domingo, 31 de julho de 2011

A última dor


A última dor

Rogel Samuel



Ele se predispõe: «Posso escrever os versos mais tristes esta noite», diz, e pode, que produziria versos tristes como a noite, mas a noite não está triste, a noite está estrelada, sim, «e tiritam, azuis, os astros, à distância».

Há algo muito distante, lá longe, nos astros, na distância das estrelas. Na realidade, distante está o Amado de amar: «Eu a quis e por vêzes ela também me quis.»

Exercendo o que mais o lirismo sabe fazer, ele se lembra: «Eu a tive em meus braços em noites como esta. / Beijei-a tantas vêzes sob o céu infinito.»

Sim, perdida está, seu lirismo, sua lembrança, «Ela me quis e às vêzes eu também a queria.»

Mas esta estranha palavra, essa estranha temporalidade, o que se interpõe: «às vezes». E o poema continua, sempre nas suas mudanças de humor, na bela tradução de Domingos Carvalho da Silva:


«Como não ter amado seus grandes olhos fixos?

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E desce o verso à alma como ao campo o rocio.

Que importa se não pôde o meu amor guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. À distância alguém canta. À distância.
Minha alma se exaspera por havê-la perdido.»


Pablo Neruda nunca foi tão simples, nunca tão perfeito, tão clássico como neste poema, o «20» dos «Vinte poemas de amor», de 1968.

Lá, parece que o Amado só se apercebe de que ela se foi quando a perdeu. Não a vê de perto, em si, há referência a uma mulher-lua, a um luar:

«A mesma noite faz branquear as mesmas árvores.
Já não somos os mesmos, nós os de outros dias.»

Esta obra da juventude de Neruda, que tinha 20 anos. Ele teve diversos amores em vida, as mais conhecidas foram Maria Antonieta Hagenaar, que ele conheceu na ilha de Java, Maria Del Carril e Maria Matilde Urrutia. O poema se encontra no seu livro «Veinte Poemas», seu mais popular e famoso livro, de 1924, que vendeu mais de um milhão de exemplares. Afinal, em 1971, Neruda ganha um Prêmio Nobel.
Mas o livro é a leitura preferencial, ideal de todos os jovens (e velhos) amantes do mundo inteiro em todas as línguas, pois para quase todas foi traduzido.
Em 1950, Neruda produziu seu CANTO GENERAL, monumental obra com 340 poemas, quando tematiza a América Latina, sua luta, sua pobreza, sua libertação. Lá se encontra o famoso poema «Alturas de Macchu Picchu», escrito depois de sua visita às ruínas de Macchu Picchu, em 1943. Ali ele se torna a voz dos povos Incas que ali viveram, que ali foram dizimados.

No poema 20, dos « Veinte Poemas», o amado está confuso, ela já não o ama, é isto o que verdadeiramente dói, apenas ele está triste porque ela não está ali: porque ela existia ali ele será capaz de entristecer-se, porém já não a ama, «talvez a queira», não sabe, porque o amor é breve, longo é o esquecimento do amor.
Afinal ele se desespera por havê-la perdido, mas sente e sabe o caso perdido, terminado, e que aqueles versos serão os últimos e que aquela dor será a última dor que ela lhe cause.
O mais é o espaço amplo da noite, as estrelas ao largo, o vento da grandeza escura, a solidão estelar onde será possível escrever os versos mais tristes, pensar que ela será de outro, para justificar o perdê-la, para justificar o não saber amá-la, porque o amor só ama o amor, e a voz que soa nos seus ouvidos dela são para o eco de si mesmo, aos seus olhos infinito

«Já não a quero, é certo, quanto a quis, no entanto.
Minha voz ia no vento para alcançar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos.

Já não a quero, é certo, porém talvez a queira.
Ai, é tão breve o amor e é tão extenso o olvido.

Porque em noites como esta eu a tive em meus braços,
minha alma se exaspera por havê-la perdido.

Mesmo sendo esta a última dor que ela me cause
e êstes versos os últimos que eu lhe tenha escrito. »

A MATEMÁTICA QUE ENCORAJA E AO MESMO TEMPO APAVORA.


A MATEMÁTICA QUE ENCORAJA E AO MESMO TEMPO APAVORA.


Os democratas de Obama tem 53 cadeiras no Senado norte-americano composto de 100 representantes do povo. Portanto, tem maioria: 50 votos mais 3 .Pela Constituição, trata-se de uma maioria insuficiente para aprovar projetos de envergadura, como a elevação do endividamento fiscal que magnetiza as atenções do mundo e requer o apoio de 60 senadores para ser implementada. Obama precisa atrair mais sete votos republicanos para fechar a conta. O número, modesto, ao mesmo tempo em que encoraja a aposta num desfecho bem sucedido, desconcerta pela fragilidade que escancara. O Presidente da maior potencia capitalista da terra se arrasta de concessão em concessão rumo à autodissolução ideológica para atrair o irrisório apoio de sete republicanos. Pior ainda, enfrenta dificuldades nas derradeiras horas que lhe restam no calendário: 43 dos 47 congressistas republicanos afirmaram em carta aberta, neste sábado, que não apoiarão o pleito de Obama. É assustador.
(Carta Maior; Domingo, 31/07/ 2011)

Votação sobre teto da dívida americana é adiada em 12 horas


Votação sobre teto da dívida americana é adiada em 12 horas
Líder dos democratas no Senado, Harry Reid pediu mais tempo para tentar negociar acordo com os republicanos. Votação deve acontecer a partir das 13h de hoje

EFE |


Votação sobre teto da dívida americana é adiada em 12 horas Líder dos democratas no Senado, Harry Reid pediu mais tempo para tentar negociar acordo com os republicanos. Votação deve acontecer a partir das 13h de hoje


O porta-voz da maioria democrata no Senado dos Estados Unidos, Harry Reid, decidiu neste sábado adiar para o domingo a votação de seu plano sobre o teto da dívida para dar tempo às negociações com os republicanos sobre um acordo bipartidário que evite a moratória, no dia 2 de agosto.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, voltou a negociar com legisladores democratas e republicanos para elevar o teto da dívida, enquanto os planos de ambos os partidos para alcançá-lo desmoronavam nas duas câmaras. Em um fim de semana-chave para evitar que o Tesouro americano declare parcialmente a moratória na próxima terça-feira, a obstrução protagonizou neste sábado as tensas negociações mantidas por Casa Branca e Capitólio.

Em uma agitada votação, a Câmara de Representantes (Deputados), de maioria republicana, rejeitou por 246 votos a 173 a proposta democrata para aumentar o teto da dívida, que agora se situa em US$ 14,3 trilhões, antes mesmo que o Senado iniciasse os trâmites para votá-la.

Os republicanos optaram assim por devolver o golpe que o Senado havia dado na sexta-feira à proposta do presidente da Câmara, John Boehner, ao bloqueá-la pouco depois de ter sido aprovada nesse plenário.


O líder da minoria republicana no Senado, Mitch McConnell, afirmou em entrevista coletiva concedida após a votação que havia falado neste sábado por telefone tanto com o vice-presidente, Joe Biden, quanto com Obama, e opinou que o governante deveria estar presente em qualquer negociação para chegar a um consenso. "Acredito plenamente que alcançaremos um acordo em um futuro muito próximo", declarou McConnell, enquanto Boehner destacou que os americanos podem ficar seguros de "que esta crise acabará e que não haverá moratória".

Esse otimismo contrastou com a frustração que Reid expressou mais tarde no plenário do Senado, após uma visita à Casa Branca ao lado da líder da minoria democrata na Câmara, Nancy Pelosi.

Os dois legisladores se reuniram com Obama pouco depois que o plano de Reid foi rejeitado, mas não foram divulgados detalhes sobre o encontro. "Não é certo que estamos perto de um acordo significativo", disse Reid no Senado após a reunião. "E se estamos hoje aqui, é por uma singela razão: o obstrucionismo", acrescentou.

O líder democrata passou a manhã imerso em conversas com os republicanos para garantir o êxito da votação programada para a madrugada do domingo (1h do horário local, 2h de Brasília), um voto de procedimento para limitar o debate e assegurar que a medida seja votada definitivamente nas primeiras horas da segunda-feira. Para isso, Reid necessita de uma maioria de 60 votos, o que obriga os democratas, que controlam a Câmara, a garantir o respaldo de pelo menos sete republicanos.

Esse objetivo pareceu distante neste sábado quando McConnell entregou a Reid uma carta na qual 43 dos 47 senadores republicanos se comprometiam a votar contra nesta madrugada. Nos últimos dias, Reid modificou seu plano para acrescentar elementos propostos por McConnell, e seu projeto agora inclui uma elevação da dívida em duas fases, até chegar aos US$ 2,4 trilhões, e uma redução do déficit em US$ 2,2 trilhões na próxima década.

No entanto, a proposta carece de um mecanismo que estabeleça a forma de atuação se o Congresso não conseguir reduzir o déficit nos níveis esperados, o que se transformou no principal argumento de muitos republicanos para rejeitar o plano. "É hora de acabarmos com este teatro do absurdo", disse após a votação na Câmara dos Representantes uma decepcionada Nancy Pelosi, que fez um apelo aos legisladores de ambos os partidos para que priorizem uma solução "real".

sábado, 30 de julho de 2011

Amanhã pode nunca chegar!




Amanhã pode nunca chegar!


por Dzogchen Ponlop Rinpoche‏


Consciência pura,
Genuinamente livre de nascimento e morte.
Mente dualista,
Solidifica ontens e amanhãs.
Vajra veículo,
Aspira despertar nesta vida.
Não pisque,
Esta vida pode ser apenas este momento.
Sangha sorte,
Aproveitar cada momento precioso.
Presente momento,
É o cruzamento entre o samsara
e nirvana.
Acorde Vajra sangha,
Nossa única esperança de despertar pode estar
neste momento.
porque,
Amanhã pode nunca chegar!


Composed on the occasion of the death of Patty Rivas, Mexico Nalandabodhi sangha member. Hong Kong, January 11, 2008.

AOS 103 ANOS

Aos 103 anos, mulher começa a estudar no interior da Bahia


Aos 103 anos, mulher começa a estudar no interior da Bahia
Independente, lúcida e ainda dando tragos no seu cachimbo, Dona Beduína já aprendeu a escrever o primeiro nome

Thiago Guimarães, iG Bahia

A aluna mais aplicada do curso de alfabetização de adultos em São Sebastião do Passé (68 km de Salvador) não perde um dia de aula. Sob sol ou chuva, caminha 200 metros até a escola, quatro noites por semana. Enquanto conhece letras e números, divide lembranças raras: a morte do cangaceiro Lampião, Primeira Guerra Mundial, a “grande seca” de 1932 na Bahia.

Foto: Thiago Guimarães/iG Ampliar

Maria Joviniana e a bisneta na sala de aula em São Sebastião do Passé, no interior da Bahia: "Nunca me dediquei a estudar, e não tinha escola como tem hoje".

Maria Joviniana dos Santos tem 103 anos, como atestam 19 comprovantes de votação bem gastos que faz questão de mostrar. Nasceu em 15 de julho de 1908, no Brasil que vivia o quinto governo da República, somava 20 anos sem escravidão e apenas 600 carros - importados - pelas ruas.

Dona Beduína, como é conhecida, atendeu ao chamado de uma educadora de 33 anos que, em fevereiro deste ano, passou por sua rua recrutando alunos para um programa de alfabetização do governo estadual. “É ruim ver a palavra de Deus e não saber explicar, ver uma receita médica, não saber que dia é. Eu disse: não estou fazendo nada, vamos ver se aprendo alguma coisa”, diz a centenária.


É ruim ver a palavra de Deus e não saber explicar, ver uma receita médica, não saber que dia é. Eu disse: não estou fazendo nada, vamos ver se aprendo alguma coisa"

Com lucidez e energia notáveis, dona Beduína conta que teve poucas possibilidades de estudar - chegou a cursar o extinto Mobral, programa de alfabetização do regime militar, mas a experiência durou pouco. “Nunca me dediquei a estudar, e não tinha escola como tem hoje.”

A trajetória da baiana do Recôncavo acompanhou a de São Sebastião do Passé, embora tenha nascido antes da criação oficial do município, em 1926. Viveu de fazenda em fazenda com o pai, que era caseiro, ao sabor dos resultados nas roças de mandioca, principal cultivo local. A cultura declinou diante da pecuária, o pai foi ser carroceiro em Salvador e a menina ficou com a avó, parteira, em Lameirão do Passé, distrito a 18 km da sede da cidade.

Dos tempos com a avó, Joviniana conta das mangabas - fruto cultivado há séculos pelos povos do sertão brasileiro - que catavam e reuniam em latas para vender. Havia também o coco e o óleo da piaçava, espécie nativa baiana, e a água que a avó buscava longe para as casas mais abastadas, naqueles tempos sem encanamento. “Botava água para ganhar um litro de farinha, um pedaço de carne. Disso a gente ia vivendo.”

A memória também evoca fatos históricos, como a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e os tios que se jogavam em rios para fugir dos “carros forrados com lona verde” do recrutamento “porque não tinha esse negócio de ir para a guerra”. Canta “Salve a Princesa Isabel”, samba de 1948 de Paquito e Luis Soberano, e se lembra do jornal que estampava as cabeças cortadas do bando de Virgulino Ferreira da Silva, o cangaceiro Lampião, morto em 1938. “Ele era uma boa pessoa”, diz.

Dona Joviniana conta que só desmaiou quando filho virou policial
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Aulas em família

Na sala da escola estadual Luís Eduardo Magalhães, dona Beduína já escreve o primeiro nome. “Ela conta muitos casos. Se deixar, acho que até dá aula, mas é bastante concentrada na hora da atividade”, diz a estudante de pedagogia Francisca Ferreira, professora da turma de 20 alunos de 22 a 103 anos, a maior parte entre 50 e 60 anos.


Desisti da irmandade porque não dorme com marido, não bebe cachaça, não fuma, não come carne"

Joviniana é um dos 351 alunos em São Sebastião do Passé do Topa (Todos pela Alfabetização), programa do governo Jaques Wagner (PT). A iniciativa reflete velhos problemas da educação do País – os professores do programa, todos voluntários, ainda não receberam em 2011 a ajuda de custo mensal de R$ 250. A Secretaria da Educação da Bahia informou que os repasses estão atrasados porque a prefeitura de São Sebastião do Passé não confirmou dados de presença dos docentes. A prefeitura disse estar providenciando as informações.

Para além das dificuldades, o exemplo da estudante centenária animou Maria da Silva dos Santos, 59 anos, que também passou a frequentar as aulas e caminha de mãos dadas com a amiga até a escola todos os dias. Outra colega é Maria Cecília dos Santos, 58 anos, uma das sete filhas de dona Beduína. Ao todo, a matriarca teve quatro maridos (o último morreu há cerca de dez anos) e 17 filhos, dos quais 14 estão vivos, espalhados por cidades do entorno de Salvador e em São Paulo. São 92 netos, e a família já perdeu a conta dos outros descendentes.


A Bahia é o Estado com mais brasileiros centenários – são 3.525 ao todo, segundo o censo 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) - entre eles, dona Canô, mãe do cantor e compositor Caetano Veloso. Dona Beduína diz que ajuda a compor a estatística com muito feijão. “Como feijão ao meio-dia, à noite. É meu café.”

Joviniana também dá seus tragos de cachimbo até hoje. “Solta o catarro da garganta e desentope o ouvido”, diz. Conta que já gostou de cachaça e “muita pimenta”, mas agora só de vez em quando.

Ela afirma que até pensou em fazer parte, quando jovem, de uma irmandade, associações religiosas de caráter comunitário. “Desisti da irmandade porque não dorme com marido, não bebe cachaça, não fuma, não come carne.”

Dona Beduína vive apenas com um neto de 26 anos. Uma filha mora ao lado, mas a centenária é independente. Serve café, conversa com a reportagem e se prepara para mais uma noite de aula – o curso de alfabetização, de 360 horas, vai até o final do ano. “A gente nessa idade ficar dentro de casa é muito ruim, a doença toma conta. Vamos para ver se ainda aprendo alguma coisa.”

Não te Fies do Tempo nem da Eternidade


Não te Fies do Tempo nem da Eternidade



Não te fies do tempo nem da eternidade

que as nuvens me puxam pelos vestidos,

que os ventos me arrastam contra o meu desejo.

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,

que amanhã morro e não te vejo!



Não demores tão longe, em lugar tão secreto,

nácar de silêncio que o mar comprime,

ó lábio, limite do instante absoluto!

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,

que amanhã morro e não te escuto!



Aparece-me agora, que ainda reconheço

a anêmona aberta na tua face

e em redor dos muros o vento inimigo...

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,

que amanhã morro e não te digo...



Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'
________________________
Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.com
http://cristalina.multiply.com

STRESS


DE JORNAL ALEMÃO

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Os EUA têm histórico esquecido de calotes


Os EUA têm histórico esquecido de calotes
Se ocorrer, default americano não será inédito; para a decepção dos catastrofistas, o mundo não acabará dessa vez

Patrick Cruz, iG São Paulo

Na tela da TV, apresentadores e entrevistados dissecam em tom funéreo a possibilidade de os Estados Unidos anunciarem o calote de sua dívida. O canal Bloomberg adicionou drama ao exibir em sua tela um relógio com a contagem regressiva para a quebra: quatro dias, seis horas, dois minutos, nove segundos (oito, sete, seis). Analistas usam expressões tão leves quanto “episódio sem precedentes” e “catastrófico”. O horror, o horror, o horror.

Obama tenta tapar buraco de US$ 1,5 trilhão no orçamento

Mas o mundo não acabará dessa vez. Se o Congresso não chegar a um consenso sobre a elevação do limite da dívida do país (atualmente de US$ 14,29 trilhões) até o dia 2 de agosto – e, assim, o calote for confirmado –, os EUA, que têm déficit orçamentário de US$ 1,5 trilhão, suspenderão o pagamento de suas obrigações. Os políticos têm alardeado o ineditismo dessa decisão e os mercados financeiros estão tensos com as consequências imprevisíveis, mas, em outras ocasiões, o default já ocorreu – e a vida seguiu.

Esse histórico esquecido de calotes norte-americanos começou em 1790. O país, ainda imberbe, tinha proclamado sua Constituição menos de três anos antes disso quando o recém-formado governo federal reestruturou os pagamentos dos bônus emitidos pelos Estados para financiar a guerra pela independência da Inglaterra. E foi um calote em obrigações internas e externas. “Os juros nominais foram mantidos em 6%, mas uma parte dos juros foi postergada por dez anos”, relatam Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff em “The forgotten history of domestic debt” (A história esquecida da dívida doméstica), trabalho feito para a National Bureau of Economic Research, entidade privada de pesquisa de temas econômicos criada há quase 100 anos.

A lista de defaults ganhou novo item em 1933, o primeiro ano de Franklin Delano Roosevelt na presidência dos EUA. As finanças do governo ainda tinham uma ligação íntima com o ouro – e isso era particularmente verdade no caso dos bônus emitidos para financiar a participação norte-americana na Primeira Guerra Mundial. Esses papéis tinham uma cláusula que permitia a seus detentores optar por receber o pagamento em moedas feitas do metal precioso.

Mas como aqueles eram os dias da Grande Depressão, o governo, com a anuência do Congresso, desvalorizou o dólar e, no dia 5 de junho daquele ano, também decidiu que a cláusula do ouro não era mais válida. Como o metal era uma garantia contra a desvalorização da moeda, e como, com aquele ato, ele não seria mais usado pelo governo para honrar seus débitos, na prática, a desvalorização da moeda faria com que os detentores dos bônus recebessem menos dinheiro por esses documentos do que eles efetivamente valiam. Ações na Justiça contra a decisão chegaram à Suprema Corte, que, por cinco votos a quatro, ratificou a medida do governo. Estava decretada a moratória.

O ano de 1979 teve um quase-calote. A exemplo do que ocorre hoje, o Congresso demorou para votar a elevação do teto da dívida para US$ 830 bilhões. A proposta foi aprovada, mas não a tempo de o governo emitir cheques para todos os seus credores. Com isso, foram adiados os pagamentos que totalizavam US$ 122 milhões a investidores com títulos que venceriam em 26 de abril, 3 e 10 de maio daquele ano. O episódio foi considerado pelo Tesouro dos EUA não um calote (ainda que momentâneo), mas um problema técnico.

Houve ainda ocasiões em que Estados dos EUA deram calote. Entre 1841 e 1842, nove deles o fizeram. Depois, entre 1873 e 1884, nos recessivos anos pós-Guerra Civil, foram dez os caloteiros. No caso de West Virginia, um dos dez dessa lista, a liquidação das obrigações só ocorreria em 1919.

Há quem prefira dizer que os episódios passados seriam casos de “default técnico” e não têm a mesma dramaticidade da ameaça atual de moratória. Em 1790, a ação, orquestrada pelo secretário do Tesouro Alexander Hamilton, teria sido menos um calote e mais uma reestruturação de dívida, afirmam alguns pesquisadores. E, em 1933, os EUA postergaram unilateralmente suas obrigações, mas os pagamentos acabariam sendo feitos – ainda que não nos termos originalmente acordados.

Mas não havia, de qualquer forma, garantia de que os compromissos seriam honrados depois dos calotes (ou “defaults técnicos”). Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff (professor em Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional) atestam as moratórias no livro Desta vez é diferente: oito séculos de loucura financeira, de 2010.

“Contrair dívidas será quase que infalivelmente uma ação a ser tomada de forma abusiva pelos governos”, foi o que disse o filósofo David Hume há quase 250 anos no ensaio “Sobre o crédito público”. Endividar-se é da essência dos governos, atestou o escocês. Para os otimistas, há (como se vê) vida depois das moratórias. Para os pessimistas, o mundo vai acabar – mais uma vez.

NOVO LIVRO DE JORGE TUFIC LANÇADO ONTEM

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Is Love An Art?



Is Love An Art?

Kathleen O’Dwyer asks if we can learn how to love, with Erich Fromm and friends.

“For one human being to love another; that is perhaps the most difficult of all our tasks, the ultimate, the last test and proof, the work for which all other work is but preparation” Rainer Maria Rilke.

“Your task is not to seek for love, but merely to seek and find all the barriers within yourself that you have built against it” Jelaluddin Rumi

Love is a universal human phenomenon: we all need to love and to be loved. An acknowledgement of this need is beautifully portrayed by Raymond Carver in his poem ‘Late Fragment’, from Staying Alive: Real Poems for Unreal Times:

And did you get what
You wanted from this life, even so?
I did.
And what did you want?
To call myself beloved, to feel myself
Beloved on the earth

However, love is also a uniquely personal experience which can never be fully articulated. From a philosophical viewpoint, the concept of love raises many questions: What does it mean to love? What is the relationship between love of self and love of others? Is love an instinctive emotion, or is it a decisive and rational commitment? In his best-selling 1956 book The Art of Loving, German philosopher and psychoanalyst Erich Fromm (1900-1980) examines these questions and others relating to love, and he puts forward a strong argument that love is an art which must be developed and practiced with commitment and humility: it requires both knowledge and effort. Fromm provides specific guidelines to help his readers develop the art of loving, and he asserts that “love is the only sane and satisfactory answer to the problem of human existence” (p.104, 1995 edition). This assertion carries a strong echo of the words of Sigmund Freud: “Our inborn instincts and the world around us being what they are, I could not but regard that love is no less essential for the survival of the human race than such things as technology” (from The Life Cycle Completed, Erik Erikson, 1998, p.20). Fromm puts forward a theory of love which is demanding, disturbing and challenging. He based it on the contradiction between the prevalent idea that love is natural and spontaneous – and consequently not requiring application or practice – and the incontestable evidence of the failure of love in personal, social and international realms.

The human need for love is rooted in our awareness of our individual separateness and aloneness within the natural and social worlds. This is one of the existential dichotomies which characterize the human condition: “Man is alone and he is related at the same time” (Fromm, Man for Himself, 1947). Many philosophers have addressed this paradoxical aspect of being human, and there has been a general consensus on the essential relationship between well-being, flourishing, even survival, and the experience of loving relationships and friendships. As the Irish poet Brendan Kennelly notes, “the self knows that self is not enough, / the deepest well becomes exhausted” (from Familiar Strangers). The possibility of love exists within an acknowledgement of this insufficiency.

According to Fromm, aloneness creates an experience of “an unbearable prison” which may be a significant source of anxiety, shame and unhappiness: “The deepest need in man, then, is the need to overcome his separateness, to leave the prison of his aloneness” (Art, p.8). Therefore, the individual continually reaches out for connection and communication with others; he or she strives to attain the experience of love.

Thus one’s existential aloneness and need for relationship and connection propels the desire for mutuality and intimacy on a variety of levels. However, when this desire is grounded in the belief that one’s fulfilment can be achieved through the devotion and support of another, the emphasis is placed on the experience of being loved rather than on loving, and the loving other is distorted and diminished in order to facilitate this. This need-based motivation is not Fromm’s understanding of love, and it does not answer the problem of human separateness.

Fromm claims that love has been widely misunderstood. According to his interpretation, love “is a relatively rare phenomenon and its place is taken by a number of forms of pseudo-love” (Art, p.65). For instance, the desire to escape aloneness may be expressed in a passive form of submission or dependence, wherein a person seeks an identity through another. Here, the individual renounces their responsibility and sense of self, and attempts to live through the perceived greatness or strength of the other. This mode of unhealthy relatedness may be experienced at a personal, social, national, even religious level. In all cases, the individual looks to another for the answers to the problems of living, and thus attempts to escape the challenges and demands of freedom and responsibility. There is often simultaneously the practice of domination and control on the part of the perceived more powerful partner. Yet the controlling partner is often equally dependent on the submissive other for the fulfilment of their own desire. Fromm interestingly points out that the two modes of living are frequently exercised by the same individual, submissive or dominating in relation to different people.

Such expressions of ‘love’ are synonymous with certain forms of romantic literature and music. ‘Love’ is cited as the motivation of both parties, based on the assertion that neither can live without the other. In either case, the individual is attempting to dispel the anxieties of aloneness and difference through a symbiotic or co-dependent union which places the focus of creative and productive living on a being outside the self: “for if an individual can force somebody else to serve him, his own need to be productive is increasingly paralyzed” (Man for Himself, p.64). Fromm describes such a union as ‘fusion without integrity’, and he considers it an immature form of love which is destined to disappointment and failure. Or in the words of W.H. Auden, “Nothing can be loved too much, / but all things can be loved / in the wrong way.”

At the root of such immature expressions of love is a predominantly narcissistic preoccupation with one’s own world, one’s own values, and one’s own needs. This precludes an openness to otherness and difference, and it diminishes the possibility of relationship, and thus of love, through an exclusive reference to one’s own perspective. The person who experiences life through such a narcissistic orientation inevitably views others either as a source of threat and danger, or as a source of usefulness and manipulation. From this perspective, the other – person or world – is not experienced as they are, but rather through the distorting lens of one’s own needs and desires.
True Love

In opposition to this naïve, selfish, drive to escape separateness and aloneness, Fromm insists that “paradoxically, the ability to be alone is the condition for the ability to love” (Art, p.88), and that the ability to experience real love is based on a commitment to the freedom and autonomy of both partners: “Mature love” he writes “is union under the condition of preserving one’s integrity, one’s individuality… In love the paradox occurs that two beings become one and yet remain two” (Art, p.16). Thus the need for connection is answered through a relatedness which allows us to transcend our separateness without denying us our uniqueness. According to the German poet Rilke, this is the only solution to the dichotomy of separateness and connection. Rilke argues that “even between the closest human beings infinite distances continue to exist, [but] a wonderful living side by side can grow up, if they succeed in loving the distance between them which makes it possible for each to see the other whole and against a wide sky” (Rilke on Love and Other Difficulties, p.34). Fromm says further that one must reach out to the other with one’s whole being: “Love is possible only if two persons communicate with each other from the centre of their existence” (Art, p.80).

According to Fromm’s interpretation, real love is motivated by the urge to give and to share rather than by a desire to fulfil one’s own needs or to compensate for one’s inadequacies. This is only possible if the individual is committed to a ‘productive orientation’ towards life, since a productive character is more concerned with giving than with receiving: “For the productive character, giving… is the highest expression of potency. In the very act of giving, I experience my strength, my wealth, my power. This experience of heightened vitality and potency fills me with joy. I experience myself as overflowing, spending, alive, hence as joyous. Giving is more joyous than receiving, not because it is a deprivation, but because in the act of giving lies the expression of my aliveness” (Art, p.18). However, in order to give, an individual must experience a sense of self, from which to draw that which is given: “What does one person give another? He gives of himself, of the most precious he has, he gives his life … he gives him of his joy, of his interest, of his understanding, of his knowledge, of his humour, of his sadness” (Art, p.19).

For Fromm, mature love is an act of giving which recognizes the freedom and autonomy of the self and the other, and in this sense, it differs radically from the passive, involuntary phenomenon suggested by the phrase ‘falling in love’. To Fromm there is a “confusion between the initial experience of ‘falling’ in love, and the permanent state of being in love, or as we might better say, ‘standing’ in love” (Art, p.3). Indeed, Fromm claims that the intensity and excitement which accompanies moments of infatuation is frequently relative to the degree of loneliness and isolation which has been previously experienced. As such, it is commonly followed, sooner or later, by boredom and disappointment. Many thinkers, from Freud to the contemporary philosopher J. David Velleman, also emphasise the blindness of romantic love. In contrast, mature love is an active commitment to and concern for the well-being of that which we love. “Love, experienced thus, is a constant challenge; it is not a resting place, but a moving, growing, working together” (Art, p.80).

Fromm’s theory of love demands commitment, humility and courage, as well as persistence and hope in the face of inevitable conflicts and difficulties. But how is mature love to be developed and practised? How are the pitfalls of resentment, disappointment and indifference to be avoided, or, at least, constructively managed and overcome? Fromm declares that the art of loving is based on the practice of four essential elements: “care, responsibility, respect and knowledge” (Art, p.21). These evoke a radically different response than that more commonly associated with romantic or sentimental love.

Care for the other implies a concern for their welfare characterised by our willingness to respond to their physical, emotional and psychological needs. This involves a commitment of time, effort and labour, which means responsibility. However, this commitment to care is tempered with a humility and openness which refrains from any attempt to mould the other to an image or ideal; it does not say ‘I know what is best for you’, but rather respects the autonomy and individuality of the other: “I want the loved person to grow and unfold for his own sake, and in his own ways, and not for the purpose of serving me. If I love the other person, I feel one with him or her, but with him as he is, not as I need him to be as an object for my use” (Art, p.22). Respect thus implies the absence of exploitation: it allows the other to be, to change and to develop ‘in his own ways’. This requires a commitment to know the other as a separate being, and not merely as a reflection of my own ego. According to Velleman, this loving willingness and ability to see the other as they really are is foregrounded in our willingness to risk self-exposure: “Love disarms our emotional defences; it makes us vulnerable to the other… in suspending our emotional defences, love exposes our sympathy to the needs of the other” (Self to Self: Selected Essays, 2006, p.95).
Love Variations

Of course, there are many kinds of love: sexual, parental and brotherly love are only some manifestations of the phenomenon, and are motivated by different desires, needs and hopes. But Fromm asserts that the experience of mature love has in all cases a similar foundation and orientation: if a mature attitude to love is being practiced, the other will not be an object to serve my purpose. The converse is also the case: Fromm refers to the various forms of subtle exploitation and manipulation which may be discerned behind the mere appearance or assertion of love. For example, sexual encounters may be primarily motivated by the desire for physical excitement, pleasure and release, or by the urge for domination or submission. In either case, the intimacy experienced is momentary and limited, and the relationship is not characterized by the core elements of care, responsibility, respect and knowledge, but by using the other as a means to an end. Parental love is assumed to be marked by the exercise of unconditional care, concern and devotion, and this is often the case. However, since Freud, we cannot ignore the idea that some parents are sometimes motivated by factors not conducive to the healthy growth of the child. For instance, whatever the reasons, when parental love is offered or withdrawn on conditional terms – obedience, compliance, success, popularity, pleasantness, etc – the child senses that he/she is not loved for his/her self, but only on the condition of being deserving. Psychoanalytic theory explores the lasting impact of such experiences for the resulting adult as the desire for unconditional love remains an unsatisfied craving.

Fromm offers a very interesting analysis of two possible approaches within the parental role. Using the images of ‘milk’ and ‘honey’, Fromm differentiates between a care-focussed love, and one which is imbued with vitality: “Milk is the symbol of the first aspect of love, that of care and affirmation. Honey symbolises the sweetness of life, the love for it, and the happiness in being alive” (Art, p.39). The ability to give honey-love is dependent on one’s sense of happiness and joyful engagement; hence, it is rarely achieved. The ensuing effect on the child is profound: “Both attitudes have a deep effect on the child’s whole personality; one can distinguish, indeed, among children – and adults – those who got only ‘milk’, and those who got ‘milk and honey’.” (Art, p.39). Perhaps this suggests a fifth element for Fromm’s list of the basic aspects of mature love. Care, responsibility, respect and knowledge are praiseworthy qualities in the loving person, an expression of a mature and genuine concern for the other; however, is there not a desire for something other than generosity and concern in the experience of love? Is there not a desire for ‘honey’ – for a sense of the lover having joy in the beloved, enjoyment in their very existence? Perhaps this is a necessary addition to Fromm’s already demanding view of love.

The concept of self-love is also a perennial subject of argument from philosophical, psychological and religious perspectives. Analysis ranges over the apparent dichotomy between our obligations to ourselves and to others, as well as interpretations of selfishness, narcissism and self-centeredness. In many cases, the issue rests on the varying interpretations of the phrase. The negative connotations of ‘self-love’ usually emanate from associations with an exclusive and obsessive focus on oneself and one’s world, and a disregard for anything outside this self-contained cosmos. In contrast, the idea of a healthy self-love posits no contradiction between love of self and love of others; rather, the former is seen as an essential starting point for the latter. This is Fromm’s view: “Love of others and love of ourselves are not alternatives. On the contrary, an attitude of love towards themselves will be found in all those who are capable of loving others. Love, in principle, is indivisible as far as the connection between ‘objects’ and one’s own self are concerned” (Art, p.46). So self-love and love of others are not mutually exclusive, but co-existent. Fromm strengthens this argument by pointing to the distortions which ensue when the conditions of self-love or self-acceptance are not met; the parent who sacrifices everything for their children, the spouse who ‘does not want anything for himself’, the person who ‘lives only for the other’. Fromm discerns such expressions of ‘unselfishness’ as often being façades masking an intense self-centredness and a chronic hostility to life which paralyses one’s ability to love self or others.

Fromm’s claim that love of self and of others is intricately linked, is based on his argument that love for one human being implies a love for all – when I love someone, I love the humanity of that person, therefore, I love the humanity of all persons, including myself: “Love is not primarily a relationship to a specific person: it is an attitude, an orientation of character which determines the relatedness of a person to the world as a whole, not towards one ‘object’ of love” (Art, p.36). Therefore this theory of love is opposed to exclusivity or partiality. In this sense, Fromm concurs with the concept of universal love. He argues that “if I truly love one person, I love all persons” (p.36).

This idea is rejected by Freud, who points to various historical manifestations of its incongruence, for example, “After St Paul had made universal brotherly love the foundation of his Christian community, the extreme intolerance of Christianity towards those left outside it was an inevitable consequence,” he writes in Civilization and Its Discontents on p.51. Freud’s argument rests on the premise that one cannot love everyone one meets. He also stresses the concrete and practical nature of love over universal theories. Friedrich Nietzsche states the case for that in his typically aphoristic style: “There is not enough love and kindness in the world to permit us to give any of it away to imaginary beings” (Human, All Too Human). Interestingly, Freud’s argument against the possibility of universal love echoes Fromm’s thoughts on care and responsibility; but Freud maintains that we cannot exercise these values on a universal scale, and would not choose to do so.

In his analysis of the concept of neighbourly love, contemporary philosopher and psychoanalyst Slavoj Žižek poses the question ‘who is the neighbour?’, and concludes that the injunction to ‘love thy neighbour’ and correlative preaching about universal love, equality and tolerance, are ultimately strategies to avoid encountering the neighbour in all their vulnerability, frailty, obscenity and fallibility: “it is easy to love the idealized figure of a poor, helpless neighbour, the starving African or Indian, for example; in other words, it is easy to love one’s neighbour as long as he stays far enough from us, as long as there is a proper distance separating us. The problem arises at the moment when he comes too near us, when we start to feel his suffocating proximity – at this moment when the neighbour exposes himself to us too much, love can suddenly turn into hatred” (Enjoy Your Symptom! Jacques Lacan in Hollywood and Out, p.8). Thus the popularity of humanitarian causes lies in their inherent paradox, whereby one can ‘love’ from a distance without getting involved. Žižek offers a pertinent challenge: “‘Love thy neighbour!’ means ‘Love the Muslims!’ OR IT MEANS NOTHING AT ALL!” (etext).

Velleman argues that human beings are selective in love because it is not constitutionally possible to know and so to love everybody: “One reason why we love some people rather than others is that we can see into only some of our observable fellow creatures” (Self to Self, p.107). Our choice of love objects is inevitably limited by our own limitations, but this is not to deny the potential value of others as worthy of love: “We know that those whom we do not happen to love may be just as eligible for love as our own children, spouses, and friends” (ibid, p.108). Perhaps the resolution of this apparent paradox resides in the humble acknowledgement that every person is worthy of love, but that our ability to love is limited to those whom we choose to know and cherish on a personal level. As Velleman says, “knowing the other is essential to love, and this, in part, points to ‘the partiality of love’: Personal love is… a response to someone with whom we are acquainted. We may admire or envy people of whom we have only heard or read, but we can only love the people we know” (Self to Self, p.10).
Love Begins and Ends

Fromm’s treatise on the art of loving is provocative and insightful. It exposes the myriad problems associated with the experience of loving and of being loved. It confidently asserts that love is essential to human flourishing and survival, while also highlighting the demands and responsibilities associated with its practice. Is Fromm’s understanding of love idealistic and unrealistic? I leave the final words to Carl Sandburg:

There is a place where love begins and a place where love ends.
There is a touch of two hands that foils all dictionaries.
There is a look of eyes fierce as a big Bethlehem open hearth furnace or a little green-fire acetylene torch.
There are single careless bywords portentous as a big bend in the Mississippi River.
Hands, eyes, bywords – out of these love makes battlegrounds and workshops.
There is a pair of shoes love wears and the coming is a mystery.
There is a warning love sends and the cost of it is never written till long afterward.
There are explanations of love in all languages and not one found wiser than this:
There is a place where love begins and a place where love ends – and love asks nothing.

(‘Explanations of Love’)

© Dr Kathleen O’Dwyer 2011

Kathleen O’Dwyer’s book The Possibility of Love: An Interdisciplinary Analysis (2009) is published by Cambridge Scholars Press. It’s a philosophical investigation into the complex experience of love.

Carlos Kleiber - Brahms Symphony No.4 (1st mov./ first part)

Roman Polanski, David Cronenberg, Steve McQueen e são apenas três, dos 26 nomes anunciados em antestreia mundial



Apesar de a apresentação oficial dos filmes para o festival de Veneza estar marcada apenas para quinta-feira, o britânico "The Guardian" acabou de anunciar o programa para a 68ª edição. Roman Polanski, David Cronenberg, Steve McQueen e são apenas três, dos 26 nomes anunciados em antestreia mundial: Polanski com "Carnage", protagonizado por Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly, "A Dangerous Method", de Cronenberg, e o último filme de Steven McQueen, "Shame", nova colaboração com o seu actor de "Hunger", Michael Fassbender.

A edição deste ano, que se realiza de 31 de Agosto a 10 de Setembro, vai contar ainda com as estreias de "Dark Horse", de Todd Solondz e que conta no elenco com Mia Farrow, "Faust", do russo Aleksandr Sokurov e "Contagion" de Steven Soderbergh.

O filme "W.E." realizado por Maddona, que estamos habituados a vê-la em palco, e "Sal" que atirou James Franco para trás das câmaras para o papel de realizador, são dois dos outros filmes anunciados - o filme de Franco é uma biografia do actor Sal Mineo ("Rebel without a cause").

A estes juntam-se "Alps", de Yorgos Lanthimos, "A Burning Hot Summer", de Philippe Garrel, "Chicken With Plums", da dupla Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, "The Exchange, de Eran Kolirin, "La Folie Almayer", de Chantel Akerman, "Himizu", de Sion Sono, "I'm Carolyn Parker: The Good, the Mad and the Beautiful", de Jonathan Demme, "Killer Joe", de William Friedkin, "Last Day on Earth", de Abel Ferrera, "The Moth Diaries", de Mary Harron, "Quando la Notte", de Cristina Comencini, "Seediq Bale", de Wei Te-sheng, "Terraferma", de Emanuele Crialese, "Texas Killing Fields", de Ami Canaan Mann, "Tinker, Tailor, Soldier, Spy", de Tomas Alfredson, "L'ultimo Terrestre", de Gipi, e "Wuthering Heights", de Andrea Arnold.

O realizador norte-americano Darren Aronofsky vai presidir ao júri da 68.ª edição do Festival de Cinema de Veneza que atribui o Leão de Ouro. O tailandês Apichatpong Weerasethakul vai presidir ao júri da secção paralela "Horizontes", onde concorrem os portugueses Teresa Villaver, com "Swan", e Gabriel Abrantes, com "Palácios de pena (The Last Generation of Portugal". Carlo Mazzacurati ficará responsável pelo júri do Prémio "Luigi de Laurentiis" para Melhor Primeira Obra, conhecida como o "Leão do Futuro", e a italiana Roberta Torre presidirá ao júri da secção "Controcampo Italiano".

O festival italiano vai ainda homenagear Al Pacino, que receberá o prémio Glory to the Filmmaker, pelo seu trabalho como realizador, no qual a organização vê "um original contributo para o cinema contemporâneo, e o italiano Marco Bellocchio, que receberá o Leão de Ouro de carreira por ser "um dos maiores nomes do cinema moderno". "The Ides of March", o filme protagonizado e realizado por George Clooney, foi o escolhido para a abrir a edição deste ano.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Passaram por amigos Humoristas brasileiros infiltraram-se no funeral de Amy Winehouse



O funeral de Amy Winehouse, que aconteceu esta terça-feira em Londres, foi apenas para a família e os amigos mais próximos mas afinal contou também com a presença de intrusos. Os brasileiros Daniel Zukerman, do programa televisivo de humor “Impostor do Pânico” da RedeTv, e André Machado, editor do programa, conseguiram entrar na cerimónia privada e às lentes dos fotógrafos passaram por dois amigos da cantora.


A fotografia dos dois, aparentemente emocionados, apareceu em centenas de jornais e sites de todo o mundo. A agência Reuters, responsável pela imagem e sua legenda, já pediu desculpas.

Aquela que parecia ser uma das imagens do funeral de Amy Winehouse e que representava a dor dos amigos presentes na cerimónia é afinal uma fraude. Os dois homens que aparecem na fotografia e que foram identificados pela Reuters como duas pessoas de luto abraçadas à saída do funeral são dois humoristas brasileiros, um deles, Daniel Zukerman, é já conhecido no Brasil pelas suas constantes invasões em acontecimentos fechados. Inspirado no francês Rémi Gaillard, conhecido pelas suas peripécias cómicas, Daniel já se tinha infiltrado no funeral de Michael Jackson, tentou a mesmo sorte no casamento do príncipe William com Kate Middleton e no Brasil conseguiu mesmo infiltrar-se no programa "Big Brother".

Em Londres, os dois humoristas apareceram vestidos de preto e com um quipá, utilizado pelos judeus como símbolo da religião e sinal de respeito a Deus. Entre abraços e choros os dois enganaram todos e passaram por convidados da cerimónia, chegando mesmo a dar entrevistas. “Perdemos uma amiga”, disse Daniel a uma televisão alemã, enquanto André chorava e pedia desculpa pela emoção.

A Reuters pediu entretanto desculpa pela confusão e por ter dado a informação errada que rapidamente se espalhou entre a comunicação social.

Nas redes sociais e na Internet o assunto já está a dar que falar. Há quem se ria e aplauda a proeza dos humoristas mas também são muitos os que criticam Daniel Zukerman e André Machado, acusando a dupla de não respeitar a morte da cantora.

JG de Araujo Jorge


Liberdade



A liberdade é o meu clarim de guerra

e eu sou, no meu viver amplo e sem véus,

como os caminhos soltos pela terra,

como os pássaros livres pelos céus.



Ela é o sol dos caminhos ! Ela é o ar

que os enche os pulmões, é o movimento,

traz num corpo irrequieto como o mar

uma alma errante e boêmia como o vento.



Minha crença, meu Deus, minha bandeira,

razão mesma de ser do meu destino,

há de ser a palavra derradeira

que há de aflorar-me aos lábios como um hino.



Liberdade: Alavanca de montanhas!

Aureolada de louros ou de espinhos

há de cingir-me a fronte nas campanhas,

há de ferir-me os pés pelos caminhos.



Sinto-a viva em meu sangue palpitando

seja utopia ou seja ideal, - que importa?

Quero viver por esse ideal lutando,

quero morrer se essa utopia é morta !



JG de Araujo Jorge

do livro O Canto da Terra – 1945)
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Amélia Pais
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terça-feira, 26 de julho de 2011

Uma senhora de 98 anos chamada Irena faleceu há pouco tempo.


Uma senhora de 98 anos chamada Irena faleceu há pouco tempo.

Durante a 2ª Guerra Mundial, Irena conseguiu uma autorização para trabalhar no Gueto de Varsóvia, como especialista de canalizações.

Mas os seus planos iam mais além... Sabia quais eram os planos dos nazistas relativamente aos judeus (sendo alemã!)

Irena trazia crianças escondidas no fundo da sua caixa de ferramentas e levava um saco de sarapilheira na parte de trás da sua caminhoneta (para crianças de maior tamanho). Também levava na parte de trás da caminhoneta um cão a quem ensinara a ladrar os soldados nazistas quando entrava e saia do Gueto.

Claro que os soldados não queriam nada com o cão e o ladrar deste encobriria qualquer ruído que os meninos pudessem fazer.
Enquanto conseguiu manter este trabalho, conseguiu retirar e salvar cerca de 2500 crianças.

Por fim os nazistas apanharam-na e partiram-lhe ambas as pernas, braços e prenderam-na brutalmente.

Irena mantinha um registo com o nome de todas as crianças que conseguiu retirar do Gueto, que guardava num frasco de vidro enterrado debaixo de uma árvore no seu jardim.

Depois de terminada a guerra tentou localizar os pais que tivessem sobrevivido e reunir a família. A maioria tinha sido levada para as câmaras de gás. Para aqueles que tinham perdido os pais ajudou a encontrar casas de acolhimento ou pais adotivos.

No ano passado foi proposta para receber o Prêmio Nobel da Paz... mas não foi selecionada. Quem o recebeu foi Al Gore por uns dispositivos sobre o Aquecimento Global.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Rogel Samuel - Marilene Corrêa substitui Aderson Dutra na Academia Amazonense



Marilene Corrêa substitui Aderson Dutra na Academia Amazonense

Rogel Samuel


Excelente escolha da Academia Amazonense de Letras: Marilene Corrêa substitui Aderson Dutra na Academia Amazonense.

Ele é minha amiga dileta e a última vez que a vi foi em Paris, quando ela me ofereceu seu apartamento para hospedar-me,
já que eu estava tendo problemas com minha amiga francesa Annie Giraud, em casa de quem me hospedava sempre que estava em
Paris. Cara e querida Annie, cara e saudosa Annie, que já naquela época começava a ter problemas psicológicos. e que
sucidou-se poucos anos depois. Eu nada pude fazer por ela, estando tâo distante.

Marilene prontamente se ofereceu para me abrigar, mas eu já estava de volta para o Brasil.

Jantamos e bebemos vinho numa noite memorável. Inesquecível noite.

Agora fico realmente feliz por ter ela sido eleita para a cadeira de Áderson Dutra.


O Dr. Áderson Pereira Dutra nasceu no dia 27 de janeiro de 1922 em Parintins, no Amazonas. Seu pai era o Sr. Militão Soares Dutra e sua mãe a Senhora Jacy Pereira Dutra, que cheguei a conhecer.
Bacharelou-se em Direito aos 25 anos, em 1947, pela Faculdade de Direito do Amazonas. E em maio de 1949, dois anos depois, com 27 anos, torna-se Procurador da Fazenda Nacional no Amazonas, cargo que ele exerceu de maio de 1949 a julho de 1958.

Professor Catedrático de Direito Administrativo da Faculdade de Direito da Universidade do Amazonas, cargo que exerceu de julho de 1958 a janeiro de 1992. Foram 34 anos de Magistério. Aposentou-se aos 70 anos.

Um ano antes, em outubro de 1957, perante a Congregação da Faculdade de Direito do Amazonas tornou-se Doutor em Direito, mediante defesa de tese.

Em julho de 1958, deixa a Fazenda para assumir o cargo de Diretor-presidente da Companhia de Eletricidade de Manaus, que exerceu até abril de 1967.

Juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas, de 1956 a 1960.

Ingressa na Justiça Federal como Juiz Federal no Amazonas de abril de 1967 a agosto de 1970, em Manaus.

De fevereiro a abril de 1967 foi Secretario de Justiça do Estado do Amazonas, no final do Governo de Arthur Cesar Ferreira Reis.
Este cargo volta a ser exercido por ele, de janeiro de 1987 a agosto de 1988, no início do Governo de Amazonino Mendes.
No período de outubro de 1970 a dezembro de 1976 torna-se Reitor da Universidade Federal do Amazonas.

Foi Procurador-geral de Justiça do Amazonas de abril de 1979 a abril de 1983.
Suas principais obras publicadas, foram:
-DA JURISDICÃO ADMINISTRATIVA (Tese de Concurso), Manaus, 1956.

-DA AUTONOMIA MUNICIPAL, Manaus, 1956.

-DO ESTÁGIO PROBATÓRIO, Manaus, 1956.

-SUBSIDIOS A ELABORACAO DO PROJETO DO CODIGO TRIBUTARIO NACIONAL, Ministerio da Fazenda, Rio de Janeiro, 1954, p.460-472.

-CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO, Revista do Tribunal de Contas do
Distrito Federal, Brasilia, 1979, Vol. 9, p.51-63.

Áderson Dutra era Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito Educativo (Decreto de 31 de dezembro de 1973). Recebeu a Medalha do Mérito Universitário (RES. 13/84, do CONSUNI/UA), foi Presidente da Comissão de Reforma da Constituição do Estado do Amazonas (1967), Membro da Comissão de Adaptação da Constituição do Estado do Amazonas (1969), Membro do Instituto dos Advogados Brasileiros, Seção do Amazonas, Membro da Academia Amazonense de Letras Jurídicas, Membro do Instituto Brasileiro de Direito Administrativo (IBDA).

Dutra era casado com a prima de minha mãe, Norma Dutra, já falecida. Norma era filha da irmã de minha avó, Maria José Freitas, casada com o Dr. Edgar Freitas, Barão e Visconde de Vila-Gião.
Dr. Edgar era um homem ilustre, de nobreza portuguesa, muito culto, pois fui mantenedor de parte de sua biblioteca. Advogado formado em Londres, devia tocar violino, pois seu violino foi usado por meu pai. O apartamento da família Freitas, na Glória, no Rio de Janeiro, era freqüentado por presidentes da República.
Áderson Dutra era um bom amigo. Quando Diretor da Companhia de Eletricidade de Manaus vinha muitas vezes ao Rio, onde eu, na época estudante de letras, o encontrava. Estou longe de Manaus há 50 anos, ainda que tenha morado ali em 1996 e 97, quando fui professor-visitante da UFAM.

Áderson era homem de grande cultura, tinha uma extraordinária biblioteca na sua casa, na rua 10 de julho, onde todos os fins de ano passávamos o réveillon, enquanto minha mãe era viva.

Sempre de muito bom humor, o Dr. Áderson gostava de fazer umas reflexões jocosas sobre as coisas mais sérias.

Famoso foi o seu concurso para catedrático, em cuja banca estavam os maiores nomes da ciência jurídica do seu tempo, como creio que Bilac Pinto.

Eu me lembro de Aderson Dutra jovem, na varanda de nossa ex-casa, na Av Getulio Vargas, nos dias de aniversário. Rindo, como sempre contando fatos.

Ele era assim. Generoso. Ele e Norma, sua esposa, instituíram uma cesta básica para pessoas pobres. Todo mês o chofer ia levar os mantimentos para elas. Vivia para os outros. Gostava de política e era um democrata.

Homem elegante sempre, mesmo em casa. Escrevia muito bem, conforme se pode ler em seus textos jurídicos.

Creio que foi Olavo Bilac Pinto quem participou da banca de catedrático de Áderson Dutra. Bilac Pinto (Santa Rita do Sapucaí, 8 de fevereiro de 1908 — Brasília, 18 de abril de 1985) foi um grande advogado, jurista e político brasileiro, Presidente da Câmara dos Deputados do Brasil em 1965, embaixador do Brasil na França de 1966 a 1970 e Ministro do Supremo Tribunal Federal até 1978.

Outros membros da banca da Banca de Áderson Dutra devem ter sido Enoch Reis e Aderson de Meneses, famoso professor titular das Universidades do Amazonas e de Brasília e autor da "Teoria geral do estado", manual usado até hoje nas Faculdades de Direito no Brasil.

Eu não tive tempo de pesquisar.

Áderson Dutra foi um grande orador.

Foi ele quem representou a Ordem dos Advogados na homenagem a Waldemar Pedrosa.

Seu discurso foi publicado no Jornal do Comercio de 18.11.1955.

Excelente escolha, a da Academia. Excelente e oportuna, no Ano Internacional da Mulher Brasileira.

Espero que Marilene seja eleita também para o Governo do Estado do Amazonas, já que foi candidata ao Senado.

TRAGEDIA

TRAGEDIA

TRAGEDIA

Labirinto de sombras


Labirinto de sombras



Fabricava sombras,
chinesas, decorativas e pontualmente comunhões,
mas o telefone nunca tocava,
por vezes um rato cruzava o cenário,
procurando queijo, esconderijos, essas
coisas, já sabem ao que me refiro,
outras vezes havia fantoches,
amiúde ia perdendo os poucos papéis a que se podia permitir,
em raras ocasiões bebo, declarou, nunca
quando trabalho,
só quando a garrafa caiu
ao chão, e depois,
é que adivinhou aquela solidão que o contemplava,
inventou um chapéu imaginário, também de sombra,
e fez uma saudação magnífica no ar,
as cores das lâmpadas resvalam ainda pelas paredes,
as algemas embutiram as mãos, uma
última saudação, disse, o cenário, disse,
trata-se da minha vida, a solidão
brindava, tão solitário como ela o carro partiu,
outro jogo de sombras contra a parede.



Alfons Navarret (1974 )
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Amélia Pais
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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Ernesto Sábato


«Creio que a verdade é perfeita para as matemáticas, a química,
a filosofia, mas não para a vida.
Na vida, a ilusão, a imaginação, o desejo, a esperança contam mais.»

Ernesto Sábato

In http://www.arestalia.blogspot.com/

MANAUS TEM A MAIOR FROTA DO NORTE

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Curta-metragem pornográfico de Marilyn Monroe será leiloado na Argentina


Curta-metragem pornográfico de Marilyn Monroe será leiloado na Argentina

AFP



Um curta-metragem pornográfico da famosa atriz americana Marilyn Monroe será leiloado em agosto na Feira Internacional de Colecionadores Cinematográficos de Buenos Aires, informou nesta quarta-feira o promotor da venda, o espanhol Mikel Barsa.

O filme, uma das cópias conhecidas, será leiloado no dia 7 de agosto a um preço mínimo de US$ 500 mil, explicou Barsa à imprensa.

O filme tem cenas ousadas entre a jovem atriz, que se matou em 1962, e um ator desconhecido.

O curta foi filmado em 1946, em preto e branco, e tem seis minutos de duração, em uma época que Marilyn ainda não era famosa e era chamada pelo verdadeiro nome, Norma Jean Baker.

A Feira Internacional de Colecionadores Cinematográficos de Buenos Aires, que ocorre entre 6 e 7 de agosto no Centro Cultural Borges, é a primeira deste tipo na América do Sul.

Na feira, além do curta de Marilyn, estarão outras raridades, entre elas negativos originais, bandas sonoras, pôsters e autógrafos de celebridades.

Quanto ao filme, ele estava em mãos de um colecionador espanhol cujos herdeiros, ao encontrar o filme, entraram em contato com Barsa, que já havia comercializado a única cópia conhecida anteriormente.

Barsa disse que já recebeu ofertas de dois colecionadores, da Noruega e do Japão, e confessou que "conhecendo os fãs de Marilyn", espera que durante o leilão, cujos lances também poderão ser dados pela internet, a oferta passe de US$ 1 milhão.

Quando o filme de Marilyn foi divulgado, em 1997, houve uma polêmica, já que foi questionado se era realmente ela, que teria menos de 21 anos quando foi rodado.

Segundo Barsa, é mesmo Marilyn Monroe que aparece no filme. Ele apresentou uma carta de 1996 do diretor do American Film Institute que afirma que se não era ela "era sua irmã gêmea".

Em 2008, um filme mudo de 16mm, filmado em preto e branco e de cerca de 15 minutos de duração, que mostra a atriz americana praticando sexo oral, foi vendido a um empresário por US$ 1,5 milhão.

Horowitz plays Liszt-Horowitz: Hungarian Rhapsody No. 2



Recorded at Carnegie Hall, New York on February 25, 1953

Franz Liszt: o bicentenário de um gênio desprendido



Enio Squeff


Franz Liszt: o bicentenário de um gênio desprendido

O longo tempo que nos separa do gênio parece empanar a evidência de que ainda hoje Liszt estende muito de sua influência aos músicos, aos encenadores de óperas, mas não menos aos diretores de cinema. Com a sua música poderosa, há que se buscar no cinema épico, a espacialidade que Franz Liszt - com Wagner - instaurou na música de concerto.


Comemora-se este ano o bicentenário de nascimento de Franz Liszt (1811-1886). Parece espantoso que tenha transcorrido tanto tempo. Insiste-se em que Liszt foi um dos maiores, senão o maior "pop star" de sua época na Europa- o que não é uma inverdade. E se louva sua produção prolífica, o que também não é uma mentira. Chega-se inclusive a se lembrar o mulherengo que ele foi - igualmente uma história que a sua biografia confirma. Mas quase não se enfatiza o melhor de tudo - seu imenso talento como pianista e principalmente como compositor. Talvez o grande segredo de sua existência tenha sido sua importância para a história da música, sem que seus simpatizantes (ou seus detratores), não pudessem inibir sua glória como amante, como regente, escritor e até como revolucionário. O longo tempo que nos separa do gênio, parece empanar a evidência de que ainda hoje Liszt estende muito de sua influência aos músicos, aos encenadores de óperas, mas não menos aos diretores de cinema. Com a sua música poderosa, há que se buscar no cinema épico, a espacialidade que Franz Liszt - com Wagner - instaurou na música de concerto.

Liszt, de fato, exerceu muitos papéis - mas alguns musicólogos, na ânsia de encontrar um caminho natural para a modernidade - uma espécie de inevitabilidade histórica - armaram várias teorias que confirmam sua relevância, sem que se possa dizer que, não fosse seu pioneirismo, nem por isso sua proeminência seria menor. Um estudioso francês, René Leibowitz, chegou a descobrir uma série dodecafônica numa de suas peças.

O dodecafonismo foi uma das formas mais conseqüentes assumidas pelo atonalismo no começo do século XX: Liszt teria previsto o seu nascimento, antes de Arnold Schoenberg, que, por sua vez, desenvolveu e influenciou praticamente toda a música de concerto contemporânea - dando uma espécie de "fundamentação histórica" ao progresso musical; ou seja, Schoenberg foi um revolucionário em muitos sentidos. Só que Liszt o precedeu. em sua música. Esta, porém, parece não estar sendo tão divulgada, além do ramerrão, justamente no ano em que se celebra o bicentenário de seu nascimento,

Musicólogos, historiadores e críticos não hesitam em insistir que Liszt foi um dos maiores, senão o maior pianista que já existiu. Suas partituras para piano que, em certos casos, exigem um virtuosismo inacreditável, comprovariam a tese. Como pianista, Liszt exercia um tal entusiasmo entre os ouvintes da sua época que não era incomum ser carregado em triunfo, por estudantes, em sua carruagem desatrelada dos seis cavalos brancos que a conduziam - tudo para o louvarem como uma espécie de fenômeno único, eterno. A par disso, porém, era um homem bonito, fascinante que arrebatava especialmente as mulheres. Poderia ter sido a sua desgraça.

Sem ser aquele bem aventurado que Manuel Bandeira imaginava para si mesmo como num sonho, Liszt, húngaro de nascimento, mas de formação alemã (mal falava a língua magiar), talvez pudesse reivindicar a condição de vivente de Pasárgada. Que tinha a mulher que quisesse na cama que bem escolhesse.

Um libertino? Nem tanto. De suas ligações com as mulheres, sabe-se de pelo menos duas que lhe foram fiéis (até quando isso fosse possível). Marie de Flavigny , madame d'Agoult, deu-lhe três filhos; Caroline zu Sayn Wittgenstein, princesa russo-polonesa foi a que o acompanhou, ainda que a distância, até o fim da vida. Ambas foram intelectuais de algum valor.

Liszt - ele próprio um intelectual - gostava de mulheres inteligentes e articuladas. Mas, enquanto duraram, não foram ligações pacíficas. Madame d'Agoult parece ter resumido a sua relação com o pianista e compositor, ao lhe declarar, claramente, que não queria ser mais uma de suas amantes - mas "a amante", isto é, desejavelmente, a única. Não seria o caso. O insólito é que Liszt, em meio a suas derrapadas passionais, tinha dramas de consciência só explicáveis por sua religiosidade extremada. Não caía em tentação sem procurar um confessionário. Levou o seu catolicismo a tal ponto que. sempre em meio a aventuras amorosas ( morreu relativamente velho, para a época, aos 75 anos), conseguiu vestir uma batina para, por fim, se tornar abade ("Abbé Liszt").

À primeira vista, um inconstante e um inconformado. Mas se tergiversava no amor, nunca hesitou na música. Para esta, o donjuanismo ou mesmo as decepções amorosas, foram-lhe sempre apenas intervalos entre recitais e concertos - centenas deles ao longo dos anos, (numa época em que a viagem de carruagem era o único meio de transporte por terra) mas principalmente entre as composições - centenas delas; essas sim, o melhor que poderia ter legado à posteridade.

Sua produção foi realmente prodigiosa. Além de canções, peças para piano, dois concertos (também para piano), obras sinfônicas, música religiosa, Liszt tornou-se - muito provavelmente sem querer - o mais importante divulgador da música de concerto em todos os tempos. Ao fazer arranjos para piano de óperas e de sinfonias, Liszt espalhou pelo mundo uma série infindável de partituras, impossíveis de serem executadas em sua forma orquestral em lugares onde não houvessem sinfônicas. Ao reduzir peças orquestrais e óperas para um instrumento relativamente acessível, Liszt facultou a que óperas e sinfonias fossem escutadas onde quer que tivesse um piano. E alguém para tocá-lo. Assim, quando Machado de Assis afirma, no "Memorial de Aires" que a viúva do romance, tocava ao piano a ópera "Tanhauser", de Wagner, muito provavelmente se referia a um arranjo feito por Liszt.

Foi notável em quase tudo o que fez, incluindo-se aí, de forma especial, os 13 "poemas sinfônicos" - expressões puramente musicais que tinham um argumento, em geral, extraídos das poesias de alguns grandes escritores tanto da sua época, como Victor Hugo, e Lamartine, quanto do passado, como Dante Alighieri. Isto irá acontecer numa época relativamente tardia para ele: já tinha tocado para milhares de pessoas - queria se dedicar à composição e ao ensino. Fez o melhor concebível para ambas as atividades. Pode-se dizer que toda uma legião de pianistas de todos os países foram alunos, dos alunos de Liszt. Este o DNA legado aos que se dedicam ao piano. Como compositor, porém, Liszt foi muito maior do que se possa imaginar de um homem mais que talentoso e, sobretudo, mais que festejado.

Era de se esperar, por exemplo e talvez, que fizesse vista grossa para estudo dos instrumentos orquestrais a fim de escrever para conjuntos sinfônicos. No entanto, numa época em que já era consagrado como o melhor pianista de todos os tempos, teve a humildade de tomar aulas de orquestração e deixar para outros a instrumentação de algumas de suas obras. Considerava, porém, que deveria dominar a escrita para orquestra com a mesma autoridade com que fazia o que bem quisesse com o piano.

Mais uma vez foi vitorioso. Praticamente todos os compositores do século XX passaram um dia pelas suas partituras para orquestra sinfônica. Mesmo quando ao piano, tornou-se um mestre na arte da orquestração. Ninguém nega a seu "pianismo", uma força orquestral só sugerida. O mais instigante, porém, foi que Liszt, em meio a tantas glórias e talentos, tivesse ainda tempo para escrever livros (com a inconfessável ajuda de pelo menos duas de suas companheiras já mencionadas) e, mais que tudo, viesse ajudar, com dinheiro, alguns movimentos nacionais emancipatórios. Até onde se possa considerar "patriota" a quem incentive as ações de independência de um país, Liszt fez o bastante para merecer o título: nunca negou aos seus patrícios húngaros o seu apoio explícito à luta pela independência da Hungria.

Mas e o cinema?

É uma teoria antiga. Com sua orquestração Liszt e alguns de seus colegas (como Wagner, e Berlioz) ampliaram o espectro orquestral. À categoria de tempo, própria da música, a orquestração lisztiana incluiu, no âmbito sinfônico, a dimensão espacial - a orquestra agora sugeria os grandes panoramas, os movimentos pelos horizontes amplos, o espaço da natureza, em suma. Não foi por acaso que o início do cinema sonoro incluísse na sua trilha sonora os achados sinfônicos de Liszt (ainda que não só dele). Na música orquestral lisztianas, em todo o caso, alargava-se também o espaço das tomadas pelas pradarias dos velhos Westerns.

São muitos, em síntese, os tributos devidos pelo futuro à memória de Liszt. A generosidade para com muitos de seus colegas foi o que menos se amplificou para o futuro. Talvez seu fascínio e seu talento não supusessem, ainda por cima, o gesto desinteressado de não cobrar, por exemplo, um só centavo para dar aulas a pianistas que julgasse simplesmente talentosos. Fez mais - quando podia, ajudava inclusive com dinheiro.

Um homem exemplar, em suma - não fosse o compositor e o pianista genial.

Konstantin Simonov (1915 - 1979)




ESPERA POR MIM

a V.C.


Espera por mim, que eu voltarei,
Mas tens de esperar muito
Espera quando a chuva amarela
Tristeza trouxer,
Espera quando a neve vier,
Espera quando fizer calor,
Espera quando os outros não esperarem,
Esquecidos do passado.
Espera, quando dos países distantes
Cartas não chegarem,
Espera, quando até se cansarem
Aqueles que juntos esperam.

Espera por mim, que eu voltarei,
Não perdoes àqueles
Que encontram palavras para dizer
Que é tempo de esquecer.
E se crêem, filho e mãe,
Que já não vivo,
Se os meus amigos, cansados de esperar,
Se sentam à lareira
E bebem vinho amargo
Para me recordarem…
Espera. E com eles
Não te apresses a beber.

Espera por mim, que eu voltarei
A despeito da morte.
Quem não me esperou,
Que diga: ‘Teve sorte!’
Não compreendem os que não esperavam
Como no meio do fogo
A tua espera
Me salvou.
Como sobrevivi, saberemos
Só tu e eu, -
É porque me soubeste esperar
Como ninguém mais.



Konstantin Simonov


Tradução de Manuel de Seabra.





Konstantin Simonov nasceu em Novembro de 1915 na cidade de Leninegrado. Em 1931 a sua família mudou-se para Moscovo, tendo Simonov começado a trabalhar como mecânico numa fábrica. Os primeiros poemas surgem por esta altura, sendo publicados em alguns jornais moscovitas. Entra para o Instituto Gorki de Literatura, interrompendo os estudos para cumprir serviço militar como correspondente de guerra. Escreve peças de teatro, romances, reportagens e livros de poemas inspirados na temática da guerra. Depois da guerra, ocupou alguns cargos importantes que abandonou para se dedicar por inteiro à sua obra. Morreu em Moscovo no dia 28 de Agosto de 1979.



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terça-feira, 19 de julho de 2011

PAI E FILHO CONFUNDIDOS COM CASAL GAY FORAM ESPANCADOS POR 7 HOMENS




SP: Polícia prende suspeito de agredir pai e filho confundidos com gays



Autônomo de 42 anos teve parte da orelha decepada - Reprodução/EPTV

SÃO PAULO - Um homem suspeito de envolvimento no caso de agressão a um pai e um filho, que foram confundidos com um casal gay, foi detido nesta terça-feira em São João da Boa Vista, a 225 km de São Paulo. O agressor, que não teve a identidade divulgada, teria confessado a participação no crime. A Polícia Civil já fez o pedido da prisão preventiva dele. Outros dois suspeitos foram identificados e estão sendo procurados, segundo o site da EPTV.

RELEMBRE:Pai e filho são confundidos com casal gay e agredidos por grupo em São João da Boa Vista, SP

Um simples gesto de afeto entre pai e filho motivou o espancamento. Os dois estavam abraçados quando foram cercados por sete homens, na madrugada da última sexta-feira, na Exposição Agropecuária Industrial e Comercial (EAPIC).

- Passou um grupo perguntando se a gente era gay. Eu falei que não. Falei que, como nós vamos ser gays se somos pai e filho. Aí os caras ficaram bravos: não, vocês são gays, vocês são gays - relatou o autônomo de 42 anos, que é de Vargem Grande do Sul e teve parte da orelha decepada.

" Passou um grupo perguntando se a gente era gay. Eu falei que não. Falei que, como nós vamos ser gays se somos pai e filho. Aí os caras ficaram bravos: não, vocês são gays, vocês são gays "

O grupo foi embora, mas voltou logo depois. Eles foram abordados novamente com violência, recebendo chutes e socos. O filho teve ferimentos leves e o pai foi espancado.

- Quando eu começei a acordar, escutei gritar: ele está sem orelha, ele está sem orelha - disse.

A organização da festa informou que todas as exigências de segurança foram cumpridas e explicou que no local havia 150 seguranças, além da Polícia Militar. Disse também que vai colaborar com a polícia para a identificação de todos os agressores.

Uma vendedora ambulante que trabalhava na barraca onde aconteceu a agressão foi uma das testemunhas ouvidas pela Polícia Civil nesta terça-feira. A mulher, que preferiu não se identificar, falou sobre a violência que viu na semana passada.

- O cara estava em cima dele, parecia que queria matar - disse.

O autônomo também foi até a delegacia para tentar reconhecer um dos agressores. O suspeito teria sido identificado com a ajuda das câmeras do circuito de segurança do recinto da festa. Apesar disso, a vítima não soube dizer se o suspeito fazia parte do grupo.

- Eu cai na hora e não tenho como identificar - afirmou.

O filho dele de 18 anos, que teve ferimentos leves, voltou para São Paulo, onde mora e estuda. O rapaz está com medo. A namorada dele, que acompanhava os dois e estava no banheiro no momento da agressão, ficou indignada com tanta violência.

Um grupo da cidade que defende a diversidade sexual considera que a agressão está relacionada à Parada Gay, que será realizada no próximo domingo.

A homofobia, que é a aversão a homossexuais, ainda não consta como crime no Código Penal brasileiro, mas, além da agressão, os jovens também podem responder por discriminação.

VAI E VEM

THE TIMES

Eagles


Now that the NFL lockout is finally ending, it’s time for the Eagles to show that the past five empty months haven’t been in

Viajar no tempo pelas Linhas de Torres


Viajar no tempo pelas Linhas de Torres


Há pouco mais de dois séculos, o avanço do exército napoleónico de Massena em direcção a Lisboa era parado pelas Linhas de Torres, um formidável arco defensivo construído entre o Atlântico e o Tejo para proteger a capital. Percorremos a Estremadura em busca dos sinais e vestígios desse passado militar português.

Fotogaleria: Um passeio pelas Linhas de Torres


É uma manhã de Maio e sopra uma brisa fresca que quase faz esquecer o sol já razoavelmente forte. O tempo está magnífico e sob um céu azul o olhar perde-se na distância, tal é a visibilidade neste dia primaveril. Do alto, a poucos quilómetros de Torres Vedras, vê-se a cicatriz que a auto-estrada fez de norte para sul e, mais longe, para lá das eólicas, está o mar envolto em ténue neblina. Em suma, um dia luminoso de Primavera.

Para chegar até aqui há que subir de carro em velocidade muito moderada - também pode ser a pé -, a estrada militar em terra batida que ladeia o Forte da Feiteira (GPS 39º 02" 39,805""N, 09º 13" 55,387""W) e culmina mais à frente no Forte da Archeira (39º 02" 04,641""N, 09º 13" 04,991""W), mesmo no topo do monte. A ligeira protuberância no terreno, coberto por vegetação rasteira e flores silvestres de todas as cores, não diz a quem passa que esta é uma construção militar típica das Linhas de Torres. De perto, observa-se que o fosso ainda tem o empedrado original e o recinto circular bem definido abriga o través, uma pequena elevação à entrada do forte para defender o acesso ao interior, onde estavam instaladas as peças de artilharia e a guarnição.

Passaram-se 200 anos sobre a construção destes monumentos e já pouco mais resta que dê testemunho da sua existência. Carlos Guardado da Silva, historiador, director do Arquivo Municipal de Torres Vedras e especialista das Linhas de Torres Vedras, lembra que a maior parte destas edificações eram "obras militares de campanha, sempre efémeras, na sua maioria feitas de terra". Mas houve homens que viveram aqui longos períodos, militares que perscrutavam todos os dias os vales que se dominam a partir destas posições elevadas, em busca do invasor estrangeiro. Estabeleciam comunicação com fortes idênticos espalhados pela paisagem, suportando os ventos fortes, o frio glacial ou o calor extremo, e as precárias condições de alojamento da época, isolados do mundo por caminhos que nem sequer mereciam esse nome.

O nosso guia aponta para norte, lá onde se vislumbra o vale de Runa - não se vê, mas não fica longe a aldeia de Caixaria, ponto mais próximo de Lisboa a que os franceses conseguiram chegar -, onde a 1 de Novembro de 1810 se travou uma das poucas escaramuças entre soldados franceses e tropas do exército anglo-português, no caso da Leal Legião Lusitana, sob o comando do capitão Veloso Horta.

Para o lado do mar fica Peniche e ao lado o Bombarral. Para o interior, ergue-se a serra de Montejunto, um dos obstáculos naturais à progressão do exército napoleónico em território português. Atrás do Forte da Archeira vê-se o imponente monte do Socorro (GPS 39º 1" 3,058""N, 9º 13" 30,591""W), onde estava instalado o centro de comunicações das linhas. Um dos lados deste forte dá para uma encosta íngreme, praticamente inexpugnável. Lá em baixo corre um dos desfiladeiros que a malha das Linhas de Torres tinha por missão controlar. No cume, tem-se a sensação de ter o mundo aos pés, tal é a grandeza do espaço que se domina dali, e percebe-se por que razão foi escolhido para instalar esta fortificação militar.

Maiakovski


Arrancaste-me o coração


Tomaste
arrancaste-me o coração
e simplesmente foste com ele jogar
como uma menina com sua bola.

E eu de júbilo
esqueci o jogo.
Louco de alegria
saltava
como em casamento de índio
tão leve
tão bem me sentia.


Maiakovski

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Amélia Pais
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ÁLVARO MAIA


Quando, alva e loura vital me dava,
minha Mãe, entre a selva e o céu nevoento,
também me dava o trom do oceano ao vento,
das galeras valsando na onda em lava...
Mas minha vida em fumo se apagava:
Germinara e cahira em soffrimento...
E tive a salvação, tive o tormento
nos seios de Narcisa, uma índia brava...
Dessas correntes em meu sangue, sinto
Galeões em rota por um mundo extincto,
Tribus em lucta pela mesma terra,
E, ora em doçuras, ora em rebeldias
Labios christãos ciciando Ave-Marias,
Rudes almas pagãs medindo a guerra...

ÁLVARO MAIA


Na foto, com sua mãe