segunda-feira, 31 de março de 2008

VICTOR HUGO


DESENHO DE V. HUGO PARA «OS TRABALHADORES DO MAR»



DEUS SONHA

O dia acorda. Deus, por uma fresta
Das nuvens a espreitar, ri-se. A floresta,
O campo, o inseto, o ninho sussurrante,
A aldeia, o sol que finge a serrania...
Tudo isso acorda, quando acorda o dia
No fresco banho de ouro do Levante.

Deus sonha. Vaza os olhos d’água; pica
As artérias da terra; o lis fabrica,
E da matéria sonda o fundo ovário.
Pinta as rosas de branco e de vermelho,
E faz das asas vis do escaravelho
A surpresa do mundo planetário.

Homens! As férreas naus de velas largas
Monstros revéis, formidolosas cargas,
Do bruto oceano arfando as insolências
Extenuando os ventos, e nos flancos.
Largo enxame a arrastar de flocos brancos
De escuma, e raios e fosforescências...

Os estandartes de arrogantes pregas;
As batalhas, os choques, as refregas;
Náuseas de fogo de canhões sangrentos;
Feroz carnificina de ferozes
Batalhões - bando espesso de albatrozes
De asa espalmada e aberta aos quatro ventos...

Comburentes, flamívomas bombardas,
Ígnea selva de canos de espingardas,
Estampidos, estrépitos, clangores,
E, bêbedo de pólvora e fumaça,
Napoleão que galopando passa,
Ao ruflar de frenéticos tambores;

A guerra, o saque, as convulsões, o espanto;
Sebastopol em chamas, de Lepanto
A vau de lanças e clarins repleto...
Homens! Tudo isso, enquanto recolhido
Deus sonha, passa e soa ao seu ouvido
Como o rumor das asas de um inseto!

(Trad. de Raimundo Correia)





OH! NÃO INSULTEIS...





Oh! não insulteis nunca uma mulher perdida!
Quem sabe qual o transe em que ela foi vencida?
Quem sabe se foi longo o seu combate rude,
Entre as mil privações que assaltam a virtude?
Se o vento das paixões soprou com violência,
Quem já viu a mulher, que prendia a inocência
Nas pequeninas mãos cruzadas sobre o seio,
Não ir no turbilhão, gritando, com receio?...
Tal a gota de chuva, - pérola da rama: -
Brilha ao passar do vento, oscila e cai na lama!

A culpa é nossa; é tua, ó rico! é do teu ouro!
Mas, no lodo é que o mar esconde o seu tesouro...
Para que o pingo d’água erga-se da poeira,
Com o vivo esplendor e a limpidez primeira.
Já que as transformações se operam pra melhor,
Dai-lhe um raio de sol! dai-lhe um raio de amor!

(Trad. de Múcio Teixeira)



A AMOR





Pois que a beber me deste em taça transbordante,
E a fronte no teu colo eu tenho reclinado,
E respirei da tu’alma o hálito inebriante,
- Misterioso perfume à sombra derramado;

Visto que te escutei tanto segredo, tanto!
Que vem do coração, dos íntimos refolhos,
E tive o teu sorriso e enxuguei o teu pranto,
- A boca em minha boca e os olhos nos meus olhos;

Pois que um raio senti do teu astro, querida,
Dissipar-me da fronte as densas brumas frias,
Desde que vi cair na onda da minha vida
A pétala de rosa arrancada aos teus dias...

Posso agora dizer ao tempo, em seus rigores:
- Não envelheço, não! podeis correr, sem calma,
Levando na torrente as vossas murchas flores
Ninguém há de colher a flor que eu tenho n’alma!

Podeis com a asa bater, tentando, sem efeito,
A taça derramar em que me dessedento:
Do que cinzas em vós há mais fogo em meu peito;
E, em mim, há mais amor que em vós esquecimento!

(Trad. de Alvaro Reis)

DEPOIS DA BATALHA




Meu pai, aquele herói de riso sempre aberto,
Seguido de um “hussard” que estimava, decerto,
Mais que os outros, por ser um bravo ante a metralha,
Percorria, a cavalo, após uma batalha,
O campo do combate envolto pelo véu
Da noite; nisto um ruído a escuridão rompeu:
Era um belo espanhol do exército vencido
Que, à beira do caminho, exânime, vencido
Gemia agonizante, exausto e sem socorro,
E que a custo dizia: “Água! Água que eu morro!”
Meu pai magoado, estende ao seu “hussard”, então,
A cabaça do rum pendurada no arção,
E diz-lhe: - “Toma lá, dá-lha ao pobre ferido”.
De repente, no instante em que o “hussard”, pendido,
O ia socorrer, ele, um tipo de mouro,
Que inda agarrava a arma, arremessa um pelouro,
À fronte de meu pai, exclamando: “caramba!”
Tão perto lhe zune o tiro, que descamba
O chapéu, e o cavalo acua e se retrai.
“Vá, dá-lhe de beber, embora!” diz meu pai.

(Trad. de Silva Ramos)

sexta-feira, 28 de março de 2008

NA MORTE DOS RIOS

"Desde que no Alto Sertão um rio seca, / a vegetação em volta, embora de unhas, / embora sabres, intratável e agressiva / faz alto à beira daquele leito tumba. / Faz alto à agressão nata: jamais ocupa / o rio de ossos areia, de areia múmia." - escreveu João Cabral de Melo Neto. É verdade que ele nunca acusou recebimento de um livro que lhe mandei pelo correio. Talvez não tenha gostado, nem tenha lido. Era minha dissertação de mestrado, versava sobre as águas. Na sua obra. Cabral para mim é sempre uma fixação. Eu não me canso de lê-lo. Nunca o vi, pessoalmente. Assisti à uma entrevista na televisão. Mas como os maiores poetas têm dificuldade de falar! Cabral era claudicante. Cheio de "não é verdade?". Lembro-me de Drummond. Um dia, quando éramos aluno da FNFi, e como estudássemos sua obra, conseguimos que Drummond aceitasse a vir, na nossa sala, para conversar. Ele exigiu que ninguém soubesse, e que pudesse entrar pela porta dos fundos! Incrível: um dos maiores poetas entrou pela porta dos fundos da nossa faculdade de letras. Mas Drummond parecia um funcionário público (que era), conversando. Trazia um guarda-chuva preto e vestia um terno cinzento. Sério, magro, seco, quase mal humorado. Disse, por exemplo, que perdia belas imagens e versos que lhe ocorriam no caminho de casa para o trabalho. Parece que ele andava de ônibus, de Copacabana para o Centro, no Rio. Quando eu lhe perguntei por que ele não tinha consigo um caderninho de notas, ele respondeu que "não ficava bem alguém ficar escrevendo". Lembro-me de que nossa professora, D. Cleonice Berardinelli, que ia passando no corredor, o viu e, espantada, logo entrou na sala. Drummond, o gênio da nossa poesia, discorria singelamente, prosaicamente sobre sua obra. Nenhum brilho, nada de demonstrações de grandeza. Disse: "não sei por que fazem tanto barulho pela minha poesia, eu não vejo nada de especial nela" (as palavras eram mais ou menos assim). Disse horrores sobre o verso "no meio do caminho tinha uma pedra". E no fim, quando se despediu, eu lhe pedi um autógrafo. Ele logo se irritou comigo ao ver, na folha de rosto do seu livro, após o seu nome, que eu tinha escrito, a mão: (1920 - ..... ). "Esse aqui já está esperando a minha morte!", disse. A última vez que o vi, foi em Copacabana. Eu bebia um cafezinho num botequim do Posto Seis que existe até hoje, quando ele passou. A cabeça pensativa, meio cabisbaixo. Eu fiquei extático, boquiaberto, imóvel, reverente, e mentalmente me curvava à Grande Poesia que passava.
João Cabral nunca o vi. Tenho lido sua obra, nesses áridos dias. Empaquei na "Conversa em Londres, 1952", da qual transcrevo alguns dos versos:
Durante que vivia em Londres, amigo inglês me perguntou: concretamente o que é o Brasil que até se deu um Imperador?
Disse-lhe que há uma Amazônia e outra sobrando no planalto; ............................................... Porém como a nenhum britânico convence conversa impressionista [ele disse]... "Posso dizer minha opinião? O Brasil é o Império britânico de si mesmo, ... é fácil ler nesse mapa, Colônias... e a Londres, certo mais monstruosa, que no Brasil não é cidade, é região, é esponja... a de Minas, Rio, São Paulo que vos arrebata até a chuva."
Talvez ele não tenha gostado das minha leitura da sua obra, que não é lá grande coisa. Talvez nem a tenha lido. Mas nenhum amazonense, lá onde há água tanta, soube dizer das águas quanto o árido João Cabral nordestino. Nordeste da seca, Nordeste dos "territórios mais mendigos". A Amazônia é (pasme) nordestina. A família da minha mãe, por exemplo, é nordestina. Até 1919, no Amazonas, 150 mil emigrantes nordestinos já tinham chegado, fugidos da seca. A Amazônia do Planalto, não. É paulista, mineira, carioca. "Você não se separa do que é Nordeste", diz o poema. Toda favela, toda periferia urbana é Nordeste. "Desde que no Alto Sertão um rio seca, o homem ocupa logo..." Não. Nunca. Cabral nunca agradeceria um elogio. "Porque o sertanejo fala pouco: as palavras de pedra ulceram a boca".

terça-feira, 25 de março de 2008

A lição de Canudos, sempre atual

Otto Maria Carpeaux
Todos, no Brasil, conhecemos Canudos. A rebelião dos sertanejos baianos, sob a chefia do sectário místico que se chamava Antônio Conselheiro, sacudiu fundamente os primeiros anos da vida republicana do País. É um dos episódios mais fascinantes da história brasileira e sobre este tema foi escrita uma das obras-primas da literatura nacional: Os Sertões, de Euclides da Cunha, que assistira às expedições militares contra aqueles fanáticos, notando como aqueles homens violentos, ignorantes, bárbaros chegaram a perturbar a pacata vida provinciana do Brasil de 1897, assustando os burgueses, os bacharéis, os poetas e até os oficiais do Exército.
Sobre os fatos de Canudos existem muitos livros e inúmeros estudos esparsos. Cada geração, das que se sucedem, encontra algo de novo naquela história impressionante. Nossa época atual também é capaz de encontrar algo de inusitado naquele acontecimento: um aspecto que antes não se tinha percebido. Canudos é, novamente, uma atualidade.
Euclides foi o primeiro que escreveu sobre Canudos. Era ex-oficial do Exército, grande escritor, homem culto e até erudito, mais tarde alto funcionário do Itamarati, professor do Colégio Pedro II e membro da Academia Brasileira de Letras, enfim: pertencia às classes dirigentes do País. Mas a revolta de Canudos ensinou-lhe o fato de que a grande maioria dos brasileiros eram homens do campo, analfabetos, roídos pelas doenças, iludidos pelas superstições, um povo esmagado pela miséria. Esta era a realidade brasileira. Seguindo as lições da ciência de seu tempo, Euclides explicou essa realidade bárbara pelo clima adverso, pela esterilidade das terras e pela esterilidade mental das massas brasileiras, desses mulatos e mestiços que não têm capacidade para conquistar pelo trabalho um decente nível de vida. Explicou o acontecimento de Canudos em função da raça e do ambiente físico.
Mas a raça e o ambiente físico são fatores imutáveis. Ninguém é nem será jamais capaz de modificá-los. Então, sempre será assim como foi? Desgraças como a revolta selvagem dos miseráveis analfabetos de Canudos seriam capazes de repetir-se novamente? Mas então era preciso manter essas massas irresponsáveis sob o guante da disciplina severa dos governos fortes. Canudos parece ser, assim, justificativa perene para a existência e a manutenção das ditaduras.
Entretanto, assim não o é. Euclides da Cunha tinha estudado os aspectos geográficos e raciais de Canudos. Um estudioso de nossos dias, Rui Facó, examinou os aspectos sociais de Canudos: os fatores que não são imutáveis, mas que a história criou no passado e que, por isso, a história do futuro poderá modificar ou mesmo abolir. Quais foram esses fatores sociais de Canudos?
Os historiadores brasileiros costumam zombar da incrível ignorância desse chamado Antônio Conselheiro, desse sectário que chefiava os sertanejos de Canudos: pois em 1897, oito anos depois da proclamação da República, o homem ainda não queria tomar conhecimento dela e teimava em professar sua lealdade ao para ele ainda Imperador D. Pedro II. Mas, se olharmos mais de perto para a realidade de então, perceberemos que o homem tinha razão: a República não tinha, para os sertanejos, mudado nada, e o Brasil, sob um presidente da República, era o mesmo Brasil do Imperador, continuando os sertanejos dominados pelos mesmos latifundiários. O Brasil oficial negava, indignado, esse fato. Só um analfabeto poderia pensar assim. Acontece que os latifundiários, eles próprios, também pensavam assim. Pois quando os sertanejos de Canudos começaram a reunir-se em torno de seu chefe de seita, o major proprietário de terras da região, um típico barão-feudal, retirou dali sua família e seus pertences. O barão já parecia ter percebido o que Rui Facó nos ensina hoje: que o misticismo sectário de Canudos era a expressão da esperança de acabar com a miséria que há séculos oprimia os camponeses brasileiros e que continua a oprimí-los. Homens ignorantes e supersticiosos como aqueles, não sabiam nada de reivindicações sociais. Esperavam da Igreja a redenção, e quando os bispos e vigários, ligados às classes dominantes, não ouviram o grito de desespero, os sertanejos de Canudos separaram-se da Igreja, tornando-se sectários. O verdadeiro motivo dos movimentos rebeldes nos campos brasileiros é a estrutura da sociedade brasileira. Essa estrutura não é um fato da Natureza ou da Raça, que seria imutável. Foi criada pelos homens no passado e poderá ser modificada pelos homens, no futuro. Basta que se queira. Mas se queira de maneira adequada.
Como modificar a estrutura da sociedade brasileira, se ela é protegida e garantida pela política, pelas forças armadas, pelos grupos conservadores e por todos os Poderes Públicos?
Isso também nos ensinou Antônio Conselheiro. Mas só hoje começamos a compreender sua lição. É uma faceta de Canudos que até os dias que correm nunca foi devidamente apreciada: o aspecto tático-militar.
Como começaram as coisas? Os sertanejos de Canudos estavam, por volta de 1895, pacatamente reunidos em seu reduto, apenas trabalhando para seu sustento e o dos seus. Mas é isso que homens como o então Barão de Jeremoabo não toleram: pois querem que os camponeses trabalhem para o sustento dos barões, como hoje os grandes proprietários de terras querem que os camponeses trabalhem para o seu sustento. Surgiram, então, boatos de violências perpetradas pelos sertanejos e boatos da natureza perigosa das superstições que eles professavam; assim como ainda hoje surgem a toda hora, boatos de rebeldia, de "atos de terrorismo", e da periculosidade de "ideologias exóticas". Então, as autoridades resolveram agir.
Em novembro de 1896, o governo do Estado da Bahia mandou para
Canudos um batalhão da polícia estadual, bem armado, sob o comando do Tenente Pires Ferreira. Os sertanejos, atacados, defenderam-se com espingardas de caça, facões de mato e cacetes de madeira - e na escaramuça de Uauá obrigaram os policiais a fugir.
Em janeiro de 1897, o governo da Bahia voltou ao ataque, contando com o apoio do governo federal. Mandou para Canudos tropas estaduais e federais, sob o comando do Major Febrônio de Brito - que sofreu nova derrota.
Em fins de fevereiro de 1897, seguiu para Canudos verdadeiro destacamento misto, composto das três armas: infantaria, cavalaria e artilharia, sob o comando do Coronel Moreira César, temido pela sua energia e ferocidade e as tropas foram novamente derrotadas pelos sertanejos precariamente armados, que conheciam melhor o terreno e se tinham espalhado pela retaguarda das tropas. O próprio Coronel Moreira César foi, no campo de batalha, morto pelos rebeldes.
Enfim, só em junho de 1897, acabou tudo, mas, para tanto, foi necessário reunir três brigadas de infantaria, acompanhadas da artilharia, sob o comando do General Artur Oscar, que conquistou Canudos e mandou fuzilar milhares de sertanejos, cujos corpos foram barbaramente mutilados. Eis como não foi fácil vencer Canudos.
Sobre esse aspecto tático militar de Canudos não se falou nada, até hoje. Não se fala nada, aliás, sobre muitas coisas. Homenageia-se Euclides da Cunha, o historiador de Canudos, como grande figura das letras nacionais e do Exército Brasileiro e da Academia, mas não se conta ao povo que esse mesmo Euclides, em novembro de 1888, ousou jogar seu sabre de oficial aos pés do ministro da Guerra, para protestar contra uma lei iníqua. E não se conta que o mesmo Euclides organizou em São José do Rio Pardo, em 1.° de maio de 1901, a primeira festa de 1º de Maio socialista em solo brasileiro. Não querem saber de tais atos de rebelião social de um oficial do Exército Brasileiro. Pois sabem que fatores sociais explicam a fraqueza de qualquer exército do mundo, ante a revolta organizada dos oprimidos.
O Exército Brasileiro de 1897 podia ser, em comparação com os exércitos das grandes potências, materialmente obsoleto e taticamente fraco. Mas, em comparação com os sertanejos de Canudos, era tática e materialmente superior. Entretanto, mostrou-se vulnerável à tática das guerrilhas.
O Exército Brasileiro de hoje continua a não poder se comparar com os exércitos das grandes potências, seja em número, seja em apetrechos bélicos. Mas, os exércitos das grandes potências tampouco podem contra as guerrilhas. Antônio Conselheiro é o precursor de Mao-Tsé-Tung na China, de Boumedienne na Argélia e dos Vietcongues no Vietnã. Canudos foi a semente da China Brasileira, da Argélia Brasileira, do Vietcongue Brasileiro.
Mas - dirão vocês! - apesar de tudo os sertanejos de Canudos foram enfim derrotados! Sim, porque eram guerrilheiros improvisados e não conheciam bem os princípios da guerrilha: concentraram-se num reduto em vez de se espalharem pela região. Foi um erro.
Mas também os erros constituem ensinamento. O Canudos da segunda metade do século XX não será um reduto, um foco só, uma base só, mas o País inteiro. Será? Mas quando? Podemos esperar. E esperar indefinidamente? Não. Não é preciso esperar tanto.
Quando, em novembro de 1888, o então cadete Euclides da Cunha, em presença de todo o corpo de generais brasileiros, jogou seu sabre aos pés do ministro da Guerra do imperador, ninguém poderia saber que só um ano depois, em novembro de 1889, a monarquia, com todos os seus generais e ministros, já estaria desaparecida muito depressa: só um ano! Hoje, que as coisas andam muito mais depressa, é lícito acreditar que não precisaremos esperar muito, sobretudo se seguirmos os ensinamentos da lição de Canudos.
[Artigo datilografado, não assinado, que se encontra entre os papéis de Otto Maria Carpeaux, depositados na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Uma correção autógrafa, na penúltima linha, a palavra depressa, autoriza a atribuição.]

domingo, 23 de março de 2008

Verlaine

A LUA BRANCA
Verlaine


A lua branca
luz sobre o bosque.
De cada ramo,
ouço uma voz
vem da folhagem:

Oh! bem-amada!

O lago reflete,
profundo espelho,
o vulto vago
daquele salgueiro
que uiva ao vento.

Sonhar é a hora...

Do espaço desce
uma entranhada
calma imprecisa
que do céu estrelado
a lua irisa.

A hora indecisa...

(Trad. livre de Rogel Samuel)

%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%



Tradução de Onestaldo de Pennafort




A lua branca
brilha no bosque.
De ramo em ramo,
parte uma voz que
vem da ramada.



Oh! bem-amada!


Reflete o lago,
como um espelho,
o perfil vago
do êrmo salgueiro
que ao vento chora.


Sonhemos, é hora...


Como que desce
uma imprecisa
calma infinita
do firmamento
que a lua frisa.


É a hora indecisa...

sábado, 22 de março de 2008

Resenha "Novo Manual de Teoria Literária", de Rogel Samuel

Resenha "Novo Manual de Teoria Literária", de Rogel Samuel

por

Ana Kronemberger

[Revista Culturavozes http://www.culturavozes.com.br/
Nº. 3; Ano 96 Volume 96 2002 ISSN 014-222X]


Segundo o historiador norte-americano Jacques Barzun (autor de Da alvorada à decadência, Editora Campus), o modernismo [surgiu como] uma batalha para livrar o artista de padrões ancestrais de educação e libertá-lo para desenvolver uma visão individual do mundo. Mas tudo o que os artistas viram foi um mundo injusto, materialista, desprezível. Sendo assim, conclui Barzun, desde a década de 1920, a arte ocidental tem sido de destruição deliberada de sua própria tradição. O historiador faz o diagnóstico da decadência ocidental, onde a cultura já não tem forças para criar o novo, onde há repetição, estagnação e tédio (cf. Veja, 14, abril 2002).
Este Novo manual de teoria literária, de Rogel Samuel, publicado pela Vozes, tem como mérito nos fazer voltar no tempo e no caminho de nossa cultura percorrendo tempos de inspiração e entusiasmo pelo viés da crítica literária e de sua história. Além disso, traz ao iniciante, àquele que ainda está para trilhar os caminhos da produção literária, um verdadeiro mapa da mina, sem lhe tirar o sabor e o prazer de descobrir sozinho o tesouro escondido em cada página das nossas verdades, mitos, ilusões, fantasias...
Manual, já nos diz o dicionário, é, entre outras possíveis definições, livro pequeno e portátil, contendo o resumo de alguma ciência ou arte. Difícil, por certo, seria condensar todo o desenvolvimento da arte da teoria literária. Samuel consegue a proeza. Seu Novo manual se apresenta em 158 páginas (incluindo bibliografia), nas quais se pode vislumbrar discussões como: o que é arte?; o que é Belo?; que é poesia? E ainda se toma conhecimento de temas como: linguagem; Lacan; Mito; Hegel; Nietzsche; fantástico; gêneros literários; estilo; estilística; estruturalismo; semiologia; hermenêutica; Bachelard; crítica psicanalítica; crítica marxista; best-seller; cinema e TV; pós-modernismo; pós-estruturalismo; Michel Foucault; Derrida; desconstrução; teoria pós-colonial; crítica feminista; literatura comparada.
Em tempos em que o Big Brother deixou de ser uma promessa aterrorizante e futurística, para sentar-se conosco em nossas salas, mastigado e digerido, diluído pela cultura de massa, vale a pena ler o capítulo Best-seller, cinema e TV, deste Manual.
Lembrando McLuhan, Samuel nos recorda que a TV surge quase que em competição com o cinema; batalha vencida pela TV, que teve como aliados a violência e o medo das ruas. Foram eles que levaram o antigo espectador de cinema para o conforto e a segurança de sua telinha. A TV, por sua vez, veio marcada pela intimidade, pela familiaridade. Nossa madrinha na sala de jantar tornou-se o olho que traz para nós o mundo.
Mas sua luz hipnótica como que nos puxa para dentro dela. Se antes o sujeito na tela tinha de ser comum para não ferir a suscetibilidade de nosso lar, agora, é o sujeito comum, do outro lado da tela, que parece fazer de tudo para trocar de lugar.
Nossa intimidade está exposta na tela. Nossas brigas domésticas, nossa roupa suja, a cama desfeita, nosso tédio, nossa relação dependente com a fonte de luz e informação banalizada. Dissecado, exposto em partes cortadas de maneira mais cruel do que o Estripador conseguiria, nosso mundo revela sua face decadente e ri de nós. Tudo se apresenta separado de sua história, de suas tradições e cultura e se distorce para se vender melhor. Basta ver a proliferação de Jades...
É assim que o Novo manual de teoria literária pode nos fazer refletir sobre a nossa cultura e os rumos que ela vem tomando e, no final, quem sabe, nos trazer o entusiasmo que marcou tempos de grande efervescência, de produção, de criatividade. Samuel, indiretamente, nos faz uma proposta diferente nesta nossa época. Ele não nos torna o caminho tão fácil que nele pudéssemos simplesmente deslizar sem esforço ou proveito. Mas nos convida a olhar o passado. Oferece um manual, um guia para nos orientar. Nos convida a um pensar que não se quer, necessariamente, fácil. Um guia, não elimina nosso trabalho, não nos carrega nas costas, não remove a montanha de nosso caminho.
Ele está lá e nos estende a mão. Nós aprendemos e, depois, podemos seguir sozinhos.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A PAIXÃO


A PAIXÃO


Rogel Samuel

Eu sei: sei que o leitor e a leitora já ouviu "A paixão segundo São Mateus" de Bach. Não sei se na mesma gravação que ouço agora, Deutsche Grammophon 419789-2, conduzida por Karajan, com a Filarmônica de Berlin e Gundula Janowitz etc., coro da Ópera de Berlin, em 1972. Não sei. Que dizer? A massa sonora desaba a dramaticidade de uma catástrofe. Que mais? Karajan explorou os "Ah!" - alongando "aa", estupefatos, de puro horror, perdurando-os até o limite do insuportável da dor. O ouvinte pode gritar: "Pare!" E o duplo coro: "Venham, irmãs, compartilhem com as minhas lágrimas" - na expressão funda em que o coração se despedaça. "Veja-O". "Veja-O" - se ouve a Mãe dizer, a apontar o filho, petrificada, horrorizada, vendo o amado filho, ali, no alto da sua compaixão, a caminho do sacrifício, a caminho do Gólgota, a caminho do Lugar da Caveira. E as flautas choram, os fagotes e violinos gemem, o órgão acorda, o coro, gigantesco, se engasga porque o mundo inteiro está em ruínas, o Universo estremece estarrecido - o que foi aquilo? Que é aquilo o que vemos? Oh, que horror! São ondas largas, são ondas largas. "Veja-O, o torturado". (Mas riam dele, e despojavam-no de suas vestes, cuspiam nele e, tomando o caniço com que se apoiava, davam com ele na cabeça, obrigando-o a beber vinho com fel). Mas Ela, a Nossa Própria Mãe!, nos exclama: "Veja a sua doçura!" Veja com que doçura ele vai a caminho da dor. Não há, neste tema, talvez o maior de todos os temas - do sacrifício, da tortura, da loucura, da violência, da nossa crueldade - maior realismo do que esse: "Estais vendo? Estais todos vendo o que vejo? [pergunta a Mãe]. É ele! Veja a sua doçura a caminho do calvário!" E a massa do diáfano coro infantil, saído não se sabe de onde, talvez das profundezas das nossas próprias mentes, as crianças celestes, as mais puras crianças celestes, uma surpresa de Bach, que entra com vozes vinda de um céu distante onde pequeninos anjos horrorizados e não acreditando naquilo a que estavam assistindo, com o que estávamos todos assistindo, o mais santo dos homens levado ao sacrifício brutal... Bach usou e abusou de sua engenhoca, da sua capacidade de, num malabarismo barroco, nos enredar, nos torcer como serpente estranguladora de suas malucas idéias musicais, hipnotizando, sufocando até às lágrimas. Na realidade, esta é música perigosa, faz muito mal, depois de ouvi-la nos sentimos mal, pode até matar-nos. São certas voltas e fugas das vozes mais puramente estarrecidas daquelas crianças celestes do coro infantil que gritam nos nossos ouvidos, que gritam para nós, dentro de nós, para que ouçamos nós, para que nunca nos esqueçamos nós: "Ó Deus, como ele está sereno a caminho da cruz" - "Como está paciente!" "Ainda que cruelmente torturado..." ... de seus olhos saem a sua grande e máxima compaixão...". A música passa por sobre nossa sensibilidade como um tanque de guerra. E Bach trabalha com a gigantesca massa de sonoridades impressionantes, quando o texto da antiga liturgia luterana nos diz (não sem ironia): Tende piedade de nós, ó Jesus! Nós vos imploramos, ó Jesus, tende piedade de nós! - Isso dito na hora mesma em que ele está a caminho da morte! E todo coberto de sangue! Tende piedade de nós, vós que caminhais para a morte, enquanto carregais sobre os ombros o instrumento da tortura! Vós que estais sendo levado à mais terrível dor, ao supremo de todos os nossos erros, tende piedade de nós! De nós que vos condenamos à Morte! Tende piedade de nós!
("Imagem azul" pintura digital de R. Samuel).

VLADIMIR SOLOVIEV


POEMA

VLADIMIR SOLOVIEV
(Moscou, 1853-1900)

Amada criança, você não vê
Que tudo que percebemos
Reflexo é, como uma sombra
Do invisível para nós?

Criança amada, não compreende você
Que da vida cotidiana o seu fracasso
É o deformado eco
Das triunfantes harmonias?

Amada criança, você não sente
Que o que importa nesta Terra
É aquilo que um coração diz a outro,
Sua mensagem silenciosa?

(Trad. Rogel Samuel)

quinta-feira, 20 de março de 2008

OSCAR WILDE

BALADA DO CÁRCERE DE READING

(Trecho)

Trad. de Gondin da Fonseca

I
Não trazia a sua túnica vermelha, mas sangue púrpuro, encarnado, sangue e vinho das mãos lhe gotejavam, quando o viram, alucinado, junto do leito dela - o seu amor, seu pobre amor apunhalado. Ia andando entre os mais e era cinzento o traje velho que vestia. Usava um gorro de listas, e o seu passo, ligeiro e alegre parecia. Porém, eu nunca vi homem que olhasse tão tristemente a luz do dia.
Jamais, jamais vi homem contemplar, com tão profundo sentimento, essa breve, essa estreita faixa azul que os presos ,chamam firmamento; e as nuvens brancas, côr de prata, ao longe, - velas sem rumo, andando ao vento.
Eu, que junto a outras almas padecentes, sofria, em pátio separado, quis saber se era grande, se pequeno, o crime dêsse condenado, - quando alguém sussurrou atrás de mim: “aquêle, vai ser enforcado!”
Jesus! as próprias grades da prisão, rodam, de súbito, em delírio! Pesa o céu sôbre mim, qual elmo de aço que o Sol inflama - ardente círio! E a minha alma, de mágoas trespassada, esquece, olvida o seu martírio.
Eu soube, então, a idéia lacerante que o atormenta, e o faz correr, e o faz olhar, tristonho, o céu radiante, radiante, e alheio ao seu sofrer: de matou aquela que adorava, - por causa disso vai morrer.
No entanto (ouvi) cada um mata o que adora: o seu amor, o seu ideal. Alguns com uma palavra de lisonja, outros com um duro olhar brutal, O covarde assassina dando um beijo, o bravo, mata com um punhal.
Uns matam o Amor, velhos; outros, jovens; (quando o amor finda, ou o amor começa); matam-no alguns com a mão do Ouro, e alguns com a mão da Carne — a mão possessa! E os mais bondosos, esses apunhalam, - que a morte, assim, vem mais depressa.
Há corações vendidos, e há comprados; uns amam, pouco, outros demais; há quem mate a chorar, vertendo lágrimas, ou a sorrir, sem dor, sem ais. Todo homem mata o Amor; porém, nem sempre, nem sempre as sortes são iguais.
II
Seis semanas inteiras êle andou com a veste usada que trazia. Tinha um gorro de listas, e o seu passo ligeiro e alegre parecia. Porém eu nunca vi homem que olhasse tão tristemente a luz do dia.
Jamais, jamais vi homem contemplar, com tão profundo sentimento, essa breve, essa estreita faixa azul que os presos chamam firmamento; e as nuvens esgarçadas no horizonte, - flocos de espuma errando ao vento!
Não retorcia as mãos - tal como alguns de idéia curta, e alma louçã, que ousam crer, mesmo em negro Desespêro, numa Quimera estulta e vã: ele fitava, calmo, a luz da aurora sorvendo o ar puro da manhã.
Não retorcia as mãos e não chorava, nem lamentava o seu inferno; ia, apenas, bebendo o ar como um bálsamo, bálsamo bom; bálsamo eterno... Abria os lábios e bebia o Sol, como uma taça de falerno.
E eu, e todos os mais - nos que penávamos num outro pátio separado, esquecemos de pronto as nossas faltas, a nossa Sorte, o nosso Fado, e contemplamos com tristeza imensa o que ia, enfim, ser enforcado.
E era estranho que o víssemos andando, - Tão leve e alegre parecia... E era estranho que o víssemos fitando, saudosamente, a luz do dia. E era estranho pensar que êle — a sua dívida tràgicamente a pagaria.
Tem lindas fôlhas o álamo e o carvalho, que em maio brotam viridentes; mas é medonha a fôrca - árvore negra, cujas raízes são serpentes: e verde ou sêca, morre o condenado e não lhe vê frutos pendentes.
É para o céu, para o azulado empíreo, que o anseio humano se alevanta! Mas quem, do alto da fôrca, atado a um laço, com a corda prêsa na garganta, ergue seu turvo olhar ao firmamento quando o carrasco se adianta?
É bom dançar, ao som dos violinos, se a Vida é bela e é belo o Amor; dançar ao som de flautas e alaúdes, é raro, fino, embalador...
Mas é horrível, no ar, com os pés ligeiros, dançar, num último estertor!
E nós, curiosos, mudos, consternados, o vigiávamos dia a dia, pensando que talvez nosso destino igual ao dêle acabaria: pois ninguém sabe a que horroroso inferno a Sorte bárbara nos guia.
Por fim, deixei de vê-lo entre os mais presos, sempre sòzinho e vagabundo. Soube então que o levaram; que jazia em negro cárcere profundo, e que eu, jamais, de novo o enxergaria, neste belo e risonho mundo...
Dois navios fantasmas que se cruzam, em noite má, caliginosa, - nós nos cruzamos, mudos, sem um gesto, numa atitude silenciosa: pois de dia nos vimos (não de noite) e a luz é casta, é vergonhosa.
Muros de uma prisão nos circundavam, éramos réus por nossos danos. Deus e o seu mundo, inexoràvelmente, nos repeliram desumanos; e a sinistra armadilha do Pecado nos seduziu com seus enganos.
Cadenciados, marchando em volta ao pátio, nós somos loucos em parada! Que importa? Bem sabemos que Satã é o general desta Brigada.
Lenta, arrastando os pés, cabelo curto, lá vem a alegre mascarada!
Desfiamos cordas alcatroadas, rijas, unhas gastas, dedos sangrentos; esfregamos o chão, limpamos portas, e metais claros, espelhentos; e enxaguamos, aos turnos, o assoalhado, batendo baldes barulhentos.
Cosemos sacos e quebramos pedras, furamos tábuas com uma pua. Tinem marmitas; cantos se misturam; gira o moinho, e a gente sua... Mas dentro da nossa alma, um terror mudo, um terror grande se insinua.
Por isso os dias correm lentos, como vagas rolando com sargaços! E nós nos esquecemos do Destino, que os homens vis prende em seus laços, - quando, ao vir do trabalho, um dia, vemos uma cova, ante os nossos passos.
Bôca amarela e rude, ela bradava por uma vítima, e feroz, sua terra hostil pedia sangue ao pátio, - pedia sangue, em alta voz! Ah! logo vimos que ao romper da aurora iria à fôrca um dentre nos.
Recolhemo-nos todos, a alma atenta à Morte, à Sorte, e ao Mêdo infando. O Algoz passou com o seu pequeno saco, na treva os passos arrastando; e cada qual, na tumba numerada, se enfiou, trêmulo e cismando.
Cantaram galos, rubros e cinzentos, sem que rompesse o dia após... Tortuosas formas tétricas, nas celas, nos transiam de horror atroz; e os espíritos maus da noite-morta, riam, pulando em frente a nos.
E rápidos giravam, deslizavam, como viandantes na neblina. Imitavam a Lua, contorcendo-se em pose grácil, feminina: e, passos nobres, elegância odiosa, chegavam outros, em surdina.
Alegres, trejeitando, e de mãos dadas, entram, de súbito, em ciranda! Rodopiam fantasmas em delírio, numa grotesca sarabanda; e, caricatos, fazem arabescos, como o vento na areia branda!
Com piruetas gentis de marionetes, leves, levíssimos bailavam! Era estridente a música do Mêdo, com que o seu baile acompanhavam: e para despertar na cova os mortos, alto, e sem pausa, êles cantavam:
“Oh! - diziam - o mundo é largo. A viagem, para os trôpegos, é enfadonha! Jogar os dados uma ou duas vêzes, é de bom-tom, gente bisonha! Mas, ai! perde quem joga com o Pecado, na oculta Casa da Vergonha.”
Não eram sombras vagas que bailavam, com bizarra alacridade! Para nós - vidas prêsas na Prisão, pés tolhidos, sem liberdade, eram - nome de Deus! - criaturas vivas, de horripilante fealdade!
Sempre ao redor, valsavam contorcendo-se: alguns, giravam com seus pares; outros subiam, ágeis, as escadas, em atitudes singulares... E outros arremedavam nossas preces, rindo, a zombar, fazendo esgares.
Súbito, na Prisão, soa o relógio, e o som, no ar, vibra horroroso! E um gemido de dor, de desespêro, ecoa, lúgubre, estrondoso, - qual o grito que lança, num paul, a bôca negra de um leproso.
Como que, no cristal claro de um sonho, vê uma tragédia apavorante, assim vimos a corda gordurosa balançar, no poste infamante; e ouvimos a oração, que o nó do Algoz cortou, num grito lancinante.
Eu compreendi, melhor do que ninguém, aquêle grito amargo e forte, e o seu remorso, e o seu suor de sangue, e tôda a angústia da sua sorte! - Pois o que vive mais do que uma vida, deve morrer mais do que uma morte.
IV
Não há ofício, no dia em que na fôrca um dentre nós cumpre a sua sina: ou sente, o Capelão, pálido a face, ou grande dor d’alma o domina: ou, coisas que ninguém deve saber, inda lhe bailam na retina.
Meio-dia era já, quando vibrou do sino o toque funerário! A cada qual, espiando, os guardas abrem a cela - e em passo tumultuário vamos descendo a férrea escada, livres do nosso inferno sedentário.
Fomos andando ao ar suave de Deus, mas, como dantes, ninguém ia; - pois, faces brancas uns, outros cinzentas, o mêdo, nelas transluzia! E eu nunca vi ninguém olhar assim, saudosamente, a luz do dia.
E nunca vi ninguém olhar assim com tão profundo sentimento, essa breve, essa estreita faixa azul que os presos chamam firmamento. E as nuvens, sem cuidado, ao longe, no ar, felizes, livres como o vento!
Mas, entre nós, havia uns que marchavam cabisbaixos, alma aflitiva, sabendo bem que a fôrca mereciam, pois sua falta era excessiva: mataram uma coisa morta, e o outro, - apenas uma coisa viva.
O que peca segunda vez, acorda para a Dor uma alma dormente: tira-a do seu sudário maculado, e a faz sangrar sangue vivente; e a faz sangrar, num jôrro largo e forte, e a faz sangrar inùtilmente.
Quais monos e truões, vestes listadas, bizarramente, uma por uma, seguimos, silenciosos, dando a volta ao pátio escuro, envolto em bruma:
seguimos, silenciosos, dando a volta, e ninguém disse coisa alguma.
Seguimos, silenciosos, dando a volta, e à nossa mente, ôca e vazia, a memória fatal de coisas fúnebres, um vento fúnebre a trazia; e o Horror nos enfrentava a cada passo, e o Tenor, bárbaro, o seguia.
Passam guardas de um lado para o outro, vigiando, espiando a horda de brutos. Seus uniformes novos, de domingo, brilham, asseados, impolutos. mas a cal dos sapatos denuncia o que fizeram há minutos.
Pois onde a cova tinha sido aberta, não se notava a menor falha: só uma faixa de terra e areia fôfa, junto da hórrida muralha; e um punhado de cal, para servir ao pobre morto, de mortalha.
Ai! mortalha de cal, abrasadora, bem pouca gente é que a reclama! Sob um pátio de cárcere (e despido, para mais triste e negra fama!) êle dorme, com os pés acorrentados, envolto num lençol de chama.
E por tempo sem conta a cal roerá a carne e os ossos dêsse irmão: de dia os ossos duros, e de noite, a carne mole, em consunção: comerá, turno a turno a carne e os ossos, mas, sem cessar, o coração!
Três longos anos, nada irão plantar nesse local de desventura! Maldito ficará três longos anos, maninho estéril de secura! E olhará, com assombro, o céu azul, amargamente e sem censura.
Pensam que o coração do que matou, mata as sementes dadivosas. Não! A Terra de Deus é acolhedora, tem qualidades generosas: mais rubras brotariam rosas rubras, e mais brancas as brancas rosas!
Sairiam rosas rubras da sua bôca e rosas brancas do seu peito! Quem sabe? Tem Jesus estranhas vias, e é estranho, às vêzes, seu conceito: - fêz, outrora, ante um Papa, abrir-se em flôres sêco bordão de um Seu eleito.
Mas nem rosas vermelhas, nem de neve, podem florir nestes terrenos. Só nos dão cacos, sílex e pedras; só nos dão mágoas e venenos... A flor abranda o Desespêro aos simples, e é crime, aqui, sofrer de menos.
Assim, nenhuma pétala esfolhada há de cair, piedosa e bela sôbre esta campa rasa, junto ao muro da Prisão que nos arrepela, - pra lembrar que Jesus morreu por todos, aos que passarem perto dela.
Contudo, embora a fúnebre muralha o envolva, o cinja em férreo abraço, e um espírito de pés acorrentados
não possa, à noite, errar no espaço, mas só chorar, chorar, nessa ímpia terra, morto de mágoa e de cansaço,
êle dorme em sossêgo - o malfeliz! ou dormirá, dentro de pouco! Não mais, vendo o Terror em pleno dia, sofre, e receia ficar louco. Não mais! a Negra Pátria em que repousa, não tem, nem sol nem luar tampouco.
Enforcaram-no, assim como a uma fera! Nenhum sino dobrou na igreja, que à sua alma assustada lhe trouxesse uma paz doce e benfazeja: mas depressa o esconderam numa cova, onde a parede mais negreja.
Despiram-no. Em seguida o abandonaram, e com sarcástico sorriso, fitaram-lhe a garganta, inflada e púrpura, e o olhar imóvel, indeciso... E envolveram-no, após, numa mortalha, brutos, torcendo-se de riso.
Jamais o Capelão se ajoelharia na sua campa, que traduz a Desonra. E jamais nela poria a triste bênção de uma Cruz, - visto êle haver pecado, e ser dos míseros por quem veio morrer Jesus.
Enfim tudo acabou. Do Reino Escuro ele transpôs o limiar, A urna da Piedade, urna partida, há de, por êle, transbordar! Por de chorarão todos os réprobos, êsses que sempre hão de chorar.
V
Não sei se as Leis são justas ou se injustas. Os pobres presos miseráveis, só sabem que as muralhas da prisão são altas, fortes, invioláveis; e que um dia é mais longo do que um ano, - ano de dias infindáveis.
Mas sei que as Leis, que o Homem, para o homem fêz, com seu ânimo iracundo, desde o primeiro que matou o irmão, e deu início à Dor do mundo, são peneiras que guardam joio vil e atiram fora o grão fecundo.
E sei também (assim todos soubessem!) que as paredes de uma Prisão são feitas com tijolos de ignomínia e têm grades negras, que são para Cristo não ver como o homem trata bàrbaramente o seu irmão.
Grades que a lua amável desfiguram, e o sol, de raios triunfais! É melhor, sim! que escondam êsse inferno: pois lá se passam coisas tais, que nem Filho de Deus nem filho de Homem as deveria olhar jamais.
Os piores feitos, os piores venenos, geram-se no ar de uma cadeia. Só o que é bom no homem lá se perde, só o que é mau lá se granjeia. Há dentro um guarda: o Desespêro; e à porta, a Angústia fica de alcatéia.
Matam de fome às timidas crianças, até que chorem noite e dia; azorragam os fracos e os dementes, maltratam velhos à porfia. Uns enlouquecem; todos se pervertem, - mas ninguém diz sua agonia.
Cada célula estreita é uma latrina escura, fétida e nojenta! Um hálito mortal, fecalizante, enche a lucarna pardacenta. Tudo morre; a Luxúria, apenas, vive e a Humana Máquina atormenta.
A água suja e salobra que bebemos, lôdo e imundície traz consigo. O pão escasso e amargo que êles dão, tem cal e gêsso mais que trigo. E o Sono, sem dormir, pede em desvairo que o Tempo abrande o seu castigo.
Embora em nós a Fome e a Sêde lutem, como serpente em refrega, ninguém cuida em sustento. O que nos mata é, quando desce a noite cega, sentir cada um no coração, os blocos que o dia inteiro êle carrega.
Com meia-noite dentro d’alma, e a cela num crepúsculo funerário, damos à manivela e esfiamos cordas em nosso inferno sedentário. E o silêncio é medonho como um sino a badalar num campanário.
Nunca uma voz amiga vem falar-nos, meiga, num gesto humano e puro; o olhar que nos vigia no postigo, é impiedoso, áspero e duro: apodrecemos - alma e corpo em ruínas, esquecidos neste monturo.
Arrastando os grilhões férreos da Vida, vamos, sòzinhos, degradados: um se maldiz; o outro chora - e seguem em silêncio, os mais desgraçados; mas a Divina Lei suaviza e quebra os corações dos condenados.
E cada um que se quebra na Prisão, é como aquela ânfora cheia, que outrora se partiu, e o seu tesouro deu a Jesus da Galiléia, espargindo na casa do Leproso o olor do nardo da Judéia.
Feliz êsse que parte o coração e ganha a Paz, e ganha o Amor! Quem, de outra forma, pode libertar-se do pecado escravizador? E onde, a não ser num coração partido entra Jesus, Nosso Senhor?
Ah! o morto de garganta inflada e púrpura, e olhar imóvel, indeciso, espera que lhe dê sua bênção. Esse que ao bom ladrão deu o Paraíso: Pois Cristo acolhe as almas penitentes, - e é estranho, às vêzes, Seu juízo.
O homem da lei, vestido de vermelho, deu-lhe, de vida, três semanas, para a sua alma conciliar consigo, e sem idéias ruins, tiranas, purificar do sangue derramado, as mãos, um dia desumanas.
E ele purificou, chorando sangue, as rudes mãos de instintos crus: pois só o sangue lava o próprio sangue, e só o pranto ao Bem reconduz; e a nódoa rubra de Caim transforma na branca auréola de Jesus!
VI
No cárcere de Reading, junto a um muro, terra de opróbrio os ossos come de um desgraçado, envolto num sudário que o afogueia e que o consome! É uma campa infamante essa em que jaz, uma campa que não tem nome!
E aí, até Jesus chamar os mortos, tranqüilamente há de jazer. Inútil verter lágrimas inúteis, e dar suspiros, e gemer. - Ele matou aquilo que adorava, teve, por isso, de morrer.
No entanto (ouvi) cada um mata o que adora; o seu amor, o seu ideal. Alguns com uma palavra de lisonja, outros com um duro olhar brutal. O covarde assassina dando um beijo, o bravo, mata com um punhal.

quarta-feira, 19 de março de 2008

WALT WHITMAN

WALT WHITMAN

(Trad Geir. Campos)

A UM SER DESCONHECIDO

Desconhecido ser que vai passando,
não imagina com que ansiedade
ponho em você meus olhos:
bem pode ser você
aquele que eu andava procurando ou
aquela que eu andava procurando
(isso me ocorre como num sonho),
vai ver que com você eu já vivi
algures uma vida de alegrias,
e tudo vem à lembrança
quando passamos um pelo outro,
afeiçoados e fluidos, castos e amadurecidos,
junto comigo você cresceu
e foi menino ou menina junto comigo,
com você comi e dormi,
seu corpo não se fez seu exclusivo
nem meu corpo foi exclusivamente meu,
você me dá a alegria de seus olhos,
rosto, carne, ao cruzarmos,
e de mim leva em troca
a barba, o peito, as mãos,
eu não estou para lhe dizer coisas
mas para ficar pensando em você
quando sozinho me sento
ou quando acordo de noite sozinho,
sou de esperar e não duvido de que esteja
a ponto de encontrar você de novo,
e aqui estou para ver
que eu não perco você.




EU VI EM LUlSIANA UM CARVALHO

Eu vi em Luisiana um carvalho crescendo
e se alteando inteiramente só
e o musgo pendurando-se em seus galhos
e ele crescendo ali sem companheiro algum
e estendendo as suas alegres folhas
de um verde carregado
e o seu aspecto rude, inflexível, sadio,
me fez pensar em mim mesmo
- e me espantei de como ele podia
estender as suas alegres folhas
sozinho ali,
em pé e sem amigo perto,
pois eu bem sei que não poderia,
e arranquei dele um raminho
com certo número de folhas agarradas
e enrolei nele um punhado de musgo
e o trouxe e o coloquei bem à vista em meu quarto:
não preciso de nada que me lembre
nem de mim mesmo nem de meus caros amigos
(pois até creio que ultimamente
em pouco mais eu penso a não ser neles),
mas para mim ficou sendo um símbolo curioso
a me fazer pensar no amor dos homens;
por isso tudo, ainda que aquele carvalho
fulgures em Luisiana solitário
num lugar plano e amplo
a estendenter as suas alegres folhas
a vida inteira sem ter a seu lado
um amigo ou amante
sei muito bem que isso eu não poderia.

WITTGENSTEIN

TRACTATUS LOGICO-PHILOSOPHICUS DE WITTGENSTEIN (1918/1921)
Trad .José Arthur Gianotti
Sinopse feita por Rogel Samuel
O mundo
1 - O mundo é tudo o que ocorre. 1.1 - O mundo é o conjunto dos fatos, não das coisas. 1.11 - O mundo é determinado pelos fatos, estes fatos sendo a totalidade dos fatos. 1. 12 - Porque a totalidade dos fatos determina aquilo que ocorre e também aquilo que não corre. 1. 13 - Os fatos, no espaço lógico, constituem o mundo. 1. 2 - O mundo se decide em fatos. 1. 21 - Algo pode ocorrer,ou não ocorrer e todo o resto permanecer igual. 2 - O que ocorre, o fato, é a existência de estados de coisas. 2.01 - O estado de coisas é uma ligação de objetos (entidades, coisas). 2.011 - É essencial para a coisa poder ser parte integrante de um estado de coisas. 2.012 - Em lógica nada é acidental: se a coisa pode aparecer dentro de um estado de coisas é necessário que a possibilidade do estado de coisas esteja previamente inscrito na coisa.
Os objetos
2.02 - O objeto é simples. 2.0201 - Cada enunciado sobre complexos se sobre complexos pode decompor em um enunciado proposições que descrevem integralmente os complexos. suas partes constitutivas e naquelas 2.021 - Os objetos formam a substância do mundo. Eis porque não podem ser compostos. 2.0211 - Se o mundo não tivesse ponto de substância, o fato de saber se uma proposição tem sentido dependeria de saber se outra proposição é verdadeira. 2.0212 - Seria impossível de projetar uma imagem do mundo, verdadeira ou falsa. 2.022 - É evidente que tão diferente que pudesse ser do mundo real um mundo imaginário ele deve ainda assim ter alguma coisa de comum -- uma forma -- com o mundo real. 2.023 - Esta forma estável consiste em objetos. 2. 0231 - A substância do mundo só pode determinar uma forma, e não propriedades materiais já que estas propriedades materiais são representadas pelas proposições, formadas pela configuração dos objetos. 2.0232 - Seja dito de passagem: os objetos são incolores.
Os estados de coisas
2.03 - No estado de coisas os objetos se ligam uns aos outros como elos de uma cadeia. 2.031 - No estado de coisas os objetos se comportam uns em relação aos outros de uma maneira determinada. 2.032 - A maneira pela qual os objetos se ligam no estado de coisas constitui a estrutura do estado de coisas. 2.033 - A forma é a possibilidade da estrutura. 2.034 - A estrutura do fato consiste nas estruturas dos estados de coisas. 2.04 - A totalidade dos estados de coisas existentes é o mundo. 2.05 - A totalidade dos estados de coisas existentes determina igualmente que tipos de estados de coisas não existem. 2.06 - A existência e a inexistência de estados de coisas constituem a realidade. (A existência de estados de coisas nós a chamamos também de fato positivo, sua inexistência de fato negativo.) 2.061 - Os estados de coisas são independentes uns dos outros. 2.062 - Da existência ou não-existência de um estado de coisas não é possível concluir a existência ou não-existência de outro. 2.063 - A realidade total é o mundo.
A imagem
2.1 - Nós nos fazemos imagens dos fatos. 2.11 - A imagem representa o fato no espaço lógico, a existência e a não-existência dos estados de coisas. 2.12 - A imagem é uma transposição da realidade. 2.13 - Na imagem os elementos da imagem correspondem aos objetos. 2.14 - A imagem reside no fato de que seus elementos têm ligações determinadas uns com os outros. 2.141 - A imagem é um fato. 2.15 - O fato de que os elementos da imagem têm ligações determinadas uns com os outros se relaciona ao fato de que as coisas se comportam da mesma maneira umas com as outras. Esta conexão dos elementos da imagem nós a chamamos sua estrutura, e a possibilidade dela sua forma de representação. 2.151 - A forma da representação é a possibilidade de que as coisas se comportem umas com as outras como os elementos da imagem. 2.1511 - A imagem se enlaça com a realidade; ela a atinge. 2.1512 - É como um padrão de medida que se aplica à realidade. 2.15121 - Somente os pontos extremos dos traços que dividem a superfície estão em contato com o objeto a medir. 2.1513 - Segundo esta concepção, pertence igualmente à imagem a relação de representação que a torna uma imagem. 2.1514 - A relação de representação é constituída pelo modo por que os elementos da imagem se coordenam com as coisas. 2.1515 - Estas coordenações são espécies de antenas dos elementos da imagem, pelas quais as imagens entram em contato com a realidade. 2.16 - O fato de ser imagem implica que haja alguma coisa comum entre a imagem e aquilo que ela representa. 2.161 - É necessário que na imagem e naquilo que ela representa haja qualquer coisa de idêntico, para que uma possa:ser uma imagem do outro no sentido preciso do termo. 2.17 - Aquilo que a imagem deve ter de comum a fim de que a possa representar à sua maneira com é a forma da representação. 2.171 - A imagem pode representar cada realidade da qual ela tem a forma A imagem entendida no espaço pode representar tudo o que é espacial, a imagem colorida tudo o que é colorido etc. 2.172 - Entretanto a imagem não pode representar sua própria forma de representação: ela apenas a mostra. 2.173 - A imagem representa seu objeto de fora (seu ponto de vista constitui sua forma de representação); eis por que a imagem representa o objeto de modo justo ou falso. 2.174 - A imagem, porém, não poderia representar-se fora de sua forma de representação. 2.18 - Aquilo que cada imagem, de qualquer maneira que seja, deve ter em comum com a realidade, para absolutamente podê-la representar -justamente ou falsamente -- é a forma lógica, isto é, a forma da realidade. 2.181 - Se a forma da representação é a forma lógica, a imagem se chama imagem lógica. 2.182 - Toda imagem é também uma imagem lógica (entretanto, nem toda imagem é espacial). 2.19 - A imagem lógica pode representar o mundo. 2.2 - A imagem tem em comum com o objeto representado a forma lógica da representação. 2.201 - A imagem representa a realidade porque ela representa uma possibilidade de existência e de não-existência de estados de coisas. 2.202 - A imagem representa uma possibilidade de estado de coisas no espaço lógico. 2.203 - A imagem contém a possibilidade do estado de coisas que ela representa. 2.21 - A imagem concorda ou não com a realidade: ela é fiel ou infiel, verdadeira ou falsa. 2.22 - A imagem representa aquilo que ela representa independentemente de sua verdade ou de sua falsidade; por meio de sua forma de representação. 2.221 - Aquilo que a imagem representa constitui seu sentido. 2.222 - No acordo ou no desacordo do sentido da imagem consiste sua verdade ou sua falsidade.
O signo proposicional
3. A imagem lógica dos fatos constitui o pensamento. 3.001 - "Um estado de coisas é pensável" significa: nos podemos fazer-nos dele uma imagem. 3.01 - A totalidade dos pensamentos verdadeiros constitui uma imagem do mundo. pensamento. 3.02 - O pensamento contém a possibilidade do estado de coisas que ele pensa. O que é pensável é igualmente possível. 3.03 - Nos não poder1amos pensar nada ilógico porque dessa forma teriamos de pensar ilogicamente. 3.031 - Alguém disse que Deus poderia tudo criar menos aquilo que contrariasse as leis lógicas. Com efeito, nós não poderíamos dizer como seria um mundo "ilógico". 3.12 - Chamo signo proposicional ao signo pelo qual exprimimos o pensamento. 3.144 - É possível descrever situações, impossível entretanto nomeá-las. (Os nomes são como pontos; as proposições são como flechas, elas têm um sentido). 3.202 - Os signos simples empregados nas preposições são chamados nomes. 3.221 - Eu não posso nomear os objetos. Os signos os representam. Eu só posso falar dos objetos. Eu não saberia pronunciá-los. Uma proposição só pode dizer de uma coisa como ela é, não o que ela é. 4.001 - A totalidade das proposições é a linguagem. 4.023 - Por meio da proposição a realidade é fixada enquanto sim ou enquanto não. A realidade é completamente descrita por ela. Assim como a descrição de um objeto se dá segundo as suas propriedade externas, a proposição descreve a realidade segundo suas propriedades internas. A proposição constrói o mundo com a ajuda de andaimes lógicos. 4.116 - Em geral tudo o que pode ser pensado o pode ser claramente. Tudo o que se deixa exprimir, deixa-se claramente. 4.12 - A proposição pode representar a realidade inteira, mas não pode representar o que ela deve ter em comum com a realidade para poder representá-a -- a forma lógica. Para podermos representar a forma lógica seria preciso nos colocar, com a proposição, fora da lógica; a saber, fora do mundo. O que se exprime na linguagem não podemos expressar por meio dela. A proposição mostra a forma lógica da realidade. Ela a exibe. 4.1212 - O que pode ser mostrado não pode ser dito.

terça-feira, 18 de março de 2008

NOSSO NOVO SITE (AINDA EM FORMAÇÃO É

segunda-feira, 17 de março de 2008

NOSSO SITE ESTÁ FORA DO AR, POR TEMPO INDETERMINADO.

sábado, 15 de março de 2008

CARLOS CASTELLO BRANCO

O regime das duas lealdades
Brasília — O rico material colhido pelo Sr Luiz Viana Filho sobre o Governo Castello Branco vai-nos permitindo entender melhor os rumos profundos que assinalaram os episódios iniciais da Revolução, que lhe iriam delinear o roteiro e gerar as contradições de que ainda hoje se alimenta. Antes de uma apreciação geral do livro, gostaríamos de rever com o autor, seus personagens e seus leitores de hoje algumas etapas do drama que viveu o falecido Presidente, um ser moral de repente emaranhado na difícil teia da política e da História. Começaríamos por estabelecer, à luz do que se passaria em seguida, que a ascensão do Marechal Castello Branco ao Poder se deu num contexto equívoco, do qual não cabe a responsabilidade a ele nem a ninguém.Março de 1964 era uma intervenção militar episódica e passageira, como tantas outras, e elegeu-se um militar ilustre com o fim de completar o mandato do Presidente deposto, organizar a casa e passar adiante, provavelmente ao Sr Carlos Lacerda, a chefia do Poder.Ora, o movimento revelar-se-ia mais profundo do que pareceu à primeira vista tanto aos seus articuladores como àquele que lhe assumiu a responsabilidade do comando. Civis e militares não se conformavam com a simples interrupção do processo legal, ao qual se procurou voltar às pressas. Havia impugnações à candidatura Lacerda e havia anseio generalizado, entre militares, de aprofundar expurgos para além do que se consentiu após um primeiro momento. Já o expurgo inicial, ditado pelo comando da Revolução, uma entidade inesperada que se implantou por via de fato no Ministério da Guerra, seria um dado novo. O Congresso não quis cassar mandatos e dessa recusa resultou a decisão de editar um Ato Institucional, com base no Poder Constituinte das Revoluções, para realizar por tempo determinado a limpeza. O golpe transformava-se em Revolução e um grupo de generais impunha um poder lateral ao poder que se transferiria ao Presidente da República.Esse primeiro impulso iria prosperar. Castello foi empurrado para a prorrogação do seu mandato, que não queria, mas a que não se opôs com a decisão de que era normalmente capaz. Com isso, submeteu-se, sem o perceber, ao processo revolucionário recém-implantado e trocou de legitimidade quanto à natureza do seu mandato. Dessa prorrogação seria convocado à reeleição, a que se recusou, supondo que não dera ainda um passo para quebrar seu compromisso. A ordem revolucionária já ultrapassara, todavia, o seu legalismo. A eleição indireta para os Governadores seria, na oportunidade em que se lhe colocou a opção, a solução de acordo com a índole do novo regime. O Presidente marchava para ela, hesitando entre fórmulas, quando, subitamente desafiado pelo Governador Lacerda, de cuja candidatura deixara de ser o promotor para ser o seu coveiro, optou pela eleição direta, que iria enterrar definitivamente a já condenada realização de eleições populares para Presidente da República e agravar as angústias em que se debatiam seus contestadores, os Governadores da Guanabara e de Minas Gerais.Homem de Estado-Maior, cedera mais uma vez à emoção política e decidiu-se mal, embora de acordo com as aspirações nacionais. A eleição direta dos novos Governadores geraria o impasse previsto, com o agravamento das pressões revolucionárias, que seriam saciadas mediante a edição do Ato 2, isto é, de uma nova incursão na ilegalidade, embora aparentemente cedessem com a posse de dois Governadores, politicamente inócuos como focos de resistência à nova sistemática de poder implantada no país. O Sr Luiz Viana Filho descreve, em cores vivas as reações do Presidente Castello Branco em todos os episódios, ressaltando seus escrúpulos e seus momentos hamletianos. As frases ditas pelo Presidente em discursos, documentos, cartas e conversas, nesse período, dariam uma curiosa antologia da ambigüidade que passou a ser, daí por diante, o drama pessoal de cada Presidente da República do já longo período revolucionário. O Embaixador Gordon estava certo: com o Ato 2, ele dividiu o Poder com Costa e Silva e perdeu o controle da sua sucessão.Castello Branco, defensor do estado de direito, reconstitui-lo-ia mediante a Carta de 1967. Homem da sua classe, que punha acima de tudo o dever de preservar a unidade das Forças Armadas, iniciou o processo da dupla lealdade a que se vincularam daí por diante os Chefes de Governo. Lealdade ao compromisso democrático do Movimento de Março e lealdade ao processo revolucionário, que pressupõe e impõe a unidade militar. O General Médici foi o que menos sofreu; desde cedo decidiu governar como delegado do Alto Comando. O General Geisel, da equipe de Castello, revive neste momento o mesmo drama e possivelmente a mesma perplexidade do seu antecessor remoto. A perplexidade não exclui o exercício e a permanente afirmação da autoridade. A vontade é que fica afetada na sua raiz, no seu poder de discernir em cada momento entre os melhores caminhos, os da lei ou os da Revolução. Castello sempre pensou estar escolhendo os caminhos da lei, mesmo quando fazia Revolução. Para sairmos disso será necessário que o Presidente se decida a continuar a Revolução ou a fazer o estado de direito. Os dois processos são incompatíveis.
Carlos Castello Branco

Jornal do Brasil 02/06/1975

sexta-feira, 14 de março de 2008

EDUARDO RIBEIRO / RUI BARBOSA

LIBERDADE DE IMPRENSA
Um telegrama do Recife para O País de ontem dá-nos, por um consta, a notícia de que “o governadorvai nomear uma comissão, para regulamentar a lei da questura na parte relativa à imprensa”.Infelizmente essa notícia não nos pode merecer a qualificação de grata. Se os regulamentos são atosdo poder executivo destinados a dar execução às deliberações do legislativo, a providência do honradogovernador de Pernambuco, atestado aliás de suas boas intenções, outro resultado não nos pode trazer,curialmente, além do de robustecer, nas mãos da polícia pernambucana, a arma desastrosa, de que elase serviu, para suspender ali a Gazeta da Tarde. Um ilustre representante daquele Estado na Câmarados Senadores declarou, com efeito, que o questor procedera de conformidade com a lei estadual de 14de novembro de 1891. Legem habemus, disse o nosso senador: temos lei positiva. Mas, se existe essa autoridade, o mesmo vínculo jurídico, por que ela obriga a polícia, prende igualmente a administraçãodo Estado. O que a comissão nomeada, portanto, poderá fazer, é determinar, mais ou menos liberal,mais ou menos restritivamente, os casos confiados à discrição da questura no uso da faculdade, que olegislador provincial lhe outorgou, de amordaçar a imprensa. Essa faculdade subsistirá, pois, reduzida,ou ampliada, pelo regulamento; mas subsistirá. E na subsistência dela é que está o inconveniente, o errocriminoso dos poderes locais, a tirania intolerável.Não se procure exculpar, ou atenuar o atentado legislativo com o atraso da legislatura federal emorganizar o regímen da imprensa, resguardando-a por meio de medidas protetoras. A não ser quanto ànecessidade, que nos parece urgente, de estabelecer sanções penais eficazes contra o uso do anonimato,que avilta a publicidade entre nós, que a Constituição peremptoriamente aboliu, mas que os maushábitos do nosso jornalismo continuam a explorar, os direitos da palavra escrita, entre nós, encontramna lei fundamental e no código a mais completa defesa legal. Mas não há valos, constitucionais, oulegislativos, que o arbítrio não vingue de um salto, quando os governos são da natureza elástica eresvaladia desses, a que aludiu, com eloqüente indignação, o senador Drummond*: “governos semconsciência, cujos atos se revestem dos mais deploráveis excessos.”A assembléia pernambucana, que adotou a lei, já agora famosa, de 14 de novembro de 1891, nãopodia ignorar que a Constituição da República, entre os direitos por cuja inviolabilidade se compromete inclui, art. 72, § 12, a mais plena liberdade de imprensa, com esta declaração iniludível como a luz dosol:“Em qualquer assunto é livre a manifestação do pensamento, pela imprensa, ou pela tribuna, semdependência de censura, respondendo cada um pelos abusos que cometer, nos casos e pela forma quea lei determinar.”Mas, ainda quando as legislaturas provinciais não tivessem a obrigação, que nos parece indisputável,de trazer de cor e argumentado, como cartilha de primeiras letras, o pacto federal, lá estava a própriaconstituição de Pernambuco, promulgada em 17 de junho de 1891, a qual se dignou de consagrar ipsislitteris, no art. 129, §6º, a garantia constitucional, que o código político da União prescrevera nos maiscategóricos termos, como se uma cláusula da Constituição federal perdesse, ou ganhasse, alguma coisaem ser, ou não, reproduzida nas leis dos Estados.Os autores da medida legislativa, que, em Pernambuco, ferropeou a imprensa ao grilhão dasuperintendência policial, necessariamente conheciam como as palmas de suas mãos a Constituição daRepública e a Constituição dos Estados. Todavia, com o mais indesculpável desembaraço, decretarama censura, que uma e outra condenam, sob o pretexto velho, cediço e indecente entre homens livres, deimpedir que a publicidade “perturbe a ordem pública, ou excite ódios e paixões populares”. Com aaplicação desta fórmula, policialmente entendida, não há, no Rio de Janeiro, um só periódico, desde o Jornal do Brasil até o Jornal do Commercio, desde a Cidade do Rio até O País, desde a Gazeta deNotícias até o Álbum, desde a Revista Ilustrada até a própria Revista do Instituto dos Advogados, que escapasse à mão férrea da vigilância policial, às surpresas do seu zelo. Do círculo draconiano nãosabemos se o próprio Diário Oficial se livraria, certas manhãs, quando estampa certos atos, ou exibecertas apologias do poder executivo. Dêem-nos uma lei de censura, por moderada que seja, e nós nos comprometemos a fechar a porta a todos os jornais, ou fazer de todos eles meras serventias do Governo. A Constituição proibiu a censura irrestritamente, racialmente, inflexivelmente. Toda lei preventiva contra os excessos da imprensa, toda lei de tutela à publicidade, toda lei de inspeção policial sobre osjornais é, por conseqüência, usurpatória e tirânica. Se o jornalismo se apasquina, o Código Penal proporciona aos ofendidos, particulares, ou funcionários públicos, os meios de responsabilizar osverrineiros. Ainda quando os polemistas da oposição comparem os ministros ao cavalo de Tróia, os governadores ao animal truculento do Apocalipse, o presidente da República a Tamerlão, ou ao Anticristo,não se encontra, graças a Deus, na legislação deste país, desforço contra a gravidade dos foliculários, anão ser na interferência repressiva dos tribunais. Não se pode obstar ao uso do direito: pune-se a infração cometida.Se o espírito jurídico estivesse menos atrofiado no Brasil, entre os depositários da autoridade, o questor, em Pernambuco, ter-se-ia abstido cautamente do emprego de um recurso, cuja falsa legalidadenão o absolve; porque essa legalidade dilacera a lei das leis, a Constituição federal, a que administradores,magistrados e legisladores estão indistintamente subordinados. Se o governador se penetrar de uma solicitude refletida pelas instituições republicanas, em vez de instituir comissões, para envernizarem o abuso legislativo da fiscalização policial sobre a imprensa, chamará a questura ao regímen daConstituição, escoimará os seus atos de severidades inúteis, de responsabilidades odiosas, promovendo,pelos meios regulares, a revogação de uma lei, que desonra as instituições democráticas, e, se para alguma coisa se pudesse invocar, seria para documento da incompetência, com que as legislaturaslocais se excedem muitas vezes no exercício de suas prerrogativas.

São incríveis as anomalias, que, neste sentido, registra a história da federação entre nós. Alguns dos exemplos dessa epidemia de extravagâncias transpõem o domínio da anedota, e irrompem francamente pelo reino da galhofa. Não vimos porventura corpo legislativo e governador, de mãos dadas, num dos mais florescentes Estados do Norte, votarem, sancionarem, e publicarem uma lei, aprovando um tratado internacional celebrado pelo governo da União? Provavelmente duvidam. E com tanto mais razão, quanto, até hoje,não vimos divulgado o fato na imprensa fluminense. Mas eis aqui, no seu teor verbo ad verbum, omonumento, que possuímos em avulso, edição oficial, com as armas da República:

“Lei nº 11, de 30 de setembro de 1892. Aprova o Tratado de Navegação no Rio Javari de 10 de outubro de 1891. Eduardo Gonçalves Ribeiro, bacharel em matemática e ciências físicas, capitão do estado-maior de1ª classe e governador do Amazonas, etc.Faço saber a todos os seus habitantes que o congresso dos representantes do Estado do Amazonas decretou e eu sancionei a seguinte lei: Art. 1º — Fica aprovado o tratado internacional de comércio e navegação do rio Javari e seus afluentes, celebrado pelo governo federal, com a república do Peru, em 10 de outubro de 1891. Art. 2º — Revogam-se as disposições em contrário. Mando, portanto, a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da presente lei pertencer,que a cumpram e façam cumprir fielmente.O secretário do Estado a mande imprimir, publicar e correr.Palácio do Governo do Amazonas, 30 de setembro de 1892. — EDUARDO G. RIBEIRO, JOÃO DEALBUQUERQUE SEREJO.”

Aí têm. Se há noção, que um caloiro de direito não possa ignorar, sem atrair sobre sua cabeça todas as bombas da faculdade, é a de que os tratados são atos da soberania nacional, para com os quais os Estados, como os indivíduos, como os municípios, como tudo o que vive sob as leis do país, não têmoutra relação, a não ser a da obediência. Todas as constituições federais do mundo conferem esse poderexclusivamente às autoridades da União. A nossa fá-lo na linguagem mais terminante, art. 34, § 12, eart. 48, § 16. Nem neste ponto as constituições escritas outra coisa fazem que declarar um simples rudimento de senso comum. O Brasil, todavia, oferece-nos o fenômeno de um congresso provincialinteiro, mais um governador, titulado em ciências, oficial graduado no exército, que discutem, aprovame promulgam convenções estipuladas pelo governo federal com países estrangeiros. Pode imaginar-se prova mais humilhante de que, em matéria constitucional, somos ainda quaseanalfabetos? Aos Estados mais ilustres nas letras e no espírito político impõe-se o dever de assumirema vanguarda na reforma desses despropósitos, cujo valor formidável, como argumentos contra a federação,nas mãos de seus adversários, deve meter medo aos que a criaram, e desejam consolidá-la. As antigasprovíncias necessitam de justificar a transformação federativa, por que passaram no pressuposto da suaidoneidade para um sistema, cuja primeira condição é a cultura do sentimento constitucionalista emtodos os membros, em todos os órgãos, em todos os centros de ação desse composto de autonomiaslimitadas.Na discussão deste incidente o senador Catunda aventurou uma proposição terrível. “Os Estadosgravitam para a servidão”, disse ele, excetuando apenas o grande Estado mineiro. A exceção, injusta nasua unidade, aberta pelo honrado representante do Ceará, imprime cor ainda mais sombria ao seupessimismo. Divergimos um pouco de S. Ex.ª A servidão ainda não é o centro da gravitação universalno Brasil. Há Estados, grandes e pequenos, que tendem para a fruição real de seus direitos. O embaraço a que esse impulso regenerativo se desenvolva nessas zonas, e se amplie a outras, está na falta deentranhas das facções locais, na luta selvagem delas, em cada Estado, pela interferência do governofederal a benefício dos grupos que porfiam na briga pelo poder.Quando as divergências locais compreenderem o seu interesse comum em vedar à soberania federal,como território inviolável, a administração dos Estados, cessará esse parlamentarismo híbrido, peloqual o presidente da República domina o congresso, e, com ele, a alternativa das reações geográficas,em que cada parcialidade provincial recebe o preço, ou o castigo, do seu comportamento para com osumo eleitor dos governos estaduais.“Não correm longe os tempos”, disse o ilustre senador Drummond, “em que S. Ex.ª, à frente de umjornal de oposição, viu em perigo a própria vida, pelo fato de haver enfrentado com a junta governativade Pernambuco e profligado os abusos desse governo, altamente prejudicial aos interesses públicos. Asua tipografia foi cercada, inúmeras vezes, de capangas assalariados, foram vãs as suas reclamações, eapenas deve a conservação da vida à prudente altivez, com que recebeu as provocações freqüentes deexaltados partidários, alguns dos quais ligados pelo parentesco aos mesmos depositários do governo.”Demasias desta gravidade hão de provocar a reprovação geral, toda vez que se recordarem. Mas asvítimas dessas façanhas, por isso mesmo que lhes experimentaram a crueza, lhes sentiram o horror,lhes verberaram a indignidade, estão obrigadas a ser os mais ardentes promotores de costumesadministrativos, que contrastem com esses, e eduquem a política em sentimentos opostos. Os opressoresde ontem, oprimidos hoje, hão de aproveitar a primeira monção favorável, para tornar a oprimir. Edeste modo as parcialidades viverão perpetuamente fora da lei, esmagando, ou esmagadas.Sentimos não poder juntar os nossos encômios aos dos digno senador Pernambuco em relação àquestura do seu Estado. Se ele “tem sabido cumprir sempre o seu dever” desta vez, ao menos, não osoube. O questor satisfaria, sim, ao seu dever, deixando entregue ao sono dos arquivos esse instrumentoinconstitucional, cujo contacto polui as mãos que o menearem. O governador não ficou inscrito no roldos déspotas, simplesmente porque um antagonista lho chamasse. Mas merecerá esse epíteto, se usurparaos tribunais a função de reprimir os insultadores que o ultrajarem, seja qual for a lei, que, contra aConstituição, lhe der essa licença.A redação da folha violentada seguiu, em nosso fraco entender, o menos aconselhável dos rumos,na direção que deu à sua defesa. Apelar para a imprensa é acreditar ainda na acústica da publicidade,numa época em que quase todos os seus ecos expiraram. Provocar a tribuna do congresso é dedilhar oteclado de um órgão quase surdo. A eloqüência política perdeu as suas ilusões. É uma artista numcenário deserto. Será quando muito Demóstenes ensaiando a voz impotente, ao borborinho do mar,para futuros triunfos. Os patriotas mais eminentes puseram a surdina à sua palavra, por não turvar orepouso à magistratura suprema da república, doente que convém envolver em pasta de algodão, paranão se lhe partir com algum abalo mais vivo o fio da vida.E, na hipótese, que poderia fazer o congresso? Levantar um requerimento, e expedi-lo ao Governo.Mas qual foi o mal, que já se curou com esta panacéia?Redator da Gazeta da Tarde, nosso caminho seria outro. A polícia pernambucana violou um dosdireitos, que a Constituição federal afiança. Nós recorreríamos aos tribunais federais, pelas açõescompetentes: procuraríamos segurar-nos no gozo da nossa propriedade, abrigando-a sob a manutençãojudicial, e, consumada a violência, processaríamos criminalmente a polícia violenta.Tentemos sempre a justiça: apesar de tudo, é talvez, onde ainda se possa encontrar o começo doremédio.

Jornal do Brasil, 19 de junho de 1893

OS SERTÕES DE E. DA CUNHA (início)

O planalto central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; edesata-se em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras marítimas, distendidas do Rio Grande a Minas. Mas aoderivar para as terras setentrionais diminui gradualmente de altitude, ao mesmo tempo que descamba para a costa orientalem andares, ou repetidos socalcos, que o despem da primitiva grandeza afastando-o consideravelmente para o interior.De sorte que quem o contorna, seguindo para o norte, observa notáveis mudanças de relevos: a princípio o traçocontínuo e dominante das montanhas, precintando-o, com destaque saliente, sobre a linha projetante das praias, depois, nosegmento de orla marítima entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, um aparelho litoral revolto, feito da envergaduradesarticulada das serras, riçado de cumeadas e corroído de angras, e escancelando-se em baías, e repartindo-se em ilhas, edesagregando-se em recifes desnudos, à maneira de escombros do conflito secular que ali se trava entre os mares e a terra;em seguida, transposto o 15º paralelo, a atenuação de todos os acidentes — serranias que se arredondam e suavizam aslinhas dos taludes, fracionadas em morros de encostas indistintas no horizonte que se amplia; até que em plena faixa costeirada Bahia, o olhar, livre dos anteparos de serras que até lá o repulsam e abreviam, se dilata em cheio para o ocidente,mergulhando no âmago da terra amplíssima lentamente emergindo num ondear longínquo de chapadas...Este facies geográfico resume a morfogenia do grande maciço continental.Demonstra-o análise mais íntima feita por um corte meridiano qualquer, acompanhando a bacia do S. Francisco.Vê-se, de fato, que três formações geognósticas díspares, de idades mal determinadas, aí se substituem, ou se entrelaçam,em estratificações discordantes, formando o predomínio exclusivo de umas, ou a combinação de todas, os traços variáveisda fisionomia da terra. Surgem primeiro as possantes massas gnaissegraníticas, que a partir do extremo sul se encurvam emdesmedido anfiteatro, alteando as paisagens admiráveis que tanto encantam e iludem as vistas inexpertas dos forasteiros. Aprincípio abeiradas do mar progridem em sucessivas cadeias, sem rebentos laterais, até às raias do litoral paulista, feitodilatado muro de arrimo sustentando as formações sedimentares do interior. A terra sobranceia o oceano, dominante, dofastígio das escarpas; e quem a alcança, como quem vinga a rampa de um majestoso palco, justifica os exageros descritivos— do gongorismo de Rocha Pita às extravagâncias geniais de Buckle — que fazem deste país região privilegiada, onde anatureza armou a sua mais portentosa oficina.
Novo encontro de Brizola e Jango

CARLOS CASTELLO BRANCO

Jornal do Brasil 19/01/1964


O Sr. Leonel Brizola, conduzido pelo General Assis Brasil, voltou à presença do Sr. João. Goulart, na madrugada de sexta para sábado, em Petrópolis. A conversa não alterou a posição da Frente de Mobilização Popular em face do Govêrno, por entenderem os dirigentes esquerdistas que o Presidente da República continua a não inspirar confiança. O Sr. João Goulart parece hoje aos esquerdistas um caso irremediável de duplicidade e indecisão, a tal ponto que só se animariam a colaborar com seu Govêrno na medida em que o Presidente transferisse para mãos esquerdistas o contrôle dos principais postos de comando da vida econômico-financeira.Na reunião de ontem à tarde, no apartamento do Sr. Brizola, no Leblon, a Frente de Mobilização Popular não examinou, em conseqüência, a hipótese de integrar um govêrno de frente única nos moldes preconizados pelo Professor San Tiago Dantas, cujo esquema constatou-se não ser um esquema autorizado ou da preferência do Chefe do Govêrno. Não podendo, contudo, negar apoio a teses e pontos fixados no programa mínimo, a frente brizolista amarrou sua posição a exigências que o Sr. San Tiago não está em condições de cobrir, a primeira das quais é a denúncia dos entendimentos relativos as concessionárias .O Sr. Leonel Brizola, por seu lado, manifestou sua descrença - a qual, de resto, comunicou ao próprio Sr. João Goulart no resultado dos entendimentos financeiros do Govêrno brasileiro com os Estados Unidos e outros países ocidentais. Para o Sr. Brizola, qualquer concessão, nesse terreno, não representará senão migalhas que serão ràpidamente deglutidas, sem o menor reflexo no processo inflacionário. A inflação só se combateria com êxito através de medidas que reduzissem a "espoliação" seja diretamente seja através de empréstimos compensatórios, de Estado a Estado, a juros baixos e prazos longos. E isso os Estados Unidos não estariam em condições de fazer, pela natureza dos seus compromissos internacionais e pelas pressões internas.Considerando, portanto, que o Sr. João Goulart continua incidindo em erros, manobrado por suas contradições íntimas, a Frente brizolista prosseguirá no esfôrço de estimular o que chama o lado bom do Presidente e preparada para opor-se às manifestações do lado mau.A Frente ainda não examinou o decreto de regulamentação da Remessa de Lucros e mantém-se em expectativa cética quanto ao decreto de desapropriações, em tôrno do qual o Sr. Goulart teria dado tantas voltas sem se deter num ponto.Do ponto-de-vista das intenções políticas do Presidente da República, a esquerda considera que o feto golpista, se não foi expelido, estará morto, por inviável. Admitindo que o Presidente teve efetivamente propósitos golpistas para um período já expirante, a esquerda brizolista conclui agora que o Sr. João Goulart "está perdido nos cadernos, sem planos sequer para duas semanas".Quanto ao setor militar esquerdista, começaria a dar sinais de inquietação, por não ver cobertas a contento as etapas programadas da colaboração com o Presidente da República. Um dirigente esquerdista dizia-nos, ontem, a respeito: "O Jango está em casa com uma onça pequena. E ela está crescendo."Do ponto-de-vista do processo eleitoral, a esquerda. coincide com o Sr. João Goulart em manifestar desinterêsse pelo assunto. Não vê o Sr. Brizola, por exemplo, como o regime chegará a 65, com o impacto inflacionário em expansão e o imobilismo e incompetência de um Govêrno que, em dois anos, emitiu seiscentos bilhões de cruzeiros. Como o Sr. Goulart, o Sr. Brizola diz-se impressionado com o "brutal esvaziamento do Sr. Juscelino Kubitschek".

quinta-feira, 13 de março de 2008

NA MORTE DOS RIOS


"Desde que no Alto Sertão um rio seca, / a vegetação em volta, embora de unhas, / embora sabres, intratável e agressiva / faz alto à beira daquele leito tumba. / Faz alto à agressão nata: jamais ocupa / o rio de ossos areia, de areia múmia." - escreveu João Cabral de Melo Neto. É verdade que ele nunca acusou recebimento de um livro que lhe mandei pelo correio. Talvez não tenha gostado, nem tenha lido. Era minha dissertação de mestrado, versava sobre as águas. Na sua obra. Cabral para mim é sempre uma fixação. Eu não me canso de lê-lo. Nunca o vi, pessoalmente. Assisti à uma entrevista na televisão. Mas como os maiores poetas têm dificuldade de falar! Cabral era claudicante. Cheio de "não é verdade?". Lembro-me de Drummond. Um dia, quando éramos aluno da FNFi, e como estudássemos sua obra, conseguimos que Drummond aceitasse a vir, na nossa sala, para conversar. Ele exigiu que ninguém soubesse, e que pudesse entrar pela porta dos fundos! Incrível: um dos maiores poetas entrou pela porta dos fundos da nossa faculdade de letras. Mas Drummond parecia um funcionário público (que era), conversando. Trazia um guarda-chuva preto e vestia um terno cinzento. Sério, magro, seco, quase mal humorado. Disse, por exemplo, que perdia belas imagens e versos que lhe ocorriam no caminho de casa para o trabalho. Parece que ele andava de ônibus, de Copacabana para o Centro, no Rio. Quando eu lhe perguntei por que ele não tinha consigo um caderninho de notas, ele respondeu que "não ficava bem alguém ficar escrevendo". Lembro-me de que nossa professora, D. Cleonice Berardinelli, que ia passando no corredor, o viu e, espantada, logo entrou na sala. Drummond, o gênio da nossa poesia, discorria singelamente, prosaicamente sobre sua obra. Nenhum brilho, nada de demonstrações de grandeza. Disse: "não sei por que fazem tanto barulho pela minha poesia, eu não vejo nada de especial nela" (as palavras eram mais ou menos assim). Disse horrores sobre o verso "no meio do caminho tinha uma pedra". E no fim, quando se despediu, eu lhe pedi um autógrafo. Ele logo se irritou comigo ao ver, na folha de rosto do seu livro, após o seu nome, que eu tinha escrito, a mão: (1920 - ..... ). "Esse aqui já está esperando a minha morte!", disse. A última vez que o vi, foi em Copacabana. Eu bebia um cafezinho num botequim do Posto Seis que existe até hoje, quando ele passou. A cabeça pensativa, meio cabisbaixo. Eu fiquei extático, boquiaberto, imóvel, reverente, e mentalmente me curvava à Grande Poesia que passava.
João Cabral nunca o vi. Tenho lido sua obra, nesses áridos dias. Empaquei na "Conversa em Londres, 1952", da qual transcrevo alguns dos versos:
Durante que vivia em Londres, amigo inglês me perguntou: concretamente o que é o Brasil que até se deu um Imperador?
Disse-lhe que há uma Amazônia e outra sobrando no planalto; ............................................... Porém como a nenhum britânico convence conversa impressionista [ele disse]... "Posso dizer minha opinião? O Brasil é o Império britânico de si mesmo, ... é fácil ler nesse mapa, Colônias... e a Londres, certo mais monstruosa, que no Brasil não é cidade, é região, é esponja... a de Minas, Rio, São Paulo que vos arrebata até a chuva."
Talvez ele não tenha gostado das minha leitura da sua obra, que não é lá grande coisa. Talvez nem a tenha lido. Mas nenhum amazonense, lá onde há água tanta, soube dizer das águas quanto o árido João Cabral nordestino. Nordeste da seca, Nordeste dos "territórios mais mendigos". A Amazônia é (pasme) nordestina. A família da minha mãe, por exemplo, é nordestina. Até 1919, no Amazonas, 150 mil emigrantes nordestinos já tinham chegado, fugidos da seca. A Amazônia do Planalto, não. É paulista, mineira, carioca. "Você não se separa do que é Nordeste", diz o poema. Toda favela, toda periferia urbana é Nordeste. "Desde que no Alto Sertão um rio seca, o homem ocupa logo..." Não. Nunca. Cabral nunca agradeceria um elogio. "Porque o sertanejo fala pouco: as palavras de pedra ulceram a boca".
Coluna do Castello



Goulart mobiliza Brasília para luta
Brasília - O Sr. João Goulart não renunciou à Presidência da República, não se considera ainda vencido pela rebelião dos comandos militares e continua a manter a mobilização moral e material de Brasília, através de uma cadeia de rádios locais, para a resistência e a luta.O Congresso Nacional, por sua vez, não se julgou em condições de adotar uma' decisão política, não deliberou e nem sequer se reuniu ontem à noite, preferindo que o desenrolar dos acontecimentos facilite eventualmente uma solução.A Capital da República vive horas de intensa apreensão, com o recrutamento de voluntários que se exercitam desde o começo da tarde em algumas ruas da Cidade e as reiteradas declarações do Comandante Militar, General Fico, de que a guarnição federal permanece fiel ao Sr. João Goulart.Na cadeia de rádios controlada pelo Governo Federal, as principais autoridades continuam a fazer exortações ao povo. Entre essas autoridades que se dirigiram à população figurou o Arcebispo de Brasília, Dom José Newton, o qual, sem se afirmar solidário politicamente com o Chefe do Govêrno, enumerou dados reveladores da miséria do povo e indicativos da necessidade de profundas reformas.Os Deputados e Senadores, que conversaram com o Presidente da República, na Granja do Torto, onde se recolheu desde que, depois de uma rápida visita ao Palácio do Planalto, chegou a Brasília, estão extremamente discretos com relação ao comportamento do Govêrno, mas todos traduzem a disposição geral de resistência.O fato de ter o Sr. Leonel Brizola conseguido dominar a Capital do Rio Grande do Sul e de estar mobilizando militarmente, deu alma nova aos partidários do Sr. João Goulart, que durante certo momento, na tarde de ontem, tiveram a sensação de um colapso geral do sistema de segurança do Governo.O Sr. João Goulart, segundo versões, aguarda a reunião na Capital dos seus Ministros para se deslocar até Porto Alegre, pois um poderoso Coroando da Varig o aguarda no aeroporto desde as 15 horas. Essa aeronave, que veio de Cumbica, ao que se presumia inicialmente para levar o Presidente e sua família para o exterior, continua estacionada no aeroporto de Brasília.Há indícios de que o Chefe do Govêrno confia ainda em que uma forte resistência surgirá não só a partir do Rio Grande como nas próprias cidades conquistadas pela rebelião militar. Essa resistência teria por base seja a arregimentação de trabalhadores para a greve geral e a sabotagem, seja a articulação de graduados das Forças Armadas contra os comandos triunfantes.Alude-se igualmente nas esferas oficiais ao fato de que a Força Aérea Brasileira, com seu poderio intato, estaria ao lado do Presidente da República e apta a entrar em ação, se for convocada.Entre os dirigentes oposicionistas, declarava-se ser esperada a resistência de dois regimentos da Capital gaúcha, um deles motomecanizado. A vitória do Sr. Brizola estaria, portanto, dentro das previsões e poderia retardar o desfecho por alguns dias.Na alta direção udenista não se fazia segredo de que o plano conspiratório, desencadeado na segunda-feira, foi longamente preparado, inicialmente numa faixa defensiva e, a partir do comício do dia 13, na Central do Brasil, em caráter agressivo. Houve consulta e infiltração em todo o dispositivo militar e o piano foi cuidadosamente elaborado para uma rebelião progressiva e avassaladora. No esquema figurava o propósito de permitir ao Sr. João Goulart tomar sua decisão final por conta própria. Não parecia estar nos planos, porém, o deslocamento do Presidente para Brasília e sua disposição de resistir, que é a situação que se configura neste momento.O Congresso vem oscilando, desde que cessaram as comunicações com o Rio de Janeiro, às 20 horas de terça feira, entre a confiança, o susto, a euforia e o pânico. Nas últimas horas de ontem a expectativa de que os Deputados e Senadores pudessem se encontrar face a problemas de segurança, como a deflagração de manifestações populares armadas, voltava a se impor ante a rápida contaminação da mobilização governamental comandada pelo Sr. Darci Ribeiro.Não se acredita que a posição militar de Brasília ofereça condições para uma resistência longa, mas poderia ser um cenário dramático para a sustentação dos acontecimentos que se desenrolariam no sul e poderiam atingir outras áreas.
Carlos Castello Branco

Jornal do Brasil 02/04/1964

COLUNA DO CASTELLO

Regime ainda não funciona

Carlos Castello Branco

Brasília — A influência do Poder Executivo nos parlamentos, seja nas decisões políticas, seja nas decisões legislativas, é um fato normal nas democracias representativas. Se o regime é parlamentarista, o Executivo nasce do Parlamento e interpreta a sua maioria, que ou o apóia ou o destitui, correndo os riscos de uma nova consulta às urnas. Se o regime é presidencialista, ainda que o Presidente não disponha de maioria no Congresso, o que é raro, é-lhe de modo geral reconhecida a competência para formular seus projetos governamentais e solicitar do Congresso as medidas legislativas adequadas à sua execução. Conflitos podem surgir, mas a autoridade do Presidente não é afetada pelos votos contrários dos congressistas, cujo poder se limita em votar ou não votar os projetos do Executivo e aceitar ou rejeitar seus vetos.Dispondo de maioria, que é a regra, o Presidente da Republica, oriundo normalmente de um Partido político, discute com seus correligionários o [...] 01/08/1980
LEIA AQUI O ROMANCE INÉDITO DE ROGEL SAMUEL "TEATRO AMAZONAS".

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quarta-feira, 12 de março de 2008

CAPÍTULO SÉTIMO

O PÁSSARO VOA PARA A SERPENTE


A galope, Eduardo Ribeiro e Fileto Pires. Em direção ao Trapiche Teixeira.
- Por quê? – pergunta Fileto.
- Porque não deixaram. Os proprietários dessas casas não quiseram sair.
- E agora? – quis saber Fileto.
O Governador do Amazonas Eduardo Ribeiro e o futuro Governador, Secretário de Estado Fileto Pires Ferreira, pararam para deixar passar um grupo de homens que puxavam carroças cheias de peixes e de moscas.
- Agora, respondeu o Governador, agora a Avenida, que levará o meu nome, vai ter de fazer uma curva, um cotovelo, antes de chegar ao rio. Horrível. Perdeu toda a imponência, diminuiu de tamanho. Seria uma reta imensa. Um bulevar.
- Sim, concordou Fileto. Se pudesse seguir em linha reta seria uma extraordinária avenida, imponente e aberta, como está no traçado original de Thamaturgo de Azevedo.
- Não me fale deste crápula! - gritou, irado, Eduardo Ribeiro. Anda dizendo horrores a meu respeito no Senado.
- De que se trata.
- Diz que sou um ladrão, um nababo, milionário, que tenho inúmeras casas e terrenos, que usurpei o poder...
- Mas...
- Todas as casas e terrenos que tenho comprei com o meu suor. Mesmo a casa de minha mãe, no Maranhão. A casa de minha irmã foi dada por correligionários que não quiseram dizer o nome. Eu nem sei quem pagou.
Eduardo falava gritando, a irada voz de barítono.
- Estou publicando um livro no Rio de Janeiro pela tipografia do “Jornal do Comércio”.
E voltando-se para Fileto, gritou:
- Vai-se chamar: “Contra a calúnia”!
Fileto manteve-se calado.
- Ele tem o apoio de vários senadores, inclusive de Rui Barbora. Os insultos caluniosos estão na Ata da Sessão do 23 de julho de 1896, publicados nos Anais do Senado pelo senador Ladário. Deve ter por trás o Gregório [Thaumaturgo de Azevedo]. Thamaturgo tem escrito quase diariamente contra mim. Tem dito horrores, tem dito que estou milionário.
- Quem é Ladário?
- Ladário é o Barão do Ladário, o Costa Azevedo. Um monarquista, entendeu? Um monarquista! Meu livro vai explicar tudo, vai explicar tudo, vai denunciar essa gente!

Eduardo, como sempre, estava fardado. Fileto não. Fileto vestia elegante terno de linho branco, gravata borboleta de seda vermelha. Eduardo era corpulento, enfezado, decidido, casmurro. Mulato. A voz de barítono soava forte, acostumado ao mando. Não falava: gritava ordens. Fileto era magro, ágil, elétrico, homem de fino trato, olhar inteligente, meio romântico, ousado, impetuoso, um tanto ingênuo, elegante de espírito. Era bem nascido, família abastada, dona do Norte do Piauí, a terra do gado, grandes fazendas. Eduardo vinha de baixo, nasceu muito pobre, filho de mulatos, o pai morreu louco, grande dificuldade para estudar, para sobreviver, para vencer, lutava contra o preconceito de cor, e graças à sua inteligência e genialidade tinha chegado onde estava, ao posto de Capitão do Exército, professor da escola do Estado Maior do Exército, era engenheiro, e contra tudo e contra todos galgara posição invejável. Odiado pelas elites. Amado pelo povo. Fileto era jovem e bem casado. Eduardo, embora jovem não parecia, era um solitário, solteiro, reservado. Ninguém penetrava na sua vida pessoal. Diziam que tinha mulher e filho, mas nunca ficou provado, nunca apareceram os dois, nunca se soube desta mulher e muito menos deste seu filho.

Fileto em silêncio pensava: “Mas ele está mesmo rico...”
- Fileto, disse Eduardo Ribeiro. Todos nós seremos traídos! Todos seremos acusados de corrupção, e por nossos mais próximos amigos! Espere para ver...
- Como assim? – perguntou Fileto.
- Prepare-se. Os nossos adversários vão jogar pesado. Os amigos vão trair. Na política é assim.
- Não sou político. Sou militar.
- Engana-se! Posso pedir-lhe um favor?
- O quê?
- Vou indicar você para ser o meu sucessor. Vou indicar ao Partido.
- Não faça isso! Por favor não faça! – disse Fileto, prevendo aborrecimentos.
- Eu só tenho a você. Só confio em você, disse Eduardo.

Fileto ficou sério. Continuaram em silêncio. Fileto sabia o que o outro queria. Sabia que Eduardo ia querer controlá-lo, manipulá-lo se fosse eleito. Mas resolveu esquecer. Sabia que o Partido não o apoiava.

* * *
Lima Silva, Alarico José Furtado, Emílio Moreira, Joaquim Sarmento e João Coelho antes do jantar no restaurante do Hotel Cassina. Era uma noite fresca. Bebiam um pouco de champanhe antes do peixe. Não tinham pressa.
Furtado disse:
- Estive ontem a bordo do “Maranhense”. Tenho notícias, disse.
O “Maranhense”, apesar do nome, era um vapor inglês.
- Eu soube – disse o ex-governador Furtado, com a taça na mão. Parece que já está encomendado todo o ferro necessário para a construção do teatro.
- Deve chegar em setembro, acrescentou Furtado, envolto numa baforada de charuto. O Carlos Rossi, chefe a forma Rossi & Irmãos, está viajando com o pessoal dele em Glasgow, contratando.
- Devem chegar operários especializados, disse Emílio Moreira.
Emílio Moreira era baiano, irmão do Barão do Juruá e de Guilherme Moreira. Os irmãos Emílio e Guilherme Moreira fundaram em Manaus a firma Moreira & Irmão. Eram dois irmãos muito unidos e muito ricos. Enquanto um viajava pelo interior, principalmente pelo Juruá, o outro ficava na capital. Negociavam borracha, castanha, pirarucu seco e outros produtos, que exportavam. Fizeram fortuna. Entraram na política.
Emílio Moreira casou-se com a irmã de Joaquim Sarmento, futuro senador, de uma família importante, o que aumentou o prestígio dos dois. Emílio Moreira foi decisivo na eleição de Eduardo Ribeiro ao Governo. Mas as obras da construção do Teatro estavam paradas. A Assembléia Legislativa autorizou a modificação do contrato, depois de duro embate político com o Presidente da Província. O contrato foi rescindido, o material da construção do teatro ficou sob a guarda da Secretaria de Obras Públicas. Os contratantes foram indenizados. Tudo parou.
- Parece que o teatro nasceu sob um signo funesto, disse Lima Silva.
- Desde o início da sua existência, quer como simples idéia, quer como realidade, fatores opostos dificultaram-lhe o andamento ou interferiram depois na sua planta, acrescentou. Quando não eram os políticos da eterna oposição, eram os contratantes, forçando o tesouro público a despesas desnecessárias, - concluiu.

* * *

Em 24 de fevereiro de 1887, passando Emilio Moreira pela Praça São Sebastião vê que se está construindo um barracão de madeira para ali serem guardados os materiais da construção do teatro.
Eram ordens do governo imperial.
A praça São Sebastião tinha estado em obras. Caríssimas. Tentaram aterravam o Igarapé do Espírito Santo, que passava onde hoje é a rua 24 de maio. O terrenos ao redor do teatro tinham de ser nivelados. A terraplanagem da área tinha custado uma fortuna, quase 7 contos. Foram usados carros de condução e carroças de água. Essas obras se arrastaram no período de 1886 a 1892. Depois pararam. As obras da construção do teatro pararam completamente.

E o magnífico Teatro Amazonas se transformou num esqueleto cheio de mato, abandonado. As paredes já construídas estavam cobertas de limo. O lugar se transformou num lugar perigoso, escuro, cheio de lixo, fedia a urina e a fezes humanas.