segunda-feira, 30 de junho de 2014

‘Arautos do Pânico’ anti Copa deveriam ressarcir os prejuízos causados à nossa economia

‘Arautos do Pânico’ anti Copa deveriam ressarcir os prejuízos causados à nossa economia


AS CORES DO PURGATÓRIO

AS CORES DO PURGATÓRIO
 
Rogel Samuel
 
 
            Em dado momento da “Divina comédia”, Dante escreve assim:
 
                        Bailando, à destra roda, sobre a via,
                        vinham três damas. (Purg., XXIX, 121/2)
 
            Lá atrás, ao chegarem no Paraíso Terrestre, Virgílio diz que não pode mais orientá-lo na caminhada e que mais além não pode acompanhá-lo. A partir dali, de então, Dante deveria conduzir-se pelo seu próprio juízo: “contempla o sol, que à tua frente luz, / observa a relva, as plantas, as umbelas, / que a terra, à própria força, aqui produz”.
            Valho-me da tradução de Cristiano Martins que tanto amo, para mim a melhor tradução do texto em português (Villa Rica, Belo Horizonte, 7ª ed.).
            Virgílio diz que ele deve prosseguir até encontrar Beatriz: “imponho-te o laurel da liberdade!”
            Mas ainda estamos no Purgatório!
            Porém Dante não fica não só. Uma dama, Matelda, lhe aparece e com ela ele avança pelas margens do rio Letes, em sentido contrário à corrente, quando vê um “fulgor” que ilumina o seio da floresta.
            O brilho vem de sete candelabros acesos.
            Como em todo o poema, as coisas são fantásticas, milagrosas.
            Pois “sete árvores douradas, de repente, / pareceram-me erguer-se...” Não eram árvores, eram os candelabros.
            Logo mais adiante, diz ele dessa maneira: “eis vi surgir quatro animais, coroados”, que se interpretam como os quatros evangelhos: São João (águia), Marcos (leão), Lucas (touro), Mateus (homem). Cada animal era dotado de seis asas...
            No meio disso aparece um Grifo (simbolizando Cristo) puxando um carro (alegoria da Igreja). O Grifo tinha asas de ouro, brilhava como o sol.
            O surpreendente cortejo começa assim.
            Mais três damas aparecem.
            Uma era vermelha. Brilhava tanto que “mal se percebia”. Outra era “de um verde vívido trajada / que lembrava a esmeralda fulgurando”.
            E a terceira era branca, vivíssima.
            As três damas simbolizam as três virtudes teologais: a caridade vermelha; a esperança verde; e a branca fé.
            De repente aparecem mais quatro damas, bailando em festa à esquerda do carro, todas de cor púrpura (a da frente tinha três olhos sobre a testa).
            Eram as quatro virtudes cardeais: a prudência (que tinha três olhos), a justiça, a temperança e a fortaleza.
            Nesse cortejo seguiam-se dois velhos, lentamente.
            Um devia ser um médico; o outro um soldado.
            Vêm a seguir mais quatro personagens que aparecem, de difícil interpretação, que acompanham a seqüência. E além disso logo surge mais um quinto, que avança como se estivesse dormindo...
 
*    *    *
 
            Quando o carro enfim chega em frente ao poeta narrador, acontece algo da maior significação e surpresa, da mais surpreendente:
 
                        estalou um trovão, e aquelas gentes,
                        como os que têm o passo interceptado,
 
                        estacaram, com as tochas refulgentes.
 
            Por quê?
            O que aconteceu tão de repente?
            Por que a poderosa procissão parou assim, sob um trovão?
            Que grandioso fato aconteceu ali, naquele caminho, capaz de fazer parar Cristo e a Igreja, as três virtudes, as quatro virtudes cardeais, a medicina, o exército e mais todos?        Quem era assim tão maior e melhor, e mais puro do que tudo isso, que sob um trovão punha a parar o sublime cortejo da caridade, da esperança e da fé?
            Quem foi aquela divina aparição que “firme estacou o séqüito veraz” e se colocou além de todos e sobre todos a ponto que o cortejo pára e todos se voltam para trás a fitar o carro puxado pelo grifo, que simbolizava a Igreja, e assim era pois a verdadeira representação da paz e da salvação?
            Quem era?
 
            Era Beatriz, a amada, que aparecia...
 
            Numa verdadeira heresia, não é a Igreja, ou Cristo, quem vai guiar o Poeta para o Paraíso.
 
            Quem vai conduzi-lo é Virgílio e Beatriz.
 
            A poesia e o amor.

ABGAR RENAULT


ABGAR RENAULT

ABGAR RENAULT

Rogel Samuel

Na minha vida nunca vi o poeta Abgar Renault, autor do poema que diz:

As nossas coisas são o nosso convívio verdadeiro.
Uma camisa adere à nossa vida entranhadamente,
como o carinho mais cruel ou como um nome,
e sabe mais de nós que a confissão mais funda.
Um lápis é sempre um sexto dedo,
e é íntimo como a língua este cigarro.

As nossas coisas nos vêem, cheiram, sabem, gostam,
e sofrem-nos pacientemente como somos,
em nossas de carne e osso tristonhas intimidades.



Nunca o vi, mas muito o li e estou preso a seu nome devido a um fato administrativo e a um bilhete: foi ele quem assinou, naquele tempo, o meu título de professor titular de uma universidade particular. Naquele tempo, Abgar era um dos membros do conselho de educação. Anos depois lhe enviei o meu livrinho “Crítica da escrita” e ele agradeceu com um cartão, e dele recebi as melhores palavras possíveis. Pois escreveu: “Rio de Janeiro, 20 de fevereiro 82. Ilustre colega Rogel Samuel, gostei muitíssimo de “Crítica da escrita”. Não é apenas um singular documento da erudição, mas também uma prova excelente de sua capacidade de clarificar o que a maioria dos autores ama obscurecer e confundir. Acima de tudo esse esboço de tese e essa dissertação revela um aparelhamento crítico de uma finura e de um poder de análise realmente impressionantes. Não conheço em nossa língua nada tão bom. Cordialmente, Abgar Renault". Deixo aqui o bilhete, que veio com o selo "Ad immortalitatem", da Academia. Para que saibam. Para que não se perca. O bilhete faz parte de mim, como a camisa, o lápis do poema. A nossas coisas fazem parte do nosso museu particular, como uma camisa datada, entranhada no nosso guarda-roupa.

domingo, 29 de junho de 2014

As garças







As garças

(Afresco do Teatro Amazonas, possivelmente De Angelis)

Rogel Samuel


Eu me lembro. Na década de 50 o Rio Negro invadiu o centro de Manaus. A antiga Drogaria Flink ficou debaixo dágua. As águas entraram pela praça da Matriz. Creio que foi em 1953.

Agora leio que a enchente é grande. Calamidade. "A medição do nível das águas do rio Negro, feita no principal porto de Manaus, é realizada desde 1902. Desde que começou essa medição, 1953 foi marcado pela maior enchente da história do Estado. Naquele ano, em junho, o mês de pico das cheias dos rios da região atingiu 29,69 metros", diz a Agência Estado. 3 mil casas serão afetadas. O Rio Negro atinge a maior marca em 106 anos.

O maior poeta daquelas águas é Álvaro Maia:

GARÇAS


No azul, em móveis ângulos, esparsas
as penas em finíssimas arestas,
fugindo em tempo às cerrações funestas,
vão em busca do céu bandos de garças ...
Em meio de tristezas e de festas,
fazem retas e círculos de farças,
ou pospontam sendais nas talagarças
e nas tules ondeantes das florestas...
Na tarde escura, no verdor da aurora,
voam, revoam pelo espaço afora,
- aladas sensações, asas de mágoas...
Descem, depois, aos longes da planura,
e, enfeitando os barrancos de brancura,
lembram Mães-dágua em sonhos sobre as águas...

sexta-feira, 27 de junho de 2014

ASSISTA HOJE EM CASA PELA INTERNET

ASSISTA HOJE EM CASA PELA INTERNET
www.budadeipanema.org

www.siddharthasintent.org.
...
Rio time - 09h...
London - 13h
Kathmandu - 17h45
NY - 08h
Los Angeles - 05h
Taipei - 20h
Check your time zone -
http://24timezones.com/hora_certa.php Ver mais
Ver mais

ASSISTA AMANHÃ PELA INTERNET

ASSISTA AMANHÃ PELA INTERNET
BROADCAST Rinpoche in RIO. www.budadeipanema.org ou www.siddharthasintent.org.
Rio time - 09h...
London - 13h
Kathmandu - 17h45
NY - 08h
Los Angeles - 05h
Taipei - 20h
Check your time zone -
http://24timezones.com/hora_certa.php
Ver mais

quinta-feira, 26 de junho de 2014

O REI DO BUTÃO COM A TAÇA DA COPA 2014

LONGA VIDA AO REI!

A VÃ FEITIÇARIA

A VÃ FEITIÇARIA
 
Rogel Samuel
 
O feiticeiro Lêdo Ivo escreveu:
 
Invento a flor e, mais que a flor, o orvalho
que a torna testemunha desta aurora.
Invento o espelho e, mais que o espelho, o amor
onde eu me vejo, vivo, num sarcófago.
E a vida, este galpão de sortilégios,
deixa que eu a invente com palavras
que são dragões vencidos pela mágica.
E não me espanta que eu, sendo mortal,
sujeito à injúria de tornar-me em pó,
crie uma rosa eterna como as rosas
inexistentes nesta flora efêmera.
Sonho de um sonho, a vida, ao vento, escoa-se
em vãs lembranças. Minha rosa morre
por ser eterna, sendo o mundo vão.
 
 
Encontro este poema, que li quase menino, encontro ao acaso, folheando a «Poesia completa» de Lêdo Ivo, poema que recito quase de cor, como tudo por que a gente apaixona na adolescência, mas que, hoje vejo, não nunca lhe penetrei os labirintos de sentido contidos escondidos entre aqueles misteriosos versos, meio herméticos, daquela feitiçaria... Mas necessita a poesia ser realmente compreendida? Porque eu continuo lendo, hoje relendo, entoando esses versos e vejo que bailo na  musicalidade de suas sílabas, seu invento, seu encanto, e me delicio pelo que nada sei, hipnotizado por suas metáforas feiticeiras.
 
Os primeiros versos dizem:
 
Invento a flor e, mais que a flor, o orvalho
que a torna testemunha desta aurora.
 
Ora, agora, vejo, perturbado, emocionado, que o sujeito poético inventou a flor, o orvalho, o espelho, o amor, a vida, a rosa eterna, a rosa!, a rosa mística!, o sonho, o sonho de um sonho, a vida, o vento, a rosa eterna, o mundo vão...
 
Sim, eu logo que tomo este gigantesco volume das «Poesias completas» (são 1099 páginas!), logo eu senti que o encontraria, por uma intuição de leitor deste Ivo - mas logo me desviei e comecei lendo o «Estudo introdutório» do poeta Ivan Junqueira, que me convenceu e agradou. Ivo é, segundo Ivan, aquele «lírico elegíaco», cujo enigma é não seguir o breviário estético de sua geração de 45, ainda que, como todos os outros, nunca se libertou da «idéia parnasiana» que em todos nós nasce, morre e renasce... Desde Rimbaud. Aliás, diz Ivan Junqueira, que o verso «desabo em ti como um bando de pássaros» poderia ter sido escrito por Rimbaud, assim como:
 
Muda-se a noite em dia porque existes
feminina e total entre os meus braços
 
E, diríamos nós, que os versos:
 
e o tempo entronizado sai da mó
que transforma as austrálias em diademas
 
São dos mais belos daquela poética rimbaudiana de que todos os poetas nunca se libertaram de todo, por serem contagiados pelo barco bêbado da invenção da poesia moderna - e Lêdo Ivo também, mas logo se libertou, posteriormente.
 
Cheio de sortilégios é Lêdo Ivo poeta, feitiçaria nada vã da invenção das palavras, criatura de uma rosa eterna que vai além dessas floras efêmeras - eterna porque morre, e morre por ser eterna neste mundo vão - curiosa antítese que me lembra uma página da filósofa Hannah Arendt em que fez a distinção entre eternidade e imortalidade (ARENDT, Hanna. A condição humana. Rio de Janeiro, Forense/Rio de Janeiro, Salamandra/São Paulo, Ed. Universidade São Paulo. 1981. 339p.)
A distinção, que Hannah Arendt estabelece, entre imortalidade e eternidade, esclarece parte da alienação do mundo moderno
Pois Imortalidade significava continuidade no tempo, através da realização de grandes feitos, obras e feitos notáveis. Por sua capacidade de produzir obras e de realizar feitos imortais, os mortais podiam, através das marcas de sua passagem, participar da natureza dos deuses. Na Antigüidade Clássica, havia os que ambicionavam à fama e, portanto, à imortalidade, e havia os que, satisfeitos com os prazeres que a natureza lhes oferecia, viviam e morriam como animais. Nesses dois casos, uma alienação se percebe e uma falta de compreensão da natureza do real.
Outra coisa era a experiência do eterno, própria do filósofo, no sentido estrito do termo, isto é, aquela visão da eternidade, ainda que passageira, momentânea. Diz Arendt que depõe muito a favor de Sócrates o fato de ele não ter escrito nada, porque não estava preocupado com a fama, ou seja, com a imortalidade. O filósofo vivia a experiência do eterno. Se escrevesse a sua experiência do pensar, ambicionaria Sócrates a imortalidade, ou seja,  procuraria deixar para a posteridade algum vestígio de si: assim é a fama. (Ironicamente se admite hoje poder alguém ser «famoso» sem ter feito nada, sem ter produzido nada, alguém que nada fez, que não deixaria nenhuma obra própria, como por exemplo um locutor de TV).
A experiência do eterno, diz Arendt, só pode ocorrer fora da esfera das ambições humanas. Se morrer é deixar de estar entre os homens, ela, a experiência do eterno, é morte. Seu contrário seria a intenção da fama, da imortalidade. Eternidade e imortalidade estão, deste modo, em lados integralmente opostos e contraditórios.
Entretanto, tal experiência, a percepção do Eterno, diz Hannah Arendt, tem de ser rápida, porque ninguém poderia suportá-la por muito tempo. Nós, seres condicionados e mortais, não podemos encarar o eterno na sua eternidade, senão indireta e rapidamente, numa intuição momentânea. O eterno está fora do nosso mundo. A imortalidade, ao contrário, reside entre nós, é criação humana. Ao contrário, o eterno não é condição de possibilidade humana, nem é tocado pela ambição humana. O eterno advém ao homem quando este nada deseja, na imobilidade do pensamento atento, silenciado pela vida contemplativa. Os poetas do Zen sabiam disso. Pois o eterno não pode ser convertido em atividade da linguagem humana, é uma iluminação fortuita que não se consegue senão com a intuição do poético, com a observação pura dos movimentos do pensar. O eterno é positivo, nasce quando há radical negação. Não pode ser aprisionado pelo discurso, mas representa a liberdade e libertação do que não pode ser objetivado pelo discurso científico - o eterno é a poesia.
A Imortalidade, entretanto, foi impiedosamente abalada com a queda do Império Romano. A destruição de Roma mostrou cruelmente que nenhum produto do homem pode ser considerado eterno. A nossa feitiçaria é vã.
 
Sonho de um sonho, a vida, ao vento, escoa-se
em vãs lembranças. Minha rosa morre
por ser eterna, sendo o mundo vão.
 

terça-feira, 24 de junho de 2014

NA INAUGURAÇÃO

A multidão que assistia do lado de fora a entrada dos convidados à inauguração viu chegar Raul de Azevedo e sua esposa, Sara. O casal ficou a passear nos jardins do teatro antes de entrar, pois o escritotor aproveitou para fumar.
 A seguir apareceram Afonso de Carvalho, a esposa e alguns amigos. Era um grupo animado. Entraram logo.
 Logo veio Joaquim Cardoso Ramalho Junior, com o filho (a esposa adoentada não veio). Mas quando apareceu Erico de Aguiar Picanço todas as pessoas que assistiam a entrada exclamaram um “oh!” de surpresa e admiração, pois Esmeralda Picanço portava as suas famosas esmeraldas: era um colar e brincos de esmeraldas e diamantes famosos na alta sociedade manauara, realçados pelo belo pescoço e o vestido de seda preta de sua dona. O vestido não tinha nenhum bordado nem enfeite. As esmeraldas e brilhantes iluminaram a entrada.
 
 E assim foram chegando os convidados, que era elite do Norte do Brasil. Um dos últimos a chegar foi o Governado Fileto Pires Ferreira, com a esposa. E o último o ex-governador Eduardo Gonçalves Ribeiro, aplaudido pelo povo que estava na rua, desprezado pelos convidados de dentro. Eduardo Ribeiro, como sempre, veio com uniforme militar, acompanhado por dois soldados. Entrou rapidamente, atravessou o hall sem cumprimentar ninguém, subiu as escadarias com velocidade e sumiu no camarote. Os dois soldados não entraram, ficaram de guarda, na porta. 
 
 O Teatro ainda não estava ainda totalmente pronto. No “Salão Nobre”, em taças de cristal, servia-se o champanha La Grand Dame Veuve Clicquo. E se fazia política, conspirava-se. Conspirava-se contra o Governador Fileto Pires Ferreira, que já estava no camarote do Governo, conspirava-se contra Eduardo Ribeiro, que se escondera na penumbra.  Em sussurros, no pé do ouvido, algumas figuras diziam: “- Fileto vai viajar para Paris...”
 - Agora que Fileto e o negro estão rompidos é hora de agir, disse o outro.
 
 No início do espetáculo falou o Governador Fileto Pires Ferreira, do alto do seu camarote central. Grande orador, inflamado, de improviso, inaugurou o Teatro. Seu discurso foi recebido friamente pela elite que já conspirava contra ele. E embora tivesse de relações rompidas com o ex-governador, anunciou:
 
 - Temos a satisfação de ver entre nós o grande realizador da obra, o construtor deste imponente Teatro, o Governador Eduardo Ribeiro.
 
Neste momento irrompeu uma grande vaia, vinda de todos os lados.
(ROGEL SAMUEL. TEATRO AMAZONAS)

A RIQUEZA

A cotação da borracha amazonense sobe na Bolsa de Londres. Aumenta a produção dos pneumáticos. O Amazonas, único produtor de látex do mundo. Manaus rica, copia Paris. Comerciantes enriquecem. Ostenta o Teatro Amazonas os seus espelhos de cristal. Os milionários jogam cartas com anelados dedos pesados de diamantes, arriscando fortunas no Hotel Cassina, no Alcazar, no Éden, no Cassino Julieta. Telhas de Marselha ao luar na Rua dos Remédios, na Rua da Glória. Arquitetura art-nouveau do palácio de Ernest Scholtz - depois Palácio Rio Negro, sede do Governo. Arandelas, bandeiras, implúvio. Intercolúnio. O cunhal, o lambrequim, a voluta, o capitel, a cornija. Arquitrave. Barrete de clérigo, adufa, muxarabi, água-furtada, muiraquitã, envasadura, atleta, estípite. O enxalso, o frontão de canela. Galilé. Pequena Manaus, grande Paris!. Lojas, magazines, charutarias, livrarias, alfaiatarias, ourivesarias. Bissoc. Pâtisserie. Du sucre, des fruits, de la crème. A la ville de Paris, Au bon marché, Quartier du temple, Damas do Gabinete Villeroy, Casa Louvre, Livraria Palais Royal (na rua Municipal, n0 85, as novidades literárias), Livraria Universal, Agência Freitas, Casa Sorbonne (dentro do Grande Hotel), a Confeitaria Bijou, a Padaria Progresso. Faroletes de pedra de morona e de puraquequara. A bela Villa Fany, luxuosíssima. O Cais dos Barés, a Biblioteca Provincial (que incendiou fraudulentamente, para destruir os Arquivos Públicos, nos fundos). O prédio dos Educandos Artífices que deu nome ao bairro. Amazon Steamship Navigation Co. Um prédio importado, peça por peça, da Inglaterra: a Alfândega, montada aqui. Outro, projeto do próprio Gustavo Eiffel, de ferro: o Mercado Municipal. Um Serviço Telefônico serve a cidade. A eletricidade ilumina as ruas de Manaus no início do Século, talvez das primeiras cidades brasileiras a ter este serviço. Calçadas da Praça São Sebastião, em pedras portuguesas pretas e brancas, em ondas que alegorizavam o “encontro das águas” do Negro e Solimões (posteriormente imitadas na praia de Copacabana). Bondes elétricos da Manaus-traways. Bebe-se Veuve Clicquot, truffes, champignon. Huntley & Palmers, Cross & Blackwell. A Cork, a Pilsen, o Bordeaux, o fiambre, o Queijo da Serra da Estrella. Lagostas, a Goiabada Christalizada. Charteuse, Anizette. Champagne Duc de Reims. O Vermouth. Água de Vichy. Leite dos Alpes Suíços. Casacas inglesas, o H. J., o pongê, o filó. Bengalas de castão de ouro. Cartolas, luvas, perfumes franceses, lenços de seda. Pistolas de prata e cabo de marfim. Gramophones de Victor. Discos duplos de Caruso. Casas aviadoras. O Amazonas participa da Exposição Comercial de St. Louis, no Missouri, e posteriormente da Exposição Universal de Bruxelas, onde ganha 32 medalhas de ouro, 39 de prata, 70 de bronze, 6 Diplomas de Honra e os 13 Grandes Prêmios. Manaus-Harbour. Tabuleiro de Xadrez. Óperas, óperas, óperas. Diariamente. Prostitutas importadas. A Cervejaria Miranda Correia.
(ROGEL SAMUEL. O AMANTE DAS AMAZONAS).

sábado, 21 de junho de 2014

NUMAS

Era certo que os Numas sempre voltavam das suas lendárias e por ninguém conhecidas montanhas peruanas. E certo também que voltavam gigantescos e ferozes, movendo-se sempre nas igualmente imaginárias áreas do Rio Pique Yaco, do Rio Toro, e do além mais. Mas nunca apareciam, qual seja: não ficavam visíveis, às claras, de frente, nítidos, senão de viés, difusamente entrevistos, só pressentidos na obliqüidade do olhar. Mas aquelas meninas - a poesia apronta um mundo, a prosa outro - estavam ali excessivamente reais, muito mais reais e humanas do que os sediciosos machos seus irmãos. Nem aquilo era mais revide a todas exações suportadas pela floresta durante a ocupação seringalista. Onde há poder, ele se exerce? Para mim, elas estavam uma na outra, se abraçando dentro d’água por baixo o que era tão fácil as mãozinhas tal como eu enxergava na minha perspectiva sexualizada. Reais, humanamente reais, lá, do outro lado - as primeiras fêmeas Numas que apareceram em todo o mundo, belas como o sol sobre a risca da Terra.
E eu sufoquei de emoção. E fui largando o anzol. E fui empurrado, abaixado chulo sobre a terra, e protegido pelo capão de mato. E sabia que os Numas estavam próximos, na vazante. Nunca os vira de todo, mas sabíamos, porque a caça desaparecera! - lugar que tem índio não tem caça, que ele come toda - o porco, o mutum, a anta - depois de as abater com flechas de cana brava e arco de palmeira, a pupunha, a bacaba, o patauá, o paracoúba, o itaúba. Tudo pau d’arcos? E as antas, principalmente as antas, de que eles gostavam muito - saborosas, passando sempre pelos lugares. Oh, sim, e sim. Que eu fiquei ali até elas se retirarem. Era o êxtase! Que nem contei para o tio e o irmão, que me perceberiam abatido se tivessem alguma vez olhado para mim. E, no meio da noite, sonhei forte. Eu estava doente e doído. Sonhei com a índia maior - inteiro corpo jungido ao meu, no meio da noite meu tio acordou com meus gemidos e veio não sei por que com a arma na mão, me sacudiu mas se foi, se aquietava, ressonando leve - meu tio, ele sempre dormia armado, sono levíssimo.


No dia seguinte, quase à mesma hora, as meninas reapareceram e eu era o navegador da minha obsessão e buscava a intimidade perdida no substancial interesse daquela representação, escorregando por aquela terra úmida da Amazônia de meus antigos dias.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

AS ÁRVORES PARADAS

Como que traído, Pierre vê a possibilidade de neutralizar o visitante. Espera tirar o secreto motivo que o trouxera ali. Adivinhava cordialidades ameaçadoras. Precata-se em suas cautelas, conversas, narrativas. Os curumins brincam na ubá atracada. Fecham o nariz com dois dedos, pulam de pé. Depois correm pela margem. Estrídulos, incessantes, como um bando de periquitos. Mundico, o maior, é filho da Isaura, cozinheira do Palácio. Ela tem dois filhos de pais diversos. O segundo filho não está ali. Chama-se Benito Botelho e está em Manaus. Benito foi o maior intelectual amazonense. Quando menino, atacado de varíola, Benito foi levado por Frei Lothar, que se afeiçoou a ele. Acabou criado no Vassourinha, orfanato do Padre Pereira, pois Frei Lothar nunca parava muito tempo em Manaus. As moscas zumbem, malignas, no silêncio da tarde. Desfia vertigem o igarapé entre árvores. Não há ninguém nas adjacências. As árvores paradas. Profundas. Imersas no êxtase verde, no calor, na eternidade, na fecundação da tarde. O espírito do jovem jurista está com a índia. Um papagaio nacionalista quebra o silêncio do espaço e esvoaça em direção à outra margem. Papagueia esganiçado, com alarde de si, alarido e escândalo. Aparece, na curva do rio, um remador silencioso que cumprimenta o Palácio e lambe com o remo a lâmina líquida da superfície das águas. Na sucessão de novas ocorrências, aparece um belíssimo macaco-leão. Muito pequeno. No mamoeiro, perto do terraço. Começa a descer. Pula para o parapeito. Olha para os homens sentados, imóveis. Volta para o caule. Pára. Olha para cima, teme o céu. Olha para baixo, teme os patos. Olha para mim. Aquele macaquinho olha com toda a porção da cabeça, não apenas com os olhos. Depois desce, muito rápido, num risco do ar, desaparecendo no pátio dos patos. Agora há um cheiro de matrinchão, odor de pimenta e tucupi. O ar é tão oxigenado que fico tonto. Cai a calma. Penetra os poros. Vaporosa, gosto tranqüilizante. A estática, a impassibilidade. Um obscuro deus dorme, no inominável, no universal, imerso, incompleto, pré-histórico há um milhão de anos, desde que aquilo era mar. Estamos a 3.100 km de Manaus. Gabriel Gonçalves da Cunha comprara o rio Jordão e toda a margem esquerda do Igarapé Bom Jardim, até o Igarapé São João e um furo do Igarapé Cruzeiro do Sul. Isolava o Seringal Manixi.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A SIMPLICIDADE NATURAL

ROGEL SAMUEL
 
 
 
 
(QUADRO DE MANET)
O novo sempre é agradável de sentir, de viver, de estar. Não é constituído de palavras. É algo vivo, pulsa, tem energia. Viajamos no novo, entrando numa novidade. A nova ação produz as novas amizades, novas cores, flores.

Disse Dugpa Rinpoche: “Volte os olhos para a simplicidade natural do mundo”.

Dugpa Rinpochê é um escritor budista. Seus preceitos são simples, claros, curtos, poéticos. Ele os escrevia em pedacinhos de papel, meditava neles durante muito tempo, e depois os liberava, dava-os ao visitante. Acompanhou o Dalai Lama na fuga deste do Tibet, na época da invasão chinesa. Morou em Dharamsala, na Índia, e depois foi para Nagarkot, no Nepal, a três mil metros de altitude, perto daquelas montanhas, o Annapurna, o Melung Tse, o Everest.

 Não deve ter tido uma vida fácil. Deve ter perdido a família e pátria. Viu o sofrimento de milhares de tibetanos. Talvez sua família tenha sido morta ou torturada, como tantas outras, naquela terrível invasão. Mas não esqueceu a surpresa da novidade, a alegria, o amor. Não deixou de ver o mundo e a vida como uma coisa nova e bonita, com alegria, sem depressão. Faleceu em Dharamsala, em 1989. A vida não é fácil, nunca é fácil. Mas sempre é uma coisa nova. E é muito curta para que a possamos sofrer, para que a transformemos em tragédia. É fácil fazer da vida uma tragédia. Difícil é o contrário, fazer dela uma alegria nova.


Sei que estou fazendo pose, que estou fazendo frases, que estou tecendo frases de efeito, frases de estilo. Mas vou ou procuro entrar nesse novo dia com um espírito renovado, sem os aborrecimentos do passado.

Podemos entrar no novo por um novo caminho interior, bem diferente, sem os padecimentos do passado, deixando no velho o peso morto.

Dugpa Rinpochê, “Quem deseja a sorte alcança-a sempre. Não deprecie nunca os seus sonhos. Deve fazer um pacto com eles. Eles são a nascente e a força inesgotável que levarão à vitória. Atrás do obstáculo, encontra-se uma liberdade virginal, um horizonte mais vasto”.

Sei que estou lidando com frases. Mas, além das frases, que mais existe?

MÚSICA PARA COPA

  
EM HOMENAGEM À COPA DO MUNDO O PIANISTA CHRISTOPHER SCHINDLER DE PORTLAND POSTOU UM NOVO AUDIO CLIP DE VILLA-LOBOS GRATUITO, OUÇA EM:


http://www.christopherschindler.com/audio_clips

...


 In recognition of the World Cup going on currently in Brazil, my website has a new audio clip of the week.

http://www.christopherschindler.com/audio_clips

Enjoy listening to this musical interlude and have a nice day.

Christopher Schindler
Ver mais

quarta-feira, 18 de junho de 2014

INFLAÇÃO DESABA

Hora a Hora: Inflação desaba e ofusca bandeira 'popular' do conservadorismo: IPC recua e o IGP-M, que mede variações no atacado, na construção e no varejo, aponta deflação em junho, queda de - 0,67%          

NEUZA MACHADO: O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE

“O ser é antes de tudo um despertar, e ele desperta na consciência de uma impressão extraordinária”. O primeiro narrador, submetido ao segundo, despertou, primeiramente, por intermédio de uma consciência ativada, extraordinariamente impressionada com a descoberta ficcional do plano mítico amazonense, constituído a partir da insígnia do bugre Paxiúba. Se ele, enquanto um sobrevivente do ataque dos Numas, ataque este que ocasionou o incêndio da floresta, e, por conseqüência, a morte dos “parentes”, levado pela correnteza do “igarapé de treva fria e rápida”, não se lembra de como se salvou, em contrapartida, tem a certeza de que “uma correnteza negra [o abraçou, o envolveu, o levou]. Ele também tem o conhecimento de que [bateu] “em paus e pedras”, mas que [prosseguiu], “noite a dentro, breu a fora, sem pesar, por dentro, extasiado e sem pensar, com as estrelas, como se tudo aquilo fosse o prosseguimento de [seu] sonho na noite velada e muito burra e muito cega, hipnótica, horrorosa, continuando assim por muitas horas entre as sombras, segredos e lágrimas”, sentindo tudo a se dissolver ... Sim”.Bachelard diz: “O indivíduo não é a soma de suas impressões gerais, é a soma de suas impressões singulares. Assim se criam em nós os mistérios familiares, que se designam em raros símbolos”. O narrador de O Amante das Amazonas (o primeiro, o segundo, o terceiro; quantos forem) concentra em si as impressões vivenciais, singulares, do criador ficcional pós-moderno. Os “mistérios familiares”, cerceadores, realçados na filosofia bachelardiana, acenam as suas presenças incomodantes nesta ficção extraordinária  (extraordinária aqui não possui sentido encomiástico; o meu propósito para exibi-la é interpretativo-reflexivo). Assim, os raros símbolos (os símbolos importantes que povoaram/povoam/povoarão o amplo imaginário-em-aberto do segundo narrador), restritos a esses mistérios familiares convertem-se em arcabouço heróico, porque as “verdades” da mitologia indígena brasileira, “verdades” oriundas dos conceitos vivenciais exemplares, adquiridos desde a infância e adolescência, sempre fizeram parte da vida do criador ficcional da pós-modernidade brasileira. E permanecerão ativadas, enquanto vigorar o seu itinerário existencial como cidadão do mundo.“Foi perto da água e de suas flores que melhor compreendi ser o devaneio um universo em emanação, um alento odorante que se evola das coisas pela mediação de um sonhador” , reflete Gaston Bachelard, no capítulo “Imaginação e Matéria” de seu livro A Água e os Sonhos. Por este prisma, foi assim que, às margens dos igarapés ou mesmo ladeando os largos e caudalosos rios amazonenses, manifestou-se, por meio da quentíssima aragem manauara (vento), proveniente da Floresta, o “cheiro do camaru”, anunciando ao primeiro narrador a presença do mítico personagem, o bugre Paxiúba, por intermédio da íntima e distinta compreensão do devaneio de “um universo em emanação” .Repensando a matéria ar como um renovado elemento condutor para a alteração do exterior narrativo, é como se no capítulo seguinte, destinado à elevação do fantástico Paxiúba, o “cheiro do camaru” “fosse o prosseguimento do sonho [do narrador pós-modernista] na noite velada”, dissolvendo e “anestesiando” as lembranças ruins e, ao mesmo tempo, reanimando o fluxo narrativo por meio de uma novíssima “impressão extraordinária”.O narrador principal, neste capítulo, ainda necessita de seu primeiro narrador, o Ribamar de Sousa, para revelar aos leitores de seu presente histórico (aos realmente interessados em sua recriação ficcional sobre a glória e decadência do Império Amazônico) e aos leitores do futuro (aqueles que inequivocamente irão julgar o valor de sua ficção-arte) as diversas realidades ─ sócio-míticas e sócio-políticas ─ do Manixi, incluindo também o seu deslumbrante apogeu e melancólico declínio. Nos capítulos finais, o Ribamar de Sousa se transformará e passará o comando do proceder narrativo ao segundo (e principal) narrador. Contudo, enquanto personagem significativo, ao longo do romance, nas páginas finais, mesmo ostentando a fisionomia do poder capitalista em declínio, a sua presença será de régia importância.
O narrador atuante, nesta fase do romance, apresenta o personagem Pierre Bataillon, aos leitores de seu presente histórico e aos leitores do futuro, por meio de uma escrita que se constitui agregando à linguagem ficcional a técnica da linguagem visual cinematográfica. O desenrolar narrativo propulsor de sua ressurreição pela água, ao nascer do dia (sinal de que as trevas ígneas que protegeram/protegem os mistérios familiares e os raros símbolos começam a desvanecer-se), movimentar-se-á, de ora em diante, em favor de uma querela íntima que o incomoda: a perda dos puros valores míticos da tradição amazônica em confronto com os valores degradados da modernidade (últimos alvores da Era Moderna já em decadência). O incômodo se faz visível, uma vez que uma das questões centrais do romance, em suas duas partes iniciais (a forma de economia do Manixi ficcional/Amazônia real do início do século XX em confronto com a perda de antigos valores mítico-sociais), relaciona-se com a economia pré-zona franca da cidade de Manaus. Os pensamentos da pura estética do ar, como já expliquei anteriormente (elemento condutor para a alteração do exterior narrativo), aqui, acoplou-se à água revitalizante em benefício de um renovado direcionamento ficcional. À moda dos flashes cinematográficos, ou à moda dos desenhos em quadrinhos oriundos das artes plásticas, os quais revitalizaram a priori as imaginações juvenis do século XX, o Ribamar de Sousa sai do rio-conducente renovado, pronto para futuras peripécias ficcionais (pós-modernas). O narrador se apropria do olhar intelectual e da mão trabalhadora e do imaginário-em-aberto sui generis de seu criador, elementos próprios da escrita pós-moderna, descontínua e fragmentada, para assinalar a ocasião do encontro.