segunda-feira, 31 de outubro de 2011

ANIVERSÁRIO DE DRUMMOND




DRUMMOND

ROGEL SAMUEL

Lembro-me de Drummond. Um dia, quando éramos alunos da FNFi, e como estudássemos sua obra, conseguimos que Drummond aceitasse a vir, na nossa sala, para conversar. Ele exigiu que ninguém soubesse, e que pudesse entrar pela porta dos fundos! Incrível: um dos maiores poetas  entrou pela porta dos fundos da nossa faculdade de letras. Mas Drummond parecia um funcionário público (que era), conversando. Trazia um guarda-chuva preto e vestia um terno cinzento. Sério, magro, seco, quase mal humorado. Disse, por exemplo, que perdia belas imagens e versos que lhe ocorriam no caminho de casa para o trabalho. Parece que ele andava de ônibus, de Copacabana para o Centro, no Rio. Quando eu lhe perguntei por que ele não tinha consigo um caderninho de notas, ele respondeu que "não ficava bem alguém ficar escrevendo". Lembro-me de que nossa professora, D. Cleonice Berardinelli, que ia passando no corredor, o viu e, espantada, logo entrou na sala. Drummond, o gênio da nossa poesia, discorria singelamente, prosaicamente sobre sua obra. Nenhum brilho, nada de demonstrações de grandeza. Disse: "não sei por que fazem tanto barulho pela minha poesia, eu não vejo nada de especial nela" (as palavras eram mais ou menos assim). Disse horrores sobre o verso "no meio do caminho tinha uma pedra". E no fim, quando se despediu, eu lhe pedi um autógrafo. Ele logo se irritou comigo ao ver, na folha de rosto do seu livro, após o seu nome, que eu tinha escrito, a mão: (1902 - ..... ). "Esse aqui já está esperando a minha morte!", disse. A última vez que o vi, foi em Copacabana. Eu bebia um cafezinho num botequim do Posto Seis que existe até hoje, quando ele passou. A cabeça pensativa, meio cabisbaixo. Eu fiquei extático,  boquiaberto, imóvel, reverente, e mentalmente me curvava à Grande Poesia que passava. 




Onde andará o poema?

Onde andará o poema?


Rogel Samuel


Estou numa Lan-house, um pouco quente, e vim ao blog para dar conta de uma coisa: minha postagem diária.

Rubem Braga produzia suas melhores crônicas quando não tinha assunto. Ele era o mestre. Um dia entrou pela manhã, bêbado, na nossa faculdade de letras. Entrou na biblioteca, falava alto.

- Vocês têm meus livros? gritou.

Ivete, a diretora da Biblioteca, mandou que os serventes expulsassem aquele bêbado.

- Mas é o Rubem Braga, dissemos.

E fizemos uma roda em torno dele e ele falou de sua vida particular, íntima, desabafou, quase chorou, contou coisas que não se podem publicar.

Quando eu o chamei de Embaixador, ele se irritou. Ele tinha sido Embaixador do Brasil, recente.

No fim apaixonou-se por nossa colega e minha amiga até hoje, Maria Alice Capucci, que é uma loura belíssima.

Escreveu um poema para ela. Onde andará o poema?

SINCERIDADE

SINCERIDADE

HUMBERTO DE CAMPOS

Sem pai, sem mãe, sem parentes, o Conrado voltara do serviço militar sem saber, mesmo, para onde fosse. Dos amigos da família, poucos restavam; e entre estes estava o Antônio Luiz, proprietário de uma pequena casa de móveis, cuja esposa o havia abandonado no mundo deixando-lhe, apenas, como documento de fidelidade matrimonial, a Ernestina e a Lulu, que andavam, agora, a primeira pelos vinte anos, a segunda pelos dezoito.
Acolhido pelo Antônio Luiz, que lhe deu casa e emprego, achou o Conrado que o melhor modo de pagar ao velho aquela dívida de gratidão seria casar uma das meninas, embora as soubesse alegres demais, para um homem trabalhador. E foi com essa idéia que, um dia, em conversa, tocou no assunto ao comerciante.
- Mas qual das duas você pretende? - indagou o velho.
- Eu? A mim é indiferente. O senhor que as conhece bem, é que pode ver qual das duas me servirá.
Antônio Luiz puxou a última fumaça do cachimbo de espuma, bateu-o, desentupindo-o, e falou, com a mão na consciência.
- Meu filho, isso depende de você. Se você pretende mulher que lhe dê filhos, fique com a mais velha; se, porém, quer uma que não lhos dê, escolha a mais nova.
E a um olhar interrogativo do rapaz:
- Sim, porque, se ela tivesse de tê-los, já os teria tido!

de GRÃOS DE MOSTARDA

domingo, 30 de outubro de 2011

O "BELLEROPHON"

O "BELLEROPHON"



HUMBERTO DE CAMPOS



in: GRÃOS DE MOSTARDA, Contos Miúdos



Desde a Exposição Pecuária realizada em Mineapolis, não se falava em outra coisa, nos centros criadores, senão no touro "Bellerophon", premiado com 50.000 dólares. Era uma beleza de animal. E como procriador, um verdadeiro assombro, não havendo notícia de outro igual não só no Minesota como, mesmo, nos Estados Unidos.



Encerrada a grande feira, e tornando o "Bellerophon" à fazenda natal, continuou a romaria dos criadores. De toda a parte vinham fazendeiros, entusiasmados com as notícias sobre o formidável pai de malhada. E de tal forma que o seu proprietário, o velho e conceituado criador James Smith, resolveu meter o animal no estábulo e cobrar de cada visitante a quantia de dois dólares. Era um meio de reduzir o número dos inoportunos e, sobretudo, de pagar-se do tempo consumido com as explicações.



Certo dia, bateu à porta da fazenda um cavalheiro forte, ares galhardos, de pulso de ferro e quatro palmos de costa.



- Pode-se ver o touro? - indagou de James Smith, que acorreu, para atendê-lo.



- Pois não. O preço da visita está marcado em dois dólares.



- Dois dólares?... - estranhou o visitante, estacando.



E após um instante:



- Não; então, não o vejo... O senhor compreende que eu tenho grandes responsabilidades de família, e dois dólares me fazem falta. Sou "mormon" e...



- O senhor é "mormon"?



- Sim, senhor. Sou "mormon", tenho nove mulheres e quarenta e um filhos, e o senhor compreende o que devem ser as minhas despesas.



- Nove mulheres e quarenta e um filhos?... - fez James Smith, arregalando os olhos. - Então o senhor vai ganhar dois dólares.



E arrastando-o pelo braço:



- Eu quero mostrar o senhor ao meu touro!




O BRASIL SERÁ A SEXTA ECONOMIA DO MUNDO

Graças à crise dos países desenvolvidos, neste ano, o Produto Interno Bruto brasileiro medido em dólares deverá ultrapassar o do Reino Unido, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional e das consultorias EIU (Economist Intelligence Unit) e BMI (Business Monitor International). A reportagem está disponível para assinantes da Folha e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha.

A estimativa mais recente, da EIU, prevê que o PIB do Brasil alcance US$ 2,44 trilhões, ante US$ 2,41 trilhões do PIB britânico. Com isso, o Brasil passará a ocupar a posição de sexta maior economia do mundo. Em 2010, ao deixar a Itália para trás, o país já havia alcançado o sétimo lugar.
Como a economia brasileira cresce em ritmo menor que a de outros emergentes asiáticos, em 2013, o país deverá perder a sexta posição para a Índia. Mas voltará a recuperá-la em 2014, ano da Copa do Mundo, ao ultrapassar a França, segundo a EIU.
Até o fim da década, o PIB brasileiro se tornará maior do que o de qualquer país europeu, de acordo com projeções da EIU. Depois de passar Reino Unido e França, a economia brasileira deverá deixar a alemã para trás em 2020.
A tendência de ascensão dos emergentes já era esperada por especialistas há anos, mas tem ganhado velocidade devido à crise global.



MRS. MENEZES




Rogel Samuel



Ela era culta, era inteligente, era bela. Tenho a impressão de que veio morar no Amazonas perseguindo uma grande paixão. Porque filha de família ilustre de Boston, USA. Como ela mesmo contava: «Minha mãe, advogada em Boston...» Eram estórias que começavam assim. Era culta, inteligente. E bela. Mesmo com idade avançada, a face branca, cabelos curtos. Vestida de amazona, cavalgava do bairro da Cachoeirinha, onde morava desde 1937, até Flores, deixando o povo por onde passava boquiaberto de ver passar tão ousada dama, de botas pretas.

            Chamava-se Marion Rechard Menezes, nome de casada. Filha de Willian Raymond Rechard e Mary Rechard. Nasceu em 23 de setembro de 1894, em Boston. Em 1924, ali casou-se com Cícero Bezerra de Menezes, brasileiro, estudante, e naquele ano veio para Porto Velho, onde Cícero trabalhava como tradutor na Companhia Madeira-Mamoré. Isso era no meio da maior floresta do mundo, no meio de serpentes venenosas, aranhas e escorpiões! Lugar infectado de malária.

            De 1927 a 29 morou na terra natal, em Boston, de onde veio para Manaus definitivamente.

            A princípio morou na Vila municipal, lugar chick, de ricaços. Depois foi para a proletária Cachoeirinha, Rua Ipixuna. A casa existia ainda até bem pouco tempo.

            Para ocupar o tempo e sentir-se útil, desde 1931 passou a lecionar inglês, primeiro no Juizado de Menores. Depois, em 1942, na Biblioteca Pública.

            Naquela sala sem janela, meio escura, Mrs. Menezes lecionou até 1979, um ano antes de sua morte, aos 86 anos. Ou seja, sua docência durou ao todo 48 anos ininterruptos.

            Na realidade aquilo era um prazer, para ela. Cobrava um preço insignificante. Um dia, ela disse: «é uma quantia irrisória, mas necessária, porque os jovens ficam persuadidos de que estão pagando o preço justo, e não recebendo o que poderia parecer a caridade de uma estrangeira».

            Enquanto viveu, o marido ia levar e buscá-la de automóvel. Pois sua casa distante, em local ermo. Gostava de silêncios. Reclamava para nós, seus alunos, que a ambulância passava por lá gritando para levar roupa do hospital para a lavanderia.  Aquilo assustava os pássaros, quebrava a tranqüilidade de Mrs. Menezes.

            Ela foi minha primeira professora de inglês.

            Dizem que usava um método didático próprio, pessoal, inventado por ela. Exigia muito dos alunos e de si mesma, havia muito trabalho de casa para nós e para ela, porque obrigava-nos a redação em inglês, que levava para casa e nos devolvia minuciosamente corrigida em vermelho. As turmas eram numerosas.

            Certa vez muito elogiada por ela foi a minha redação do «dia do mestre», pois eu disse que gostaria de ofertar-lhe flores. Quase foi às lágrimas. Ela era sensível, dava-nos o que possuía, ou seja, o seu idioma. E aceitava todo tipo de aluno, bastava ser alfabetizado. Misturava todos e conseguia gerenciar aquilo não sei como.

            Tinha prazer no que fazia.

            Todas quartas-feiras recebia amigos, americanos e ingleses, para o chá em sua casa. Em 1975 recebeu o título de «cidadã de Manaus». Era culta, era inteligente, era bela. Era Mrs. Menezes.

sábado, 29 de outubro de 2011

Escrevo melhor em dólar

"Escrevo melhor em dólar"

Rogel Samuel

Minha amiga Leila Miccolis escreveu e publicou um texto no seu blog:
"Hoje recebi um e-mail de um escritor que propunha colocar à venda em Blocos um livro seu porque o site desse autor "não tinha fins lucrativos", no dizer dele próprio", disse Leila, e defendia a seguir a remuneração dos autores.
Ao seu texto escrevi o seguinte comentário (eu tenho a mania de escrever em maiúscula, desculpem): O BRASIL SÓ SERÁ VISTO COMO UM PAÍS DESENVOLVIDO (E PÓS-MODERNO) QUANDO OS POETAS E ESCRITORES FOREM RESPEITADOS E REMUNERADOS COMO PRODUTORES DE CULTURA, ASSIM COMO OS CINEASTAS, OS MÚSICOS ETC. ESCREVER NÃO É UMA ATIVIDADE ESPORTIVA OU LAZER DE UMA CLASSE OCIOSA, NEM UMA ATIVIDADE DE FIM DE SEMANA, MAS O ESCRITOR QUE SE VÊ COMO TAL LEVA A SÉRIO O SEU TRABALHO E HOJE MAIS DO NUNCA PELA INTERNET ELE TEM NOVOS CANAIS DE COMUNICAÇÃO COM SEU PÚBLICO. POR ISSO LEILA MICCOLIS ACERTOU EM CHEIO NA RAIZ DO PROBLEMA: OU SEJA, A PROFISSÃO DE ESCRITOR!
ESSE DEBATE DEVE APROFUNDAR-SE, TEM DE APROFUNDAR-SE PARA LEVANTAR OS POETAS DO ESTADO ANESTÉSICO, DO TORPOR EM QUE NÓS NOS ENCONTRAMOS.
TRATA-SE DE UM PROBLEMA DE SOBREVIVÊNCIA DA NACIONALIDADE.
Sobre este tema me lembro do seguinte e curioso fato artístico, desta vez musical, narrado por Nalen Anthoni em vídeo da EMI.
Depois da Segunda Guerra, o compositor inglês William Walton (foto) compôs um concerto para Jascha Heifetz a pedido deste. Depois, em 1956, o violoncelista Gregor Piatigorsky, um dos maiores do seu tempo, fez o mesmo pedido a Walton. Mas Piatigorsky fez o pedido através de um intermediário, o pianista Ivor Newton.
Walton respondeu: "Eu sou um compositor profissional. Escrevo não importa o quê para qualquer um desde que me pague..." E depois de uma pausa, acrescentou: "Eu escrevo melhor quando me pagam em dólar".
Walton terminou o concerto no mesmo ano, o magnífico Concerto para Violoncelo e Orquestra, que está no vídeo, e que foi executado pela primeira vez em janeiro de 1957 por Piatigorsky com a Boston  Symphony Orchestra, dirigida por Charles Munch.
Não se diz quanto o violoncelista pagou.



sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Sousândrade

HUMBERTO DE CAMPOS - MEMÓRIAS INACABADAS
Obra póstuma



FREGUESES DA CASA
QUANDO leio as Memórias de Goethe, e vejo, lá, a galeria de grandes figuras a cuja sombra se formou o seu espírito, e examino a estatura dos homens de maior vulto que me coube contemplar, à distância, do balcão ou do tanque da Casa Trasmontana, é que avalio os recursos de que dispus para sair da mediocridade a que me votara o Destino. Houvesse eu encontrado a sombra, que fosse, de João Lisboa ou de Sotero, que se desdobraram em trabalhos e glória dentro da sua própria terra, e teria, talvez, recebido o eflúvio que delas emanava. Por isso mesmo, as pequenas entidades assumiam aos meus olhos proporções exageradas, e eu admirava cidadãos de Liliput como se eles procedessem de Brobdingnag.
Considerada um dos primeiros estabelecimentos da praça no seu gênero, e o primeiro pela sua seriedade, demonstrada na excelência e autenticidade dos produtos que fornecia, a Casa Trasmontana contava entre os seus fregueses algumas das figuras notáveis, ou simplesmente curiosas, que o Maranhão ainda possuía. Achavam-se entre elas, por exemplo, o poeta Joaquim de Sousândrade, o jornalista Alberto Pinheiro, e o Dr. Brandão, engenheiro sexagenário que arquitetava, então, as mais famosas mentiras da cidade.

Sousândrade era, sem dúvida, entre eles, o mais considerável pela projeção do nome e pela originalidade do aspecto. Ao vê-lo, pela primeira vez, atravessar a rua, vindo da Biblioteca, eu começava a armar no rosto de menino um sorriso de espanto e de mofa, quando vi “seu” Zé encaminhar-se para a porta e recebê-lo entre mesuras respeitosas e de pouco emprego na casa, antes mesmo que ele tivesse pisado a orla da calçada.

1 Na edição-base, o nome do poeta está escrito Joaquim de Souzandrade e, mais adiante, Souzandrade. Anotamos Joaquim de Sousândrade e Sousândrade, em atenção à grafia e prosódia prevalecentes, e à vista do registro Joaquim de Souzàndrade e Souzàndrade, que vem na primeira edição deste livro. (Rio de Janeiro: José Olympio, 1935, p. 16). (Nota do Editor).

Era um velho alto, carão moreno e rigorosamente escanhoado, colarinho entalando o pescoço, cabeleira grisalha caindo, fofa, para os ombros, cobrindo a orelha, e, sobre essa cabeleira, que dava a impressão de achar-se empoada, uma cartola, cuidadosamente posta e mantida em rigoroso equilíbrio. Calça de casimira escura, e de lista, descia-lhe até aos joelhos uma sobrecasaca abotoada e trespassante. No rosto largo, um sorriso polido, mas deixando à mostra uns grandes dentes cuidados. E, pendente de um fio negro, um monóculo, que levava de instante a instante, em gestos pausados, à órbita esquerda. Tipo de poeta ou de político norte-americano da primeira parte do século XIX.
– Sabe quem é esse? – sussurrou, a meu lado, Osório Lima.
Eu tinha visto, já, aquele sujeito não sei em que estampa de uma História do Brasil. Seria difícil, todavia, identificar essa estampa, depois de transformada em carne, osso, colarinho, cabeleira, sobrecasaca e chapéu de pêlo.
– Este é o grande Sousândrade... Dr. Joaquim de Sousândrade – tornou Osório, compreendendo a ignorância revelada pelo meu silêncio.
Depois da explicação, fiquei como estava antes dela. Eu jamais, na minha vida, ouvira, ou lera, aquele nome. Os poetas não tinham me interessado nunca. Em matéria de poesia, eu conhecia apenas os versos que minha mãe me fizera decorar em Miritiba, os de meu pai, os Oito Anos, de Casemiro de Abreu, com que minha mãe me fazia chorar, cantando-os em surdina, abraçada comigo, deitados na rede, quando eu contava precisamente a idade que o lírico celebrava; as quadras populares de Juvenal Galeno, e as rimas patrióticas de Dona Chiquinha Montenegro, professora municipal de Parnaíba. Poeta que não fosse cantado ao violão não ficava em minha lembrança. Eu tinha notícias de Gonçalves Dias pela estátua e pelas cousas que dele me contara Jovina Martins Ribeiro, senhora de Caxias, que o conhecera rapazola, na cidade em que ambos haviam nascido, e, mais vagamente, pelo “nosso céu tem mais estrelas”. Poesia para mim era o Bem Sei que Tu Me Desprezas, Bem Sei que Tu Me Abandonas, e o Perdão, Emília, para um Desgraçado. Daquele Sousândrade eu não tinha a menor ideia de ter ouvido cantar qualquer modinha.
Ele era, entretanto, uma individualidade curiosa, a última relíquia do velho Maranhão glorioso, e o remanescente vivo das altas figuras patrimoniais da velha Atenas agonizante. Surgindo quando a grande geração se extinguia, abandonou a pátria, e foi, no estrangeiro, afinar o espírito pelo rugido eólio dos ventos novos. Fixou residência nos Estados Unidos; fez-se, aí, republicano; e, fundando jornais de espírito brasileiro, repetiu, embora apagadamente, a missão evangélica de Hipólito José da Costa, o Paulo de Tarso da Independência, que pregava em Corinto o que devia ser ouvido em Jerusalém. Inteligência investigadora e rebelde, imaginou, então, um poema de proporções vastas, interessantes a todo o continente, do qual publicou um volume com os primeiros nove cantos, e que se tornou famoso pela bizarria desconcertante da forma e das ideias. Camilo Castelo Branco, que o considerava o “mais estremado, mais fantasista e erudito poeta do Brasil” no seu tempo, achava que o seu poema “pesa e enfara pela demasia dos adubos”. Sílvio Romero apontava-o como o único poeta brasileiro que havia “tomado o faro do século”. Regressara, porém, para o Maranhão, e lá vivia, por esse tempo, isolado em uma velha quinta à margem do rio Anil. Cercada de grandes muros, essa propriedade tornara-se a gaiola enorme de um velho pássaro que não cantava mais. Lá dentro, à sombra das grandes árvores que rodeavam a casa e se debruçavam sobre o rio, o autor d’O Guesa e das Harpas selvagens lia Homero e Virgílio, no original. De tempos a tempos, vendia alguns metros de muro da chácara aos construtores, que aproveitavam o material, de primeira ordem, em novas edificações urbanas. E isso dava oportunidade ao velho poeta, que vivia dessas pequenas transações, para uma fase de fina ironia:
– Como vai o senhor, senhor Doutor? Está passando bem? – perguntavam-lhe.
E ele, a voz macia, o sorriso inteligente:
– Comendo pedras, meu senhor; comendo pedras...
Sousândrade entrava na mercearia, inclinava a cabeça, sorridente, num cumprimento a cada um, e, mesmo de pé, fazia a sua pequenina encomenda delicada: uma lata de espargos, um pouco de queijo, sardinhas de Nantes, e tâmaras ou ameixas. Sortimento para oito ou dez mil réis, que um empregado levava à quinta, e que ele, semanas depois, vinha pagar, com as cédulas miúdas e os níqueis rigorosamente contados. A sua freguesia não dava lucro. Mas enchia de orgulho a casa.

Alberto Pinheiro era celebridade de outro gênero. redator-chefe do Diário do Maranhão, folha cuja matéria principal era constituída pelos atos do Governo e pelos anúncios das companhias de navegação, tornara-se famoso na imprensa do Estado pelas tolices que escrevia. Era um velhote pequeno e ágil, de cabeleira alvoroçada e grisalha, no alto da qual acomo­dava, como um pequeno pássaro num grande ninho, um chapéu-coco, de extremidades estreitas e reviradas. Usava invariavelmente um velho fraque presumivelmente preto, antiquíssimo, que lhe deixava a metade do colete a descoberto, e cujas abas curtas se empinavam atrás, compondo a mais grotesca das caricaturas. Mastigava permanentemente um pedaço de charuto, que viajava da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, sob o bigode sarrento. Devia ser excelente pagador. Pelo menos, havia ordem de “seu” Zé para dizermos que não havia mais nenhuma das mercadorias que ele desejasse comprar. As que se achavam na amostra já estavam vendidas.
As vitórias jornalísticas de Alberto Pinheiro ficaram inesquecíveis no Estado. Certa vez, uma carroça esmagou, com uma das rodas, o pé de um pretinho que brincava em frente ao mercado. Alberto Pinheiro deu a notícia. Epôs o título: Pé de Moleque. Um dia, na pressa de encerrar o expediente da folha, noticiou ele o falecimento de um comerciante que se achava gravemente enfermo. O homem ainda estava com a alma neste mundo, e a família, no dia seguinte, foi pedir uma retificação, contestando o óbito. O jornalista corrigiu o engano, desdizendo-se a si mesmo. Dois dias depois, porém, o doente morre mesmo. E Alberto Pinheiro fez-lhe o necrológio, que principiava assim: “Até que, afinal, morreu o nosso distinto amigo, etc.” A coleção do jornal sério em que ele escreveu é, hoje, o melhor patrimônio humorístico da imprensa do Maranhão.
O Dr. Brandão era um freguês que não comprava nada. Assim, porém, que ele chegava, e sentava-se fora do balcão sobre algum barril de vinho ou sobre alguma caixa vazia, os empregados acorriam de todos os cantos do estabelecimento para escutar-lhe as narrativas imaginosas. O seu tipo era, já, uma anedota. Alto, uma barbicha à D. Quixote, a originalidade da sua indumentária consistia em um fraque de brim pardo, calça da mesma fazenda, e chapéu de palha de carnaúba. E, como complemento, um cachimbo que só lhe saía da boca no momento patético da narração. Diplomado por uma das escolas superiores da Bélgica, dizia-se amigo íntimo do rei Leopoldo, que o tratava como irmão. Uma vez, achando-se em Paris, lembrou-se que, no dia seguinte, era o aniversário do seu real companheiro de turma e de pândega.
– Nesse tempo – dizia – não eram conhecidos os trens diários, e o que me poderia servir já havia partido. Tomei uma deliberação: aluguei um cavalo e parti, a toda carreira. De repente, começou a chover. A velocidade da corrida era, porém, tamanha, que a chuva apanhava apenas a anca do cavalo... De repente, o animal começou a cansar. Na carreira em que ainda ia, estirei a mão e apanhei um cipó que estava pendurado de uma árvore à margem do caminho. E chicoteei com ele o cavalo com tanta vontade que, no dia seguinte, pela manhã, eu pulava da sela em Bruxelas, na porta mesmo do palácio real. Como todos me sabiam íntimo da família, fui entrando, e ao ver o Leopoldo, atirei para cima de uma mesa o chapéu e o cipó e lançamo-nos nos braços um do outro. E está vamos ainda abraçados, quando ouvimos um grito desesperado, partido da saleta próxima. Corremos para lá, e que vimos? A Rainha, o terror estampado no rosto, correndo de um lado para outro, tendo uma cobra verde enrolada no braço!...
E o Dr. Brandão concluía:
– Eu tinha viajado léguas e léguas, a chicotear o cavalo com uma cobra viva, que havia agarrado pela cabeça, pendente de uma árvore, e que eu supunha fosse um cipó!...
O narrador, êmulo do Barão de Munchhausen, trazia sempre, para contar, dez ou quinze histórias como essa, que aprendia nos livros ou ima­ginava na ocasião. Esgotado, porém, o repertório, ia ao interior da casa. E como a passagem era por perto de um balcão interior em que ficavam as garrafas e os cálices de bebidas fortes, não regressava sem, no caminho, limpar a boca e a barbicha na manga do paletó...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Danae e a chuva de oiro

Danae e a chuva de oiro


Genesino Braga



Era uma vez linda princesa...
A lenda é meiga, ingênua e doce...
...e meiga ingênua e doce era melíflua Danae, filha única de Acrísiø, Rei de Argos, vivendo em sonhos a existência que os deuses bons lhe conferiam.
Num promontório sobre o Inacos, - o rio das fábulas dormidas — a virgem hauria os bens da vida, tinha a seus pés os rapsodos, tinha a suas mãos fadas benignas... Nobre e sensível castelã, de suas janelas ogivais olhava os pássaros alados, ouvia cítaras plangentes, ouvia épicos heróicos, que os ventos sísmicos das Cícladas traziam, em músicas vibráteis, a seus anímicos cismares...
Danae sorria e era feliz...
Seu negro olhar de noite flébil pousava brando nas paisagens que os nobres muros do castelo rispidamente circundavam. Seus lábios doces só se abriam a balbúcies pueris, Vênus de corpo escultural, sangue sem apelos nem desejos, não tinha ardor no coração. Não tinha Príncipe Encantado, não tinha anseios de noivado, não tinha dor, não tinha amor...
Danae era um sopro de blandície...
Danae era a paz da Criação...


Um dia, oráculo ardiloso, — prossegue o lúcido raconto — ao Rei prediz: morte inopina, às mãos de um neto, ele teria, em dia infausto do porvir.
O Rei medita e pensa em Danae, a linda e fúlgire princesa, a virgem e casta flor do Reino, a filha amada...
Mas, - rei é rei e a vida augusta, a realeza e o trono invicto devem ser logo preservados...

Toda de bronze, exposta aos ventos, ereta, altíssima, imponente, a torre-cárcere se ergueu no promontório sobre o golfo de ondas mansas, fugidias... Mandara o Rei edificá-la para encofrar a castidade da meiga e cândida princesa... Bem alto, em cela luxuosa, entre janelas gradeadas, no extremo andar da torre heril, a moça penitenciava a inibição de amor provável e de pecado original...
O velho eunuco-carcereiro trazia-lhe flores e frugais, contava lendas melancólicas de rapsodos passionais...
Danae, em seus pérfidos desígnios, - flor de inocência e de indulgência! – cumpria sem mágoas seu fadário...

Danae, em silêncio, meditava, fitava o muito azul do céu, errando em sonhos e quimeras, pedindo aos deuses proteção... Recorda Zeus em seus noivados, pensa em Semele fecundada, pensa em
Latona, mãe de Apolo, pensa Diana, Ceres, Io, em Mnemosina, em Alemena...
Virá do Olimpo a redenção!...

Eis que, em noite silenciosa, de ventos calmos, sem fragor, de pulcra ronda sideral, estranha chuva a torre envolve...
E chuva de oiro, luzidia, de fios aurifulgentes, joiando o âmago da noite, doirando o céu, doirando o ar...
Os fios luzentes, insolentes, penetram as grades da prisão e caem em volúpia sobre a virgem noite, explêndida, a dormir...

Compreensão... Revelação...

É Zeus, na sua metamorfose, divinamente enamorado, que, em seu poder de encantação, em oiro todo transformado, a bela moça enlaça e ameiga, em posse olímpica e sensual!...
Danae é o abandono sensorial, em seu estado de doçura, entregue ao ímpeto do deus, na graça íntima do amor...
Consumação... Concepção...
...e a lenda fúlgure prossegue: nasce Perceu e o Rei, irado, Danae e o filho atira ao mar ...
As ondas levam os renegados a terras outras do sem—fim, aonde se salvam e são felizes e vivem muito até que, um dia, os vaticínios do advinho se cumpram em fórmulas fatais...
A história mítica de Danae define símbolos morais. Transportam as ânsia dos milênios, esquemam lúgubres desígnios rememorados na consciência do fabulário emocional.
Danae reclusa e a chuva de oiro...
Danae passiva em doce oferenda de amor aos deuses vontadosos, para que, assim, de suas entranhas, surjam outros deuses protetores, ou nasçam ídolos e heróis.

Seiva do céu é a chuva de oiro em solo virgem, fecumdante, gerando safras e plantéis...
Pluviável bênção aurifulgente, que acorda os gênios e inspira os poetas, na enunciação da voz de Deus...
A chuva de oiro é a emanação da graça lírica do amor, essenciada de poesia, na ingênua lenda original...

Danae é o esplendor das germinais, nas férteis dádivas do amor, a reflorir pelas idades em mudas ânsias sublimadas nas espirais dos sonhos vãos.

Dai chuvas de oiro a Danaes outras, na torre altíssima dos sonhos, - e eis triunfal o ardil dos homens na trama poética das lendas, que se renovam pelos tempos e multiplicam-se no mundo, em tempestades hibernais de trovas, crônicas e cânticos de amor, de sonho e poesia...


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

HUMBERTO DE CAMPOS, MEMÓRIAS

Humberto de Campos, Memórias Humberto de Campos, Memórias
XXV
PEDRA DO SAL
HUMBERTO DE CAMPOS, MEMÓRIAS
COM a presença dos meus tios maternos ainda em Parnaíba, em 1895, fomos passar alguns meses na Pedra do Sal, ponto desabrigado e rochoso do estreito litoral piauiense em que fica situado o farol desse nome, e que figura, nas cartas marítimas, sob o nome de Farol da Amarração. Sobre uma pedra, que desafia o mar, levantava-se a torre de ferro, cuja ascensão era feita por uma escada interior, em espiral. Sobre outra pedra, coberta de telha, e caiada, a casa do faroleiro, cuja cozinha era lavada, às vezes, pelas ondas mais fortes. Em frente ao farol, o oceano largo e vário, raramente riscado por um navio costeiro, que se arrastava pela superfície verde como uma lagarta escura e insignificante sobre uma folha de bananeira. À direita e à esquerda as linhas de rochedos altos, que orlavam a praia arenosa. E, para trás de tudo isso, as dunas alvas, ligeiramente vestidas de cajueiros, e em cujas depressões se agasalhavam pequenas casas de palha, humildes habitações de pescadores.
Chegamos aí ao anoitecer, a cavalo. Horas depois chegavam os cargueiros com a bagagem. Muitas famílias de Parnaíba tinham ido veranear ali naquele ano, de modo que nos foi impossível conseguir uma casa me­nos desconfortável. Aque meus tios haviam alugado devia ser coberta, ainda, de palmas de carnaúba, no dia seguinte: de modo que tivemos de nos contentar, por aquela noite, com uma esburacada em torno, a poucos metros do mar. Para podermos dormir, tivemos de amarrar lençóis nos grandes rombos abertos na palha, pelos quais entrava, assobiando como garotos e cortando como navalhas, o vento salitroso e inclemente. Obarulho do oceano, rugindo ao largo e estourando nas pedras, era, mesmo, tão profundo e alto, que se tornava necessário gritar para ser ouvido, a dois metros de distância.
Lembro-me, entretanto, que, nessa mesma noite, minha mãe nos tomou pela mão, a minha irmã e a mim, e saiu a passear pela praia. O oceano rolava e guinava, na sombra, atirando-nos ao rosto seu hálito úmido de gigante bêbado. E o vento gritava, gemia, repuxava-nos para trás as roupas e os cabelos, como se nos quisesse arrastar para longe. Minha mãe caminhava e cantava. Ela que sempre cantara baixinho, levantava, agora, a voz acima das vozes do mar e do vento. Canto de dor e de saudade. Grito de gaivota viúva pedindo ao oceano mergulhado na noite que lhe restitua o companheiro sepultado nas ondas. Lamento de mulher moça e solitária no mundo; gemido de mãe aflita, de andorinha do mar que se vê sozinha, e fraca, e desamparada, numa anfractuosidade de rochedo, cobrindo com as asas frágeis duas avezitas implumes. Vencendo o vento e o mar, a sua voz me chega ao ouvido, em dois versos que nele ficaram em toda a pureza de sua toada nostálgica e dolorida:
Com o sangue das minhas veias
Sete cartas te escrevi...
No dia seguinte, mudávamos para a casa que nos estava destinada. Era um albergue novo, de chão de barro batido, coberto e cercado de palha de carnaúba. Ficava longe do farol, mas dispunha, embora a alguma distância, de praia melhor para banho. Nessa praia, inteiramente aberta, existiam cavaletes mais altos do que um homem, os quais eram sumariamente cobertos de palha e serviam de barraca em que as senhoras mudavam a roupa. O vento era, porém, aí, tão rijo e permanente, que virava e revirava essas pequenas construções, fazendo-se mister ir buscá-las cada dia a grande distância, não obstante o seu volume e o seu peso. E esse vento, que arrastava barracas e assobiava e corria à noite como um louco em liberdade, era o mesmo que me aplicava nas pernas violentas surras de areia, fazendo-me invejar as mulheres de saia longa e os homens de calças compridas.
Situada na última trincheira de dunas, mais perto da várzea que se estendia para o interior do que do mar, a nossa casa possuía nos fundos, a três dezenas de metros, uma pequena lagoa em que viviam alguns peixes miúdos, característicos da água doce e parada. Armado de um caniço que trazia na ponta da linha de costura um anzol improvisado com um alfinete torcido, eu ia, todos os dias, a essa pescaria, voltando com alguns peixes achatados e negros a que davam, ali, a denominação de cará. Certo dia, porém, minha mãe me recomendou que não fosse à lagoa. Era Sexta-Feira Santa, dia consagrado ao jejum e à oração. Dia nublado, escuro, triste, como se o céu inteiro se tivesse coberto de um véu polvilhado de cinza. Uma das minhas virtudes era, no entanto, a desobediência. Ao ver que a família se achava entregue aos cuidados caseiros, tomei o caniço e corri para a lagoa. Alguns peixes beliscaram, mas não vieram. Os peixes sabem, parece, quando os meninos estão pescando sem a permissão dos pais, e não lhes dão o prazer de engolir a isca. Eu insisti, todavia. Se Deus não quisesse que o homem apanhasse o peixe não teria consentido que ele inventasse o anzol. Em determinado momento, porém, senti que vinha alguma cousa volumosa e pesada. Puxei a linha, aos poucos, desconfiado, e com cautela. De repente, emerge a presa. Olho e esfrio. Vinha no anzol uma botina velha!
É desnecessário dizer que abandonei botina, anzol, caniço, e até o meu chapéu de carnaúba, à margem da lagoa, e que desandei na carreira, apavorado, rumo de casa. Chamei minha mãe à parte, e contei-lhe o ocorrido, os olhos fora das órbitas. E ela:
– Eu não te disse? É castigo... Eenchendo-me de terror:
– Quem pesca em lagoa Sexta-Feira Santa, o anzol só apanha sapato de defunto...
Situada perto da várzea, nossa casa era uma das primeiras do arraial, à entrada deste, e o caminho natural de quem vinha de Parnaíba. As pessoas que procediam da cidade, e que eram portadores de encomendas –- café, açúcar, cereais ou carne, pois que aí não havia nenhuma casa de comércio –, chegavam à Pedra do Sal já noite fechada. Mas a aproximação desses emissários, que haviam partido pela madrugada a vender o produto da sua pescaria, era anunciada de longe pelos téu-téus, o indiscreto quero-quero das coxilhas do Sul, o qual é, no norte, o guarda infatigável das várzeas adormecidas. Ao perceberem, com os seus olhos que varam a sombra, vulto de cavaleiro ou de peão, essas aves erguem em bando o seu voo, em gritaria assustada. E com uma precisão tal que, pelo grito delas, se sabia, em casa, em que várzea e a que distância vinha o viajante.
A maior curiosidade do lugarejo marítimo eram, entretanto, os seus rochedos. Havia pedras enormes, de feitios bizarros, de dez e mais metros de altura. Algumas constituíam, mesmo, a reprodução da fisionomia humana. E eu ainda me lembro de uma, grande e alta como uma casa, que possuía dois olhos, e nariz, e a boca imensa, rota em uma das extremidades. A onda vinha de longe, e atirava-se à cara do monstro. Ele bebia-a; engolia-a; mas vomitava-a de novo com asco e com estrondo, repelindo o resto pelo rasgão de pedra, que a água cavara durante séculos.
Na Pedra do Sal, vivi cerca de três meses, dos meus nove anos, sem saber, sequer, se existia, com as suas largas folhas, o livro do Destino. Olhava o oceano durante o dia, e escutava, à noite, gritar assustadora­mente os téu-téus da várzea. Eencontrei, também, ali, a síntese da minha atividade no mundo.
Que tenho eu feito, em verdade, na vida, senão pescar sapato de defunto!

Família Gaddafi estuda ação contra Otan por crime de guerra

Família Gaddafi estuda ação contra Otan por crime de guerra

O advogado disse que a morte foi provocada "pelos disparos da Otan contra o comboio de Muamar Kadhafi, que depois foi executado".

Depois de escapar de Trípoli no fim de agosto, Gaddafi, 69, que durante 42 anos governou a Líbia com mão de ferro, foi capturado no dia 20 de outubro perto da cidade de Sirte (360 km ao leste de Trípoli), linchado e morto a tiros em circunstâncias que ainda são confusas.

"O homicídio voluntário está definido como um crime de guerra pelo artigo 8 do estatuto de Roma do TPI", afirmou o advogado.

Ceccaldi não informou quando apresentará exatamente a ação.

"O homicídio de Gaddafi mostra que os Estados membros não tinham a intenção de proteger a população, e sim derrubar o regime", disse.

O processo deve ter como objetos os "órgãos executivos da Otan que fixaram as condições da intervenção na Líbia", os dirigentes que adotaram decisões e os chefes de Estado dos países da coalizão internacional que participaram na operação militar", completou o advogado.

"Ou o TPI intervém como jurisdição independente e imparcial, ou não o faz, e neste caso, a força se impõe ao direito", acrescentou Ceccaldi.

Gaddafi foi enterrado na noite de segunda-feira em um local secreto, mas a morte ainda provoca polêmicas.

O Conselho Nacional de Transição (CNT) afirma que o ex-ditador morreu com um tiro na cabeça durante um tiroteio. Mas testemunhas e vídeos gravados no momento da detenção levantam as suspeitas de uma execução sumária.

Organizações internacionais, incluindo a ONU, pediram uma investigação. O CNT anunciou a formação de uma comissão para investigar o caso.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Estudo alerta para derretimento de geleiras no Himalaia

A rápida elevação das temperaturas, causada pelo aquecimento global, está provocando o derretimento das geleiras chinesas na cordilheira do Himalaia, um impacto que ameaça habitats, o turismo e o desenvolvimento econômico, alerta um estudo publicado esta terça-feira.

Das 111 estações meteorológicas espalhadas pelo sudoeste da China, 77% demonstraram elevações significativas de temperaturas entre 1961 e 2008, segundo o estudo, publicado no periódico britânico Environmental Research Letters.
Nas 14 estações de monitoramento acima dos 4.000 metros, o salto neste período foi de 1,73 grau Celsius, aproximadamente duas vezes a elevação média global registrada ao longo do último século.
Cientistas liderados por Li Zhongxing, da Academia Chinesa de Ciências, identificaram três alterações em curso nas geleiras que poderiam ser causadas, pelo menos em parte, por esta tendência constante de aquecimento.
Segundo eles, a maior parte das geleiras examinadas demonstrou um "recuo drástico", além de uma grande perda de massa.
O estudo também demonstrou que lagos glaciais, alimentados pelo gelo derretido de geleiras, aumentaram de tamanho.
"As implicações destas mudanças são muito mais sérias do que uma mera alteração da paisagem", alertaram os cientistas.
"As geleiras integram milhares de ecossistemas e desempenham um papel crucial no sustento de populações humanas", acrescentaram.
O sudoeste da China tem 23.488 geleiras, cobrindo uma área de 29.523 quilômetros quadrados, através do Himalaia e das montanhas Nyainqntanglha, Tanggula e Hengduans.
Mudanças no padrão de chuvas e das nevascas foram menos marcantes, mas ainda consistentes com as previsões de modelos de mudanças climáticas, afirmaram.
"É imperativo que determinemos a relação entre as mudanças climáticas e variações nas geleiras, particularmente o papel das precipitações, uma vez que as consequências do recuo do gelo são muito abrangentes", disse Li.

AS AMAZONAS DE BILAC

As Amazonas



Olavo Bilac



Nem sempre durareis, eras sombrias
De miséria moral! A aurora esperas,
Ó Pátria! e ela virá, com outras eras,
Outro sol, outra crença em outros dias!

Davi renascerá contra Golias,
Alcides contra os pântanos e as feras:
Os corações serão como crateras,
E hão de em lavas mudar-se as cinzas frias.

As nobres ambições, força e bondade,
Justiça e paz virão sobre estas zonas,
Da confusa fusão da ardente escória.

E, na sua divina majestade,
Virgens, reviverão as Amazonas
Na cavalgada esplêndida da glória!

Allen Grossman

O corredor

O homem pensava na sua mãe
E na lua.
Era uma noite suave.
Ele corria debaixo das estrelas. A lua
Ainda não aparecera,
mas ele não tinha dúvidas que
Apareceria tal como ele corria.
Pequenas coisas atravessavam a estrada
Ou caíam dificilmente nela. A sua mãe
Estava longe, como uma nuvem sobre uma montanha
Com seios chuvosos. O homem não era um corredor
Mas corria com vigor.
Passado um instante, a lua
Surgiu entre as estrelas inextinguíveis,
E ele leu enquanto corria a escritura-nocturna
De pedra da lua com a sua própria luz.
Então a sua mãe
Chegou e correu a seu lado, cheirando a chuva;
E eles correram toda a noite, juntos,
Como um homem e a sua sombra.

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Faltam tendas, comida e aquecimento para os sobreviventes do sismo na Turquia

Milhares de pessoas passaram a segunda noite ao relento, depois do sismo de 7,2 que atingiu no domingo a província oriental turca de Van. Os sobreviventes queixam-se que falta comida, tendas e aquecimento nas noites geladas.
“Enviaram 25 tendas para 150 casas. Todos estão à espera na rua. Temos crianças pequenas, ficámos sem nada”, lamentou-se Ahmet Arikes, 60 anos, morador em Amik, nos arredores de Van, cidade reduzida a escombros.

Até agora, o Crescente Vermelho turco distribuiu 13 mil tendas e prepara-se para dar abrigo temporário a 40 mil pessoas. No entanto, a agência tem sido criticada por não conseguir garantir tendas para todos, especialmente nas zonas mais atingidas.

Imagens de televisão mostram homens desesperados a retirar tendas de um camião do Crescente Vermelho. “Não acho que o Crescente Vermelho tenha conseguido distribuir abrigos como seria suposto. Existe um problema a esse nível”, comentou Huseyin Celik, do partido AK, à CNN. “Peço desculpas ao nosso povo.”

Momentos depois, o Crescente Vermelho turco anunciou que hoje vai distribuir mais 12 mil tendas em Van. E ficou a promessa de Besir Atalay, vice-primeiro-ministro responsável pelas operações em Van: “De hoje em diante nada faltará ao nosso povo”.

Réplicas do sismo mais forte que a Turquia conheceu desde 1999 continuam a fazer-se sentir na região, causando o pânico nas ruas, com as pessoas a correr para locais abertos e evitar edifícios que possam ruir.

Milhares de pessoas passaram a noite ao relento junto de pequenas fogueiras ou dentro de carros. Para hoje é esperada a queda de neve. Até ao final do dia de ontem, o balanço oficial do sismo subiu para 279 mortos. Muitas centenas de pessoas continuam desaparecidas. As operações de resgate estão concentradas em Ercis, cidade de 100 mil habitantes e a mais abalada pelo tremor de terra.

À medida que as horas passam, a esperança de encontrar sobreviventes é cada vez menor. “A esperança é agora bem pequena”, admitiu à agência AFP Emrah Erbek, um dos voluntários de 23 anos que ajuda nas operações. “Trabalhámos sem parar há já 48 horas”, disse, com as suas roupas cobertas de pó.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Rolls-Royce no Brasil

A fabricante inglesa de veículos Rolls-Royce, focada no segmento de altíssimo luxo, anunciou que vai abrir uma concessionária no Jardim Europa, região nobre de São Paulo, em março do que vem. A loja, um investimento do empresário Francisco Longo, tradicional vendedor de marcas como Ferrari e Maserati, é a primeira representação oficial da Rolls-Royce na América do Sul – uma loja também está sendo aberta em Santiago, no Chile.

Vai, pensamento


Ingeborg Bachmann
Vai, pensamento



Vai, pensamento, pois ampla como uma palavra capaz de voar
é a tua asa, ergue-te e vai
onde os metais leves oscilam,
onde o ar é penetrante
com uma nova compreensão,
onde as armas falam
de um modo único.
Defende-nos aí!

A onda ergueu um tronco à deriva e agora afunda.
A febre dominou-te, deixa-te cair agora.
Não moveu a fé mais do que uma montanha.

Deixa ficar o que fica, vai, pensamento!

Superior a tudo excepto à nossa dor.
Sê tudo o que somos!
(Versão de António Ladeira a partir da tradução inglesa de Peter Filkins reproduzida em Darkness spoken, Brookline, Zephyr Press, 2006, p. 321).

domingo, 23 de outubro de 2011

AMÁLIA RODRIGUES, INSUPERÁVEL

Triste Sina Amália Rodrigues Mar de mágoas sem marés Onde não há sinal de qualquer porto. De lés a lés o céu é cor de cinza E o mundo desconforto No quadrante deste mar, que vai rasgando, No horizonte, sempre venta à minha frente, Há um sonho agonizando Lentamente, tristemente... Mãos e braços, para quê? E para quê, os meus cinco sentidos? Se a gente não se abraça e não se vê, Ambos perdidos. Nau da vida que me leva Naufragando em mar de treva, Com meus sonhos de menina. Triste sina! Pelas rochas se quebrou E se perdeu aonde leva este sonho Depois ficou uma franja de espuma A desfazer-se em bruma No meu jeito de sorrir ficou vingada A tristeza, de por ti, não ser mais nada Meu senhor de todo o sempre, Sendo tudo, não és nada!
OUTONO
A passo lento eis já chegado o outono.
Cabeça baixa, desce mendicante
O armento esparso. Vem pastar no verde
Murcho como um vestido desbotado.
Ondeiam duvidosas largas cítaras
Sobre os campos. No sulco que se fecha,
Como grave semente a sombra aninha-se.
Araldo Sassone
Tradução de Manuel Bandeira
.................................................
Amélia Paishttp://barcosflores.blogspot.com
http://cristalina.multiply.com

Quadro de Vieira da Silva vendido por recorde de 1,5 milhões

Acima das expectativas, o quadro Saint-Fargeau (1965), da pintora nascida em Portugal e de nacionalidade francesa Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), foi vendido, num leilão em França, por 1,54 milhões de euros. É o valor mais alto pago por um quadro de um artista português.
A pintura fazia parte de um conjunto de obras da colecção privada do português Jorge de Brito (1927-2006) que foram levadas a hasta em Paris, pela leiloeira Tajan. Ao todo, estavam em leilão 20 obras de Vieira da Silva. Nem todas foram arrematadas, mas várias foram compradas por valores que atingiram as centenas de milhares de euros.

A leiloeira estimara a venda de Saint-Fargeau entre os 800 mil e 1,2 milhões de euros. Acabou por ser arrematada com uma licitação de 1,3 milhões, a que se somam impostos e taxas. A Tajan já classificara a obra como a peça mais valiosa entre as cerca de 70 que foram postas à venda pelos herdeiros de Jorge de Brito, em lotes que incluíam sobretudo porcelanas e quadros de artistas portugueses (entre os quais Júlio Pomar e Amadeo de Souza-Cardoso) e estrangeiros (Amedeo Modigliani e Sonia Delaunay).

Preço não surpreende
Anísio Franco, conservador do Museu Nacional de Arte Antiga, explicou ao PÚBLICO que o valor obtido por Saint-Fargeau, embora seja um recorde para uma obra de Vieira da Silva, “é natural” para “uma artista internacional”.

Maria Helena Vieira da Silva nasceu em Lisboa, mas mudou-se para França quando tinha 20 anos e foi nesse país que viveu boa parte da vida, tendo obtido a nacionalidade francesa. No ano passado, o quadro Inverno já tinha sido vendido num leilão, também em Paris, por um pouco mais de um milhão de euros e este ano Conséquences Contradictoires e L’équité foram arrematados, em Londres, por valores próximos dos 543 mil e dos 571 mil euros.

Na mesma linha, o crítico de arte e comissário João Pinharanda afirmou que “não é surpreendente” o valor do quadro. Para Pinharanda, “o perigo do leilão” era serem colocadas à venda em simultâneo muitas obras da pintora, o que podia fazer com que “o mercado de Viera da Silva pudesse ficar baralhado”.

Porém, o crítico frisa que o facto de a venda ter ocorrido em Paris pode ter ajudado ao desfecho, dado que cidade “consegue ter uma condescedência para com artistas da escola de Paris”, na qual Vieira da Silva se integra. “Noutro contexto, em Londres ou nos EUA, poderia ter sido diferente. Acho que foi um risco [pôr 20 quadros à venda], mas [o resultado] é bom para o mercado da pintura da Vieira da Silva”. Apesar do tempo que a pintora passou fora de Portugal, Pinharanda realça que “as raízes de inspiração são evidentemente portuguesas” e explica que o facto de a artista morar em França fez com que tivesse “adoptado a lingugagem [artística] internacional no tempo certo”, emquanto os pintores que “que ficavam em portugal” estavam “desfasados”.

O quadro de Vieira da Silva foi o único item a ultrapassar a fasquia do milhão de euros (e também o único para o qual esse patamar de preço estava previsto). Em segundo lugar na lista dos mais caros ficou uma pintura do italiano Amedeo Modigliani, arrematada por 700 mil euros (mais impostos e taxas), valor que é mais do dobro dos 300 mil euros estimados pela leiloeira. Em terceiro lugar, mas dentro do intervalo de valores previsto, ficou uma escultura chinesa de um búfalo, com 30 centímetros de comprimento, em jade e datada do século XVII – foi licitada por 600 mil euros. Ao todo, o leilão arrecadou quase oito milhões de euros e foi considerado um sucesso pela Tajan.

Anísio Franco nota que a colecção de Jorge de Brito é “a mais importante colecção portuguesa da segunda metade do século XX”. A Tajan descreveu-a como “incontornável” na história da arte portuguesa contemporânea.

“É a mais relevante que se fez em Portugal”, avalia Franco. “Tinha uma quantidade imensa de obras e grande parte eram de arte portuguesa”. Notando que as colecções em Portugal tendiam a ser “muito fechadas”, lembrou que “Jorge de Brito optou por olhar para além das fronteiras” do país.

Jorge de Brito começou como bancário no grupo Espírito Santo, tendo depois, no início da década de 1970, criado o Banco Intercontinental Português. Também nessa altura, fundou, entre outras empresas, a Brisa. Para além de investimentos imobiliários, decidiu aplicar o dinheiro numa vasta colecção de arte. Em finais de 1974 foi detido, por ter transferido para o estrangeiro 70 mil contos sem a autorização do Banco de Portugal e numa altura em que o grupo que geria estava fortemente endividado. Esteve ano e meio na prisão, antes de ser condenado uma pena de seis meses, que foi considerada cumprida quando proferida. Entre 1992 e 1994 foi presidente do Benfica.A colecção, agora gerida pelos herdeiros, inclui ainda outras obras de Vieira da Silva, seis das quais estão na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, em Lisboa e em relação às quais o Estado português tem preferência de compra ao longo dos próximos cinco anos.

sábado, 22 de outubro de 2011

Michelangelo

 

Maior autoridade em Michelangelo no Brasil e doutor em História da Arte, Luiz Marques organizou, em 1996, um colóquio internacional consagrado ao artista quando era curador chefe do Museu de Arte de São Paulo. Na ocasião, o Masp exibiu desenhos originais do artista, exaustivamente estudado por Marques, que dedicou 20 anos ao exame da biografia que Vasari escreveu sobre o gênio italiano. O resultado é uma obra densa publicada pela Editora da Unicamp, com tradução, introdução e comentários do professor, que concedeu a seguinte entrevista exclusiva ao Sabático.
Retrato de Michelangelo, por Jacopino del Conte (1510-1598)


A arte de Michelangelo, segundo seu livro, encerra um paradoxo, pois seria "seu tempo apreendido em um torso" e não se identificaria com o século 16 por ser uma arte do futuro. Por que ele é um personagem fora da história?

O paradoxo talvez seja mais aparente que real, pois uma arte ou um pensamento que representa (no sentido mais totalizante do termo) o seu tempo não pode se identificar com nenhum dos elementos ou correntes de que seu tempo se compõe. A complexidade só pode se exprimir, de fato, na unidade. No caso de Michelangelo e do século 16, isto significa duas coisas. A primeira é que sua arte recusa o que Vasari chama o "campo largo" da pintura, isto é, sua capacidade de elaborar um inventário do visível (a diversidade dos tipos humanos, o retrato, a gama toda de elementos que orna a paisagem urbana e a rural, a fauna, a flora, os céus, os efeitos efêmeros de atmosfera, etc.). A arte de Michelangelo é, ao contrário, a arte de uma coisa só: o nu humano e, no limite, o torso. Exprimindo admiravelmente seu caráter monárquico, Roberto Longhi diz da arte de Michelangelo que ela é "il mondo come torso", o mundo sob a espécie de um torso. Os adversários da supremacia de Michelangelo em seu século estavam talvez mais certos do que eles supunham ao afirmarem, como o faz Ludovico Dolce em 1557, que quem viu uma obra de Michelangelo viu todas. Longe de significar uniformidade (pense-se nas diferenças, por exemplo, entre suas três Pietà ou entre os afrescos da abóbada e os da parede do altar da Capela Sistina), esta 'reductio ad unum' é a condição de possibilidade para que a diversidade da arte do século 16 possa encontrar, para além do inventário, um ideal de si, uma própria figura, uma unidade. O segundo aspecto a ressaltar nesta desidentificação do artista com seu século é o fato de que Michelangelo mantém-se, por toda a sua longa vida (1475-1564), relativamente fiel aos seus "anos de formação" na Florença de Lorenzo il Magnifico e na Roma de Júlio II. Ora, esse ideário dominante na Itália central entre, digamos, 1480 e 1512 viria a ser destruído pelas calamidades das Guerras da Itália, pelo Saque de Roma de 1527 e pela fratura religiosa, crises que culminarão no Concílio de Trento (1545- 1563). Há, portanto, um profundo descompasso entre a 'forma mentis' de Michelangelo e a da nova arte requerida pela Reforma católica. Neste sentido, a arte de Michelangelo é, a partir do segundo terço do século 16, uma arte do passado. Não por acaso, os nus dos afrescos da Capela Sistina e da Capela Paolina foram censurados e escaparam por pouco da total destruição, no caso da Sistina. Por outro lado, ela é ao mesmo tempo uma arte do futuro, como bem percebe Vasari, que a elege como modelo único e insuperável.

Vasari foi também artista, além de arquiteto, cuja obra começa a ser revista por meio de exposições em seus 500 anos. Como classificaria sua importância para a história da arte?

Vasari (1511-1574) é um pintor não tão dotado quanto seus amigos e colegas de geração em Florença, como Francesco Salviati, Rosso Fiorentino e Pontormo, os quais, contudo, não são arquitetos como ele, arte na qual seu talento é, hoje, universalmente reconhecido. Mas Vasari ultrapassa todos por sua formação histórico-literária, por seu comando da escrita e, sobretudo, pela capacidade de interagir com algumas das mentes mais brilhantes do século, de Pietro Aretino a Benedetto Varchi, de Vincenzio Borghini e Paolo Giovio a Annibale Caro. Para não falar do próprio Michelangelo, a quem Vasari deve muito de seu ideário. Até cerca de 1540, a proficiência de Vasari nas letras ainda supera seu cabedal como pintor. É preciso insistir sobre este ponto: nos anos 1540, Vasari não transita para as letras. Permanece nelas, enquanto desenvolve seus dotes de pintor e arquiteto.

A biografia de Michelangelo por Vasari não omite a turbulenta relação do artista com os Medici, mas fatos importantes - como a vida clandestina para escapar à morte por ordem do duque Alessandro, a censura à correspondência e as extorsões de que foi vítima - passam ao largo. É possível que Vasari pretendesse escrever uma biografia "autorizada"?

Vasari é um cortesão. Orgulha-se de sua relação de servitù com os Medici. O crescendo que perpassa o conjunto de suas Vidas dos Artistas, publicadas em 1550 e em 1568, crescendo que a Vida de Michelangelo coroa, explicita e leva às últimas consequências teóricas e ideológicas, constitui um construto historiográfico de três séculos (1250- 1550). Mais que isso, Vasari maneja com maestria uma visão de certas constantes da civilização italiana desde a Antiguidade, antecipando em boa medida a noção de "longa duração" reproposta por Fernand Braudel em um texto famoso de 1958. Mas este suntuoso palácio da memória é posto a serviço dos Medici, de modo que, quando necessário, Vasari não hesitará em sacrificar o "fato" à causa da glorificação de seus Senhores. E quando o fato for incontornável, como, por exemplo, a recusa de Michelangelo a atender aos apelos de Cosimo I para retornar à Florença, Vasari recorrerá a explicações obviamente esfarrapadas, como a alegação de que o ar de Florença não fazia bem à saúde do artista. Isto posto, não esqueçamos que Vasari não é um historiador, armado com a metodologia e a deontologia que, desde o século 19, exigimos de tal ofício. É um cortesão que elabora um espetacular afresco histórico da arte da Itália, no intento primeiro de reafirmar, custe o que custar, a centralidade cultural da Toscana dos Medici.

Vasari insiste em mostrar ao leitor como era íntimo de Michelangelo, a ponto de usar o próprio nome na terceira pessoa para legitimar a si como artista. As Vidas não traduziriam um desejo oculto de revelar a condição do artista moderno por meio de lances autobiográficos?

Demonstrar sua estreita amizade com Michelangelo era ponto de honra para Vasari, sobretudo após 1553, quando Ascanio Condivi publica uma biografia alternativa de Michelangelo, afirmando que a de Vasari continha erros resultantes de sua escassa relação com o grande mestre. Sua amizade privilegiada com Michelangelo é indubitável, como o demonstram as numerosas e afetuosas cartas intercambiadas entre eles, e os sonetos dedicados por Michelangelo a Vasari, que ele responde com outros de mesma rima, infelizmente perdidos. É certo que as Vidas dos Artistas de Vasari representam a culminância de um processo de três séculos de progressiva emancipação das artes visuais, que gozarão doravante da dignidade de uma própria História, gênero elevado por excelência. Esta história reflete a emancipação sociológica do artista italiano (a partir de Giotto, morto em 1337), que se libera do estatuto de artesão pertencente às Artes mechanicae, "meramente" manuais.

Vasari, ao analisar o Tondo Doni, antecipa em séculos interpretações contemporâneas como a de Leo Steinberg, que chega a fazer alusões à homossexualidade de Michelangelo por causa dos efebos, símbolo de um mundo laico, atrás da Sagrada Família, como oposição ao mundo religioso. Como vê essa obra?

O Tondo Doni, pintado para Angelo Doni em Florença, em algum momento entre 1504 e 1507, é obra seminal em muitos sentidos. Já Roberto Longhi nela via o documento inaugural da maniera, essa poética e período histórico tão complexos e de difícil apreensão, que usualmente denominamos maneirismo. Em 1943, Charles de Tolnay fazia notar como a contraposição entre a Sagrada Família e os nus do último plano do quadro exprime um confronto entre o amor sagrado e o amor profano ou lascivo. Uma espécie de psicomaquia ou luta entre vícios e virtudes, alusiva à superação do mundo antigo pelo mundo cristão. Foi notado também como esses nus constituem uma espécie de "Suma" dos modelos escultóricos emblemáticos da estuaria antiga (como o Apolo do Belvedere, o Laocoonte e outros), que começavam a ser reunidos no Cortile delle Statue do Vaticano pelo papa Júlio II. Essas estátuas figuram como as grandes referências da imitação artística e esta me parece ser uma dimensão central na interpretação da obra. Decerto, interpretações psicanalíticas são sempre possíveis e, por vezes, iluminantes. Mas aqui me parece não especialmente frutuosa, pois o que está em jogo é muito mais que a sexualidade de Michelangelo.

Vasari não se contentou em ser apenas outro historiador de arte, como comprova em Vidas, em que trata de traçar uma hierarquia entre os artistas e afirmar - sem medo de errar - quem iria determinar a arte do futuro, destacando Michelangelo. Com quem Vasari foi injusto?

Vasari é injusto em dois sentidos muito diversos. Em primeiro lugar, ele deixa à sombra ou ilumina insuficientemente dimensões inteiras da pintura italiana, em especial da arte vêneta e lombarda. Isso decorre de seu menor conhecimento dessa arte e também de sua vontade de afirmar a liderança histórica da arte toscana. Observe-se, entretanto, que esta é apenas uma "meia injustiça", porque é inegável que, da mesma maneira que a literatura italiana gravita historicamente em torno de literatos toscanos - Dante, Petrarca e Boccaccio -, assim também a arte italiana se deixará efetivamente conduzir pela arte toscana, de Cimabue e Giotto a Michelangelo. / A.G.F.