sábado, 17 de junho de 2017

ROGEL SAMUEL: BREVE MANUAL DE DIDÁTICA GERAL

ROGEL SAMUEL: BREVE MANUAL DE DIDÁTICA GERAL


Por que a didática geral?

Depois de aposentado – esta palavra soa sempre muito estranha – pude fazer uma longa e calma reflexão sobre minha vida como professor auxiliar de ensino de didática geral na Faculdade de Educação da UFRJ, na década de 60.

Reli as anotações, revi os primeiros planos de aula. Lembrei-me das lições dos meus grandes mestres: Anísio Teixeira, o professor de Filosofia da Educação (recebia palmas no fim da aula); Luiz Alves de Mattos, nosso catedrático, mente clara, precisa, organizado; e de tantos outros, de outras matérias, como Alceu amoroso Lima, Celso Cunha, Matoso Câmara.

O que vi é que ainda está aberta, para mim, a questão do ensinar, do saber ensinar. Não apenas do saber como do fazer, as técnicas, as questões, os objetivos.

Que lições daqueles grandes mestres ainda permanecem vivas?

Não sei, nem posso responder.

Uma questão global. Atual.

O magistério agora dispõe de novas tecnologias, como o computador, a Internet. Naquele tempo nem com a TV se podia contar.

E porque ensinar e aprender? Para quê, para quem? Como fazer? Até que ponto as questões do professor em sala de aula se podem genericamente responder? Como ajudar a um jovem professor/a iniciante a começar o seu magistério?

Isto é a Didática Geral.

Que significa isso, essa ciência, ou essa arte, ou essa técnica?

Partimos do postulado de que é preciso aprender a fazer, ou o professor vai aprendendo com o tempo, mas com seus erros. Ou se acostuma a errar, e não mais aprende. Os erros da sala de aula infernizam a vida dos mestres, põem mestre e aluno em luta um contra o outro. Os professores se estressam, mudam de profissão, ou morrem. Ouvimos muito isso: professores que dizem que “hoje” é impossível trabalhar.

Mas é possível aprender a oferecer uma aula para jovens e irrequietos alunos da periferia?

O pior problema, além da baixa remuneração, é a relação numérica professor/aluno. Um professor com centenas de alunos não pode dar certo.

Porém a Didática Geral ensina a não cometer certos erros capitais e oferece algumas normas para evitar os erros triviais.

O magistério é uma das profissões mais difíceis e mais necessárias. A remuneração precária, o número excessivo de alunos em sala de aula, a violência da sociedade transferindo-se para o ambiente letivo, são só alguns dos problemas.

O magistério é, entretanto, uma arte, uma arte fina, extraordinária. E se pode aprender a fazer.

Nada substitui a viva voz do professor, o diálogo com ele, sua presença.

Ensinar a ensinar, eis o que faz a Didática Geral.

Mas “sábio não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”, escreveu Guimarães Rosa.





Ensinar e aprender

Cabe ao professor fazer eclodir no aluno o mistério do aprender ou parte do educando o início desse processo? Que é aprender? Se não quiser o aluno não aprende. Temos primeiramente de motivar o aluno a aprender.

Ora, aprender é tornar-se maior do que o fato apreendido. Além disso, é incorporá-lo, fazê-lo seu, parte de sua consciência, de seu ser.

Disse Alceu Amoroso Lima em sala de aula: “cultura é aquilo que esquecemos, mas é incorporado à nossa consciência”. Ele falava da “cultura” brasileira, mas podemos dizer que reside aí o fato do aprender: aquilo que, por mais que o “esqueçamos”, não poderemos esquecer jamais, pois já está incorporado ao nosso sistema, àquilo que nós somos e nos é. É uma “linguagem”, nos toma, somos e usamos.

Ou não? Será que, como nos antigos, o papel (e uso esta palavra com cuidado) do professor é fazer os alunos lembrarem-se do que já sabiam?

Não, não vou aprofundar essas complexas questões, pois meu objetivo aqui é ser simples e prático.

Ou seja: não precisamos saber o que é aprender, mas como isto é possível.

Aprender é liberdade, é libertar-se de uma incapacidade, de um problema, de uma obscuridade.

Quando aprendemos perdemos o medo daquilo de que não sabíamos, do desconhecido, da desconhecida ameaça. Há uma doença? Quando aprendemos como tratá-la logo deixamos de temê-la. Há uma crise? Quando compreendemos como e por que ela rebentou logo já começamos a saber como interagir com ela.

Quando fazemos alguma pergunta, quando colocamos alguma questão, é porque o processo profundo da resposta já está em andamento.

Quando perguntamos, já sabemos.

O professor ideal, se existe, seria aquele que ajudasse os seus alunos a libertarem-se de si mesmos, a serem livres de seus problemas internos.

Mas isso é outra história, porque que o “sistema” sempre nos impôs que preparássemos os jovens para a obediência, a ordem, o progresso.

Jovens livres são perigosos.

Mas não agressivos, violentos.

A minha geração, por exemplo, vivia de “paz e amor”. Jovens “rebeldes” não estão livres, estão presos à rebeldia de sua violência e maldade, ao calor de suas agressividades.

Quem é livre não agride ninguém.

Quem é livre é feliz.

Assim, a formação do professor é algo complexo, muito complexo.

Não me interprete erradamente. A educação é uma revolução.

Se tivermos toda uma geração de bons professores, bem preparados e bem remunerados, teremos uma nova era, um país diferente.

É o que faz o bom professor: ele muda o futuro.






A formação do professor

É complexa a sua formação. Não vamos aprofundar, mas daremos algumas pistas.

O professor é um técnico. Um cientista que agora dispõe de novas tecnologias. Mas é um ser humano. Seu objetivo é interagir com outros seres humanos, iguais a ele. Mesmo com diferentes idades. A qualidade de seu magistério depende de sua saúde, entusiasmo, ele tem de acreditar no ser humano que ele tenta despertar para a liberdade. Para a maturidade. Depende o professor também de fatos externos como o prédio da escola, a acústica, o barulho da rua, o número de alunos em sala de aula, a temperatura ambiente etc. Ensinar não é nada fácil. É bem mais complexo do que aprender. Nós aprendemos quando “queremos”, quando necessitamos. Já levar a outro o aprender, convencê-lo a isto, é das tarefas mais difíceis.

O que caracteriza um professor? Que qualidades deve ter?

Ele deve ter o mínimo de vocação. A vocação de ajudar. O gosto de incentivar os outros a encontrar os seus objetivos. Ou seja, a felicidade de cada um. O professor é uma porta para a felicidade.

Mas não basta um dom, é preciso mais. É preciso aprender a ensinar. É possível.

É claro que certos atributos e disposições humanas contribuem. E um pouco de sorte. Mas o professor tem de ter uma personalidade forte não-autoritária capaz de suportar os piores trancos. E certas habilidades podem ser cultivadas.

O professor tem de ter “jeito”. E orgulho de sua profissão.

Seu equilíbrio mental será testado a todo momento. Sua personalidade. Tem de ter boa e clara voz. Mesmo fraca, tem de ser clara. Não se deve abalar com as agressões e confusões de sala de aula. A aula deve prosseguir como se nada tivesse acontecido. O professor não se ofende nunca, só ouve o que quer, só o que serve para o andamento das coisas. Inabalável, ele prossegue. Porque o bom professor é um herói.

Tudo isso pode ser cultivado: o gosto pela clareza, pelo resumo, a confiança em si mesmo, certa presença de espírito, o controle emocional, a firmeza, a perseverança, a imaginação, a liderança, a iniciativa, a criatividade, o saber ter boas relações com seus alunos, tendo respeito por eles, a consciência da importância do magistério.

Quando o professor se descontrolar, o melhor que tem a fazer é respirar fundo e dizer:

– “Meus alunos, me desculpem. Eu perdi o controle”.

E rapidamente prosseguir a aula como se nada tivesse acontecido.






Quem é o professor?

É pedir demais? Sim. É ser um herói? Um ser humano assim, com tais qualidades? Mas tudo é relativo. E teórico. Conheci uma professora com voz fraca, magrinha, simpática, que sabia impor-se melhor do que ninguém. Conheci professores com defeito físico vencedores no magistério. Tudo é imprevisível. E depende da personalidade do mestre.

Mas conheci um professor que teve uma crise nervosa na porta do colégio e não conseguiu entrar. Sei de outro que mudou de profissão.

Não basta dizer: “Hoje os alunos não querem nada! Só querem passar! Só vão para a escola por causa as merenda!”

Cabe a nós o despertar-lhe o interesse.

Cabe a nós a alertar os alunos para o perigo de sair da juventude sem estar preparado.

E estar preparado não é ter um diploma. Todos sabemos de um personagem que não tinha diploma e chegou a Presidente da República.

Eu mesmo experimentei muitos fracassos e vitórias, mas sempre soube distinguir o que era a minha (in)capacidade da minha pessoa. Aprendi com meus fracassos, usei-os como elementos de sucesso. Tive a sorte de ter bons mestres.

Pois, o que é um bom professor?

Não há uma definição única e clara. Cada um caso é diferente do outro.

Mas todos esses profissionais devem cultivar certas qualidades específicas.

Não é só o conhecimento específico que faz um bom professor de crianças e adolescentes, que é o de que tratamos aqui. Um erudito sem capacidade de extrair a síntese não pode ser um bom professor. Não é só o conhecimento, mas técnica, a técnica didática, que ele pode aprender num curso de didática ou ao longo dos anos de magistério.

O professor deve ter um conhecimento básico e preciso da matéria que vai ensinar. Não precisa ser um “especialista”, nem um pesquisador, uma autoridade no assunto para ensinar numa escola pública.

Mas ele é um instrumento de aprendizagem, um divulgador de princípios para a vida em geral,

Seja qual for a matéria ensinada, reduzindo o conteúdo ao essencial, dando o caminho curto, pondo aquilo tudo ao alcance dos seus jovens alunos.

Não é fácil, mas é possível. O magistério é uma das profissões mais complexas.

A matéria ensinada deve ser tratada como um aspecto da vida. Deve ser útil e bela. De interesse na vida social. Todo professor devia saber um pouco de socialismo, de sociedade, de economia.

Estudamos para preparar-nos, devia ser o lema de todo aluno.

A vida é sempre difícil, e nós nos preparamos na escola. Se os alunos sentirem isso naquilo que o professor faz, terão respeito e interesse pelas aulas, serão atenciosos com o mestre, e o virão como líder.

Todo curso de didática devia tratar da arte da liderança.





Para quê serve a Didática Geral?

Quando estamos na faculdade, nem sempre damos importância ao estudo da Didática. Mas é ela quem vai-nos dizer como ensinar, apropriadamente, com princípios claros, normas práticas de ação, programas, planos, métodos, recursos, procedimentos adaptados à realidade da escola, do aluno, do professor e do conteúdo. O professor deve ser um aliado, um soldado da educação, não um burocrata. Quem desconhece as teorias didáticas entra nessa batalha desarmado dos instrumentos necessários para o sucesso do seu magistério. O sucesso significa a satisfação, a felicidade com esta profissão.

O objetivo da pedagogia (não distinguimos aqui pedagogia e didática) não é dirigir, formar, mas motivar, resolver conflitos, contornar e simplificar complexidades. Nós, professores, não somos perfeitos. Mas devemos ser insistentes, constantes, irredutíveis nas nossas boas intenções. Quando assim agimos, os alunos sentem, sabem, e colaboram.

A educação é um processo social e individual.

Como social, desenvolve uma nação inteira. Como individual, supera dificuldades, imaturidades.

É impossível que todos os membros de uma sociedade sejam saudáveis, mas o que se quer é que a maioria não seja de marginais desajustados.

A educação nas escolas deve ser sistemática, organizada, planejada para ser completa. Como elemento complexo, a educação tem de ser planejada em todos os seus níveis, escalões, definindo princípios, objetivos a serem alcançados, normas, procedimentos, orientações.

Não existe a melhor técnica de ensino, mas a melhor possível de acordo com cada fragmento da realidade. Por isso, temos de examinar caso a caso, cada realidade objetivamente, cada situação dada.

A didática é comporta de cinco elementos: o aluno, o professor, os objetivos, os conteúdos a serem ensinados e a metodologia utilizada.

O aluno tem de ser visto como um ser humano, com as virtudes e dificuldades de todo ser humano, com suas tendências, interesses e reações. O aluno deve ser “aceito” tal como é, seja como ele ou ela for. Um ser humano, ainda que criança, para ser respeitado e a quem se pergunta: como posso ajudá-lo? O professor não deve querer moldar o aluno e transformá-lo, mas tentar desenvolver no aluno certas qualidades e potencialidades que já estão lá. Se encontra um aluno com tendência ao crime tem de saber como desviar essa potencialidade para o bem social e individual.

O professor é o motor do processo, estimula e corrige o rumo, alimentar o fluxo do processo, sem se envolver emocionalmente com os alunos. O professor tem de ser sempre um profissional, manter uma certa distância técnica entre ele e seus alunos. A relação íntima nunca dá certo: os alunos devem ver o professor com amizade, mas com respeito. Este é o limite delicado e sensível da boa e produtiva relação professor-aluno. Ultrapassar esse limite, transpondo esse nível, pode fazer surgir problemas de controle de classe, indisciplina etc.

________







Os objetivos a serem alcançados

Como anunciamos antes, a didática tem cinco componentes: o aluno, o professor, os objetivos, os conteúdos a serem ensinados e o método apropriado.

Os objetivos a serem alcançados são a razão de ser da escola, o rumo a tomar na vida do aluno, na profissão, o objetivo é a realização, a felicidade, a necessidade, as metas, o resultado positivo.

Trabalhar, lecionar sem ter determinados os objetivos a serem alcançados é como navegar às cegas.

Os conteúdos são as matérias vistas como valores culturais que pertencem à cultura, à civilização, ao grupo social.

O método são os processos e recursos disponíveis para solucionar os conflitos, as dificuldades, as deficiências: o homem é o ser que sempre soube superar suas dificuldades e deficiências e atingir mais ou menos seus objetivos. Da qualidade e escolha do método vai depender o êxito ou o fracasso do magistério e sua felicidade no relacionamento professor\aluno.

A Didática Geral ensina a planejar os trabalhos, tornando-os mais fáceis; e incentivar os alunos, fazendo-os mais interessados e colaboradores. Ensina a como exercer a necessária liderança no controle da classe, sem o quê não pode o professor/a ser útil. Ensina a organizar um plano de trabalho, de aula, de curso. Ensina a diagnosticar a aprendizagem em tempo útil, a como fixar o aprendido, a como verificar o resultado, a corrigir o rumo, a como tirar proveito das falhas, dos erros, a como transformar as dificuldades em vitórias.

É uma ciência maleável, não rígida, não é a mesma para cada caso, ensina a ser flexível, a não ter verdades eternas. Temos de ver o que funciona e o que não funciona em cada caso, do problema temos de saber extrair a solução eficaz.

Todo problema já traz em si as potencialidades de sua solução, ou como diziam os antigos nós não devemos nos preocupar: se tem cura, por que se preocupar? Se não tem cura, por que se preocupar?

O bom professor sabe como fazer, como aplicar isto ou aquilo. Sabe (ou aprende) quando, onde ou como adaptar a técnica de modo a fazer a máquina funcionar.

Nada é fácil, na vida do magistério. No diário é uma profissão difícil. Mas devemos ser realistas e ter a sabedoria (ou esperteza) de solucionar cada problema tempo e continuar a aula e o curso.

Ensinar é um processo transformador. Professor e aluno têm de fazer juntos. O importante é desenvolver e transformar, facilitando o crescimento interior de todos. 


quinta-feira, 15 de junho de 2017

DOCES FANTASMAS



DOCES FANTASMAS

ROGEL SAMUEL




Doces fantasmas esvoaçam os ares dentro de meu quarto. Parecem pássaros, invisíveis voam. Eles passeiam, bailam, mas não aparecem, ou não os vejo, somem nas cortinas da noite, mas me despertam, como no super-soneto de Pessoa:

Súbita mão de algum fantasma oculto
Entre as dobras da noite e do meu sono
Sacode-me e eu acordo, e no abandono
Da noite não enxergo gesto ou vulto.

E eu acendo luzes, ouço a madrinha da madrugada. Medito. Ligo a TV, mas logo desisto, desligo. No fim perco o sono, e...:

Mas um terror antigo, que insepulto 
Trago no coração, como de um trono
Desce e se afirma meu senhor e dono
Sem ordem, sem meneio e sem insulto.

Acordo. Tento entender o terror antigo, insepulto. Resolvo ouvir música, assim baixinho, no headphone. Afinal é tarde, muito tarde. Perco as horas. Ouço o CD, comprado durante aquela tarde, onde Wilhelm Backhaus, em gravações de 1929 e 1932, toca o concerto n01, de Brahms. O disco ainda estava lacrado.

E eu sinto a minha vida de repente
Presa por uma corda de Inconsciente
A qualquer mão nocturna que me guia.

Backhaus, diz um crítico, está para os outros pianistas com o monte Everest sobre as outras montanhas. «Majestade e sutileza, técnica sobre-humana, presença e graça». Tocou por cerca de 70 anos, e foi um dos primeiros a gravar um disco. Dizem que ele teve duas fases, antes e depois da Segunda Guerra Mundial. Antes demonstrava vitalidade, emoção. Depois, entristeceu. 

Sinto que sou ninguém salvo uma sombra
De um vulto que não vejo e que me assombra,
E em nada existo como a treva fria.

Escreveu Backhaus, «quanto mais simples, mais belo». Ele não era chegado às aparições espetaculares. Era modesto, ainda que idolatrado, reconhecido, famoso. Era amigo de Hitler. Suas interpretações equilibradas, a delícia de seus ouvintes, não para a demonstração de sua virtuosidade pianística. 

Depois do concerto volto a dormir. Em êxtase. Os doces fantasmas da música me conduzem a um lugar de extraordinária e lúcida beleza, embora onírica, e «sinto que sou ninguém salvo uma sombra», que «em nada existo como a treva fria».

terça-feira, 13 de junho de 2017

Da arte do sol

Da arte do sol


Rogel Samuel: Da arte do sol



Escrevo de madrugada. Nunca dormi muito bem, e sempre acordo durante a noite. Esta é a hora boa para ler, pensar, rever a vida. Antigamente era possível sair de madrugada. Quando eu morava em Copacabana, nessas horas eu saía para caminhar na praia e ver o sol nascer. O sol sempre nasce com esplendor, como tudo que nasce. A vida é o nascimento: o demais é um declinar-se para a morte, já pensou Heiddeger. Se nos fosse possível imaginar, diz Nietzsche, a dissonância feita criatura humana (pois o homem é uma dissonância) esta, para poder suportar a vida, teria a necessidade de uma admirável ilusão que lhe escondesse a sua verdadeira natureza, sob um véu de beleza. Esta é a finalidade da arte apolínea. Da arte do sol. O nome de Apolo resume aqui essas ilusões sem número da bela aparência que tornam, a cada instante, a existência digna de ser vivida e nos incitam a vivê-la no instante seguinte. A vida sempre renasce. Sempre que as potências dionisíacas a subverte violentamente, é desejável que Apolo, envolvido em nuvens, desça até nós, para curar a nossa escuridão, a nossa embriaguez.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Considerações Vãs

Considerações Vãs












Considerações Vãs




Rogel Samuel




Liberdade é o famoso poema de Sophia de Mello Breyner Andresen,que diz:

O poema é
a liberdade

Um poema não se programa
porém a disciplina
-sílaba por sílaba-
o acompanha

Sílaba por sílaba
o poema emerge
-como se os deuses o dessem
o fazemos

Antes de examinarmos o poema, escreveu Lênin que: «em uma república burguesa, ainda que na mais livre e democrática, a "liberdade" e a "igualdade" nunca puderam ser nem foram outra coisa senão a expressão da igualdade e da liberdade dos possuidores de mercadorias» («Aliança operário-camponesa». Rio, 1961, pág. 486).

Por «possuidores de mercadorias» entendemos os proprietários dos bens de capital. A velha burguesia.

Minha citação vem do mestre Nelson Werneck Sodré, «Fundamentos do materialismo histórico» (Rio, Civilização Brasileira, 1968).

Recebi de Nelson Werneck Sodré uma carta, a propósito do meu livrinho «Como curtir o livro» O que é Teolit? (Rio de Janeiro/ São Paulo. Editora Marco Zero, 1986. 53 p).

Ele aceitou o convite do sindicato para dar uma palestra (quase secreta) na nossa Faculdade de Letras da UFRJ. No fim lhe passei meu livrinho, com dedicatória e endereço.

Hoje, o que disse Lênin parece óbvio.

Mas será?

No texto citado, Lênin diz da liberdade e igualdade da classe dos proprietários, isto é, da burguesia.

Porém o conceito de liberdade mostra ser político. Um conceito de poder.

Só há liberdade quando houver liberdade política, igualdade de condições.

A liberdade política pressupõe democracia, partido político.

Hegel: "A necessidade não é cega senão na medida em que não é compreendida".

Interpretava Engels essa afirmação dizendo que a liberdade consiste "nessa soberania sobre nós mesmos e sobre o mundo exterior, fundada no conhecimento das leis necessárias da natureza".

O reinado da necessidade se resume num aprisionamento, limitação.

Ausência do consumo «inútil». Como a arte.

A grande e gloriosa invenção do capitalismo se manifesta em consumir o inútil. Invenção e conseqüência.

A classe que esteja condenada a consumir apenas a necessidade de sobrevivência está excluída dos bens consumo, daquela sociedade que gera capital e crescimento econômico. Não tem liberdade.

Mas não nos libertamos de uma sociedade divida em classe no Brasil.

A liberdade é a necessidade que toma consciência de si (Plekhanov).

Todo pensamento de Hegel se funda na filosofia da consciência de si.

«Cada passo dado na senda da cultura representa um passo dado na rota da liberdade» (Engels: Anti-Dühring. pág. 139).

A «liberdade» e a «igualdade» expressam a igualdade e a liberdade da classe que tem «consciência de classe», na ressonância da consciência de si.

A arte, que também se expande no espaço da liberdade, manifesta esta consciência que uma sociedade tem de si mesma.

O poema é
a liberdade

A liberdade aqui é a forma que se ajusta em si, que tem « consciência de si», e portanto é assim como é, ou seja, não se ajusta a algo que não seja. É o nascimento e manifestação espontânea da matéria.

O poema é espontaneamente livre.

Um poema não se programa
porém a disciplina
-sílaba por sílaba-
o acompanha

Ou seja: já nasce na sua disciplina interna.

«O poema deve ser, não significar», disse Macleish.

Faz a arte a mimese do distanciamento estético, intensifica a percepção, distorce propositalmente a realidade, tenciona o discurso com suas promessas de liberdade - o reflexo da sociedade.

Só o poema é livre.

A liberdade social fica além do muro da mimese, num eterno devir, conquista permanente: toda liberação aparece como algo que, uma vez conseguido, logo perdido, para iniciar-se uma nova fase de trabalho de conquista, não da liberdade passada, mas da nova dimensão da liberdade por vir, pois o ser livre não é algo estático, mas dinâmico.

Não se dá na reintegração do que se perdeu, mas na integração do que antes não havia.

Por isso na arte da cultura brasileira se vê que a «liberdade» e a «igualdade» nunca puderam ser conseguidas para todos, mas continuam sendo expressão da igualdade e da liberdade burguesa.

A liberdade não é fazer o que se bem entende, mas ser responsável por seus atos.

Mais Biarritz

Mais Biarritz

















Mais Biarritz


Rogel Samuel



Minha amiga X. me escreveu aflita perguntando se eu estava de mudança para Biarritz. Como eu gostaria.

Mas não é bem assim. Em outubro de 2006 lá estive. Hotel Marbella. Foram dias extraordinários. Infelizmente não encontro as fotos que lá fiz. Tenho para mostrar esta que aí está, na rue du Port Vieux. A foto não é minha, encontro-a na Internet, mãe de todas as fotos.

O porto velho ainda deve estar lá, em ruínas. Aquela senhora ruiva está em frente ao Marbella.

Eu dispunha de uma varanda, ampla e aberta, quase sobre o mar. O dono, um amigo de Phillipe, me fez um grande desconto. Mesmo assim foi caro. Cidadezinha calma, como gosto, com pouca gente nas ruas, a maioria turistas.

Minha amiga X. perguntou se eu ia partir... Mas não, como ela, que outro dia me disse que um mago lhe tinha dito que ela vai morrer em 20.... Horror! Eu lhe respondi que o único astrólogo que foi capaz de prever a morte de alguem foi Nostradamus, que morreu em 1566. Ora...

quinta-feira, 8 de junho de 2017

segunda-feira, 5 de junho de 2017

UM SÁBADO

UM SÁBADO

Rogel Samuel

            Um sábado em que nada há que dizer, senão esperar. Dia de luz azul, de muita luz azul. Cuja madrugada, de ares limpos, lembra uns versos de Drummond: "Aurora, / entretanto eu te diviso, ainda tímida, /  inexperiente das luzes que vais ascender /  e dos bens que repartirás com todos os homens." Será um tempo em que, tudo o que se disser, será pouco. Onde "o triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos, /  teus dedos frios, que ainda se não modelaram / mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório." E onde se conclui que "havemos de amanhecer."
Quando se quer ser tolo, acreditamos na esperança, naquilo que Ernst BIoch chamava de "O Homem Como Possibilidade" : "A realidade não é uma grandeza fixa. O mundo não está acabado. É possível enfrentá-lo de outra maneira, e não simplesmente murmurando, ou ainda omitindo-se, servindo-se do oportunismo, instalando-se no quietismo. Tomar as coisas como são, não é uma fórmula empiricamente exata. Não é positivismo. É uma fórmula de vilania, de covardia, de mesquinharia. O que são as coisas - esses momentos num processo que chamamos fatos? Estão fluindo. Foram feitos e por isso mesmo são suscetíveis de serem modificados. Persiste sempre a possibilidade de alteração. Isso pressupõe o domínio do acaso. Que haja espaço para a contingência - até à indeterminação física, até a indeterminação histórica, que é tanto mais importante."

Um sábado em que é hora de reler Castro Alves:

Oh! Eu quero viver, beber perfumes 
Na flor silvestre, que embalsama os ares; 
Ver minh'alma adejar pelo infinito, 
Qual branca vela n'amplidão dos mares. 
No seio da mulher há tanto aroma... 
Nos seus beijos de fogo há tanta vida... 
Árabe errante, vou dormir à tarde 
A sombra fresca da palmeira erguida

            Além de até citar, sem ironia, um certo texto tão conhecido:
"Artigo 3. - Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
  I. - construir uma sociedade livre, justa e solidária;

  II. - garantir o desenvolvimento nacional;
  III. - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
  IV. - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. "
Ah, que isto, esta crônica só de citação feita, vai acrescentar o que disse Bloch: "Deve-se mergulhar por sobre o horizonte. Naquela dimensão difícil da realidade, que não é nem o ser presente nem o ser em processo mas o ser que ainda não é. Na esfera do Novum, da mediação do agir, do receio e da esperança."

            Afinal, hoje é sábado. E há muito eu não escrevia no sábado, na “crônica da sábado”.

Branca vela errante, branca vela errante,
Como a noite é clara! como o céu é lindo!
Leva-me contigo pelo mar... Adiante!
Leva-me contigo até mais longe, a essa
Fímbria do horizonte onde te vais sumindo
E onde acaba o mar e de onde o céu começa...

São versos de Vicente de Carvalho. Eu gosto muito desses versos, dessa repetição que aponta o infinito, que indica o que é claro, o que é lindo, que convida a ir, a navegar adiante, até o longe, até onde acaba a linha do horizonte. Na realidade aquelas imagens se apóiam nas assonâncias e rimas de “ante” de “errante”, de “horizonte”, de “onde”. Tudo se faz na possibilidade, na aurora, na mudança. No futuro. Pois se não estivéssemos no tempo, se não houvesse tempo, nada haveria. Nós estamos no tempo, no processo do tempo, “de ser o que ainda não somos, na mediação do agir, do receio e da esperança”.

           

            

domingo, 4 de junho de 2017

A Pátria de Bilac

A Pátria

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas, onde impera
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!
Boa terra! jamais negou a quem trabalha
O pão que mata a fome, o teto que agasalha...
Quem com o seu suor a fecunda e umedece,
Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!
Criança! não verás país nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!
In: BILAC, Olavo. Poesias infantis. 18.ed. Rio de Janeiro: F. Alves, 195

sexta-feira, 2 de junho de 2017

VIEIRA

VIEIRA

Rogel Samuel


Vieira é brasileiro. Veio com 6 anos de idade, aqui se fez, aqui aprendeu. Do seu extraordinário saber se conclui que a educação no Brasil em 1600 era melhor do que em 2002. Estudou ele no Colégio da Companhia de Jesus da Bahia, só foi conhecer Portugal com trinta e 
tantos anos. Vieira brasileiro, sim. Falava com sotaque brasileiro, usava modismos de linguagem do Brasil, visitou o país, foi até ao Amazonas. Com Gregório de Matos, ele é o gênio do nosso barroco. Não 
se zanguem os leitores portugueses. Temos vários leitores portugueses que lêem essas crônicas de sábado. Estão nesta lista. São gentilíssimos. 
O que os portugueses podem advogar contra o "nosso" Vieira é o nosso descaso. O descaso do Brasil com seus mitos. Um dia, estava eu no apartamento do Senhor X, famoso escritor, jornalista e político maranhense. Via-se que era homem rico, de tradicional família de políticos. Estávamos numa daquelas intermináveis reuniões de esquerda. Presentes ali lideranças políticas, representantes da "sociedade civil" (como se diz: mas que outra sociedade haverá?), músicos, artistas plásticos, escritores. O apartamento do Senhor X, amplo, ricamente decorado, frente para o 
mar, ocupava vastamente o andar inteiro da Av. Atlântica. Grande salão, onde estávamos, ao fundo majestosa, imensa biblioteca. As discussões entraram pela madrugada. Eu me enfadei, bocejava, 
palavras, palavras: estávamos ainda no regime militar. Sempre me canso em situações daquelas. As lideranças se entrechocavam. Orgulhosas e brilhantes. Onde há muitos líderes, o embate é certo. Na época ainda acreditava que somente a "revolução" podia mudar alguma coisa. Era algo mítico, heróico: eu, que não matava um inseto, sonhava com revolução branca, pacífica, democrática. Pelo voto! 
Então, uma coisa me intrigou: como aquele homem, o Senhor X., que era sólido intelectual respeitável, podia ostentar, em suas paredes, somente reproduções em papel de famosos quadros da pintura nacional, como Djanira e Di Cavalcanti?
Intrigado, levantei-me e fui por o nariz nos quadros e vi, 
terrificado, que as telas eram mesmo verdadeiras. Aquelas paredes valiam um museu!
Fui examinando um a um os quadros, espantado de emoção. 
Pinturas famosas, que todo mundo conhece, pois estão nos livros de arte conhecidos.
De repente, pressinto que havia alguém atrás de mim. Era o Senhor X.
- Mas o que tenho de mais valioso, disse-me ele, não está aqui. "Venha ver".
E pegando-me autoritariamente pelo braço me conduziu por uma série de salas e corredores do apartamento até um gabinete de trabalho, relativamente pequeno.
Na parede havia uma peça de madeira trabalhada em altos-relevos, com motivos religiosos, galhos, folhas e frutos.
- Sabe o que é isto? perguntou ele.
- Não sei, respondi eu.
- Isto é o que sobrou da porta da Igreja da Companhia de Jesus, no Maranhão, onde o Padre Vieira pregou durante vários anos. A Igreja foi demolida!
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POEMA 
Não quero rever o segredo 
o teu copo de mar 
nem a horta colher a medo 
por quem a imitação da forma 
é a porta por entrar 
a costura da imagem 
da pele mais quente amar 
que fria ou quente acessórios 
são para o tom certo aplainar 
ou a tonalidade vazia 
que nada sabe o enredo 
em que quero aprisionar 
e por onde passa o espelho 
lançado sobre o luar 
oriunda onda onde queres 
neste oceano me levar?
(Rogel Samuel)

quinta-feira, 1 de junho de 2017

E se não for crise financeira?

E se não for crise financeira?

Rogel Samuel

O artigo do professor Francisco de Oliveira publicado na Carta Maior e reproduzido no nosso blog me deixou preocupado. Para ele a crise não é financeira, mas de globalização. A indústria chinesa está há anos destruindo o parque industrial americano e inundando os Estados Unidos de dinheiro barato, através de empréstimos baratos, as subprimes.
800 milhões de novos trabalhadores apareceram na China e Índia, no elevado crescimento chinês. Em contrapartida, milhões de operários americanos perderam seus empregos.
Com novas tecnologias os chineses produziram e inundaram o mundo de artigos feitos com mão de obra baratíssima graças a um desenvolvimento tecnológico e científico, pois a “China hoje tem mais estudantes de curso universitário que os EUA, e mais pós-graduandos que o total de estudantes universitários do Brasil”, diz ele.
Resultado: Todos nós usamos algum produto chinês.
O pior é que o G20 está tratando a crise como financeira.
Se o professor estiver certo, os trilhões do Presidente Obama para tapar o buraco só vão agravar o problema. Vai aumentar o desequilíbrio. E a dívida.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

ROGEL SAMUEL: TEORIA DA CRISE

TEORIA DA CRISE

Rogel Samuel

Crise? Não se assuste, há crise permanente nas sociedades capitalistas. A crise é a própria realidade, a raiz do progresso. Como disse Marx, «tudo o que é sólido se desmancha no ar». Todo o pensamento de esquerda se constrói sobre os fundamentos de uma teoria de crise.

O fenômeno desestabilizador produz crescimento. É força que sempre se oferece à vida das sociedades, dos seres.

A crise se radica na idéia de «instabilidade», imprevisibilidade de tudo que é. Mas provoca sofrimento, explorado na literatura romântica, angústia da sensação de inocuidade. Sofrimento ordinário da vida cotidiana.

Representa perigo, gera medo, queda e mal, alternância do melhor com o pior. Ausência de emancipação, liberdade, como determinação ou condição de vida.

O fenômeno da crise permanente indica conseqüência comunicativa, a consciência política, aponta a maturidade que pode daí surgir.

Sem crise não há liberdade.

Mas o contínuo estado de crise em que vivem as sociedades capitalistas tem a ver com a não-permanência, a não-compleição, com a natureza modificadora de tudo, num começar e terminar para novo começo, na interdependência, que dificulta o ideal de libertação integral, num mundo de caos cujos elementos constitutivos não têm nem duração nem estabilidade, em que tudo está mudando, nem as pedras permanecem. O capitalismo está condenado à crise, porque tem de crescer continuamente.

No solo desta sociedade não há imortalidade, nem eternidade. O eterno é o eterno passar.
Tudo é efemeridade, como proclamaram os poetas de todos os tempos.

«A realidade não é uma grandeza fixa. O mundo não é acabado. O que são as coisas - esses momentos num processo que chamamos fatos? Estão fluindo. Foram feitos e por isso mesmo são suscetíveis de serem modificados. Persiste sempre a possibilidade de alteração. Isso pressupõe o domínio do acaso» (Bloch).

A vida propriamente dita, a vida biológica, psicológica, é definida como ação interagindo entre seres e coisas, numa pulsação de expansão e extinção, que afinal se encaminha para a modificação ou mesmo morte.

O aparecimento de novas formas, num movimento que não parece ter fim nem teve princípio, estabelece ação, atrito, atração e repulsão, constituinte de tudo o que é existente, no sentido mesmo de que a vida não tende para nada que seja estável, nada que seja o mesmo, gerando um certo estado de insatisfação, de vazio — que caminha para uma satisfação e preenchimento nunca conseguido, através da ação volitiva, quase sempre geradora de tensão e sofrimento, mas também de euforia, glória e progresso, porque é crescimento e modificação como o das serpentes que abandonam sua antiga pele.

Essa desestabilização permanente tem a ver com desarmonia e harmonia, com o caráter revolucionário, perecível e recuperado, com a decomposição do que é composto. E assim, tudo deixa de ser o que antes era, e se transforma, se desagrega, e se agrega a novos elementos, numa modificação contínua de sempre, através da infinidade de transformações e manifestações diferentes, num fluxo contínuo de recriações, de vir-a-ser. Mutações.

Tudo vigora, não como uma integridade em si mesmo, mas num intercâmbio, em mútua transformação sucessiva, incessante, sem limites claros e precisos durante muito tempo, num processo de assimilação e desassimilação em que até o fluxo da consciência e do pensamento atravessa o homem num rápido passar que aparece e desaparece.

« Poder ser diferente, isso significa: também poder transformar-se em outra coisa: no mal
a conter, no bem a promover» (Bloch).

Assim é a dialética da transformação do mundo, onde as coisas mudam muito rapidamente e é o que causa o sofrimento e a insegurança radical, onde o próprio sujeito é pluralidade de individuação e desintegração transitória, um processo de conhecimento e desconhecimento de todos os seus diversos aspectos e de tudo o que se está formando e desaparecendo, tudo que está sendo superado sucessivamente.

A matéria, as sensações, as percepções e a consciência são igualmente condicionadas, não permanentes, sujeitas ao processo desestabilizador. E isso se refere, como disse Arendt, aos conceitos de imortalidade e eternidade. Desde a queda do Império Romano nada que seja produto do homem pode ser considerado imortal. E mesmo a experiência do eterno, de que fala Aristóteles, é transitória, não suportando o homem durante muito tempo a experiência do Presente, pois o homem é sempre provisório.


A União Soviética passou. «Tudo o que é sólido se desmancha no ar». Toda revolução se constrói sobre as ruínas de uma crise. É possível que o progresso das nações, a felicidade dos povos, a paz e a prosperidade - é possível que tudo isso esteja ao alcance das nossas mãos de futuro. Pois o homem é possibilidade, como escreveu Ernst Bloch. 

O RIO NEGRO

O RIO NEGRO
 

Rogel Samuel

Em 1729 morrem no rio urubu 
vinte e oito mil índios 
assassinados 
Mas somos fracos para esta luta 
e fala afiada. 
Mas na margem a cozinheira corta o peixe 
como o selo que pincela, amara. 
Três homens remam montados nas águas 
Oh estamos fracos para a luta 
preparada selva absoluta. 
No caminho vendem os armadores as ilhas 
cai a chuva sobre as lajes da tarde 
que estamos fraco para a luta 
preparo o corte a morte. 
Preparo o rio,  urubu, orgulho das águas 
imprópria para o passeio público 
não o passado branco amigo 
gesto sobretudo de suas partes 
ali viram morrer 300 malocas 
no rio urubu  rio negro da morte 
o que passa entre o mato aziago 
É belo? É limpo? adejam  papagaios 
entre mil insetos de teia de ouro fino 
o rio não esquece 
o rio nunca esquece 
nunca lava 
a hecatombe a fila a corrida 
Naquele dia seguimos até o Celismar 
na sincopada batida  de Ananda
bois espiam da margem 
crianças olham ocorridas 
gritam cios cicios curumins 
passarinhada menina 
a cunhantã levantou voo? 
o curumim mergulhou? o rio urubu prossegue 
sua marcha fúnebre  ritual líquido da corte 
onde um dia, nesta tarde 
não me deixaram mergulhar 
como se ali o rio pudesse 
para sempre me tragar 
quantos olhos aparecem? quantos ameaçam? 
na leveza do anum  canarana 
a criança ao longe vista 
o rapaz nu ri ou está chorando? 
o sol se põe naquela tarde 
densíssima de calor e escudo 
e escuro e orgulho o rio negro 
fecha suas portas e véus 
sobe para os céus suas veias
iluminadas e nervuras 
acesas 
lá estão milhares de índios mortos 
ranger de dentes 
o rio chamado urubu 
sons percorrem suas  luvas pretas 
exclusividades de belezas 
urubu rio range dorme cemitério norte 
risca fio apertado brilho fantasma 
sobretudo preto urubu balança e nos ameaça 
nos quer no seu túmulo histórico 
heróico
amazônico emparedado matagais gerais 
alta terrível floresta 
transforma as corridas amas
úmidas  amantes  #
rio doente para sempre 
que desde o município de silves 
está pronto para ejetar  seus encapuzados enlevos 
e inocular a morte 
como as suas aranhas
rio que se enluta de capa preta 
desde o Século Dezoito 
ferve meu sangue a saliva dos mortos 
escuro e orgulho
onde um dia, nesta tarde 
meu pai não me deixou mergulhar 
como se ali o rio pudesse 
para sempre me tragar 
que não entendo esse rio 
não me fala  para mim estrangeiro
me repele me ameaça 
com sua capa de aço 
colorido festival amanhece 
que cor é essa? que desconhecida 
alegria em bandeiras em pânico? 
o capinzal desce o rio de uma vez 
ilha de capim que um animal  levado 
pelo azul  cheio de tudo 
está frio? está calor? 
estou morto? sobrevivo? 
a luz não é simples 
onde a morte está nada é simples 
ainda lá e passam chorando 
populações indígenas navegando 
que amaldiçoado por dentro
do escuro e orgulho
onde um dia, nesta tarde 
meu pai não me deixou mergulhar 
como se ali o rio pudesse 
para sempre me tragar 
o enigma passa sobre o plano espetáculo 
não serei o mesmo depois do fim da  era 
meus pais  sepultados ali 
minhas águas falam de minha história 
mortos meus irmãos eu detenho 
oh irmãos, detenhamos essas águas 
pois ainda são sangue derramado 
mantenhamo-nas as de mãos dadas de mãos tigres 
fiquemos alertas e não nos afastemos 
unidos nesta desgraça armada 
a aurora retardada nevoeiro 
que tudo envolve e ameaça 
a noite retorna  contínua 
sua caminhada fria 
o escuro e orgulho o frio o canto  o pranto 
o seco as nossas desconhecidas línguas 
a palavra perdeu seu suor 
nesta mata tudo acabou 
dentro do calor há muito frio 
nuvens negras de sol 
sobre o pênis de seu risco preto 
vêm tímpanos de guerra 
não nos deixe, amigo, não 
não nos abandone 
ainda podemos fazer um pouco de noite 
da noite que não retorna 
viveremos esses momentos 
como vivíamos outrora 
soubéssemos o que fomos 
teríamos extintos os mesmos  registros 
sentiremos a dor, a última dor 
de nossas queridas mães selvagens 
traspassadas nas lanças caídas
perdidas 
reconheceremos o caminho 
morrer não é mais adiante no amorfo 
lúcida visão do dia 
meu pai já está morto ali 
já amanhece a ponta do sol 
as últimas bocas dizem as últimas verdades 
pouca irradiação tardia 
meu pai já está morto  nossos nervos selvagens 
escondidos no mormaço venhamos, unamo-nos 
contra tal atrocidade 
caíram esmagados e obscuros 
os principes da amazônica cidade 
não sobra registro  livros  história 
seus nomes se perderam 
mesmo em papel crepom  raça  extinta 
saiamos já daqui deste poema 
com tudo o que fomos 
não se volatizaram esses altos valores? 
oh verdes  claros  cimos  ares 
luzes inatingíveis 
estamos aprisionados no passado 
é o pó a pedra a extrema a vermelha 
pedra do rio negro 
do rio negro calado 
ó calar subterrâneo que grita  alto 
não me conformo, meu deus, eu não 
me conformo 
usemos algo, sangremos algo, falemos algo
o sangue a nossa voz 
a nossa veia acordada 
a transfusão de nossas águas 
não fiquemos assim como nada 
não fiquemos parado no tempo 
da rota história 
vamos ao traspasse do tempo 
ou não teremos história 
marco pavio lamparina navio 
voemos para  os extintos 
sem nome sem nunca mais 
pois em 1729 morreram no rio urubu 
vinte e oito mil índios meu passado 
hoje, em 1984 
ainda sofremos o sussuro assombrado 
seres ocultos na floresta 
no escarro noturno na folha 
ruídos surdos da morte 
silvos de cobra 
grito que se atrofia 
que somos? apenas homens 
culpas cospem jogos 
línguas secam vazias de falas 
o futuro desaparece no passado 
ondas de óleo negro como esperma 
sob um bafejo roto 
louca magreza fome desterro 
derrama o rio partes expostas 
e geográfico não mais corta 
seu beijo frio horizonte amarelo 
que nada nasceu ali depois nem nascerá  
nem os pássaros cegos 
o céu  fantasma estéril 
o amor misturado ao pasmo do passado 
as paisagem  irritadas 
as aranhas e escorpiões afiados 
para sempre este 
sempre urubu, sempre interno 
sempre negra flor, sempre inferno 
que nós nos lembramos do dia 
que nos surpreende afinal 
 as armas tocaram as peles 
o rio o sangue negro detesta
o castelo a testa a proa 
a fome as estrelas a morte os ares 
e há pontos de luzes verdes e vinagres 
na costa desta  floresta 
as coisas são diamantes 
e só não ouve quem não quer o ranger de  dentes 
espinhos venenosos se postam 
preparada armada a mata 
e há urubus e  no cornicho atenção
dos cadáveres históricos 
de um grande cemitério 
(mas tudo passará. No mesmo fio da espada 
e sob o mesmo tom da corte negra) 
ó tristes homens  mãos de pedra 
- um índio vinha e subia o rio de repente 
a todos se oferece o rio de cinzas 
sua divina partilha 
ninguém mais sabe  nada 
perambula entre nós cachoeira 
(mas o anjo e a estrela entram na mesma pupila 
sua auréola bela e amiga 
refaz a alegria antiga 
e eu choro o festival que nunca passou 
penetro o jardim e esquecidas 
as flores sobre a balsa passam 
amaldiçoadas passam 
de Manaus a Itacoatiara 
nem sabem os demônios das margens 
o chumbo soberano. 
Pois perto é a morte 
com sua mão afiada 
E a ponte o caminho 
está entre o tudo e o nada 
e somos raros agora 
geração aziaga).