segunda-feira, 30 de junho de 2014

‘Arautos do Pânico’ anti Copa deveriam ressarcir os prejuízos causados à nossa economia

‘Arautos do Pânico’ anti Copa deveriam ressarcir os prejuízos causados à nossa economia


AS CORES DO PURGATÓRIO

AS CORES DO PURGATÓRIO
 
Rogel Samuel
 
 
            Em dado momento da “Divina comédia”, Dante escreve assim:
 
                        Bailando, à destra roda, sobre a via,
                        vinham três damas. (Purg., XXIX, 121/2)
 
            Lá atrás, ao chegarem no Paraíso Terrestre, Virgílio diz que não pode mais orientá-lo na caminhada e que mais além não pode acompanhá-lo. A partir dali, de então, Dante deveria conduzir-se pelo seu próprio juízo: “contempla o sol, que à tua frente luz, / observa a relva, as plantas, as umbelas, / que a terra, à própria força, aqui produz”.
            Valho-me da tradução de Cristiano Martins que tanto amo, para mim a melhor tradução do texto em português (Villa Rica, Belo Horizonte, 7ª ed.).
            Virgílio diz que ele deve prosseguir até encontrar Beatriz: “imponho-te o laurel da liberdade!”
            Mas ainda estamos no Purgatório!
            Porém Dante não fica não só. Uma dama, Matelda, lhe aparece e com ela ele avança pelas margens do rio Letes, em sentido contrário à corrente, quando vê um “fulgor” que ilumina o seio da floresta.
            O brilho vem de sete candelabros acesos.
            Como em todo o poema, as coisas são fantásticas, milagrosas.
            Pois “sete árvores douradas, de repente, / pareceram-me erguer-se...” Não eram árvores, eram os candelabros.
            Logo mais adiante, diz ele dessa maneira: “eis vi surgir quatro animais, coroados”, que se interpretam como os quatros evangelhos: São João (águia), Marcos (leão), Lucas (touro), Mateus (homem). Cada animal era dotado de seis asas...
            No meio disso aparece um Grifo (simbolizando Cristo) puxando um carro (alegoria da Igreja). O Grifo tinha asas de ouro, brilhava como o sol.
            O surpreendente cortejo começa assim.
            Mais três damas aparecem.
            Uma era vermelha. Brilhava tanto que “mal se percebia”. Outra era “de um verde vívido trajada / que lembrava a esmeralda fulgurando”.
            E a terceira era branca, vivíssima.
            As três damas simbolizam as três virtudes teologais: a caridade vermelha; a esperança verde; e a branca fé.
            De repente aparecem mais quatro damas, bailando em festa à esquerda do carro, todas de cor púrpura (a da frente tinha três olhos sobre a testa).
            Eram as quatro virtudes cardeais: a prudência (que tinha três olhos), a justiça, a temperança e a fortaleza.
            Nesse cortejo seguiam-se dois velhos, lentamente.
            Um devia ser um médico; o outro um soldado.
            Vêm a seguir mais quatro personagens que aparecem, de difícil interpretação, que acompanham a seqüência. E além disso logo surge mais um quinto, que avança como se estivesse dormindo...
 
*    *    *
 
            Quando o carro enfim chega em frente ao poeta narrador, acontece algo da maior significação e surpresa, da mais surpreendente:
 
                        estalou um trovão, e aquelas gentes,
                        como os que têm o passo interceptado,
 
                        estacaram, com as tochas refulgentes.
 
            Por quê?
            O que aconteceu tão de repente?
            Por que a poderosa procissão parou assim, sob um trovão?
            Que grandioso fato aconteceu ali, naquele caminho, capaz de fazer parar Cristo e a Igreja, as três virtudes, as quatro virtudes cardeais, a medicina, o exército e mais todos?        Quem era assim tão maior e melhor, e mais puro do que tudo isso, que sob um trovão punha a parar o sublime cortejo da caridade, da esperança e da fé?
            Quem foi aquela divina aparição que “firme estacou o séqüito veraz” e se colocou além de todos e sobre todos a ponto que o cortejo pára e todos se voltam para trás a fitar o carro puxado pelo grifo, que simbolizava a Igreja, e assim era pois a verdadeira representação da paz e da salvação?
            Quem era?
 
            Era Beatriz, a amada, que aparecia...
 
            Numa verdadeira heresia, não é a Igreja, ou Cristo, quem vai guiar o Poeta para o Paraíso.
 
            Quem vai conduzi-lo é Virgílio e Beatriz.
 
            A poesia e o amor.

ABGAR RENAULT


ABGAR RENAULT

ABGAR RENAULT

Rogel Samuel

Na minha vida nunca vi o poeta Abgar Renault, autor do poema que diz:

As nossas coisas são o nosso convívio verdadeiro.
Uma camisa adere à nossa vida entranhadamente,
como o carinho mais cruel ou como um nome,
e sabe mais de nós que a confissão mais funda.
Um lápis é sempre um sexto dedo,
e é íntimo como a língua este cigarro.

As nossas coisas nos vêem, cheiram, sabem, gostam,
e sofrem-nos pacientemente como somos,
em nossas de carne e osso tristonhas intimidades.



Nunca o vi, mas muito o li e estou preso a seu nome devido a um fato administrativo e a um bilhete: foi ele quem assinou, naquele tempo, o meu título de professor titular de uma universidade particular. Naquele tempo, Abgar era um dos membros do conselho de educação. Anos depois lhe enviei o meu livrinho “Crítica da escrita” e ele agradeceu com um cartão, e dele recebi as melhores palavras possíveis. Pois escreveu: “Rio de Janeiro, 20 de fevereiro 82. Ilustre colega Rogel Samuel, gostei muitíssimo de “Crítica da escrita”. Não é apenas um singular documento da erudição, mas também uma prova excelente de sua capacidade de clarificar o que a maioria dos autores ama obscurecer e confundir. Acima de tudo esse esboço de tese e essa dissertação revela um aparelhamento crítico de uma finura e de um poder de análise realmente impressionantes. Não conheço em nossa língua nada tão bom. Cordialmente, Abgar Renault". Deixo aqui o bilhete, que veio com o selo "Ad immortalitatem", da Academia. Para que saibam. Para que não se perca. O bilhete faz parte de mim, como a camisa, o lápis do poema. A nossas coisas fazem parte do nosso museu particular, como uma camisa datada, entranhada no nosso guarda-roupa.

domingo, 29 de junho de 2014

As garças







As garças

(Afresco do Teatro Amazonas, possivelmente De Angelis)

Rogel Samuel


Eu me lembro. Na década de 50 o Rio Negro invadiu o centro de Manaus. A antiga Drogaria Flink ficou debaixo dágua. As águas entraram pela praça da Matriz. Creio que foi em 1953.

Agora leio que a enchente é grande. Calamidade. "A medição do nível das águas do rio Negro, feita no principal porto de Manaus, é realizada desde 1902. Desde que começou essa medição, 1953 foi marcado pela maior enchente da história do Estado. Naquele ano, em junho, o mês de pico das cheias dos rios da região atingiu 29,69 metros", diz a Agência Estado. 3 mil casas serão afetadas. O Rio Negro atinge a maior marca em 106 anos.

O maior poeta daquelas águas é Álvaro Maia:

GARÇAS


No azul, em móveis ângulos, esparsas
as penas em finíssimas arestas,
fugindo em tempo às cerrações funestas,
vão em busca do céu bandos de garças ...
Em meio de tristezas e de festas,
fazem retas e círculos de farças,
ou pospontam sendais nas talagarças
e nas tules ondeantes das florestas...
Na tarde escura, no verdor da aurora,
voam, revoam pelo espaço afora,
- aladas sensações, asas de mágoas...
Descem, depois, aos longes da planura,
e, enfeitando os barrancos de brancura,
lembram Mães-dágua em sonhos sobre as águas...

sexta-feira, 27 de junho de 2014

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World Cup 2014: Brazil playmaker Oscar acknowledges his debt to futsal as host nation prepare to face Chile

 

World Cup 2014: Brazil playmaker Oscar acknowledges his debt to futsal as host nation prepare to face Chile

Chelsea player is not the first Brazilian to hone his early talents with a smaller, heavier ball on an indoor five-a-side pitch


World Cup 2014: Brazil playmaker Oscar acknowledges his debt to futsal as host nation prepare to face Chile
This is the plan: Oscar (right) talks tactics with Neymar (left) and Fred ahead of Brazil's last-16 game with Chile Photo: GETTY


When Brazil are in possession, when their players are steering the ball through tight areas, their debt to futsal is demonstrated. When Oscar and Fernandinho struck those trademark toe-poked finishes against Croatia and Cameroon respectively, their early days playing futsal was celebrated.
Neymar and others were raised the futsal way, the approach that Brazil will hope will help them overcome Chile at Belo Horizonte on Saturday.
First taking hold in Latin America in the Thirties, futsal has become more codified and formalised with a smaller, heavier ball used in a five-a-side game in a hall. Futsal’s spirit suffuses Oscar, accentuating close control, decision-making, responsibility-taking by providing constant exposure to one-on-one situations.
Now of Chelsea, the 22-year-old was raised in the Americana area of Sao Paulo, developing his skills on a little pitch attached to an escolinha, a nearby football school, and also in a hall where he played futsal.
“I’d learnt how to play from trial and error, playing on my own, either in games on the pitch in the park or in the hall where we played futebol de salao, – futsal’,’’ says Oscar. “I used to play futsal all the time, right up until I turned professional at 16. I think Brazilian football has reached the level it has because of futsal. The pitch is smaller. The goals are smaller.   
“You have to be faster in everything you do; particularly, you have to make quick decisions. If you’re dribbling, you have to do it by controlling the ball in a much smaller space. If you’re shooting, you must be much more accurate because the goal – the target – is smaller. There are skills you learn better playing futebol de salao and I loved the game. I still play now whenever I get the chance.’’
Brazil’s No 11 outlines his love for futsal and many other elements of life in his homeland in Oscar’s Brazil, an elegant, often moving book written with Tom Watt (Blink Publishing).
“Everything that’s beautiful in football is in futebol de salao, and that’s why I like it so much,’’ says Oscar.
“I learnt football by playing it, in futsal, in the escolinhas, in the street and in the park. By the time I joined Sao Paulo, I had already developed my style of play. At the club, they just had to say to me, ‘Go here and then do what you already know. Or: Do this and then just do what you know’. It was learning the tactical side of the game.” The skill was already there, nurtured during countless hours of futsal.
Oscar is just one of many luminaries to credit futsal with helping making them into such technically accomplished players. Pele, Zico, Ronaldinho, Ronaldo and Neymar form a strong line of Brazilians (let alone Lionel Messi, Cristiano Ronaldo, Xavi and Cesc Fabregas from other equally enlightened footballing countries).
The World Cup highlighted many English deficiencies that could partly be remedied by a greater grasp of the importance of futsal, acquiring the skills that can then be transferred to 11-a-side. The FA began backing futsal in 2008 and numbers of regular players have risen impressively: 80 teams took part in the first National Youth futsal festival, now 2,500 are involved. The attraction is obvious: a study by Liverpool John Moores University found that players were six times more likely to receive the ball in futsal five-a-sides than in 11-a-sides.
“Futsal has its benefits and is part of the jigsaw of a player's development,'' said Roger Davies, the National Game Coaching in Education Manager at the FA. “The ’toe bung’ as we as kids used to call it was laughed at when we used to play in the street or on the rec but now seen on the world stage as another tool in the modern striker's tool box!”
The type of pressure that weighs down on England can also be found in Brazil, probably more so, but Oscar and company seem to relish it. “What’s important is to recognise our responsibilities and take them seriously as players but not to let the pressure inhibit us,’’ says Oscar. “When the whistle blows for kick-off, we have to make sure we let the joy in our football come through. If we do that, we know we’ll have 200m Brazilians on our side, cheering us on.
“We have to be true to ourselves and true to our football ideals and not let the scale of the event, the importance of a World Cup in Brazil, stop us playing the way we all want football to be played.”
So far Oscar has been true to his word. Brazil have lived up to expectations, although the stalemate with Mexico in Fortaleza was frustrating. But this is knockout football now, no room for errors, no safety net and no mercy from those counter-attacking Chileans if Luis Felipe Scolari’s defence goes walkabout.
Chile have just the type of attacking wide players, including their wing-backs Eugenio Mena and especially Mauricio Isla, who can fly into the areas vacated by Brazil’s attacking full-backs, Dani Alves and Marcelo.
Scolari’s centre-halves, Thiago Silva and David Luiz, have yet to convince fully and can be dragged apart, leaving gaps for Alexis Sanchez, Eduardo Vargas and Arturo Vidal to pour into. The expectation is that they will be shielded by Luiz Gustavo and Fernandinho, replacing the disappointing Paulinho. Oscar is expected to start in the centre, linking with Fred, with Hulk and Neymar (nominally) wide.
With due respect to this zestful Chilean side and their noisy fans, this World Cup needs a Brazil win in Belo Horizonte. Spending time out here it is easy to gain the viewpoint that the country is held together by the ball, and particularly the passion for the Selecao. This nation would be plunged into mourning if Chile wreck the party.
Everyone has a take on the team, on Scolari’s tactics, on Brazil’s prospects.
Football is second only to oxygen in daily priorities here. At 2am there are games on the beaches. Walk down a side-street at 8am and half the residents are emerging from homes with green and yellow in their work attire. Belo Horizonte currently stages a festival of football films. One beachcomber in Rio wears his ‘Brasil 70’ shirt. Neymar Jr No 10 shirts seem the national uniform.
Being driven at considerable speed to Maracana by a cabbie who took his hands off the wheel to cross himself three times en route, the man’s love of the Selecao was supreme. He became emotional when this passenger, slightly relieved to arrive in one piece, wished Brazil good luck against Chile. The team means beauty, escapism, patriotism and hope. At least he was not one of the taxi drivers with a television on the dashboard showing games while playing the local pastime of who’s lane is it anyway.
Everyone here has views on Neymar, Oscar, Hulk and whether they live up to the greats of the past. Oscar grew up watching Ronaldo falter in Paris and then excel in Yokohama four years later.
He knows the legend of 1970, has seen the footage, met many of the icons from that special side.
“When I look at the Brazil team of 1970, I can see they were great players: Pele, Jairzinho, Rivelino, Tostao, but I also see that kind of togetherness we had as a group of young boys at Sao Paulo. Look at the fourth goal in the final against Italy: from one end of the field to the other; pass after pass after pass and Carlos Alberto – the right back – is the one who scores. That kind of goal is only possible when there’s a very special bond in a team.”
Oscar believes there is a similar bond in the team now. They will need fortitude when Chile come raiding. Oscar wants to win while bequeathing special memories like Pele, who is also revered for a goal he never scored, the dummying of the Uruguayan keeper Ladislao Mazurkiewicz in 1970.
It was innovation and impudence rolled into one. Pele simply let the ball from Tostao travel one way past Mazurkiewicz while he darted the other. Sadly, his shot back across went wide.
“That was such a beautiful thing to do and every Brazilian laments that it didn’t go in, that it wasn’t the beautiful goal it could have been,’’ says Oscar. “But we remember it, don’t we?”

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quinta-feira, 26 de junho de 2014

O REI DO BUTÃO COM A TAÇA DA COPA 2014

LONGA VIDA AO REI!

A VÃ FEITIÇARIA

A VÃ FEITIÇARIA
 
Rogel Samuel
 
O feiticeiro Lêdo Ivo escreveu:
 
Invento a flor e, mais que a flor, o orvalho
que a torna testemunha desta aurora.
Invento o espelho e, mais que o espelho, o amor
onde eu me vejo, vivo, num sarcófago.
E a vida, este galpão de sortilégios,
deixa que eu a invente com palavras
que são dragões vencidos pela mágica.
E não me espanta que eu, sendo mortal,
sujeito à injúria de tornar-me em pó,
crie uma rosa eterna como as rosas
inexistentes nesta flora efêmera.
Sonho de um sonho, a vida, ao vento, escoa-se
em vãs lembranças. Minha rosa morre
por ser eterna, sendo o mundo vão.
 
 
Encontro este poema, que li quase menino, encontro ao acaso, folheando a «Poesia completa» de Lêdo Ivo, poema que recito quase de cor, como tudo por que a gente apaixona na adolescência, mas que, hoje vejo, não nunca lhe penetrei os labirintos de sentido contidos escondidos entre aqueles misteriosos versos, meio herméticos, daquela feitiçaria... Mas necessita a poesia ser realmente compreendida? Porque eu continuo lendo, hoje relendo, entoando esses versos e vejo que bailo na  musicalidade de suas sílabas, seu invento, seu encanto, e me delicio pelo que nada sei, hipnotizado por suas metáforas feiticeiras.
 
Os primeiros versos dizem:
 
Invento a flor e, mais que a flor, o orvalho
que a torna testemunha desta aurora.
 
Ora, agora, vejo, perturbado, emocionado, que o sujeito poético inventou a flor, o orvalho, o espelho, o amor, a vida, a rosa eterna, a rosa!, a rosa mística!, o sonho, o sonho de um sonho, a vida, o vento, a rosa eterna, o mundo vão...
 
Sim, eu logo que tomo este gigantesco volume das «Poesias completas» (são 1099 páginas!), logo eu senti que o encontraria, por uma intuição de leitor deste Ivo - mas logo me desviei e comecei lendo o «Estudo introdutório» do poeta Ivan Junqueira, que me convenceu e agradou. Ivo é, segundo Ivan, aquele «lírico elegíaco», cujo enigma é não seguir o breviário estético de sua geração de 45, ainda que, como todos os outros, nunca se libertou da «idéia parnasiana» que em todos nós nasce, morre e renasce... Desde Rimbaud. Aliás, diz Ivan Junqueira, que o verso «desabo em ti como um bando de pássaros» poderia ter sido escrito por Rimbaud, assim como:
 
Muda-se a noite em dia porque existes
feminina e total entre os meus braços
 
E, diríamos nós, que os versos:
 
e o tempo entronizado sai da mó
que transforma as austrálias em diademas
 
São dos mais belos daquela poética rimbaudiana de que todos os poetas nunca se libertaram de todo, por serem contagiados pelo barco bêbado da invenção da poesia moderna - e Lêdo Ivo também, mas logo se libertou, posteriormente.
 
Cheio de sortilégios é Lêdo Ivo poeta, feitiçaria nada vã da invenção das palavras, criatura de uma rosa eterna que vai além dessas floras efêmeras - eterna porque morre, e morre por ser eterna neste mundo vão - curiosa antítese que me lembra uma página da filósofa Hannah Arendt em que fez a distinção entre eternidade e imortalidade (ARENDT, Hanna. A condição humana. Rio de Janeiro, Forense/Rio de Janeiro, Salamandra/São Paulo, Ed. Universidade São Paulo. 1981. 339p.)
A distinção, que Hannah Arendt estabelece, entre imortalidade e eternidade, esclarece parte da alienação do mundo moderno
Pois Imortalidade significava continuidade no tempo, através da realização de grandes feitos, obras e feitos notáveis. Por sua capacidade de produzir obras e de realizar feitos imortais, os mortais podiam, através das marcas de sua passagem, participar da natureza dos deuses. Na Antigüidade Clássica, havia os que ambicionavam à fama e, portanto, à imortalidade, e havia os que, satisfeitos com os prazeres que a natureza lhes oferecia, viviam e morriam como animais. Nesses dois casos, uma alienação se percebe e uma falta de compreensão da natureza do real.
Outra coisa era a experiência do eterno, própria do filósofo, no sentido estrito do termo, isto é, aquela visão da eternidade, ainda que passageira, momentânea. Diz Arendt que depõe muito a favor de Sócrates o fato de ele não ter escrito nada, porque não estava preocupado com a fama, ou seja, com a imortalidade. O filósofo vivia a experiência do eterno. Se escrevesse a sua experiência do pensar, ambicionaria Sócrates a imortalidade, ou seja,  procuraria deixar para a posteridade algum vestígio de si: assim é a fama. (Ironicamente se admite hoje poder alguém ser «famoso» sem ter feito nada, sem ter produzido nada, alguém que nada fez, que não deixaria nenhuma obra própria, como por exemplo um locutor de TV).
A experiência do eterno, diz Arendt, só pode ocorrer fora da esfera das ambições humanas. Se morrer é deixar de estar entre os homens, ela, a experiência do eterno, é morte. Seu contrário seria a intenção da fama, da imortalidade. Eternidade e imortalidade estão, deste modo, em lados integralmente opostos e contraditórios.
Entretanto, tal experiência, a percepção do Eterno, diz Hannah Arendt, tem de ser rápida, porque ninguém poderia suportá-la por muito tempo. Nós, seres condicionados e mortais, não podemos encarar o eterno na sua eternidade, senão indireta e rapidamente, numa intuição momentânea. O eterno está fora do nosso mundo. A imortalidade, ao contrário, reside entre nós, é criação humana. Ao contrário, o eterno não é condição de possibilidade humana, nem é tocado pela ambição humana. O eterno advém ao homem quando este nada deseja, na imobilidade do pensamento atento, silenciado pela vida contemplativa. Os poetas do Zen sabiam disso. Pois o eterno não pode ser convertido em atividade da linguagem humana, é uma iluminação fortuita que não se consegue senão com a intuição do poético, com a observação pura dos movimentos do pensar. O eterno é positivo, nasce quando há radical negação. Não pode ser aprisionado pelo discurso, mas representa a liberdade e libertação do que não pode ser objetivado pelo discurso científico - o eterno é a poesia.
A Imortalidade, entretanto, foi impiedosamente abalada com a queda do Império Romano. A destruição de Roma mostrou cruelmente que nenhum produto do homem pode ser considerado eterno. A nossa feitiçaria é vã.
 
Sonho de um sonho, a vida, ao vento, escoa-se
em vãs lembranças. Minha rosa morre
por ser eterna, sendo o mundo vão.
 

terça-feira, 24 de junho de 2014

NA INAUGURAÇÃO

A multidão que assistia do lado de fora a entrada dos convidados à inauguração viu chegar Raul de Azevedo e sua esposa, Sara. O casal ficou a passear nos jardins do teatro antes de entrar, pois o escritotor aproveitou para fumar.
 A seguir apareceram Afonso de Carvalho, a esposa e alguns amigos. Era um grupo animado. Entraram logo.
 Logo veio Joaquim Cardoso Ramalho Junior, com o filho (a esposa adoentada não veio). Mas quando apareceu Erico de Aguiar Picanço todas as pessoas que assistiam a entrada exclamaram um “oh!” de surpresa e admiração, pois Esmeralda Picanço portava as suas famosas esmeraldas: era um colar e brincos de esmeraldas e diamantes famosos na alta sociedade manauara, realçados pelo belo pescoço e o vestido de seda preta de sua dona. O vestido não tinha nenhum bordado nem enfeite. As esmeraldas e brilhantes iluminaram a entrada.
 
 E assim foram chegando os convidados, que era elite do Norte do Brasil. Um dos últimos a chegar foi o Governado Fileto Pires Ferreira, com a esposa. E o último o ex-governador Eduardo Gonçalves Ribeiro, aplaudido pelo povo que estava na rua, desprezado pelos convidados de dentro. Eduardo Ribeiro, como sempre, veio com uniforme militar, acompanhado por dois soldados. Entrou rapidamente, atravessou o hall sem cumprimentar ninguém, subiu as escadarias com velocidade e sumiu no camarote. Os dois soldados não entraram, ficaram de guarda, na porta. 
 
 O Teatro ainda não estava ainda totalmente pronto. No “Salão Nobre”, em taças de cristal, servia-se o champanha La Grand Dame Veuve Clicquo. E se fazia política, conspirava-se. Conspirava-se contra o Governador Fileto Pires Ferreira, que já estava no camarote do Governo, conspirava-se contra Eduardo Ribeiro, que se escondera na penumbra.  Em sussurros, no pé do ouvido, algumas figuras diziam: “- Fileto vai viajar para Paris...”
 - Agora que Fileto e o negro estão rompidos é hora de agir, disse o outro.
 
 No início do espetáculo falou o Governador Fileto Pires Ferreira, do alto do seu camarote central. Grande orador, inflamado, de improviso, inaugurou o Teatro. Seu discurso foi recebido friamente pela elite que já conspirava contra ele. E embora tivesse de relações rompidas com o ex-governador, anunciou:
 
 - Temos a satisfação de ver entre nós o grande realizador da obra, o construtor deste imponente Teatro, o Governador Eduardo Ribeiro.
 
Neste momento irrompeu uma grande vaia, vinda de todos os lados.
(ROGEL SAMUEL. TEATRO AMAZONAS)

A RIQUEZA

A cotação da borracha amazonense sobe na Bolsa de Londres. Aumenta a produção dos pneumáticos. O Amazonas, único produtor de látex do mundo. Manaus rica, copia Paris. Comerciantes enriquecem. Ostenta o Teatro Amazonas os seus espelhos de cristal. Os milionários jogam cartas com anelados dedos pesados de diamantes, arriscando fortunas no Hotel Cassina, no Alcazar, no Éden, no Cassino Julieta. Telhas de Marselha ao luar na Rua dos Remédios, na Rua da Glória. Arquitetura art-nouveau do palácio de Ernest Scholtz - depois Palácio Rio Negro, sede do Governo. Arandelas, bandeiras, implúvio. Intercolúnio. O cunhal, o lambrequim, a voluta, o capitel, a cornija. Arquitrave. Barrete de clérigo, adufa, muxarabi, água-furtada, muiraquitã, envasadura, atleta, estípite. O enxalso, o frontão de canela. Galilé. Pequena Manaus, grande Paris!. Lojas, magazines, charutarias, livrarias, alfaiatarias, ourivesarias. Bissoc. Pâtisserie. Du sucre, des fruits, de la crème. A la ville de Paris, Au bon marché, Quartier du temple, Damas do Gabinete Villeroy, Casa Louvre, Livraria Palais Royal (na rua Municipal, n0 85, as novidades literárias), Livraria Universal, Agência Freitas, Casa Sorbonne (dentro do Grande Hotel), a Confeitaria Bijou, a Padaria Progresso. Faroletes de pedra de morona e de puraquequara. A bela Villa Fany, luxuosíssima. O Cais dos Barés, a Biblioteca Provincial (que incendiou fraudulentamente, para destruir os Arquivos Públicos, nos fundos). O prédio dos Educandos Artífices que deu nome ao bairro. Amazon Steamship Navigation Co. Um prédio importado, peça por peça, da Inglaterra: a Alfândega, montada aqui. Outro, projeto do próprio Gustavo Eiffel, de ferro: o Mercado Municipal. Um Serviço Telefônico serve a cidade. A eletricidade ilumina as ruas de Manaus no início do Século, talvez das primeiras cidades brasileiras a ter este serviço. Calçadas da Praça São Sebastião, em pedras portuguesas pretas e brancas, em ondas que alegorizavam o “encontro das águas” do Negro e Solimões (posteriormente imitadas na praia de Copacabana). Bondes elétricos da Manaus-traways. Bebe-se Veuve Clicquot, truffes, champignon. Huntley & Palmers, Cross & Blackwell. A Cork, a Pilsen, o Bordeaux, o fiambre, o Queijo da Serra da Estrella. Lagostas, a Goiabada Christalizada. Charteuse, Anizette. Champagne Duc de Reims. O Vermouth. Água de Vichy. Leite dos Alpes Suíços. Casacas inglesas, o H. J., o pongê, o filó. Bengalas de castão de ouro. Cartolas, luvas, perfumes franceses, lenços de seda. Pistolas de prata e cabo de marfim. Gramophones de Victor. Discos duplos de Caruso. Casas aviadoras. O Amazonas participa da Exposição Comercial de St. Louis, no Missouri, e posteriormente da Exposição Universal de Bruxelas, onde ganha 32 medalhas de ouro, 39 de prata, 70 de bronze, 6 Diplomas de Honra e os 13 Grandes Prêmios. Manaus-Harbour. Tabuleiro de Xadrez. Óperas, óperas, óperas. Diariamente. Prostitutas importadas. A Cervejaria Miranda Correia.
(ROGEL SAMUEL. O AMANTE DAS AMAZONAS).

segunda-feira, 23 de junho de 2014

A COPA, A BOLA E O VOTO

A COPA, A BOLA E O VOTO
 
ROGEL SAMUEL
 
Sim, a Copa.
Contra toda a mídia, contra tudo e contra todos, o Brasil a hospeda.
Sim, nunca se viu esse carnaval às avessas do que se pode esperar “fora do campo”.
O Brasil amadureceu, enriqueceu.
O brilho do evento se confunde com a apoteose governamental.
Um mundial, uma olimpíada, o melhor e mais barato meio de promover um país.
Os Jogos Olímpicos do verão de 1936, na Alemanha, de 1 e 16 de agosto, a participação de 3963 atletas, 328 mulheres,  49 países, 22 modalidades esportivas, foi um dos mais grandiosos e bem realizados, ricos e politicamente bem explorados meios de propaganda alemã até então.
Apoteose nazista, grande pompa, espetacular Estádio Olímpico de Berlim, com a presença de Adolf Hitler.
Infelizmente para o Führer, um grupo de atletas negros norte-americanos conquistou a maioria das medalhas do atletismo, a modalidade mais importante dos Jogos, liderados por Jesse Owens, que ganhou quatro medalhas de ouro nos 100m, 200m, revezamento 4x100 (estafetas) e salto em distância (comprimento), no mais emblemático episódio da história dos Jogos Olímpicos.
Mas a Alemanha liderou o quadro, com 33 medalhas de ouro.
Os Jogos forneceram palco para a estética nazista utilizado como veículo de sua expansão.
Os alemães não economizaram.
O orçamento dos jogos foi ampliado 20 vezes, com a construção do mais moderno complexo esportivo até então: o Reichssportfeld (hoje conhecido como Olympiapark Berlin).
Ponto central o Estádio Olímpico, com capacidade para abrigar 100 mil pessoas.
Os organizadores criaram o cortejo da tocha olímpica, existente até hoje. E um sino gigante com a inscrição "Ich rufe die Jugend der Welt" (eu chamo os jovens do mundo) – badalou na chegada da tocha na cidade.
Dessa forma, o regime tentava apresentar-se como pacífico, universal, aberto para o mundo.
Julius Lippert disse em discurso três dias antes da abertura dos jogos para os representantes do Comitê Olímpico: "Berlim saúda os guerreiros olímpicos do todo o mundo. Saúda ainda, nos senhores e com os senhores, os representantes de mais de 50 nações, com as quais toda a Alemanha deseja conviver como num reduto de paz no espírito da compreensão mútua."
Hitler retirou dos arredores da cidade olímpica as referências antissemitas ou que pudessem manchar a imagem da Alemanha pacífica que ele pretendia apresentar.
O documentário “Olympia”, de Leni Riefenstahl, mostra tudo. Encontra-se no Youtube.
Uma Olimpíada, uma Copa, é o melhor meio de fazer a propaganda de um país. Principalmente hoje, era digital.
 
Mudando de assunto: morreu Marinho, um dos ídolos da minha juventude.
Hoje ele estaria milionário, garoto-propaganda, brinco na orelha, como Cristiano Ronaldo.
Sua figura era impressionante e diferente de todos os jogadores de sua época: Marinho era louro e belo, como um astro de Hollywood, tinha os cabelos compridos até os ombros, que  ondulavam enquanto ele corria em grande velocidade.
Na seleção brasileira, foi o craque da Copa de 1974.
O playboy Marinho usava uma pulseirinha preta no pulso e tinha um tremendo chute de direita.
Um grande atacante, um dos que melhor souberam avançar da defesa.
Na Copa figurou na seleção dos melhores. O Brasil foi eliminado, mas ele partiu em direção ao gol até o fim do jogo, e bancou uma briga com o goleiro Emerson Leão por conta disso.
Marinho jogou no Cosmos dos Estados Unidos, ao lado de Pelé.
Sim, Marinho teve problemas sérios com o álcool depois que parou de jogar.
Está morto, aos 62 anos.
Por isso diz João Cabral:
 
“A bola não é a inimiga
 como o touro, numa corrida;
 e embora seja um utensílio
 caseiro e que se usa sem risco,
 não é o utensílio impessoal,
 sempre manso, de gesto usual:
 é um utensílio semivivo,
 de reações próprias como bicho,
 e que, como bicho, é mister
 (mais que bicho, como mulher)
 usar com malícia e atenção
 dando aos pés astúcias de mão”.
 
A bola, a vida, a alma, as eleições. Não inimiga, mas amante. A bola de futebol, malícia, manha, reações perigosas, não se usa sem risco. Como a nudez da mulher, ou do touro.
Cabral, nordestino, machista. Jogador toureiro,  amansa a bola. Futebol machista. O time perdedor não corta o afiado. Não o jogador, o clube, o time, mas a bola. O orbe. O mundo. O calo da vitória. O calo do verbo calar. A bola algo que rola e rebola,  imprevista,  perigosa, nervosa, telegrama, aerograma, míssil, ogiva nuclear, torpedo:
 
“ Não é a bola alguma carta
 que se levar de casa em casa:
 
 é antes telegrama que vai
 de onde o atiram ao onde cai.
 
 Parado, o brasileiro a faz
 ir onde há-de, sem leva e traz;
 
 com aritméticas de circo
 ele a faz ir onde é preciso;
 
 em telegrama, que é sem tempo
 ele a faz ir ao mais extremo.
 
 Não corre: ele sabe que a bola,
 telegrama, mais que corre voa”.
 
Eis o que diz o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto: a bola não é carta, mas telegrama; tem aritmética de circo, que o estádio é redondo; a bola não corre, voa, como uma bala, como uma faca só lâmina; vai ao extremo de nós mesmos, no mundo adverso dos nossos pés.
 
Mas neste ano, o bola é o voto.
“Triste sina, estranha condição”, escreveu Camões.