quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

CARDEAL DE PARIS NA CATEDRAL DE NOTRE DAME

 
FOTO DE R. SAMUEL



CAIO FERNANDO ABREU

Toda vez que chego a Paris tenho um ritual particular. Depois de dormir algumas horas, dou uma espanada no rodenirterceiromundista e vou até Notre-Dame. Acendo vela, rezo, fico olhando a catedral imensa no coração do Ocidente. Sempre penso em Joana d’Arc, heroína dos meus remotos 12 anos; no caminho de Santiago de Compostela, do qual Notre-Dame é o ponto de partida — e em minha mãe, professora de História que, entre tantas coisas mais, me ensinou essa paixão pelo mundo e pelo tempo.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A Palestina vai ao Oscar. E é detida no aeroporto

A Palestina vai ao Oscar. E é detida no aeroporto
O filme palestino ‘5 Broken Cameras’ é um dos indicados ao Oscar de melhor documentário estrangeiro. Mas seu diretor, Emad Burnat, a esposa Soraya e o filho Gibril foram detidos na terça (19) ao desembarcarem no aeroporto de Los Angeles, onde participariam da premiação. Acabaram levados para uma área fechada nas dependências do aeroporto e submetidos a interrogatório.
 
 
Emad Burnat, diretor de ‘5 Broken Cameras’ [5 câmeras quebradas], filme indicado ao Oscar de melhor documentário estrangeiro, foi detido na noite de 19 de fevereiro ao desembarcar no aeroporto de Los Angeles, Califórnia, para participar da festa do cinema de Hollywood. Ele, a esposa Soraya e o filho Gibril, de 8 anos – que também participam do filme –, foram levados para uma área fechada nas dependências do aeroporto e submetidos a interrogatório. Segundo as autoridades de imigração, Emad não tinha em seu poder o “convite apropriado para o Oscar”, seja lá o que isso for.

Emad enviou uma mensagem, pelo celular, a Michael Moore, o polêmico documentarista de ‘Tiros em Colombine’, ‘Fahrenheit 11 de setembro’ (filme que questiona a versão oficial do atentado ao World Trade Center) e um dos diretores da Academia de Hollywood. Moore denunciou a detenção a seus 1,4 milhão de seguidores no Twitter e acionou o pessoal da Academia, que por sua vez contatou advogados para cuidar do caso. “Pedi a Emad que repetisse meu nome várias vezes aos oficiais da imigração e que lhes desse meus números de telefone”, disse Moore. “Parece que eles não conseguiam entender como um palestino podia ter sido indicado ao Oscar”, completou, irônico.

Moore também deixou claro que faria o que estivesse a seu alcance para impedir a deportação que ameaçava a família Burnat. E foi bem-sucedido, porque uma hora e meia depois eles foram libertados. “Mas só poderão ficar em Los Angeles uma semana, até o Oscar”, esclareceu Moore. E, de novo com ironia, acrescentou: “Bem-vindos aos Estados Unidos!”

Para Emad, a detenção não é nenhuma novidade. “Quando se vive sob ocupação militar, sem nenhum direito, esse é um acontecimento diário”, declarou. O filme ‘5 Broken Cameras’ é o resultado de sete anos de trabalho de Emad, que comprou a primeira câmera quando Gibril nasceu e passou a registrar tudo o que acontecia em sua vila natal, Bil’in, na Cisjordânia sob ocupação militar de Israel. Ajudado pelo israelense Guy Davidi, que esteve ao lado da resistência de Bil’in desde os primeiros dias, foi responsável pelo pós-roteiro de ‘5 Broken Cameras’ e figura como codiretor, Emad fez um documento fundamental para a compreensão, pelo público externo, do cotidiano palestino sob ocupação. O título do filme faz referência às cinco câmeras que o exército israelense inutilizou ao atingi-las com tiros. Numa dessas ocasiões o equipamento salvou a vida do diretor – a câmera deteve a bala atirada na direção da cabeça de Emad.

Cineasta por acaso – e por necessidade
Emad Burnat nunca pensou em se tornar cineasta. Foi a necessidade de registrar a ocupação – para proteger os vizinhos, pois os soldados, receosos de um dia enfrentar o Tribunal Penal Internacional, evitam agir com muita violência diante das câmeras –, de mostrar ao mundo, pela internet, a realidade na Palestina, até poucos anos atrás oculta pela narrativa sionista, e de ter provas para apresentar aos tribunais de Israel, aos quais o exército conta histórias implausíveis mas levadas a sério, que levaram Emad a filmar.

Ele comprou sua primeira câmera em 2005, ano do nascimento de Gibril, para gravar seu crescimento e a vida em família. Mas era impossível limitar-se a temas domésticos numa vida sob ocupação militar. As incursões noturnas dos soldados, os ataques aos moradores durante as manifestações não violentas, as prisões, as invasões dos colonos, a construção do primeiro muro e seu desmantelamento em 2011, bem como a execução do segundo muro, tudo era muito impactante no cotidiano de Bil’in e merecia ser registrado.

Essa opinião era compartilha por Guy Davidi, professor de cinema, que em 2005 passou a ir com frequência à vila palestina e chegou a morar lá por alguns meses, para sentir como era viver sob ocupação. Guy produziu alguns curtas sobre Bil’in, onde filmou, entre 2005 e 2008, ‘Interrupted streams’ [‘Fluxos interrompidos’], sobre o confisco das fontes de água palestinas por Israel. Muitas vezes Emad e Guy filmavam juntos as manifestações, os ataques dos soldados, as detenções. Corriam os mesmos riscos. Tornaram-se amigos.

Foi ao longo desses anos que Emad começou a pensar em reunir seu material num longa-metragem sobre a resistência em Bil’in. Estimulado pela família, pelos amigos e por Guy, ele conseguiu tocar o projeto. Só não esperava o sucesso que se seguiu ao lançamento. Cineasta por intuição, Emad ganhou o respeito e a admiração de seus pares ao redor do mundo.

Referência ao Brasil e vários prêmios
Uma das cinco câmeras quebradas exibe um adesivo da bandeira brasileira, símbolo também presente na porta da casa da família Burnat, em Bil’in – um modo de demonstrar o carinho que eles sentem por nosso país. Soraya, esposa de Emad, é palestina criada no Brasil. O casal e os filhos mais velhos falam um português impecável e sem sotaque.

‘5 Broken Cameras’ é o primeiro filme palestino a concorrer a um Oscar. Além de muito elogiado pela crítica, vem tendo uma trajetória de sucesso em todo o mundo. Em 2012, foi indicado para o ‘Asian Pacific Screen Award’ e ganhou o prêmio de melhor documentário no ‘Jerusalem Film Festival’; o de melhor diretor de documentário no Sundance (também foi indicado para o Grande Prêmio do Júri desse festival), nos Estados Unidos, e o Busan Cinephile, do Busan International Film Festival, da Coreia. Em 2011 recebeu o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio Especial do Público no International Documentary Film Festival Amsterdam (IDFA), na Holanda. A. O. Scott, crítico de ‘The New York Times’, considerou-o uma “comovente e rigorosa obra de arte”.

Ele tem razão. No documentário, com sensibilidade, Emad funde sua vida e a de sua família com a história da ocupação de Bil’in. É uma história comum à maioria dos milhões de palestinos que nasceram nos hoje dezenas de vilarejos – eram mais de 500 antes que os sionistas os tomassem à força, nos anos 1940 – que circundam as 11 cidades da Cisjordânia, compondo as regiões distritais daquela parte do Estado da Palestina.

Com texto de Guy Davidi, e narrado por Emad, o filme nos conduz pelas belas paisagens de Bil’in, mostrando a chegada dos agrimensores israelenses para a medição das terras que seriam confiscadas; as reuniões entre os moradores e o pessoal do grupo Anarquistas Contra o Muro, de Israel, que conseguiu o mapa com o traçado do muro e se uniu aos bilainenses para boicotá-lo; os primeiros enfrentamentos com o exército israelense; as prisões, a progressão dos desafios e da violência, a consolidação da resistência, o apoio internacional à luta não violenta de Bil’in.

Há cenas geniais, como a do grupo de moradores que barra o avanço dos soldados na área urbana da vila com instrumentos de percussão improvisados, numa “bateria” ruidosa e criativa. Há também cenas difíceis, em que Emad se vê obrigado a filmar a prisão dos irmãos e de um vizinho, um menino, e cenas trágicas, como o assassinato de Bassem Abu-Rahmah, o Fil, até aquele momento um dos líderes da resistência e um dos protagonistas do filme. A sequência é dolorosa, embora o público seja poupado das tomadas mais dramáticas.

O documentário leva o público a participar do cotidiano de Bil’in e a vivenciar um pouco do que significa estar submetido a uma ocupação militar. Trata-se de documento histórico, denúncia viva dos abusos cometidos pelo exército sionista. Por isso mesmo, a cena em que o pequeno Gibril, mal se sustentando em seus primeiros passos, oferece um ramo de oliveira a um dos soldados israelenses – que o aceita, com um sorriso culpado e sem jeito – surpreende e enternece. Num momento assim não há como deixar de questionar o mal que os sionistas têm feito aos seres humanos que vivem de um lado e de outro do muro. Não fossem eles, provavelmente palestinos de todas as religiões teriam continuado a conviver em harmonia na Palestina histórica. Os inimigos e a discórdia vieram de fora. Será possível neutralizá-los e resgatar a antiga harmonia, dessa vez juntando ao antigo grupo os cidadãos de Israel, como propõem palestinos e israelenses que defendem a existência de um único Estado, democrático e secular, com direitos iguais para todos?

O impacto nos jovens de Israel
É difícil responder a essa indagação sem levar em conta as alianças do sionismo e seu papel decisivo nas finanças internacionais, na indústria bélica e na tecnologia nuclear. O movimento praticamente domina os setores estratégicos sobre os quais se desenrola o teatro do mundo. É ele que cuida do caixa, do lucro, da produção e do roteiro do espetáculo. Por isso, o combate não se restringe à ação dos sionistas na Palestina. Eles se espalham cada vez mais, controlando governos, territórios e ramos de atividades nos cinco continentes.

Mas é em Israel que seu controle se estende a toda a sociedade. Lá, o sistema educacional garante apoio e submissão aos princípios sionistas nesta e nas futuras gerações. Assim, quem nasce em Israel aprende, desde a infância, que os palestinos são “árabes que vivem em território israelense” – e inimigos. A maior parte dos livros didáticos faz pouca referência à Palestina – nos mapas, por exemplo, Cisjordânia e Gaza são mostradas como território de Israel – e a sua história. A grande maioria dos jovens israelenses não sabe que seu país ocupa outro, e tem de seu exército uma visão heroica e romântica, fabricada pela propaganda sionista.

Contribui para essa ilusão um programa muito comum nos feriados e nos fins de semana em Israel: os pais costumam levar os filhos pequenos a locais onde são expostos equipamentos de guerra, que as crianças podem experimentar, e veículos nos quais elas entram e fingem controlar. Tudo sob o olhar complacente da família e diante das explicações de jovens soldadas e soldados. Para entender como essa indústria da violência funciona, assista ao vídeo produzido pelo israelense Itamar Rose:
http://youtu.be/Qp67KehlVGU.

Não é de admirar, portanto, que as crianças de Israel desenvolvam a ideia de que a solução de seus problemas – ou daquilo que lhes é ensinado como “problema” – passa pela via militar. Foi para desfazer essa crença que Guy Davidi decidiu mostrar ‘5 Broken Cameras’ a um grupo de jovens em Israel e filmar suas reações. Suas expressões, durante a exibição do documentário, dizem muito sobre a revelação de como é a vida dos palestinos: indicam surpresa, choque, consternação, revolta, compaixão.

Diante dessa experiência, Davidi resolveu elaborar um projeto maior: levar ‘5 Broken Cameras’ ao público israelense em sessões que permitam reflexões e debates sobre a ocupação, a violência imposta aos palestinos de maneira direta e aos israelenses de modo indireto, o dia a dia dos cidadãos dos dois lados do muro, o próprio muro, o questionamento ao papel do exército e à ideologia dos soldados – que, como eu mesma pude comprovar nas muitas conversas que travei com eles, têm dos palestinos e dos árabes uma imagem deturpada, assimilada em uma existência inteira de educação dirigida e controlada. Conheça a surpreendente experiência de Guy Davidi com os jovens israelenses:
http://youtu.be/i1wEszQYEzg.

Será que a arte pode promover compreensão e tolerância, aproximando duas populações separadas pela agenda bélica e expansionista das autoridades sionistas? Será que a mudança necessária pode começar da base de ambas as sociedades, as únicas instâncias portadoras de legitimidade para isso? É uma aposta ousada, a dos diretores de ‘5 Broken Cameras’. Aguardemos os resultados.

FOTOS

Activistas palestinianos durante um confronto com soldados israelitas em Hebron, Cisjordânia

  • Um casal aprecia o final do dia na praia de Clovelly, em Sydney, Austrália

  • O secretário de Estado americano John Kerry nas portas de Brandenburgo, em Berlim


  • segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

    MEDITAÇÃO NO PARQUE


     

    MEDITAÇÃO NO PARQUE

     

    Rogel Samuel


     

             Meditação no parque. Vento frio, apesar do verão. Frio, em Poços de Caldas. Reflexão no Parque. O ano de 2003. Passou. A criança passa, passa por mim, na pequena bicicleta. Olha para mim. Sorri. Nenhum plano, para o futuro. O futuro, esse não existe. Possivelmente não, nada será igual ao que planejamos. 2003 sim, foi muito bom. Mesmo. Passou, mas valeu. Se tive lá o meu cálice de lágrimas, também sorvi, e com avidez, a minha taça de prazeres e realizações. De um certo ponto de vista, esse foi um dos melhores tempos de toda a minha vida.  Não, não se deve pensar em melhorar o que é, o que está, e está bem em sua própria natureza de ser. A vida, esta coisa se oferece, como ampla paisagem, - nós tomamos o rumo. A vida é restauração, é tempo, tempo que se esgota, que se encurta, momento a momento, cada vez menor. Menos tempo, menos vida, a cada respiração mais próximos do fim, a temporalidade se põe no horizonte, como o sol, ainda muito brilhante, mas cadente. Que fizemos nós, do tempo que dispomos? Dizia o mestre Suzuky: «O Zen ordena que neguemos tudo o que se atravesse em nosso caminho, e mesmo essa tentativa de negar deve ser negada». Toda experiência de vida é única, se recusa a ser explicada. A vida, - um presente que recebemos devido à nossa coragem, ao nosso amor, ao nosso interesse pelas outras pessoas. Que fizemos nós, em 2003, na vida? Da vida? A que tipo de vida nós nos propusemos? Somo todos esquecidos,  vivemos sonâmbulos ou irrequietos. Nós nos esquecemos dela, da vida, seja o que for, do viver com amplidão de sentido. Nos esquecemos. Em 2003 escrevi essas crônicas. Com regularidade. Tive quem mas lessem. Tive alguns bons leitores. De qualidade. Veja você. Há uns poemas de Saichi, o carpinteiro poeta, que dizem:

     

                                Onde estas tu, Saichi? No céu?

                                Aqui é o céu.

     

                                Esse eu, com um olho dado por ti,

                                O olho que te vê.

     

                               

             Soam agradavelmente aos ouvidos os ruídos do parque. Algumas vozes. Longínquas. Gritinhos estrídulos, crianças, pássaros. As velhas andam, vagarosas. Pesadas de passado. Se se libertassem do passado, dançariam, livres, leves, soltas no ar como nuvens. Como pássaros. O passado tem seu peso morto, acumulado, lastro do navio casco cheio de lodo ferro. Entre as flores passam jovens namorados, ainda jovens, ainda puros. Ele acreditam no amor, acreditam na vida. Seus corpos belos frescos, eles irradiam felicidade. Rosas. Eu hoje acredito no amor. Acredito na vida. As rosas abertas ao verão, às chuvas de verão. Sinto-me irmão daquelas velhas, confuso, lúcido, como os namorados, as crianças. Escreveu Fernando Pessoa (ou melhor Ricardo Reis, seu outro):

     

                                Prazer, Mas devagar,

    Lídia, que a sorte àqueles não é grata

    Que lhe das mãos arrancam.

    Furtivos retiremos do horto mundo

    Os depredandos pomos.

    Não despertemos, onde dorme, a Erínis

    Que cada gozo trava.

    Como um regato, mudos passageiros,

    Gozemos escondidos.

    A sorte inveja, Lídia. Emudeçamos. 

     

    Sim, Pessoa, ou Ricardo Reis, tão sábio. As Erínias eram as Fúrias, seres terríveis que representavam o restabelecimento da Ordem, destruída por um crime. Eram vinganças vivas, e viviam no Erebo. Seres anteriores ao próprio Zeus. Geralmente havia três deusas, três Fúrias, tinham víboras em lugar de cabelos, cara de cão, corpo de vampiro, os olhos sanguíneos. «Erinis» significa «odiosa». O chamá-las de «Fúrias», como os Romanos, significava que eram «a loucura da vingança». Pessoa considera o prazer como um «crime», ou melhor, ele criminaliza o prazer do amor, o resvala na sua sexualidade. «Não despertemos, onde dorme, a Erínis / Que cada gozo trava»,

    significa «gozemos escondidos». Como um regato entre árvores, como passageiros mudos, como adolescentes em «pecado», gozemos no escondido, no escuro, ou nas sombras do parque desta meditação do parque, com o cuidado e o medo do despertar policial das Erinis.

     

    Arrecadação federal bate recorde e soma R$116 bi em janeiro, diz Receita

    Arrecadação federal bate recorde e soma R$116 bi em janeiro, diz Receita

    BRASÍLIA, 25 Fev (Reuters) - O governo federal arrecadou 116,066 bilhões de reais em impostos e contribuições em janeiro, resultado recorde, segundo a Receita Federal informou nesta segunda-feira. O número representa alta real de 6,59 por cento sobre igual mês do ano passado.
    O aumento no recolhimento de tributos veio, em maior parte, do pagamento da primeira cota ou cota única do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) relativa ao resultado do último trimestre do ano passado.
    Também houve, segundo a Receita, a antecipação do ajuste anual do IRPJ e da CSLL calculado sobre lucros obtidos em 2012. Em termos gerais, o IRPJ e a CSLL registraram aumento real conjunto de 20,33 por cento no mês passado frente a janeiro de 2012.
    Na comparação com dezembro, a arrecadação teve alta real de 11,46 por cento, influenciada pela maior arrecadação do Imposto de Renda total, CSLL, Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e Cofins.
    Em 2012, a coleta de tributos totalizou 1,029 trilhão de reais, ano em que a arrecadação foi fortemente afetada pelo baixo ritmo de crescimento da economia, pela queda na lucratividade das empresas e pela renúncia tributária provocada pelas desonerações adotadas pelo governo para estimular o consumo.
    Segundo a Receita, o total das desonerações com impacto em 2012 --considerando o efeito de reduções tributárias feitas em anos anteriores-- foi de 46,440 bilhões de reais. Se considerada apenas as desonerações feitas no ano passado, a renúncia foi de 14,7 bilhões de reais.
    Desse total, as maiores foram na Cide-Combustível (6,837 bilhões de reais), na desoneração da folha de pagamentos (3,900 bilhões de reais) e com o IPI de carros (2,639 bilhões de reais).
    (Por Luciana Otoni)

    O HAMLET DE KOZINTSEV



     Leia hoje

    O HAMLET DE KOZINTSEV
    nossa coluna quinzenal em
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    HAMLET DE KOZINTSEV - CLICK NA IMAGEM PARA ASSISTIR

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    RARIDADE, PREMIADÍSSIMO, MUSICA DE SHOSTAKOVSKY, TALVEZ SEJA A MELHOR ADAPTAÇÃO PARA O CINEMA. ORIGINAL RUSSO.



    domingo, 24 de fevereiro de 2013

    FOTÓGRAFO


    Ciro: "Eduardo, Aécio e Marina não têm proposta"

    Ciro: "Eduardo, Aécio e Marina não têm proposta"

    : O ex-ministro Ciro Gomes (PSB) voltou usar sua metralhadora giratória e não poupou nem mesmo o correligionário e governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que almeja disputar o Planalto no próximo ano; “Os pré-candidatos Eduardo Campos, Aécio Neves e Marina Silva não têm visão para o Brasil"; Para ele, Dilma Rousseff deverá ganhar a eleição no primeiro turno, por WO


    Colaboração com a ditadura preocupa igrejas cristãs

    Colaboração com a ditadura preocupa igrejas cristãs
    Um grupo de cientistas sociais, políticos e líderes eclesiásticos investiga a colaboração de padres, bispos, pastores e leigos com a repressão política na ditadura. Entre os identificados, estão o ex-arcebispo de Belém (PA), d. Alberto Gaudêncio Ramos, d. Geraldo Sigaud, de Diamantina (MG), e d. Antônio de Castro Meyer (foto), de Campos (RJ), um dos fundadores da TFP.
     



    As Igrejas Cristãs que atuam no Brasil de forma ecumênica deverão dispor ainda este ano de informações sobre a colaboração de padres, bispos, pastores e leigos com a repressão política durante a ditadura de 1964. Um grupo de pesquisa, integrado por cientistas sociais e políticos, além de líderes eclesiásticos, já está dando os primeiros para realizar essa tarefa.

    Antes mesmo de serem iniciados os trabalhos, já foram identificados foram identificados vários colaboradores, entre os quais três arcebispos já falecidos. São eles o ex-arcebispo de Belém (PA), d. Alberto Gaudêncio Ramos e seus colegas, da corrente tradicionalista da Igreja, d. Geraldo Sigaud, de Diamantina (MG), e d. Antônio de Castro Meyer de Campos (RJ), um dos fundadores, ao lado de Plinio Corrêa de Oliveira, da organização de extrema-direita Tradição, Família e Propriedade, a TFP.

    D. Alberto era uma das principais fontes de denúncias contra os seus colegas e subordinados, na Igreja Católica da Amazônia. Já d. Sigaud liderou uma campanha contra seu colega d. Pedro Casaldáliga, de São Félix do Araguaia e contra d. Tomás Balduíno, da ordem dominicana, de Goiás Velho/GO. Com base em dossiês preparados por Sigaud e Meyer, o governo militar decidiu expulsar Casaldáliga do Brasil. Para a ditadura, d. Pedro, por ser catalão, estava proibido de denunciar problemas brasileiros, como o fez em uma carta em que denunciava o caráter escravocrata do latifúndio na região amazônica.

    A ameaça de expulsar Casaldáliga provocou uma discreta, mas objetiva e imediata reação do papa Paulo VI. Em reunião com seu staff, declarou que pela primeira vez na história da diplomacia do Vaticano, a Igreja poderia romper as suas relações com o Brasil. À ameaça abortou, de acordo com o relato do ex-cardeal arcebispo de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns.

    D. Eugênio
    Entre as personalidades da Igreja permanentemente vigiadas por colaboradores da repressão está também incluído o ex-cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, d. Eugênio de Araújo Sales. Investigações oficiosas em andamento, feitas por organizações de Direitos Humanos, indicam que d. Eugênio era espionado por assessores do seu próprio staff. A mesma espionagem atingiu um outro arcebispo de Natal/RN, d. Nivaldo Monte.

    Ele promoveu, nos anos 70, uma reunião reservada com o governador do Rio Grande do Norte José Cortez Pereira e o clero arquidiocesano. No dia seguinte, foi convidado a comparecer ao comando do então IV Exército (atual Comando Militar do Nordeste), em Recife, onde foi questionado sobre vários itens de sua palestra para o clero sobre a situação socioeconômica do seu Estado.

    Deops
    Outro ponto a ser levado ao grupo de trabalho das igrejas é o funcionamento informal e ilegal, durante a ditadura de uma "delegacia" no Deops paulista, no centro paulistano, dedicada especialmente às denúncias de clérigos e de pastores contra seus colegas.

    Entre os colaboradores dessa "delegacia" – chefiada pelo delegado Alcides Cintra Bueno – estava o jornalista Lenildo Tabosa Pessoa, do jornal "O Estado de S. Paulo". Formado em Filosofia e em Teologia na Universidade Gregoriana de Roma, Lenildo dispunha da formação adequada para participar, até mesmo, no interrogatório de integrantes das pastorais católicas, presos pela repressão...
    *Dermi Azevedo é jornalista e cientista político

    A invenção da santa


    A invenção da santa

     

    Rogel Samuel

     

    A leitura do excelente livro de Almir Diniz, “O pitoresco e o hilariante na imprensa” (São Paulo, Scortecci, 1997) me trouxe a lembrança de um caso ou lenda que se contava há muito tempo de famoso repórter amazonense que inventou uma santa.

    Ele estava precisando de um furo para assegurar o seu lugar no jornal e por isso resolver inventar uma notícia espetacular: foi a um subúrbio de Manaus, encontrou uma velhinha pobre que morava sozinha num casebre, deu-lhe um dinheirinho e lhe disse:

    - Minha senhora, a senhora diz que viu uma santa!

    - Que santa?

    - Uma santa sobre aquela árvore no quintal...

    - Mas eu não vi nada!

    - Mas diga que viu, diga que viu, para quem aparecer por aqui a senhora tem de dizer que viu, e juro que vou ajudar a senhora.

    - Mas...

    - Combinado?

    - Está bem, está bem, disse a inocente e boa velhinha, que ganhou mais umas moedinhas. 

    No dia seguinte apareceu a manchete: “Santa misteriosa aparece e cura velhinha”. E a matéria se estendia numa intrigante aparição luminosa de uma dama vestida de branco.

    O pior veio depois.

    Imediatamente após a notícia começou a aparecer muita gente na casa da velha, com doentes trazidos de longe, aleijados de muleta, cegos, crianças, maridos traídos, meninas em busca de noivos, desempregados em busca de emprego, vendedores ambulantes... enfim um espetáculo alimentado diariamente pelo jornal.

    Mas a polícia foi acionada, outros jornais apareceram e a coisa ficou feia e perigosa.

    Não adiantou o repórter desmentir dizendo que foi uma brincadeira.

    Pois pessoas chegavam ao local e gritavam e desmaiavam, choravam e caíam de joelhos no chão, pois clamavam que estavam vendo, estavam vendo... 

    E a “santa” começou realmente a ser vista por sobre a árvore e a fazer milagres.

    Por pouco o repórter não perdeu o emprego.

    Talvez tenha sido por um milagre da santa.

    sábado, 23 de fevereiro de 2013

    Algumas notas sobre o Barão de Itapari

    Algumas notas sobre o Barão de Itapari
    Rogel Samuel
    Em plena crise econômica mundial, uma agência de classificação de risco elevou a nota do Brasil. A grande imprensa brasileira, que só gosta do negativo, se escandaliza. A crise da mentalidade ainda pensa que somos colônia portuguesa. Ainda vêem a Europa como “os países desenvolvidos”, os “países do primeiro mundo”, enquanto ainda acham que o Brasil é a república de bananas.
    Isso me lembra uma página das “Memórias inacabadas” de Humberto de Campos:
    Freguês de luxo era, igualmente, o Barão de Itapari, que morava nos Remédios, em um casarão rodeado de janelas, e que fazia canto com a pra­ça em que se levantava a estátua do Cantor dos Timbiras. O conhecimento deste fidalgo da Monarquia constituiu, entretanto, uma das minhas mais fortes e irremediáveis desilusões.
    “Eu tinha me habituado a imaginar os reis, as rainhas, e todos os de­mais personagens de uma corte, pelas figuras que eu havia visto nas cartas de baralho. Quando eu era menino, o valete era conhecido, também, com a denominação de conde. E como o conde usava, na carta, coroa, gabão de veludo, cabeleira e um bastão de ouro na mão enluvada, eu tinha a ideia de que todos os fidalgos deviam afinar pelo mesmo padrão, em indumentária. Os livros que eu havia lido diziam-me que não era assim. A impressão da infância ficara, porém, no subconsciente, e de tal modo, que preponde­rava, sempre, na minha imaginação. Um dia, “seu” Zé entregou-me uma conta, dentro de um envelope, dizendo-me:
    – Vá à casa do Barão de Itapari, e receba isto. Ele pediu que a man­dasse agora pela manhã.
    “Subi a Rua da Paz com a imaginação escaldando. Via-me à porta da casa, que eu já conhecia. Bateria palmas. E logo apareceriam dois pajens vestidos de veludo azul, calças presas acima do joelho, meias até à altura das calças, os quais me levariam à presença do Barão, numa grande sala de enfeites dourados. Sentado em uma cadeira de grande espaldar, colocada sobre um estrado, o Barão me receberia, de cara fechada. Entregar-lhe-ia a conta. O fidalgo voltar-se-ia, então, para o tesoureiro, e diria:
    – Pague isso a esse menino.
    “O tesoureiro faria uma reverência, curvando-se todo, eu faria outra, e, ao fim de pouco tempo, eu me veria na rua, trazendo o dinheiro.
    “O coração batia forte, quando cheguei ao fim da Rua dos Remédios. Bati palmas à porta. Achei a pequena escada um pouco suja, mas era pos­sível que aquilo fosse para disfarçar a riqueza que reinava lá dentro... Um instante mais e entreabre-se a porta do corredor escuro, dando passagem à cabeça de uma preta gorda, e beiçuda, que indaga, numa voz gritante:
    – Qui é?
    Disse ao que ia. E ela:
    – “Seu” Barão saiu agora mesmo... “Sinhô” corre que ainda pega ele no canto... Ele foi esperá o bonde no largo...
    Desceu os dois ou três degraus. Chegou à porta. Estendeu os olhos e, em seguida, o braço:
    – Ói, tá-colá ele...
    Olhei. Em frente à igreja dos Remédios, ainda cercada de velhos andaimes, um cavalheiro vestindo paletó preto e comum, fumava um fim de cigarro, ao mesmo tempo que esgaravatava a terra com a ponta do guarda-chuva. Bigode negro, e, se bem me lembro, uma barbicha curta, da mesma cor. Figura vulgar de burguês. Cara de comerciante da Praia Grande. Encaminhei-me para ele. Entreguei-lhe o envelope quase com desprezo. Ele o abriu, examinou a quantia, cinqüenta ou sessenta mil réis, meteu a mão no bolso da calça, pagou-me com displicência.
    Agradeci surdamente, e retirei-me. O homem continuou a esgarava­tar a terra, e a fumar o seu cigarro. Olhei ainda de longe, para certificar-me. E sorri, superior:
    – Sim, senhor!... Isto é que é um barão!...
    Eu acabava de vender, na verdade, por cinquenta ou sessenta mil réis, que nem seriam meus, uma das mais lindas ilusões da minha meni­nice...”
    * * *
    Por essas e outras é que eu sempre digo que, para conhecer o Brasil, devemos começar por ler as obras esquecidas de Humberto de Campos...

    No Amazonas, Itamarati em situação de emergência

    No Amazonas, Itamarati em situação de emergência

    Até o momento o Governo do Amazonas não foi notificado sobre qualquer outra situação de alerta ou calamidade pública relacionada ao fenômeno da cheia.
    [ i ]Por conta da cheia, Itamarati, no Amazonas, decreta situação de emergência. Foto: DivulgaçãoPor conta da cheia, Itamarati, no Amazonas, decreta situação de emergência.
    Manaus - O prefeito de Itamarati, João Medeiros Campelo (PMDB), decretou situação de emergência por conta da cheia que atinge o município. Com as chuvas da última semana, o nível do rio já ultrapassou11 centímetrosda marca alcançada ano passado, quando foi registrada a maior cheia no Estado, segundo Campelo.
    O prefeito chegou nesta sexta-feira (22) em Manaus para pedir ajuda do Estado para os próximos dois meses. “Nós temos recursos, que são poucos, mas estamos dando um jeito. Me preocupa, os próximos dois meses”, disse.
    A situação de emergência, segundo Campelo, vai permitir o município contrate serviços de alimentação e higiene, sem licitação, para dar suporte às famílias que se encontram abrigadas em escolas, e casas alugadas pelo município.
    A maior parte das pessoas atingidas até agora, vivem em áreas mais próximas ao rio, segundo ele. Para os que ainda não deixaram suas casas, tábuas de madeira já estão sendo distribuídas para a construção de pontes e para suspensão do assoalho das residências.
    A emergência foi decretada no último dia 11, mas publicada hoje no Diário Oficial do Município. De acordo com o decreto, a situação de emergência foi instaurada com base no relatório de Alerta da Defesa Civil do Estado, que esteve recentemente no município.
    De acordo com informações da Agencia de Comunicação do Estado (Agecom) a Defesa Civil do Estado já está acompanhando a situação de outros municípios e ficou de passar mais informações a qualquer momento.
    Os municípios de Envira, Eirunepé, Guajará, e Apuí também já sentem os efeitos da cheia. Envira já está em situação de emergência, mas o prefeito Ivon Rates alegou problemas decorrentes do período de transição na administração da prefeitura. A mesma justificativa foi utilizada pelos outros 20 prefeitos que decretaram emergência.
    A maioria ainda não sofre os efeitos do período de chuva, que deve ser mais intenso no próximo mês, segundo dados do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), divulgado na última terça-feira.
    Defesa Civil do Estado acompanha
    O Subcomando de Ações da Defesa Civil do Estado do Amazonas (Subcomandec) está acompanhando o comportamento da cheia nas regiões alagáveis do Estado desde o início da segunda quinzena deste mês.
    A equipe técnica do Subcomandec esteve nos municípios de Itamarati e Envira de18 a20 deste mês avaliando a subida do rio junto ao Serviço Geológico do Brasil e Marinha do Brasil. O relatório técnico não reconhece situação de emergência nesses locais.
    Neste momento, a equipe do Subcomandec executa o mesmo trabalho nos municípios de Guajará e Ipixuna e, semana que vem,em Apuí. Esse trabalho de projeção da cheia atende ao calendário regular da Defesa Civil do Estado, que prioriza os municípios onde o comportamento da cheia costuma ser mais severo.
    Até o momento o Governo do Amazonas não foi notificado sobre qualquer outra situação de alerta ou calamidade pública relacionada ao fenômeno da cheia.

    ERNEST LAWSON

    ERNEST LAWSON

    O TEXTO SECRETO

    O TEXTO SECRETO


    ROGEL SAMUEL

    Estou surpreso: meu próprio computador bloqueou o meu blog! Fico imaginando quantos leitores estarão impedidos de me ler, se eu mesmo tive a maior dificuldade de a mim me ver. O Internet Explorer me bloqueou como "site inseguro", " impróprio" para mim mesmo. E eu pensei, eis aí o grande barato, o escritor não deve ficar lendo e relendo o que rabiscou. A dúvida é o maior impedimento à nossa produção literária. Por que temos dúvidas à respeito dos nossos textos?

    Mas eu precisava postar, não ler!

    Alguns escritores dependiam da aprovação dos outros, da esposa, de alguém. Sem isso, não publicavam nada.

    Outros escreviam com frenesi e nunca burilavam seu texto.

    Flaubert trabalhava tanto a prosa que a desfigurava. Ele escrevia frases. Trabalhava frases. Modificava palavras.

    Proust ampliava o escrito, acrescentava considerações, situações.

    Pois bem. Todos os escritores devem ter um computador como o meu. Neurótico. Que esconde o que escreveu.


    A PROSA SOBERANA

    A prosa soberana






    A prosa soberana

    Rogel Samuel

    Eu gosto dos escritores à moda antiga: Euclides da Cunha, Rui Barbosa. São textos fortes, camaleônicos, enrustidos, vulcânicos. O campeão é Antonio Vieira. O imperador da prosa. O monstro sagrado da escritura. Quem se mete a imitá-los, hoje, é rotulado de acadêmico, antiquado. Os escritores amazonenses do passado os imitavam, e até hoje prosadores como Saramago fazem uso dessa estética do texto retumbante, relâmpagos de sonoridades poéticas. De certo modo Guimarães Rosa. Ele também construía um palácio de assonâncias, como quando disse: “Sábio não é quem sempre ensina. Mas quem de repente aprende”.
    São seis vezes o som de EM, que lembra o questionamento de “hein?”. Rosa constrói um romance em cima de sonoridades.
    Alguns bons prosadores hoje estão esquecidos. Exemplo de Herberto Sales. Seu romance “Cascalho” tem uma “tessitura artística”, uma “arquitetura e a linguagem”, uma “densidade” estilística, no dizer de Adonias Filho.
    São escritores de prosa soberana.

    O TEU SILÊNCIO É SUBSTÂNCIA ACESA,


    O TEU SILÊNCIO É SUBSTÂNCIA ACESA,

    OU VENI CREATOR SPIRITUS

     

    Rogel Samuel

     

     

    Brindou-me um bom amigo com o livro de Edison Moreira, «Tempo de poesia» (Garnier, 1999), cujo primeiro soneto assim se fez:

     

    Estás presente. Vieste com certeza

    das origens do tempo ou da paisagem.

    Tens nos cabelos roxos a beleza

    de teu país de reis sem vassalagem.

    o teu silêncio é a substância acesa

    das coisas indizíveis, a mensagem

    de um território oculto na tristeza,

    ânsia de morte que se fez linguagem.

    Mensageira de símbolos perdidos,

    acendes o mistério. Outros sentidos

    descobres sob o véu do esquecimento.

    Deusa fecunda de estrelado manto

    Aurora, céu noturno, fundo espanto

    nesse infinito redescobrimento.

     

    É um soneto sobre aquela Arte Poética, digo, sobre a Aurora, publicado em seu primeiro livro, «Cais da eternidade» (aparecido em 51, poemas de 1945-51). Não se pode dizer que os poemas se inscrevam no rigoroso estilo da geração de 45: Abgard Renault, Emilio Moura, Afonso Ávila, Darci Damasceno, Alfonsus de Guimaraens Filho, Cabral, Bueno de Rivera, Ledo Ivo etc, cuja estética, clássica, camoniana, exigia nitidez, construtivismo, equilíbrio, forma, disciplina, rigor, universalismo neoparnasiano, artesanal, regras e disciplinas pautadas na ordem e no equilíbrio. Edison Moreira, porém, apresenta um caminho próprio, ainda que, no soneto acima, lembre aquela geração.   

                                                  

    *    *    *

     

    O primeiro verso soa: «Estás presente».

    O que significa focar em algo que ali está, na presença do tempo?  «Estás presente» significa «estar» e «ser», ser no tempo, e no lugar estar e em determinado tempo: o tempo presente. «Estás presente» profere do ser-aí, nos limites do espaço atual da física presença, tempo que é o presente tempo. «Estás presente» presentifica o ser, lança-o no jogo do real da realidade, faz no meio do que se disse quando «Faça-se a luz, e a luz foi feita», lá não se tem o tempo presente, mas só anterior «faça-se» e o posterior «foi feita». Em «Estás presente» não é assim, coloca-se a Aurora pois na minha frente espelhar, e lá se sente, e ali se vê, por pouco se toca e cheira na materialidade do «Estás presente», no espaço de uma cronometria daquilo que se joga adiante. O poema mede a concentração do tempo presente, da hora, ou daquele instante do que lá está, fotografado,  capturado, na passagem rápida. Pois, quando se diz «Estás presente», algo se sente por todos os lados. O olho está lá dentro dela, da Aurora. Ou seja, da Arte Poética, conforme vai-se ver.

     

    *    *    *

     

    Assim o poema começa pelo princípio,ou seja, pela Aurora. Não só o poema, mas as páginas do livro, a sua leitura, a obra poética.

    No princípio, afirma para sua arte: «Estás presente», não como quem convoca o «apareça», e «venha», não em invocação, convite, chamado da luz do espírito criador, como num:

     

    Veni creator spiritus

    mentes tuorum visita

    imple superna gratia

    quae Tu creasti pectora

     

    Não. Mas com um «já estás aqui presente», o que abre a cena da escrita. Em suma, a poesia já está pronta, não necessita ser convocada.

     

    *   *   *

     

    O seguinte: « Vieste com certeza / das origens do tempo ou da paisagem», coloca novo problema, e extremo, de significação poética. Primeiro, porque há aquela ambigüidade, própria do jogo da língua portuguesa, da expressão «com certeza», que significa «provavelmente», «talvez» - uma certeza cheia de dúvida. Segundo porque, filosófica, esteticamente o tempo e o espaço (a paisagem) não tem princípio, nem origem: Se a Aurora veio do tempo sem princípio e do espaço sem limites, veio ela do Infinito, ou seja, não se trata da mera aurora, alvorada, madrugada, mas do Princípio Ideal de todas as coisas, do aurorar da vida da sempiterna existência (se se pudesse assim dizer), em aurifulgência daquele:

     

    Veni creator spiritus

    mentes tuorum visita

    imple superna gratia

    quae Tu creasti pectora

     

    da liturgia do espírito santo, onde o supremo rumor da criação de tudo.

     

    *    *    *

     

    Depois diz:

     

    Tens nos cabelos roxos a beleza

    de teu país de reis sem vassalagem.

    o teu silêncio é a substância acesa

    das coisas indizíveis, a mensagem

    de um território oculto na tristeza,

    ânsia de morte que se fez linguagem.

     

    O roxo, cor da magia ritualística, o púrpura significa poder, ambição, tensão, negócios, mas também era a simbologia do infante D. Henrique, e aí representava mortificação e tristeza, para aquele que preferiu seguir os mais fortes em Alfarrobeira contra o seu irmão mais velho, depois de contribuir igualmente para a morte do seu irmão mais novo. Um cavaleiro roxo significava fornecer-nos uma triste medida da inércia de todas as idéias estabelecidas: parece mais fácil fazer e aceitar a existência da intenção de coincidências que apontam para o milagre, do que em desígnios que apontam para o sentido da solução lógica que o contraria. O roxo significa mortificação, o simbolismo das cores litúrgicas se concilia muito bem na sua distribuição no texto como o roxo do provisório, do perdido, dos símbolos perdidos, do mistério da morte, ou mistério mortal, do véu do esquecimento, do vazio do redescobrimento, do noturno, do manto dessa deusa de fecundante estrelado manto que é a manhã, do espanto da manhã. Essa Aurora é a Inspiração, ela é o espírito criador de tudo, a capacidade, a fecundidade que faz falar a poesia, que faz redescobrir a poesia debaixo do que está esquecido, a saber, a nossa própria linguagem, fundo espanto de misteriosos símbolos cheios de «outros sentidos». Este soneto é a completa Arte Poética de Edison Moreira, o grande poeta mineiro. Assim:

     

    Mensageira de símbolos perdidos,

    acendes o mistério. Outros sentidos

    descobres sob o véu do esquecimento.

    Deusa fecunda de estrelado manto

    Aurora, céu noturno, fundo espanto

    nesse infinito redescobrimento.

     

    Edison Moreira nasceu em Minas, em 1919, e faleceu em 1989. Sua obra ainda está para ser estudada. Poeta erudito, sofisticado, famoso por sua estética medievalista.