sábado, 31 de dezembro de 2011

FELIZ ANO NOVO E, COMO DIZIA DONA MARIA AUGUSTA PERREIRA BATISTA, "TUDO DE BELO E DE BOM"!

FELIZ ANO NOVO E, COMO DIZIA DONA MARIA AUGUSTA PERREIRA BATISTA, "TUDO DE BELO E DE BOM"!

Rogel Samuel

Minha saudosa amiga, Dona Maria Augusta Pereira Batista, era uma senhora idosa na casa de quem eu morei na minha juventude no Rio de Janeiro.
Eu a conheci no mosteiro budista de Santa Teresa.
Habitei um quarto no apartamento dela na Praça da Cruz Vermelha, em frente ao bar Ali Babá, que era um bar de bandidos que, naquele tempo, eram amistosos e de cuja convivência privar era um privilégio.
D. Maria Augusta, que morava só, cuidou de mim como uma mãe, e certamente foi umas das melhores pessoas que conheci.
Era pobre, mas de família ilustre, meio-parente do Dr. Joaquim Murtinho e tinha – abandonada! – uma casa na Pedra de Guaratiba.
Abandonou aquela casa no dia em que faleceu o marido.
Um dia, fomos, eu e ela, ver a casa.
Ainda estava lá, tal como ela a deixou, a mesa posta para o almoço daquele dia, dez anos antes, em que o seu ex-marido faleceu.
Tudo estava intacto, como num museu, como naquele dia!
Feliz saudade, Amiga!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

É dentro de você que o ano novo cochila e espera desde sempre

RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Os anos estão passando rápidos demais

Os anos estão passando rápidos demais

Rogel Samuel

A sensação é que o tempo passa muito veloz, e com a vida se esvai e encurta. Nossos planos não realizados vão pedindo urgência, o mundo gira logo.
Certa vez disse-me uma amiga:
- Passei a vida inteira pensando no futuro, e agora vejo que o futuro já passou.
Que é viver? Permanecer, ou passar?
Escreveu João de Deus:

“ A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai;
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares
Uma após outra lançou,
A vida – pena caída -
Da asa de ave ferida –
De vale em vale impelida,
A vida o vento a levou!”


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Antonio Carlos Villaça

Quando eu chegar ao Céu...


Antonio Carlos Villaça


Quando eu chegar ao Céu, de manhã, de tarde ou de noite, não sei ainda, pedirei para ir à biblioteca de Deus, onde curiosamente bisbilhotarei — com respeito — algumas obras. Quero reler a Invenção de Orfeu, de nosso Jorge de Lima, sofredor, telúrico e místico, homem bom, cirenaico, assim lhe chamou Rachel de Queiróz, quando ele morreu, novembro, 15, do ano de 1953.

E pedirei, sim, para conversar com Manu, Manuel Bandeira, que se chamava Neném. Matarei saudades do dentuço Manuel, que foi o melhor ser humano que conheci, neste mundo. E gostaria de conhecer Chiquita do Rio Negro, que recusou casar se com Ataulfo Nápoles de Paiva, conviva do baile da ilha Fiscal. Escrevi sobre Chiquita. Li a sua biografia, escrita por Garrigou-Lagrange.

Meu Deus, convocaria Jaime Ovalle, o tio Nhonhô, que morreu com a idade de Jorge de Lima. Ali, na biblioteca do Céu, conheceria o estupendo Ovalle, o do Azulão, o bêbedo místico, o amigo de Manuel, íntimo de Londres e de Nova York.

Por fim, suplicaria para falar com João Guimarães Rosa, poliglota, com quem tão poucas vezes falei. E evocaria a posse do seu sucessor, na Casa de Machado. Esqueci-me completamente dessa posse, ai de mim.

E fui. Lá estava eu, 1968. Um ano depois da morte de Rosa. Mário Palmério falou sobre ele, como seu herdeiro. E gostei tanto do discurso, equilibrado, lúcido, original. Se me lembro. Foi procurar cartas íntimas de Rosa para grande amigo, médico e fazendeiro em Minas, Moreira Barbosa. Cartas de outrora. Deliciosas, fraternais, confiantes, de pura entrega. Reveladoras do ser complexíssimo, fechado, carente, que gostava de disfarçar, despistar, ir e vir, comensal do mistério. Saudarei a uns e outros na largueza dadivosa do Céu, turbilhão de amor, como dizia o insaciável Léon Bloy.


Texto extraído do livro “Os saltimbancos da Porciúncula”, Editora Record – Rio de Janeiro, 1996, pág. 73.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Jalna Gordiano



Jalna Gordiano

O fim está próximo*
Quantas vezes pensei
em me afundar na terra
E nunca mais voltar por tanta vergonha,
Mas tenho a alma de um pugilista em fim de carreira.
Ele me obriga a cerrar os punhos, fazer cara feia
E gritar o primitivo;
Voltar à luta.
Minha vida decresce em tons ascendentes
Descrentes...
Sou feito à lua e mudo rapidamente em fases;
Sou o deus sol
Aprendi a lentamente mostrar minha divisão em estações.
Quando meu rosto está no chão,
Eles vêm e pisam minha cara;
Escondo o riso.
Quem me julga,
Tem os discursos mais incisivos...
São mais drogados,
Traíras,
Sujos da pior bosta
Que só a infelicidade, vazio
E falta de comoção produzem.
Quem me julga,
Usa as máscaras mais ridículas
E inverossímeis nas almas,
Tristes palhaços de sim mesmos.
Sou eterna e tenho medo do fim.
Sinto muitas dores e medos evidentes,
Bares e igrejas sempre existirão.
O que me permite tanta liberdade
É minha inconstância.
Preciso somente ser
Um pouco mais de paciência:

[do livro ASMA dentre outros prazeres, a dor
de Jalna Gordiano, copiado de
http://blogdoalienista.blogspot.com/]

NAUFRÁGIO

Naufrágio

Rogel Samuel

Toda vez que sei de um naufrágio, no Amazonas, lembro-me de meu pai que simplesmente nos proibia de viajar naqueles “navios de linha”.
Ele, que viajou sozinho em sua lancha durante 40 anos por rios e lagos, sabia que a navegação nos rios da Amazônia não oferece nenhuma segurança, o que descrevo no meu livro como (Pierre Bataillon) “temia viajar naquelas águas cheias de paus, troncos, bancos de areia, torrões, pedrais, salões e muiunas, rebojos, ituranas, panolas, panelões, praias, sacados, jupiás, ipuêras, baixios, cambões, caldeirões, esqueletos, praias de duas cabeças, voltas - todos obstáculos e perigos da navegação ordinária, de grande ou de pequeno calado, para navios, motores, canoas, montaria e igarités, tudo, toda uma massa de uma teoria infernal de perigos a evitar, a contornar, a vigiar, a desafiar, a temer”.
Meu pai dizia que no Purus há mais barcos afundados debaixo do rio do que navegando por cima.
Certa vez fiz um barco voltar para o porto depois de partir: era um pequeno barco que ia atravessar o Amazonas pelo “Encontro das águas” que foi ficando cada vez mais cheio de gente naquelas águas tumultuadas e mortais.
E não me arrependo.
Aprendi com ele, o meu pai.
Aprendi a temer aqueles rios.



NAUFRÁGIO


Manaus - Duas mulheres e duas crianças estão desaparecidas nas águas do Rio Negro, desde o início da tarde desta terça-feira (27), após o naufrágio de uma canoa com rabeta, que navegava próximo à Praia do Tupé, a 25 quilômetros de Manaus. Segundo informações do Corpo de Bombeiros, havia cinco pessoas dentro da embarcação, sendo que a capacidade era de apenas três.

A canoa naufragou por volta de 14h, durante uma forte chuva. Os desaparecidos estão identificados como Maria Nete, 35 anos, Maria Lopes da Silva, 35, Bruno da Silva Alves, de 4 anos, e Maysa, também de 4 anos. Equipes de mergulho do Corpo de Bombeiros fizeram buscas aos corpos, mas nada foi encontrado. Apenas a canoa foi localizada a cerca de um quilômetro da margem. A operação encerrou às 18h, mas irá recomeçar amanhã, a partir das 7h, com novos procedimentos de mergulho de vasculha superficial pela margem do rio.

Um rapaz de 18 anos, identificado como Romário, que é irmão de Bruno, contou que o grupo seguia para a comunidade de Paricatuba, quando foi surpreendido pela forte chuva. Ele contou que conseguiu nadar até a margem, mas quando tentou resgatar o irmão, a criança já havia desaparecido.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

CARNAVAL ANUNCIADO

O Pico da Neblina


O PICO DA NEBLINA, AO LONGE
SONHA COM SUA MAJESTADE
E A DISTÂNCIA DA AMAZÔNIA
COBRA DE NÓS REVERÊNCIA

Rogel Samuel
(Foto de A. Araujo)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

VICENTE DE CARVALHO

Olhos Verdes

VICENTE DE CARVALHO - 1866 / 1924

Olhos encantados, olhos cor do mar,
Olhos pensativos que fazeis sonhar!

Que formosas cousas, quantas maravilhas
Em vos vendo sonho, em vos fitando vejo;
Cortes pitorescos de afastadas ilhas
Abanando no ar seus coqueirais em flor,
Solidões tranqüilas feitas para o beijo,
Ninhos verdejantes feitos para o amor...

Olhos pensativos que falais de amor!

Vem caindo a noite, vai subindo a lua...
O horizonte, como para recebê-las,
De uma fimbria de ouro todo se debrua;
Afla a brisa, cheia de ternura ousada,
Esfrolando as ondas, provocando nelas
Bruscos arrepios de mulher beijada...

Olhos tentadores da mulher amada!

Uma vela branca, todo alvor, se afasta
Balançando na onda, palpitando ao vento;
Ei-la que mergulha pela noite vasta,
Pela vasta noite feita de luar;
Ei-la que mergulha pelo firmamento
Desdobrado ao longe nos confins do mar...

Olhos cismadores que fazeis cismar!

Branca vela errante, branca vela errante,
Como a noite é clara! como o céu é lindo!
Leva-me contigo pelo mar... Adiante!
Leva-me contigo até mais longe, a essa
Fimbria do horizonte onde te vais sumindo
E onde acaba o mar e de onde o céu começa...

Olhos abençoados cheios de promessas!

Olhos pensativos que fazeis sonhar,
Olhos cor do mar!

 

Brasil é sexta maior economia do mundo em 2011



TORQUATO NETO


Cogito

Torquato Neto

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.

Torquato
Pereira de Araújo Neto nasceu em Teresina (PI), no dia 09 de novembro de 1944. Foi contemporâneo de Gilberto Gil no colégio em que estudou, em Salvador, tornando-se amigo do compositor e conhecendo também os irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia.
Em 1966 mudou-se para o Rio de Janeiro, começando seus estudos de Jornalismo. Mesmo sem ter concluído o curso, iniciou-se na profissão trabalhando em diversos jornais cariocas, tendo criado e redigido a coluna "Geléia Geral" no jornal carioca "Última Hora". Um dos criadores do movimento tropicalista, é o autor de inúmeras letras de músicas de sucesso, entre as quais destacamos "Mamãe, Coragem", "Geléia Geral", "Domingou", "Louvação", "Pra dizer adeus", "Rancho da rosa encarnada" e "Marginália II".

Em 10 de novembro de 1972, suicidou-se deixando o seguinte bilhete: "Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar".

Em 1973, ocorreu a publicação póstuma de seu livro "Os Últimos Dias de Paupéria", organizado por Ana Maria Silva Duarte e Waly Salomão. Três anos depois, alguns de seus poemas foram incluídos na antologia "26 Poetas Hoje", organizada por Heloísa Buarque de Hollanda. Em 1997, foram publicados quatro de seus poemas na antologia bilíngüe "Nothing the Sun Could Not Explain", organizada por Michael Palmer, Régis Bonvicino e Nelson Ascher.

O poema acima foi publicado no livro "Os Últimos Dias de Paupéria", Max Limonad - Rio de Janeiro, 1973, e selecionado por Ítalo Moriconi para figurar no livro "Os cem melhores poemas brasileiros do século", Objetiva - Rio de Janeiro, 2001, pág. 269.

domingo, 25 de dezembro de 2011

sábado, 24 de dezembro de 2011

NA NOITE DE NATAL


NA NOITE DE NATAL

Rogel Samuel

Natal de sempre. Não sentia falta. Não lastimava. Necessitava estar livre, espaço da solidão. Ele era, estava exilado. Mesmo dentro do próprio país. Natal, festa familiar. Não possuía família. Nem pátria. Por isso, naquela noite de Natal, dirigindo naquela estrada deserta, naquele país distante e frio, de que nem sabia o nome, nunca soube onde estava, nunca soube como foi parar ali. Perdido. Isolado. No meio da noite de natal. Ruas, estradas desertas. Casas altas. Casas fechadas. Muros altos. Estranha antiga fortaleza. Paisagem espanhola. Ele dirigia, mãos frias coladas ao volante. Tudo ruindo. Mesmo para ele, acostumado à fuga, tantas cidades, países tantos. O nunca acabar. No escuro. Frio.

Então, a última cidade passou, mas a estrada continuou.

Florestas e morros escuros. Um vento gélido percorria a alta noite cantando como um fantasma. Ele continuava. Os faróis do carro lambendo as margens com sua língua de luz fraca.

Foi quando percebeu um clarão vindo de algum lugar, de casa próxima, à beira da estrada.

Para lá se dirigiu.

Próximo, havia uma casa, ou melhor, um casebre. Como ele estava muito cansado, estacionou perto, e foi andando até aquele lugar, onde esperava poder descansar.

Chegou. Bateu na porta. Ninguém. Entrou, a porta aberta. Havia o calor simples e humano vindo da lareira acesa. O lugar iluminado e bom. Mas ninguém lá. Os móveis simples, velhos. Porém limpos. Poucas peças, cadeiras, a mesa, o aparador, sobre o qual havia um presépio. Mas sem o menino Jesus. 

“Já volto”, escrito estava num pedaço de papel, ao lado do presépio. Que importava aquela frase, aquele aviso? Ele estava cansado e não compreendia. Aninhou-se perto da lareira e dormiu brutalmente, num desmaio.

Dormiu por muitas horas.

Quando acordou, o sol brilhava, a lareira apagada, o frio passara, o tempo bom. No papel em cima do aparador, escrito: “Bom dia”; e no presépio, o menino Jesus.

Ele partiu. No caminho viu que as árvores tinham florido e estavam cheias de cânticos de pássaros.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

FELIZ NATAL

FOTO

Monge caminha por rua inundada para comprar alimentos em Bangkok, na Tailândia.

FOTOS

A imagem de Anuar Patjane, que também ganhou menção honrosa na categoria Lugares, mostra uma chuva torrencial de monção em Bhaktapur, no Nepal.
A foto 'Na zona verde', vencedora da categoria Lugares, foi tirada por George Tapan. Ela mostra um arco-íris sobre o mar das ilhas Onuc, nas Filipinas.
O fotógrafo James Vernacotola registrou o lançamento do ônibus espacial Endeavour STS-130 em Ponte Vedra, na Flórida, EUA. O rastro do foguete deixou um reflexo em um canal na cidade.

EAVA KILPI

Quando alguém já não tem forças para escrever, tem de recordar.
Quando já não tem forças para fotografar,
tem de ver com os olhos da alma.
Quando já não tem forças para ler,
tem de estar repleto de histórias.
Quando já não tem forças para falar,
tem de ecoar.

Quando alguém já não tem forças para andar, tem de voar.

E quando chega a hora,
tem de se desprender das recordações
e dos olhos da alma e deixar de ressoar,
calar-se e dobrar as asas.

Mas aconteça o
que acontecer a história continua, continua.
Eeva Kilpi
(Versão de Luís Parrado a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz reproduzida em Poesía nórdica, Ediciones de la Torre, 2ª edição, Madrid, 1999, p. 128).

FELIZ NATAL


Natal

Nasce um Deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo Deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.


FERNANDO PESSOA

 

Branca estais e colorada
Virgem sagrada!
Em Belém, vila do amor,
Da rosa nasceu a flor;
Virgem sagrada!
Em Belém, vila do amor,
Nasceu a rosa do rosal;
Virgem sagrada!
Da rosa nasceu a flor,
Pera nosso Salvador;
Virgem sagrada!
Nasceu a rosa do rosal,
Deus e homem natural,
Virgem sagrada!


Gil Vicente

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

CARLOS PENA FILHO




– Sino, claro sino,

tocas para quem ? ...



– Para o Deus-Menino

que de longe vem.



– Pois se o encontrares

traze-o ao meu amor.



– E o que lhe ofereces,

velho pescador ?



– Minha fé cansada,

meu vinho, meu pão...

Meu silêncio limpo,

minha solidão.
 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

'O mundo já ingressou na segunda fase da crise’


'O mundo já ingressou na segunda fase da crise’


Em toda parte, a direita retomou a ofensiva. Ela se atém à questão dos déficits orçamentários e da elevação da dívida pública. Ela finge não ver que a austeridade orçamentária, além da transferência, que a felicita, do peso da dívida para as classes populares, não pode senão provocar a recaída numa nova contração da atividade. Essa é a segunda fase da crise. Essa segunda fase não será a última. O novo mergulho na recessão necessitará novas políticas. A análise é do economista francês Gérard Duménil, em entrevista ao Jornal da Unicamp.


 
 
O economista francês Gérard Duménil é autor de vários livros e ensaios
sobre o capitalismo contemporâneo. Este ano publicou, em parceria com
Dominique Lévy, o livro The crisis of neoliberalism (Harvard University
Press, 2011). Duménil esteve na Unicamp para uma palestra sobre a crise
atual no Centro de Estudos Marxistas (Cemarx) no âmbito do programa de
pós-graduação em ciência política do Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas (IFCH) da Unicamp.

Em entrevista ao Jornal da Unicamp, ele analisou o desenrolar da crise econômica internacional e advertiu: o mundo já ingressou na segunda fase da crise.

Jornal da Unicamp – Você vem pesquisando o capitalismo neoliberal há muito tempo. Na sua análise, como se deve caracterizar essa etapa atual do capitalismo?

Gérard Duménil – O neoliberalismo é a nova etapa na qual ingressou o capitalismo com a transição dos anos 70 e 80. Eu e Dominique Lévy falamos de uma nova “ordem social”. Com essa expressão nós designamos a configuração de poderes relativos de classes sociais, dominações e compromissos. O neoliberalismo se caracteriza, desse modo, pelo reforço do poder das classes capitalistas em aliança com a classe dos gerentes (classe des cadres) – sobretudo as cúpulas das hierarquias e dos setores financeiros.

No decorrer dos decênios posteriores à Segunda Guerra Mundial, as classes capitalistas viram o seu poder e suas rendas diminuírem sensivelmente na maior parte dos países. Simplificando, nós poderíamos falar numa ordem “social-democrata”. As circunstâncias criadas pela crise de 1929, a Segunda Guerra Mundial e a força internacional do movimento operário tinham conduzido ao estabelecimento dessa ordem social relativamente favorável ao desenvolvimento econômico e à melhoria das condições de vida das classes populares – operários e empregados subalternos. O termo “social-democrata” para caracterizar essa ordem social se aplicava, evidentemente, melhor à Europa que aos Estados Unidos.

Com o estabelecimento da nova ordem social neoliberal, o funcionamento do capitalismo foi radicalmente transformado: uma nova disciplina foi imposta aos trabalhadores, em matéria de condições de trabalho, poder de compra, proteção social etc., além da desregulamentação (notadamente financeira), abertura das fronteiras comerciais e a livre mobilidade dos capitais no plano internacional – liberdade de investir no exterior. Esses dois últimos aspectos colocaram todos os trabalhadores do mundo numa situação de concorrência, quaisquer que sejam os níveis de salário comparativos nos diferentes países.

No plano das relações internacionais, os primeiros decênios do pós-guerra, ainda na antiga ordem “social democrata”, foram marcados por práticas imperialistas dos países dos países centrais: no plano econômico, pressão sobre os preços das matérias-primas e exportação de capitais; no plano político, corrupção, subversão e guerra. Com a chegada do neoliberalismo, as formas imperialistas foram renovadas. É difícil julgar em termos de intensidade, fazer comparação. Em termos econômicos, a explosão dos investimentos diretos no estrangeiro na década de 1990 certamente multiplicou o fluxo de lucros extraído dos países periféricos pelas classes capitalistas do centro. O fato de os países da periferia desejarem receber esses investimentos não muda nada a natureza imperialista dessas práticas – sabe-se que todos os trabalhadores “desejam” ser explorados a ficar desempregados.

Quando em meados dos anos 90, nós introduzimos essa interpretação do neoliberalismo em termos de classe, ela suscitou pouco interesse. Mas a explosão das desigualdades sociais deu a essa interpretação a força da evidência. A particularidade da análise marxista é a referência às classes mais que a grupos sociais. Esse caráter de classe está inscrito em todas as práticas neoliberais e inclusive os keynesianos de esquerda se exprimem, agora, nesses termos. Uma recusa a essa interpretação, no entanto, ainda se mantém; muitos não aceitam o papel importante que atribuímos aos gerentes (cadres) na ordem social neoliberal.

Entre os marxistas, continua-se a recusar que o controle dos meios de produção no capitalismo moderno é assegurado conjuntamente pelas classes capitalistas e pela classe dos gerentes (classe de cadres), o que faz dessa última uma segunda componente das classes superiores. Essa recusa é ainda mais desconcertante quando se tem em mente que as rendas das categorias superiores dos gerentes (cadres) no neoliberalismo explodiram ainda mais que as rendas dos capitalistas.

JU – Para alguns autores, o neoliberalismo foi um ajuste inevitável provocado pela crise fiscal do Estado; para outros foi o resultado, também inevitável, da globalização.

Gérard Duménil – A explicação do neoliberalismo pela “crise fiscal” e frequentemente também pela inflação é a explicação da direita; é uma defesa dos interesses capitalistas. Ela especula com as inconsequências dos blocos políticos que dirigiam a ordem social do pós-guerra. Esses foram incapazes de gerir a crise dos anos 70 e preparam a cama para o neoliberalismo. Passa-se o mesmo com a explicação que apresenta o neoliberalismo como consequência da globalização. Esse argumento inverte as causalidades. O que o neoliberalismo faz é orientar a globalização, uma tendência antiga, para novas direções e acelerar o seu curso, abrindo a via para a “globalização neoliberal”. O movimento altermundialista lutou por uma outra globalização, solidária, e não baseada na exploração em proveito de uma minoria.

JU – Você acaba de publicar, juntamente com o seu colega Dominique Lévy, um livro sobre a crise econômica atual. Na sua avaliação, qual é a natureza dessa crise?

Gérard Duménil – A crise atual é uma das quatro grandes crises – crises estruturais – que o capitalismo atravessou desde o final do século XIX: a crise da década de 1890, a crise de 1929, a crise da década de 1970 e a crise atual – iniciada em 2007/2008. Essas crises são episódios de perturbação de uma duração de cerca de uma dezena de anos (para as três primeiras). Elas ocorrem com uma periodicidade de cerca de 40 anos e separam as ordens sociais que evoquei na resposta à primeira pergunta. A primeira e a terceira dessas crises, as das décadas de 1890 e de 1970, seguiram-se a fases de queda da taxa de lucro e podem ser designadas como crises de rentabilidade. As duas outras crises, a de 1929 e a atual, nós as designamos como “crises de hegemonia financeira”. São grandes explosões que ocorrem na sequência de práticas das classes superiores visando ao aumento de suas rendas e de seus poderes. Todos os procedimentos do neoliberalismo estão aqui em ação: desregulamentação financeira e globalização. O primeiro aspecto é evidente, mas a globalização foi também, como vou indicar, um fator chave da crise atual.

Queda da taxa de lucro e explosão descontrolada das práticas das classes capitalistas são dois grandes tipos de explicação das grandes crises na obra de Marx. O primeiro tipo é bem conhecido. No Livro III de O Capital, Marx defende a tese da existência de uma “tendência decrescente da taxa de lucro” inerente ao caráter da mudança tecnológica no capitalismo (a dificuldade de aumentar a produtividade do trabalho sem realizar investimentos muito custosos, o que Marx descreve como a “elevação da composição orgânica do capital”).

Note-se que Marx refuta explicitamente a imputação da queda da taxa de lucro ao aumento da concorrência. (O segundo grande tipo de explicação para as crises já aparece em esboço nos escritos de Marx da década de 1840.) No Manifesto do Partido Comunista, Marx descreve as classes capitalistas como aprendizes de feiticeiros, desenvolvendo mecanismos capitalistas sob formas e em graus perigosos e perdendo, finalmente, o controle sobre as consequências de sua ação. Os aspectos financeiros da crise atual remetem diretamente às análises do “capital fictício”, aos quais Marx consagrou longos desenvolvimentos no Livro II de O Capital, desenvolvimentos que ecoam as ideias do Manifesto. De uma maneira bem estranha, alguns marxistas só aceitam a explicação das grandes crises pela queda da rentabilidade, excluindo qualquer outra explicação, e passam a multiplicar cálculos mal fundamentados.

Mas a crise atual não é uma simples crise financeira. É a crise de uma ordem social insustentável, o neoliberalismo. Essa crise, no centro do sistema, deveria acontecer, de qualquer modo, um dia ou outro, mas ele chegou de uma maneira bem particular em 2007/2008, vinda dos Estados Unidos. Dois tipos de mecanismos convergiram. Encontramos, de uma parte, a fragilidade induzida em todos os países neoliberais pelas práticas de financeirização e de globalização (notadamente financeira), motivada pela busca desenfreada de rendimentos crescentes por parte das classes superiores, reforçada pela recusa de regulamentação. O banco central dos EUA, em particular, perdeu o controle das taxas de juros e a capacidade de conduzir políticas macroeconômicas em decorrência da globalização financeira. De outra parte, a crise foi o efeito da trajetória econômica estadunidense, uma trajetória de desequilíbrios cumulativos, que os EUA puderam manter devido à sua hegemonia internacional – contrariamente à Europa que, considerada no seu conjunto, não conheceu tais desequilíbrios.

Desde 1980, o ritmo da acumulação de capital nos Estados Unidos desacelerou no território do próprio país enquanto cresciam os investimentos diretos no exterior. A isso é necessário acrescentar: um déficit crescente do comércio exterior, uma grande elevação do consumo (da parte das camadas mais favorecidas) e um endividamento igualmente crescente das famílias. O déficit de comércio exterior (o excesso de importações frente às exportações) alimentava um fluxo de dólares para o resto do mundo que tinha como única utilização a compra de títulos estadunidenses, levando ao financiamento da economia daquele país pelos estrangeiros – uma “dívida” vis-à-vis o estrangeiro, simplificando um pouco.

Por razões econômicas que eu não explicarei aqui, o crescimento dessa dívida exterior devia ser compensado por aquele da dívida interna, a das famílias e a do Estado, a fim de sustentar a atividade no território do país. Isso foi feito encorajando o endividamento das famílias pela política de crédito e pela desregulamentação – a dívida do governo teria podido substituir o endividamento das famílias mas isso ia contra as práticas neoliberais de antes da crise. Os credores das famílias (bancos e outros) não conservavam os créditos criados, mas os revendiam sob a forma de títulos (obrigações), cuja metade, mais ou menos, foi comprada pelo resto do mundo.

De tanto emprestar às famílias para além da capacidade delas saldarem as dívidas, as inadimplências se multiplicaram desde o início do ano de 2006. A desvalorização desses créditos desestabilizou o frágil edifício financeiro, nos EUA e no mundo, sem que o banco central dos Estados Unidos estivesse em condição de restabelecer os equilíbrios no contexto de desregulamentação e de globalização que ele próprio tinha favorecido. Esse foi o fator desencadeador, mas não o fundamental, da crise – combinação de fatores financeiros (a loucura neoliberal nesse domínio) e reais (a globalização, o sobre-consumo estadunidense e o déficit do comércio exterior desse país).

JU – Você falou em suas palestras no Brasil que a crise econômica teria entrado numa segunda fase. Como a crise vem se desenvolvendo?

Gérard Duménil – O mundo já ingressou na segunda fase da crise. É fácil compreender as razões. A primeira fase atingiu o pico no outono de 2008, quando caíram as grandes instituições financeiras estadunidenses, quando começou a recessão e quando a crise se propagou para o resto do mundo. As lições da crise de 1929 foram bem aprendidas. Os bancos centrais intervieram massivamente para sustentar as instituições financeiras (com medo de uma repetição da crise bancária de 1932) e os déficits orçamentários dos Estados atingiram níveis excepcionais. Mas essas medidas keynesianas, estimulando a demanda, só podiam ter por efeito uma sustentação temporária da atividade.

Os governos dos países do centro ainda não tomaram consciência do caráter estrutural da crise. Eles agem como se a crise tivesse sido puramente financeira, já ultrapassada; entretanto, as medidas keynesianas só criaram um sursis. Nenhuma medida antineoliberal séria foi tomada nos países do centro. São apenas políticas que visam o reforço da exploração das classes populares.

Nos Estados Unidos, a administração de Barak Obama elaborou uma lei, a lei Dodd-Frank, para regulamentar as práticas financeiras, mas os republicanos bloquearam completamente a aplicação. Em outras esferas, como gestão das empresas, exportação, déficits do comércio exterior, nada foi feito. Na Europa, a crise não é identificada como a crise do neoliberalismo. A Alemanha é apresentada como tendo provado a sustentabilidade do caminho neoliberal. A crise é imputada à incapacidade de gestão de certos Estados, notadamente a Grécia e Portugal.

Em toda parte, a direita retomou a ofensiva. Ela se atém à questão dos déficits orçamentários e da elevação da dívida pública. Ela finge não ver que a austeridade orçamentária, além da transferência, que a felicita, do peso da dívida para as classes populares, não pode senão provocar a recaída numa nova contração da atividade. Essa é a segunda fase da crise. Essa segunda fase não será a última. O novo mergulho na recessão necessitará novas políticas. Contrariamente à Europa, os Estados Unidos se lançaram massivamente no financiamento direto da dívida pública pelo banco central (o quantitative easing). Muito mais coisa será necessária, apesar da direita. Nós temos dificuldade em ver como a Europa poderá escapar disso.

JU – É sabido que a crise econômica atingiu mais fortemente, pelo menos até agora, os EUA e a Europa. Na década de 1990, ao contrário, as crises econômicas foram mais fortes na periferia. Por que essa diferença? Como a crise atual se manifesta nas diferentes regiões do globo?

Gérard Duménil – Até a segunda metade da década de 1990, o neoliberalismo produziu estragos no mundo, notadamente na América Latina e na Ásia. Mesmo hoje, as taxas de crescimento na América Latina permanecem inferiores àquelas dos primeiros decênios do pós-Segunda Guerra Mundial, e isso a despeito da redução massiva dos salários reais – que foi reduzido à metade desde a crise de 1970 em alguns países da região. Na década de 1990 – e em 2001 na Argentina – os avanços do neoliberalismo provocaram grandes crises, das quais a crise argentina é um caso emblemático.

O mundo entrou, agora, numa fase nova. A transição para o neoliberalismo provoca um tipo de “divórcio”, nos países do centro, entre os interesses das classes superiores e os do país como território econômico. O caso dos Estados Unidos é espetacular. Como eu disse, as grandes empresas desse país investem cada vez menos no território do país e, cada vez mais, no resto do mundo. A globalização levou a um deslocamento da localização da produção industrial para as periferias: na Ásia, na América Latina e, inclusive, em alguns países da África sub-saariana.

JU – As políticas propostas pelos dois grandes da União Europeia para superar a crise têm repetido as fórmulas neoliberais. Os mercados intimidam os governos; Sarkozy e Merkel exigem mais e mais cortes orçamentários. Por que insistem em uma política que, para muitos observadores, está na origem da crise? Que resultado a aplicação de tais políticas poderá produzir?

Gérard Duménil – Eu não penso de jeito nenhum que o rigor orçamentário tenha sido uma das causas da crise. Isso é a expressão de uma crença keynesiana ingênua, tão ingênua quanto à crença na capacidade dessas políticas de suscitar a saída da crise, dispensando as necessárias transformações antineoliberais. Porém, nesse contexto, as políticas que visam erradicar os déficits não deixarão de provocar uma nova queda da produção.

JU – Muitos analistas têm destacado que os partidos, sejam eles de direita ou de esquerda, não se diferenciam muito nas propostas para enfrentar a crise. Ademais, em vários países europeus, como a Inglaterra, a Espanha e Portugal, a direita foi eleitoralmente favorecida pela crise econômica. Os movimentos sociais poderiam construir uma alternativa de poder? Qual poderia ser um programa popular para enfrentar a crise atual?

Gérard Duménil – Nós não falamos dos aspectos políticos do neoliberalismo. A aliança na cúpula das hierarquias sociais entre classes capitalistas e classes dos gerentes (classes de cadres) logrou, por diversos mecanismos, afastar as classes populares da política “politiqueira”. Quero dizer: as afastou dos jogos dos partidos e dos grupos de pressão. Para as classes populares, só restou a (luta de) rua.

É preciso fazer entrar em cena grupos sociais que se encontram na “periferia” das classes dos gerentes (classes de cadres): os intelectuais e os políticos profissionais. No compromisso social dos pós-Segunda Guerra, frações relativamente importantes desses grupos eram partidárias da aliança com as classes populares (às quais elas não pertenciam), que elas apoiavam nos seus campos próprios de atuação.

No contexto do colapso do movimento operário mundial, as classes capitalistas lograram, no neoliberalismo, a selar uma aliança com as classes dos gerentes – usando o recurso da remuneração, notadamente – conduzindo gradualmente esses grupos periféricos (a universidade fornece muitas ilustrações sobre esse fenômeno) no empreendimento de conquista social do neoliberalismo. A proporção de grupos sociais motivados para uma aliança com as classes populares estreitou-se consideravelmente, ficando reduzida a alguns grupos “iluminados” aos quais eu próprio pertenço.

O sofrimento das classes populares não chega ao grupo dos gerentes e, no plano político, não há mais nenhum grande partido de esquerda. Na França, sabe-se no que se tornou o Partido Socialista, completamente ganho pela “globalização”, um termo para ocultar o neoliberalismo. Algo semelhante poderíamos dizer dos democratas nos Estados Unidos e eu deixo para vocês mesmos julgarem a situação do Brasil a esse respeito.

A vida política – politiqueira – se reduz à alternância entre dois partidos não equivalentes; mas o partido que se diz de esquerda é incapaz de propor uma alternativa, para não falar da sua implementação. O voto se reduz àquilo que nós chamamos na França o “voto sanção”. A direita sucede a esquerda na Espanha, por exemplo, porque a esquerda estava no poder durante a crise; a direita não tem, evidentemente, nenhuma capacidade superior para gerir a crise.

JU – Muitos observadores têm falado da possibilidade de extinção do euro. Você acredita que isso poderá ocorrer? Na sua avaliação, quais seriam os desfechos mais prováveis para a crise atual?

Gérard Duménil – É possível que alguns países saiam da zona do euro. Isso não resolveria o problema da dívida deles, que se tornaria ainda impagável depois da desvalorização da nova moeda substituta do euro. O problema é o do cancelamento da dívida ou de sua adoção pelo banco central. A crise da dívida atingiu agora os países do centro da Europa, e será necessário que esses países tomem consciência da amplitude e da verdadeira natureza do problema.

Isso remete às características daquilo que nós chamamos a “terceira fase da crise”. Quais políticas serão adotadas face à nova recessão? Como será gerida a crise na Itália e, depois, na França? Como a Alemanha responderá à pressão dos “mercados” (as instituições financeiras internacionais)? Uma coisa é certa: essas dívidas não devem ser pagas, o que exige a transferência delas para fora dos bancos ou uma forte intervenção na sua gestão.

Agora, o ponto fundamental é a vontade dos governos dos países mais poderosos da Europa, notadamente a Alemanha, de reforçar a integração europeia (em vez de estourar a zona do euro), que se opõe à vontade de “desglobalização” de alguns. Esse debate oculta a questão central: qual Europa? Uma Europa das classes superiores ou a de um novo compromisso de esquerda?

LAMBORGHINI CHEGA AO BRASIL

Lançada em setembro deste ano no Salão de Frankfurt, a Lamborghini Gallardo Super Trofeo Stradale acaba de “aterrissar” no mercado brasileiro. Trata-se de uma série especial com melhorias para se obter mais performance – o modelo passou por um “regime” de 70 kg – e extremamente restrita: apenas 150 unidades serão produzidas e somente três serão destinadas a compradores no Brasil, que terão desembolsar R$ 1,7 milhão por carro.
Como toda “Lambo”, essa também tem uma sigla, no caso a LP 570-4, que indica a disposição do motor V10 traseiro com 570 cv e tração integral.
A marca italiana afirma que o Gallardo especial com peso aliviado (pesa 1.340 kg) acelera da imobilidade aos 100 km/h em 3,4 segundos, e os 200 km/h em apenas 10,4 s. Já a velocidade máxima é limitada em mais do que suficientes 320 km/h.
O modelo Super Trofeo Stradale, além da força bruta, também vem equipado com sistema de áudio digital com monitor central no painel, onde o motorista também tem acesso ao navegador GPS. Completam o pacote, os sistema de segurança de controle eletrônicos de estabilidade e tração (que podem ser desligados) e quatro airbags.

PALESTINA NO MERCOSUL

Mercosul e Palestina assinam acordo de livre comércio em Montevidéu, no Uruguai. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
Na 42a Cúpula de Presidentes realizada hoje (20) em Montevidéu, no Uruguai, o Mercosul assinou um acordo de livre comércio com a Palestina. O documento foi assinado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Palestina, Riadi Malki, convidado especial da Cúpula.
Outro assunto discutido na Cúpula foi o ingresso da Venezuela no bloco formado por Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina.
De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, o comércio total entre os países do Mercosul manteve-se em expansão em 2011, devendo atingir um valor 20% acima da cifra de US$ 44,55 bilhões alcançada em 2010.

MARLY DE OLIVEIRA

Escrevo; logo, sinto, logo, vivo,
e tiro-lhe ao viver a indisciplina
que o espraiaria, que o dispersaria,
e dou-lhe a minha forma comedida,
a que tem o tamanho de um amor
que eu guardo, que não gasto, não disperso;
amor que se concentra em dura pérola,
não pétala, não isto que é um excesso,
pois que pode voar; o que me fica
de tudo o que acontece e não se altera,
de tudo o que acontece e me escraviza,
e do que escravizando me liberta.
Escrevo; logo, sou quem se domina,
e quem avança numa descoberta.
Marly de Oliveira (1935-2007)
De O Sangue na Veia (1967)
Clarice Lispector e Manuel Bandeira, padrinhos de casamento
pub.l em poesia.net (272) https://mail.google.com/mail/#inbox/1345a548f9f22dc4

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011


POEMA DO RIO NEGRO

Humberto de Campos - O TÚMULO DE CIRO

Humberto de Campos - O TÚMULO DE CIRO
 
No gracioso "boudoir" de Júlia Berredo, estirada cada uma no se divã, a dona daquele ninho de amor conversava com a sua amiga mais íntima, a encantadora Maria Irene, quando aquela, a propósito de um "potin" malicioso, indagou:
- Não conheces a história de Ciro?
- O Ciro Fernandes?
- Não, filha; Ciro, o rei dos persas.
E começou:
- Quando Ciro morreu, os seus súditos ergueram-lhe um túmulo, no interior do qual cabia apenas um visitante. Sendo mister, porém, que o corpo do monarca não ficasse, jamais, sozinho, resolveram os sacerdotes que, toda a vez que saísse de lá um visitante, entrasse, logo, outro. E assim aconteceu, dia e noite, durante séculos.
Olhos interrogativos, Maria Irene fitava a amiga, sem compreender bem. E olhava- ainda, quando Júlia, num sorriso, levantou a ponta do mistério:
- Pois, menina, há mulheres assim...
E numa gargalhada:
- Sai um, entra outro!

domingo, 18 de dezembro de 2011

O ESCRAVO COROADO

O ESCRAVO COROADO

HUMBERTO DE CAMPOS

(Taunay - Reminiscências, vol. I, pág. 107)

Em uma das suas audiências dos sábados, em que atendia a toda a gente, recebeu D. Pedro II no Paço da Boa Vista um preto velho, que se queixava dos maus tratos de que era vítima.

- Ah, meu senhor grande, - lamentava-se o mísero, - como é duro ser escravo!

O Imperador encarou-o, comovido.

- Tem paciência, filho, - tranqüilizou-o. - Eu também sou escravo... das minhas obrigações, e elas são muito pesadas! As tuas desgraças vão minorar...

E mandou alforriar o preto

A PERSONALIDADE DO ANO

sábado, 17 de dezembro de 2011

A morte do samba apoteótico

A morte do samba apoteótico

Rogel Samuel

Com ele morre a gloria, o brilho, a ousadia. “Trevas! Luz! Explosão do universo” – tema com que levou o Viradouro ao primeiro lugar em 1997 – define bem o que ele foi ao longo de sua grande arte. Ele veio do Maranhão como marinheiro aos 17 anos.
Eu o conheci no “Flor do amanhã”, quando recebeu o Dalai Lama. Ali, Joazinho Trinta mantinha permanentemente uma criança ao colo, filho de uma menina de rua que ele abrigava.
A última vez que o vi foi no shopping de Manaus. 
- Como vai o “Flor do amanhã”, Joazinho? – pergunto. O que aconteceu com ele?
O “Flor do amanhã” foi para mim o maior projeto social que já existiu no Rio de Janeiro: abrigava toda a população de rua, meninos, meninas, prostitutas, travestis, índios, mendigos,  viciados – a todos Joazinho dava casa e comida e tinha o plano de ali instalar uma escola de primeiro grau onde eu pretendia trabalhar de graça.
- Mataram o “Flor do amanhã”, disse-me ele.
E depois de um suspirou de dor:
- Estávamos atrapalhando...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

ACADEMIA

OS SERTÕES DE EUCLIDES DA CUNHA


PRELIMINARES

O Planalto Central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; e desata-se em chapadões nivelados pelos
visos das cordilheiras marítimas, distendidas do Rio Grande a Minas. Mas ao derivar para as terras setentrionais diminui gradualmente de altitude, ao mesmo tempo que descamba para a costa oriental em andares, ou repetidos socalcos, que o despem
da primitiva grandeza afastando-o consideravelmente para o interior.


De sorte que quem o contorna, seguindo para o norte, observa notáveis mudanças de relevos: a principio o traço contínuo e dominante das montanhas,
precintando-o, com destaque saliente, sobre a linha proje tante das praias; depois, no segmento de orla marítima entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, um aparelho litoral revolto, feito da envergadura desarticulada das serras, riçado de cumeadas e
corroído de angras, e escancelando-se em baias, repartindo-se em ilhas, e desagregando-se em recifes desnudos, à maneira de escombros do conflito secular
que ali se trava entre os mares e a terra; em seguida, transposto o 15° paralelo, a atenuação de todos os acidentes — serranias que se arredondam e suavizam as linhas dos taludes, fracionadas em morros de encostas indistintas no horizonte que se amplia; até que em plena faixa costeira da Bahia, o olhar, livre dos anteparos de serras que até lá o repulsam e abreviam, se dilata em cheio para o ocidente, mergulhando no âmago da terra amplíssima lentamente emergindo num ondear longínquo de chapadas...

Este facies geográfico resume a morfogenia do grande maciço continental.
Demonstra-o análise mais íntima feita por um corte meridiano qualquer, acompanhando à bacia do S. Francisco.

No natal


NO NATAL  

Rogel Samuel
             No oco de dentro, tudo morto, escuro. Ele abriu o armário, pegou o guarda-chuva. Olhou-se no espelho, achou-se  envelhecido, cansado, os cabelos grisalhos não ajudavam a face pálida. Mas dirigiu-se para a porta da rua, resoluto. Não, não sabia aonde iria. Estava indo para a rua. Apesar da chuva.
             Na calçada. Ele estava na calçada debaixo da marquise. Chovia. Ele tinha de ir a um bar, ou a um restaurante qualquer. Já não agüentava ficar em casa, sozinho. Tinha preparado o seu Natal para passar sozinho em casa, sua ceia. Intocada. Nos dias anteriores se organizara, comprou um pouco de peru, castanhas, um bolo. Colocou a melhor toalha na mesa, arrumou tudo, até com certa beleza e elegância, graças às taças de cristal, herança da avó. Bacará. Mas não. Não agüentou ficar ali, vendo a solidão no vídeo da TV. Resolveu partir para a conquista da rua. Mas já era tarde, tudo estava parado, morto. A cidade dormia em silêncio. Ninguém mais andava na noite, naquela região perigosa, ali. Por isso, ele estava parado, olhava a pesada chuva, não se animava a atravessar a rua, debaixo da marquise. Que fazer?
             Lembrou-se da Missa do Galo que já devia ter acontecido: Que horas são? – Não trouxera relógio.
             Foi quando na esquina despontou um táxi, era sua sorte. Faz um sinal, aflito. O taxista, mal-humorado, dobrou, veio. Parou, ele se jogou lá dentro, como dentro da barca da salvação.
            – Para onde?, perguntou o taxista.
            Ele não soube responder.
            Rodaram pelo Centro sem rumo, à procura de um lugar onde ele pudesse passar a noite de natal, o restante da noite de Natal. Mas tudo fechado. Rumaram para a Zona Sul contudo. Já era muito tarde, ou não abriram, ou já tinham fechado os bares e restaurantes. Finalmente, no final do Leblon, um pequeno lugar, muito conhecido seu, ainda aberto.
            A casa cheia, ruídos e bêbados. Ótimo, pensou, já não estamos sós. O primeiro uísque bebido em pé, no balcão, meia hora depois vagava a mesa. O segundo e terceiro uísque bebeu entre conhecidas lembranças tristes e vagas que assaltavam, assassinas. Sim fora ali. Naquele mesmo lugar. Ele olhou e viu quando Ana lhe falara, anos atrás. Contara tudo, de chofre. Sem introdução. E dissera que já estava com o outro. "Que belo lugar, disse para si, apropriado, para passar este natal solitário!" Mas foi o único. Resolveu comemorar não sabia o quê. Depois do terceiro uísque, sentiu-se melhor, meio faminto de vida, e encomendou um peixe que ali se comia desde a época de Aninha. Mas a refeição permaneceu na mesa, ele via o dia vazio, que estava nascendo o dia, e a chuva, através da vidraça, fina, persistente. E olhava em volta à sua procura, as pessoas pareciam estranhas, as vozes cada vez mais longínquas. Cantavam. À sua volta cantavam. Por que aquilo não o contagiava?     Por que no oco de dentro tudo morto e escuro?
            E a chuva parou, o sol levantou-se, ele pediu a conta, pagou e partiu em direção à praia. Atravessou a rua, cruzou com uns homens que corriam, atléticos. O mar estava limpo, plácido, como lago. Um espelho de mar. Num canto das pedras percebeu um estranho e gordo velho, encolhido, agachado. Tocava o mar com os dedos. Era um velho gordo, olhava fixamente o mar.  A barba branca. Olhava fixamente o mar. Mais de perto, quase a seu lado, vejo quem era. No oco de dentro tudo já não estava morto e escuro: O sol, um enorme sol, brilhava no horizonte desperto. O velho olhava o mar. Tirava barquinhos de papel  do saco de brinquedos e os punha sobre a água. Os barquinhos partiam, em direção ao outro lado do mundo.

Rogel Samuel