não tomar nenhum deles como sendo meu ou eu, não dar importância a nenhum deles, não...




Acima de tudo, não deseje tornar-se um futuro Buda;
Sua única preocupação deveria ser,
Como o pensamento segue o pensamento,
E evitar agarrar qualquer um deles.


DOGEN (1200 - 1253) 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O TEATRO VAZIO.



1. O TEATRO VAZIO.

 O deputado Fernandes Júnior chegou cedo ao prédio da Assembléia Legislativa Provincial, que ainda estava fechado. Ele entrou pela porta lateral, reservada aos faxineiros, secretários, auxiliares administrativos.
         Era uma bela manhã de maio de 1881. O deputado trazia consigo o rascunho do texto que mudaria a história do Amazonas, pois prometera à sua mulher, D. Auxiliadora de Nazaré, que levantaria o pleito de se construir um teatro de alvenaria para a cidade de Manaus.
A cidade dispunha de três espaços para espetáculos: o “El Dorado”, o “Éden-teatro” (um barracão de madeira) e uma sala no Edifício da Beneficência Portuguesa, onde se representou “São Benedito”, uma peça popular.
Na noite anterior, no Éden, a exigente D. Auxiliadora assistira “Ghigi”, de Gomes de Amorim, e anteriormente a “Justiça”, de Camilo Castelo Branco, em 1869. 
A vida em Manaus era elegante, rica, alegre, no início do apogeu de uma sociedade que enriquecia rapidamente, com a extração da borracha. Fernandes Junior e sua mulher viviam em festas, piqueniques e espetáculos teatrais. Os salões de sua casa se abriam todas as semanas, nas noites das sextas-feiras, para receber os amigos. Nos domingos, numa grande mesa, sob o caramanchão do jardim, era oferecida uma tartarugada, ou uma peixada, almoço festivo regado a vinho português, sucos de diversas frutas, compotas de doces e banhos nas águas limpas do igarapé que passava atrás da casa. 
Aquilo ia até ao anoitecer. Lima Silva, Alarico José Furtado (presidente da província do Amazonas), Emílio Moreira, João Coelho e outros freqüentavam aquela mesa, com esposas, filhos, babás e empregados, congestionando a rua da Conceição, onde morava o deputado. Entre os convidados, o rico comerciante Manuel de Oliveira Palmeira de Menezes, chefe da casa Menezes, Gomes & Cia, o primeiro contratante da obra de construção do teatro, que depois passou para Alexandre Dantas e passou para Rossi & Irmãos da Itália, todos impossibilitados de realizar a obra pelos 493 contos contratados.
Fernandes Júnior era um dândi, simpático, educado, conhecia Paris, tinha refinamento, elegância e alguma cultura, principalmente de autores portugueses. Seu projeto era bem modesto, de apenas 60 contos de réis, para a construção de um teatro. Aprovaram em 120 contos. Mas as obras pararam. Quase dez anos paradas. E chegaram a milhões de contos de réis. Foi uma obra faraônica, uma das maiores e mais dispendiosa obra da República, até hoje. Fernandes Junior faleceu no Maranhão, no dia 24 de abril de 1894, treze anos depois de ver o seu Teatro construído com grandes, gigantescas modificações. Chegou a ver o Teatro Amazonas “erguido e em pleno apogeu”, como escreveu sobre ele Mário Ypiranga Monteiro.
Anos depois, em 1995, estando Paravotti no Brasil, fez questão de ir a Manaus apenas para conhecer o Teatro, que foi aberto somente para ele. Cantou para o Teatro Vazio. Em 1996, foi a vez de José Carreras.  O Teatro, entretanto, estava lotado. 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

RIMBAUD - NOITE DE INFERNO


Noite de Inferno

RIMBAUD

Bebi um grande gole de veneno. - Três vezes bem-dito o conselho que até mim chegou! Abrasam-se-me as entranhas. A violência do veneno convulsiona-me os membros, desfigura-me, atira-me ao solo. Morrode sede, sufoco, não posso gritar. É o inferno, a condenação eterna! Olhai como o fogo cresce. Queimo como devo queimar! Sai, demônio! 
Havia entrevisto a conversão ao bem e à felicidade, a salvação. Posso descrever a visão? O ar do inferno não tolera hinos! Eram milhões de criaturas encantadoras, um suave concerto espiritual, a força e a paz, as nobres ambições, que sei eu? 
As nobres ambições! 
E é ainda a vida! - Se a condenação é eterna! Um homem que quer mutilar-se está condenado, não é assim? Acredito-me no inferno,logo estou nele. É o cumprimento do catecismo. Sou escravo de meubatismo. Pais, fizestes a minha desgraça e a vossa! Pobre inocente! - 
O inferno nada pode contra os pagãos. - É a vida. Mais tarde, as delícias da condenação serão mais profundas. Um crime, depressa, que as leis humanas me precipitem no nada. 
Cala-te, mas cala-te!... Esta é a vergonha, esta a repreensão: Satã que diz que o fogo é ignóbil, que minha cólera é terrivelmente louca. - 
Chega!... Segredam-me erros, magias, falsos perfumes, músicas pueris. - E dizer-se que possuo a verdade, que vejo a justiça: tenho um juízo são e firme, estou pronto para a perfeição... Orgulho. – Seca-me a pele da cabeça. Piedade! Senhor, eu tenho medo. Tenhosede, tanta sede! Ah! a infância, a erva, a chuva, o lago sobre aspedras, a claridade da lua quando o campanário tocava meia-noite... O diabo está no campanário, a esta hora. Maria! Virgem Santa!... -Horror de minha idiotice. 
Lá longe, não há almas honestas que me desejem o bem?... Vinde... Tenho um travesseiro sobre a boca, não me ouvem, são fantasmas. A1ém disso, que ninguém se aproxime. Cheiro a queimado, é certo. As alucinações são inumeráveis. É a que sempre tive: nenhuma fé na história, esquecimento dos princípios. Calar-me-ei; poetas e visionários sentiriam ciúmes. Sou mil vezes mais rico, sejamos avaros como o mar. 
Ah! o relógio da vida parou neste instante. Já não estou no mundo. - A teologia é séria, o inferno está sem dúvida em baixo - e o céu no alto. - Êxtase, pesadelo, sonho em meio a um ninho de labaredas. Quanta malícia na atenção no campo... Satã, Ferdinando, corre com os grãos selvagens... Jesus caminha sobre sarças ardentes, sem dobrá-las... Jesus caminhava sobre as águas revoltas. A lanterna no- lo mostrou de pé, branco e as tranças negras, sobre uma onda de esmeralda... 
Vou desvendar todos os mistérios: mistérios religiosos ou naturais, morte, nascimento, futuro, passado, cosmogonia, o nada. Sou mestre em fantasmagorias. 
Escutai! 
Possuo todos os talentos. - Aqui não há nada e há alguém: não quisera desperdiçar o meu tesouro. - Desejais que eu desapareça, que mergulhe à procura do anel? Desejais? Fabricarei ouro, remédios. 
Confiai em mim, a fé conforta, guia, cura. Vinde todos, - até as criancinhas, - para que vos console, para que vos prodigue o seu coração. - O coração maravilhoso! - Pobres homens, trabalhadores! Não peço. orações; serei feliz apenas com vossa confiança. 
- E pensemos em mim. Isto me faz ter raras saudades do mundo. Minha vida foi somente doces loucuras, é lamentável. 
Bah! façamos todas as caretas imagináveis. Decididamente, estamos fora do mundo. Já não há ruídos. Desapareceu-me o tato. Ah! meu castelo, minha Saxônia, meu bosque de salgueiros. As tardes, as manhãs, as noites, os dias ... 
Estou exausto!\ 
Deveria ter o meu inferno pela cólera, meu inferno pelo orgulho, - e o inferno da preguiça; um concerto de infernos. Morro. de cansaço. É o túmulo, vou para os vermes, horror de horrores! Satã, farsante, queres disso1ver-me com teus feitiços? 
Exijo. Exijo! um golpe de tridente, uma gota de fogo. 
Ah, sair de novo para a vida! Contemplar nossos aleijões! E esse veneno, esse beijo mil vezes maldito! Minha fraqueza, a crueldade do mundo! Deus meu, piedade, esconde-me, estou doente! - Estou escondido e ao mesmo tempo não o estou. 
É o fogo que se 1evanta com o seu condenado.

Arthur Rimbaud
(Tradução Xavier Placer)

Do livro: Uma estação no inferno, Cadernos de Cultura, Imprensa Nacional, 1952, RJ

MARILENA CHAUÍ - ANÁLISE DA VIOLÊNCIA



Sociedade brasileira: violência e autoritarismo por todos os lados
A filósofa Marilena Chaui analisa a situação política e econômica brasileira e comenta a ocupação das escolas paulistas

Juvenal Savian Filho & Laís Modelli
Bob Sousa
Desde o início dos anos 1980, Marilena Chaui tem proposto como chave de leitura de nosso país a ideia de que a sociedade brasileira é autoritária e violenta. Em obras como Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas, de 1981 (que será reeditado em seusEscritos, publicados pela Editora Autêntica), a filósofa contraria a imagem de uma cultura nacional pretensamente formada pelo acolhimento recíproco e pela cordialidade, revelando estruturas enraizadas de hierarquização e de sedução pela autoridade.

Não se trata, porém, de considerar os brasileiros como individualmente violentos. Trata-se de esclarecer as estruturas históricas que produzem uma vida social em que o espaço público e republicano é minguado, transferindo-se ao Estado o papel de sujeito da cidadania e reproduzindo-se, no cotidiano, relações de poder.

Essa chave de leitura permanece, aos olhos de Marilena Chaui, extremamente atual para analisar o momento vivido pelo Brasil. Apesar dos percalços éticos, políticos e econômicos das duas últimas décadas, o país tenta entrar na Modernidade, que exige necessariamente inclusão social. Essa mesma inclusão, no entanto, desperta resistência. Se os auxílios financeiros para inserção econômica, distribuídos por países como Alemanha e França às populações mais pobres, são considerados por lá sinais de desenvolvimento, o Bolsa Família, no Brasil, é chamado de assistencialismo e de estratégia eleitoreira. Se a ação do Estado no controle do mercado é vista como necessária em outras partes do mundo, aqui ela é chamada de “ameaça comunista” e de inchaço da máquina pública.

O problema é que ainda não sabemos muito bem o que é o espaço público, porque não agimos como sujeitos, transferindo a responsabilidade pela construção da cidadania aos aparelhos de governo. Focamo-nos nas salvações que podem vir do poder e não obrigamos o poder público a representar de fato todos os setores sociais. O resultado dessa prática (ou ausência de prática) é o fortalecimento da violência e do autoritarismo, que atualmente se intensificam nas formas de controle policial, por exemplo, e a falta de pensamento no jogo político (não somente de direita, mas também de esquerda!).



Chamar atenção para essa dinâmica perversa é o que faz Marilena Chaui na entrevista que concedeu à CULT.

CULT: Como a senhora vê a situação política vivida pelo Brasil hoje?

Marilena Chaui: É uma situação gravíssima. É gravíssima não por causa daquilo que a mídia apresenta como falência do governo, mas pelo movimento conservador, reacionário, de extrema direita e protofascista que está tomando conta da pauta política. Quando examinamos os pontos da pauta política discutidos de outubro de 2015 até agora, vemos o poder dos grupos dos “3B”: o boi, a bala e a Bíblia. É uma regressão sociopolítica fora do comum. É uma pauta regressiva, antidemocrática, de violação de todos os direitos que foram conquistados ao longo dos últimos quinze anos. Todo o fundo reacionário protofascista que existe no Brasil e que é alimentado pela classe média urbana brasileira veio à tona e pegou as esquerdas completamente desprevenidas. As esquerdas tinham pautas como o antineoliberalismo, os direitos, a questão da Palestina e do Oriente Médio, do surgimento do Estado Islâmico, enfim, pautas voltadas aos problemas da democracia e do socialismo, e foi pega completamente despreparada por uma onda de extrema direita que repôs para o Brasil os tópicos que estiveram em vigência no início dos anos 1960. É uma ameaça de golpe para reverter o processo de consolidação dos direitos sociais obtidos nos últimos anos e sustentada pela pauta “boi, bala e Bíblia”. Aliás, a atuação de grupos religiosos é muito preocupante e vai além de uma questão propriamente política, porque, apesar de se manifestar na representação política, ela é uma questão socioeconômica: é a maneira como as igrejas evangélicas interiorizaram e reformularam a concepção neoliberal.

CULT: Como se dá essa interiorização e reformulação evangélica da concepção neoliberal?

Marilena: Uma das características do neoliberalismo é a maneira como ele concebe o indivíduo, que não é entendido nem como parte de uma classe social, nem como ser em formação que vai se relacionar com o restante da sociedade. O indivíduo não é pensado nem como átomo nem como classe, mas como um investimento. Na medida em que um indivíduo é um investimento, o salário não é entendido como salário, mas como provento, como renda. Então, o ser humano é programado para ser rendoso e rentável. A família, a escola e o emprego passam a ter por função a rentabilidade do indivíduo, porque ele é um investimento. As igrejas evangélicas se apropriam desse ideário e o desenvolvem por meio de uma teologia – a teologia da prosperidade, que considera cada indivíduo justamente como um investimento ou uma empresa. Ele não é um empresário, mas uma empresa, e, como tal, precisa de uma série de condições para funcionar. Então as igrejas, além de convencerem a pessoa de que ela nasceu para vencer na vida e ser rentável, levam a ética calvinista ao máximo, explorando a crença de que ser rentável é um sinal de salvação, porque é isso que Deus espera.

Como se sabe, a maior parte das igrejas evangélicas possui franquia. Elas se espalham no campo da produção e do comércio e empregam todas as pessoas, fazendo com que elas provem que Deus as escolheu e que são um investimento rendoso. Pouco a pouco, as pessoas se apropriam da franquia; depois abrem outra e assim por diante. Há, portanto, um fenômeno de fortalecimento da ideologia neoliberal e das concepções conservadoras da classe média por meio da maneira como as igrejas evangélicas incorporam o neoliberalismo, com uma teologia para isso. Se você juntar o conservadorismo com o reacionarismo da classe média urbana e a presença avassaladora das igrejas evangélicas, além de toda a discussão sobre a vida no campo (a reforma agrária), vai entender por que politicamente se exprime, de modo efetivo, nos grupos do “boi, bala e Bíblia”, a pauta ultraconservadora que está aí.

A minha preocupação é, evidentemente, por um lado, denunciar de todas as maneiras possíveis a tentativa de golpe. Por outro, assegurar que governos voltados para os direitos sociais (e, desse ponto de vista, com uma pauta antineoliberal) sejam garantidos. Ao lado disso, a minha preocupação é com a sociedade, ou seja, com a ideologia. Depois de muito tempo, lá retorno eu à questão da ideologia. É preciso refletir sobre como erguer um dique para impedir a entrada avassaladora da ideologia neoliberal na sua forma teológica. Estamos vivendo um momento que vai fazer 1964 parecer uma coisa muito simples. 1964 estava inserido na Guerra Fria, no poderio dos Estados Unidos sobre os países da América Latina. Por causa do exemplo de Cuba, acreditava-se ser possível uma revolução socialista. Os componentes eram muito óbvios. Havia uma clareza na compreensão do momento vivido. Agora não há clareza. Tudo é muito difuso, muito opaco, obscuro, porque há fundo teológico.


Marilena Chaui entre Juvenal Savian Filho e Laís Modelli / Foto: Bob SousaMarilena Chaui entre Juvenal Savian Filho e Laís Modelli / Foto Bob Sousa



CULT: A senhora acredita em um golpe militar?
Marilena: Está fora de questão.

CULT: O que pode acontecer?

Marilena: Se as coisas continuarem no ritmo em que estão e se o golpe dos 3B se concretizar, haverá uma efervescência social enorme, porque todos aqueles cujos direitos foram garantidos pelo Estado depois da era militar terão esses mesmos direitos cortados. E haverá ameaças: ameaça no campo, ameaça urbana, uma situação de vigilância e intimidação em todas as instituições. Isso provocará reação, uma resposta social enorme. É um risco que o PSDB não quer correr porque ele não tem condição de conter essas reações; e esse risco também não interessa ao PMDB, porque o partido está dividido. Então, no fim das contas, as forças que poderiam produzir um golpe não têm mais interesse que ele aconteça, porque a convulsão que ele vai provocar, à direita e à esquerda, não pode ser controlada nem pelo PSDB e nem pelo PMDB. Eles não têm quadros e condições institucionais para controlar convulsões sociais.

CULT: E o que daria as condições de governabilidade nesse possível contexto?

Marilena: Se houver golpe, a prática será a pura intimidação e a violência. Aquilo que a gente viu com os Atos Institucionais. Um Ato Institucional poderia concretizar, por meio da polícia – já que o Exército não se misturará –, a intimidação e a violência.

CULT: Pensando na materialização da violência, que espaço resta ao diálogo nesse momento condicionado à truculência?

Marilena: Nenhum. Vamos tomar o caso de São Paulo como exemplo. Há uma coisa muito interessante: quase ninguém se dá conta de que o estado de São Paulo – o único estado realmente capitalista no Brasil, já que os outros são semicapitalistas – é governado desde o final dos anos 1980 por um único partido político. Economicamente, São Paulo é um estado capitalista, mas politicamente é uma capitania hereditária. Parece haver um contrassenso entre o conservadorismo político e o desenvolvimento econômico. Mas é só na aparência que isso é contraditório, porque o conservadorismo político é a base de sustentação desse tipo de desenvolvimento capitalista. Vejam o que acontece com o governador. Há o problema da água, da luz, das escolas, da saúde – escândalos –, mas nada gruda no Geraldo Alckmin. Escorre. Isso acontece porque ele representa o tipo de poder político do estado de São Paulo: forte e autoritário. A juventude sai às ruas e faz uma manifestação? Polícia nos jovens, bate neles! O pessoal do transporte sai para se manifestar? Polícia neles, bate neles! Isso é referendado pela sociedade paulista, não só a paulistana, que está de acordo e espera que isso seja feito. Esperaríamos uma reação profunda, mas não é o que acontece. Eu me lembro de ter visto pela televisão estudantes algemados durante a ocupação das escolas. Eu disse, “Meu Deus, não se algema estudante!”. Eles não só foram algemados, como isso foi dado pela mídia como algo natural; e pela sociedade, como uma coisa necessária.

Então nós temos a consagração, da maneira menos retórica possível, da violência estrutural da sociedade brasileira. Não uma violência pontual, de modo que possamos falar em “ondas de violência”. Não. Há uma violência estruturante. É a estruturação violenta de uma sociedade hierárquica, vertical, oligárquica, conservadora, que defende os privilégios contra qualquer forma de direitos; é a mesma que dá a sustentação ideológica e política para a manifestação da violência governamental. Essa violência governamental é a expressão da violência não só paulista e paulistana, mas brasileira, e é ela que legitima essas ações. Se consideramos todo o ideário da burguesia e da alta classe média brasileira, vemos que qualquer contestação, qualquer revolta é uma “crise”. A noção de crise está identificada por essa classe com a ideia de desordem e perigo. Ora, diante da desordem e do perigo, o que é que se pede? Repressão. Cada vez que há uma luta por direitos contra privilégios, essa luta é vista como violenta e precisa ser reprimida. Há, portanto, uma inversão ideológica fantástica no Brasil: a violência é vista como ordem.

CULT: A senhora ainda acredita na desobediência civil?

Marilena: Eu acho necessária! Outro dia um colega me disse: “Marilena, você tem que levar em conta que a juventude que tinha 13, 14 anos em 2000 só conhece o PT como governo, não conhece a história do PT como movimento social e sindical, como presença contestadora e de desobediência civil no interior da ordem brasileira”. Isso quer dizer que a figura do PT se apagou e sobrou somente esse pedaço, esse triste pedaço que é o PT no aparelho de Estado.

Seria preciso lembrar, por exemplo, a criação do CEDEC [Centro de Estudos de Cultura Contemporânea]. Existia no Brasil o CEBRAP [Centro Brasileiro de Análise e Planejamento], que era dirigido pelo Fernando Henrique Cardoso. O Francisco Weffort, em 1976, disse que o CEBRAP era muito economicista e que precisávamos de um centro que pensasse as questões políticas e sociais. Reunimo-nos, então, o Francisco Weffort, o José Guilhon de Albuquerque, o José Álvaro Moisés, o Lúcio Kowarick e eu, criamos o CEDEC. A Sociologia, a Ciência Política e a História explicavam (e ainda explicam) o Brasil sempre a partir do aparelho de Estado. A História do Brasil era contada como história das mudanças no aparelho de Estado e das decisões tomadas pelo Estado. O Estado aparecia como o sujeito histórico, político e econômico, como se não existisse uma sociedade nem uma luta de classes. O CEDEC propôs inverter esse processo e lembrar que a sociedade brasileira existe, com os movimentos sociais e populares. Era o momento em que surgia o Movimento dos Sem Terra, o movimento feminista, o movimento sindical. Os movimentos começavam a se organizar; os sindicatos criam as comissões de fábrica no ABC e fazem as greves. É desse momento histórico que nasce o PT. Nós surgimos da ideia de que a história do Brasil e a sociedade brasileira não são feitas pelo aparelho de Estado e de que o Estado não é o sujeito social. Existe a luta de classes e é no interior do conflito que se criam as bases da democracia. O PT se originou, então, de atos de desobediência civil. Mas isso os jovens não sabem, porque eles só conhecem o PT como um partido institucionalmente posto, envolvido nas questões do Estado e governamentais, como se isso desse conta de toda a história do PT.

É isso que permite entender também por que jovens de esquerda querem outras opções, em vez de ligar-se ao PT. Proliferam os pequenos partidos de esquerda porque toda a história social e política ficou encolhida nesses últimos quinze anos. Isso também explica o quanto nós do PT ficamos despreparados na hora em que surgiu o atual golpe. Imagine o PT do qual eu venho, o PT dos anos 1980 e 1990… Ele não teria aceitado minimamente aquilo que iria desencadear o golpe. Ele nem permitiria que isso sequer aflorasse. Muito do que estamos vendo em termos de pauta conservadora na política está ligado ao encolhimento de tudo aquilo que representa uma pauta de esquerda.

CULT: A esquerda tornou-se obediente?

Marilena: Sim, claro. O PT ficou desarmado no momento em que teria de tomar uma posição pública e esclarecer as coisas. Agora, de um lado temos o Eduardo Cunha, com as igrejas evangélicas, e, do outro, o Alckmin, com a Opus Dei. É demais da conta! Eu venho de uma tradição em que a grande aliança era sustentada pela Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base. Ver os cristãos perdidos entre os evangélicos e a Opus Dei é demais; é insuportável para a minha cabeça porque eu vi a outra experiência que o cristianismo é capaz de ter e que teve na América Latina inteira.

CULT: A senhora interpreta a frase “Meu partido é meu país”, comum nas manifestações de 2013, como a manifestação de um desejo de algo novo ou como uma frase conservadora?

Marilena: “Meu partido é meu país” é uma frase nazista. Ela nasceu na luta contra a social-democracia, sobretudo quando o nazismo se opõe à República de Weimar e leva a pensar que os partidos políticos roubam ou tomam para si as ações políticas que caberiam exclusivamente ao governante. O governante aparece, então, como o chefe. É dele que deve emanar, transcendentemente, toda a decisão política. Desse ponto de vista, se os partidos políticos usurpam uma função que não é deles, é preciso eliminá-los. Daí a ideia de que “meu partido é meu país”.

CULT: Falando de encolhimento da pauta de esquerda, como a senhora interpreta a ação de setores do movimento estudantil que consideram os docentes como inimigos ou representantes do capital? É delicado tocar nesse ponto, porque não se trata de ser contra o movimento estudantil. Mas entender a universidade como espaço de tensão entre estudantes, servidores (técnicos) e docentes não é também uma forma de violência ou de exclusão de diferenças?

Marilena: Há algo que marca com força a história da política de esquerda no Brasil: é o fato de que, periodicamente, vindos da baixa classe média ou da classe média, há grupos que se apropriam do marxismo e do leninismo e se apresentam como revolucionários. Na verdade, o encolhimento do espaço público e de tudo o que ele representa alimenta pequenas formas privatizadas do pensamento de esquerda, dando origem a pequenos movimentos e pequenos partidos. Não vou nomear nenhum deles, mas estou apontando para a origem deles, a maneira pela qual eles privatizam um ideário. Isso significa, em primeiro lugar, fazer com que esse ideário não apareça como um ideário em expansão, mas como um ideário de exclusão. Esses partidos e movimentos se fecham sobre si mesmos, porque a condição de sobrevivência deles está na recusa de qualquer inclusão e de qualquer ampliação. Eles se mantêm pela sua pequeneza e pelo fato de que eles excluem tudo o que não se restrinja a uma pauta mínima produzida por eles mesmos. É uma mescla da vulgata marxista, da vulgata leninista e do stalinismo puro, simples e cru. É mais do que uma coisa reacionária, é uma vertente totalitária. E é por essa maneira totalitária, privatizada e excludente de se organizar que esses grupos encaram todo o restante como inimigo que precisa ser destruído. O outro não é inimigo por causa disso ou daquilo. Ele é inimigo porque simplesmente é outro. É a mesma lógica de Carl Schmitt, incorporada por grupos pretensamente de esquerda.


“Você conversa com alguém da direita e vê que ele é capaz de dizer quatro frases contraditórias e sem perceber as contradições. Você conversa com alguém da extrema esquerda e vê o totalitarismo que também opera com a ausência do pensamento. Então nós estamos ensanduichados entre duas maneiras de recusar o pensamento.” / Foto Bob Sousa



CULT: A senhora sabe que um curso seu, de leitura rigorosa da Ética de Espinosa, seria hoje considerado, em alguns contextos, como um trabalho burguês, não sabe?

Marilena: Eu sei!

CULT: Então, por que a cultura erudita ou o pensamento é associada por alguns movimentos a uma prática burguesa?

Marilena: O pensamento é associado à prática burguesa porque esses movimentos operam pela ausência de pensamento. Estamos em uma situação aterradora: do lado da direita e da esquerda há ausência de pensamento. Você conversa com alguém da direita e vê que ele é capaz de dizer quatro frases contraditórias e sem perceber as contradições. Você conversa com alguém da extrema esquerda e vê o totalitarismo que também opera com a ausência do pensamento. Então nós estamos ensanduichados entre duas maneiras de recusar o pensamento. Lá onde o pensamento estiver se exercendo, ele receberá mil e um nomes, e como para esse pessoal de esquerda xingar é chamar de burguês, eles tratam a cultura erudita como coisa de burguês. Mas se você perguntar o que é a burguesia e o que é o capital, se pedir uma explicação, verá que eles não sabem muita coisa; apenas repetem um chavão. Nesses grupos há uma coisa muito parecida com o que acontece nas igrejas evangélicas: uma teologia e uma lavagem cerebral. É um esvaziamento de qualquer capacidade de pensamento. Não é por acaso que dos dois lados o exercício da violência é igual, e vai da violência verbal à física, à exigência de sangue. Quando o João Grandino Rodas foi reitor da USP e houve a segunda ocupação da reitoria, nós, professores, fomos negociar com os alunos e com a própria reitoria, e os alunos finalmente aceitaram desocupar. Veio então um membro desses pequenos partidos de esquerda e disse: “Ninguém sai; nós queremos ver sangue”. Por que ele queria ver sangue? Porque ele achava que ganharia poder pela destruição física do outro – uma destruição que não é nem política, nem social.

CULT: Há um encolhimento da capacidade humana de refletir e fazer escolhas ponderadas? Tanto do lado da polícia como do de certos grupos de esquerda…

Marilena: Eu entendo isso com Espinosa. O que há nos seres humanos? Há paixões. A maneira como entendemos o mundo, a nós mesmos e aos outros é dada pela maneira como o mundo e os outros nos afetam. Eles causam em nós a sensação de perigo ou de aumento da nossa capacidade de viver. Se tudo o que se passa em mim é produzido pela maneira como o que está fora age sobre mim, eu sou passiva e todos os meus sentimentos são apenas paixões: o amor, a esperança, o ciúme, a misericórdia, a honra, a glória etc. O que eu sinto é pura e simplesmente uma reação passiva ao que vem de fora.

Ao contrário, se eu tenho força interior para saber que eu posso ser a causa dos meus sentimentos e, que se sinto raiva de você, não é por sua causa, mas por aquilo que eu sinto com relação ao que eu penso a seu respeito, então me vejo como a causa da raiva que sinto por você, em função do modo como eu penso em você ou percebo você. A partir do momento em que eu sou capaz de me reconhecer como causa dos meus sentimentos, eu sou ativa e descubro que não tenho de responsabilizar os outros por aquilo que se passa em mim. Se eu for passiva, nunca serei livre; tudo o que eu fizer será determinado pelo que os outros exigem de mim; e, mesmo que eles não façam nenhuma exigência, eu sinto como uma exigência. Então só obedeço ao que eu imagino que seja o desejo do outro. Ao contrário, se é o meu desejo que determina o que eu vou fazer e como vou fazer, eu sou livre.

Dessa perspectiva, o que é a violência? É aquilo que se passa inteiramente no campo das paixões, porque é lá que os desejos entram em conflito. Se eu me entregar a elas, faço o meu desejo valer destruindo o desejo do outro; e o outro faz a mesma coisa: ele acha que, para existir, deve dobrar o meu desejo, deve se apropriar de mim e me dominar física e psicologicamente, pela manipulação dos desejos e sentimentos, pela ideologia, por um série de manipulações sociais, amorosas etc. Pense no caso da violência policial: é a força física pura e simples. Um policial não é capaz de tomar uma decisão em que ele enfrentaria uma ordem recebida, dizendo, por exemplo: “Puxa vida, um filho meu poderia estar entre os manifestantes…”. Mas isso não acontece só porque ele recebeu uma ordem. É porque essa ordem constitui o modo como ele é, pensa e opera. Ele encarna essa ordem, é o portador dela e opera em um contexto de pura paixão. Essa é uma análise puramente psicológica. É preciso pensar também em termos sociais: o policial encarna a repressão; ele a realiza em nome da ordem, da paz e da segurança. Psicologicamente, ele não é capaz de deliberar sobre como poderia agir diante de manifestantes que gritam por direitos e denunciam privilégios, porque ele é, naquele instante, pura paixão. Social e institucionalmente, ele só existe como policial porque recebe, cumpre ou dá uma ordem. A polícia existe, então, como instituição social garantidora de determinados privilégios de classe. Trata-se do embate entre o direito e o privilégio. Esse embate se realiza, na sociedade brasileira, por meio da violência.

CULT: A senhora diria que o movimento de ocupação das escolas foi um bom uso político das paixões?

Marilena: Um excelente uso…

CULT:  E que diferença a senhora vê entre esse movimento e o das  ruas de 2013?

Marilena: Em 2013, o movimento foi algo inesperado. Pouco antes das manifestações, eu estava dando um seminário na faculdade e ouvi um tambor pelos corredores. Me falaram: “É o movimento do Passe Livre, que está convocando uma reunião”. Havia só uns 30, 40 gatos pingados. Até que eles puseram nas redes sociais e aconteceu aquela movimentação toda. Mas na primeira manifestação tinha de tudo. Era um evento com a motivação mais diversa possível. Não estou dizendo que era um movimento totalmente despolitizado, mas que tinha um pequeno conteúdo determinado pelo grupo do Passe Livre, ao qual se juntaram outras formas de descontentamento. Foi estarrecedor ver que, na segunda manifestação, quando a juventude começou a comemorar, levando bandeiras do PT, do PSTU, do PSol, do movimento dos sem teto, apareceram jovens embrulhados na bandeira do Brasil, atacando, espancando e ensaguentando os manifestantes de esquerda. Assim, em lugar do conflito democrático, passou-se ao combate violento e à agressão ao adversário. Mas algo curioso aconteceu: construiu-se um sentido político para toda aquela movimentação. A própria mídia, que falava dos “vândalos” das primeiras manifestações, depois passou a falar de “manifestantes”. Houve uma construção política de uma manifestação que não existiu realmente como algo político. Ninguém prestou atenção nisso! Eu procurei falar do assunto e fui violentamente agredida, mesmo pela esquerda. Disseram que eu não tinha entendido o momento histórico. Mas fizeram mais: pegaram a afirmação que eu fiz sobre o caráter fascista dos jovens vestidos com a bandeira e disseram que eu havia considerado todas as manifestações como fascistas. Na época das eleições, o Fernando Gabeira chegou a escrever um artigo de uma página inteira no jornal O Globo contra mim, afirmando que, na minha opinião, a presença do povo na rua era fascismo. O que eu tinha dito era: houve um momento fascista nessas manifestações e ninguém está prestando atenção nisso. Aí, quando começaram os panelaços de 2015, ficou evidente o que eu queria dizer. O que veio a seguir? Veio a demanda de retorno da ditadura, a presença da TFP [Grupo de extrema direita intitulado Tradição, Família e Propriedade] e a afirmação da pauta conservadora dos 3Bs.

CULT: Na verdade, em 2013, a senhora previu, em entrevista à CULT, que no Brasil iriam acontecer panelaços parecidos com os da Argentina.

Marilena: Fui a única. Eu não sei por que as pessoas – algumas delas inclusive feridas por 1964 e 1968 muito mais do que eu, como o próprio Gabeira – não se deram conta do que estava vindo. Não sei se eu conseguia ver porque presto muita atenção no Brasil como uma sociedade violenta e autoritária… Não sei se é por isso, mas eu fiquei muito surpresa ao perceber que muita gente de esquerda não percebia o que estava se montando e que junho de 2013 não era maio de 1968. Maio de 1968 foi a ocupação das escolas agora. Isso foi maio de 68.

CULT: Por quê?

Marilena: Porque, no caso da ocupação das escolas, há, em primeiro lugar, um movimento de inclusão e ampliação. A marca dos movimentos realmente libertadores é sempre a inclusão e a ampliação. Em segundo lugar, pelo fato de que ele foi se dando à maneira do que, no meu tempo, se conhecia como “greve pipoca”. Em uma fábrica, por exemplo, às seis horas da manhã, um setor para por 40 minutos. Durante o tempo em que ele parou, outros três ou quatro setores não conseguiram funcionar. Então, aquele primeiro setor volta a funcionar, mas, daí, em outra ponta, outro setor para por 40 minutos. Tudo o que está em volta não funciona. Assim, sobretudo quando a greve era proibida, ia pipocando paralisação, de modo que as instituições (uma fábrica, uma escola etc.), mesmo sem parar, ficavam inteirinhas paralisadas. Nos lugares estratégicos pipocava a paralisação. Foi assim que a ocupação das escolas seguiu o princípio da greve pipoca. Quando os administradores da educação achavam que iam resolver a ocupação de uma escola, começava na outra; quando eles iam resolver nessa outra, começava em outra. Ou seja, ela foi pipocando até o instante em que parou tudo.

Além disso, a maior diferença entre a ocupação das escolas e o movimento de 2013 é que a paralisação aconteceu no interior de uma instituição pública e social para a garantia do caráter público dessa instituição. Não foi um evento em favor disso ou daquilo; foi uma ação coletiva de afirmação de princípios políticos e sociais. Os dois grandes princípios foram, primeiro, o princípio republicano da educação – a educação é pública; segundo, o princípio democrático da educação – a educação é um direito. A ação dos estudantes e professores foi tão significativa porque eles disseram: “O espaço da escola é nosso. Somos nós, alunos e professores, que somos a escola”. Então, foi a “integração de posse” das escolas pelos alunos e professores. É gigantesco o fato de alguém no Brasil pensar que algo público é nosso! É diferente das ocupações de reitorias, em que os estudantes dizem: “Nós somos contra isso que o reitor fez…” Agora, os estudantes disseram: “Esse lugar, essa instituição é pública; ela é nossa e não vamos sair daqui”. Eles se posicionaram contra algo típico do neoliberalismo – posto em prática, sob certos aspectos, no decorrer da Ditadura e, depois, explicitamente nos governos Fernando Henrique Cardoso: a ideia de que um direito social e político é aquilo que pode ser transformado em serviço e comprado no mercado. As pessoas falam das privatizações como se elas fossem apenas a da Vale e das grandes empresas… É isso também, mas o núcleo da privatização está em outro lugar, está na transformação de um direito social em serviço que se compra e vende no mercado. Isso foi feito com a educação, com a saúde, com o transporte, com todos os direitos sociais. E, em São Paulo, com grandes baterias, isso foi feito. Os estudantes mostraram que a escola pública não é mercadoria; fizeram uma ação republicana e democrática de um alcance incrível. Eu só vi algo parecido, em termos de configuração social no Brasil, nas greves de 1978 e 1979 no ABC. Por quê? Não pela repercussão, mas pelo sentido que elas tiveram.

Pensem no fato de que, durante as ocupações, só foram chamados para dar entrevistas cientistas políticos, sociólogos, historiadores, mas nenhum professor ou estudante das escolas ocupadas! Nenhum professor ou estudante foi considerado capaz de explicar o que se passava. Só se ouviu gente que estava fora das salas de aula e que vinha explicar falando disparates. Quando a mídia entrevistava algum estudante, só perguntava coisas do tipo: “O que você sente? Do que você gosta e não gosta? O que você quer?”. Ou seja, ficava no nível puro e simples do sentimento, não do pensamento. Apesar disso, a palavra deles chegou à sociedade por outras vias; e isso mostra o tamanho da ação que eles realizaram. Houve uma solidariedade que há muitos e muitos anos não se via no estado de São Paulo inteiro. Por fim, as ocupações deixaram claro o motivo de fechar as escolas. Em um país como o nosso, não se fecha escola; se abre. Mas o governador de São Paulo queria os terrenos para uma exploração imobiliária gigantesca. E para fazer o quê? Para fazer fundo de campanha. É claro que agora o Geraldo Alckmin vai tentar fragmentar tudo e implantar devagarzinho o seu projeto. Hoje essa escola, amanhã aquela. Não sei se ele vai conseguir, mas vai tentar. Como o Ensino Fundamental é praticamente todo municipal, o Ensino Médio é estadual e, de um modo geral, o Ensino Universitário é responsabilidade federal, essas instâncias operam de modo fragmentado; e isso permite tentativas de reestruturação como as de São Paulo e de Goiás. De todo modo, os estudantes revelaram que a ideia de fechar uma escola não significava fechar uma escola, significava vender um terreno. Portanto, eles denunciaram o caráter corrupto da suposta política de reestruturação escolar.


Chaui_bob-sousa_1“A ação dos estudantes e professores foi tão significativa porque eles disseram: ‘O espaço da escola é nosso. Somos nós, alunos e professores, que somos a escola’. ” / Foto Bob Sousa



CULT: Como a senhora vê o atual momento da economia brasileira?

Marilena: No primeiro ministério montado pela presidente Dilma, enfatizou-se, por um lado, a crise internacional em que o elemento financeiro é decisivo, e, por outro, o fato de haver, no Brasil, uma disputa entre a indústria, o comércio e o setor agrário. A Dilma pôs representantes desses setores no governo e deu a eles a responsabilidade de resolver o conflito. Um banqueiro junto com o agronegócio. Eles não resolveram. Não sei se a presidente foi maquiaveliana, mas ela parecia prever que eles fracassariam e que o fracasso mostraria para onde o barco deve ir. Então, o que ela está fazendo agora? Ao chamar o principal assessor do Guido Mantega, ela sinaliza claramente que vai retomar a política de desenvolvimento e crescimento econômico, a começar pelo aumento do salário mínimo.

É claro que há uma crise internacional gigantesca e que vai pegar os membros do BRIC. Já pegou a China, está pegando a Índia; a situação vai complicar. Mas, de todo modo, a opção agora é a do desenvolvimento. Sem desenvolvimento e crescimento não se faz, efetivamente, a política dos programas sociais. Se não há mudança no mercado de trabalho com aumento do emprego e da escolaridade, a manutenção dos programas sociais vira assistência.

CULT: Como a senhora entende a crítica da classe média alta e de alguns economistas que afirmam ser o Brasil um país protecionista e que faz pouco investimento?  

Marilena: O grito contra o protecionismo é o grito da direita. São os republicanos nos EUA, o Le Pen na França, o pessoal da Alemanha. O que eles entendem por fim do protecionismo? Um “liberou geral”, um capitalismo “adulto”. A ideia de que o Estado intervenha é o que eles chamam de protecionismo. Mas se o Estado não limitar a ação do capital, cai-se na barbárie. Com relação ao investimento, a gente sabe que o Estado brasileiro investe. Há dados inacreditáveis. Na verdade, não são inacreditáveis se conhecermos bem a burguesia brasileira. Vejam: o BNDES liberou todos os recursos possíveis para os empresários brasileiros, mas eles não investiram; eles puseram tudo nos bancos, nas ilhas Cayman, em Miami, onde quiseram. Em vez de investir no país, o dinheiro do BNDES foi parar no setor financeiro fora do Brasil. E daí se diz que o país não investe! Eu adoro a burguesia brasileira. Quando ela disse “quero café”, foi ótimo. No mundo inteiro, quem vai plantar café constrói estrada de ferro para levar o café até os pontos de distribuição. Aqui no Brasil, porém, é o Estado que tem de construir estradas de ferro. A burguesia só plantava o café. Se ela precisa de porto, no mundo inteiro ela constrói portos. Aqui não. É o Estado que tem de construir o porto para a burguesia mandar o café. A burguesia quer industrializar, mas é o Estado que tem de fornecer eletricidade. A burguesia brasileira mama nas tetas do Estado desde que ela nasceu. E tem a ousadia de se colocar contra os programas sociais, quando ela depena o Estado sistematicamente.

CULT: Recentemente, a senhora afirmou que o Bolsa Família fez pelas mulheres o que seis décadas de feminismo no mundo não conseguiu…

Marilena: Esses dados estão consagrados em um livro feito pela Walquíria Leão Rego sobre o Bolsa Família (Bolsa Família: autonomia, dinheiro e cidadania, em coautoria com Alessandro Pinzani, Editora da UNESP). O que ela mostrou? Primeira coisa: como o dinheiro vai para as mulheres, elas foram transformadas em chefes de família. Na tradição brasileira, o dinheiro costuma ir para o homem, e só uma parte vai para a família; a outra parte vai para os gastos pessoais dele. Com o Bolsa Família, quebra-se o monopólio masculino sobre a administração da casa. Em segundo lugar, as mulheres passaram a cuidar mais de si mesmas. Juntando o dinheiro do Bolsa Família com os serviços do SUS, por exemplo, elas fizeram diminuir o número de doenças femininas. Finalmente, elas têm participado mais de atividades públicas, filiaram-se a movimentos sociais e criaram cooperativas. Há uma quantidade enorme de cooperativas criadas pelas mulheres com o que sobra do uso do dinheiro do Bolsa Família.

CULT: Qual seria o papel do Estado na promoção da igualdade e dos direitos das mulheres?

Marilena: A função do Estado não é a de promover. Ele tem de reconhecer os direitos das mulheres e decretá-los. Sua função é consignar na lei, institucionalmente, aquilo que os movimentos das mulheres exigem e produzem, mas essa ação é social. A política se faz pela sociedade. O Estado brasileiro precisa parar de agir como se não houvesse uma sociedade. A ele cabe salvaguardar tudo o que há de republicano e democrático nas ações políticas da própria sociedade. Mais do que promover, o Estado tem de garantir.

 Juvenal Savian Filho é professor de História da Filosofia da UNIFESP
Laís Modelli é repórter da revista CULT

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O EFÊMERO




O EFÊMERO

ROGEL SAMUEL


De Ricardo Reis canta certa ode, digo Pessoa, nos meus ouvidos sempre que estou em dúvida e que logo me diz:


Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.


De meu mestre Euryalo Cannabrava certa vez nos contava, em sala de aula, que, quando algum dilema lhe aparecia ele preparava a sua morte, que era hipotética morte, ele a marcava, com data e horta, para depois de alguns dias se matar, dizia ele, e seus problemas se diluíam porque nada resiste à Ela, a morte - a suprema! - e «tão cedo passa tudo quanto passa!». Que sem a morte a vida seria muito mais chata, repetitiva e cruel.
Nesse sortilégio o nada vai da invenção das palavras, criatura de uma rosa eterna, para além dessas floras efêmeras - eterna porque morre, e morre por ser eterna, neste mundo vão - curiosa antítese que me lembra uma página de Hannah Arendt em que se faz a distinção entre eternidade e imortalidade (Hanna ARENDT. A condição humana. Rio de Janeiro, Forense/Rio de Janeiro, Salamandra/São Paulo, Ed. Universidade São Paulo. 1981. 339p.)
A distinção estabelecida entre imortalidade e eternidade esclarece parte da alienação do nosso mundo moderno 
Pois Imortalidade significava a continuidade no tempo, através da realização de grandes feitos, obras - os feitos notáveis. Por sua capacidade de produzir grandes obras e de realizar feitos heróicos e imortais, os homens podiam, através das marcas de sua passagem, participar da natureza dos deuses. Na Antigüidade Clássica, havia os que ambicionavam à fama e, portanto, à imortalidade, e havia os que, satisfeitos com os prazeres que a natureza lhes oferecia, viviam e morriam como animais. Nesses dois casos, uma alienação se percebe e uma falta de compreensão da natureza do real.
Outra coisa era a experiência do eterno, própria do filósofo, no sentido estrito do termo, isto é, aquela visão da eternidade, ainda que passageira, momentânea. Diz Arendt que depõe muito a favor de Sócrates o fato de ele não ter escrito nada, porque não estava preocupado com a fama, ou seja, com a imortalidade. O filósofo vivia a experiência do eterno. Se escrevesse a sua experiência do pensar, ambicionaria Sócrates a imortalidade, ou seja, procuraria deixar para a posteridade algum vestígio de si: assim é a fama. (Ironicamente hoje se admite poder alguém ser «famoso» sem nada ter produzido, como por exemplo um locutor de TV ou uma garota do Big-Broder).
A experiência do eterno, diz Arendt, só pode ocorrer fora da esfera das ambições humanas. Se morrer é deixar de estar entre os homens, ela é a morte do ego. Seu contrário seria a intenção da fama, da imortalidade. Eternidade e imortalidade estão, deste modo, em lados integralmente opostos e contraditórios.
Entretanto, tal experiência, a percepção do Eterno, diz Hannah Arendt, tem de ser rápida, ninguém poderia suportá-la por muito tempo. Nós, seres condicionados e mortais, não podemos encarar o eterno na sua eternidade, senão indireta e rapidamente, numa intuição momentânea. O eterno está fora do nosso mundo. A imortalidade, ao contrário, reside entre nós, é criação humana. Ao contrário, o eterno não é condição de possibilidade humana, nem é tocado pela ambição humana. O eterno advém ao homem quando este nada deseja, na imobilidade do pensamento atento, silenciado pelo êxtase da contemplação. Os poetas do Zen sabiam disso. Pois o eterno não pode ser convertido em atividade da cotidiana linguagem humana, é uma iluminação fortuita que não se consegue senão com a intuição do poético, com a observação pura dos movimentos do pensar. O eterno é positivo, nasce quando há radical negação. Não pode ser aprisionado pelo discurso, mas representa a intensificação, a liberdade, a libertação do que não pode ser objetivado pelo discurso científico - o eterno é a poesia.
A Imortalidade, entretanto, foi impiedosamente abalada com a queda do Império Romano. A destruição de Roma mostrou cruelmente que nenhum produto do homem pode ser considerado eterno. A nossa feitiçaria é vã, diria o poeta Ledo Ivo.
A morte, entretanto, é coisa séria, como o que «contam de Clarice Lispector» de João Cabral:


Um dia, Clarice Lispector 
intercambiava com amigos 
dez mil anedotas de morte, 
e do que tem de sério e circo.
Nisso, chegam outros amigos, 
vindos do último futebol, 
comentando o jogo, recontando-o, 
refazendo-o, de gol a gol.
Quando o futebol esmorece, 
abre a boca um silêncio enorme 
e ouve-se a voz de Clarice: 
Vamos voltar a falar na morte?

domingo, 21 de fevereiro de 2016

O AMANTE DAS AMAZONAS


TALVEZ que uma ratazana saísse dali diante de mim, de sua ratada. Talvez. Ratânia-do-Pará. Talvez um ratão, um rato enorme, como ratão-d’água, ratão do banhado, roendo, moendo sob a terra, corroendo a casca, mascando e carcomendo a crosta, consumindo, devorando por baixo de numa mastigação constante. Ou mais. Ou o dorso preto, ou cinza escuro, de quase 15 centímetros de rabo, couro, rabo-de-couro e arganaz, murídeo - e atrás vinham outros, catitas, ratinhos, e mais um rato preto, de pilosidade eriçada, um camundongo quase gordo, coró, toró, curuá, sauiá, e mais. E mais. E eram muito mais ratos vindo chegando entrando no barracão, imburucus, gabirus, dezenas, centenas, milhares - o Manixi estava sendo consumido por ratos, e não só de noite como a qualquer hora do mesmo dia.
Revelo que isso se passou naqueles anos, depois, em 1925. Quando presenciei o processo de decadência e morte do Manixi. Para tudo descrever do que então vi direi que os ratos, atrevidos, vorazes, famintos, se multiplicavam, agressivos. Todo o empenho de João Beleza, que administrava o espólio, toda a sua luta contra os ratos de nada adiantava, os ratos não desapareciam e aumentavam, dia a dia, não havia como salvar nada, nem quando conseguiu gatos, os gatos nada puderam fazer, acabaram mortos, os cadáveres dos gatos saqueados e comidos por ratos famintos, ávidos, múltiplos, como se fosse o Juízo Final.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O QUE FALOU UMBERTO ECO NAQUELA NOITE



O QUE FALOU UMBERTO ECO NAQUELA NOITE 

ROGEL SAMUEL...

JÁ FAZ MUITO TEMPO. VOU LEMBRAR ALGUMAS FRASES DELE NA VARANDA, ENQUANTO BEBÍAMOS VINHO NA NOITE MORNA CARIOCA...
ELE DISSE QUE GOSTARIA DE ENTRAR NO MERCADO DE LIVROS AMERICANO. OS SEUS LIVROS SÓ ERAM VENDIDOS NA EUROPA. E ELE SONHAVA CONQUISTAR O MERCADO AMERICANO. POR ISSO ESTAVA ESCREVENDO UM ROMANCE, OU IA ESCREVER, NÃO SEI BEM.
Sim, ia escrever um romance que não teria uma única frase sua, nenhuma, todas as frases seriam de pastiches, citações de outros romances de sucesso. Mesmo o enredo seria uma costura de outras narrativas, de todas as narrativas de sucesso no mundo da literatura. Ele iria usar de todo o seu conhecimento literário para costurar, frase a frase, o texto de sua obra, de seu primeiro romance, ainda sem nome...

MORRE UMBERTO ECO

MORRE UMBERTO ECO - EU O CONHECI NA CASA DE MÔNICA RECTOR... . Assim conheci Umberto Eco, com quem passamos a noite toda na varanda da casa de Mônica Rector discutindo a construção de romance... Ele se estava preparando para escrever “O nome da rosa”.
Mr. Eco was an expert in the arcane field of semiotics whose half-dozen works of fiction included the blockbuster medieval mystery “The Name of the Rose.”
NYTIMES.COM|POR JONATHAN KANDELL

A outra profecia Rogel Samuel


A outra profecia

Rogel Samuel


. Como eu disse, eu tive um amigo, Carlos de Souza Neves, pesquisador das profecias. Principalmente Nostradamus. Ele é autor de um gigantesco livro, “As profecias do nosso tempo”. Eu tenho esse livro, mas não o encontro. Desorganização minha. 

Ele dizia que o mar vai invadir a terra. Isto é possível, com o aquecimento global. No fim da vida, ele construiu uma casa, com cerca de 15 quartos, em Caxambu. Não é luxuosa. Eu a conheço. Após a sua morte, foi deixada, por herança, a um grupo da Sociedade Teosófica. A sua imensa biblioteca lá está.

Mas não é uma casa comum. 
Ela está preparada para o fim do mundo. Souza Neves estocou tudo para sobreviver ali durante muito tempo: fósforo, álcool, lenha, óleo, etc. A própria localização, numa elevação, mostra que ele construiu um refúgio. Uma fortaleza. 

Ele acreditava que a terceira guerra mundial viria do Oriente Médio. Na época nós só pensávamos no confronto entre a União Soviética e os Estados Unidos. Ele dizia que o perigo viria da zona árabe. Na época, ninguém falava em terrorismo. Mas ele sim. 
Mas o pior seria a invasão do mar. Moro a beira mar. No primeiro andar. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Norberto Bobbio

Norberto Bobbio


"O FASCISTA fala o tempo todo em corrupção. Fez isso na Itália em 1922, na Alemanha em 1933 e no Brasil em 1964. Ele acusa, insulta e agride, como se fosse puro e honesto. Mas o fascista é apenas um criminoso comum, um SOCIOPATA que faz carreira na política.

No poder, essa direita não hesita em torturar, estuprar e roubar sua carteira, sua liberdade e seus direitos. Mais do que a corrupção, o fascista pratica a MALDADE".

Norberto Bobbio - Filósofo, jurista e pensador italiano socialista liberal, 2003.

Carta enviada por Guimarães Rosa



Carta envida por Guimarães Rosa ao amigo e também autor João Condé, onde faz relatos inéditos sobre Sagarana.

Prezado João Condé,

Exigiu você que eu escrevesse, manu propria, nos espaços brancos deste seu exemplar de Sagarana, uma explicação, uma confissão, uma conversa, a mais extensa, possível — o imposto João Condé para escritores, enfim. Ora, nem o assunto é simples, nem sei eu bem o que contar. Mirrado pé de couve, seja, o livro fica sendo, no chão do seu autor, uma árvore velha, capaz de transviá-lo e de o fazer andar errado, se tenta alcançar-lhe os fios extremos, no labirinto das raízes. Graças a Deus, tudo é mistério.

Algo, porém, tem de ser dito. Ao autor o que é do autor, mas a João Condé o que é de João Condé.

Assim, pois, em 1937 — um dia, outro dia, outro dia... — quando chegou a hora de o Sagarana ter de ser escrito, pensei muito. Num barquinho, que viria descendo o rio e passaria ao alcance das minhas mãos, eu ia poder colocar o que quisesse. Principalmente, nele poderia embarcar, inteira, no momento, a minha concepção-do-mundo.

Tinha de pensar, igualmente, na palavra “arte”, em tudo o que ela para mim representava, como corpo e como alma; como um daqueles variados caminhos que levam do temporal ao eterno, principalmente.

Já pressentira que o livro, não podendo ser de poemas, teria de ser de novelas. E — sendo meu — uma série de Histórias adultas da Carochinha, portanto.

Rezei, de verdade, para que pudesse esquecer-me, por completo, de que algum dia já tivessem existido septos, limitações, tabiques, preconceitos, a respeito de normas, modas, tendências, escolas literárias, doutrinas, conceitos, atualidades e tradições — no tempo e no espaço. Isso, porque: na panela do pobre, tudo é tempero. E, conforme aquele sábio salmão grego de André Maurois: um rio sem margens é o ideal do peixe. 

Aí, experimentei o meu estilo, como é que estaria. Me agradou. De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira. O que eu gostaria de poder fazer (não o que fiz, João Condé!) seria aplicar, no caso, a minha interpretação de uns versos de Paul Éluard: ...“o peixe avança nágua, como um dedo numa luva”... Um ideal: precisão, micromilimétrica.

E riqueza, oh! riqueza... Pelo menos, impiedoso, horror ao lugar-comum; que as chapas são pedaços de carne corrompida, são pecados contra o Espírito Santo, são taperas no território do idioma.

Mas, ainda haveria mais, se possível (sonhar é fácil, João Condé, realizar é que são elas...): além dos estados líquidos e sólidos, por que não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?!

Àquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores.

Porque o povo do interior — sem convenções, “poses” — dá melhores personagens de parábolas: lá se veem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a seca.

Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais. E compor-se-ia de 12 novelas. Aqui, caro Condé, findava a fase de premeditação. Restava agir.

Então, passei horas de dias, fechado no quarto, cantando cantigas sertanejas, dialogando com vaqueiros de velha lembrança, “revendo” paisagens da minha terra, e aboiando para um gado imenso. Quando a máquina esteve pronta, parti. Lembro-me de que foi num domingo, de manhã.

O livro foi escrito — quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas — em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento.

(Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945, foi “retrabalhado”, em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez).

Lá por novembro, contratei com uma datilógrafa a passagem a limpo. E, a 31 de dezembro de 1937, entreguei o original, às 5 e meia da tarde, na Livraria José Olympio. O título escolhido era “Sezão”; mas, para melhor resguardar o anonimato, pespeguei no cartapácio, à última hora, este rótulo simples: “Contos” (título provisório, a ser substituído) por Viator. Porque eu ia ter de começar longas viagens, logo após.

Como já disse, as histórias eram doze: 

I) — O burrinho pedrês — Peça não profana, mas sugerida por um acontecimento real, passado em minha terra, há muitos anos: o afogamento de um grupo de vaqueiros, num córrego cheio.

II) — A volta do marido pródigo — A menos “pensada” das novelas do Sagarana, a única que foi pensada velozmente, na ponta do lápis. Também, quase não foi manipulada, em 1945.

III) — Duelo — Aqui, tudo aconteceu ao contrário do que ficou dito para a anterior: a história foi meditada e “vivida”, durante um mês, para ser escrita em uma semana, aproximadamente. Contudo, também quase não sofreu retoques em 1945.

IV) — Sarapalha — Desta, da história desta história, pouco me lembro. No livro, será ela, talvez, a de que menos gosto.

V) — Questões de família — História fraca, sincera demais, meio autobiográfica, malrealizada. Foi expelida do livro e definitivamente destruída.

VI) — (Uma história de amor — Um belo tema, que não consegui desenvolver razoavelmente. Teve o mesmo destino da novela anterior).

VII) — Minha gente — Por causa de uma gripe, talvez, foi escrita molemente, com uma pachorra e um descansado de espírito, que o autor não poderia ter, ao escrever as demais.

VIII) — Conversa de bois — Aqui, houve fenômeno interessante, o único caso, neste livro, de mediunismo puro. Eu planejara escrever um conto de carro-de-bois com o carro, os bois, o guia e o carreiro. Penosamente, urdi o enredo, e, um sábado, fui dormir, contente, disposto a pôr em caderno, no domingo, a história (n. 1). Mas, no domingo caiu-me do ou no crânio, prontinha, espécie de Minerva, outra história (n. 2) — também com carro, bois, carreiro e guia — totalmente diferente da da véspera. Não hesitei: escrevi-a, logo, e me esqueci da outra, da anterior. Em 1945, sofreu grandes retoques, mas nada recebeu da versão pré-histórica, que fora definitivamente sacrificada.

IX) — Bicho mau — Deixou de figurar no Sagarana, porque não tem parentesco profundo com as nove histórias deste, com as quais se amadrinhara, apenas, por pertencer à mesma época e à mesma zona. Seu sentido é outro. Ficou guardada para outro livro de novelas, já concebido, e que, daqui a alguns anos, talvez seja escrito.

X) — Corpo fechado — Talvez seja a minha predileta. Manuel Fulô foi o personagem que mais conviveu “Humanamente” comigo, e cheguei a desconfiar de que ele pudesse ter uma qualquer espécie de existência. Assim, viveu ele para mim mais umas 3 ou 4 histórias, que não aproveitei no papel, porque não tinham valor de parábolas, não “transcendiam”.

XI) — São Marcos — Demorada para escrever, pois exigia grandes esforços de memória, para a reconstituição de paisagens já muito afundadas. Foi a peça mais trabalhada do livro.

XII) — A hora e vez de Augusto Matraga — História mais séria, de certo modo síntese e chave de todas as outras, não falarei sobre o seu conteúdo. Quanto à forma, representa para mim vitória íntima, pois, desde o começo do livro, o seu estilo era o que eu procurava descobrir.

Por ora, Condé, aqui está o que eu pude relembrar, acerca do Sagarana. Se você quiser, eu poderei contar, mais tarde —, num exemplar da 2ª edição — algumas passagens históricas, ocorridas entre o dia 31 de dezembro de 1937 e a data em que o livro foi entregue à Editora Universal. Serve?

Com o cordial abraço do
Guimarães Rosa

 Fonte: Portal Vermelho

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A água canta

A água canta




Rogel Samuel

O outono lentamente se instala. Nas árvores, nas casas, no ar. Há a sutileza de um ar frio. Não é inverno, mas outono invernal. Dá para usar uma roupa um pouco mais quente. Ler um poema mais antigo de Bilac. Descreve o poema uma janela, o jardim, o mar. As folhas mortas, o navio o viajar o mar inabitado e morto. A água canta. É o amor quem canta. O fugidio amor que veio de noite, só por uma noite, amor marinheiro de Bilac que se sente envelhecido e desconfortado. O amor foge, ele é o sol. O mar está deserto, triste, as folhas amarelas caem, viuvez, velhice. Desconforto. Solidão.

Em uma Tarde de Outono

Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Olavo Bilac

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

SERMÃO DA SEGUNDA DOMINGA DA QUARESMA - VIEIRA




SERMÃO DA SEGUNDA DOMINGA DA QUARESMA


Assumpsit Jesus Petrum, et Jacobum, et Joannem, et duxit illos in montem excelsum seorsum, et transfiguratus est ante eos.[1]


§ I

As felicidades do Monte Garizim, e as maldições do Monte Hebel. O monte da tentação e o monte da Transfiguração. A fim de desfazer a cegueira dos que seguem o demônio ao monte das tentações, porá o autor um monte à vista do outro monte; o monte das tentações à vista do monte da Transfiguração, e as glórias do mundo à vista das glórias do céu, comparando, não bem com males, senão bens com bens.

Às portas quase da Terra de Promissão, mandou Moisés apregoarem dois montes altos e opostos — com vozes que todo o exército imenso dos filhos de Israel, estendido pelos campos, milagrosamente ouvia — em um, chamado Gari­zim, as felicidades dos que guardassem a Lei de Deus, e em outro, que se chamava Hebel, as maldições e desgraças dos que a não guardassem. Tais se me afiguram nesta entrada da Quaresma os dois montes, também muito altos, e não só opostos, mas totalmente contrários, cuja história evangélica neste domingo, e no passado, nos representou e representa a Igreja. No primeiro monte o demônio, que ainda se chamava príncipe deste mundo, mostrou a Cristo todos os reinos do mesmo mundo, e todas as suas glórias: Ostendit et omnia refina mundi, et gloriam eorum (Mt. 4, 8). — No segundo, Cristo, verdadeiro Rei e Senhor do céu, mostrou a alguns discípulos seus mais familiares, não todo o reino, nem toda a glória do céu, porque não eram capazes de a ver os olhos humanos, mas alguma parte dela: Et transfiguratus est ante eos[2] — Oh! quanto vai de monte a monte! Oh! quanto vai de reinos a reino! Ó quanto vai de glórias a glória! Também um desses montes, e com mais razão, se podia chamar o das felicidades, e outro o das maldições. E também está bradando o pregão, em cada um deles, que as felicidades estão guardadas para os que guardarem a lei de Deus, a que Cristo transfigurado nos anima com a vista da glória do céu, e as maldições, do mesmo modo, estão aparelhadas para os que desprezam e quebrantam a mesma lei, a que o demônio tentador nos incita com a falsa aparência das glórias do mundo..

Como ambos estes montes são de glória, posto que tão diversas, a cada um deles responde a sua assunção. Ao primeiro: Assumpsit eum diabolus[3]; ao segundo: Assumpsit Jesus Petrum, et Jacobum, et Joannem[4]. — É certo que bastava ser uma assunção do diabo, e outra assunção de Jesus, para todos amarem e desejarem a assunção de Jesus, e abominarem e renegarem da assunção do diabo. Mas que é o que vemos? O caminho do Monte Tabor, por onde se vai à glória do céu, deserto, e quase sem  haver quem o pise; e a estrada do outro monte sem nome, por onde se vai às glórias do   mundo, cheia e rebentando de gente de todos os estados, ainda daqueles que professam o desprezo cio mesmo mundo! Lá disse Davi que todo o homem que tem fé e entendimento, o que faz muito de propósito neste vale de lágrimas é dispor a sua ascensão: Ascensines in corde suo disposuit, in valle lacrymarum, in loco quem posuit[5].– Pois,se todos desejamos e esperamos que a nossa ascensão e assunção seja para gozar eternamente as verdadeiras felicidades da bem-aventurança, como deixamos o caminho do monte por onde Cristo nos guia à glória do céu, e seguimos com tanta ânsia e contenda, não digo já a estrada, senão os precipícios, por onde o demônio, debaixo do falso nome nosso, de glórias do mundo, nos leva às maldições do inferno?

Ora, eu com a graça divina quisera hoje desfazer esta cegueira, que tantas almas tem enganado e perdido, as quais nesta vida a não conheceram, e agora sem nenhum remédio a choram. A este fim porei um monte à vista do outro monte, e umas glórias à vista da outra glória: o monte da tentação à vista do monte da Transfiguração, e as glórias do mundo à vista da glória do céu, comparando, . não bens com males, senão bens com bens. Por este meio, mais clara e manifestamente que por nenhum outro, se verá a diferença dos falsos aos verdadeiros; e já que os nossos entendimentos e vontades andam tão enganados, ao menos nos desenganarão os olhos. A luz da divina graça se sirva de no-los abrir e alumiar por intercessão da Cheia de graça: Ave Maria.

A prosa soberana

A prosa soberana




A prosa soberana

Rogel Samuel

Eu gosto dos escritores à moda antiga: Euclides da Cunha, Rui Barbosa. São textos fortes, camaleônicos, enrustidos, vulcânicos. O campeão é Antonio Vieira. O imperador da prosa. O monstro sagrado da escritura. Quem se mete a imitá-los, hoje, é rotulado de acadêmico, antiquado. Os escritores amazonenses do passado os imitavam, e até hoje prosadores como Saramago fazem uso dessa estética do texto retumbante, relâmpagos de sonoridades poéticas. De certo modo Guimarães Rosa. Ele também construía um palácio de assonâncias, como quando disse: “Sábio não é quem sempre ensina. Mas quem de repente aprende”.
São seis vezes o som de EM, que lembra o questionamento de “hein?”. Rosa constrói um romance em cima de sonoridades.
Alguns bons prosadores hoje estão esquecidos. Exemplo de Herberto Sales. Seu romance “Cascalho” tem uma “tessitura artística”, uma “arquitetura e a linguagem”, uma “densidade” estilística, no dizer de Adonias Filho.
São escritores de prosa soberana.

DUGPA RINPOCHÊ:



DUGPA RINPOCHÊ: 

Quem deseja a sorte alcança-a sempre. Não deprecies nunca os teus sonhos. Deves fazer um pacto com eles. Eles são a nascente e a força inesgotável que te levarão à vitória. Atrás do obstáculo, encontra-se uma liberdade virginal, um horizonte mais vasto.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

NATAL 2008

NATAL 2008



NATAL 2008

Natal me inspira estrelas e reis magos,
Natal revolve os séculos de usura,
Natal me faz pensar nessa loucura
de esperar pelos bens que foram pagos.
Natal de paz ou da canção dos lagos,
Natal de mim que em trevas se procura,
Natal de Deus na fé, quando obscura
ou quando se ilumina em breves tragos.
Natal de amor à mesa que nos prende
aos laços afetivos e ao consolo
de ter alguém que a mesma luz acende.
Natal da iniciação: que a cruz suporte
o corpo deste Rei, sangue e tijolo
do soneto que vence a própria morte.

JORGE TUFIC