quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A morte no envelope



Rogel Samuel

A morte no envelope
Bach resumiu sua "poética" na "A Arte da Fuga" (que
tem seu nome: si bemol, lá, dó, si). Conhecida um século depois.
Mas A Arte da Fuga ficou incompleta. A última fuga não acaba; continua a rolar, sem fim. Vida breve. Infinita.
A vida é breve. O Brasil não tem tradição de literatura policial. Outros gêneros literários sumiram, também. A nova poesia, os novos contistas, o novo romance. Falta mídia? Não acredito. Faltam editoras? Não faltam leitores. Coelho Neto escreveu 112 livros e 50 peças de teatro. Vida breve. Humberto de Campos recebia inúmeras cartas. Escreveu obra gigantesca, hoje quase desconhecida. "A morte no envelope" de Luiz Lopes Coelho me vem à lembrança.
A literatura não morre no envelope, mas na estante. Coelho Neto e Humberto de Campos escreveram muito, como Camilo, um gênio, que ainda se lê, com prazer. Estilo rápido,
nervoso, elétrico. A grande massa da literatura morre, morreu, ou morrerá. Balzac escrevia por compulsão. Um dos mais bem sucedidos escritores do Brasil, Jorge Amado, produzia um bom livro a cada dois anos. Mas há autores de um livro só, como Manuel Antonio de Almeida.
Assis Brasil continua escrevendo. Mais de cem livros. Vive
de literatura, produz romances, ensaios, antologias. É um mestre. A "Tragédia burguesa", de Otavio de Faria, tem quinze grossos volumes. Elogiada por Mestre Alceu, hoje desapareceu. Ele era excelente crítico de cinema. Aliás, adorava cinema. Dizem que ele saía de uma sala de cinema e entrava noutra. Tobias Barreto, dono de respeitável obra, não mais se lê.
Escreveu obras filosóficas importantes. Onde estão seus livros? Vida breve. Bach resumiu a "poética" de sua música na "A Arte da Fuga" (que contém o seu nome: si bemol, lá, dó, si). Conhecida um século depois.
Mas a Arte da Fuga ficou incompleta. A última fuga era a morte.

ROGEL SAMUEL - A HISTÓRIA DOS AMANTES


ROGEL SAMUEL - A HISTÓRIA DOS AMANTES

AGORA MAIS FÁCIL DE LER EM


http://rogel-samuel.blogspot.com/2011/08/rogel-samuel.html

MADRIGAL A UMA ESTRELA


MADRIGAL A UMA ESTRELA


De histórias de estrelas

ninguém quer saber,

Não conto, não conto...

Quem é que te quer,



história da estrela

que fica por cima

da minha janela?

Tão bela! Tão bela!



Comigo te guardo,

na vida e na morte.

Serás um segredo...

Serás uma estrela



que eu leve a meu lado

na vida que leve...

Escura que seja

-que vida tão clara!



Que noite tão branca

a noite que eu durma

(debaixo da terra)

debaixo da estrela!



Não conto.Não digo.

Comigo te guardo.

Assim tu,ó estrela,

me guardes contigo...



Sebastião da Gama , Pelo Sonho É Que Vamos


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Amélia Pais
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terça-feira, 30 de agosto de 2011

ZEMARIA PINTO EXPÕE DANTE


DELFIM ELOGIA


Para o ex-ministro da Fazenda Antônio Delfim Netto, o anúncio do governo de elevar o superávit primário é uma demonstração de que a presidenta Dilma Rousseff está “determinada em fazer uma política fiscal preocupada com o longo prazo”.

Delfim pontuou, ainda, que a medida tem o objetivo de dar musculatura ao Banco Central para baixar juros.

O economista, por outro lado, não diz dizer se a autoridade monetária iniciará o movimento de redução da Selic já na reunião desta semana, que começou hoje e segue até amanhã.

Delfim diz que o objetivo da medida é reduzir os juros “em breve”.

O ex-ministro afirmou que a elevação do superávit é um recado para a sociedade brasileira de que “o Brasil está se diferenciando dos demais países nesta crise”.

Enquanto o mundo despenca nas contas públicas, o Brasil está reforçando sua política fiscal.

Torquato Neto




Pessoal Intransferível


Torquato Neto


Torquato Neto (1944-1972).

Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.

Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, “herdeiro” da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.

E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.

(14/09/71)

Sete dias serão, Manaus, ó sete amadas




("Metaesquema", de Helio Oiticica)



Sete dias serão, Manaus, ó sete amadas



Rogel Samuel


Sete dias serão, Manaus, ó sete amadas,
Por que se integre à terra este cantor.
Ó monstruosas noites desamparadas
De mim se aparte a porta dessa dor.
O espelho dágua ostenta a aranha alada
Que me arrasta o interno aeroplano,
Tresloucada vespa, cristalizada
Inoculando o inferno do engano.
Mas chega de canção, Amor, que neste canto
As finas rimas dessa ladainha
Escondem teus morenos ombros de arpejos.
Ó franca zona! Do Teatro o manto!
Por sete dias tua canção é minha
Na invenção literária dos teus beijos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Falácia da Veja demonstra necessidade de limites, diz senador


Falácia da Veja demonstra necessidade de limites, diz senador

O senador Humberto Costa (PT-PE) afirmou, em discurso nesta segunda-feira (29), que a matéria publicada pela revista Veja no último fim de semana, com informações que teriam sido obtidas clandestinamente, "evidenciou a necessidade de se discutir os limites de iniciativas de órgãos de imprensa danosas à imagem de pessoas públicas", a partir de "acusações vazias, falaciosas, lançadas a partir de dados que nada expressam".

Segundo disse, não se trata de cercear a liberdade de expressão, mas sim "pôr fim a eventos em prejuízo aos limites da ética jornalística".

Reportagem da revista Veja acusa o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, de manter um gabinete paralelo em Brasília, visando influenciar e até conspirar contra o gestão da presidente Dilma Rousseff. O material mostra encontros de José Dirceu com parlamentares e figuras importantes do governo.

"Sob o falso pretexto de jornalismo investigativo, a revista provavelmente cometeu ato ilegal com a tentativa de invasão de domicilio, conforme será esclarecido em inquérito em curso na Polícia Civil do Distrito Federal", disse.

A direção do Hotel Naoum, onde José Dirceu se hospeda e recebe políticos, registrou em boletim de ocorrência a tentativa de invasão do quarto em que se hospeda o ex-ministro. Segundo a acusação, o repórter teria, por duas vezes, tentado entrar no quarto, primeiro enganando uma camareira e depois se passando por outra pessoa, afirmou o senador.

Também se desconfia que outros crimes possam ter sido cometidos, entre eles, o suborno de funcionários ou a instalação ilegal de grampos no sistema interno de TV que garante a segurança do local, disse Humberto Costa.

A desconfiança se sustenta no fato de a revista ter publicado imagens do circuito interno em preto e branco, sendo que o sistema do hotel gera imagens em cores. Com as evidências de espionagem ilegal, a direção do Naoum anunciou que também irá acionar a Polícia Federal nas investigações, disse ainda o líder do PT.

"A democracia conquistada neste país é um bem precioso, mas ela também vem acompanhada de outros valores: a apuração minuciosa dos fatos, a partir de provas contundentes e de resultados de investigações já feitas, é necessária antes de se lançar qualquer acusação sem cabimento contra qualquer pessoa: homem público, cidadão ou cidadã", argumentou Humberto Costa.

A matéria publicada pela Veja neste fim de semana afirma que, em um "gabinete paralelo", José Dirceu despacha com parlamentares e figuras importantes do governo Dilma Rousseff e teria o objetivo de conspirar contra a gestão da presidente.

Fonte: Agência Senado

A propósito da matéria da Veja


A propósito da matéria da Veja neste final de semana (leia mais neste blog), sugiro vários posts do Viomundo. Entre eles, a entrevista que o blog fez com o Rogério Tonatto, gerente do Hotel Naoum, de Brasília, invadido pela revista. "O que foi feito aqui é uma coisa criminosa, que a gente repudia (...). O que fizeram no hotel é um crime. Aliás, muitos clientes têm-nos ligado para prestar solidariedade, dizendo que o hotel não merece isso."

O mesmo blog também fez outra matéria com Devanir Ribeiro, deputado federal do PT-SP, um dos citados na matéria da revista. “Que matéria mais besta? Francamente não sei o que estão querendo com ela. Intrigar o Zé com a Dilma? Jogar a Dilma contra o Zé? Besteira! Dizer que o pessoal do PT frequenta o Naoum?! Vários parlamentares do PT que não têm apartamento funcional ficavam e ficam lá hospedados. Que o Zé faz política, qual a novidade?! É um direito dele. O Zé é um cidadão brasileiro, militante político e dirigente partidário”, afirmou ele.

Por fim, Viomundo reproduziu um comentário do internauta Len, no blog Ponto e Contraponto. “Vi na hora que não se tratava de imagem de câmera de segurança interna, pois estas não apresentam data e horário, tem resolução baixa para câmeras normalmente usadas para esse fim”, afirmou. Segundo Len, a câmera que foi usada pelo repórter da Veja “provavelmente é uma mini-câmera espiã wi-fi, que pode ser instalada facilmente, pois não precisa de fios ligando ao monitor que recebe as imagens”.

Blog Viomundo.

A semana começa aqui no blog, como não poderia deixar de ser, ainda sob o impacto da tendenciosa matéria de Veja dessa semana a meu respeito. Como já falei dela em outros dois posts no fim de semana (leia notas logo abaixo), hoje cumpre destacar a omissão e o silêncio absolutos da grande imprensa contra a flagrante violação por parte da revista da minha privacidade, intimidade e do meu direito à presunção da inocência, uma vez que ainda não fui julgado pela Justiça de meu país, mas Veja já me julgou e condenou da 1ª à última linha de seu material. A começar pelas manchetes em sua capa.

Um ou outro jornal registra a matéria de Veja, mesmo assim só para dar curso a seu teor e não ao caráter do ato criminoso praticado pela revista. Nenhum questiona, sequer registra, o aspecto da violação da privacidade dos hóspedes de um hotel e a invasão de seus apartamentos.

Não fossem os portais Terra, UOL, Brasil 247, Sul21 e o Vermelho - só para citar alguns - e a blogosfera, o registro do crime passaria batido, em brancas nuvens. Aproveito aqui para agradecer aos muitos blogueiros e anônimos que denunciaram e retuitaram notas denunciando mais esta farsa da revista Veja. Que houve invasão de domicílio e desrespeito à minha privacidade não há dúvidas. Agora é acompanhar as investigações da Polícia Federal e da Polícia Civil de Brasília, nos inquéritos instaurados a pedido do hotel.

Hélio não foi cúmplice, foi vítima

À medida que passa o tempo, elucidam-se, também, outras mentiras deslavadas publicadas por Veja. A matéria fala do fato do advogado Hélio Madalena ter constado do inquérito que apurou o caso MSI-Corinthians. VEJA mentiu, também, nesse caso. Hélio foi vítima e não cúmplice de quem quer que seja nessa história.

Seu sigilo foi quebrado a partir da quebra do meu sigilo, ambos sem nenhuma razão, um abuso de autoridade na operação MSI-Corinthians, precursora das ilegalidades que depois seriam descobertas na Operação Satiagraha, agora anulada pela Justiça. Hélio e eu, como bem afirmam os procuradores, fomos investigados na apuração de um caso como o qual nada tínhamos a ver. E é bom que se diga com todas as letras: fomos totalmente inocentados.

É só resgatar o noticiário para comprovar o que afirmo e a leviandade da revista. Na época, a própria mídia registrava, em diversos veículos: em relação a suposto envolvimento do ex-ministro José Dirceu no caso, o procurador da República, Rodrigo de Grandis, disse que não foram identificados indícios de participação de Dirceu em relação à parceria MSI-Corinthians que justificassem denúncia contra ele.






FAMOSA MEDITAÇÃO DE DONNE








MEDITAÇÃO 17

(trecho)

Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um teu amigo, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

Tradução: Paulo Vizioli



MEDITATION 17

(excerpt)
No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main; if a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were, as well as if a manor of thy friend's or of thine own were; any man's death diminishes me, because I am involved in mankind, and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee.
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Amélia Pais
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FREI BETO LANÇA LIVRO



SÃO PAULO - Só mineiros sabem./ E não dizem nem a si mesmos o/ irrevelável segredo/ chamado Minas". Nascido em Belo Horizonte há 67 anos, completados na terça-feira da semana passada, Carlos Alberto Libânio Christo - o Frei Betto - gosta de citar o poeta Carlos Drummond de Andrade, autor dos versos acima, para explicar a mineirice do sujeito que sai de Minas mas Minas não sai de dentro dele. Frei Betto saiu de Belo Horizonte em 1966, quando entrou para a Ordem Dominicana em São Paulo. Nesta segunda-feira, quando seu novo livro chegar às livrarias, mostrará que Minas, afinal, não estava tão longe assim.

O romance "Minas do Ouro", 54º livro do frade dominicano, jornalista e escritor, conta a saga de uma família, os Arienim, tendo como pano de fundo a História de Minas. Nas páginas do romance, fronteiras do real e da ficção se misturam em histórias como a do Arraial de Vila Rica (atual Ouro Preto), elevado à categoria de vila pelo governador português Antônio de Albuquerque, que a batizou de Vila Rica d'Albuquerque (uma verdade histórica). O protagonista Vitorino Arienim reclama à Corte do crime de lesa-majestade (ficção), o que faz o imperador D. João V mandar que Albuquerque devolva à cidade o nome original (verdade).

- Meu pai, Antônio Carlos, era jornalista, escritor e apaixonado por Minas. Da nossa biblioteca, li 120 livros sobre a história do estado e seus personagens, de Tiradentes a Aleijadinho - diz ele.

- Frei Betto é um historiador nato e o livro é muito bom. Tem estilo forte e vigoroso que encaixa bem com a História de Minas - diz a historiadora Neusa Fernandes, vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro, uma das poucas pessoas a quem Frei Betto consultou antes de publicar o romance.

A ideia do romance histórico sobre Minas nasceu nos anos 80. Em 1998, começou a escrever o livro, numa gestação de 13 anos interrompida aqui e ali por sua participação ainda ativa em movimentos sociais, pelas palestras regulares para empresas e organizações, pela urgência de escrever outros livros e por sua atuação política - em 2003 e 2004, Frei Betto trabalhou como assessor especial do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva coordenando a mobilização social do Programa Fome Zero (engolido pelo Programa Bolsa Família), em parceria com o presidente do Instituo Ehtos, Oded Grajew.

A experiência, para variar, terminou em livros: a coletânea de ensaios "A mosca azul", de 2006, com reflexões sobre o poder e a ética, e o best-seller "Calendário do Poder", lançado em 2007, em que descreve, como num diário, sua aventura no Planalto.

- O Betto não só é um pensador excepcional, como tem um senso prático capaz de transformar ideias em ação de forma efetiva - diz Grajew.

Mas Frei Betto, amigo de Lula - com quem ajudou a criar e organizar o movimento sindical, a CUT e o PT em São Paulo, a partir da década de 80 - garante que saiu do governo, em primeiro lugar, para escrever.

- Sou disciplinado e compulsivo em se tratando de livros. Com exceção do período em que participei do governo, dedico 120 dias do ano à literatura. Tenho minha agenda com livros preenchida até outubro de 2012. E, quando me proponho a isso, vou para um lugar isolado e só faço rezar e escrever - diz ele.

Capa do novo livro de Frei Betto Sua paixão pelos livros pode ser conferida por quem visita o quarto de cinco metros quadrados que Frei Betto ocupa no Convento Santo Alberto Magno, em Perdizes, na Zona Oeste de São Paulo. Ali, onde acorda há anos entre 5h e 6h, mal se vislumbram a mesinha de trabalho, o armário e a cama. Pelas paredes, pelo chãos, pelos cantos, amontoam-se livros, papéis e escritos sobre suas áreas de estudo preferidas, de Antropologia a Filosofia, de Teologia a Jornalismo. E romances, claro. A rotina é simples quando ele não está viajando (coisa frequente): café da manhã, oração, escrever, almoço, escrever, oração, jantar, leitura, oração, cama.

- Admiro sua energia, integridade e a maneira como transita confortavelmente entre ficção e não ficção, livros para adultos e crianças, além de temas tão diferentes quanto religião, culinária ou música - diz Paulo Rocco, da Editora Rocco, que publicou oito livros do frade.

Os 53 livros escritos resultaram na venda de mais de três milhões de exemplares traduzidos para uma dúzia de línguas.

Não é sem razão que todas as suas experiências de vida e memórias estejam direta ou indiretamente publicadas em livros, incluindo reflexões religiosas progressistas que fariam corar conservadores como o papa Bento XVI. Afinal, Frei Betto é adepto da Teologia da Libertação, corrente desenvolvida na América Latina que defende o papel transformador da Igreja no combate à miséria através da conscientização política. No Brasil, durante a ditadura, o embrião desse pensamento surgiu em conventos e mosteiros católicos. Muitos frades e padres, como o próprio Frei Betto, ajudaram a esconder dissidentes ou mandá-los para o exílio, enquanto denunciavam abusos e torturas.
Ditadura prendeu frei por 4 anos

No Brasil pós-ditadura, a corrente ganhou uma ideologia de esquerda e um formato mais atuante nas comissões pastorais ligadas a áreas sensíveis, como direitos humanos, reforma agrária, política carcerária, direitos trabalhistas e educação popular. São parte dos movimentos sociais que o frade ajudou a criar.

- Frei Betto é um aliado querido na luta pelos direitos humanos desde que o Grupo Tortura Nunca Mais foi criado, há 26 anos - diz a psicóloga Cecília Coimbra, fundadora do grupo.

De 1969 a 1973, o governo militar prendeu Frei Betto e outros dominicanos no presídio Tiradentes, em São Paulo, pelo envolvimento com a Ação Libertadora Nacional, de Carlos Marighella. As cartas escritas naqueles anos resultaram no que se considera seu primeiro livro: "Cartas da Prisão". Desse período também resultou o livro "Batismo de Sangue", vencedor do Prêmio Jabuti como melhor livro de memórias em 1982 e transformado em filme de Helvécio Ratton em 2007. No complexo Tiradentes também ficou presa a presidente Dilma Rousseff.

- Éramos vizinhos na juventude em Belo Horizonte. Mais tarde, fomos novamente vizinhos no presídio Tiradentes. Em 2003, Dilma foi minha vizinha no Planalto, na época em que trabalhávamos com Lula - diz o frade, que defendeu Dilma nas eleições, quando adversários tentaram colar nela pechas de "abortista" e "ateia".

- Os comunistas não queriam que ele fosse frade e os frades não queriam que ele fosse comunista - conta o irmão caçula de Frei Betto, o psicólogo Leonardo Libânio.

Socialista num mundo onde os conceitos de direita e esquerda sequer existem mais, e religioso numa época de descrenças monumentais, Frei Betto possui fanáticos admiradores e ferozes inimigos. Entre fundamentalistas católicos, é considerado "herege" por sua defesa de pontos de vista progressistas como os casais homoafetivos.

Suas posições sobre o celibato são controversas. O frade, alvo da paixão de uma colega da USP aos 23 anos (namorou a colega e voltou para o convento), já admitiu que não sabe se não se apaixonará de novo. Gosta de lembrar que, no primeiro capítulo do Evangelho de Marcos, está que Jesus curou a sogra de Pedro. Ou seja, o filho de Deus escolheu Pedro, homem casado, como seu apóstolo e primeiro papa. Ainda que o celibato imponha abrir mão do desejo, ele não se diz um homem carente:

- Nunca fui punido pela Igreja e dois papas leram meus livros e gostaram. Paulo VI leu "Cartas da prisão". João Paulo II, "Fidel e a religião".

Por sua defesa de Cuba, já foi chamado de "defensor de ditaduras de esquerda".

- Nenhum país latino avançou tanto nos indicadores sociais, de Saúde e de Educação como Cuba - responde.

A quem acusa seu lado marqueteiro de ser maior que o filosófico, lembra que não dá entrevistas à TV e escolhe a dedo os veículos com que conversa.



NATUREZA MORTA



NATUREZA MORTA



De Walmir Ayala um poema, intitulado ESTAÇÃO, que sempre releio. Ayala, poeta excelente, não sei por que esquecido.


Na geladeira as frutas
escurecem de mortas

O quadro ele começa. A geladeira das frutas. Mortas. Geladas. Frutas. Personalizadas. Com o matiz erótico que caracteriza a poesia dele. Frutas mortas, natureza morta, alma morta, amor morto. Na mesa da geleira, deste Himalaya morto, neste Instituto Médico Legal da autópsia do pomar.

as pêras são secretas
usinas de água doce,

— no ventre das pêras o que está é sua secreção, a suculenta feminilidade, sua pose de ovário e úvula, a complexidade singela, aquela sua capacidade de oferta, de entrega, de lamúria das águas paradas mortas internas secretas dos entraves dos pântanos doces das almas das mais líquidas partes da natureza do amor, as estivais qualidades da natureza das carícias do corpo úmido e cúmplice, dos corpos entregues a si mesmos, que é quando são partes do mais tátil amor que se dá às mãos que deles fazem seus no prazer e no mergulho, nos gozos internos e usos, no segredo do maior e cavernoso introduzir hipodérmico da sua capacidade de sentir e de pulsar. Que é? A água doce do amor, usina do suco impulso do amor. São os líquidos amorosos, langorosos, das umidades humanas.

um mamão decepado
mostra a íntima carne

O mamão macho, o masculino mamão, castrado porém, digo, amputado, calado, prostrado, exibindo entranhas estranhas, na carne devastada, intimidade devassada.

O mamão porte de guilhotina — mamão revolução do estraçalhado. Mamão carne vegetal gengiva mole e aberta.

e as goiabas oloram
seu verão serenado.

O cheiro das goiabas, o perfume do verão no inverno do refrigerador, em antífrase feliz as perfumadas açucaradas e brandas goiabas. O verão olorizado de sereníssimo repouso. Oferecidas ao seu saboroso cheiro do pomar tropical.

Mas são mortas e lentas
neste ofertório as frutas.

Oh, tudo está morto, tudo está congeladamente morto, com frieza da morte, a morte 'lenta', a morte eterna, mumificada, gelada, branca, na porta aberta desta geladeira tumular, deste ofertório poético.

Um vapor congelado
contorna seu mistério.

Envoltas no nevoeiro, envoltas no seu mistério frio, branco, hospitalizado, as obscurecidas frutas medicalizadas, no branco arrepio da poesia misteriosa, do mistério da poesia...

E elas posam no ardor
do branco cemitério
de seu grave pomar.

Fotógrafo, o poeta abre, no seu cemitério doméstico e culinário, na escrita de seu receituário de forno e fogão, na gravitação polar de sua tematização estival (e não outonal). No seu bosque enclausurado.

E a geladeira inventa
surdo primaverar.


Em outro poema, no AQUÁRIO ACESO, os peixes dormem, no suspensório de seus sonhos:

Os peixes submersos dormem
Nadando um sonho enorme
- o aquário é breve e claro,
com selvas silenciosas
que o todo-poderoso
nutre de grão e larva.

É a poesia-aquário cujo conteúdo tem peixes que nadam sem acordar, sem perturbar, entre árvores silenciosas águas e selvas, eternizados pela luminosidade da escrita do todo-poderoso deus que o escreve e nutre de grão e larva, Ayala pesca na profundidade de si mesmo um labirinto de submersão de tentáculos poéticos onde se move como um polvo.

No entanto os peixes dormem.
Qualquer tremor das águas
e nadam aclarados
sonhando-se acordados
sonhando-se acordados.

E o leitor se enreda, se embriaga e sonha. Sonha dentro deste aquário verbal. Treme nessas águas de cristal líquido, o leitor sonha que lê, o poeta sonha-se lido, aclarado, viagem e volta ao íntimo gozo de seu interminável passeio, na lente suspensa das (m)águas.

No seu POMAR ABERTO, erótico, encontra entre as árvores do bosque o objeto de seu amor, esta vegetação da linguagem impossível de sua gestualidade desejante, o desconhecido toque de musa submersa, o paraíso pomar de pomos de luar e perfume do ar, as suculentas frutas, a poesia de Ayala reflete para sempre o domínio do delírio paradisíaco perdido, coro de laranjais em adágio e flores de laranjeiras.

Teu doloroso cheiro de laranjas
inventa este pomar que me embriaga

O prazer doloroso pomar em que se perde e inventa um labirinto embriagante cheio de sucos de invenção poética. As vespas de fogo rasgam de luz a venenosa atmosfera de seu ferrão, o luar do amor abre no peito a rosa amarga do ferrão do gemido gozo e do desenho do rosto grego, estátua em pedra que não está mais que estátua eterna e solitária, igual às frutas no verão da geladeira, mortas. Um paraíso em pomos de ouro a transportar e a ler.

há vespas inflamadas e um luar
enclausura em teu peito a rosa amarga
deste gemido em que és como o desenho
de um rosto antigo, de um sorriso em pedra
(eterno e solitário).

Estranho gemido de chumbo do amoroso langor do gozo que enfim o sorriso corta como a lâmina da faca, com a lâmina dos fios da noite.

Este sorriso que de repente no silêncio medra
e corta os fios da noite em que viajo
para os sempres de mim, tão decididos:
então nos laranjais escuto o adágio,
e o coração que ocultas é sonoro
como a ilha do amor em que me perco
e onde me salvo, e para sempre choro.

Sim, Amor é Ilha, lá onde se salva o que se perde, e lá onde se perde o que se salva, e onde pela contínua solidão como sempre chora.

Porque o amor é natureza morta.

MINUTOS DE SABEDORIA


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domingo, 28 de agosto de 2011

DEFESA DE ZÉ DIRCEU


Repórter da revista Veja é flagrado em atividade criminosa contra mim



Depois de abandonar todos os critérios jornalísticos...

Depois de abandonar todos os critérios jornalísticos, a revista Veja, por meio de um de seus repórteres, também abriu mão da legalidade e, numa prática criminosa, tentou invadir o apartamento no qual costumeiramente me hospedo em um hotel de Brasília.

O ardil começou na tarde dessa quarta-feira (24/08), quando o jornalista Gustavo Nogueira Ribeiro, repórter da revista, se registrou na suíte 1607 do Hotel Nahoum, ao lado do quarto que tenho reservado. Alojado, sentiu-se à vontade para planejar seu próximo passo. Aproximou-se de uma camareira e, alegando estar hospedado no meu apartamento, simulou que havia perdido as chaves e pediu que a funcionária abrisse a porta.

O repórter não contava com a presteza da camareira, que não só resistiu às pressões como, imediatamente, informou à direção do hotel sobre a tentativa de invasão. Desmascarado, o infrator saiu às pressas do estabelecimento, sem fazer check out e dando calote na diária devida, ainda por cima. O hotel registrou a tentativa de violação de domicílio em boletim de ocorrência no 5º Distrito Policial.

A revista não parou por aí.

O jornalista voltou à carga. Fez-se passar por assessor da Prefeitura de Varginha, insistindo em deixar no meu quarto "documentos relevantes". Disse que se chamava Roberto, mas utilizou o mesmo número de celular que constava da ficha de entrada que preencheu com seu verdadeiro nome. O golpe não funcionou porque minha assessoria estranhou o contato e não recebeu os tais “documentos”.

Os procedimentos da Veja se assemelham a escândalo recentemente denunciado na Inglaterra. O tablóide News of the World tinha como prática para apuração de notícias fazer escutas telefônicas ilegais. O jornal acabou fechado, seus proprietários respondem a processo, jornalistas foram demitidos e presos.

No meio da tarde da quinta-feira, depois de toda a movimentação criminosa do repórter Ribeiro para invadir meu apartamento, outro repórter da revista Veja entrou em contato com o argumento de estar apurando informações para uma reportagem sobre minhas atividades em Brasília.

Invasão de privacidade

O jornalista Daniel Pereira se achou no direito de invadir minha privacidade e meu direito de encontrar com quem quiser e, com a pauta pronta e manipulada, encaminhou perguntas por e-mail já em forma de respostas para praticar, mais uma vez, o antijornalismo e criar um factóide. Pereira fez três perguntas:

1 – Quando está em Brasília, o ex-ministro José Dirceu recebe agentes públicos – ministros, parlamentares, dirigentes de estatais – num hotel. Sobre o que conversam? Demandas empresariais? Votações no Congresso? Articulações políticas?

2 – Geralmente, de quem parte o convite para o encontro – do ex-ministro ou dos interlocutores?

3 – Com quais ministros do governo Dilma o ex-ministro José Dirceu conversou de forma reservada no hotel? Qual o assunto da conversa?

Preparação de uma farsa

Soube, por diversas fontes, que outras pessoas ligadas ao PT e ao governo foram procuradas e questionadas sobre suas relações comigo. Está evidente a preparação de uma farsa, incluindo recurso à ilegalidade, para novo ataque da revista contra minha honra e meus direitos.

Deixei o governo, não sou mais parlamentar. Sou cidadão brasileiro, militante político e dirigente partidário. Essas atribuições me concedem o dever e a legitimidade de receber companheiros e amigos, ocupem ou não cargos públicos, onde quer que seja, sem precisar dar satisfações à Veja acerca de minhas atividades. Essa revista notoriamente se transformou em um antro de práticas antidemocráticas, a serviço das forças conservadoras mais venais.

DIRCEU


“Veja” atenta contra os princípios democráticos
Depois de abandonar os critérios jornalísticos e a legalidade, a revista Veja abriu mão também dos princípios democráticos. A matéria de capa desta semana foi realizada no mais clássico estilo de polícia privada, a serviço dos setores que a Veja representa (leia mais neste blog). Viola o princípio constitucional da intimidade e infringe o Código Penal. Ignora o direito a julgamento e condena previamente. E é um amontoado de invenções e erros. Sou cidadão brasileiro, militante político e dirigente partidário. Essas atribuições me concedem o dever e a legitimidade de receber companheiros e amigos, ocupem ou não cargos públicos, de qualquer partido, onde quer que seja, sem precisar dar satisfações à Veja acerca de minhas atividades. A revista tem o claro objetivo de destruir minha imagem e pressionar a Justiça pela minha condenação. Sua campanha contra mim não tem limites. Mas a Veja não fere apenas os meus direitos. Ao manipular fatos, ignorar a Constituição, a legislação e os direitos individuais, a revista coloca em risco os princípios democráticos e fere toda a sociedade.

sábado, 27 de agosto de 2011

RETRATO DE UMA OBRA-PRIMA (conclusão)


RETRATO DE UMA OBRA-PRIMA

Rogel Samuel

É um tema banal, popular, mesmo vulgar. A mãe, já tão gasto motivo dos cadernos poéticos e saudades, pois todos nós tivemos ou temos a mãe a saudar, a lembrar, a louvar, a chorar.

Mas Jorge Tufic é um poeta excepcional: com que realizou sua obra-prima, sonetos pós-modernos em que ele traça o perfil, o “Retrato de mãe“, de sua verdadeira mãe, ou da personagem mãe.

O livro todo está no blog
http://historiadosamantes.blogspot.com/search/label/JORGE%20TUFIC

O pequeno livro é uma obra-prima em quinze sonetos. Começa por uma invocação:

Venham fios de luz, aromas vivos
misturar-se às palavras, à centelha
do louvor mais profundo deste filho

Invocada, a mãe começa a delinear-se, começa a aparecer, vem em fragmentos, pouco nítida, mas forte, mas sentida, pressentida, sim, começa ele a pintar o retrato interno da dulcíssima Mãe e que logo todos nós assumimos, conjuntamente, nossa mãe síntese e simbólica, a Fonte, semente e nome de nossa vida, que tudo nos deu.

Tema freudiano, pois.
E no segundo soneto logo aparece um mistério: Quem será este desconhecido Ramón que aparece no penúltimo verso?
É D. Ramón Angel Jara, Bispo de La Serena, Chile, citado no pórtico do livro. No livro há citações, pós-modernidade. Ou seja, a obra se diz: “Calma, eu sou apenas uma obra literária”.
A descrição, o retrato começa pelos cabelos, as tranças, a voz, a lembrança.
Teus cabelos castanhos, tuas tranças
fazem lembrar as madres de Cartago.

Depois vem a casa, a cozinha, as comidas da culinária libanesa, a lentinha, o azeite, as cebolas fritas, a coalhada, o pão redondo, que a Mãe preparava... mas tudo isso passou. Onde estão as comidas, os pratos de lentilha, a terrina de azeite para as coalhadas, as cebolas fritas? Tudo passou... Como, ao redor da casa, o vento. Como passou o vento do tempo. Também passam a cerca do quintal, os vizinhos, as vozes cantantes, e passaram. E o que passa é aquele Calendário sem datas, o chão do passado, o que passa. A casa da mãe. O que passa.
Lentilha, azeite doce, o acebolado
chia na frigideira de alumínio;
a casa está repleta de convites

Que dizer sobre o quarto soneto? Escreveu Dom Ramon Angel Yara, bispo de La Serena, Chile, no seu igualmente “Retrato de Mãe”: "Uma simples mulher existe que, pela imensidão de seu amor, tem um pouco de Deus; E pela constância de sua dedicação, tem muito de anjo” (Tradução de Guilherme de Almeida).
Que dizer do quarto soneto?
Trata da permanência da mãe. Do que permanece, na lembrança. Mãe não morre nunca. Somos nós mesmos. Nossa Mãe somos nós mesmos, em continuidade dialética.
Em tudo, minha mãe, te vejo e sinto.
Neste verniz antigo, neste cheiro
suavíssimo que vinha do teu corpo,

A permanência é essa, da mãe, que mesmo morta, ainda dói em nós, que ainda cantante, ainda existente, que ainda alivia, ainda consola, ainda sorri.
A mãe é eterna!
Sim, eterna mas morre: é o quinto soneto.
A morte do eterno. A queda dos deuses. E num domingo! É o soneto da morte, do fim. O Eterno, como bem viu Hannah Arendt, é a eternidade do instante. O imortal é a presença da lembrança.
Façamos aqui a distinção (que Hannah Arendt estabelece) entre imortalidade e eternidade, para esclarecimento dessa alienação do mundo moderno.
Imortalidade significava continuidade no tempo através da realização de grandes feitos, obras e feitos notáveis. Por sua capacidade de produzir obras e de realizar feitos imortais, os imortais podiam, através das marcas de sua passagem, participar da natureza dos deuses. Na antigüidade clássica, havia os que ambicionavam à fama e, portanto, à imortalidade, e havia os que, satisfeitos com os prazeres que a natureza lhes oferecia, viviam e morriam como animais. Nesses dois casos, percebe-se uma alienação e uma falta de compreensão do real.
Outra coisa era a experiência do eterno, própria do filósofo no sentido estrito do termo, a visão da eternidade ainda que passageira. Diz Arendt que depõe muito a favor de Sócrates o fato de ele não ter escrito nada, porque não estava preocupado com a fama, ou seja, com a imortalidade. O filósofo vive a experiência do eterno. Se escreve sua experiência, ambiciosa a imortalidade, pois procura deixar para a posteridade algum vestígio de si, a fama.
A experiência do eterno, diz Arendt, só pode ocorrer fora da esfera das ambições humanas. Se morrer é deixar de estar entre os homens, a experiência do eterno é morte. O contrário é a preocupação com a fama, com a imortalidade. Eternidade e imortalidade são dessa maneira, integralmente contraditórios.
Tal experiência, a percepção do Eterno, diz Hannah Arendt, tem de ser rápida, pois ninguém pode suportá-la durante muito tempo. O condicionado e mortal não pode encarar o eterno na sua eternidade, senão indiretamente, rapidamente, numa intuição momentânea. O eterno está fora do mundo do homem. A imortalidade , ao contrário, reside entre os homens, e criação humana. O eterno não, não é condição de condicionamento humano, não é tocado pela ambição humana. O eterno advém ao homem, quando este nada deseja, na imobilidade do pensamento, silenciado pela vida contemplativa. Heidegger sabia disso. Pois o eterno não pode ser convertido em atividade humana, e uma iluminação que não se consegue com o movimento do esforço, mas com a observação pura dos movimentos do pensar. O eterno é positivo, mas nasce quando há radical negação. Nem pode ser aprisionado pelo discurso, pois não pode ser objetivado: “O Tao que tem nome não é o Tao”. O eterno é mais espaço do que razão. Está onde o “eu” não se encontra. Nem está delimitado no tempo, na convenção e no produto humano, pois o eterno é presença. E por isso não pode ser “usado” para a glória e fama do homem. Mais: o eterno não está no sujeito, porém vigora quando desaparecem sujeito e objeto. Ou quando não há espaço entre observador e coisa observada, como diz Krishnamurti.
A Imortalidade, entretanto, foi impiedosamente abalada com a queda do Império Romano. A destruição de Roma mostrou cruelmente que nenhum produto do homem pode ser considerado eterno (ARENDT, Hanna. A condição humana. Rio de Janeiro, Forense/Rio de Janeiro, Salamandra/São Paulo, Ed. Universidade São Paulo. 1981. 339p.).
Portanto, o eterno é a presença. Assim como a presença de minha mãe morte ainda dói, hoje, enquanto escrevo, tantos anos se passaram de sua morte. O fato de minha mãe ainda doer em mim significa que ainda está viva comigo, eu que vivi ao longo da vida sempre longe dela (talvez por isso não tenho nenhuma foto de minha mãe na parede, para não alimentar o fogo de uma dor antiga).

Numa tarde opressiva de domingo,
o estrondo de tua queda: a irreversível
fratura que me dói quando te lembro

A seguir o poeta retrocede, se volta para o tempo materno, ou seja, a infância, a iluminada época da Mãe, da mãe protetora armadura fonte. Nossa juventude dela vinha, nossa fartura se originava nela. A poderosa Mãe, entretanto pobre, que se inquietava na escassez. Mãe bela, esbelta, musical. Mãe mítica! Poderosa fantasia posta em ouro. Em brilhos e luas. Amada que quando voltava trazia o mundo inteiro em seus cabelos, em suas vestes, em suas mãos. Mãe fada.

Nossa infância era toda iluminada
pelas fontes da tua juventude.

O texto é escrito com o intuito, com a inquietante busca de recuperar a imagem daquela criatura mítica, divina, dama antiga, fada e santa, busca infinita de volta ao útero materno, ao ninho antigo, àquele aconchego materno, onde tudo estava em paz, onde nós nos alimentávamos, nos encontrávamos com nossa originária semente, e para isso, para esse canto, o poeta pede a voz do Narciso, na água dos regatos, a imagem da Mãe, dela nunca nós nos poderemos libertar, aquela que em nós vive e dela nunca sairemos.
Mas nada.
Somente versos. Somente nos versos a sua fotografia.

O que a lembrança traz, porém, gera um pavor, o horror da recordação, o recordar aquela cena que não devia de ser nunca recordada, a agonia, a morte, a terrível e insuportável cena da morte, daquela que foi fonte da vida, da alegria, da proteção, abrigo, auxílio, amparo, e por quê?, e como de repente aparece este camoniano “estavas, posta no esquife” - ainda que ela esteja ali liberta como num trono, entronizada no Eterno sono, o sonho rente à luz, Iluminada – a morte veio mas também vieram as galáxias, vieram vales luminosos, abriram-se auroras fartas – mas por teres ido ficam mais sombrios os dias aqui deixados:

Estavas, posta no esquife, igual a todas
as defuntas convulsas, lapidadas.

Depois da morte do Eterno, depois de a mãe ser “posta em esquife”, naquele terrível verso camoniano, ficam as relíquias, os pertences, o vestido de linho desbotado, o sapato, o chinelo, a nuvem, tudo posto num saco tosco, humilde e roto, o legado de uma tristeza infinita, porque o tesouro se enterrara com ela mesma, e não há como dizê-la.
A morte da mãe.

E o canto se transforma em rugidos carcerários, impotentes, de barro, quilhas, peito, e onde o poeta revela seu modelo Jorge de Lima, sua poética, seu traçado.

A viagem é a sua morte.
A morte o tempo, as ampulhetas, as ressonâncias. A que mar foi levada aquela amada? Aquelas viagens se tornam a viajar.

A lembrança neste fim que sempre volta, algo inumerável, roupas no tanque, fantasmas trastes. A voz da mãe. Calvário de lembranças.
O soneto pós-moderno faz reflexões literárias, como essa referência a (Gabriel) Chalita. Ou seja, o poeta ressalta o caráter literário da obra, que se refere a si mesma.
O poeta como que diz: “não chore, isto é apenas literatura”.
E o retrato de mãe fica incompleto, só fragmentos de lembranças, como pedaços de imagem.
Mas o clima, a alma sai inteira, como quem abre a luz da primavera.





FUGA


IMAGEM DE SATÉLITE


FURACÃO




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FURACÃO


FURACÃO HISTÓRICO


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Obama diz que furacão Irene será “histórico" e já há ordem para evacuar parte de Nova Iorque


Tempestade deverá atingir sábado a Costa Leste dos EUA
Obama diz que furacão Irene será “histórico" e já há ordem para evacuar parte de Nova Iorque

26.08.2011 - 18:27 Por PÚBLICO


Barack Obama alertou esta sexta-feira para a probabilidade de o furacão Irene, que se aproxima da costa Leste dos Estados Unidos, causar uma tempestade “histórica”. O mayor de Nova Iorque, Michael Bloomberg, já deu ordens para que sejam evacuadas partes da cidade..


O furacão Irene deverá atingir a costa Leste dos Estados Unidos durante o fim-de-semana, e em sete estados – Carolina do Norte, Maryland, Virgínia, Delaware, New Jersey, Nova Iorque e Connecticut – foi declarado o estado de emergência. Em Nova Iorque, o mayor Michael Bloomberg ordenou a evacuação obrigatória das regiões mais vulneráveis, o que deverá afectar pelo menos 250 mil pessoas.

Os transportes públicos irão encerrar a partir deste sábado, ao meio-dia. As áreas da cidade mais atingida serão Brooklyn, Queens, Staten Island, Battery Park City e a região financeira de Lower Manhattan.

O furacão deverá chegar neste sábado à Carolina do Norte, depois de a sua intensidade ter descido hoje para o nível 2 numa escala de cinco, com ventos de cerca de 169 quilómetros por hora.

Na cidade de Nova Iorque, o sistema de transportes ferroviários, incluindo o metropolitano, vai fechar a partir do meio-dia de sábado, anunciou o governador do estado Andrew Cuomo. Em Nova Iorque milhares de pessoas foram alertadas para abandonar as zonas junto à costa antes da chegada do furacão. A empresa ferroviária Amtrak cancelou jáalgumas viagens de comboio e o exército foi mobilizado em algumas regiões. As pontes da cidade de Nova Iorque serão encerradas se os ventos excederem 96 quilómetros por hora, disse Cuomo.

Em algumas regiões de Delaware, Maryland, New Jersey e Carolina do Norte estão já a decorrer evacuações forçadas. “Não esperem, não se atrasem. Esperamos que tudo corra pelo melhor, mas temos de estar preparados para o pior. Todos temos de encarar esta tempestade a sério. Se vos for dada uma ordem de evacuação, por favor sigam-na”, disse o Presidente norte-americano aos jornalistas a partir de Martha's Vineyard, o local onde se encontra de férias em Massachusetts. “Tudo aponta para que seja um furacão histórico”.

As previsões apontam para que o furacão se desloque em direcção a Washington e Nova Iorque. Nesta sexta-feira, a meio da tarde, estava a cerca de 550 quilómetros do Cabo Hatteras, na Carolina do Norte, a progredir a 22 quilómetros por hora. É enorme: tem um diâmetro de cerca de 820 quilómetros, o que representa cerca de um terço da costa Leste norte-americana (2675 quilómetros).

O furacão Irene poderá afectar cerca de 65 milhões de pessoas em várias cidades ao longo da costa, incluindo Washington, Baltimore, Filadélfia, Nova Iorque e Boston. “Haverá danos, só não sabemos a sua dimensão”, disse à Associated Press Craig Fugate, responsável da agência federal norte-americana para as situações de emergência (FEMA). A Cruz Vermelha já preparou diversos abrigos ao longo da costa.

Tibetanos enfrentam incertezas na era pós-Dalai Lama


Tibetanos enfrentam incertezas na era pós-Dalai Lama

Description: El País

Erich Follath
Em Dharamsala (Índia)

· Description: Estudei todas as formas de governo. A única forma moderna que funciona é a de um parlamento democrático com um primeiro-ministro eleito. Monarquia: ontem. Teocracia: anteontem. Acredito na separação entre a Igreja do Estado. Mas que tipo de hipócrita eu seria se eu não tirasse conclusões desta compreensão?, disse o Dalai Lama

"Estudei todas as formas de governo. A única forma moderna que funciona é a de um parlamento democrático com um primeiro-ministro eleito. Monarquia: ontem. Teocracia: anteontem. Acredito na separação entre a Igreja do Estado. Mas que tipo de hipócrita eu seria se eu não tirasse conclusões desta compreensão?", disse o Dalai Lama

O Dalai Lama oficialmente aposentou-se da política, alegando que quer viver como um “simples monge”. É um momento divisor de águas para o Tibete, em meio a temores de interferência chinesa e controvérsias sobre a nova geração de líderes. Enquanto isso, as autoridades chinesas continuam a reprimir brutalmente protestos de monges tibetanos.

Ele certamente não quer acabar como a rainha Elizabeth 2ª, da Inglaterra. “Com todo o respeito, ela é uma senhora muito agradável, mas ter que recitar discursos ruins escritos pelos outros? Isso não é para mim”, diz o 14º Dalai Lama, conhecido entre os fiéis como “Oceano de Sabedoria” e “Buda da Compaixão”. Ele seca as gotas de suor na testa, com cuidado para não atingir uma mosca que ali pousou. “Eu me sentiria uma marionete”.

Por esta razão, era inconcebível uma solução política para este homem, que muitos adoram como um “deus-rei”. Ele tomou sua decisão apesar das súplicas de seus seguidores tibetanos, independentemente de quanto eles imploraram para que ele continuasse sendo o líder cerimonial do governo no exílio, que ele estabeleceu há mais de 50 anos na cidade indiana de Dharamsala, após os comunistas chineses o forçarem a fugir da capital tibetana de Lhasa. O Dalai Lama não quer mais nenhuma responsabilidade política.

“Não tem nada a ver com renúncia, ou razões de saúde, só com insight”, disse ele em recente entrevista ao “Spiegel” na cidade francesa de Toulouse, onde deu palestras sobre o budismo antes de viajar para a Alemanha nesta semana como convidado do governo de Hesse, na cidade de Wiesbaden. “Estudei todas as formas de governo. A única forma moderna que funciona é a de um parlamento democrático com um primeiro-ministro eleito. Monarquia: ontem. Teocracia: anteontem. Acredito na separação entre a Igreja do Estado. Mas que tipo de hipócrita eu seria se eu não tirasse conclusões desta compreensão?”

Durante séculos, o Dalai Lama foi, na opinião da grande maioria dos tibetanos, tanto o líder secular quanto o líder espiritual de seu povo. O atual detentor do cargo já introduziu estruturas democráticas enquanto estava no exílio, mas são reformas de cima para baixo, e ele sempre tem a última palavra. Agora, ele está se afastando de suas obrigações seculares, inclusive do direito de demitir ministros e de ditar o curso das negociações com Pequim. Ele também pretende reduzir significativamente suas tarefas espirituais e tratar da busca de um sucessor – “homem ou mulher”, como ele diz.

“Quero ser apenas Tenzin Gyatso, um simples monge”, diz ele. Assim, o Dalai Lama assinou a emenda constitucional que torna essa transição possível “com prazer”. “O governo em Pequim me descreveu como obstáculo para todos os acordos. Agora, essa pedra não existe mais, e eles terão de mostrar suas cartas e revelar se pretendem garantir verdadeira autonomia aos tibetanos e se estão falando sério sobre instalarem seu próprio Dalai Lama no futuro.”

Então, como acontece frequentemente, o Dalai Lama dá uma risada contagiante, como uma força da natureza. “Além disso, aí vai uma sugestão para os líderes do Partido Comunista: que tal se unirem a mim e deixarem o poder?”

A cortina caiu. A teocracia está terminando e de forma pacífica, sem banho de sangue. Um deus está se aposentando.

Autoridade moral
Que longa estrada para o Tibete, para uma instituição, para o 14º Dalai Lama, que, como acreditam seus seguidores, nasceu primeiramente em 1391 e, mais recentemente no ciclo de renascimentos, em 1935. E que longa estrada para este Tenzin Gyatso, filho de agricultor que, aos 2 anos de idade, foi escolhido como uma encarnação do Dalai Lama por uma equipe de monges por suas características especiais; que residiu no palácio de Potala em Lhasa quando tinha apenas cinco anos, e foi nomeado líder político de seu povo aos 15; que negociou com Mao e o admirou, até perceber que o Grande Camarada estava tentando usá-lo. Um homem que, após sua viagem dramática de 1959 pelas passagens do Himalaia, pregou a não violência, ofereceu aos governantes chineses de sua terra a renúncia de todos os clamores por independência da nação tibetana em troca de autonomia cultural e recebeu o prêmio Nobel da Paz em 1989.

Para os chineses, o Dalai Lama ainda é o inimigo público número um. Políticos do Partido Comunista o chamam de “lobo com rosto de homem” e “demônio”. No mundo ocidental, contudo, o 14º Dalai Lama é visto como exemplo. De acordo com uma pesquisa de opinião, ele tem mais autoridade moral na Alemanha do que o papa alemão. Muitos o veem como uma alternativa ao político “clássico”, alguém que encarna o que diz, que pratica o que prega e até consegue refletir sobre si mesmo de forma autodepreciativa: uma mistura de Gandhi com um Grouxo Marx, particularmente amado entre celebridades como os atores Richard Gere e Uma Thurman, a primeira-dama francesa, Carla Bruni, e o montanhista italiano Reinhold Messner.

O budismo tornou-se a religião da moda de Los Angeles a Londres, como o monge Padmasambhava previra há mais de 1.200 anos: “Quando o pássaro de ferro voar, quando os cavalos correrem sobre rodas, o rei virá à terra do homem vermelho”. Os alemães são particularmente apaixonados pelo budismo tibetano, com dúzias de centros tibetanos e dezenas de milhares de discípulos do Dalai Lama, que veem a fé asiática como a religião mundial mais atraente, que geralmente não menospreza as pessoas de outras fés. Ela prega a paz em vez da inquisição, a persuasão por meio da meditação em vez da evangelização missionária, a esperança de se atingir o nirvana em vez da ameaça de jihad, e que trata a culpa e o pecado como conceitos de uma tradição religiosa diferente, mais punitiva, e o homem como único criador de seu próprio destino. O que poderia haver de errado nisso?

Devido ao apoio mundial à causa, muitos acompanham o que acontece no Tibete, que consideram a terra de seus sonhos, sua Xangri-lá. Muitas pessoas, porém, não estão conscientes que, até mesmo no século 20, havia disputas brutais pelo poder entre os monastérios do Tibete, que a tortura (inclusive o método particularmente notório de arrancar os olhos das vítimas) era comum, e que as reformas só começaram sob o antecessor do atual Dalai Lama. Poucos sabem que foi apenas o atual Dalai Lama que criticou duramente o feudalismo e pediu uma solução para este aspecto do passado tibetano.

De fato, o 14º Dalai Lama muitas vezes se permitiu ser uma espécie de denominador comum entre todos que buscavam um significado. Agora, ele quer pôr um fim a este papel de objeto de projeção de tudo quanto é tipo de sonho. Ele também quer parar de ser uma “joia que satisfaz desejos” para todos os seus seguidores, outro de seus epítetos. Em vez disso, ele está deixando o Tibete e seu fã-clube mundial com suas próprias histórias.

Mas como isso pode funcionar? Será que uma pessoa pode simplesmente largar seu poder religioso e político como um casaco velho do qual não precisa mais? Isso não torna o Tibete como um Vaticano sem um papa, um lugar roubado de sua identidade única?

Essas não são apenas questões religiosas. A luta pelo legado do Dalai Lama tem mais a ver com a reorientação de um governo no exílio. Envolve questões de poder e influência em uma das regiões mais importantes e disputadas do mundo. Tem a ver com bases militares no Tibete, novas rotas de transporte para bens de consumo, a linha de trem mais alta do mundo, depósitos gigantescos de minerais, incluindo zinco, cobre e lítio e do reservatório de água contido no Himalaia.

Intrigas na comunidade no exílio
No centro deste drama do teto do mundo estão os líderes em Pequim, que detêm o poder sobre a maioria dos quase 6 milhões de tibetanos e os sujeitam a uma supressão política, cultural e religiosa, em uma “região autônoma” repetidamente abalada por confrontos. As autoridades na Índia, a maior competidora da China pelo domínio da Ásia, que faz fronteira com o Tibete ocupado e dá asilo a seus refugiados, também tem um papel importante. E ainda, há os políticos no Ocidente, que veem a questão de um sucessor ao Dalai Lama como uma possibilidade de expandir sua influência.

A capital tibetana de Lhasa é hoje uma cidade de boates, bordéis e palmeiras artificiais, com cada vez mais chineses. O Dalai Lama foi forçado a fugir da cidade como um ladrão no meio da noite. Agora, seu lar ancestral, o palácio de Potala, está virando uma Disneylândia exageradamente decorada.

Enquanto isso, seu exílio indiano a cerca de 1.400 km ao Sul, na cidade de Dharamsala, também conhecida como “Pequena Lhasa”, é um local onde os hippies de hoje esbarram nos monges em cafés da moda como “Shambhala”.

A história do que está acontecendo nas duas cidades é cheia de intrigas e reviravoltas surpreendentes. Uma história em que Shakespeare encontra-se com Sidarta e “O nome da rosa” se mistura com “Hamlet” e “O código da Vinci” para formar uma narrativa que facilmente poderia ser filmada por Hollywood, se não fosse por um porém: parece inacreditável demais.

O Partido Comunista chinês, com seu compromisso oficial ao ateísmo, hoje quer assumir a responsabilidade pela escolha das reencarnações budistas e entronar um novo Dalai Lama. Enquanto isso, as autoridades na comunidade tibetana no exílio vigiam umas as outras e criam intrigas - uma situação similar à do Vaticano, com a competição de cardeais ciumentos.

Lobsang Sangay, 43, é o sucessor político do Dalai Lama. Advogado com doutorado na universidade de Harvard, Sangay há muito é visto como terrorista pelos chineses por ter sido membro do Congresso Tibetano de Jovens. Há também sussurros e advertências sobre ele na comunidade no exílio.

O 17º Gyalwang Karmapa poderia ter um papel importante na escolha do sucessor espiritual do Dalai Lama. O Karmapa, uma figura amada mas controversa, é um monge de 26 anos e terceiro homem na hierarquia de líderes espirituais tibetanos. Contudo, após a descoberta de uma grande quantidade de dinheiro em seu monastério, alguns policiais na Índia especulam que ele seja um espião dos chineses, plantado no ninho do exílio tibetano pelas forças do outro lado do Himalaia.

Algumas coisas estão acontecendo muito abertamente em Dharamsala, lar do governo no exílio na Índia, onde há eleições democráticas: o poder está sendo embaralhado e investigações policiais objetivas estão sendo conduzidas. Na República Popular da China, por outro lado, verdadeiras tragédias estão ocorrendo, em grande parte escondidas dos olhos dos observadores críticos.

Em meados de março, o um monge de quase 20 anos chamado Phuntsok protestou contra a opressão chinesa perto do monastério tibetano de Kirti, na província chinesa de Sichuan, segurando um retrato do Dalai Lama. Depois, ele jogou gasolina em seu corpo e ateou fogo. Ele morreu queimado, mas, de acordo com os exilados tibetanos, as autoridades chinesas também bateram nele enquanto morria.

Uma multidão revoltada rapidamente se reuniu no local da imolação e bloqueou o caminho das forças de segurança. Depois, uma unidade especial forçou brutalmente a passagem pelo muro de pessoas e cercou o monastério, conhecido por ser “desafiador”. Segundo os exilados tibetanos, testemunhas relataram que os monges costumavam ser alvo das autoridades, sendo sujeitos a tortura e lavagem cerebral. Segundo os relatos, dois tibetanos morreram, 300 monges foram detidos e o resto foi obrigado a fazer uma autocrítica humilhante e criticar o Dalai Lama. Kirti literalmente morreu de fome.

Outro monge, Tsewang Norbu, 29, também se incendiou na província de Sichuan, em Dawu, na semana passada, gritando “Liberdade ao Tibete” enquanto morria.

“Nossas mãos estão atadas”, diz o professor Samdhong Rinpoche em tom de desespero, sentado em seu escritório modesto em Dharamsala. Rinpoche, 71, é ex-primeiro-ministro do governo tibetano no exílio.

A única explicação do clérigo para a abordagem particularmente brutal que a China está tomando no momento é a ansiedade que dominou Pequim diante das revoluções no Norte da África. “Eles temem ‘uma revolução jasmim’ na China e por isso estão reprimindo as minorias, os ativistas de direitos civis e os religiosos”, diz ele.

Ele já está sonhando com seu futuro trabalho em uma universidade. “Sabe, acho que eu sou um professor bastante bom”, diz Rinpoche, sem alterar sua expressão. “Mas acho que sempre fui um certo fracasso enquanto político”.

Nada foi alcançado no relacionamento de seu governo com a república popular, diz Rinpoche. “Nós cedemos cada vez mais, enquanto Pequim continuou inflexível e insultou rudemente nossa liderança.” Ele acrescenta rapidamente que suas palavras não devem ser mal interpretadas como críticas ao Dalai Lama. “Não há alternativa ao caminho do meio pacífico da Sua Santidade.”

Mas quem são os dois homens que, após a decisão do Dalai Lama de se aposentar, logo deterão tanta influência? Como pode um acadêmico de Harvard e um jovem monge mudarem o destino do Tibete e como se farão ouvir na sombra do Dalai Lama e sob o olhar hostil e vigilante do poderoso Partido Comunista chinês?

Tradução: Deborah Weinberg

Mzi Mahola


A CASA DO POBRE

Quando era rapaz
Nunca perguntei o motivo
Do percurso solitário
que vinha do abrigo do homem pobre.

Porque ziguezagueava
Como a fuga de uma fera ferida.

Agora que sou adulto
Sei por que os ricos se perturbam
Quando resmungamos.

Mzi Mahola, África do Sul
Trad.: Isaac Pereira
________________________
Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.com
http://cristalina.multiply.com

Quais são as prioridades da presidenta?



Paulo Kliass



Quais são as prioridades da presidenta?

A continuidade da crise no mundo apresenta-se como mais uma oportunidade para escapar do círculo vicioso dessa armadilha que combina a perversidade dos juros altos com a sobrevalorização cambial. Mais uma vez, surge a possibilidade para a Presidente Dilma demonstrar ao povo brasileiro quais são, de fato, as prioridades de seu governo.


Passados quase 8 meses desde a sua posse, o governo da Presidenta Dilma parece já ter definido as prioridades em termos daquilo que considera importante para a sua política econômica. Apesar de toda a expectativa gerada a partir da indicação de alguns nomes para ocupar postos importantes na área da economia, ao que tudo indica a essência da orientação tem sido para continuar tudo na base do “mais do mesmo”. Ou seja, uma linha de continuidade que remonta ainda aos tempos do governo de Fernando Henrique Cardoso e as diversas equipes sob as ordens de Pedro Malan. E depois, mais recentemente, aos dois mandatos de Lula com Palocci, Meirelles e Mantega no comando da economia.

O fato inquestionável é que as linhas mestras definidas desde a edição do Plano Real permanecem intocáveis. O tripé da essência do plano de estabilização continua mantido: i) política monetária de juros elevados, com independência para o Banco Central; ii) política fiscal definida pelo compromisso com a geração de expressivo superávit primário; iii) política cambial com liberdade de transações na conta de capitais e não ingerência do governo na definição da taxa de câmbio.

Lá se vai bem mais de uma década de vigência desses pressupostos, período esse em que algumas crises internacionais fizeram com que as bases ideológicas do Consenso de Washington fossem por água abaixo, em todos os cantos do planeta. Desde a fase mais aguda da crise iniciada em 2008, até mesmo alguns formuladores de política econômica nos próprios países centrais do sistema capitalista se renderam às evidências e começaram a abandonar alguns dos postulados do neoliberalismo. Talvez não tanto por convencimento teórico, e sim por estarem premidos pelo pragmatismo em busca de saídas para seus sistemas econômicos nacionais. Mas o fato é que o keynesianismo (adjetivo considerado demoníaco até poucos anos atrás por todo o “establishment” do mundo da economia e das finanças) saiu da lista dos assuntos proibidos e passou a ser tratado como uma das alternativas aceitáveis para o capitalismo superar a fase atual de dificuldades com que se defronta.

E por mais polêmico e difuso que seja o conceito de “política keynesiana”, alguns pontos são inequívocos e podem significar algum grau de ruptura com o pensamento econômico hegemônico no mundo até a semana passada. Dentre eles, podemos lembrar alguns. A noção de que o equilíbrio de mercado nem sempre oferece a melhor solução para a sociedade. A percepção de que o Estado é um ente importante para a consecução de políticas públicas e que a idéia de redução ao “Estado mínimo” não passa de delírio ou proposta de gente mal intencionada. A sugestão de que o orçamento público não pode ser encarado como uma conta de economia doméstica, onde todo déficit é visto com ares negativos – ou seja, a abertura para situações de déficit público, justamente pelo papel estratégico do estado em ser agente indutor da demanda. E para isso, o setor público deve - sim! - gastar recursos e realizar despesas. E por aí segue a lista.

No momento atual, além disso, o conceito de “keynesianismo” se confunde com o de “desenvolvimentsmo”. Ou seja, os economistas que propõem a busca do desenvolvimento como objetivo específico da política econômica tendem a se valer das hipóteses desenvolvidas por Keynes ainda na primeira metade de século passado. Assim, enquanto a maioria dos economistas ligados ao pensamento hegemônico conservador se arrepiavam apenas em ouvir falar de “política industrial” induzida pelo Estado, agora essa opção volta ao cardápio e passa a ser aceita. Até pouco tempo atrás, alguns membros do governo chegavam a afirmar que a melhor política industrial era, na verdade, não ter nenhuma política industrial. (sic...) Ou seja, permanece subjacente a idéia de que o mercado sempre resolve tudo de forma mais eficiente e que a ação do Estado só viria a atrapalhar e promover desarranjo e disfuncionalidade.

Há quem diga que a análise do orçamento público é um excelente instrumento para se identificar os setores sociais e econômicos que estão sendo beneficiados e prejudicados em uma determinada formação social. Em última instância, uma fotografia que define com a maior clareza quais as prioridades de um governo. E aqui voltamos ao mote do título do artigo: as prioridades.

Um sentimento misto de indignação e frustração ganhou amplos setores de nossa sociedade nos últimos dias, depois que a Presidenta da República vetou alguns dispositivos presentes na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), tal como aprovada no interior da Comissão Mista e no plenário do Congresso Nacional. Dentre eles, um veto veio carregado de significado e deu margem ao início de um debate mais amplo a respeito das reais prioridades do governo. Trata-se do artigo que previa já na LDO a orientação a que o Projeto de Lei do Orçamento de 2012 (ainda em elaboração no Executivo e a ser encaminhado ao Legislativo ao longo do semestre) contivesse a determinação de conceder algum tipo de ganho real aos benefícios da previdência social – a remuneração de aposentados e pensionistas.

O texto do § 3o do art. 48 da Lei 12.465 era simples e singelo: “Serão assegurados os recursos orçamentários necessários ao atendimento da política de ganhos reais aplicável às aposentadorias e pensões do Fundo do Regime Geral de Previdência Social”. A Presidenta vetou essa importante intenção do Congresso com o frágil argumento de que não se trata de um problema de vontade política, mas de impossibilidade concreta por falta de recursos orçamentários. A velha desculpa surrada com que as elites sempre impediram qualquer política efetiva de redução das desigualdades há décadas e séculos em nossa terra.

Porém, uma análise do próprio Orçamento da União em vigência para o ano em curso mostra outra realidade e outras prioridades. Dentre os vários itens que compõem o Total de Despesas Correntes, aquele que mais cresceu foi justamente a rubrica chamada “Juros e Encargos da Dívida”. De 2010 para 2011, os valores cresceram 23% ! Ou seja, bem superior aos 9% de elevação de “Pessoal e Encargos Sociais” e aos 10% de “Outras Despesas Correntes” (que vêm a ser as despesas com saúde, educação, previdência, etc). As despesas com investimentos do governo federal, estratégicas para qualquer projeto de nação, foram reduzidas de 7%. Ou seja, mais uma vez fica demonstrado que o argumento da suposta “falta de recursos” não se sustenta. É conversa prá boi dormir, de quem acha que os interessados não têm condições de achar o caminho das pedras e descobrir para onde estão sendo destinados os recursos que efetivamente existem.

No início do ano, o salário mínimo foi reajustado em menos de 7% (de R$ 510 para R$ 545) pois “não havia recursos disponíveis”. O famigerado fator previdenciário continua a ser aplicado para reduzir os valores devidos de pensões e aposentadorias do INSS pois “não há recursos disponíveis”. Já para os que vivem da rentabilidade dos títulos da dívida pública, os ganhos reais são mais elevados.

Ao longo das 5 primeiras reuniões do COPOM desde o início do mandato de Dilma, a taxa de juros oficial do governo – a SELIC – sofreu 5 aumentos consecutivos, saltando dos 10,75% do final de 2010 para os atuais 12,50% ao ano. Uma espécie de obstinação dos diversos responsáveis pela política econômica em manter o vergonhoso recorde mundial na modalidade! Uma simples operação matemática nos mostra que, caso levemos em conta o atual estoque de dívida pública em torno de R$ 1,7 trilhão, as despesas do País com a rolagem da dívida ao longo de 12 meses supera a barreira de R$ 210 bilhões, num cálculo bem otimista.

Para esse tipo de despesa, a racionalidade do discurso muda de figura. Para pagar juros da dívida pública, não há o que temer: sempre “há recursos disponíveis”. Quando se trata de honrar os conhecidos e vultosos compromissos com as instituições do sistema financeiro, as tais das dotações orçamentárias nunca faltam. Afinal, tudo indica que é mais importante assegurar os interesses do chamado “mercado” do que aumentar os gastos com saúde, educação, previdência, saneamento e similares.

E aqui parecem ficar evidentes quais foram, até agora, as reais prioridades do governo da Presidenta Dilma. Sim, pois não basta fazer cara de boa gente e receber as lideranças do movimento social em palácio. Apesar de posar para as fotografias com o simbólico chapéu de palha da Marcha das Margaridas, o governo não se comprometeu com as reivindicações mais sérias do movimento: reforma agrária e recursos do Programa da Agricultura Familiar para as mulheres [1] . E aos poucos algumas lideranças do próprio movimento sindical parecem ter se dado conta dos prejuízos causados às suas bases em função da postura passiva adotada até o momento, achando que um governo eleito por partidos supostamente comprometidos com os trabalhadores seria suficiente. Anestesiados até o momento, encontram dificuldade para reencontrar o caminho da luta e da reivindicação. Afinal, as próprias representações sindicais reconhecem que o governo tem dado mais ouvido e atenção aos empresários do que aos trabalhadores. E citam os casos recentes, como a perigosa proposta de desoneração da folha de pagamentos das empresas, a privatização dos aeroportos, definição de prioridades para política industrial, entre outros.

No final do dia 31 de agosto ficaremos sabendo o resultado da próxima reunião do COPOM. Com toda a certeza a decisão será por uma redução da taxa SELIC – afinal já passaram há muito dos limites. Mas isso fica como a malandragem da estória do “bode na sala”. Para ser eficaz, a diminuição da taxa de juros deve ser significativa, de muitos pontos percentuais. Não adianta querer jogar para a platéia e sair comemorando uma queda de 0,5% ou 1,0%. O diferencial entre a taxa de juros no Brasil e nos países mais desenvolvidos continua enorme – lá fora ela é próxima de 0%. Assim, além de seu patamar elevado prejudicar as atividades na economia real, a taxa de juros nesses níveis continua a provocar a inundação de nosso País com recursos externos podres, de natureza puramente especulativa.

Na outra ponta, o governo deve atuar de forma ativa para trazer a taxa de câmbio para posições mais realistas, promovendo alguma desvalorização do real. Para tanto basta se valer de um aumento da tributação do capital especulativo, uma vez que o nível de impostos atualmente incidente nessas operações não chega a reduzir a excelente rentabilidade oferecida pelo mercado financeiro brasileiro. Caso contrário, continuaremos no atual círculo vicioso de suicídio econômico, bem simbolizado pelo paradoxo da exportação de minério de ferro para importar trilho manufaturado. E no aprofundamento do já conhecido processo de desindustrialização.

A continuidade da crise no mundo apresenta-se como mais uma oportunidade para escapar do círculo vicioso dessa armadilha que combina a perversidade dos juros altos com a sobrevalorização cambial. Em todos os momentos anteriores, o governo tremeu de medo frente ao capital financeiro e nada fez para romper com o modelo. Agora, mais uma vez, surge a possibilidade para a Presidente Dilma demonstrar ao povo brasileiro quais são, de fato, as prioridades de seu governo.

NOTA:[1] Ver: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18321

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

ESTRANHO LUGAR



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Rio de 6 mil km é descoberto embaixo do Rio Amazonas


Rio de 6 mil km é descoberto embaixo do Rio Amazonas
Descoberta foi feita graças a dados de poços perfurados pela Petrobras. Rio corre a 4 mil metros de profundidade

AE | 25/08/2011 10:34



Rio de 6 mil km é descoberto embaixo do Rio Amazonas Descoberta foi feita graças a dados de poços perfurados pela Petrobras. Rio corre a 4 mil metros de profundidade


selo

Pesquisadores do Observatório Nacional (ON) encontraram evidências de um rio subterrâneo de 6 mil quilômetros de extensão que corre embaixo do Rio Amazonas, a uma profundidade de 4 mil metros. Os dois cursos d’água têm o mesmo sentido de fluxo - de oeste para leste -, mas se comportam de forma diferente.

A descoberta foi possível graças aos dados de temperatura de 241 poços profundos perfurados pela Petrobras nas décadas de 1970 e 1980, na região amazônica. A estatal procurava petróleo.

Fluidos que se movimentam por meios porosos - como a água que corre por dentro dos sedimentos sob a Bacia Amazônica - costumam produzir sutis variações de temperatura. Com a informação térmica fornecida pela Petrobras, os cientistas Valiya Hamza, da Coordenação de Geofísica do Observatório Nacional, e a professora Elizabeth Tavares Pimentel, da Universidade Federal do Amazonas, identificaram a movimentação de águas subterrâneas em profundidades de até 4 mil metros.

Foto: Getty Images

Cientistas descobrem que há um rio subterrâneo de 6 mil km abaixo do sinuoso Rio Amazonas (foto)

O dados do doutorado de Elizabeth, sob orientação de Hamza, foram apresentados na semana passada no 12.º Congresso Internacional da Sociedade Brasileira de Geofísica, no Rio. Em homenagem ao orientador, um pesquisador indiano que vive no Brasil desde 1974, os cientistas batizaram o fluxo subterrâneo de Rio Hamza.

Características
A vazão média do Rio Amazonas é estimada em 133 mil metros cúbicos de água por segundo (m3/s). O fluxo subterrâneo contém apenas 2% desse volume com uma vazão de 3 mil m3/s - maior que a do Rio São Francisco, que corta Minas e o Nordeste e beneficia 13 milhões de pessoas, de 2,7 mil m3/s. Para se ter uma ideia da força do Hamza, quando a calha do Rio Tietê, em São Paulo, está cheia, a vazão alcança pouco mais de 1 mil m3/s.


As diferenças entre o Amazonas e o Hamza também são significativas quando se compara a largura e a velocidade do curso d’água dos dois rios. Enquanto as margens do Amazonas distam de 1 a 100 quilômetros, a largura do rio subterrâneo varia de 200 a 400 quilômetros. Por outro lado, a s águas do Amazonas correm de 0,1 a 2 metros por segundo, dependendo do local. Embaixo da terra, a velocidade é muito menor: de 10 a 100 metros por ano.

Há uma explicação simples para a lentidão subterrânea. Na superfície, a água movimenta-se sobre a calha do rio, como um líquido que escorre sobre a superfície. Nas profundezas, não há um túnel por onde a água possa correr. Ela vence pouco a pouco a resistência de sedimentos que atuam como uma gigantesca esponja: o líquido caminha pelos poros da rocha rumo ao mar.

Cidade no sudeste da Coreia do Sul abriga tesouros culturais e relíquias do budismo


Cidade no sudeste da Coreia do Sul abriga tesouros culturais e relíquias do budismo

Description: Le Monde

Philippe Mesmer
Enviado especial a Daegu (Coreia do Sul)


As cercanias da cidade sul-coreana de Daegu, que entre os dias 27 de agosto e 4 de setembro sediará o Campeonato Mundial de Atletismo, abrigam diversos tesouros que fazem parte da lista do Patrimônio Mundial da Unesco. Muitos deles se encontram em Gyeongju, ex-capital do reino de Silla (57 a.C a 935) e ponto de notáveis riquezas culturais. Túmulos da realeza, templos e relíquias dos primórdios do budismo na península, os tesouros de Gyeongju – 270 mil habitantes, às vezes apelidado de “museu sem paredes” – se espalham por um ambiente verdejante, longe da agitação urbana.

Como o templo Bulguksa. As primeiras obras datam de 751, embora uma pequena construção tenha sido erguida ali já em 528, um ano depois que o budismo foi adotado como religião do Estado pelo rei Beopheung, soberano de 514 a 540. O tempo, a deterioração e as reformas fizeram como que restassem somente algumas estruturas das construções do período de Silla, entre elas o templo Seokgatap, com treze séculos de idade e exemplo do estilo tradicional coreano. Mas o conjunto mantém um charme inegável, que harmoniza com seu ambiente florestal.

Reencarnar como dragão

Perto do templo se encontra a Gruta de Seokguram, aonde se chega por um caminho repleto de forsythias, que acompanha a encosta da Montanha Toham, ela mesma um ponto de junção de cadeias montanhosas: a de Taebaek, que desce do norte, e a de Soubaek, vinda do oeste. Escondido atrás de uma pequena construção do século 20 encontra-se um Buda de 3,5 metros de altura, sentado sobre uma estrutura em forma de lótus. Esculpido em um granito predominantemente bege, segundo uma tradição vinda da Índia, ele ocupa o centro de uma rotunda com paredes que retratam bodisatvas e as divindades hindus Brahma e Indra.

Na frente da rotunda, uma antecâmara decorada com baixos-relevos pode receber alguns fiéis que se inscrevem com antecedência. Do lado de fora, o local oferece uma vista magnífica até o Mar do Leste (Mar do Japão), onde se encontra, a algumas centenas de metros da orla, o túmulo de Munmu, rei de 661 a 681, que teria escolhido essa sepultura com o sonho de reencarnar como dragão para proteger a península.

Quando se desce da Montanha Toham de volta para Gyeongju, é recomendado percorrer as chamadas cinco zonas “históricas”, onde se poderão ver os grandes túmulos de vários soberanos, entre eles o da Rainha Seondok (606-647), que mandou construir o observatório astronômico Cheomseongdae. Essa sóbria estrutura, que segundo alguns foi realizada com 362 pedras de granito, o mesmo número de dias do calendário lunar, tem 9,4 metros de altura. Ainda próximo de Daegu, mas mais para o interior, fica o templo Haeinsa, em Hapcheong, que oferece uma possibilidade de estadia. Cercado por lugares de retiro perdidos na densa e úmida floresta dos arredores, o conjunto, construído no século 9 na Montanha Gaya, é o coração da ordem budista de Jogye.

Sua construção mais notável: o Janggyeong Panjeon, hábil estrutura de madeira que serve de cenário para o famoso Tripitaka Koreana, a coleção de textos budistas considerada a mais completa do mundo. Frutos de um trabalho iniciado em 1011 (o milênio será tema de eventos em setembro), esses escritos, que incluem ensinamentos de Buda e comentários diversos, estão gravados em 81.258 blocos de madeira, tendo recebido um tratamento especial por muitos anos.

O Janggyeong Panjeon foi idealizado no século 15 especialmente para preservá-los. “Seu sistema natural de ventilação limita as variações de temperatura e de umidade”, explica o venerável Sung Ahn. “Houve sete incêndios em Haeinsa, mas ele nunca foi destruído. E nenhum animal ou inseto se aproxima dele”. Nos anos 1970, o governo quis erguer uma construção em concreto para guardar os blocos do Tripitaka, mas diante de sua rápida deterioração, ele desistiu.

Além dos locais de cunho religioso, a vizinhança de Daegu oferece diversos tesouros do passado coreano, como os dois vilarejos tradicionais de Yangdong e de Hahoe. Situado na municipalidade de Gyeongju e construído no século 15, Yangdong abriga um grande número de hanok, as tradicionais casas dotadas de sistema de aquecimento no chão e ventilação que permite suportar melhor o frio do inverno e o calor estival.

Hahoe, mais ao norte, existe desde o século 16 na curva do Rio Nakdong, na municipalidade de Andong. Sede da grande família política dos Ryu, ele foi um importante centro de ensino do confucionismo, doutrina dominante da dinastia Joseon (1392-1897). É também de lá que vêm as máscaras usadas na dança tradicional de Byeolsingut, hoje parte dos tesouros nacionais da Coreia.

Tradução: Lana Lim

DENTRO DA CASA DE KADAFI


Steve Jobs deja su cargo de CEO


RIO -Em decisão histórica, Steve Jobs anunciou na noite de quarta-feira sua saída do cargo de diretor-executivo da Apple. Em licença médica desde 17 de janeiro último, Jobs trouxe à tona com sua decisão novos temores sobre seu estado de saúde - em 2004 o executivo teve um câncer no pâncreas, supostamente curado, e fez um transplante de fígado em abril de 2009.

"Eu sempre disse que se chegasse o dia em que não pudesse mais cumprir meus deveres e expectativas como diretor-executivo da Apple, eu seria o primeiro a dizer-lhes", afirmou Jobs em mensagem à diretoria da Apple. "Infelizmente, esse dia chegou. Por meio desta, renuncio ao cargo de diretor-executivo. Eu gostaria de servir, se a diretoria achar conveniente, como presidente do conselho, diretor e funcionário da Apple".

Para seu sucessor, Jobs apontou o diretor-executivo em exercício, Tim Cook, cujo nome já estaria no plano de sucessão da empresa californiana. Disse ainda acreditar que "os dias mais brilhantes e inovadores da Apple ainda estão à sua frente", e que esperava observar e contribuir para o sucesso da empresa em seu novo posto.