domingo, 31 de março de 2013

OS PÁSSAROS AQUÁTICOS

Os pássaros aquáticos


Rogel Samuel


O mestre Dogen escreveu:


Vindo, indo, os pássaros aquáticos
não deixam um rastro
não seguem um traço.



Sem destino, sem passado, os pássaros aquáticos. Impossível seguir-lhes a rota, saber seu destino. Vão e vêm no espaço. Quem os controla? Por que não somos como esses pássaros, sem origem e sem destino, só presença infinita e eterna? Por que não nos libertamos do passado e da urgência do amanhã? O passado não mais existe, coisa morta. O amanhã é uma rua, no fim da qual é a morte. Por que carregamos o fardo de um passado, em direção à morte?

No meu bairro há um estranho mendigo, magro, sujo, barbudo. Não aceita dinheiro. Quando passa deixa um odor fétido de quem nunca mudou de roupa. Quantos anos terá? Não é velho. Deve ter um nome, todos têm um nome. Deve ter família em algum lugar. O diferente nele é que ele carrega um imenso e pesado saco nas costas.

CHEIA NO RIO ACRE


sexta-feira, 29 de março de 2013

ELIOT

A CANÇÃO DE AMOR DE J. ALFRED PRUFROCK(1)

T. S. ELIOT

Trad. Ivan Junqueira

S’io credesse che mia ris posta fosse
A persona che mai tornasse ai mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Senza tema d’infamia ti rispondo. (2)


Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão.
Oh, não perguntes: “Qual?”
Sigamos a cumprir nossa visita.



No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Angelo.



A fulva neblina que roça na vidraça suas espáduas,
A fumaça amarela que na vidraça seu focinho esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés,
Deslizou furtiva no terraço, um repentino salto alçou,
E ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu.



E na verdade tempo haverá
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na vidraça;
Tempo haverá, tempo haverá
Para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos
Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do chá com torradas.



No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.



E na verdade tempo haverá
Para dar rédeas à imaginação. “Ousarei” E. “Ousarei?”
Tempo para voltar e descer os degraus,
Com uma calva entreaberta em meus cabelos
(Dirão eles: “Como andam ralos seus cabelos!”)
- Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o queixo,

Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete [apruma
(Dirão eles: “Mas como estão finos seus braços e pernas!”)
- Ousarei
Perturbar o universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga.


Pois já conheci a todos, a todos conheci
- Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café;
Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
Como então me atreveria?



E já conheci os olhos, a todos conheci
Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase;
Mas se a fórmulas me confino, gingando sobre um alfinete,
Ou se alfinetado me sinto a colear rente à parede,
Como então começaria eu a cuspir
Todo o bagaço de meus dias e caminhos?
E como iria atrever-me?



E já conheci também os braços, a todos conheci
Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados
(Mas à luz de uma lâmpada, lânguidos se quedam
Com sua leve penugem castanha!)
Será o perfume de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que sobre a mesa repousam, ou num xale se enredam.
E ainda assim me atreveria?
E como o iniciaria?



Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas
E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, à janela debruçados?



Eu teria sido um par de espedaçadas garras
A esgueirar-me pelo fundo de silentes mares.



E a tarde e o crepúsculo tão docemente adormecem!
Por longos dedos acariciados,
Entorpecidos... exangues... ou a fingir-se de enfermos,
Lá no fundo estirados, aqui, ao nosso lado.
Após o chá, os biscoitos, os sorvetes,
Teria eu forças para enervar o instante e induzi-lo à sua crise?
Embora já tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Embora já tenha visto minha cabeça (a calva mais cavada)
[servida numa travessa,
Não sou profeta - mas isso pouco importa;
Percebi quando titubeou minha grandeza,
E vi o eterno Lacaio a reprimir o riso, tendo nas mãos meu
sobretudo.
Enfim, tive medo.



E valeria a pena, afinal,
Após as chávenas, a geléia, o chá,
Entre porcelanas e algumas palavras que disseste,
Teria valido a pena
Cortar o assunto com um sorriso,
Comprimir todo o universo numa bola
E arremessá-la ao vértice de uma suprema indagação,
Dizer: “Sou Lázaro, venho de entre os mortos,
Retorno para tudo vos contar, tudo vos contarei.”
- Se alguém, ao colocar sob a cabeça um travesseiro,
Dissesse: “Não é absolutamente isso o que quis dizer,
Não é nada disso, em absoluto.”



E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
- Tudo isso, e tanto mais ainda? -
Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos...
Teria valido a pena,
Se alguém, ao colocar um travesseiro ou ao tirar seu xale
[às pressas,
E ao voltar em direção à janela, dissesse:
“Não é absolutamente isso,
Não é isso o que quis dizer, em absoluto.”



Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem pretendi sê-lo.
Sou um lorde assistente, o que tudo fará
Por ver surgir algum progresso, iniciar uma ou duas cenas,
Aconselhar o príncipe; enfim, um instrumento de fácil manuseio,
Respeitoso, contente de ser útil,
Político, prudente e meticuloso;
Cheio de máximas e aforismos, mas algo obtuso;
Às vezes, de fato, quase ridículo
Quase o Idiota, às vezes.



Envelheci.., envelheci...
Andarei com os fundilhos das calças amarrotados.



Repartirei ao meio meus cabelos? Ousarei comer um pêssego?
Vestirei brancas calças de flanela, e pelas praias andarei.
Ouvi cantar as sereias, umas para as outras.



Não creio que um dia elas cantem para mim.



Vi-as cavalgando rumo ao largo,
A pentear as brancas crinas das ondas que refluem
Quando o vento um claro-escuro abre nas águas.



Tardamos nas câmaras do mar
Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas
Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.



1- Escrito em Paris-Munique, 1911. (N. doT).
2-Dante Alighieri. La Divina Commedia, Inferno, XXVII, 61-66. (N. doT.)




Assista ao filme poético deste texto em:

http://www.poetrymagazine.com/poetry_films/theatre_eliot.htm

DILMA NA MEDIA CHINESA


RILKE - PRIMEIRA ELEGIA





RAINER MARIA RILKE

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PRIMEIRA ELEGIA

Quem se eu gritasse, entre as legiões de Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgastar-nos a face — a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos — talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.
Sim, as primaveras precisam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga, ou
quando passavas sob uma janemla aberta,
uma viola d'amore se abandonava. Tudo isso era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre
distraído, aà espera, como se tudo
anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,
se grandes e estranhos pensamentos vão e vêm
dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta as amantes;
ainda não é bastante imoral sua celebrada ternura.
Tu quase as invejas — estas abandonadas
que te parecem tão mais ardentes que as
apaziguadas. Retoma infinitamente o inesgotável
louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda
mesma foi um pretexto para ser — nasciemnto supremo.
Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio
esgotado, como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem
qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou
como ela? Frutificarão afinal esses longínquos
sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objetivo amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo
mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detém.

Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam. Não que possas suportar
a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,
a incessante mensagem que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças, o rumor
dos jovens mortos. Onde quer que fosses,
nas igrejas de Roma e Nápoes, não ouvias a voz
de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,
sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa...
O que pede essa voz? a ansiada libertação
da aparência de injustiça que as vezes perturba
a agilidade pura de suas almas.

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
às rosas e a outras coisas o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos trêmulas, medrosas,
não mais ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo o quanto se encandeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. — Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentas Linos, violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações — que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.


quinta-feira, 28 de março de 2013

UM QUADRO

Um quadro

Rogel Samuel


Dogen, ainda Dogen (1200-1253) escreveu, ou melhor, pintou um quadro imaginativo perene, máximo, perto da perfeição absoluta, em poucas palavras. Nós vemos aí o tempo, o tempo vazio, o tempo imóvel, o pensamento imóvel, a imobilidade do instante eterno, a pura percepção do absoluto universal, vazio e luminoso - barco vazio sintoniza que não vamos a nenhum lugar, porque já chegamos, porque já estamos lá, inundados de felicidade, em paz com o universo, em paz com o céu e com o inferno, livres das ondas do bem e do mal, livres do ventos do destino, das causas, das conseqüências, das interferências, nós somos ali o todo e o tudo, com a transparência do luar.

Meia-noite.
Nenhuma onda, nenhum vento,
o barco vazio
é inundado de luar.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Está no ar a livraria 247

Está no ar a livraria 247

:
Com livros eletrônicos de colunistas do 247, como Lula Miranda, Chico Vigilante, Luiz Eça, Luiz Flávio Gomes, Mendonça Prado, Cadu Amaral e Carlos Henrique Abrão, além de obras de natureza política, como Relato para a História, do ex-presidente Fernando Collor, e clássicos gratuitos da literatura em língua portuguesa, como Dom Casmurro e A Confissão de Lúcio, está aberta ao público a Livraria 247, com e-books disponíveis na Amazon.com, no Google Play e na iBookstore, da Apple

28 de Março de 2013 às 18:29

Cravo-da-índia mata larvas da dengue em 24 horas

Cravo-da-índia mata larvas da dengue em 24 horas

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Divulgação
Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia descobriram, através de análises, que a substância Eugenol encontrada no cravo-da-índia é capaz de matar as larvas de mosquito da dengue em 24 horas.
O Inpa foi pioneiro em utilizar a substância na prevenção do mosquito Aedes Egypti. A fórmula simples e eficaz pode ser feita em casa com 60 cravinhos e uma xícara de água, concentração ideal para manter o efeito da substância.

 

terça-feira, 26 de março de 2013

Uma aplicação que resume textos tornou Nick um adolescente multimilionário

Uma aplicação que resume textos tornou Nick um adolescente multimilionário


Aos 12 anos criou a primeira aplicação, à quarta app conseguiu a atenção dos investidores e esta semana um acordo com a Yahoo tornou-o um dos adolescentes britânicos mais ricos.

Ganhar dezenas de milhões de euros antes dos 18 anos não é para todos, mas não é impossível. Nick D’Aloisio, um britânico de 17 anos, conseguiu um negócio milionário esta segunda-feira com a Yahoo com a venda de uma aplicação móvel. A Summly resume longos textos em versões mais curtas para poderem ser lidas em smartphones. Além da venda da app, o agora multimilionário foi convidado a integrar os quadros da empresa norte-americana.
Não se sabe ainda o valor final que será pago a Nick D’Aloisio pela app, mas algumas estimativas já começaram a ser avançadas. O AllThingsD, site de notícias de tecnologia, fala num acordo de 30 milhões de dólares (23 milhões de euros), enquanto o The Guardian aponta para 18 milhões de libras (21 milhões de euros), “90% em dinheiro e 10% em acções do Yahoo”, um valor total que alguns acreditam que pode chegar a perto de 47 milhões de euros.
“Se temos uma boa ideia, ou pensamos que há uma falha no mercado, avançamos e divulgamos essa ideia. Há investidores em todo o mundo neste momento à procura de companhias onde investir”, disse Nick à Reuters para explicar o seu sucesso.
Ao britânico o Yahoo terá ainda feito uma oferta de trabalho, mas, para já, trabalhar a tempo inteiro na empresa não está nos planos de Nick, como sublinhou em declarações ao The New York Times. “Ainda me falta um ano e meio para terminar o secundário”. “Vou ficar em Londres. Quero terminar os meus exames finais e não poderia realmente viver por minha conta lá fora”, acrescentou, por sua vez, ao The Guardian. Entretanto, Nick vai trabalhar sempre que possível a partir dos escritórios do Yahoo em Londres, tornando-se no mais jovem funcionário da empresa norte-americana.
Nick deu os primeiros passos no mundo da tecnologia aos nove anos, quando teve o seu primeiro computador e começou por fazer pequenos filmes. Com o apoio do pai, que trabalha na Morgan Stanley, e da mãe, uma advogada, aos 12 anos arriscou a programação, depois dos pais lhe terem oferecido o livro C Programming For Dummies (Programação C para Totós), e criou a sua primeira aplicação, a Fingermill. Seguiu-se a Facemood, uma app que ajuda a analisar o estado de humor dos utilizadores do Facebook, e ainda a SongStumblr, destinada à pesquisa de músicas.
Nick investiu depois na app Trimit, que foi descarregada mais de 200 mil vezes, uma espécie de versão inicial do que se viria a tornar a Summly. A ideia para a aplicação surgiu da frustração de Nick com os resultados de pesquisa no Google depois de um dia de estudos. A informação que encontrou era demasiada e tinha pouco tempo para a ler. Arrancou com a app Trimit, que, através de um algoritmo, reduzia automaticamente textos a 400 caracteres.
A Trimit foi melhorada e em Novembro de 2012 é apresentada a Summly, que lhe valeu o prémio da Apple para uma das melhores aplicações disponibilizadas pela marca nesse ano. Foi assim que Nick chamou a atenção da Horizons Ventures, firma liderada por Li Ka-shing, um homem rico e poderoso de Hong Kong, que criou um fundo que permitiu ao adolescente britânico contratar uma equipa e arrendar um espaço onde continuasse a desenvolver a aplicação.
A Li Ka-shing juntaram-se outros investidores, como o actor norte-americano Ashton Kutcher, a artista Yoko Ono e ainda o patrão do grupo de comunicação News Corp, Robert Murdoch. A Yahoo surgiu no caminho do adolescente em Dezembro e desde então têm decorrido as negociações para adquirir a Summly.
Para o estudante do ensino secundário em Wimbledon, nos arredores de Londres, "há sempre alguém disposto a investir numa boa ideia". “Tem sido superexcitante, [os investidores] souberam [da app] em 2012 quando foi tornado público o primeiro investimento de Li Ka-shing. Todos acreditaram na ideia, todos ofereceram diferentes experiências para nos ajudar”, contou Nick à Reuters.

Abraço de Ahmadinejad em mãe de Chávez é alvo de críticas no Irã

Abraço de Ahmadinejad em mãe de Chávez é alvo de críticas no Irã

O contato físico entre homem e mulher que não sejam da mesma família é considerado pecado; presidente também foi criticado por se emocionar no funeral do líder venezuelano

AP |    
Clérigos iranianos censuraram o presidente Mahmoud Ahmadinejad por ter consolado a mãe de Hugo Chávez com um abraço durante o funeral do presidente venezuelano. O contato físico entre homem e mulher que não sejam da mesma família é considerado pecaminoso de acordo com as leis islâmicas.
Antes da campanha eleitoral: Capriles e Maduro trocam acusações e ofensas

AP
Presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad conforta Elena Frías próximo ao caixão de Hugo Chávez, morto na semana passada (8/3/2013)

Funeral de Estado: Milhares dão adeus a 'imortal' Chávez na Venezuela
A repreensão ocorreu após a publicação de uma foto que mostra Ahmadinejad abraçado a Elena Frías, gesto considerado uma quebra de tabu para a República Islâmica. Os jornais iranianos na terça-feira (12) citaram clérigos do centro religioso de Qom que descreveram o abraço como "proibido", um comportamento inapropriado e uma "palhaçada".
Segundo o código islâmico, o contato físico entre pessoas de diferentes sexos que não sejam parentes é pecado. Os clérigos não pouparam Ahmadinejad.
Análise: Para bem ou mal, Chávez alterou a identidade da Venezuela
Citações: Veja as principais frases de Hugo Chávez
"Tocar uma não mahram (mulher que não é parente) é proibido de acordo com quaisquer circunstâncias, não importa se for um aperto de mãos ou um toque de bochechas", disse um dos clérigos, Mohammad Taqi Rahbar, acrescentando que tal contato "mesmo com uma mulher mais velha não é permitido... é contrário à dignidade do presidente da República Islâmica do Irã."
O aiatolá Mohammad Yazdi, antigo chefe do judiciário do Irã e líder religioso no Qom, disse que Ahmadinhejad estava "de palhaçada" e seu abraço mostra que ele falhou em "proteger a dignidade de sua nação e sua posição".
Obituário: Morre aos 58 anos Hugo Chávez, presidente da Venezuela
'Eterno': Embalsamado, corpo de Chávez ficará em exposição permanente na Venezuela
Os clérigos também ficaram chocados com a carta de condolência de Ahmadinejad para os venezuelanos e para seu presidente interino Nicolás Maduro, porque o presidente iraniano descreveu Chávez como um "mártir", que ressuscitará e que retornará à Terra junto a Jesus Cristo e o imã Mahdi, um santo do século 9 reverenciado pelos xiitas.
Luto regional: Morte de Chávez deixa vazio na esquerda da América Latina
Leia: Maior controle do petróleo e distribuição de renda marcam economia da era Chávez
"Seu conhecimento sobre as questões religiosas é limitado e nenhuma intervenção poderia ser feita nesse sentido", disse Yazdi, falando diretamente sobre Ahmadinejad.
O vice-presidente iraniano Mohammad Reza Mirtajeddini, clérigo que acompanhou Ahmadinejad a Venezuela e ficou ao lado do presidente iraniano enquanto ele abraçava a mãe de Chávez, inicialmente tentou negar a história, dizendo que a foto era falsa.
Yazdi também repreendeu Mirtajeddini: "Vocé é um clérigo e veste o manto clerical...você não devia negar o que aconteceu."
Opositor Capriles: 'Chávez foi meu adversário, nunca meu inimigo'
A repercussão do abraço dado por Ahmadinejad foi usado por seus opositores conservadores três meses antes das eleições presidenciais de junho. Ahmadinejad não pode concorrer à votação, porque a constituição do Irã só permite dois mantatos consecutivos, mas tem desejo de fazer seu sucessor.
Os reformistas iranianos ridicularizaram Ahmadinejad por ter se emocionado no funeral de Chávez. "Eu ri muito quando vi Ahmadinejad choramingando nos braços da mãe de Chávez", disse Abbas Abdi, ativista e colinista do site independente Aftabnews.ir.

O GAROTO DO AEROPORTO

O GAROTO DO AEROPORTO


ROGEL SAMUEL
No tempo em que eu trabalhava no Aeroporto de Pampulha, em Belo Horizonte, chamou-me atenção um garoto que todos os dias encontrava sentado no terraço do primeiro andar olhando fixo o horizonte à espera dos aeroplanos que chegavam e que vinham daquela direção do nascente.
E me recordo da primeira vez que o vi pois tive de afastá-lo da entrada e passagem da porta de nosso escritório, onde se colocara ele, sentado a olhar.
Depois disso notei que diariamente no fim da tarde estava ele sempre ali, olhos perdidos no fim do horizonte, a boca semi-aberta, o ar enigmático.
Não era louco o rapaz (penso), nem era de todo triste, como garoto-problema. Talvez mais um garoto-propaganda de sua solidão e espera.
Teria uns 17 anos e parecia comum a todos os outros da sua classe média média brasileira: no tênis de certa marca, na meia soquete, na bermuda e camiseta, na mochila em que trazia não sei o quê como se viesse do colégio.
O corpo forte como todos de sua idade de amantes dos esportes e do sol: as pernas e os braços sólidos contrastavam com o ar sonhador e poético, mas respiravam saúde e beleza. Também os cabelos cortados muito rentes e muito baixos, o deixavam quase careca.
O que salientava nele, porém, era a imobilidade e concentração.
E também notei-lhe nos olhos muito negros, sim, porque quando algum vôo despontava no longínquo horizonte os olhos negros ficavam mais profundos e hipnotizados, extáticos, escuros, bem negros, que como que cuspiam certas faíscas luminosas de um brilho mais psicológico, mais subjetivo do que real, que eu não sabia nem sei interpretar bem, como estivessem impregnados do vôo a vir a chegar a pousar a trazer alguém que ele esperasse chegar. E naqueles momentos eu poderia ficar quase na sua frente, observando-o, examinando-o como a uma estátua, que ele não se importaria, não se molestaria, nem ficaria vexado ou irritado comigo simplesmente porque não me veria ali. Era todo concentração do olhar.
Dias, semanas e meses se passaram naquela mesma maneira, e estaria talvez por anos se eu não tivesse sido transferido para a agência do Rio de Janeiro para onde me mudei e de todo o esqueci por completo.
Alguns anos depois, devido a um problema técnico mal resolvido na nossa companhia, tive de voar rapidamente para a Pampulha onde trabalhei toda a manhã para reparar o erro e me liberei no fim da tarde.
Então, enquanto eu esperava o vôo 1733 das 19:36 de Pampulha para o Galeão, tive tempo de ir ao café onde encontrei um velho amigo com quem conversei ali, em pé, e que depois de caminhar comigo por toda o comprimento do saguão, que não é muito grande, me convidou ele para subir aquela escada que vai até o primeiro andar onde existe a área descoberta e de onde se podem ver os aviões chegando e partindo.
* * *
Subimos.
A primeira coisa que vi foi o mesmo rapaz no mesmo lugar sentado do mesmo modo olhando o mesmo ponto obscuro e incógnito no mesmo horizonte.
Aproximei-me dele para olhá-lo de perto: ele parecia um pouco mais velho e a única diferença que reparei era que seus olhos agora eram azuis.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Ubaldo já anunciou guerra a FHC na ABL. E agora?


Ubaldo já anunciou guerra a FHC na ABL. E agora?

:
Escritor e jornalista baiano já garantiu, num artigo datado de 1998, que Fernando Henrique Cardoso só se tornaria membro da Academia Brasileira de Letras por cima de sua vaga caso tivesse algum poder quando o tucano se candidatasse; à época, pelo menos um opositor o ex-presidente tinha; mas agora, como colunista de O Globo e possivelmente com outros interesses, João Ubaldo Ribeiro vai continuar a fazer oposição?

 

Campos a Dilma no sertão: "Aqui a sra. tem um amigo"

Campos a Dilma no sertão: "Aqui a sra. tem um amigo"

:
Ao lado de Dilma, governador de Pernambuco tenta amenizar o clima de confronto, que se intensificou com suas críticas ao governo e intenção de se candidatar em 2014, e diz que o Estado "acolhe" a presidente; segundo ele, "não tem faltado apoio político ao governo" por parte de Pernambuco; "Aqui estão dois governantes que sentiram de perto o gosto da intolerância", discursou o presidente do PSB; em Serra Talhada, no sertão pernambucano, os dois inauguram o primeiro trecho da Adutora do Pajeú


domingo, 24 de março de 2013

SOMALI


VENEZUELA


OBAMA EM TEL AVIV

March 20, 2013. US President Barack Obama speaks during the welcoming ceremony at Ben Gurion airport, Tel Aviv, Israel. US presidential aircraft Air Force One has touched down at Tel Aviv's Ben Gurion Airport, marking the start of President Barack Obama's first visit to Israel and the Palestinian Territories since taking office in 2009.

A FREE SYRIAN ARMY

March 15, 2013. A Free Syrian Army fighter throws a homemade smoke device to blind Syrian Army soldiers during fighting in Saif Al Dawla district, Aleppo, Syria. Syrians marked the second anniversary of the uprising against Assad's regime amidst ongoing violence and mounting calls in Europe to review a weapons embargo that prevents the arming of opposition rebels. The opposition said it planned to mark the anniversary of the uprising with rallies in all areas under its control.

O PIANO, A TARDE

     
O PIANO, A TARDE

ROGEL SAMUEL

Minha tia Maria José dispunha os frascos de perfume sobre um aparador de cor escura e tampo de mármore rosa. Os nomes insinuantes, sensuais, Tabu, Coty, Maja, poemas de amor. Ela nos recebia à tarde para servir café com brevidades. No fim de seus dias estava sempre sentada na poltrona. Não se levantava, dormia ali mesmo, o rádio ainda ligado no programa nenhum, só ruído neutro de seus sonhos de mulher solteira. Lembro-me do seu programa preferido: ' um piano ao cair da tarde' . O som não chegava em acordes completos porque o rádio era apenas um radinho RCA Victor de poucos recursos, mas ela sonhava com seus invisíveis amantes. Ao cair da tarde seu leque se misturava com o leque das cores do sol que recebia o piano, cujas valsas se alçavam no ar fino, cobriam casas e vilas. E se subíssemos pelas janelas da rua Barroso poderíamos ver os gradis da Igreja de Sta Rita e o vão escuro do que tinha sido o igarapé que anos atrás passava por ali, com suas ar aras e serpentes venenosas. Olhando-se um pouco mais acima estavam os pássaros tardios que partiam para o anoitecer de tudo, para noite do mundo, para o outro mundo, do outro lado do universo, no oceanos dos rios de nossos medos, signos e ansiedades. Os pássaros eram de um rendilhado fino e tinham nos seus bicos gotas de rubis reluzentes, mergulhavam no ouro do por do sol finalmente afastado. E um piano, ao cair da tarde. ------------------------------



neste carnaval a batucada alada
do teu coração vem em segredo
pulsando implode com soluço e gozo
da tua dentina o brilho serpentina
se envolve na tua boca pequenina
onde o desejo acende teus incensos
sândalo salgado perfumada rima
no carnaval de tão perdida rosa
que desce tua cintura e goza


João Cabral de Melo Neto e o Futebol

João Cabral de Melo Neto e o Futebol

A coluna ‘Deixa Falar: o Megafone do Esporte’ apresenta nesta semana um artigo do cineasta Ney Costa Santos, flamenguista e apoiador da campanha ‘Fora Marin’. Ney discute a obra de um de nossos poetas maiores, João Cabral de Melo Neto, sobre futebol.


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O poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, um dos grandes da poesia brasileira, gostava de futebol e chegou a jogar como meio de campo no juvenil do Santa Cruz, onde foi campeão em 1935.

Sua poesia era a das coisas em si. O que o interessava era aquilo de dentro, o interno, o miolo das coisas e, assim falando, falava do mundo, daquilo que nele observava e vivia.

Embora dissesse que o seu interesse por futebol tenha durado dos oito anos até a adolescência, os poemas sobre esse assunto em sua obra revelam o olhar agudo de quem vê o jogo por dentro e não se fixa tão somente às suas exterioridades: o espetáculo, o rumor das torcidas, a plasticidade das jogadas, a fantasia criativa de um gol raro ou decisivo.

No livro Museu de Tudo, publicado em 1975, há quatro poemas sobre o futebol: O torcedor do América F.C.; Ademir da Guia; Ademir Menezes; O Futebol Brasileiro evocado da Europa.

No poema sobre o torcedor do América de Recife, tradicional clube pernambucano ainda em atividade, Cabral desvenda o gosto raro daquele torcedor que não convive com as vitórias, que torce pelo time pequeno nos estádios vazios.


O TORCEDOR DO AMÉRICA F.C

O desábito de vencer
não cria o calo da vitória
não dá à vitória o fio cego
nem lhe cansa as molas nervosas.
Guarda-a sem mofo: coisa fresca,
pele sensível, núbil, nova,
ácida à língua qual cajá,
salto do sol no cais da Aurora.


Os cariocas ao lerem esse poema pensarão logo no América do Rio, matriz dos Américas do Brasil, quase todos padecendo desse “desábito de vencer”. Pessoalmente, penso na saga do América, o “Mequinha”, tão caro às tradições do futebol carioca, time de meus tios-avós tijucanos, um time grande na minha infância, que vi no Maracanã, na arquibancada atrás do gol, aos dez anos, ser campeão carioca de 1960. Cabral fala do América do Recife e de todos os Américas, de todos aqueles que torcem pelos times pequenos e carregam essa paixão machucada pelas várzeas e estadinhos Brasil a fora, sofrendo e ansiando por uma vitória que raramente vem, mas quando chega é saboreada como “coisa fresca, pele sensível, núbil, nova, ácida à língua qual cajá”, tal um sol brilhante e repentino.

Seria essa fruição rara o segredo da persistência da paixão do torcedor pelos clubes sem glórias?

Os dois poemas seguintes são sobre ritmo: Ademir da Guia e À Ademir Menezes.


ADEMIR DA GUIA

Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.

Ritmo líquido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o.

Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário.


Ademir da Guia era freqüentemente acusado de lento e de atrasar o jogo. Pura inverdade. Filho do lendário zagueiro Domingos da Guia. Ademir começou no Bangu em 1960, foi para o Palmeiras em 1962 e lá jogou até 1977, participando de times como a célebre Academia.Seu ritmo era diferente,pensado e calibrado,sempre atento às variações e alternâncias do jogo ao qual Ademir ia impondo o seu ritmo.Organizava o meio de campo e a saída de bola. Quando seu time era atacado, ele sabia desarmar o adversário e passar rapidamente da defesa ao ataque. Sempre o pensamento em movimento, a cadencia exata e necessária a cada circunstancia do jogo. Ademir fazia o passe médio e longo, era capaz de correr com a bola dominada, ir à linha de fundo e cruzar com precisão, tinha presença na área para uma cabeçada ou o arremate final. Seu repertório rítmico era variado e por isso se impunha à correria adversária.A alegada lentidão não era a pouca velocidade, mas a capacidade de pensar e alternar a cadencia de jogo, era o ardil e não o espalhafato, futebol inteligente e não ornamental.Ademir da Guia foi um artista sereno e refinado. Quem não o viu jogar ou está cansado de ouvir essa conversa fiada de lentidão, deve ver o documentário “Um Craque chamado Divino”.


A ADEMIR MENEZES

Você, como outros recifenses,
nascido onde mangues e o frevo,
soube mais que nenhum passar
de um para o outro, sem tropeço.

Recifense e, assim dividido
entre dois climas diferentes,
ambidextro do seco e do úmido
como em geral os recifenses,

como você, ninguém passou
de dentro de um para o outro ritmo
nem soube emergir, punhal, do lento.
secar-se dele, vivo, arisco.


Ademir Marques de Menezes, craque famoso dos anos 40 e 50, foi artilheiro da Copa de 1950 com nove gols. Jogou a maior parte de sua carreira no Vasco da Gama, no famoso time do Expresso da Vitória.Em 1946 e 1947 jogou no Fluminense, sagrando-se campeão carioca na sua primeira temporada.

Não vi Ademir jogar e as poucas imagens que restam dele são aquelas da Copa de 50. Lembro-me bem de quando era garoto e ouvia as conversas dos mais velhos, que tomavam cervejas nos quintais enquanto as crianças zuniam pela casa nos aniversários. Eles descreviam os rushes de Ademir, arrancadas fulminantes em dribles rápidos, sua capacidade de sair da imobilidade e disparar em direção ao gol adversário. Contavam que era um artilheiro agudo e preciso.

João Cabral, em Ademir Meneses, fala dessa dualidade rítmica, própria dos recifenses. O ritmo do mangue, que ata, e o do frevo, que dispara; a capacidade de passar de um a outro, sem tropeço, tal um punhal “vivo e arisco”.

Nesses dois poemas Cabral fala da beleza que a mescla de habilidade técnica e capacidade de variação rítmica desses jogadores-artistas proporcionava ao espectador. É um olhar para o “dentro” do futebol e não apenas para os seus aspectos externos.


O FUTEBOL BRASILEIRO EVOCADO DA EUROPA

A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida;
e embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo
de reações próprias como bicho,
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.


Há uma expressão entre os boleiros que bem define o perna-de-pau: “Esse não tem intimidade com a bola...” A proximidade carinhosa com ela, a atenção aos seus caprichos, como os de uma mulher, está no DNA do futebol brasileiro. Ao contrário de Lima Barreto e Graciliano Ramos que viram o futebol como um estrangeirismo passageiro, João Cabral percebe o modo original do estilo brasileiro e define poeticamente essa maneira de jogar “com malícia e atenção/dando aos pés astúcias de mão”. Entre essas astúcias estão o passe longo e preciso ao vislumbrar o deslocamento do companheiro, a capacidade de antever a jogada, a fantasia do drible e da resolução rápida, as trajetórias surpreendentes da bola nas cobranças de faltas.

Em um poema do livro Agrestes (1985), João Cabral fala de outra característica do futebol brasileiro clássico. Digo clássico, pois em tempos de ênfase em times de guerreiros, primeiro combate, volantes de contenção e outras expressões de infantaria,a arte do passe parece em decadência.Telê Santana dizia que “o passe é um gesto de amizade”.É por aí.


DE UM JOGADOR BRASILEIRO A UM TÉCNICO ESPANHOL

Não é a bola alguma carta
Que se levar de casa em casa:

é antes telegrama que vai
de onde o atiram ao onde cai.

Parado, o brasileiro a faz
ir onde há-de, sem leva e traz;

com aritméticas de circo
ele a faz ir onde é preciso;

em telegrama, que é sem tempo
ele a faz ir ao mais extremo

Não corre: ele sabe que é a bola,
telegrama, mais que voa.


É uma descrição precisa do que é ou foi a arte do passe no futebol brasileiro. Penso logo em Gerson,Didi,Zico, Ademir da Guia.Talvez hoje no futebol brasileiro apenas Deco e Ronaldinho Gaúcho, quando quer, sejam os herdeiros e praticantes dessa arte requintada.Passe, sim, e não assistência, como quer o jargão do atual jornalismo esportivo que importou o termo do basquete.Assistência lembra sirene, socorro, ambulância...

Na arte do passe brasileiro, o craque faz a bola chegar ao seu destino com cálculo de engenheiro e “aritméticas de circo”. Ciência e fantasia.

Os dois poemas seguintes, publicados em Crime na Calle Relator (1987), tratam da liberdade absoluta em um futebol utópico, livre dos esquemas táticos, um futebol que não mais seria jogo e sim brincadeira absoluta.


BRASIL 4 X ARGENTINA 0

Quebraram a chave da gaiola
e os quadros-negros da escola.

Rebentaram enfim as grades
que os prendiam todas as tardes
Nos fugitivos, é a surpresa,
vendo que tomaram-se as rédeas

(dos técnicos mudos, mas surpresos
brancos, no banco, com medo).

Estão presos os da outra gaiola
que não souberam abrir a porta:

ou não o puderam, contra o jogo
dos que estavam de fora, soltos.

De certo também são capazes
de idênticas libertinagens

uma vez soltos, porém como
se liberar daquele tronco

em que os aprisionaram os táticos
argentinos, também gramáticos.

E enquanto os fugitivos seguem
com a soltura, a sem lei que os regem,

nos bancos é uma a indignação:
dos que vão vencendo e dos que não:

“Voltamos ao futebol de ontem?
Voltou a ser um jogo dos onze

Voltou a ser jogar de pião?
Chegou até cá a subversão?

Como é possível haver xadrez
Sem gramática, bispos, reis?”


Nesse Brasil e Argentina as gaiolas das táticas e estratégias foram abertas e jogou-se sem gramática, bispos e reis, um anti-xadrez, um jogo de invenção e criatividade permanente, tão destituído de qualquer calculo ou planejamento, que nem a múmia que vivia na Capelinha da Jaqueira precisou ser convocada.


A MÚMIA

Na Capelinha da Jaqueira
uma múmia sobrevivera.

A de Bento José da Costa
ou de alguma amante preposta?

Ela não fazia fantasma:
era mais bem alma gorada,

ovo encruado, infermentação,
que nunca pode assombração.

*

Caminho do Campo do América
se ensaiavam dribles em sua pedra.

Se imitavam chutes sem bola
na pedra anônima em que mora.

E fosse de dia ou de noite
nunca foi de acenar a foice,

nem com gesto armado de morte
acenar-se sequer, de chofre.


*

Na Capelinha da Jaqueira,
a múmia, amiga e companheira,

punha-se acima de quem joga:
nunca envergou a negra toga,

ridícula, de juiz de futebol,
de calças curtas como um sol

castrado, já antes do apito
epilético; é Meritíssimo.

*

Talvez porque a múmia era cega?
Nunca ela torceu pelo América.

Também nunca acendemos vela
para que ela, com suas trelas,

driblasse a defesa contrária,
o juiz, e até as arquibancadas,

e entrasse só no gol do Esporte,
num “gol de chapéu”, com a Morte.


Talvez só Garrincha, algum dia, tenha jogado esse futebol da ludicidade absoluta, o prazer de jogar uma doce pelada cósmica.
*Ney Costa Santos é Flamengo, Mestre em Comunicação Social e Professor da PUC-Rio. Cineasta, dirigiu os filmes Heleno e Garrincha,Meu Glorioso São Cristovão, O Pulo do Gato,Cinema Interior,Cole in Rio e Padre-Mestre. Nesta semana, é um convidado especial do Megafone que certamente passará a ser membro efetivo. Apóia enfaticamente “Fora Marin”.

Três toques do Megafone

1) Como disse o autor sobre Ademir da Guia, “quem não o viu jogar ou está cansado de ouvir essa conversa fiada de lentidão, deve ver o documentário Um Craque chamado Divino.” No link o trailer do filme. Um colírio para os admiradores do futebol arte:
http://www.youtube.com/watch?v=SplZHzOUEDY

2) João Cabral de Melo Neto teve seu poema Morte e Vida Severina, musicado por Chico Buarque de Hollanda, a pedido de Roberto Freire, diretor do teatro TUCA da PUC de São Paulo. A peça encenada em 1966 se tornou um sucesso, recebendo premiação no festival universitário de Nancy, na França. João Cabral foi o poeta brasileiro que mais se dedicou ao futebol.

No link você pode ver a força e a beleza do poema( parte 8) de João Cabral musicado por Chico:
http://www.youtube.com/watch?v=uL9cDmQxMwo

3) Ney Costa Santos voltará em breve ao Megafone com o artigo Heleno e Garrincha, tema de um de seus filmes.

Deixa Falar: o Megafone do Esporte: criação e edição de Raul Milliet Filho.

FHC pode ser "imortal"

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: Acadêmico Marcos Vilaça lidera movimento para que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso seja eleito para uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, na vaga aberta após a morte de João de Scatimburgo

 

sábado, 23 de março de 2013

Inocentado após 23 anos, homem sofre ataque cardíaco ao deixar prisão






David Ranta (na foto acima, de camisa verde) cumpriu 23 anos de prisão pela morte do rabino ortodoxo Chaskel Werzberger durante um assalto em fevereiro de 1990 em Nova York (EUA). Só agora os advogados conseguiram provar a inocência e David foi solto - antes de completar a pena de 37 anos.

Só que, logo após deixar a prisão, David, de 58 anos, sofreu um ataque cardíaco e foi levado a um hospital de Nova York, onde se mantém internado, de acordo com a agência AP.

O destino de David mudou depois que gabinete do promotor do Brooklyn iniciara uma investigação interna e descobrira uma prova ignorada durante o julgamento, o que permitiu inocentar o condenado. Um menino de 13 anos havia reconhecido David como o assassino em uma delegacia. Mas há dois anos, ele confessou que fora instruído pelos policiais a mentir.

"Como sempre disse desde o princípio, não tenho nada a ver com esse assunto. Estou emocionado", disse o ex-detento ao deixar a cadeia.
Como o crime já prescreveu, os policiais que levaram a Justiça ao erro não serão julgados.

COMETA ACABOU COM DINOSSAUROS

Comunidade científica debate evidências sobre tipo de corpo celeste que atingiu a Terra
A rocha espacial que atingiu a Terra há 65 milhões de anos e é tida como causadora da extinção dos dinossauros foi provavelmente um cometa, concluiu um estudo divulgado por cientistas americanos.
Segundo a pesquisa, a cratera Chicxulub, no México- que tem 180 km de diâmetro - foi criada por um objeto menor do que o que se imaginava anteriormente.
Muitos cientistas consideram que um asteroide grande e relativamente lento teria sido o responsável.
Os detalhes do estudo, feito por uma equipe do Darthmouth College, universidade no Estado americano de New Hampshire (nordeste do país), foram divulgados na 44ª Conferência de Ciência Lunar e Planetária, realizada no Estado do Texas, no sul dos Estados Unidos.

"O objetivo maior do nosso projeto é caracterizar melhor o que causou o impacto que produziu a cratera na península de Yucatán (no México)", disse Jason Moore, do Dartmouth College, à BBC News.
No entanto, outros pesquisadores ainda são cautelosos a respeito dos resultados da pesquisa.
Química extraterrestre
A colisão da rocha espacial com a Terra criou em todo o planeta uma camada de sedimentos com o elemento químico irídio em concentrações muito mais altas do que o que ocorre naturalmente.

No entanto, a equipe de pesquisadores sugere que os índices de irídio citados atualmente estão incorretos. Usando uma comparação com outro elemento extraterrestre depositado no impacto - o ósmio - eles conseguiram deduzir que a colisão depositou menos resíduos do que o que se acreditava.
Os valores recalculados de irídio sugerem que um corpo celeste menor atingiu a Terra. Na segunda parte do trabalho, os pesquisadores tentaram relacionar o novo valor com as propriedades físicas conhecidas da cratera de Chicxulub.
Para que essa rocha espacial menor tenha produzido uma cratera de 180 km de largura, ela deve ter viajado relativamente rápido.
A equipe calculou que um cometa de longo período se ajustava à descrição muito melhor do que outros possíveis candidatos.
"Seria preciso um asteroide de cerca de 5 km de diâmetro para trazer tanto irídio e ósmio. Mas um asteroide desse tamanho não produziria uma cratera de 200 km de diâmetro", disse Moore.
"Como conseguimos algo que tenha energia suficiente para gerar uma cratera daquele tamanho, mas tenha muito menos material rochoso? Isso nos leva aos cometas."
Cometas de longo período são corpos celestes de poeira, rocha e gelo que têm órbitas excêntricas ao redor do Sol. Eles podem levar centenas, milhares e em alguns casos até milhões de anos para completar uma órbita.
O evento que causou a extinção há 65 milhões de anos é associado, hoje em dia, à cratera no México. O acontecimento teria matado cerca de 70% das espécies na Terra em um curto período de tempo, especialmente os dinossauros.
A enorme colisão teria gerado incêndios, terremotos e imensos tsunamis. O gás e a poeira lançados na atmosfera teriam contribuído para a queda das temperaturas globais por muitos anos.
Perda de massa
Gareth Collins, que pesquisa impactos que produzem crateras na universidade Imperial College London, na região de Londres, disse que a pesquisa da equipe do Dartmouth College é "provocadora".

No entanto, ele disse à BBC que não acha "possível determinar precisamente o tamanho do corpo que causou o impacto apenas com a geoquímica".
"A geoquímica diz - com bastante precisão - somente a massa do material meteorítico que está distribuída globalmente, não a massa total do causador do impacto. Para estimar isso, é preciso saber que fração do corpo celeste estava distribuída na hora do impacto, não foi ejetada para o espaço, nem caiu perto da cratera."
"Os autores (da pesquisa) sugerem que 75% da massa do causador do impacto estava distribuída globalmente, então chegaram a um corpo relativamente pequeno, mas na verdade essa fração pode ser menor do que 20%."
A teoria deixaria a porta a aberta para a hipótese de que um asteroide maior e mais lento, que perdeu teria perdido massa antes do impacto com o solo, tenha sido o causador da extinção.
Os pesquisadores americanos aceitam a hipótese, mas citam estudos recentes que sugerem que a perda de massa do corpo celeste no impacto de Chicxulub esteve entre 11% e 25%.
Nos últimos anos, diversos corpos celestes surpreenderam os astrônomos, servindo como lembrança de que nossa vizinhança cósmica continua atribulada.
No dia 15 de fevereiro de 2012, o DA14, um asteroide com volume equivalente ao de uma piscina olímpica, passou de raspão pela Terra a uma distância de somente 27,7 mil km. Ele só havia sido descoberto no ano anterior.
No mesmo dia, uma rocha espacial de 17 metros explodiu nas montanhas Urais, da Rússia, com uma energia equivalente a cerca de 440 quilotoneladas de TNT. Cerca de mil pessoas ficaram feridas quando o choque do impacto explodiu janelas e sacudiu edifícios.
Cerca de 95% dos objetos próximos da Terra com mais de 1 km de diâmetro já foram descobertos. No entanto, somente 10% dos 13 a 20 mil asteroides acima de 140 metros de diametro estão sendo monitorados.