terça-feira, 31 de maio de 2016

A PANTERA 8 (ROGEL SAMUEL)


A PANTERA 8 (ROGEL SAMUEL)
Passaram-se vários dias sem que encontrássemos a pantera, e por isso julgamos que ela tinha sido morta na batalha, quando vimos uma lagoa ingente, açoitada dos ventos da montanha, como o que flagela o vento e ao rumo minhas ideias se volveram.
Mas ali buscamos beber.
Jara pode pescar estranhos peixes que comemos. “Mas andemos” – disse-me Jara, “prossigamos nossa empresa, vem no horizonte a noite assomando, e mais além a rota da passagem se faz escura”.
Passamos apreensivos aquela noite e quando acordamos, no meio da campina, vejo, feroz, um monstro desconhecido, como quem lá estava à espera e atento à nossa morte, que à vista se fazia pavoroso. Estávamos num caminho quase escondido, na borda de uma ribanceira, de forma que o monstro, que era um búfalo ou um touro, nos fechava e ameaçava avançar e então Jara disse: “Rápido demandemos a entrada da passagem” e eu cismava: “estamos agora em ruína”, que do horrendo monstro eu via a ira já vencida. “Deves saber que, uma vez descendo ao extremo desse bosque, lá em baixo esta rocha não está como estás vendo”. Mas desse vale temi tanto a profundeza, que pensei cairmos no profundo. 
Foi então que vi que minha amiga nos conduzia por uma vereda estreita de pedra de onde víamos o vale e um rio, no fundo da distância. E uma cava divisei por onde passar não podia um animal daquele porte, que arqueava no seu plano inteiro, como quem quisesse que do mal se afastasse. E no espaço em que o penhasco dá passagem veio o monstro descer nos vendo mais acima. O arco e os arremessos preparando estava Jara, quando um brado de longe nos soara, que despertou o monstro para trás, olhando. Senti logo a pantera vindo, como quem vingara quem fatal lhe fora. 
Aqueles dois monstros logo se encontraram, e a guerra entre eles iam começar, em nome do que os passos meus em tão medonha estrada continuaram. E Jara volveu-se à destra, segurou-me, e disse: “Não olhe para trás, vamos descendo para o caminho mais largo, para sairmos daqui o quanto antes”. E partimos naquela companhia das ondas de horror que no ar subiam, daquele agudo estridor que vinha ao longe daquelas duas feras em luta de morte que se enfrentavam, e mesmo de longe o sangue me faltava. 
Não estávamos ainda livres disso quando por um bosque penetramos, de vestígios e de traços não marcados, sem frondes verdes mas escuras e cujos galhos nodosos e espinhentos tinham flores e frutos venenosos. 
Ainda soavam nas selvas os uivos dos insanos ferozes inimigos que se estavam matando, quando Jara me alertou: “Não encontraremos daqui em diante lugar onde com calma possamos descansar, pois essas matas por aqui são possuídas de estranhas torvações”. 
E asas negras rodopiando nos céus, garras afiadas ameaçando, apareceram e Jara me insta de segui-la, e dali a curta distância nos afasta das aves cujos sons ouvíamos, quando um rio aparece descendo a montanha, de águas geladas retombando e caindo pelas encostas. 
Ah, por meus deuses, foi quando ouvimos o grito estrídulo da besta, que de longe se aproximava. 
Mas muito tempo caminhamos em silencio para nos afastar do animal sangrento, quando chegamos à beira de um penhasco. De uma corda eu me achava então cingido, que a tirasse Jara me dissera, e eu logo a entreguei como ela prescrevera. Então ela à direita se voltando à borda do abismo infando: “Surgirá, em breve, novo perigo, trazido pela besta dos infernos. Precisamos logo sair”. E assim começamos a descida, lentos e cautelosos, protegidos pela corda, mas ao longe antevimos a fera de horrenda cauda e bafo imundo. E logo atravessamos para o outro lado: “Convém seja o caminho desviado da senda” disse-me ela. E seguimos pelo lado direito por duas horas de lenta e dolorosa caminhada até bem longe daquele abismo ingente. 

http://apanteraderogelsamuel.blogspot.com.br/

segunda-feira, 30 de maio de 2016

RADUAN NASSAR GANHA PRÊMIO CAMÕES



 Prémio Camões 2016 foi esta segunda-feira atribuído por unanimidade ao escritor Raduan Nassar, de 80 anos, o 12.º brasileiro a receber aquele que é considerado o mais importante prémio literário destinado a autores de língua portuguesa. O júri sublinhou "a extraordinária qualidade da sua linguagem" e a "força poética da sua prosa".
"Através da ficção, o autor revela, no universo da sua obra, a complexidade das relações humanas em planos dificilmente acessíveis a outros modos do discurso", justificou o júri, acrescentando que "muitas vezes essa revelação é agreste e incómoda, e não é raro que aborde temas considerados tabu". O júri realçou ainda "o uso rigoroso de uma linguagem cuja plasticidade se imprime em diferentes registos discursivos verificáveis numa obra que privilegia a densidade acima da extensão".
Com apenas três livros publicados – os romances Lavoura Arcaica (1975) eUm Copo de Cólera (1978) e o livro de contos Menina a Caminho (1994) –, a exiguidade da obra não impede que Raduan Nassar seja há muito considerado pela crítica um dos grandes nomes da literatura brasileira, ao nível de um Guimarães Rosa ou de uma Clarice Lispector.
Se a singularidade de Nassar lhe garantiu desde cedo um círculo de admiradores fiéis, e se os seus romances alcançaram algum sucesso internacional já na primeira metade dos anos 80, quando foram traduzidos para francês, espanhol e alemão, a popularidade da sua obra aumentou significativamente com a adaptação cinematográfica de Um Copo de Cólera, em 1999, numa realização de Aluizio Abranches, e de Lavoura Arcaica, em 2001, num filme de Luiz Fernando Carvalho.
Já este ano, Raduar Nassar foi um dos 13 escritores escolhidos para a longlistdo Man Booker International Prize, com a tradução inglesa de Um Copo de Cólera, mas não chegou à lista de seis finalistas, que incluiu o angolano José Eduardo Agualusa.
Em Portugal, Raduan Nassar só começou a ser publicado em 1998, quandoUm Copo de Cólera saiu na Relógio D'Água, que logo no ano seguinte editou também Lavoura Arcaica. No ano 2000, a Cotovia publicou Menina a Caminho e outros Contos.
Mas se a sua obra só chegou no final dos anos 90, o escritor visitou Portugal pouco após o 25 de Abril. Almeida Faria contou a história em 2014, na Festa Literária Internacional de Paraty. Corria o conturbado ano de 1975, quando o romancista português ouviu tocar a campainha da sua casa de Lisboa. À porta estava um jovem casal desconhecido. Perguntaram se podiam entrar e ele apresentou-se como escritor brasileiro. Trazia na mão um livro, Lavoura Arcaica, e disse ao escritor português: “Este meu livro saiu agora no Brasil, e como eu acho que ele deve muito ao seu livro A Paixão, quis vir oferecer-lhe o livro pessoalmente”. Faria e Nassar tornaram-se amigos desde então.
Nassar é conhecido pela extrema raridade das suas aparições públicas, o que veio conferir um peso particular à sua presença, junto de Dilma Rousseff, no Palácio do Planalto em Brasília, a 31 de Março, num Encontro com Artistas e Intelectuais em Defesa da Democracia. "Os que tentam promover a saída de Dilma arrogam-se hoje, sem pudor, como detentores da ética mas serão execrados amanhã", afirmou então, citado pela Folha de S. Paulo. Embora o reconhecimento da qualidade do autor seja francamente consensual, esta sua recente intervenção vem também dar à sua escolha para o prémio Camões deste ano uma inevitável dimensão política.
Com um valor pecuniário de cem mil euros, o prémio foi anunciado ao fim da tarde no Hotel Tivoli pelo secretário de Estado da Cultura, Miguel Honrado, após a reunião do júri, que este ano incluiu a professora e ensaísta Paula Morão e o poeta e colunista Pedro Mexia, os professores universitários, críticos e escritores brasileiros Flora Süssekind e Sérgio Alcides do Amaral, e ainda o autor moçambicano Lourenço do Rosário, reitor da Universidade Politécnica de Maputo, e a ensaísta são-tomense Inocência Mata, actualmente radicada em Macau.
Um lado secreto
Raduan Nassar foi informado de que lhe tinha sito atribuído o prémio no valor de cem mil euros por Miguel Honrado. Ao telefone, ter-se-á mostrado “surpreendido e satisfeito”, contou ao PÚBLICO o presidente do júri, Sérgio Alcides do Amaral. “Ele é muito recluso, mas uma pessoa simples. Não é recluso por arrogância. Espero que possa ter um público maior agora”, sublinhou.
O papel de divulgação que um prémio como este pode ter foi destacado por Pedro Mexia, o representante português do júri. Para Mexia, o Camões tem uma vertente de consagração, mas muitas vezes a consagração também é uma revelação. É este o caso. “Isso aconteceu em Portugal no caso do Manuel António Pina, que quase toda a gente conhecia dos jornais, pelas crónicas, ou da literatura infanto-juvenil, mas era um poeta pouco lido, e que até ser editada a Poesia Completa (Assírio & Alvim), não estava no cânone. O Prémio deu-lhe uma visibilidade maior. Claro que é sempre difícil falar de uma revelação num autor de 80 anos, como é Raduan Nassar, mas revelação fora do meio estrito da literatura.”
Estamos perante uma obra curta de um escritor pouco conhecido que já deixou de escrever há uns anos, desde Menina a Caminho, em 1987. “O prémio revela-o a um espaço público ampliado, importante”, referiu, por sua vez Sérgio Alcides do Amaral ao PÚBLICO, salientando que no Brasil Nassar é muito conhecido nos meios literários, mas admirado sobretudo à distância devido à sua rejeição da exposição mediática. Mas sublinha: “A importância pública de Raduan Nassar revelou-se de uma maneira bem explícita recentemente, considerando o que se está a passar no Brasil um golpe de Estado. Ele saiu do seu hábito de recolhimento e declarou-se contrário à quebra da legalidade na nossa República. Isso teve um impacto cívico forte na cultura brasileira. Foi um alento." Negando qualquer tipo de politização do prémio, Alcides do Amaral disse que se trata apenas de uma forma de evidenciar o papel que um intelectual pode ter na sociedade. “Tivemos a preocupação de não comprometer politicamente o prémio, mas é impossível deixar de reconhecer que a literatura, sendo um fenómeno público, tem uma revelação política. Mas, sublinho, não foi esse o critério.”
Para Mexia, “não são as opiniões políticas de Raduan Nassar que estão a ser discutidas, mas é evidente que dar um prémio a um escritor brasileiro neste momento é falar do Brasil, é falar da situação política". E um prémio destes, admite, "pode ser um pequeno conforto para a situação complicada que o Brasil vive". Sublinhando que "a literatura não é uma realidade estanque da política, mas este é um prémio literário”, Pedro Mexia referiu que o nome de Raduan Nassar estava, como possibilidade, na lista de todos os membros do júri. Mas havia uma interrogação: ele aceitaria prémios? “O facto de ter estado entre os finalistas do Man Booker deste ano e não ter retirado o livro de concurso, indiciava que pelo menos não era hostil. No telefonema, quando lhe foi comunicado o prémio, não mostrou qualquer espécie de relutância”, conta Pedro Mexia
Para o escritor português, Nassar faz parte de uma “grande família de escritores agrestes” de que fazem parte outros nomes já distinguidos com o Prémio Camões, como Rubem Fonseca ou Dalton Trevisan. Nele há “uma visão das relações humanas e uma linguagem que são ásperas e muitos distantes de um certo cliché da alegria de viver e de suavidade tantas vezes associada aos brasileiros.” Apesar de muito escassa, a obra é suficientemente ampla para ser considerada diversa. Mexia vê em Lavoura Arcaica “um livro quase bíblico”. “É um livro terrível sobre uma relação, enquanto Um Copo de Cólera é mais coloquial, uma espécie de longa discussão conjugal. Mas são ambos livros em que é a linguagem que vai revelando todas as camadas problemáticas das relações entre as pessoas, dos não-ditos ou do que só se diz para ferir alguém. Há um lado de facto muito agreste que também tem a ver com a literatura da Clarice Lispector, todo o outro lado que não é o Brasil do cartão postal.”
O facto de os três livros de Nassar terem edição portuguesa não o impede de ser pouco conhecido em Portugal fora dos meios literários. “A conjugação entre uma obra escassa e dura, a falta de presença mediática e estar há décadas sem escrever fazem com que seja um autor de uns happy few, mas foi um nome que nos pôs todos de acordo e essa é uma boa indicação”, adianta Pedro Mexia, que quis deixar uma nota pessoal nesta conversa. “Esta não é uma consideração do júri, mas é minha: gostava de ver nisto uma tentativa para que a literatura brasileira contemporânea seja lida com mais atenção em Portugal. Há editoras que têm dado muito espaço a autores brasileiros, como a Cotovia, que há uns anos até lançou uma colecção a que chamou o Curso Breve de Literatura Brasileira [dirigida por Abel Barros Baptista], mas há uma relutância por parte dos leitores que não consigo explicar.”
André Jorge é o editor dessa colecção e publicou Menina a Caminho. Ao saber da notícia, disse ser um prémio “muito merecido” para um “grande autor”, que conheceu há cerca de dez anos. “Foi em S. Paulo, em casa de Milton Hatoum, e lembro-me de que conversámos enquanto bebíamos bom vinho português. Um homem muito inteligente, afável, mas com um lado secreto.”   
Coelhos e galinhas
Nascido em 1935 em Pindorama, no interior do estado de S. Paulo, sétimo filho de um casal de emigrantes libaneses que ali abrira uma venda depois convertida em loja de tecidos, a Casa Nassar, Raduan frequentou a escola primária local a partir dos oito anos, e recordará mais tarde como "uma das melhores alegrias da infância" o dia em o pai lhe ofereceu um casal de galinhas-de-angola. Quando decide, nos anos 80, que o sucesso literário não lhe convém e se retira para a sua fazenda, uma das actividades a que se dedica será justamente criar galinhas, arte que herdou da mãe, Chafika Cassis.
Em 1947, iniciou os estudos liceais na vizinha cidade Catanduva em 1947, para onde a família se mudou pouco depois. Em Lavoura Arcaica fala da colecção de pombas que teve de deixar para trás em Pindorama. Aos 15 anos, durante uma aula, sofreu a primeira de várias convulsões, que se prolongam por dois dias. Tratado por um neurologista em S. Paulo, sai da crise com uma amnésia parcial e não consegue terminar o ano lectivo.  
No ano seguinte retomou os estudos, tendo como professora de português a sua irmã Rosa, que o instiga a ler os clássicos brasileiros. Para facilitar a instrução dos filhos, o casal Nassar voltou a mudar-se, desta vez para S. Paulo, onde o pai, João, abre um bazar. Raduan trabalha na loja e estuda à noite. Em 1955, matriculou-se simultaneamente em Direito e no curso de Letras Clássicas da Universidade de São Paulo, mas abandonaria Letras no segundo semestre. E em 1957, ingressou ainda no curso de Filosofia, que interrompe em 1959, abandonando também Direito no ano seguinte.
Por esta altura, a literatura era já um interesse central, e em 1960 – o ano da morte do pai – escreve o seu primeiro conto, Menina a Caminho, que só viria a ter edição comercial nos anos 90, juntamente com outros dois textos dos anos 70 e um conto inédito.
Viaja pelo Canadá e pelos Estados Unidos, regressando ao Brasil em 1962. Retoma e termina o curso de Filosofia. Viaja para a Alemanha em 1964, estuda alemão, e passa ainda pela aldeia dos pais, no Líbano, antes de, novamente em S. Paulo, se dedicar, em 1965, à criação de coelhos. Com o empenho necessário para, logo em 1966, ter passado a presidir à Associação Brasileira de Criadores de Coelho. O que não o impede de encerrar a criação no ano seguinte para fundar, com alguns irmãos, o Jornal do Bairro. É por esta altura que começa a tomar notas para o que será Lavoura Arcaica.
Em 1973 conhece uma professora de Germânicas da USP, Heidrun Brückner, que viria a tornar-se sua companheira. E em 1974, em desacordo com mudanças editoriais promovidas no Jornal do Bairro, que tirava então 160 mil exemplares, abandona também este projecto. Começa então a escrever intensivamente, e termina Lavoura Arcaica. Sem que Raduan o saiba, o seu irmão Raja tira duas cópias do romance, e uma  delas acaba na Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, onde o livro é publicado em 1975, ganhando o prémio Coelho Neto para romance da Academia Brasileira de Letras. Três anos depois, sai Um Copo de Cólera, que vence o prémio de Ficção da Associação Paulista de Críticos de Arte.
Nos anos 80, quando começa a ter algum sucesso editorial, no Brasil e no estrangeiro, decide deixar a literatura e passa a cuidar da sua fazenda, a Lagoa do Sino, no município de Buri, criando galinha e outras aves. Foi esse, durante décadas, o seu modo de vida, que só deixou em 2011, doando então a fazenda à Universidade Federal de S. Carlos, depois de já ter distribuído terras aos seus funcionários.
Depois dos romances que o celebrizaram nos anos 70, Nassar, que hoje mora hoje em S. Paulo, só publicou o ensaio A Corrente do Esforço Humano, originalmente editado na Alemanha, e o conto inédito Mãozinhas de Seda, incluído em Menina a Caminho.
Toda a obra do escritor vai agora ser reeditada em Portugal pela Companhia das Letras, que lançará já em Junho Um Copo de Cólera.
Brasil-12; Portugal-11
Instituído em 1988 pelos governos de Portugal e do Brasil, o prémio Camões é atribuído a “um autor de língua portuguesa que tenha contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua comum”, diz o respectivo protocolo, na sua versão revista de 1999. O acordo obriga a que o prémio seja alternadamente atribuído em território português e brasileiro, e a sua história sugere que tem também prevalecido a intenção de equilibrar o número de vencedores portugueses e brasileiros, bem como a preocupação de fazer representar as várias literaturas africanas.
Antes do prémio agora atribuído a Nassar, Portugal e Brasil estavam empatados com 11 autores de cada país. Miguel Torga foi o primeiro escritor a receber o Camões, em 1989, e o prémio voltou a ficar em Portugal mais dez vezes: Vergílio Ferreira recebeu-o em 1992, José Saramago em 1995, Eduardo Lourenço em 1996, Sophia de Mello Breyner Andresen em 1999, Eugénio de Andrade em 2001, Maria Velho da Costa em 2002, Agustina Bessa-Luís em 2004, António Lobo Antunes em 2007, Manuel António Pina em 2011 e Hélia Correia em 2015.
A lista de premiados brasileiros começa com João Cabral de Melo Neto, em 1990, e inclui Rachel de Queiroz (1993), Jorge Amado (1994), António Cândido (1998), Autran Dourado (2000), Rubem Fonseca (2003), Lygia Fagundes Telles (2005), João Ubaldo Ribeiro (2008), Ferreira Gullar (2010), Dalton Trevisan (2012) e Alberto da Costa e Silva (2014).
O poeta moçambicano José Craveirinha foi o primeiro autor africano a receber o Camões, em 1991. Em 1997, Pepetela, então com 56 anos, tornava-se simultaneamente o primeiro angolano e o mais jovem autor de sempre – ainda o é – a ser galardoado com este prémio, que só voltaria à literatura africana em 2006 para reconhecer a obra do angolano Luandino Vieira, que recusou o galardão. Em 2009, venceu o poeta cabo-verdiano Arménio Vieira, e em 2013 o escolhido foi o romancista moçambicano Mia Couto.

domingo, 29 de maio de 2016

ANIVERSÁRIO DO MAHASSIDHA VIRUPA




REZA AO MAHASIDHA VIRUPA


Mahassiddha Virupa (pintura de 1500)


Precioso e glorioso Guru Raiz,
Assentado no assento de loto na coroa de minha cabeça,
Tendo sido aceito pelo portal de sua grande bondade,
Conceda-me as realizações de Corpo, Fala e Mente.
A La La!
É inconcebível testemunhar sua glória brilhante,
Surgida do simultaneamente nascido,
Livre de elaboração, Oh Mestre Virupa,
Você se tornou meu Senhor. E MA HOH!

O poder de seu brilho elimina todo o pensamento,
Depois de encher o ar das três portas com as quatro alegrias e
Tendo despertado felicidades e vacuidade do estupor de ofuscações habituais,
Eu ofereço esses elogios a inspirar me.

Possuindo bem-estar consumado e auspiciosidade dos dois propósitos,
Por sua onisciência e compaixão demonstrou você
O caminho excelente para estabelecer os discípulos afortunados para atingir Nirvana.
Ao que exibiu o jogo da imutabilidade sublime, prosterno-me eu.

Tendo renunciado a vida de dono da casa real,
Tomando ordenação e dominando as cinco ciências,
Tido sido aceito por milhões de Sthaviras,
Para você que ficou renomado como o Sthavira Dharmapala, eu me prosterno.

Dotado do três treinamentos significativos e
Tendo-se tornado um explicador insuperável das escrituras de grande luminar,
A força de vida dos ensinamentos, o segundo onisciente,
Para você que não tem nenhum rival nesta terra, prosterno-me eu.

Depois de satisfazer grandes assembléias reunidas por toda parte,
Com a ambrósia de fases múltiplas dos veículos,
Você foi liberado como um praticante noturno secreto.
Para você que atingiu o sexto bhumi pela orientação de Vajra Nairatmya, prosterno-me eu.

Para guiar os seres exibindo “charya” conduta
Adotando comportamento humilde entre a sangha,
Vagar então por aldeias você tornou-se itinerante.
Para você que é renomado como o Virupa, prosterno-me eu.

Tendo separado o Ganges você subjugou o incontrolável,
Segurando o sol, você consumiu o licor de muitas terras sem se tornar
intoxicado,
Você quebrou o Linga e dominou Candali.
Para você que é conhecido como o Senhor do Poder, prosterno-me eu.

Tendo exibido feitos mágicos imensuráveis
Você subjugou o herege Kartika em Saurastra.
Você penetrou o espaço inteiro com sua compaixão que está além de objeto.
A você que desfruta as grandes felicidades da não-dualidade, prosterno-me eu.

Como todos os fenômenos são perfeitamente puros, felizes e vazios,
Para perceber isto, demonstrou você rapidamente
O caminho profundo das quatro linhagens secretas sussurradas.
A você que amadureceu e liberou tantos seres afortunados, prosterno-me eu.

Ema!
Até que minha mente obtenha completa
Liberação da esfera de pureza,
Que eu possa ser abençoado com seu aparecimento direto
Que surge nova e novamente.

Tendo transmitido a continuidade de néctar,
Pelo poder de sua compaixão.
Possa tudo ser dotado do significado completo e perfeito.

Também possam todos os seguidores manter a prática
Dos dois estágios inseparáveis.
E sem enfrentar obstáculos no caminho
Possam eles beneficiar outros seres pelos Ensinamentos.

Estando cheio das quatro alegrias
Dos completamente puros modos de ar das três portas,
Que eu possa dissolver os quatro portões essenciais e assim
Atingir a fase do Senhor que segura o Vajra.

Possa este lugar (Sá), onde eu moro,
Ficar renomado na terra e nos céus.
Que possamos desfrutar da prosperidade da ação virtuosa que é
Branca (Kya), como a lua e a flor de Kumuda.

(Colofão.)
Sakya Kunga Nyingpô compôs este elogio espontaneamente pelo poder da devoção, quando o Mahasiddha Virupa apareceu no céu em uma postura sentada sobre a paisagem branca, seu corpo cobrindo desde Baldog até Maldog Gorges, as suas mãos no dharma mudra pedagógico, com Krishnacharya à direita dele, Gayadhara à esquerda, Kokalipa atrás e Vinasana na frente. Neste momento Virupa deu as quatro iniciações, bênçãos e explicações do Caminho Escondido, a explicação do Vajra.

Trad. R. Samuel

quinta-feira, 26 de maio de 2016

O RATO DA ROUPA DE OURO, OU A ROUPA DE OURO DO PODER


O RATO DA ROUPA DE OURO, OU A ROUPA DE OURO DO PODER

ROGEL SAMUEL

Dir-se-ia que Dilson Lages Monteiro desenhou um retrato do Poder do Brasil de hoje. Mas o livro foi escrito e publicado em 2013. 
Por isso a crítica literária há séculos que diz: o Poeta é um profeta. 
O Rato vive uma estória de Poder. Ele aproveita uma “crise” para virar Rei, pois na tempestade cai numa antiga mina de ouro e se torna Rei do Ouro, transforma-se em ouro, veste-se ouro...
Porém todo poder é temporário... nova tempestade transforma sua vida... as serpentes voltam a ameaçar... o rato, de Rei volta a seu esgoto...
Quando saiu, o livro foi sucesso de público e de crítica. João Castello, de “O Globo”, teceu elogios e viu o potencial dessa estória,
Mas não é só um livro para criança... 
É uma metáfora, uma foto do Brasil.
O livro é uma obra-prima.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

EM BUSCA DA POÉTICA DE J. G. DE ARAÚJO JORGE


EM BUSCA DA POÉTICA DE J. G. DE ARAÚJO JORGE 

Rogel Samuel 

Faço aqui uma breve tentativa de ensaio crítico sobre este grande poeta – e como “ensaio”, algo provisório, limitado a alguns poemas de “Harpa submersa” (1952), para mim reveladores, indicadores daquela arte do poeta acreano, no centenário de seu nascimento. Até hoje, ele ainda é o poeta mais lido do Brasil, porque popular, fácil, melódico, oral. De certo modo, o maior poeta para o povo brasileiro. Famosíssimo mesmo hoje, tantos anos depois de sua morte (1987), publicou 36 livros, um romance, 2 LPs, várias músicas, manteve programa de rádio, é nome de rua no Rio de Janeiro e em várias cidades brasileiras. Suas músicas foram gravadas por Orlando Silva, Nana Caymmi, Carlos Galhardo, Silvio Caldas, Agnaldo Timóteo, etc. Foi professor do Colégio Pedro II, no tempo em que lá só chegavam grandes mestres.  Enfim, uma vida plena e gloriosa. Morreu aos 73 anos. A obra literária, sua poética, se confunde com a sua ideologia política, que ele escreveu para povo, para o leitor semialfabetizado, rural, proletário, operário, para as belas normalistas suburbanas, que com elas queria comunicar-se, para as massas, deu voz às massas, como poeta. Creio que foi o único parlamentar brasileiro moderno que conseguiu eleger-se como poeta, com a fama de Poeta, com a popularidade de seus livros, que eram publicados e vendidos aos milhares, mesmo no interior brasileiro, em papel jornal pela Editora Vecchi. “Amo!” vendeu 80 mil. Ele foi o único poeta brasileiro que vendeu mais de um milhão de livros. JG por volta dos 18/19 anos. Foto cedida por Rogel Samuel, retirada de livro do poeta. Nasceu em 20 de maio de 1914, em Tarauacá (que na época devia ser uma pequena vila na beira do rio), no Acre. Curso primário no Acre, secundário nos Colégios Anglo-Americano e Pedro II do Rio. Em 1931, ainda estudante, publicou um poema no “Correio da Manhã”, depois transcrito no popular “Almanaque Bertand”, em 1932. Em 1932, no Externato Pedro II, foi escolhido “Príncipe dos Poetas”, saudado por Coelho Neto. Estudou na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil. Foi orador oficial do CACO, da União Democrática Estudantil, precursora da UNE, da Associação Universitária.  Foi locutor e redator da Rádio Nacional, Tupi e Eldorado. Em Coimbra, recebeu o título de “estudante honorário” e na Alemanha fez Curso de Extensão Cultural na Universidade de Berlim. Elegeu-se Deputado Federal em 1970, pela Guanabara, reelegendo-se para o terceiro mandato em 1978. Ocupou a vice-liderança do MDB e a presidência da Comissão de Comunicação na Câmara dos Deputados. Só não foi reeleito pela 4ª vez devido na uma greve dos Correios, que (dizem) o deixou endividado e deprimido, morrendo anos depois, em 1987, creio que em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Ele adorava Friburgo. Politicamente, era homem de esquerda, desde estudante, quando combateu o “Estado Novo”. Preso e perseguido várias vezes. Deixou de ser orador de sua turma por estar detido na Vila Militar, em 1937.    Ficou famoso como Poeta do Povo e da Mocidade, pela mensagem socialista da sua obra lírica. Um dia, uma pessoa querendo me ofender, me disse: - Sabe quem gostou do seu livro?... A minha empregada! Isto não seria problema para o grande J. G. de Araújo Jorge, que se dirigia à massa proletária! Ele mesmo tem um livro que se chama “O poeta na praça” (1981). Sua poesia é oral, livre, espacial, fácil. Como não compreender sua poética? “O diabo é que não sou complicado / sempre sei o que sinto, o que quero, / pelo menos no momento que passa. // Por isso não tenho dificuldade em meu verso, / na verdade, não tenho nenhum trabalho, / ele vem e me diz: aqui estou! / Pois bem: que cante!” (“Harpa Submersa” 1952 ) No seu “Canto Banal”, ele diz: “Não te quero dizer palavras difíceis e deformantes / nem inventar imagens que embelezam talvez / mas que não reconheces. // Não tocarei música para os teus ouvidos / nem criarei poesia para a tua imaginação, / nem nada esculpirei que já não esteja em ti... // Nesse instante serei banal, / não respeitarei nem mesmo o silêncio, / nada que nos eleve além do plano em que estamos, / não serás estrela, não serás a nuvem, não serás a flor... // Quando chegares, e eu tomar teu corpo em meus braços nervosos, te direi apenas: / - meu amor!” (“Harpa Submersa” 1952). Ele também sabia dizer coisas como: “Meu coração, como uma harpa submersa, / jaz no fundo de que ignorado oceano? / Que estranhas correntes arrancam de suas cordas / sons líquidos e redondos que se perdem côncavos / antes de chegar à tona?... // Que peixes cegos tiram notas imprevistas / e se vão tontos na ondulação do canto que despertam / entre espectros calcários e verdes algas trementes? // Que músicas borbulhantes se agitam, nascidas / de que movimentos sem origens, incognoscíveis, / marcando um tempo morto e imensurável? // Meu coração é como uma harpa submersa, / sem dedos, sem cordas, tocando sozinha / uma canção que desvenda os mistérios da vida / para os peixes ouvirem.” (“Harpa Submersa” 1952). Que significa Harpa Submersa? Harpa Submersa “/ Este retardatário gosto de pureza, / que me vem à boca do fundo coração, / não sei se é tédio ou o sinal de alvoradas renascentes. / Na areia branca onde a onda tenta apagar/ vestígios de pés e levar todas as conchas, / me deixo à espera de outras vagas carregadas de conchas / ou de passos que tatuem novas marcas / na epiderme do coração. / Pobre coração marinheiro, tão marcado, / de que canto obscuro desenterras imprevistamente / esta harpa cheia de algas e de sons submersos?” (“Harpa Submersa” 1952). A água é signo feminino. Ele sabe tocar o âmago da mulher, tocar a sua Harpa, o seu ventre submerso. O canto lhe vem à boca, do fundo do mar do coração. O canto nasce imprevisto do obscuro das algas, do som submerso daquela harpa cheia de algas, de pureza retardatária, do seu itinerário, das marcas na areia do chão de sua vida. Harpa Submersa significa “ventre submerso”. Ele é o poeta do sentimento, do amor, do itinerário da vida. Ele era um “poeta popular” sim.  E a depender dos leitores, o poeta da Harpa Submersa vai se tornar eterno. Ele não entrou na Academia Brasileira, mas se sentia “Imortal”: “Me sinto na academia, me sinto “imortal” / Não sei bem de que academia / nem sei a que morte me refiro / sei que neste momento me sinto como as crianças / e os animais / para quem a morte não é nem mesmo, / uma palavra que se lê.” Por que deputado? Por que o grande poeta do povo entrou na política? Por que foi um grande político de esquerda, tão grande que morreu pobre e endividado? Porque toda poesia é uma política. Política entendida como a arte de mudar o mundo. Era no mundo grego a “arte da polis”. A consciência comunicativa vigorava na polis grega, entre os homens livres. Mas a poesia só manifesta “arte” na medida em que está a serviço da “polis”. O mundo poético é o mundo da sociedade. A poesia, tal como ele a praticou, resume uma grande força política em prol do desenvolvimento espiritual dos povos. O poeta dá voz aos povos, como um profeta, as massas se identificam com ele. Ele não era porta-voz da classe dominante, da elite intelectual dominante, que combateu e por isso ela se vingou, apagando o seu nome das histórias da literatura. Mas ele não precisava disso. Sua legitimação vinha do povo. Ele fez política, fez política com a sua poesia de amor. Quando canta: “meu coração é como uma harpa submersa, / sem dedos, sem cordas, tocando sozinha / uma canção que desvenda os mistérios da vida / para os peixes ouvirem” – tais peixes atuam, nadam no subconsciente revolucionário das massas proletárias. Poucos como ele sabem que a poesia pode mudar o mundo. Por isso ele não consta das histórias literárias e a crítica o ignora. O seu público é outro: JG escreveu para a massa proletária dos “homens tristes” (de que ele sempre fala), para o verdadeiro Brasil operário. Hoje ele seria aceito? Não sei. Talvez. Mas não pela mídia, que a elite dominante continua a mesma e mais entrincheirada. O Brasil está cheio de grandes poetas esquecidos da mídia e da crítica. Mesmo assim JG colecionou prêmios acadêmicos, como o “Prêmio Raul de Leoni”, para o melhor livro de poesia do ano, prêmio oferecido pela Academia Carioca de Letras, com o livro “Eterno motivo”, em 1943. E até agora ele vende muito: seus livros são os primeiros a vender nos sebos, quando aparecem. Suas obras estão quase todas na Internet. Mas em Tarauacá, onde nasceu o poeta, não existe nenhuma livraria... ________________________________________________________________________________ ROGEL SAMUEL é doutor em Letras e professor aposentado da Pós-Graduação da UFRJ. Poeta, romancista, cronista, webjornalista. É autor, entre outros, de O Amante das Amazonas (2005, 2a edição), Novo Manual de Teoria Literária (2013, 6a reimpressão); Teatro Amazonas (2012); e Modernas Teorias Literárias: breve introdução (2014). Visite a página pessoal do autor: literaturarogelsamuel.blogspot.com

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL


Um obscuro deus dorme, no inominável, no universal, imerso, incompleto, pré-histórico há um milhão de anos, desde que aquilo era mar. Estamos a 3.100 km de Manaus. Gabriel Gonçalves da Cunha comprara o rio Jordão e toda a margem esquerda do Igarapé Bom Jardim, até o Igarapé São João e um furo do Igarapé Cruzeiro do Sul. Isolava o Seringal Manixi. A cotação da borracha amazonense sobe na Bolsa de Londres. Aumenta a produção dos pneumáticos. O Amazonas, único produtor de látex do mundo. Manaus rica, copia Paris. Comerciantes enriquecem. Ostenta o Teatro Amazonas os seus espelhos de cristal. Os milionários jogam cartas com anelados dedos pesados de diamantes, arriscando fortunas no Hotel Cassina, no Alcazar, no Éden, no Cassino Julieta. Telhas de Marselha ao luar na Rua dos Remédios, na Rua da Glória. Arquitetura art-nouveau do palácio de Ernest Scholtz - depois Palácio Rio Negro, sede do Governo. Arandelas, bandeiras, implúvio. Intercolúnio. O cunhal, o lambrequim, a voluta, o capitel, a cornija. Arquitrave. Barrete de clérigo, adufa, muxarabi, água-furtada, muiraquitã, envasadura, atleta, estípite. O enxalso, o frontão de canela. Galilé. Pequena Manaus, grande Paris!. Lojas, magazines, charutarias, livrarias, alfaiatarias, ourivesarias. Bissoc. Pâtisserie. Du sucre, des fruits, de la crème. A la ville de Paris, Au bon marché, Quartier du temple, Damas do Gabinete Villeroy, Casa Louvre, Livraria Palais Royal (na rua Municipal, n0 85, as novidades literárias), Livraria Universal, Agência Freitas, Casa Sorbonne (dentro do Grande Hotel), a Confeitaria Bijou, a Padaria Progresso. Faroletes de pedra de morona e de puraquequara. A bela Villa Fany, luxuosíssima. O Cais dos Barés, a Biblioteca Provincial (que incendiou fraudulentamente, para destruir os Arquivos Públicos, nos fundos). O prédio dos Educandos Artífices que deu nome ao bairro. Amazon Steamship Navigation Co. Um prédio importado, peça por peça, da Inglaterra: a Alfândega, montada aqui. Outro, projeto do próprio Gustavo Eiffel, de ferro: o Mercado Municipal. Um Serviço Telefônico serve a cidade. A eletricidade ilumina as ruas de Manaus no início do Século, talvez das primeiras cidades brasileiras a ter este serviço. Calçadas da Praça São Sebastião, em pedras portuguesas pretas e brancas, em ondas que alegorizavam o “encontro das águas” do Negro e Solimões (posteriormente imitadas na praia de Copacabana). Bondes elétricos da Manaus-traways. Bebe-se Veuve Clicquot, truffes, champignon. Huntley & Palmers, Cross & Blackwell. A Cork, a Pilsen, o Bordeaux, o fiambre, o Queijo da Serra da Estrella. Lagostas, a Goiabada Christalizada. Charteuse, Anizette. Champagne Duc de Reims. O Vermouth. Água de Vichy. Leite dos Alpes Suíços. Casacas inglesas, o H. J., o pongê, o filó. Bengalas de castão de ouro. Cartolas, luvas, perfumes franceses, lenços de seda. Pistolas de prata e cabo de marfim. Gramophones de Victor. Discos duplos de Caruso. Casas aviadoras. O Amazonas participa da Exposição Comercial de St. Louis, no Missouri, e posteriormente da Exposição Universal de Bruxelas, onde ganha 32 medalhas de ouro, 39 de prata, 70 de bronze, 6 Diplomas de Honra e os 13 Grandes Prêmios. Manaus-Harbour. Tabuleiro de Xadrez. Óperas, óperas, óperas. Diariamente. Prostitutas importadas. A Cervejaria Miranda Correia.

terça-feira, 17 de maio de 2016

A COLEÇÃO CENTENÁRIO

A COLEÇÃO CENTENÁRIO

ROGEL SAMUEL

Recebo, com emoção e surpresa, a totalidade da COLEÇÃO CENTENÁRIO, da Academia Piauiense de Letras. E começo a leitura imediata pelo livro de João Pinheiro, “Literatura piauiense”, onde, é claro, meus olhos buscam logo o poeta Taumaturgo Vaz, que viveu e produziu no Amazonas.
Então passo a ler a obra do famoso Félix Pacheco e de Hardi Filho.
No livro de João Pinheiro encontro várias páginas de referência ao herói Gregório Thaumaturgo de Azevedo, fundador da cidade de Cruzeiro do Sul, governador do Piauí e do Amazonas, erudito, autor de várias obras, inclusive “O Acre”, em colaboração com o sábio Clóvis Beviláqua.
O Piauí pode-se considerar orgulhoso pela publicação dessa Coleção, atualmente de 52 livros, mas que deve chegar a 100 volumes.
Espero que não se esqueçam de publicar a obra do Castelinho, o Carlos Castelo Branco, o maior cronista político de minha geração, que era membro das Academias Piauiense e Brasileira de Letras.
Castelinho faz falta hoje. Ele era o autor que eu lia diariamente pelo jornal durante creio que 20 anos.

 Sua opinião era segura.

sábado, 14 de maio de 2016

SEM PAI, NEM MÃE

Sem pai nem mãe


Sem pai nem mãe

NEUZA MACHADO


(Foto Xíxaro: carregador do cais do porto de Manaus)

“Sem pai nem mãe, nem parente algum de que tivesse notícia”. Em um dia qualquer do presente histórico (“como se tudo tivesse bem pensado”, muito consciente de que a grandeza imperial do Manixi “não mais existia”, consciente de que “o Palácio onde ele agora morava”, em seus sonhos de “meia-noite psíquica”, “estava em ruínas”), o neo-personagem Ribamar de Sousa se vê afastado do posto de primeiro narrador, submete-se a um segundo narrador (que contará aos leitores a sua ascensão e glória na Grande Cidade), e, atendendo a um pedido de Maria Caxinauá, resolve mudar-se para Manaus.


Neste ponto do relato, o(s) narrador(es) (s) sofre(m) o que Gaston Bachelard denomina “endosmose do devaneio e das lembranças”[lii], o que configura a necessidade de voltar(em)-se para dentro, protegido(s) por uma membrana ou placa porosa (de acordo com os ensinamentos da Física), em outras palavras, um renovado desenrolar ficcional entre duas matérias líquidas (ambas propensas à profundidade) de espessuras corpóreas diferentes.


No início do romance, o primeiro narrador Ribamar de Sousa apresentou a sua trajetória ficcional de dentro para fora (a técnica do olhar), buscando, por meio de simulacro narrativo (marca das narrativas pós-modernas), retomar a própria história de vida do segundo narrador pós-moderno/pós-modernista de Segunda Geração e a história sócio-mítico-substancial do Estado do Amazonas. O ato de narrar de dentro para fora, resguardado pelo aparato histórico e pelo arcabouço mítico particular e/ou universal, ao mesmo tempo em que revelava um passado de glórias (de luxo e de riquezas), provindos da extração da árvore da Seringa, desenvolveu-se muito bem camuflado, propiciando ao primeiro narrador a exterior explanação de verdades não-autorizadas pela consciência intelectualizada do segundo narrador.
O fogo da labareda da serpente
Sobre O AMANTE DAS AMAZONAS, de Rogel Samuel

quinta-feira, 12 de maio de 2016

64 outra vez

Rogel Samuel - Os cantos (1964)






Canto primeiro



Decorrido o tempo a imagem dela 

entre as pessoas da rua começa a linear-se 
ou desaparecia ou próxima e inteira 
como um coice se via a variada 
aspergida dispersa. Sua figura 
de tordo e metal desconhecido 
enfurecia o comando deste povo 
que habita diretamente todos nós 
acelerava a parte e sobre a sarça obscura 
certo da sua atitude disciplicar 
amanhecia ainda um mapa de cores 
à disposição. Oh sinto-me levado 
pela demonstração a coisa o folhear 
porque mostrar é o meu único refúgio 
e o meu desenlace transacto imposto tenso 
nunca passava de róseo amarelo azul 
nenhuma cor. As pernas estendidas sobre o 
fundo, espero e fico como que mais surdo 
às expectáveis palavras dos velozes 
quem podia me reanimar: era sozinho 
e ela faiscações rebrilhos Potestade 
conseguia tocar os dedos transferidos 
para outros compromissos plataforma 
mais alta mais velada alada e aérea 
fala fatalidade irmã da morte 
quem se aformoseie e se transfere em quê 
argila topográfica caminhada 
caminhemos convictos, caminhemos 
e sedimentares que ali não eram certos 
de pálida derrota senão estava 
dizer de cláusulas alfandegárias trapaceadas 
oh irmãos da morte vigiai 
as inúteis bandeiras abas leques 
queimam gasolina controlada 
computada pelos contornos senhoriais 
arrendai-me oh grande queima verde 
recém saída de altos fornos cerimoniosos 
que pegando o tecido e examinando a cor 
discutem entre si sacudindo os olhos 
penduricalhos pinjentes quedados 
superiorizados pagos trepados: à tintura 
o consolida moço de consciência 
proletário pulsar dos pulsos que seguravam 
nos sustentando famintos e opressores mitos 
umas leves camadas de barro que se espoliavam 
aos duros golpes do inimigo devotos 
gaivotas gotas de Infinito acaso a morte 
parda e morna e paliçada ardia 
mas estando refrigeradas e atadas 
eram pingentes constelações turbinas tubulares 
que se aprofundavam em congelamentos e orgias 
Era a guerra. Endereçadas populações marginais 
nutris de servidiços trabalhos 
a imitação - que é minha - sempre aberta 
olhos elétricos candelabros enodoados 
se apagavam em cores para a visão final 
cadeirinhas carreiras tremulina dons 
a placa de metal sobre o alto assoalho 
sobretudo os altíssimos raios sacramentais 
e contínuas marés de compridas nuvens 
alvuras para que passemos sobre as suas 
cabeças sensuais querem meu afago 
mais que a trama o permitir e então 
no frígido planeta estereotipado 
sentido pintado o fim do mais querido 
sonho, adeus, foi só um momento aquele 
o tapume os jogadores o pólo verde 
ainda entrevejo, débil coração 
conexa a minha memória esgarçada 
já vigiava o céu, velho e severo 
céu que era pleno de estrelas assassinas 
em baixo da minha pouca paliçada 
o rol de meus amigos mortos aprisionados 
camuflados traidores feitores dores 
fugiam todos por um curso usual 
1963, lembro-me que era de tarde 
- traspassada dividida, lentamente 
andávamos através daquela rua 
o lugar grave passos tardos convulsão 
resumida o contato nossas mãos 
- toque de dedos, rápido e desperto 
eu não conseguia narrar, ó musa descoberta 
evanescente irrecuperável ocorrendo 
por onde passava inteiramente aberta 
a presença frente a tela de cinema 
e implantado aquilo que me era triste 
pois tudo começou no dia que lembro 
quando acordei o teto do meu quarto 
desmaiado vinha de amanhecer um outro 
sol do outro lado do mundo, aberta a janela 
labirinto abastardado claro suavíssimo 
marítimo emanava aquele ponto horrível 
horizonte que entrando um azulado 
vento do mar oleava. Lembro-me das linhas 
retas cruzes ruas úmida cidade indiferente 
da quase madrugada que chegava a forte 
perfeita aterradora ambígua assassina 
as persianas que batendo vivas 
e que desesperavam para a morte 
a minha confiança e a minha lembrança 
o aroma de café entrante o espaço lerdo 
subia até ali. o esquecido, eu pensei: 
devo amá-la. e olhei pela janela 
na espera de encontrá-la: mas um grupo 
policiais à paisana e eu... súbita felicidade 
vinha da calma da praça em que estávamos 
na borda daquela raça ela subiu pedestal 
vazio frio cabeceira tanque retangular para o ar 
sumiam seus braços seus brados espalmados 
para o céu como voasse ameaçava 
dizia que o vento intenso era sensual 
recolhia para si própria aquele medo 
e levava ao majestoso ao largo olhar 
mar que soando forte aos nossos gritos 
órgão a sua voz de meus cristais 
a salsugem penetrava e da camisa 
nua sobre seus cabelos ressoava 
e entrando como por um túnel me atava 
nadava me entristecia ainda mais 
da sua essa passageira aparição demora 
o momento montante o interior imensurável 
os rápidos retardos que é para sempre 
adormeciam e sinto espécie nova 
um som um estilhaço longo momentos 
de certeza inteiramente perdição 
depois na praia ela se deitava 
e se largava na areia matutina 
e era suave aquela branca nua 
visto de longe no mar era certeza 
espécie de vedação alta azul e informe 
as coisas se dissolviam em explosões 
cristas e covas cintilações sonoras 
luminosidades que a ela me contavam 
naquele dia no convés de quase tudo nascia 
a ondulação dobras das velas 
esbeltas circulares e misteriosas 
Nós dois. Nós dois ríamos muito 
de face recebendo gélida chuva 
gotas algumas da tarde e haviam dito 
- ouvíamos som de gaivotas e de mares 
que ela andava como adorno multicor 
ela se precipitava entre coisas vivas 
que depois os soldados invadiram 
bombas rebentavam no meio da sala 
não havia rádio nenhuma comunicação 
eu ainda não passava de matar a esperança 
amada e ela morta certamente 
a porta da frente onde estávamos 
talvez aberta talvez fechada rebentou 
eu passava a mão sobre sua cintura 
e mordia-a na nuca ternamente 
a porta começava a chave introduzida 
na fechadura como ainda me lembro a outra porta 
bem defronte os azulejos brancos a pia branca 
a geladeira branca e lá fora chovia e a clara voz 
nos dizia que era o fim de tudo 
e que ouviríamos certamente o nosso algoz 
como para poder fugir para o fundo de nós mesmos 
tomamos de súbito os sinais 
e entravam e se apoderavam os policiais 
de toda a casa que um dia tinha sido minha 
jogamos o nosso conteúdo fora 
e fomos engolidos pelo meu silêncio 
fugimos dali. Aquele golpe vitorioso 
nos deslocava para a clandestinidade 
fomos nos ver numa estação suburbana 
olhávamos a planície e estávamos sós 
quase uma centena de esperados iam 
no bojo do mesmo trem. Mesmo ali naquele isolamento 
desmilitarizados passavam policiais e viaturas 
e nós éramos presumidos e perdidos 
Val era linda. Palavras cheias de angústia 
fome medo perdição: Que fazemos aqui? Para onde ir? 
Novo grupo de policiais chegava 
nas imediações campos de guerra 
e a porta cedia a pancadas a invasão 
começou. O garoto olhava espantado. E começava 
a lavrar um incêndio. 






Canto segundo





Sucede que assentou num banco de pedra 

com todo pedantismo que de sempre 
lhe era familiar. Naquela praça distante 
ficava a esperar e a pensar 
- mas o que estava esperando senão morte 
neste ponto nem via que por ali 
poderiam encontrá-lo. As lanternas 
que partiam iluminavam-no violentamente 
de vermelho. E ele espera calado 
com suaves sentimentos depressivos 
havia andado tanto depois de ter fugido 
que atrás dele no largo da praça estariam 
mas ele nada mais queria fazer. As crianças 
corriam gritos pela noite. Morna e plácida 
provinciana geografia, geometria mortal 
irmã do sonho. Dois velhos caminhavam pelas 
sombras da noite, cada um com seu embrulho. 
Ele estava bem, ali. E até poderia 
dormir sob os faróis dos carros que cruzavam 
o que sentia. Em breve, porém, ficou sentindo 
um gosto mole de aço e de azedume 
como se o vento que vinha sobre ele reto 
pudesse lhe cavar um fosso dentro 
Às vezes algumas lembranças familiares 
o levavam num passeio da imaginação 
e era como se sua mãe, tia e sobrinha 
dissessem ser agradável viver ali 
e de pensar naquelas pessoas ternas 
não havia os tais carros e seus sistemas. 
O pregador e seu dilema. Um viver que o sustenta, 
circunda, pega, o põe indiferente. 
Ele nada mais via naquele fundo 
tudo que estava, tudo que faltava estava ali. 
A noite que o circunda nas vidraças 
altas prolongava aquela letargia e acomodação. 
Era tempo. Pois no dia em que almoçaram juntos 
havia muito sol. Depois do almoço 
andaram até a margem, a praia onde estavam 
sempre. Havia um vento, uma frescura quase fria, 
e o gosto na boca era de pomar 
Todas as reverberações no tanque 
além do gradil de ferro ofuscava por momentos 
O mundo enquadrado estava claramente 
limpo, sadio, em sossego. Ele tomava 
de algo no bolso e começava por alguns instantes 
a brincar. E o metálico do papel 
que o envolvia riscava o céu de diamantes 
Mas o sabor era excelente, a dissolução 
lenta, excitante. Salivava. Estava alegre 
de estar sentindo. Havia pássaros descendo. 
Os edifícios agora na manhã 
espelhos de fantásticas vitrines. A camisa 
aberta com suas asas desarticuladas 
exibindo o ventre arqueado. Ele tinha naquele 
instante a silhueta mais de pássaro do que 
do pobre rato e, descendo a vista poder- 
se-ia ver a sua forte carnação. E desde o pescoço 
sólido até as pernas, tesas, tensas, quase tortas 
o seu corpo se contorcia e se deslocava 
numa dança que andava. Tudo viu. Andou 
sem jeito até bem perto do vidro. E um grupo 
de turistas passava. Alegres e por detrás 
no fundo da imagem. Alegres, falavam, não 
o viam, nenhum deles. Sua presença era dureza 
e aridez. E tendo visto saiu assombrado 
da marquise, da rua com seus gritos com 
seus giros e para lá se dirigiu, seus passos 
sobre a calçava levavam, vagava 
Um bar fechava as portas. A noite 
era dos afastados lampiões que se apagavam 
e uma leitosa névoa cinza anunciava 
a madrugada. Seus sapatos molhados 
seus olhos molhados. Na mecânica 
da tristeza de andar, sem atinar, sem saber para quê. 
Procurava e ter para onde vir não, não mais 
chorava estava diante da nobre descoberta 
passara sombra futuro deixava 
inquietar pelo menos durante aquele 
tempo mas como se mudava alternava era 
possível que em breve nova orda deprimente 
o tomaria como uma agitação nervosa 
angustiante ele fugia e na realidade 
procurava andava atrás da fuga era 
possível que soubesse e dele era o que 
não tinha bem certeza o perseguiam 
hoje mesmo o pensava a fuga era uma 
engrenagem necessária e exercera 
como o que tentava alcançar e não sabia 
e o alcançava rodeando aquela parte daquela 
cidade perigosa das pessoas cujas portas 
franqueavam sem que pudesse regressar 
sensação de que tudo estava excluído para 
quando entrou experimentou logo 
a solidão daquele espaço vazio 
atravessando a área descobriu no outro 
o lado o disfarce a saída que apontava 
e uma estrada que partia sempre 
e ninguém passava por aquela estrada só 
os inúteis os demônios inúteis o fundo descortinava 
o vale as grandes montanhas além 
morcegos de vento passavam por ali idos 
musguentos com estrídulos chiados estilhaços 
quebravam o ar com seus gritos suas 
negrinhas asas cobrindo o sol a lua estrelas. 
e ouvir o trinar grave e reto 
de certas aves ocultas travo rouco baixo e grave 
monstro e seu arquejar forte seu resfolegar 
abrindo um túnel de torpor e medo as abas da morte 
se abrindo par em par e rolando aquela parte 
se postou para frente oh estrada! quando vinha 
soturno a triste impressão que navegava 
a luz da morte seus faróis aquela parte 
obscura e perdida onde ocorria tudo 
chamado vento sangue não sei o quê 



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