sábado, 30 de junho de 2012

Conheces a região do laranjal florido?





Conheces a região do laranjal florido?

ROGEL SAMUEL


No início da "Canção de Mignon" de GOETHE misterioso verso: "Conheces a região do laranjal florido?" No original há um "lá", que se repete (Dahin, dahin), objetivando transcendência que a tradução excelente de João Ribeiro manteve. Um lá (Mignon) que talvez se refere a certo lugar na Itália, diz Eça de Queiroz, n'O mandarim. Um lieder de Schubert, de 1816. A terra privilegiada onde o laranjal floresce ouro (Citronen blühen). Um "lá... bem longe, além", que aponta para lugar, a princípio paradisíaco, onde o sujeito do poema nos convida a ir, com ele, onde dourados pomos brilham na escuridão (Gold-Orangen glühen), e no céu azul a brisa, tudo em paz, nada move, nada passa, nem a vida, nem a glória (nem o louro)... Não a conheces tu? Quisera ir-me contigo...

Conheces a região do laranjal florido?
Ardem, na escura fronde, em brasa os pomos de ouro;
No céu azul perpassa a brisa num gemido...
A murta nem se move e nem palpita o louro...
Não a conheces tu?
Pois lá... bem longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu querido bem!

[Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühen?
Kennst du es wohl? - Dahin, dahin!
Möchtl ich... ziehn.]
 
A estrofe epígrafe de "A canção do exílio", de Gonçalves Dias, por isso a transcrevo. Não sei alemão. João Ribeiro, sábio e erudito filólogo carioca (1860-1934), também poeta. Hoje esquecido. Não mais editado. Em 1932 escreveu um ensaio sobre Goethe. Foi jornalista, catedrático do Pedro II. Soube dar e transpor o clima da "A canção de mignon".

A casa, sabes tu? em luzes brilha toda,
E a sala e o quarto. O teto em colunas descansa.
Olham, como a dizer-me, as estátuas em roda:
- Que fizeram de ti, ó mísera criança!
Não a conheces tu?
Pois lá... bem longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu senhor, meu bem!
 
Súbito, Goethe introduz, nessa região maravilhosa, fantástica, irreal - uma casa! Sólida casa, como deve ser a tradição familiar: "O teto em colunas descansa". Casa paterna, a sala e o quarto, o mais íntimo das forças arquitetônicas do espírito ("sabes tu?), que olham, falam, vêem a desgraça a que fomos reduzidos ("que fizeram de ti, ó mísera criança?") - não, não a conheço, não a reconheço, a casa de meus pais, no além, no
bem longe, aonde o poeta me levou. Meus familiares estátuas tumulares...

Conheces a montanha ao longe enevoada?
A alimária procura entre névoas a estrada...
Lá, a caverna escura onde o dragão habita,
E a rocha donde a prumo a água se precipita...
Não a conheces tu?
Pois lá... bem longe, além,
Vamos, ó tu, meu pai e meu senhor, meu bem!
 
Goethe introduz palavra-chave, palavra grave, palavra-montanha, ponto de fuga, de onde a dor se despedaça: meu "pai". Não só pai, mas pai e "senhor", com os semas que a idéia de senhor nos traz, nos põe, dispõe, na mesa da leitura, do poder, da Lei. Do nome, do não. Goethe e João Ribeiro têm algo em comum além das "afinidades eletivas": a idéia, a ideologia do pai. João Ribeiro não teve pai (faleceu cedo), foi criado
pelo avô, "culto e liberal" (diz Afrânio Coutinho). Goethe cultuou o pai, herói. Entre eles se estabelece laço cúmplice da volta ao Pai. Meu pai, cuja língua materna era o alemão, recitava Goethe de memória. Mas a montanha está enevoada, envolvem-se os mistérios de grandeza... os animais procuram estrada... lá reside o perigo - o dragão! - na Caverna escura, indevassável, uterina, se verte a água, da vida, que a prumo se precipita, nas veias do destino... Não a conheces tu? É lá, lá...
 Rogel Samuel


A HIPÓTESE COMUNISTA


A hipótese comunista

por Slavoj Zizek

Em um magnífico texto curto, "Notas de um Publicista" - escrito em fevereiro de 1922, quando os bolcheviques, depois de, contra todas as expectativas, vencerem a guerra civil, precisaram recuar, adotaram a Nova Política Econômica e admitiram uma liberdade de ação muito mais ampla para a economia de mercado e a propriedade privada -, Lênin usa a analogia de um alpinista obrigado a retroceder em sua primeira tentativa de chegar a um novo pico para descrever o que significa o recuo num processo revolucionário, e como pode ser levado a cabo sem, oportunisticamente, trair a causa:

Imaginemos um homem que escala uma montanha muito alta, íngreme e até então inexplorada. Vamos supor que ultrapassou dificuldades e perigos inéditos, conseguindo atingir
um ponto muito mais alto que qualquer um dos seus antecessores, mas que ainda não chegou ao cume. Ele se vê numa posição em que não é só difícil e perigoso prosseguir, na direção e pelo trajeto que escolheu, mas positivamente impossível.

Seria mais que natural, para um alpinista nessa posição, escreve Lênin, passar por "momentos de desânimo". E o mais provável é que esses momentos se tornassem mais frequentes e difíceis caso ele pudesse escutar as vozes dos que se encontram ao pé da montanha, e "por um telescópio, a uma distância segura, acompanham sua perigosa descida":


As vozes que vêm de baixo ressoam com alegria maldosa. Nem se preocupam em ocultá-la, riem com gosto e exclamam: "Ele vai cair de uma hora para outra! E é bem-feito para esse lunático!"


Felizmente, prossegue Lênin, nosso excursionista imaginário não tem como escutar as vozes dessas pessoas. Se ouvisse, "é provável que o deixassem nauseado, e a náusea, dizem, não ajuda ninguém a manter a lucidez mental e os pés firmes, especialmente em altitudes elevadas".


Mais adiante, Lênin aborda a situação que a recém-nascida República soviética enfrentava naquele momento:


O proletariado da Rússia atingiu uma altitude gigantesca em sua revolução, não só em comparação com 1789
[tomada da Bastilha] e 1793 [execução de Luis xvi, proclamação da República e Terror], mas também com 1871 [Comuna de Paris]. Precisamos avaliar o que fizemos e deixamos de fazer, da maneira mais desapaixonada, clara e concreta possível. Se o fizermos, conseguiremos conservar a lucidez. Não sofreremos de náusea, ilusões ou desânimo.

E conclui:


Estão perdidos os comunistas que imaginam ser possível levar a cabo uma tarefa tão memorável quanto a construção das fundações da economia socialista (especialmente num país de pequenos camponeses) sem cometer erros, sem recuos, sem numerosas alterações do que ficou incompleto ou foi feito da maneira errada. Os comunistas que não têm ilusões, que não se entregam ao desânimo e preservam sua força e flexibilidade para "começar do começo" repetidas vezes, para dar conta de uma tarefa extremamente difícil, não estão perdidos (e muito provavelmente não haverão de perecer).


Eis Lênin no que melhor tem de beckettiano, prefigurando a frase de
Worstward Ho [Rumo ao Pior]: "Tente de novo. Fracasse de novo. Fracasse melhor." Sua conclusão - começar do começo - deixa claro que não está falando de simplesmente reduzir a velocidade e consolidar o que foi realizado, mas de descer todo o caminho de volta até o ponto de partida: deve-se começar do começo, não do ponto alcançado na tentativa anterior. Nas palavras de Kierkegaard, um processo revolucionário não é um progresso gradual, mas um movimento repetitivo, um movimento de repetir o começo e voltar a repeti-lo muitas vezes.

Onde nos encontramos hoje, depois do
désastre obscur de 1989? Como em 1922, as vozes que vêm de baixo ressoam à nossa volta com alegria maldosa: "Bem-feito para esses lunáticos que tentaram impor sua visão totalitária à sociedade!" Outros tentam ocultar seu regozijo maldoso, gemem e erguem para o céu os olhos cheios de dor, como se dissessem: "Como nos faz sofrer ver nossos medos justificados! Como era nobre sua visão de criar uma sociedade justa! Nosso coração batia em uníssono com o seu, mas a razão insistia em nos dizer que seus planos só podiam acabar em miséria e em novas restrições à liberdade!" Ao mesmo tempo em que recusamos qualquer acordo com essas vozes sedutoras, precisamos definitivamente começar do começo - não para continuar a construir com base nas fundações da era revolucionária do século xx, que durou de 1917 a 1989, ou, mais precisamente, 1968 - mas descer de volta até o ponto de partida e escolher outro caminho.

Mas como? O problema definidor do marxismo ocidental tem sido a ausência de um sujeito revolucionário: como é que a classe trabalhadora não completa a sua passagem de classe em si a classe para si e não se constitui como agente revolucionário? Foi essa pergunta que forneceu a principal
raison d'être para que o marxismo ocidental recorresse à psicanálise - evocada para explicar os mecanismos libidinais inconscientes que impedem o surgimento de uma consciência de classe, e que estão inscritos no próprio ser, ou na situação social, da classe trabalhadora.

Dessa maneira, a verdade da análise socioeconômica do marxismo foi posta a salvo: não havia razão para ceder terreno a teorias revisionistas envolvendo a ascensão das classes médias. Por esse mesmo motivo, o marxismo ocidental envolveu-se também na procura constante de outros, que pudessem desempenhar o papel de agente revolucionário, como um ator substituto que está a postos para ocupar o lugar da classe trabalhadora indisposta: os camponeses do Terceiro Mundo, os estudantes e intelectuais, os excluídos.


É possível, também, que essa busca desesperada pelo agente revolucionário seja a forma assumida pelo seu oposto exato: o
medo de encontrá-lo, de reconhecê-lo onde ele já se agita. Esperar que outro trabalhe no nosso lugar é uma forma de racionalizar a nossa inatividade.

É contra esse pano de fundo que Alain Badiou sugeriu a reafirmação da hipótese comunista [
leia na piauí-_23]. Ele escreve:

Se precisarmos abandonar essa hipótese, então não valerá mais a pena fazer nada no campo da ação coletiva. Sem o horizonte do comunismo, sem essa Idéia, nada no devir histórico e político tem qualquer interesse para um filósofo.


No entanto, prossegue Badiou:


Aferrar-se à Idéia, à existência da hipótese, não significa que sua primeira forma de apresentação, tendo como foco a propriedade e o Estado, precise permanecer inalterada. Na verdade, o que cabe a nós filósofos como tarefa, e até mesmo obrigação, é ajudar no surgimento de uma nova modalidade de existência da hipótese comunista.


É preciso tomar cuidado para não ler essas linhas à maneira kantiana, concebendo o comunismo como uma Idéia reguladora, e ressuscitando assim o espectro do "socialismo ético", que tem a igualdade como sua norma ou a priori. Em vez disso, é preciso observar a referência precisa a um conjunto de antagonismos sociais que gera a necessidade do comunismo: a boa e velha idéia marxista do comunismo não como um ideal, mas como um movimento que reage a contradições reais.


Tratar o comunismo como Idéia eterna implica que a situação que o gera não é menos eterna, e que o antagonismo ao qual o comunismo reage sempre estará presente. E a partir daí estaremos a um passo apenas de uma análise desconstrutiva do comunismo como um sonho de presença, um sonho que se alimenta da sua própria impossibilidade.


Embora seja fácil rir da idéia de Francis Fukuyama do "fim da História", hoje a maioria é fukuyamista. O capitalismo liberal-democrata é aceito como a fórmula finalmente encontrada da melhor sociedade possível. Tudo que se pode fazer é torná-lo mais justo, tolerante e por aí afora. E uma pergunta simples, mas pertinente, surge aqui: se o capitalismo liberal-democrata é, senão a melhor, mas a menos pior das formas de sociedade, por que não simplesmente resignar-nos a ele de um modo maduro, ou mesmo aceitá-lo sem restrições? Por que insistir, contra ventos e marés, na hipótese comunista?


Não basta permanecer fiel à hipótese comunista: é preciso localizar na realidade histórica antagonismos que transformem o comunismo numa urgência de ordem prática. A única questão
verdadeira dos dias de hoje é a seguinte: será que o capitalismo global contém antagonismos suficientemente fortes para impedir a sua reprodução infinita?

Quatro antagonismos possíveis se apresentam: a ameaça premente de catástrofe ecológica; a inadequação da propriedade privada para a chamada propriedade intelectual; as implicações socioéticas dos novos desenvolvimentos tecnocientíficos, especialmente no campo da engenharia genética; e por último, mas não de importância menor, as novas formas de segregação social - os novos muros e favelas. Devemos notar que existe uma diferença qualitativa entre o último, o abismo que separa os excluídos dos incluídos, e os outros três, que se referem aos domínios do que Michael Hardt e Antonio Negri chamam de
commons [aquilo que é comum a todos, que é público] - a substância compartilhada do nosso ser social, cuja privatização é um ato violento ao qual se deve resistir, se necessário, pela força.

Primeiro, existem os
commons da cultura, as formas imediatamente socializadas do capital cognitivo: basicamente a linguagem, nosso meio de comunicação e educação, mas também a infraestrutura compartilhada, como os transportes públicos, a eletricidade, os correios etc. Se Bill Gates conseguisse o monopólio, teríamos chegado à situação absurda em que um determinado indivíduo deteria a propriedade privada do software que constitui a trama da nossa rede básica de comunicação.

Segundo, existem os
commons da natureza exterior, ameaçada pela poluição e a exploração - do petróleo às florestas, e passando pelo próprio habitat natural.

Em terceiro, os
commons da natureza interior, o patrimônio biogenético da humanidade.

O que todas essas lutas têm em comum é a consciência do potencial destruidor - ao ponto da autoaniquilação da própria humanidade - se a lógica capitalista levar à apropriação desses
commons. E é isso que favorece a ressurreição da noção de comunismo: ela nos permite ver a apropriação paulatina dos commons como um processo de proletarização no qual os excluídos perdem a sua própria substância; um processo que é mais uma forma de espoliação. A tarefa, hoje, é renovar a economia política da espoliação - por exemplo, a espoliação dos anônimos "trabalhadores do conhecimento" pelas empresas nas quais trabalham.

Contudo, é apenas o quarto antagonismo, o dos excluídos, que justifica o termo comunismo. Não existe nada mais privado do que uma comunidade estatal que perceba os excluídos como uma ameaça, e se preocupe em mantê-los à devida distância. Noutras palavras, nessa série de quatro antagonismos, o crucial é o que se dá entre os incluídos e os excluídos: sem ele, todos os demais perdem o gume subversivo. A ecologia se transforma num problema de desenvolvimento sustentável; a propriedade intelectual, num complexo desafio para as leis; a engenharia genética, numa questão de ordem moral.


Pode-se lutar com sinceridade pelo meio ambiente, defender uma noção mais ampla de propriedade intelectual, ou se opor ao patenteamento de genes, sem confrontar o antagonismo entre incluídos e excluídos. Mais ainda: algumas dessas lutas podem ser formuladas em termos dos incluídos ameaçados pela poluição dos excluídos. Dessa maneira, não alcançamos uma autêntica universalidade, mas só interesses "privados" no sentido kantiano.


Empresas como a Whole Foods ou a Starbucks continuam a usufruir de boa reputação entre os liberais, embora ambas combatam os sindicatos. O segredo delas é a venda de produtos com certo matiz progressista: grãos de café comprados a preços compatíveis com o "comércio ético, justo e solidário", o uso de dispendiosos veículos híbridos etc. Em suma, sem o antagonismo entre os incluídos e os excluídos, podemos nos encontrar num mundo em que Bill Gates é o maior dos filantropos, combatendo a pobreza e a doença, e Rupert Murdoch é o maior dos ambientalistas, mobilizando centenas de milhões de pessoas por meio de seu império midiático.


O que é preciso acrescentar, indo além de Kant, é que existem grupos sociais que, por conta de não ocuparem um lugar determinado na ordem "privada" da hierarquia social, surgem como representantes diretos da universalidade: são o que Jacques Rancière chama de "parte de parte alguma" do corpo social. Toda proposta política de caráter genuinamente emancipador é gerada pelo curto-circuito entre a universalidade do uso público da razão e a universalidade da "parte de parte alguma". Esse já era o sonho comunista do jovem Marx - reunir a universalidade da filosofia com a universalidade do proletariado. Desde a Grécia Antiga, temos um nome para a intrusão dos excluídos no espaço sociopolítico: democracia.


A noção liberal predominante da democracia também trata dos excluídos, mas de modo radicalmente diverso: concentra o foco na sua inclusão como vozes minoritárias. Todas as posições devem ser ouvidas, todos os interesses levados em conta, os direitos humanos de todos precisam ser assegurados, todos os modos de vida, todas as culturas e todas as práticas respeitadas, e assim por diante. A obsessão dessa democracia é a proteção de todos os tipos de minorias: culturais, religiosas, sexuais etc. A fórmula da democracia, aqui, consiste na negociação paciente e no compromisso.


O que se perde nela é a universalidade corporificada nos excluídos. As novas medidas políticas de caráter emancipador não serão mais produzidas por um determinado agente social, mas por uma combinação explosiva de diversos agentes. Em contraste com a imagem clássica dos proletários que não têm "nada a perder além dos seus grilhões", o que nos une é o perigo de perdermos tudo. A ameaça é sermos reduzidos a um sujeito cartesiano abstrato e vazio, privado de todo o nosso conteúdo simbólico, com nossa base genética manipulada, vegetando num meio ambiente inabitável. Essa tríplice ameaça transforma-nos a todos em proletários -reduzidos a uma "subjetividade sem -substância", como define o Marx dos Grundrisse [esboços de crítica da economia política]. A figura da "parte de parte alguma" nos confronta com a verdade da nossa posição. E o desafio

Vivendo no fim dos tempos

http://www.cartamaior.com.br/

Não deveria haver mais nenhuma dúvida: o capitalismo global está se aproximando rapidamente da sua crise final. Slavoj Žižek identifica neste livro os quatro cavaleiros deste apocalipse: a crise ecológica, as consequências da revolução biogenética, os desequilíbrios do próprio sistema (problemas de propriedade intelectual, a luta vindoura por matérias-primas, comida e água) e o crescimento explosivo de divisões e exclusões sociais. E pergunta: se o fim do capitalismo parece para muitos o fim do mundo, como é possível para a sociedade ocidental enfrentar o fim dos tempos?

Para explicar porque estaríamos tentando desesperadamente evitar essa verdade, mesmo que os sinais da “grande desordem sob o céu” sejam abundantes em todos os campos, Žižek recorre a um guia inesperado: o famoso esquema de cinco estágios da perda pessoal catastrófica (doença terminal, desemprego, morte de entes queridos, divórcio, vício em drogas) proposto pela psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross, cuja teoria enfatiza também que esses estágios não aparecem necessariamente nessa ordem nem são todos vividos pelos pacientes.

De acordo com Žižek, podemos distinguir os mesmos cinco padrões no modo como nossa consciência social trata o apocalipse vindouro. “A primeira reação é a negação ideológica de qualquer ‘desordem sob o céu’; a segunda aparece nas explosões de raiva contra as injustiças da nova ordem mundial; seguem-se tentativas de barganhar (‘Se mudarmos aqui e ali, a vida talvez possa continuar como antes...’); quando a barganha fracassa, instalam-se a depressão e o afastamento; finalmente, depois de passar pelo ponto zero, não vemos mais as coisas como ameaças, mas como uma oportunidade de recomeçar. Ou, como Mao Tsé-Tung coloca: ‘Há uma grande desordem sob o céu, a situação é excelente’”.

Os cinco capítulos se referem a essas cinco posturas.

O capítulo 1, “Negação”, analisa os modos predominantes de obscurecimento ideológico, desde os últimos campeões de bilheteria de Hollywood até o falso apocaliptismo (o obscurantismo da Nova Era, por exemplo).

O capítulo 2, “Raiva”, examina os violentos protestos contra o sistema global, em especial a ascensão do fundamentalismo religioso.

O capítulo 3, “Barganha”, trata da crítica da economia política, com um apelo à renovação desse ingrediente fundamental da teoria marxista.

O capítulo 4, “Depressão”, descreve o impacto do colapso vindouro, principalmente em seus aspectos menos conhecidos, como o surgimento de novas formas de patologia subjetiva.

E, por fim, o capítulo 5, “Aceitação”, distingue os sinais do surgimento da subjetividade emancipatória e procura os germes de uma cultura comunista em suas diversas formas, inclusive nas utopias literárias e outras.

Žižek é otimista quanto ao que pode surgir desse processo de emancipação e apresenta sua obra como parte da luta contra aqueles que estão no poder em geral, contra sua autoridade, contra a ordem global e contra a mistificação ideológica que os sustenta. Para ele, engajar-se nessa luta significa endossar a fórmula de Alain Badiou, para quem mais vale correr o risco e engajar-se num Evento-Verdade, mesmo que essa fidelidade termine em catástrofe, do que vegetar na sobrevivência hedonista-utilitária. Rejeita, assim, a ideologia liberal da vitimação, que leva a política a renunciar a todos os projetos positivos e buscar a opção menos pior.
 

Trecho do livro
“Essa virada na direção do entusiasmo emancipatório só acontece quando a verdade traumática não só é aceita de maneira distanciada, como também vivida por inteiro: ‘A verdade tem de ser vivida, e não ensinada. Prepara-te para a batalha!’. Como os famosos versos de Rilke (“Pois não há lugar que não te veja. Deves mudar tua vida”), esse trecho de O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse, só pode parecer um estranho non sequitur: se a Coisa me olha de todos os lados, por que isso me obriga a mudar? Por que não uma experiência mística despersonalizada, em que ‘saio de mim’ e me identifico com o olhar do outro? E, do mesmo modo, se é preciso viver a verdade, por que isso envolve luta? Por que não uma experiência íntima de meditação?

Porque o estado ‘espontâneo’ da vida cotidiana é uma mentira vivida, de modo que é necessária uma luta contínua para escapar dessa mentira. O ponto de partida desse processo é nos apavorarmos com nós mesmos.

Quando analisou o atraso da Alemanha em sua obra de juventude Crítica da filosofia do direito de Hegel, Marx fez uma observação sobre o vínculo entre vergonha, terror e coragem, raramente notada, mas fundamental:

É preciso tornar a pressão efetiva ainda maior, acrescentando a ela a consciência da pressão, e tornar a ignomínia ainda mais ignominiosa, tornando-a pública. É preciso retratar cada esfera da sociedade alemã como a partie honteuse [parte vergonhosa] da sociedade alemã, forçar essas relações petrificadas a dançar, entoando a elas sua própria melodia! É preciso ensinar o povo a se aterrorizar diante de si mesmo, a fim de nele incutir coragem.”
 


Sobre o autor
Slavoj Žižek nasceu em 1949 na cidade de Liubliana, Eslovênia. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós‑modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é diretor internacional do Instituto de Humanidades da Universidade Birkbeck de Londres.

Vivendo no fim dos tempos é o seu sétimo livro traduzido pela Boitempo. Dele, a editora também publicou Bem‑vindo ao deserto do Real!, em 2003, Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917), em 2005, A visão em paralaxe, em 2008, Lacrimae Rerum, em 2009, Em defesa das causas perdidas e Primeiro como tragédia, depois como farsa, os dois últimos em 2011.
Ficha técnica
Título: Vivendo no fim dos tempos
Título original: Living in the end times
Autor: Slavoj Žižek
Tradução: Maria Beatriz de Medina
Orelha: Emir Sader
Páginas: 368
ISBN: 978-85-7559-212-0
Preço: R$ 52,00
Editora: Boitempo 


Leia abaixo o texto de orelha do livro, escrito por Emir Sader:

Já se falou de tudo a respeito do filósofo esloveno Slavoj Žižek: que é stalinista e anticomunista, antissemita e pró‑Israel, materialista vulgar e idealista desvairado. Ainda assim, ele não deixou de falar sobre tudo – ou quase tudo – e de nos surpreender sempre.
O ponto de partida do presente livro é simples: “o sistema capitalista global aproxima-se de um ponto zero apocalíptico. Seus ‘quatro cavaleiros do Apocalipse’ são a crise ecológica, as consequências da revolução biogenética, os desequilíbrios do próprio sistema (problemas de propriedade intelectual, a luta vindoura por matéria-prima, comida e água) e o crescimento explosivo de divisões e exclusões sociais”.
Esse é o cenário de Vivendo no fim dos tempos, que faz uma descrição implacável das catástrofes que nos ameaçam e, ao mesmo tempo, critica o catastrofismo, buscando sempre o lugar onde a história pode ser revertida.
A negação, a raiva, a barganha, a depressão e a aceitação são as plataformas a partir das quais Žižek dispara seus dardos contra a utopia liberal, a teologia política, o retorno da crítica da economia política, o surgimento do cogito proletário e, por fim, contra a causa recuperada, na qual o esloveno resgata as utopias contemporâneas.
Sua conclusão é, como sempre, paradoxal: no século XX a esquerda sabia o que fazer, mas tinha de esperar pacientemente que as condições estivessem maduras para isso. Agora, não sabemos o que fazer mas a urgência nos impele assim mesmo à ação, diante das situações catastróficas que enfrentamos.
Žižek confirma neste livro que é dos poucos autores contemporâneos indispensáveis, porque a leitura de um texto seu toca sempre nas cordas mais sensíveis da nossa razão, da nossa emoção e do nosso coração. Nunca se sai o mesmo após a leitura de um texto desse inquieto autor.

TEATRO AMAZONAS - UM ROMANCE REALISTA DE ROGEL SAMUEL

http://literaturapanamazonica.blogspot.com.br/



      Ontem , na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Amazonas, finalmente recebi a última encomenda que o escritor Rogel Samuel me enviou do Rio de Janeiro. Estava em meu escaninho desde a semana passada, mas não estive na Faculadade nas últimas duas semanas, dedicadas ao  tratamento de um problema que pode levar-me a perder a voz.
      O livro anterior que recebi de presente do mestre foi o romance O Amante das Amazonas.
       Pensei que ao abrir o pacote encontraria seu último romance, Teatro Amazonas, que li no Blog do Rogel , em sua versão digital.
       Mas era Fios de Luz - Aromas Vivos , composto por 15 sonetos de autoria do poeta Jorge Tufic. Na introdução, uma análise do poema Retrato de Mãe, feita por Rogel Samuel. 
       Li a análise lítero-psicanalista do poema  na sala do pró-reitor de extensão da UFAM, meu amigo Frederico Arruda.
       Em outra oportunidade comentarei o assunto e o livro.
       Prefiro, antes , no rastro do Blog do Rochinha , registrar minha breve impressão sobre o romance Teatro Amazonas. Nada de uma análise mais profunda sobre a estrutura do realismo "doce" do escritor. Exigiria tempo e rigor metodológico, para não cometer injustiças subjetivistas. É o modo que a leitura crítica recomemda para alcançar a maior objetividade possível, livrando-se do metro pessoal das idiossincrasias do leitor.
        O que mais prendeu minha atenção na leitura digital do romance Teatro Amazonas foi a construção literária dos bastidores políticos, que antecederam a aprovação do projeto, no final do século XIX. 
         Como trabalhei no banco de texto do teatro Amazonas e, por isso, tive oportunidade de pesquisar muitos documentos, incluíndo os Diários Oficiais da época, surpreendi-me com a precisão da reconstrução do episódio. Rogel aprofundou a pesquisa e revelou, pela ficção,  detalhes que escapam as historiografias acadêmicas.
        Costumes , como peixadas na beira dos igarapés, além de roupas, rotinas, falares, sexualidades, futilidades, corrupções e misticismos são mostrados através de uma narrativa leve e sutil.
        O contexto de confronto entre a cultura monárquica e a cultura republicana, entre resquícios da escravidão e o trabalho assalariado compõem o pano de fundo da sociedade romanceada.
      O romance realista é sugestivo e preciso.
      É o que me sinto apto a comentar, antes da merecida releitura .
 
        


PARINTINS - AM


Mercosul suspende Paraguai e anuncia adesão da Venezuela



Mercosul suspende Paraguai e anuncia adesão da Venezuela

Apesar de suspensão até abril, Paraguai não sofrerá sanções econômicas; anfitriã da cúpula, presidenta argentina diz que Venezuela se tornará membro pleno em 31 de julho

iG São Paulo |
Os presidentes do Mercosul anunciaram nesta sexta-feira a suspensão do Paraguai do bloco de comércio até que se celebrem as eleições de abril de 2013, mas sem a imposição de sanções econômicas. As medidas são uma retaliação à destituição, há uma semana, de Fernando Lugo.
Retaliação: Unasul suspende Paraguai até a realização de novas eleições

EFE
Presidentas da Argentina, Cristina Kirchner, e do Brasil, Dilma Rousseff, são vistas durante cúpula do Mercosul em Mendoza
Véspera: Paraguai recebe US$ 66 milhões do Mercosul pelo Focem
"O Mercosul suspende temporariamente o Paraguai até que seja realizado o processo democrático que novamente instale a soberania popular no país", disse Cristina ao encerrar a reunião celebrada na cidade argentina de Mendoza (oeste).
Anfitriã do evento, a presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, anunciou que a Venezuela se tornará membro pleno do grupo a partir de 31 de julho. A Venezuela, um membro associado do bloco, tentava conseguir o status pleno há anos, mas a iniciativa vinha sendo bloqueada pelos congressistas paraguaios.

"A data e lugar será 31 de julho no Rio de Janeiro, quando a República Bolivariana da Venezuela será incorporada como membro pleno do Mercosul", disse Cristina ao resumir o conteúdo da declaração firmada pelos governantes do bloco.
A União das Nações Sul-Americanas (Unasul) também decidiu suspender o Paraguai do bloco até a realização de novas eleições no país. A decisão foi tomada em reunião extraordinária após a cúpula do Mercosul, nesta sexta-feira em Mendoza.
Ao discursar, a presidenta Dilma Rousseff disse esperar "que a Venezuela formalize a adesão buscada com esforço". Em menção indireta ao Paraguai, Dilma disse que o Mercosul tem "o compromisso democrático" e rejeita "ritos sumários", em uma referência ao rápido impeachment de Lugo. Segundo Dilma, o Mercosul está aberto para a adesão de novos sócios plenos do bloco.
Em Caracas, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, comemorou a decisão e afirmou que o ingresso do país no Mercosul, após sete anos de espera, representa "uma derrota para o imperialismo americano e as burguesias lacaias da região".
Lugo destacou que, com a decisão, os chefes de Estado do Mercosul "decidiram castigar exclusivamente a classe política paraguaia que quebrou a ordem democrática, com garantias de que não serão tomadas nenhuma medida econômica que prejudique o povo".
Em Assunção, o Ministério das Relações Exteriores paraguaio emitiu um comunicado no qual ressalta que a sanção ao Mercosul é ilegal e ilegítima.
Lugo foi cassado em um processo de impeachment relâmpago pelo Congresso do Paraguai após uma reintegração de posse violenta que deixou 17 mortos entre policiais e sem-terra em uma reserva florestal perto da fronteira do Brasil em 15 de junho.
Na avaliação dos presidentes do Mercosul, "a ordem democrática foi quebrada" no Paraguai porque Lugo não teve tempo hábil para sua defesa. "(Mas o grupo) não acredita em sanções econômicas, porque elas não prejudicam os governos. Elas sempre prejudicam a população", disse Cristina.
O Paraguai é um dos países mais pobres da América do Sul e qualquer sanção econômica teria sido desastrosa, já que metade de seu comércio é com os outros membros fundadores do Mercosul - Argentina, Brasil e Uruguai.
O Mercosul proibiu o sucessor de Lugo, o ex-vice-presidente Federico Franco, de participar do encontro. Franco diz que a transição de poder no Paraguai foi feita de acordo com a lei e que a atual proibição de comparecer aos encontros já é punição suficiente.
A princípio, Lugo disse que compareceria à cúpula para apresentar seu caso para os líderes regionais, mas mais tarde mudou de ideia. Depois declarou-se contrário às sanções econômicas, afirmando que só prejudicariam os paraguaios comuns.

Reuters
Partidários paraguaios e brasileiros do presidente cassado Fernando Lugo reivindicam que ele retorne à presidência em protesto na Ponte de Amizade, que liga Brasil e Paraguai
Apesar da pequena importância geopolítica do Paraguai, a cassação do mandato de Lugo, cuja presidência foi marcada por um diagnóstico de câncer e vários escândalos de paternidade, mergulhou o país em uma profunda crise política e o tornou uma prioridade para os outros líderes da região.
Adesão da Venezuela
A Venezuela fez seu pedido formal de adesão ao bloco em 2005. O pedido foi analisado pelos Congressos dos quatro países-membros. Apenas o Senado paraguaio ainda não havia aprovado a adesão, sob o argumento, de alguns senadores, de que a Venezuela não respeita os valores democráticos exigidos pelo bloco.
Ironicamente, esse foi o mesmo argumento usado pelos sócios do bloco para suspender o Paraguai após o impeachment de Lugo.
Mais cedo, em Assunção, o presidente Franco lamentou a suspensão temporária do Paraguai do Mercosul e não descartou que o país firme um Tratado de Livre Comércio (TLC) com os EUA. “Ao ser suspenso, o Paraguai está liberado para tomar decisões e faremos o que for melhor para os interesses paraguaios”, disse segundo a imprensa paraguaia.
Quando questionado sobre a possibilidade de “negociar acordos comerciais com EUA, China ou outros países”, o presidente paraguaio respondeu: “É uma possibilidade.”
*Com AP, EFE e BBC

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Histórico aperto de mãos de Elizabeth II e ex-dirigente do IRA

Histórico aperto de mãos de Elizabeth II e ex-dirigente do IRA

Elizabeth II cumprimenta Martin McGuinness, ex-dirigente do IRA em BelfastA rainha Elizabeth II e o ex-dirigente do IRA Martin McGuinness deram um histórico aperto de mãos nesta quarta-feira em Belfast, um ato considerado como um novo marco no processo de paz na Irlanda do Norte, anunciou o Palácio de Buckingham.

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O antecipado aperto de mãos entre a soberana britânica e o atual vice-ministro principal da Irlanda do Norte aconteceu a portas fechadas durante um evento cultural no teatro lírico da capital norte-irlandesa, 14 anos depois do acordo de paz da Sexta-Feira Santa que acabou com 30 anos de violência entre protestantes leais à Coroa e católicos republicanos.
O encontro, inconcebível há alguns anos, aconteceu no segundo dia de visita da rainha a esta província britânica, na presença de seu marido, o duque de Edimburgo, do ministro principal da Irlanda, o unionista Peter Robinson, e do presidente da Irlanda, Michael D. Higgins.
Ao final do ato, desta vez diante das câmeras de televisão, a rainha e McGuinness voltaram a apertar as mãos, enquanto o ex-dirigente do IRA dizia algumas palavras.
"Adeus e vá com Deus", afirmou, ao que parece em gaélico, segundo os jornalistas presentes.
Questionado sobre o aperto de mãos inédito, um porta-voz do primeiro-ministro David Cameron afirmou: "Acreditamos que é correto que a rainha se reúna com todas as partes".
O porta-voz recordou que a recente visita da rainha a Irlanda "levou as relações entre os dois países a um nível completamente novo".
Elizabeth II fez em maio de 2011 uma histórica visita de reconciliação a Irlanda, a primeira de um monarca britânico desde a independência da república em 1922.
McGuinness, 62 anos, passou de dirigente do Exército Republicano Irlandês (IRA) a líder no processo de paz que resultou no acordo de 1998.

Miró, Picasso e Sorolla não sabem o que é crise financeira

Miró, Picasso e Sorolla não sabem o que é crise financeira

"Estrela Azul", de Miró, leiloado por US$ 37 milhões, é apenas um dos muitos recordes na venda de obras de arte e mostra caça a investimentos que fogem aos tradicionais

EFE
EFE
"Estrela Azul", pintado por Joan Miró em 1927 e leiloado por US$ 37 milhões: porto seguro
Concha Carrón. Madri, 26 jun (EFE).- A tela "Estrela Azul", de Juan Miró, acaba de ser leiloada em Londres por US$ 37 milhões, cifra que chama ainda mais atenção pelo atual contexto econômico, no qual obras de outros artistas alcançaram números que confirmam que a arte, se for boa, não entende de crise, principalmente quando os investidores buscam ativos que fogem dos papéis do governo ou de ações de empresas que enfrentarão crises por um longo tempo.
O caso de Miró não é isolado, como mostra o leilão de arte impressionista e moderna realizado há alguns dias na casa Christie's de Londres, na qual o óleo "Mulher Sentada", de Pablo Picasso, foi cotada em 10,6 milhões de euros (US$ 13,4 milhões), muito acima do preço estimado.


"Estrela Azul" foi leiloado na terça-feira, dia 19 de junho, na londrina Sotheby's, em um leilão no qual atingiu preço recorde para uma obra do pintor catalão. Descrito pelo próprio Miró como um "ponto-chave" em sua trajetória artística, o quadro incorpora símbolos e elementos surrealistas que o artista repetiria em suas obras e a característica cor azul que influenciaria, além disso, pintores como o letão Mark Rothko e o francês Yves Klein.
Mas esses não são os únicos exemplos de arte como refúgio seguro na crise, como prova a venda, há apenas dois meses, de "O Grito", do norueguês Edvard Munch - um dos maiores ícones da história da arte - como a obra de arte contemporânea mais cara de um leilão, ao chegar aos 95 milhões de euros (US$ 120 milhões) durante um leilão na Sotheby's de Nova York.


Munch bateu assim o recorde de um leilão de arte contemporânea arrematado em 2010 por "Nu, Folhas Verdes e Busto", na qual Picasso retratava a sua amante Marie-Thérèse Walter, vendido por 83 milhões de euros (US$ 106,5 milhões). No mesmo leilão de "Estrela Azul", o quadro "Homem Sentado", de Pablo Picasso, foi vendido por 7,6 milhões de euros (US$ 9,6 milhões), o que confirma que as obras do malaguenho estão entre as mais valorizadas da pintura espanhola.
Assim, a representação de outra das musas e amantes de Picasso, Dora Maar, em "Mulher Sentada em uma Poltrona", alcançou recentemente em Nova York os 22,8 milhões de euros (US$ 29,2 milhões). Mas o florescimento da arte espanhola não atinge apenas os artistas mortos, encontra seu reflexo entre os pintores vivos, como Miquel Barceló e Antonio López, dois dos mais cotados artistas espanhóis.
Há apenas um ano, em junho de 2011, a obra sobre touradas de Miquel Barceló "Faena de Muleta" era vendida na galeria londrina Christie's por 4,42 milhões de euros (US$ 5,6 milhões). Barceló batia assim o recorde anterior em uma venda em leilão de um artista vivo espanhol, Antonio López, cuja obra "Madri Desde Torres Brancas", pintada entre 1976 e 1982, recebeu em 2007 o lance de 1,74 milhão de euros (US$ 2,2 milhões) na mesma galeria.
Entre os pintores nacionais mais cotados fora das fronteiras espanholas está Juan Gris (1887-1927), com a venda de obras como "Violon et guitare", por 20,1 milhões de euros (US$ 25,5 milhões) em Nova York, há um ano e meio. Mas indubitavelmente um dos mais conhecidos é o "pintor da luz", o valenciano Joaquín Sorolla, do quem acabam de leiloar "Pescadores. Barcas Varadas" e "Pescador de Bagatelas" por 1,15 milhão de euros (US$ 1,4 milhão) e mais de 595 mil euros (US$ 744 mil), respectivamente.


Os compradores de ambas as obras-primas, colecionadores particulares dos Estados Unidos e da Ásia, adquiriram telas pintadas no período de maturidade do autor, entre 1908 e 1910, quando retornou a Valência após ter atingido sucesso internacional. Outros quadros do mestre valenciano, como "O Pescador", também alcançaram, com 3,9 milhões de euros (US$ 4,9 milhões), preços de venda acima do máximo estimado, da mesma forma que "Crianças na Praia", leiloado por 2,3 milhões de euros (US$ 3 milhões).
No entanto, nem todos os momentos são bons para a arte, como aconteceu em junho de 2010 com o leilão de dois quadros de Sorolla, "O Batismo", de costumes, e a paisagem "Dia de Tempestade". Ambos foram vendidos em Londres pelo preço mínimo estimado pela Sotheby's, 800 mil euros (US$ 1 milhão) e 180 mil euros (mais de US$ 227 mil), respectivamente, em um leilão dedicado à pintura europeia, que teve resultado decepcionante para a coleção espanhola. EFE cc/tr/ma (foto)

terça-feira, 26 de junho de 2012

LEILA MÍCCOLIS



TEATRO AMAZONAS EM LIVRO

Por Leila Míccolis

Peço licença a Rogel Samuel para me apossar deste espaço dele, e assinar a coluna de hoje. É que Blocos tem muito orgulho de receber, em livro impresso, o Teatro Amazonas, primeiramente publicado por nós aqui no portal, em vinte e dois capítulos inéditos, durante o período de 24/12/2007 a 25/10/2008. Agora, em 2012, o romance sai publicado pela Editora da Universidade Federal do Amazonas, com capa de Edna Keron de Oliveira da Costa e apresentado por mim, com muito orgulho.

A versão on line recebeu inúmeros comentários, e transcrevo um deles, o de Clarisse de Oliveira — figura também com um passado histórico, filha de Clarice Índio do Brasil — que em sua infância possuía aquarelas do artista plástico De Angelis, responsável pela pintura interior do Teatro Amazonas. Clarisse tem outros afetivos referenciais que a ligam ao Teatro Amazonas, como revela o seguinte texto, de 2008::

"Hoje, li o último capítulo da história do Teatro Amazonas, em Manaus. Fascinante e retém nossa atenção o tempo todo, pois Rogel Samuel intercala a narração com a descrição das personagens, sempre focalizando sua mixagem racial dos primeiros séculos da Vida do Brasil. Afora a mixagem racial, os atritos livres das personalidades em seu desempenho na política do Estado do Amazonas, surgindo da periferia da Mata Amazônica e se baseando nos reflexos que chegavam no Brasil, da Europa, principalmente de Paris, onde a roupa mais fina era enviada para ser lavada lá. A pintura ornamental de teto e paredes, de que herdei umas quatro aquarelas, me levaram a imaginar a beleza barroca da oldura do palco do Teatro. Na minha infância, a mãe de meu padrinho Gaspare Cornazzani, que se chamava "Altiniana" (...) chamava a atenção no Teatro Amazonas, em seu camarote, exibindo beleza físico e luxo em vestimenta e joias. Assim, na embocadura de uma selva tropical, uma construção meio Paris e barroco italiano, tem agora um livro com a história de sua construção, narrada de maneira fascinante pelo escritor Rogel Samuel, natural de Manaus".

Transcrevo a seguir um trecho da entrevista, também constante do livro, concedida pelo autor a Dilson Lages Monteiro, do Jornal "Diário do Povo" de Teresina/Piauí, a cerca da preciosa pesquisa empreendida por Rogel. Escreve o jornalista:

"Para construir o perfil dos personagens, Rogel realizou vasta pesquisa histórica, vasculhando desde os livros clássicos sobre a história amazonense aos estudos genealógicos. Até mesmo cemitérios o autor visitou durante a pesquisa. Mas foi na Biblioteca Nacional que encontro preciosidades, desconhecidas dos piauienses e mesmo de historiadores amazonenses, e, baseado nelas, deu fôlego à obra".

Deixemos agora que o autor explane, de viva voz, sobre seu processo de criação e também sobre sua primeira intenção, que não foi a de escrever especificamente sobre o Teatro Amazonas:

"A minha intenção inicial era escrever um romance sobre Eduardo Ribeiro, governador do Amazonas. Cheguei a escrever vários capítulos que se perderam. Mas dele pouco se sabe. Foram decisivas algumas fontes, como os livros de Fileto Pires Ferreira e Eduardo Ribeiro, que quase ninguém leu, além de Mário Ypiranga e Genesino Braga. Fiquei impressionado cm o livro de Fileto "A verdade sobre o caso do Amazonas", muito bem escrito. Descobri que, apesar de só governar 19 meses, foi o grande governador de sua época e de todos os tempos no Amazonas. Descobri também que ele é esquecido e injustiçado. Thaumaturgo foi um herói nacional, mas reconhecido ainda hoje. Governou o Piauí e o Amazonas. Não foi esquecido, como Fileto. Entretanto, não há uma rua ou escola em Manaus com o nome deles. E pouca gente sabe que foi Thaumaturgo quem traçou o plano da cidade de Manaus. O livro estava muito tempo dentro de mim, e há muitos anos precisava sair de mim. O viés é pessoal. É um ajuste de contas comigo mesmo, está nas minhas entranhas, no meu sangue" (in primeira orelha do livro).

Este é um romance histórico diferente, em que o personagem principal não é um casal de enamorados, mas sim a edificação de um dos maiores e mais exóticos teatro do mundo, com suas histórias de bastidores tão interessantes e que nós brasileiros infelizmente desconhecemos. Ou melhor: desconhecíamos, porque a partir deste momento é dupla a oportunidade de você ler a obra de Rogel: ou em Blocos Online, ou em livro. E nem se diga que a leitura é de interesse apenas regional: em meu blog pessoal, o texto que postei em 26 de outubro de 2008 sobre o romance Teatro Amazonas mantém-se até hoje em primeiro lugar como o mais lido de todos (já quase quatro anos de liderança absoluta) — o que atesta, ao contrário do que se propala, o grande interesse por parte dos brasileiros pelas narrações e construções de nosso país.



TEATRO AMAZONAS, NO BLOG DO ROCHA

TEATRO AMAZONAS, O ROMANCE DO ROGEL SAMUEL


Junte o nosso glorioso Teatro Amazonas, uma monumental construção no
coração da Amazônia; o latino romanicus, a descrição de ações e
sentimentos de personagens fictícios, numa transposição da vida para
um plano artístico e, o consagrado escritor, historiador e poeta
amazonense Rogel Samuel, resultado: um livro gostoso de ler, um
passeio romântico sobre o nosso passado, mostrando os meandros da
construção do soberbo TA.

Semana passada, o carteiro bateu a minha porta e, entregou-me um
envelope, dentro dele continha um livro com a seguinte dedicatória:
“Para José Martins Rocha, o grande amigo de Manaus, e assim, meu irmão
de história, com a homenagem do Rogel Sanuel, 2012”.

Quanta honraria, sou apenas um cara metido a blogueiro, não sou
historiador ou pesquisador, mas, amigo de Manaus, sou com certeza.
Quem sabe um dia, quando eu estiver mais maduro e preparado, possa
escrever um livro e, retribuir ao nobre Rogel.

O Rogel é polivalente – amazonense de Manaus, radicado no Rio, é
poeta, escritor, webjornalista, colunista de Blocos Online, de Entre
Textos, doutor em letras, professor aposentado da Universidade Federal
do Rio de Janeiro, autor de Crítica da Escrita, Manual da Escrita,
Literatura Básica, O que é Teolit?, 120 Poemas, o Amante das Amazonas
e Teatro Amazonas, além de ter escrito centenas de artigos em revistas
e jornais.

Na capa do referido livro, consta um resumo do romance Teatro Amazonas
“é uma obra que conta a história de uma das mais opulentas casas de
espetáculo do País, o Teatro Amazonas, inaugurado em 31 de dezembro de
1896 e, dentre outras características, redimensiona o papel de Fileto
e Thaumaturgo na história do Amazonas. O livro permite mergulhar em
detalhes da Manaus do final do século XIX e início do século XX. A
vida em Manaus era exuberante, elegante e rica, e bem alegre, já
naquela época. Era o início do apogeu de uma sociedade que enriquecia
rapidamente, com a extração da borracha”.

Vamos viajar um pouco no livro – “Natal de 1900 – “Francisco Ferreira
Lima Silva naquela escura noite vinha subindo a escadaria do
impressionante palacete onde morava Waldemar Scholz e que muitos anos
depois foi transformado no Palácio Rio Negro, sede do Estado do
Amazonas. Para o natal só, Sholz convidara para a ceia um grupo
seleto: Lima Silva, o maestro Adelelmo do Nascimento, Antônio
Bittencourt e poucos outros. Era uma escura noite de Natal de 1900,
pouco depois da morte do governador Eduardo Ribeiro, em circunstâncias
misteriosas. Eduardo Ribeiro foi o construtor do Teatro Amazonas. Foi
o construtor de Manaus. Quando saiu do palacete Scholz já de
madrugada. Lima Silva foi para a casa de Marinalva. Ela não estava.
Ordenou ao taxi que o levasse a Praça de São Sebastião. Em frente ao
Teatro Amazonas parou e saltou. A igreja já estava fechada e a praça
vazia. Ele sentou-se na escadaria do Teatro. De longe, de bem longe,
dos limites da fímbria do horizonte, apareceu um vento úmido e morno,
vindo da floresta, que passou como um fantasma, uivando nas alamedas
do Teatro. Era a morte do Eduardo Ribeiro. A morte de tudo.”

Parabéns ao Rogel Samuel pelo excelente livro, com certeza, ele fará
muito sucesso na nossa cidade. É isso ai.

--
JOSE MARTINS ROCHA
www.jmartinsrocha.blogspot.com

"O autor Rogel Samuel cita numa das passagens do seu livro romance
“Teatro Amazonas” que, em 1900, em Manaus, um dos personagens pega um
“taxi” e, ordena que o motorista siga até a Praça de São Sebastião –
ora, sabemos que este termo foi utilizado a partir do momento da
criação do taxímetro e, este foi criado no início do século XIX, pelo
alemão Wilhelm Bruhn, portanto, faz sentido, mesmo sabendo que em
Manaus não se utilizava este termo naquela época - o livro não é de
pura história, mas, um romance, sendo assim, o autor pode narrar da
forma que lhe convier a sua criatividade".

Abraços,
Rocha

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Entrevista com o cineasta Werner Herzog

 

 

Entrevista com o cineasta Werner Herzog

Esteve passagem pelo Brasil na semana passada o cineasta alemão Werner Herzog, que já havia estado por aqui outras vezes para rodar cinemas como Aguirre, colera dos deuses, Fitzcarraldo, Cobra Verde, entre outros.
Os dois primeiros filmes foram filmados na região amazônica e trazem duas histórias que mostra as relações do homem com a natureza e do momento que o homem toma conta que ele também é natureza.
Nestes três filmes gravados no Brasil todos tiveram a atuação do ator alemão Klaus Kinski. As gravações, como mostra o documentário Meu Maior Inimigo, tinham sempre uma tensão de Kinski com Herzog, com os produtores, com os índios. Porém o cinema foi rodado. Na foto acima Kinski mostra a cena inesquecivel do barco que sobe a montanha.
Herzog deu uma entrevista à Maria do Rosário e que este bloguinho traz na integra.
É verdade que você deu a “O Enigma de Kaspar Hauser” (1972) o subtítulo de “Cada Um Por Si e Deus Contra Todos” por causa do filme “Macunaíma” (1969), de Joaquim Pedro de Andrade?
Werner Herzog – Sim. Eu escrevi o roteiro do filme em quatro ou cinco dias e não havia um título. Cansado de tanto escrever, resolvi sair para tomar uma cerveja e ver um filme. Acabei vendo “Macunaíma”, do Joaquim Pedro. Fiquei louco pelo Grande Otelo e mais louco ainda por uma frase que ouvi num certo ponto do filme: “Cada um Por Si e Deus Contra Todos”. Congelei na cadeira. Isto que acabei de ouvir é tão lindo que não consigo acreditar. Aí está o título do meu filme. Só que, depois, trocando ideias com várias pessoas, ninguém guardava a frase. Quando eu pedia para que a repetissem, diziam “Cada um Por Deus, Todos pelo Homem”. Ou “Cada Homem por Deus”. Nunca acertavam. Então acabei optando por “O Enigma de Kaspar Hauser – Cada Um Por si e Deus Contra Todos”. Mas, tão importante quanto o subtítulo foi a descoberta de Grande Otelo. Que ator maravilhoso. Nove anos depois eu estava com ele na Amazônia, filmando “FitzCarraldo”. Tomei estas duas riquezas de “Macunaíma”. Não tenho vergonha de assumir, como um pirata, esta troca.
E Glauber Rocha? Você conhece os filmes dele?
Werner Herzog- Conheço muitos dos filmes dele e tive o prazer de conviver com ele, durante um mês , em Berkeley, na Califórnia . Éramos cineastas-convidados da Pacific Film Archive, uma cinemateca muito importante. Como eu não tinha hotel para me hospedar em San Francisco, a Cinemateca do Pacific me ofereceu um quarto ao lado do de Glauber. Me lembro que, em 1975, quando chegou a hora de Glauber, que era bastante desorganizado, regressar ao Brasil, a saída dele nos impressionou a todos, pois tinha milhares de papéis que não cabiam nas malas e iam se espalhando por todos os lados. Glauber morreu jovem, mas os filmes dele são eternos. Para mim, ele é alma do Brasil, assim como Garrincha. Glauber é a alma intelectual e visionária e Garrincha é a alma alegre na tragédia deste país.
Você, que escalou dois moçambicanos-brasileiros para o elenco de “Aguirre” (Ruy Guerra e Ruy Pollanah) e filmou “FitzCarraldo”, com Lewgoy, Grande Otelo e Milton Nascimento, conhece o cinema brasileiro contemporâneo?
Werner Herzog- Não costumo mais ver muitos filmes. Só uns dois ou três por ano. Ano passado, vi vinte longas-metragens, porque integrei o juri do Festival de Berlim. Como jurado, fui obrigado a ver todos os concorrentes (risos). De filmes brasileiros recentes, vi um de Walter Salles. Creio que, graças às facilidades das novas tecnologias, uma nova geração está se firmando no Brasil. Quando comecei, filmar era muito complicado. As câmeras eram inacessíveis, o celuloide caro e os laboratórios caríssimos. Hoje, os que querem fazer cinema podem recorrer a ferramentas simples, câmeras digitais muito baratas, pode editar o material no lap-top. É possível fazer um filme com 10 mil dólares. O importante é querer trabalhar e fazê-lo onde há vida pulsando. E há que andar a pé. Andar muito. Este é conselho que lhes dou. Eu abri o cadeado (de uma sala da Universidade de Munique) e roubei a câmera. Com ela fiz meus onze primeiros filmes. Então, só posso lhes ensinar a assaltar e a falsificar documentos. Quando estava na Amazônia peruana e tinha que subir com o navio rio acima, indo atrás num barco a motor, deparei-me várias vezes com acampamentos militares. Eles sempre tentavam me impedir de trabalhar. Um coronel, que guardava a selva com seus soldados, mandou que atirassem em mim. Exigiu que eu apresentasse licenças de filmagem. Sabe o que eu fiz? Regressei a Lima e falsifiquei documentos. Forjei papeis que, em nome da Chancelaria, da Secretaria de Estado e do presidente Belaunde me autorizavam a filmar. Copiei as assinaturas deles com muito zelo e enchi os documentos de carimbos. Nos papeis, havia frase em alemão que dizia mais ou menos assim: “quem quiser comprar uma câmera…”. Os que me paravam, ao me ver de volta, olhavam aquelas assinaturas, aqueles carimbos e aqueles escritos, inclusive em alemão, e diziam “pode passar”.
Sua relação com [o ator alemão] Klaus Kinski (1926-1991) foi muito tumultuada e mesmo assim, você o dirigiu em vários filmes…
Werner Herzog- Minha relação com Kinski, como mostro no documentário “Meu Inimigo Íntimo” foi intensa, mas fiz mais de 60 filmes, e ele está em apenas cinco deles. Havia vida, para ele e para mim, antes, durante e depois destes cinco filmes. Ele atuou em 210 produções. Portanto, esteve separado profissionalmente de mim em 205 filmes. Mas não posso negar que nossa relação foi muito forte. Eu sempre soube que ele era extraordinário e que trabalhar com ele era como domesticar uma fera selvagem. Era preciso fazer a agressividade dele ser produtiva na tela. Kinski tinha momentos de muita coragem e carinho. Nas sequências do navio rio acima, em “FitzCarraldo”, perigosíssimas, ele quis correr todos os riscos, desde que eu estivesse perto dele. Se o navio afundasse, afundaríamos juntos. Para outras coisas ele era covarde. Tivemos confrontos perigosos. A imprensa chegou a dizer que eu só não atirei nele, porque ele deu um passo atrás. Isto não é verdade. Nunca o ameacei com arma de fogo. Mas brigamos muito. Nossa relação foi para um terreno perigoso. Ele tinha oscilações que iam do amor ao ódio, gritava com os extras. Os índios peruanos que trabalharam conosco em “FitzCarraldo” não tinham medo dele e até me disseram que, se eu quisesse, eles o matavam para mim. Como eu ficava calado, eles me disseram que não tinham medo de Kinski, que era um “gritador”. Temiam mais o meu silêncio.
Mas ele foi o maior ator de seus filmes, não?
Werner Herzog- Ele foi um grande ator, mas o maior de todos, para mim, foi um “não-ator”, Bruno S., com quem fiz “O Enigma de Kaspar Hauser” e “Stroszek”. Que grande presença em cena tinha Bruno S. Ele me tocou mais que qualquer outro. Morreu há alguns meses, estou de luto pela perda dele. Dirigi, mais recentemente, grandes atores como Christian Bale (“O Sobrevivente”) e Nicolas Cage (“Vício Frenético”). Mas tenho que incluir Kinski e sua insanidade entre os melhores. Tenho consciência de que, sem bons atores, não se faz filme narrativo. Aprendemos com eles e também andando a pé de Boston à Guatemala, sendo encarcerado numa prisão da República Centro-Africana, como eu fui. Há que se aprender a conhecer o coração do ser humano. E há que se ler muito, mas muito mesmo.
Como você vê a relação da crítica cinematográfica com seus filmes?
Werner Herzog- A crítica em geral decaiu muito. O discurso inteligente sobre os filmes foi abolido em favor das celebridades. Nos EUA quase não há mais críticos. Em compensação, multiplicam-se os repórteres de celebridades. Na França, por outro lado, ainda há muitos críticos, mas eles são muito intelectuais, esotéricos. Tenho estima pelos franceses, mas confesso que falar com eles é muito problemático para mim. Tenho me dedicado muito à escrita. Penso até que meus textos vão viver mais longamente que meus filmes. Ultimamente me exercitei até como ator (risos). Sim, interpretei um cientista-farmacêutico alemão em “0s Simpsons”. Minha função era criar pílulas capazes de curar o mau-humor de Homer Simpson.
Você tem produzido muito, mas nem todos os seus filmes têm chegado ao Brasil. Por quê?
Werner Herzog- Este ano fiz quatro ou cinco filmes nos EUA, com produtores norte-americanos. Esta realidade tem um lado positivo. Ao invés de me ocupar em levantar fundos ou armar contratos com redes de TV, eu filmo. Estou, neste momento, realizando cinco novos filmes. Por isto passo com tamanha rapidez pelo Brasil. Mas há um lado negativo nesta situação. Meus filmes tornaram-se muito mal distribuídos no mundo. Os produtores americanos se preocupam com o mercado nos EUA e Canadá. Por isto, meu propósito, agora, é ficar com 50% dos meus filmes, ou seja, com a carreira deles nos mercados fora EUA-Canadá. Estou fazendo assim com o novo documentário que finalizo no Texas e na Flórida (“Corredor da Morte”) que tem condenados à pena capital como tema. Sou, como alemão, contra a pena de morte. Não por razões ou argumentos teóricos, mas sim pela experiência de ter nascido num país que, durante o Nazismo, matou milhares de pessoas, um verdadeiro programa de eustanásia. Nenhum país pode ser habilitado a matar pessoas.
Você devotou imensa amizade à grande crítica e historiadora alemã, Lotte Eisner (1896-1983), autora de um clássico sobre o Expressionismo Alemão (“A Tela Demoníaca”). Até dedicou a ela um livro, “Caminhado no Gelo”, diário de sua viagem, a pé, de Munique a Paris. Um sacrifício pela recuperação dela.
Werner Herzog- Lotte foi muito importante para as novas gerações de cineastas do Pós-Guerra. Ela, que teve que se refugiar na França, quando Hitler assumiu o poder, reconheceu que depois da grande barbárie, novas gerações de músicos, escritores e cineastas alemães se firmavam. Quando eu tinha 22 anos, ela mandou um filme meu para Fritz Lang [cineasta do expressionismo alemão] e me ajudou muito. Por isto, me dispus, sempre, a fazer todo e qualquer sacrifício por ela. Fui a pé de Munique até Paris, ao encontro dela. Quando cheguei, ela, que mentia a idade desde que fizera 70 anos, tinha quase 80. Ela sabia que fora para mim e para as novas gerações uma grande fonte de inspiração. Quando, novamente, fui ao encontro dela em Paris, ela estava cega e se aproximava dos 90 anos. Não podia mais ler, nem ver filmes, duas de suas maiores paixões. Nem podia caminhar. Lotte me disse que não podia “nem morrer”, pois eu a enfeitiçara para que vivesse para sempre. Retirei, então, o feitiço. Dez dias depois, após um golinho de chá, ela morreu.

Klaus Kinski e Werner Herzog no Teatro Amazonas em Manaus em uma das cenas de Fitzcaraldo.

BLOCOS ONLINE REPERCUTE A PUBLICAÇÃO

BLOCOS ONLINE REPERCUTE A PUBLICAÇÃO DO "TEATRO AMAZONAS" - A PRÓPRIA LEILA MICCOLIS SUBSCREVE. LEIA EM:

http://www.blocosonline.com.br/home/index.php

NOVO ROMANCE DE ROGEL SAMUEL

NOVO LIVRO DE R. SAMUEL
O ROMANCE CONTA AS FASES DA CONSTRUÇÃO DE UM DOS MAIORES E MAIS EXÓTICOS TEATROS DO MUNDO

TARTARUGA QUE SE EXTINGUE

Morre Solitário Jorge, última tartaruga de sua espécie em Galápagos

Solitário Jorge, último representante da espécie "Geochelone Abigdoni", com idade estimada de mais de 100 anos …O Solitário Jorge, a última tartaruga gigante de sua espécie que habitava as ilhas Galápagos, morreu neste domingo depois de infrutíferas tentativas para que se reproduzisse, informou a reserva ecológica equatoriana.

O animal, único sobrevivente da espécie "Geochelone Abigdoni", com idade estimada de mais de 100 anos, foi encontrado sem vida no centro de criação de tartarugas terrestres da ilha Santa Cruz, segundo comunicado do Parque Nacional Galápagos (PNG).
"Com a morte desta tartaruga se extingue a espécie da ilha Pinta", de onde era originária, lamentou o PNG, que em 1993 submeteu Jorge a um processo de reprodução mal sucedido.
O PNG anunciou que em "homenagem" ao Solitário Jorge realizará um seminário internacional, em julho, para elaborar uma estratégia de manejo das populações de tartaugas nos próximos dez anos com a finalidade de obter sua restauração.

DUGPA RINPOCHÊ

O amor que pára na superfície das coisas está condenado a debilitar-se, a morrer. É como a árvore sem raiz, prometida ao machado do lenhador.


DUGPA RINPOCHÊ

domingo, 24 de junho de 2012

TAO


TAO TE CHING - Lao Tse - O Livro do Caminho - Tradução de Wu Jyn Cherng


Para querer iniciar o recolhimento
É necessário consolidar a expansão
Para querer iniciar o enfraquecimento
É necessário consolidar o fortalecimento
Para querer iniciar o abandono
É necessário consolidar o amparo
Para querer iniciar a subtração
É necessário consolidar o aumento
Isto se chama breve iluminação
O suave e o fraco vencem o rígido e o forte
Os peixes não podem separar-se do lago
O reino que tem o instrumento afiado
Não pode colocá-lo à vista do homem


 MING: iluminação, tem sentido de ampliação da consciência ou o enriquecimento de uma cultura.

sábado, 23 de junho de 2012

TAO


TAO TE CHING - Lao Tse - O Livro do Caminho - Tradução de Wu Jyn Cherng


Conservando a Grande Imagem
O mundo passa
Passa sem danos
Com tranqüilidade, serenidade e supremacia
A música e as iguarias
Param o viajante
As palavras que nascem do Caminho
São insossas, carecem de sabor
Olhar não é suficiente para vê-lo
Escutar não é suficiente para ouví-lo
Usar não é suficiente para esgotá-lo

sexta-feira, 22 de junho de 2012

NOS ÚMIDOS PLANOS DAS MÃOS - JEFFERSON BESSA

"A poesia de Jefferson Bessa é difícil e bela como a existência, ou a sobrevivência, o viver entre as paredes descascadas do próprio quarto feito prisão, ou no mar que nada tem a dizer (pois é urbano)", as palavras de Rogel Samuel para o e-book Nos Úmidos Planos das Mãos de Bessa dão um indicativo do que um leitor exigente pode esperar. Desde de 2009 o autor vem divulgando seu trabalho no blog: 
PARA LER CLICK EM:

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O teatro de ouro puro em livro

O teatro de ouro puro em livro

O teatro de ouro puro em livro De saída, cabe dizer que o livro é um encantamento só. Imagino os leitores em visita à antiga casa de espetáculos, envolvidos pelo verde fusco da capa, sentindo-se personagem da obra, folheando-a, lendo trechos, encontrando-se com o diálogo vida-arte:
“A vida em Manaus era elegante, rica, alegre, no início do apogeu de uma sociedade que enriquecia rapidamente, com a extração da borracha”.
O autor de Teatro Amazonas é um escritor veterano: Rogel Samuel. Colunista de Blocos online e Entretextos. Professor aposentado da pós-gradução da UFRJ. Cronista, romancista e crítico literário. O romance, cujo projeto gráfico vale tanto quanto o conteúdo laborioso e expressivo, disseca os mistérios e nuances da construção de um dos mais famosos teatros do País, encravado no coração da selva amazônica. Eduardo Ribeiro e os piauienses Fileto Pires Ferreira, Thaumaturgo de Azevedo e José Paranaguá, figuras públicas de relevo na época têm seu lugar social revisitado. Saem da história para a ficção e reforçam o imaginário coletivo, ou dele se afastam.
A edição é da Editora da Universidade Federal do Amazonas. Em breve, disponível aos leitores, em livraria de Manaus, Teresina e Rio de Janeiro. Para leitores de outros estados,  Entretextos informará, assim que findar a greve das universidades federais, como adquirir a obra pela internet.
DO PORTAL ENTRE-TEXTOS 
 

Navio com 200 supostos imigrantes ilegais afunda ao sul da Indonésia

Navio com 200 supostos imigrantes ilegais afunda ao sul da Indonésia

Informações prévias extraoficiais sugerem que 75 pessoas podem ter se afogado; embarcação aparentemente tentava chegar à Austrália para buscar asilo

iG São Paulo |
Navios da Indonésia e da Austrália lançaram uma operação de resgate por cerca de 200 pessoas a bordo de uma embarcação que naufragou ao sul da ilha indonésia de Java enquanto aparentemente tentava alcançar a Austrália em busca de asilo, informaram nesta quinta-feira fontes oficiais australianas. Teme-se que haja vários afogados.
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O barco naufragou a cerca de 200 km ao norte do território australiano da ilha de Christmas - e a cerca da mesma distância do sul da Indonésia - com "até 200" a bordo, disse o Serviço Alfandegário da Austrália em uma declaração. Ainda não está claro de onde eram os passageiros.
"Há cerca de 40 no casco e o resto está na água", disse o comissário de polícia do Estado da Austrália Ocidental, Karl O'Callaghan. "Algumas informações prévias sugerem que até 75 pessoas se afogaram, mas não confirmo essa informação por enquanto", afirmou.
A Austrália enviou duas embarcações e um avião à zona do naufrágio, e três barcos mercantes se uniram às operações de resgate, enquanto a Indonésia encaminhou dois navios de guerra para a área. O avião de vigilância australiano informou à agência do país que avistou na água sobreviventes usando coletes salva-vidas.
"Há sobreviventes, mas não podemos confirmar o número neste momento", disse a porta-voz da Autoridade Marítima Australiana de Busca e Resgate, Jo Meehan, à emissora de rádio ABC.
Meehan indicou que os trabalhos de resgate são coordenados pelas autoridades indonésias, uma vez que o naufrágio aconteceu em seu território, e antecipou que as operações serão mantidas durante a noite.
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Gagah Prakoso, porta-voz da Agência de Busca e Resgate da Indonésia, por sua vez disse que o navio estaria com 206 a bordo, mas não soube informar o país de origem dos passageiros ou de onde a embarcação tinha partido. "Enviamos dois navios de guerra, mas considerando-se as altas ondas e o mau tempo, não tenho certeza de que chegarão ao local hoje", afirmou.
O número de imigrantes ilegais interceptados pela Marinha australiana na ilha de Christmas, ao sul da ilha de Java, cresceu em maio e junho até superar 1 mil pessoas por mês, total que não era alcançado desde 2001, segundo dados oficiais da Austrália. Muitos do que buscam asilo vêm do Irã, Afeganistão e Sri Lanka.
*Com AP e EFE