domingo, 10 de dezembro de 2017

FREI LOTHAR

FREI LOTHAR
De repente, o Frei se lembrou do Concerto Duplo - beleza! - e emendou a Partita num dos trechos de sua parte. No Concerto Duplo tudo era ânsia, sublimidade. Ele se imaginava no meio da orquestra, lembrava-se dos sonhos de ser músico, e não padre, mergulhava no concerto ouvindo o violoncelo e toda a grande orquestra. Via as galerias repletas, de onde explodia o sucesso, o aplauso, tudo aquilo bem longe do Amazonas, bem longe da morte. Ele foi levado pelo devaneio. Por quê? Do antigo misticismo não sobrava nada. Por quê? Tocava Brahms cortando ao meio a floresta Amazônica. Por quê? A noite corria no altíssimo, e o céu da Amazônia de repente ficou transparente e claro e coberto de estrelas que cintilavam, e tudo lhe apareceu de uma só natureza, num bloco em que ele não existia mas estava integrado num todo - e Frei Lothar, parando de tocar, correu para a amurada com lágrimas nos olhos, e de repente viu, em êxtase, que a Imensidão e a Eternidade apareciam subitamente ali na sua frente, vindo e chegando a ele, amplas, entrando por seus olhos, por seus ouvidos, e tudo era um só Incomensurável ... - e ele, integrado, eterno, deu um grito e se sentiu incompreensivelmente feliz

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

DOIS - A PANTERA DE ROGEL SAMUEL


DOIS - A PANTERA DE ROGEL SAMUEL

Nesse casebre, à noite, sentimo-nos ameaçados.
Sabemos estar sobre o Eldorado. Pepitas de ouro no leito do lago.
Animais noturnos nos espreitam. O cântico da mãe da lua aterroriza, o urutau canta suas três oitavas horrorosas.
Eu durmo com Jara numa rede alta, encostado no seio do muro do seu silêncio.
As estrelas são vivas. E gritam.
Não há mosquitos, mas um frio vem da alma, vem do calor da noite, dos ventos sinistros dos Andes.

Naquela noite novamente ouvimos a presença noturna da pantera negra, ao redor da casa.
Naquela noite, ouvimos gritos e silvos, gemidos, assobios.
Miracã-uera, o cemitério.
Moramos em cima do cemitério do Eldorado.
Isso nos assusta, nos ilude, no escuro, no miúdo.
Por aqui, a floresta aparece num grande mapa, protegida.
Nenhum civilizado pisou esses solos amaldiçoados, protegidos por demônios encharcados de ouro.
Jara quase não fala, companheira silenciosa.
Não sei de onde ela veio, não sei quem é. E temo que possa matar-me, enquanto durmo.
Mas fazemos o amor selvagem.
Quando ela vê a minha depressão, mergulha no leito do lago e vem com uma pepita de ouro puro que vou acumulando numa mochila já tão pesada.
Depois acende um cachimbo de ipadu, uma espécie de coca, sopra na minha face. E me obriga a mascar algumas folhas amargas, misturadas com cinzas da palmeira motaçu, e um cipó amargo, chamado Tchamaru. Essa mistura me revigora, sinto uma embriaguez deleitosa, súbita euforia, e adormeço em seus braços.
- Ipadu! Ipadu! – diz ela. Ipadu, motaçu, Tchamaru!
E eu me reconheço, e eu me recupero.


Sei que ela pressente o perigo, a guerra. O incompreensível perigo.

sábado, 2 de dezembro de 2017

A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito) 1.


1 - A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito)

Eu não sei há quanto tempo já que estou aqui. Perdi a consciência da vida e espaço, na letargia de espera, felicidade calma, apática tristeza. Nem sei mesmo onde estou, entre essas imensas árvores, onde os verdes pássaros gritam, os silvestres silvam, estilete no silêncio morno do calor úmido do mormaço da tarde.
Em frente, o lago dourado se abre, largo, sinistro, sem nome. Minha companheira pesca, ela está imóvel, como estátua nua no ar, levantada a lança.
Talvez eu já esteja louco, isolado aqui há muitos anos.
Talvez não.
O mundo desapareceu, mudou-se, fechou-se. O tempo morto, lembranças mortas, espaço morto, verde incompreensível.
Por que de nada me lembro ou de nada me  quero lembrar além da espera da morte, da  guerra final.

Quando o som de arco perfura, sei que ela  não erra. Ela é jovem, bela, ombros largos, pernas longas, barriga torneada.
Está aqui há algum tempo, silenciosa, atenta, misteriosa, meiga. Perigosa. Protetora, amante ou inimiga, não sei. Os velhos permitiram que ela ficasse comigo, não sei por quê. Acho que ela pediu, quando apareceu. Ficou.
Vieram depois guerreiros, dias depois, buscá-la. Ela não foi, gostou de mim, fizemos sexo, selvagem e louco.  
Eles desapareceram. Nem olharam para mim.

Agora Jara é atalaia, está aqui para alertar sobre aproximação do exército inimigo. Será mesmo que virá o exército inimigo? Talvez Jara esteja planejando matar-me. Talvez eu seja o seu inimigo. Mas minha letargia, minha apatia, minha indiferença faz Jara permanecer em paz. 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

domingo, 12 de novembro de 2017

DEUS SONHA - VICTOR HUGO

DEUS SONHA - VICTOR HUGO
O dia acorda. Deus, por uma fresta
Das nuvens a espreitar, ri-se. A floresta,
O campo, o inseto, o ninho sussurrante,
A aldeia, o sol que finge a serrania...
Tudo isso acorda, quando acorda o dia
No fresco banho de ouro do Levante.
Deus sonha. Vaza os olhos d’água; pica
As artérias da terra; o lis fabrica,
E da matéria sonda o fundo ovário.
Pinta as rosas de branco e de vermelho,
E faz das asas vis do escaravelho
A surpresa do mundo planetário.
Homens! As férreas naus de velas largas
Monstros revéis, formidolosas cargas,
Do bruto oceano arfando as insolências
Extenuando os ventos, e nos flancos.
Largo enxame a arrastar de flocos brancos
De escuma, e raios e fosforescências...
Os estandartes de arrogantes pregas;
As batalhas, os choques, as refregas;
Náuseas de fogo de canhões sangrentos;
Feroz carnificina de ferozes
Batalhões - bando espesso de albatrozes
De asa espalmada e aberta aos quatro ventos...
Comburentes, flamívomas bombardas,
Ígnea selva de canos de espingardas,
Estampidos, estrépitos, clangores,
E, bêbedo de pólvora e fumaça,
Napoleão que galopando passa,
Ao ruflar de frenéticos tambores;
A guerra, o saque, as convulsões, o espanto;
Sebastopol em chamas, de Lepanto
A vau de lanças e clarins repleto...
Homens! Tudo isso, enquanto recolhido
Deus sonha, passa e soa ao seu ouvido
Como o rumor das asas de um inseto!
(Trad. de Raimundo Correia)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

"COELHO NETTO E SUA OBRA" DE PÉRICLES MORAES

No Brasil, a fecundidade literária do sr. Coelho Neto é um exemplo isolado. Pode-se dizer que nas nossas letras, desde que a nossa literatura deixa de ser uma ficção para tomar forma e se revelar, não se conhece outro escritor dotado de maior ou de igual disciplina de trabalho. Prosador nato, dos melhores de nossa língua, a sua obra aperfeiçoa-se de dia para dia, ramifica-se, irradia-se, exerce influências, determina uma época literária; e muito embora a crítica de hoje, desconfiada e bisonha, faça restrições ao seu valor intrínseco, não há como recusar-lhe a primazia com as de maior nomeada. Não afirmaremos que o escritor tivesse tido sempre as palmas da vitória em todas as experiências que o diletantismo de seu espírito praticou. Mas, se como poeta o sr. Coelho Neto foi apenas um delicado amador, se não há notícia de suas incursões na tragédia, é soberano o seu principado no conto e no romance, que os concebeu e realizou com a mesma inexcedível perfeição dos mais eminentes mestres universais. É certo que a sua obra nem sempre foi meditada e sentida nos silêncios inspirativos do gabinete, o espírito calmo, o homem desobrigado da vida nos travores de suas exigências materiais cotidianas. Alguns dos volumes de sua bibliografia se ressentem da precipitação com que foram planejados e compostos, o escritor operando o milagre de viver das letras, sob a pressão de um ambiente refratário e hostil a quaisquer manifestações da inteligência. Ainda assim do tumulto desses conflitos desiguais, traído pela inveja, sitiado pela indiferença, emparedado entre as muralhas dos obstáculos crescentes da vida, quantas maravilhosas obras-primas. Obra-prima o “Tubilhão”, escrito assim, na azáfama do jornal, para o cumprimento da tarefa diária; obras-primas o surto flaubertiano do “Rei Fantasma” e, ainda, essa linda fantasia oriental do “Rajah de Pendjah”, ambas realizadas da mesma forma, para o folhetim cotidiano, e que revelam de pronto o escritor, a sua visão simultânea de colorista e de imaginativo através do frêmito alucinado que lhe convulsiona as ideias. Já houve, aliás, quem atribuísse a vitalidade das obras-primas, estudando-lhes a gênese, ao impulso instantâneo do pensamento, à transição epilética que age e hipnotiza o criador no instante da criação. Apenas Flaubert, excepcionalmente, transgrediria a regra. Porque Saint Victor viveu assim as páginas todas do “Hommes et Dieux”; Paul Adam escrevia na redação do vespertino em que colaborava os capítulos da “Critique des Moeurs”; Anatole somente começava a compor as páginas de crítica da “Vie Littéraire”, reunidas depois nos quatro volumes célebres, quando o chasseur do jornal lhe vinha buscar os autógrafos; e Sainte-Beuve fazia precipitadamente, ainda sob a impressão de sua última leitura, cada um dos notáveis estudos das “Causeries du Lundi”. Quem leu a correspondência de Barbey d”Aurevilly dirigida a Léon Bloy, sem nenhuma notoriedade naquele tempo, humilde revisor de provas do impiedoso demolidor, avalia a desordem dos processos de composição do autor das “Diaboliques”, sobretudo quando dinamitava os seus contemporâneos. Faz-se mister acentuar, em proveito do escritor patrício, a diversidade flagrante de concepção do que diz respeito às suas ideias.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

"COELHO NETTO E SUA OBRA" DE PÉRICLES MORAES - em e-book

"COELHO NETTO E SUA OBRA" DE PÉRICLES MORAES - em e-book - O MAIOR LIVRO DA LITERATURA AMAZONENSE DE TODOS OS TEMPOS, COM PREFÁCIO DE ROGEL SAMUEL... LEIA EM http://concultura.manaus.am.gov.br/…/Coelho-Neto-e-sua-obra…

domingo, 22 de outubro de 2017

O BULLYING NÃO É COISA NOVA

O BULLYING NÃO É COISA NOVA

ROGEL SAMUEL


Há anos já existia. Eu assisti bullying muitas vezes. A diferença, hoje, está redes sociais. Florestan Fernandes conta como sofreu por ser filho de mãe solteira, na Universidade. Os mais sofredores são os alunos negros, gays e trans. Um dia eu tinha nas mãos um velho cartão-postal. E uma edição deLa vida es sueño. Era uma velha loja no centro velho da cidade, uma loja de coisas usadas, talvez um bazar beneficente. Estava cheia de trastes cobertos de uma poeira decadente. Quando entrei fui logo atraído pela pilha de livros a um canto, onde descobri o livro de Calderón. Depois descobri uma caixa de sapato cheia de velhas fotografias. O cartão postal. Era uma foto velha, mas muito nítida, meio sépia, da minha cidade natal. A rua era aquela. Pude reconhecer cada pedra, cada porta, cada janela. Sabia mesmo quem habitava ali. Na grande casa da esquina morava o meu amigo de infância X. Quando sua mãe estava grávida, uma vidente lhe disse: ia ser menina. A família preparou um enxoval de menina. Nasceu menino. Quando tinha sete anos de idade, disse para a mãe: queria ser bailarino. A mãe se persignou. Nada disse para o marido, que era violento. Quando tinha doze anos entrou para aquela escola, onde o conheci. Como era muito louro, belo, alto e feminino, na escola só encontrou inimigos. Ninguém se aproximava. Na rua os moleques freqüentemente tentavam agredi-lo. Ele chorava. Quando passavam pela frente de sua casa, gritavam palavrões, faziam gestos indecentes e jogavam pedras. Por isso quase não saía de casa. Mas se vestia muito bem. Família rica e conhecida na cidade. Usava umas blusas de seda branca, que dizem ele mesmo fazia. A mãe todos os dias ia levá-lo ao colégio. A mãe era amiga de nossa família. Mas nossas mães nos proibiam de falar com ele. Ele só se aproximava de algumas meninas, no recreio. Mas era um bom aluno e excelente desenhista. Quando tinha cerca de quinze anos, o pai o surpreendeu vestido com roupa da mãe, todo pintado. Espancou-o tão violentamente que ele ficou vários dias sem poder ir à escola, com hematomas no rosto. Logo no fim do ano eu me mudei para o Rio de Janeiro e o perdi de vista. Soube que o pai o expulsara de casa. Foi morar com umas tias, no Rio. As tias o rejeitavam, mas o pai era rico e pagava bem. Quando o pai soube que ele dormia fora suspendeu o pagamento. Sem pagamento, as tias o expulsaram. Contam que ele vivia nas ruas, onde se prostituía. Depois trabalhou como cabeleireiro e manicuro. Aquela loja estava cheia de trastes velhos, cobertos de uma poeira decadente. Quando fui pagar, a velha que me atendeu falou, com  estranha voz: “Eu nasci aí, nesta cidade”. Era ele, o meu amigo X. Não me reconheceu. Aquela mulher tinha os dentes estragados, o ralo cabelo branco mal pintado, amarrado para atrás. Era um ser em ruína. Eu nada disse, paguei e saí da loja, sobraçando o livro de Calderón,   La vida es sueño

HEIDEGGER

HEIDEGGER

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A QUESTÃO FUNDAMENTAL DA METAFÍSICA 

Trad. Emmanuel Carneiro Leão

Por que há simplesmente o ente (1) e não antes o Nada? Eis a questão. Certamente não se trata de uma questão qualquer. “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?” - essa é evidentemente a primeira de todas as questões. A primeira, sem dúvida, não na ordem da seqüência cronológica das questões. Em sua caminhada histórica através do tempo o homem e os povos investigam muito. Pesquisam e procuram e examinam muitas coisas antes de se depararem com a questão, “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?” Muitos nunca a encontram, não no sentido de a lerem e ouvirem formulada, mas no sentido de investigarem a questão, i.e, de a levantarem, de a colocarem, de se porem no estado da questão. 
E não obstante todos são atingidos uma vez ou outra, talvez mesmo de quando em vez, por sua fôrça secreta, sem saberem ao certo, o que lhes acontece. Assim num grande desespero, quando todo peso parece desaparecer das coisas e se obscurece todo sentido, surge a questão. Talvez apenas insinuada, como uma badalada surda, que ecoa na existência (2) e aos poucos de novo se esboroa. Assim num júbilo da alma, quando as coisas se transfiguram e nos parecem rodear pela primeira vez, como se antes nos fosse possível perceber-lhes a ausência do que a presença e essência. Assim numa monotonia, quando igualmente distamos de júbilo e desespero e a banalidade do ente estende um vazio, onde se nos afigura indiferente, se há o ente ou se não há, o que faz ecoar de forma especial a questão: Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada? 
Em todo caso, quer seja mesmo investigada ou quer, ignorada como questão, perpasse pela existência como um hálito tênue, quer nos pressione mais duramente ou quer se veja preterida e recalcada por qualquer pretexto, de fato nunca é a questão que na ordem cronológica investigamos por primeiro. 
Mas é a primeira questão em outro sentido - a saber quanto à dignidade. O que se explica de três modos. A questão, “por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?”, se constitui para nós na primeira em dignidade antes de tudo por ser a mais vasta, depois por ser a mais profunda e afinal por ser a mais originária das questões. 
A questão cobre o máximo de envergadura. Não se detém em nenhum ente de qualquer espécie. Abrange todo ente, i. e, não só o ente atual no sentido mais amplo, como também o ente, que já foi e o que ainda será. O arco da questão encontra seus limites apenas no que absolutamente nunca pode ser, no Nada. Tudo, que não for nada, cai sob seu alcance, no fim até mesmo o próprio Nada. Não certamente por ser alguma coisa, um ente, de vez que dele falamos, mas por “ser” o Nada. É tão vasto o âmbito da questão, que nunca o poderemos ultrapassar. Não investigamos esse ou aquele nem mesmo, percorrendo um por um, todos os entes, mas antecipadamente o ente todo, ou como dizemos, por razões a serem discutidas ainda, o ente como tal na totalidade. 
Com ser assim a mais vasta, a questão é ainda a mais profunda: “Por que há simplesmente o ente...? “ “Por que” significa, qual é o fundo? De que fundo provém o ente? Em que fundo descansa o ente? A questão não investiga isso ou aquilo no ente, o que ele é cada vez, aqui ou ali, como é constituído, pelo que pode ser modificado, para que serve etc... Ela procura o fundo do ente enquanto ente. Procurar o fundo, isso é aprofundar. O que se põe em questão, entra assim numa referência com o fundo. sendo, porém, uma questão, fica aberto, se o fundo (Grund) é um fundamento originário (Ur-grund), verdadeiramente fundante, que produz fundação; ou se ele nega qualquer fundação e é assim um abismo (Ab-grund); ou se o fundo não é nem uma nem outra coisa, mas dá simplesmente uma aparência, talvez necessária, de fundação, tornando-se destarte um simulacro de fundamento (Un-grund). Como quer que seja, procura-se decidir a questão no fundo, que dá fundamento para o ente ser, como tal, o ente que é. Essa questão do “por quê” não procura causas de igual espécie e do mesmo plano que o ente. Não se move em nenhuma fácie ou superfície. Afunda-se nas regiões profundas e vai até os últimos limites dos fundos. É avessa a toda superfície e planura, voltada para as profundezas. A mais vasta, é igualmente a mais profunda das questões profundas. 
Por ser a mais vasta e profunda das questões, é também a mais originária. O que se deve entender por isso? Ao refletirmos sobre todo o âmbito do que se põe em questão, o ente como tal no seu todo, depara-se-nos fàcilmente o seguinte: Afastamo-nos inteiramente de qualquer ente particular, enquanto este ou aquele. Intencionamos sim o ente em seu todo mas sem qualquer preferência. Apenas um dentre eles sempre de novo se insinua estranhamente: o homem, que investiga a questão. Não obstante, não está em questão nenhum ente particular. No sentido de seu raio ilimitado de ação Lodos os entes se equivalem. Um elefante numa floresta virgem da Índia é tão bem um ente, quanto um fenômeno de combustão química no planeta Marte ou qualquer coisa outra. 
Para satisfazermos, portanto, a questão, “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?”, no sentido correto de sua investigação, devemos eliminar a preferência de qualquer ente em particular, inclusive a referência ao homem. Pois o que é esse ente! Imaginemos a terra na imensidão obscura do espaço no universo. Proporcionalmente não passa de um minúsculo grão de areia com um quilômetro de extensão, e o resto é o vácuo Em sua superfície vive rastejando em profusão um punhado entorpecido de animais pretensamente astutos, que por um instante descobriram o conhecimento (Cfr. Nietzsche, Sobre a Verdade e a Mentira no sentido extra-moral, 1873 inédito). E o que significa o espaço de tempo de uma vida humana no curso de milhões de anos? Mal uma pulsação do ponteiro de segundos, um sopro de respiração. Dentro da totalidade do ente não há razão para se privilegiar este ente, que se chama homem e ao qual pertencemos por acaso. 
Mas tão logo o ente em seu todo cai no campo de força da questão, investe-o a investigação, com a qual entra numa relação sui generis, porque única. Pois somente nela o ente em seu todo se revela como tal, se abre na direção de seu possível fundamento e assim se mantém em questão. Para ele a investigação não é um fenômeno qualquer dentro do real, como p . e. a queda dos pingos de chuva. A questão do “por quê” defronta-se por assim dizer, com o ente no seu todo. Dele como que se desliga, embora não de todo. E é justamente o que lhe confere uma distinção. Ao defrontar-se com o ente no seu todo, sem, todavia, se lhe poder escapar de todo, repercute o que na questão se investiga, sobre a própria investigação. Por que o por quê? Em que se funda a questão do por quê, que pretende pôr o ente no todo em seu próprio fundo. Será ainda esse “por que” uma questão sobre o fundo entendido, como superfície, de sorte que sempre se procura um ente para fundamento? Não é essa “primeira” questão a primeira em dignidade, considerada segundo o valor intrínseco da questão do Ser (3) e suas modalidades. 
Sem dúvida alguma — quer se ponha a questão, “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?”, quer não, em nada se altera o ente em si mesmo. Também sem ela os planetas continuam a percorrer as suas órbitas. Também sem ela o elã da vida continua a pulsar através dos animais e das plantas. 
Se, porem, for posta de maneira devida, dar-se-á necessariamente uma repercussão, do que se investiga, sobre a própria investigação. Por isso não se investiga, sobre a própria investigação. Por isso não se trata de um fenômeno qualquer mas de um evento especial, que chamamos um acontecimento. 
Como todas as demais questões nela diretamente radica das, nas quais se desenvolve, a questão do “por quê” é irredutível a qualquer outra. Impele ã procura de seu próprio por quê. A primeira vista e considerada de um ponto externo, a questão “por que o por quê? assemelha-se a uma repetição jocosa, que se poderia repetir até ao infinito, da mesma partícula interrogativa. Parece mesmo uma especulação vazia e desvairada sobre significações verbais sem conteúdo. Certamente assim o parece. Trata-se apenas de saber, se nos deixaremos enganar por essa aparência demasiado fácil, dando logo tudo por resolvido, ou se ainda seremos capazes de experimentar na repercussão da questão do “por quê” sobre si mesma um acontecimento provocante. 
No caso, porém, de não sermos vitimas de uma ilusão de ótica, havemos de ver, que a questão do “por quê” na qualidade de questão sobre o ente como tal no seu todo, nada tem a ver com qualquer jogo de palavras. Suposto, ainda possuirmos tanta fôrça de espírito para realizarmos verdadeiramente a repercussão sobre seu próprio por quê. Pois tal repercussão não se fará certamente por si mesma. Então faremos a experiência de fundar-se essa questão eminente num salto. No salto, em que se deixa para trás (4) toda e qualquer segurança da existência seja verdadeira ou presumida. Sua investigação ou se concretiza no salto e como salto ou não se realiza nunca. O que significa aqui “salto”, esclarecer-se-á mais adiante. A questão não é o salto. Nele se deve transformar. Ela ainda se acha inocentemente ‘defronte do ente. Por ora basta saber, que o salto dá origem (er-springt) ao próprio fundamento da investigação. Saltando, ela origina para si o fundo, em que se funda. Um tal salto, que origina para si seu próprio fundamento, denominamos, de acordo com a significação verdadeira da palavra, um salto originário. (5) Ora, uma vez que a questão, “por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?” dá origem ao fundamento de toda questão verdadeira e lhe é, nesse sentido, originária, deve-se reconhecê-la, como a mais originária das questões. 
Assim, com o ser a mais vasta e profunda questão, é também a mais originária e vice-versa. 
[Introdução à metafísica. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1969.]

Finlândia

Solveig von Schoultz, 1907-1996, Finlândia




O Coração
Solveig von Schoultz, 1907-1996, Finlândia

Demos-lhe sementes; não muitas,
mas quanto bastasse para não se cansar;
água lhe demos, apenas um dedal,
para a fonte lhe recordar.
Abrimos tão pouco a porta,
para que os céus lhe batessem no olhar
e à gaiola um pequeno espelho prendemos
para de frente a nuvem poder contemplar.
Quieta se sentava, com as asas palpitantes.
Assim ela cantava.
[ trad. josé agostinho baptista ]

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Amar e prazer

Amar e prazer





Amar e prazer

Rogel Samuel


A noite é feita para o amor, diz o poeta. No Brasil, com essas praias, com esse sol, a noite é para dormir.

Nosso amor é diurno. Ainda nos amamos? Amar é um dom precioso. Só quem sabe o amor sabe ser feliz.
Geralmente queremos ser amados, não amar.
Amar é tão mais importante que ser amado, pois nos tira de nossa solidão solipsista.

Amar não é vantajoso, pois é doação. O amor não, tira. O amor dá.

O amor que é doação
não conhece a lua sombria.

Só dando espaço ao ser amado
o teremos sempre de volta.

O poema de Byron:



Não mais prazer nos daremos



Não mais prazer nos daremos

até a noite acabar,

se bem que inda nos amemos

e como antes brilhe o luar.

A espada à bainha gasta,

as almas cansam o seio.

Coração que não se afasta

pode até ficar em meio.

Para o amor a noite é feita,

e depressa chega o dia.

Mas o prazer nos enjeita

à luz da lua sombria.



(BYRON, trad. Jorge de Sena) 

QUINZE: A LIVRARIA.


QUINZE: A LIVRARIA.


AQUELE era um cômodo sem janela, debaixo da escada, e ali dentro sentia-se muito calor, umidade e mofo.

Para Ribamar, um luxo. Naquele quarto, durante uma década, vivera a finada Benedita, velha empregada de Juca das Neves, muito asseada. Mas na parede mofada a umidade alargara duas manchas pardas. Ribamar armou a rede, deitou-se. Poderia sair sem ser visto pelas pessoas da casa, pelo corredor lateral. No primeiro andar, o piano de Melina tocava uma mazurca de Chopin. Juca das Neves já se tinha recolhido. Naquele dia, Ribamar conhecera o Hotel Cassina, em decadência, a se transformar no Cabaré Chinelo. Conhecera o Alcazar, a Livraria Royal, na Rua Municipal, 85, expostas as novidades de Garcia Redondo, de João Grave, de Júlio Brandão e Bento Carqueja - autores da moda. Ali havia um livro de Carmen Dolores, outro de Haeckel. Eram panegíricos e leitura recreativa. A “Biblioteca para o Povo”, a “Biblioteca Racionalista”. Os Serões da Aldeia, de João de Lemos. Um livro se intitulava De cara alegre, de Alfredo de Mesquita e tinha sido um best-seller. Custava $50. Juca das Neves tinha parte da biblioteca de Pierre Bataillon em casa. Melina não tocava mal. Ribamar recordava-se de Pierre Bataillon tocando Schubert. Alvarengas rebocavam pélas de borracha. Ribamar passara pela porta do London Bank. As alvarengas suaves entravam na porta do Banco. Ivete, quando era servente, vivia quase nua. Ribamar estranhou encontrá-la, agora, grande dama, casada com Antônio Ferreira.



quarta-feira, 4 de outubro de 2017

NOVA REIMPRESSÃO DA SEXTA EDIÇÃO

NOVA REIMPRESSÃO DA SEXTA EDIÇÃO


Estranho grande poema - Rogel Samuel

Estranho grande poema - Rogel Samuel


Estranho grande poema - Rogel Samuel
Escreveu Pedro Benjamín Palacios, conhecido como "Almafuerte", um estranho poema, próprio para o que vivemos nós:

"Não se dê por vencido, nem, se vencido, não se sinta escravo, nem, se escravo, não fique trêmulo de medo, imagine-se como um bravo, e ataque feroz, ainda que mal ferido, com a tenacidade do prego enferrujado que velho e gasto, mas volta a prego, sem a estupidez não covarde do pavão que amaina sua plumagem ao primeiro som, continuando como Deus que nunca chora, ou Lúcifer, que nunca lê, ou como o carvalho, cuja grandeza necessita de água, e não a implora ... que morda e se vingue rolando na poeira, sua cabeça!"

No te des por vencido, ni aún vencido,
no te sientas esclavo, ni aún esclavo;
trémulo de pavor, piénsate bravo,
y acomete feroz, ya mal herido.
Ten el tesón del clavo enmohecido
que ya viejo y ruin, vuelve a ser clavo,
no la cobarde estupidez del pavo
que amaina su plumaje al primer ruido.
Procede como Dios que nunca llora;
o como Lucifer, que nunca reza;
o como el robledal, cuya grandeza
necesita del agua y no la implora...
¡Que muerda y vocifere vengadora,
ya rodando en el polvo, tu cabeza!

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

CASIMIRO DE ABREU - PRIMAVERAS



CASIMIRO DE ABREU - PRIMAVERAS
O Primavera! gioventú dell'anno, 
Gioventú! primavera della vita.
METASTASIO
I
A primavera é a estação dos risos,
Deus fita o mundo com celeste afago,
Tremem as folhas e palpita o lago
Da brisa louca aos amorosos frisos.
Na primavera tudo é viço e gala,
Trinam as aves a canção de amores,
E doce e bela no tapiz das flores
Melhor perfume a violeta exala.
Na primavera tudo é riso e festa,
Brotam aromas do vergel florido,
E o ramo verde de manhã colhido
Enfeita a fronte da aldeã modesta.
A natureza se desperta rindo,
Um hino imenso a criação modula,
Canta a calhandra, a juriti arrula,
O mar é calmo porque o céu é lindo.
Alegre e verde se balança o galho,
Suspira a fonte na linguagem meiga,
Murmura a brisa: - Como é linda a veiga!
Responde a rosa: - Como é doce o orvalho!
II
Mas como às vezes sobre o céu sereno
Corre uma nuvem que a tormenta guia,
Também a lira alguma vez sombria
Solta gemendo de amargura um treno.
São flores murchas; - o jasmim fenece,
Mas bafejado s’erguerá de novo
Bem como o galho do gentil renovo
Durante a noite, quando o orvalho desce.
Se um canto amargo de ironia cheio
Treme nos lábios do cantor mancebo,
Em breve a virgem do seu casto enlevo
Dá-lhe um sorriso e lhe intumesce o seio.
Na primavera - na manhã da vida -
Deus às tristezas o sorriso enlaça,
E a tempestade se dissipa e passa
À voz mimosa da mulher querida.
Na mocidade, na estação fogosa,
Ama-se a vida, a mocidade é crença,
E a alma virgem nesta festa imensa
Canta, palpita, s’extasia e goza.
1º de julho de 1858.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

domingo, 20 de agosto de 2017

O ECLIPSE DO SÉCULO -

O ECLIPSE DO SÉCULO - HOJE O FRUTO DOS ATOS POSITIVOS OU NEGATIVOS SÃO MULTIPLICADOS POR MILHÕES...

sábado, 19 de agosto de 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

DA SOMBRA DOS VENTOS AO ADEJAR DOS URUBUS

DA SOMBRA DOS VENTOS AO ADEJAR DOS URUBUS

ROGEL SAMUEL

Em “Capoeira de espinhos” Dílson Lages criou um gênero – fundiu conto, crônica, novela – construiu um texto – suas memórias ficcionais, o personagem percorre as ruas de seu passado em passos tristes, misturando fatos de um passado com as “modernidades”  presentes, como no carrinho de Chico Laranjeira que vendia melancias e CDs. Tudo mudado, tudo estragado pelos seus olhos desgastados de velho. Não mais as andorinhas do céu. O tempo morto, a vida morta, o relógio de pulso se quebra, é a morte.
Há uma frase que se repete: “quanto tempo ainda tenho?” – o livro todo é uma reflexão sobre a morte, sobre a decadência dos objetos, dos seres, das casas. O relógio roda, por horas, cada vez menos tempo de vida, cada segundo é a vida que retrocede, menor, menor, gira assim para trás, marcando o seu fim, - no fim o relógio se quebra, no chão - e a Pomba Gira, nas ruas de Aldeia Viva (aldeia morta), fabricando vento, a sombra do vento, no vermelho de suas saias, sem nome, sem destino, ou Chico Laranjeira, vendendo melancias e CDs – os CDs dos escândalos.
Apesar de poucas ruas, a cidade parece enorme, dali até as margens do Marataoã, o tempo para, o som dos ventos, tudo passa em bicicletas, em Monaretas, em sonhos.
Outro motivo constante é uma estranha colher de pedreiro, que atua como a de um coveiro do tempo, Aldeia Viva não é mais que morta, uma espera da morte, como um cemitério. Pois a cidade está poluída de fofocas, de mentiras, de histórias que são arapucas, conflitos, maledicências, esquecimentos, de cochichos por trás dos muros, que o personagem, o professor Constantino, um velho aposentado, sente-se hostilizado pelos muros das casas e calçadas, pelas janelas fechadas, pela falta de seu passado, pela decadência moral daquela vila, pela incerteza do futuro, como nos versos do Poeta Caçador:
“A mentira, a calúnia, a infâmia, o embate, / A vil maledicência, a impudicía / a fraude...”
Nas últimas linhas de seu dizer: “Quanto tempo ainda tinha?” [...] “Procurei as andorinhas no céu. Urubus, urubus.”



quarta-feira, 16 de agosto de 2017

domingo, 13 de agosto de 2017

MEU PAI

MEU PAI

Rogel Samuel

Um homem corta a grama
Do outro lado da rua.
Meu pai se foi há muitos anos,
Mas a lembrança dele me desperta.
Vem de certa cena antiga
Onde aparece com seu sorrir
E o mesmo jogo de andar
Lançando os braços para trás.
Um homem corta a grama no seu quintal.
E muito tempo se passou
E não sei por que subitamente
Choro sua morte.
Tudo está em seu lugar
E por que me vejo triste?
Meu pai já não existe
Ele se decompôs no ar.
Um velho corta a grande grama
Da outra margem desta rua.

(Walden, New York, julho 2003)

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

LAVRADORES BEM-AVENTURADOS!


LAVRADORES BEM-AVENTURADOS!



ROGEL SAMUEL




A famosa Elegia de Camões que começa com 'Poeta Simónides, falando' tem para nós especial importância pois é lá que se vê pela primeira vez a beleza digamos ecológica.

Qual beleza? A beleza desses versos: 

Oh, lavradores bem-aventurados! 
Se conhecessem seu contentamento, 
como vivem no campo sossegados! 

É um trecho da Elegia, um comentário. Depois 
de relatar as suas agonias e experiências más como marinheiro, como amante e soldado, o grande poeta suspira pelo bucólico paraíso do campo:

Oh, lavradores bem-aventurados! 
Se conhecessem seu contentamento, 
como vivem no campo sossegados! 

E começa o encantamento da terra: ' Dá-lhes a justa terra o mantimento ' - das águas: ' dá-lhes a fonte clara a água pura ' - das casas

se suas casas d'ouro não se esmaltam, 
esmalta-se-lhe o campo de mil flores, 
onde os cabritos seus, comendo, saltam. 

É tudo o que o poeta nunca teve: a paz do campo. 

Ali amostra o campo várias cores, 
vêm-se os ramos pender co fruto ameno, 

A mansidão de um lar, que parece nunca Camões teve:


Ditoso seja aquele que alcançou 
poder viver na doce companhia 
das mansas ovelhinhas que criou! 

O poeta chega a fazer a apologia da simplicidade:

Vive um com suas árvores contente, 
sem lhe quebrar o sono sossegado 
o cuidado do ouro reluzente. 

Camões sabe ser terno, e fazer no verso simples o imortal cantar de uma felicidade de calma, de paz: 

Ali amostra o campo várias cores, 
vêm-se os ramos pender co fruto ameno, 
ali se afina o canto dos pastores: 

O que é a sua meditação de um simples repousar, do ' descanso honesto '.

Enfim, por estas partes caminhou 
a sã justiça para o Céu sereno. 


Os lavradores ' Não vêm o mar irado, a noite escura, /
por ir buscar a pedra do Oriente; / não temem o furor da guerra dura.'



sexta-feira, 4 de agosto de 2017

FLORBELA ESPANCA

FLORBELA ESPANCA

ROGEL SAMUEL



Para Florbela Espanca a dor é, e estranhamente, um convento. No seu famoso soneto «A minha dor», escreveu ela: « A minha Dor é um convento»:

A minha Dor é um convento ideal 
Cheio de claustros, sombras, arcarias, 
Aonde a pedra em convulsões sombrias 
Tem linhas dum requinte escultural.
Os sinos têm dobres de agonias 
Ao gemer, comovidos, o seu mal... 
E todos têm sons de funeral 
Ao bater horas, no correr dos dias...
A minha Dor é um convento. Há lírios 
Dum roxo macerado de martírios, 
Tão belos como nunca os viu alguém!
Nesse triste convento aonde eu moro, 
Noites e dias rezo e grito e choro, 
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...

Florbela era mulher bonita e uma extraordinária poetisa. A maior de seu tempo. Chamava-se Flor Bela de Alma da Conceição. Mas seu sucesso é posterior e recente. Otto Maria Carpeaux não a conhece, na sua gigantesca História da Literatura Ocidental. A arte de Florbela é antiquada, seu «Livro das Mágoas», publicado em 1919, livro não modernista numa época em que apareceu a Bauhaus, em Weimar, fundada por W. Gropius, em que aparece Miró, com seu «Nu com espelho». Ela continua cultuando o velho soneto à moda parnasiana. Hernâni Cidade referirá "a violenta contradição entre o conceito de poesia de duas épocas distantes ou próximas". Mas é, possivelmente, António Ferro que, em artigo do Diário de Noticias, logo em Janeiro de 1931, chama a atenção para a poesia de Florbela.

O primeiro verso canta:« A minha Dor é um convento ideal». Como interpretar esse verso, esse convento? Talvez pela solidão, abandono... mas isso é uma deformação do sentido ideal de convento. As freiras lá não estão senão porque comungam e comungam com Deus, com Cristo. Um convento doloroso é uma contradição de termos, idéia de que alguém lá tivesse sido colocado à força, algo como uma prisão solitária, vazia e sinistra. De forma que esse verso, « A minha Dor é um convento ideal» determina as significações do inteiro soneto. E mais: 

« Cheio de claustros, sombras, arcarias, 
Aonde a pedra em convulsões sombrias 
Tem linhas dum requinte escultural.»

- mantém um segredo, ou melhor, uma «bela» contradição, pois que, se ali há claustros, sombras, a pedra em convulsões sombrias, há também «requinte», ou seja, apuro, refinamento, elegância, esmero, elevação, perfeição, volutas simétricas, arcos belos de pedras convulsionadas, Florbela transpôs, contagiou o seu secreto claustro com toda a sua sensualidade feminina, com o seu erotismo amante, esses arcos nada místicos ou de um misticismo tântrico, amoroso, sexualizado, corporal, poderosamente inscrito nas paredes, reescrito nas curvas, nas ancas, nas pernas daquela construção ideal e reservada à sua agonia amorosa, onde « os sinos têm dobres de agonias Ao gemer, comovidos, o seu mal...», o seu pecado, o seu som de funeral. Há lírios, mas belos, há:

«Há lírios 
Dum roxo macerado de martírios, 
Tão belos como nunca os viu alguém!»

Florbela contradiz o seu misticismo feminino, a beleza mística, na solidão final de seus versos:

« Nesse triste convento aonde eu moro, 
Noites e dias rezo e grito e choro, 
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...»

- onde se ouvem os sinos tocarem, nesses «em» que três vezes se repetem, em ninguém.

Filha ilegítima, nascida em 8 de dezembro de 1894, Florbela se mata em 1930. Chamava-se Flor Bela de Alma da Conceição. Não foi pobre, teve 3 maridos e 2 divórcios, algo incomum, na época. Estudou Direito, em Lisboa. Culta. Editou seus próprios livros: «Livro de mágoas» em 1919, e «Livro de Soror Saudade», em 23. Não era conservadora, como disse. Mas avançada para seu tempo. E feminista. Era. Matou-se. Sua morte ela o anunciou em carta. Não conheceu o seu grande sucesso posterior.