terça-feira, 11 de junho de 2019

PAULO JACOB: CHUVA BRANCA

PAULO JACOB: CHUVA BRANCA

Primeiro capítulo de «Chuva branca» (Rio de Janeiro, Ed. Nórdica, 1981. 2ª ed.)


É sempre esse rio rolando, cheias, vazantes. O barro carregado nas águas, amarelas. Pedaços de paus, tronqueiras, galhadas, matupás, canaranas membecas, murerus, correndo na correnteza, rodopiando nos remansos, nas enseadas. Menino ainda, aqui mesmo, nessa vida, mão no remo, puxando bons surubins, dos pintados, caparari. Dando adjutório no roçado, os pais ai, carregando maniva no jamaxi, basculho, roçando, limpando o terreiro. Desde menino a mesma vida, apertura que nem hoje. Tinha companheiro, nos quatro anos por ai assim. Brincadeira, era olhar o rio, jogar aninga pra jacaré, o bicho alvoriçado, a boca trancada. Agarrar urubu no anzol, arpoar boto, gostar da arrancada do bicho arrastando a igarité. Andar nos lagos, armar irapuca, apanhar rolinha, trucau, inambu. Flechar peixe, nadar quando maior. Contar vantagem de marisco, de casco bom pra furar lago, de canoa ronceira. Madeira para isso e para aquilo. Trepar nas árvores, tirar frutas, não por brincadeira, fome isto sim. Zé Pretinho também mariscava, pegava mas era só mandi. Menino entanguido, dois dentes faltando na frente, cara amargosa, empambado. Um dia o jacaré jogou o rabo no cedro, aparou o bichinho na boca. Lã se foi o companheiro. Bubuiou o sangue, a água era vermelha. A água era vermelha, cor de miséria, assim magino sempre. Na baixa das águas, pedaços de ossos se viu, branquinhos como garça. A mãe ajeitou a ossada, enterrou no aceiro da casa. Senti a ausência, mais do sangue lembrava, o tempo esqueceu. Se curumim, assinzinho, maior por dizer nada, morre por coisa pouca. Derréia, secando, o corpo descaindo, é vê cara de macaco. Afogado, defluxo, febre, desaparecido sem como se saiba. Muitas dessas. Nas cheias, a mata afogada na água. É secar, fica o barreiro na beira. Vem o sol tosta tudo, raxa. A terra é frestada e quente, esfumaça no sol. Aquela distância de lavrado, igual terreiro varrido, duro, escaldando. Primeiros dias. Azulando aos poucos, depois, o que a vista der é verde fechado. Só miséria, cor de sangue. Não fosse o lago, no tempo de carestia. .. Despensa do pessoal todo por aqui, vizinhança. Do que digo vizinhos, uma barraca aqui outra acolá naquela lonjura, curva de rio, lago, igarapé. Barro amarelo, ruim, ingrato, pobre também. Ingrato é, só dá mais é malícia, matapasto. Farinha, alguns alqueires, e só. Tentar aproveitar o eito, vá rasgar a terra, macaxeira mirrada, outra quadra a trabalhar. Esta não dá mais, cansou. Terra firme é pobre. Nessa nesga de varge, coisinha melhor. Lavada nas grandes águas, fartura se vê no plantio. É tudo assim. A mata aí confronto ao aceiro, comendo o terreiro, a capoeira engrossando. A barraca distiorada, o mato chegando perto. Telhado aberto que só renda, as estrelas entrando pela cumeeira. Respinga, mas chuva mesmo é quase um nada. Serena, sem molhar. O caminho do porto, fundo, roçado, furado de pés de tantos anos. Mulher, dois filhos, só na necessidade. Nascidos ao Deus dará, servindo de parteira à mulher. Mais o Tiririca, ossudo, pirento, cachorro bom. Alarma tudo, avisa até calango passando no terreiro. Com a onça arrepia, gane, rosna, late mas não enfrenta. É olhar um lado vê matinha de varge, ligada a matão fechado. O descampado é roça, farinha pelo menos. Chá, café às vezes, e beiju. Fome, chuva miúda, tristeza de inverno. Miséria tem cor de sangue. Deveras! Pode até ser, dar de esbarro com a anta. Rasto fresquinho vi dias passados, cortando o varadouro da terra firme. Avezou-se a comer piolhos do buriti. Não custa tentar. Até quem sabe Luís Chato. Dias sem nada em casa, na farinha com água. A meninada pedindo comer, o pessoal na fraqueza. Diabo de inverno, chuveiro danado, dificultando peixe. As águas tomando as restingas, avançando nas terras, os bichos metidos no igapó. Tem lá quem fisgue um esse que seja. Na fartura de comida lá pra eles, arisco em pegar anzol. Quando escasseia a despensa, a coisa não anda boa. Deveras, o melhor é vasculhar o vestígio da bicha, se voltou ao buritizal.

- Mulher vou ao mato, quem sabe se dá na sorte de pegar a anta.

O mais tardar à tardinha, volto. Saiu logo aí detrás do cagador cresce a mata alta, terra disconforme. Na comidia deve de estar, enquanto fruta cair não abandona. Duas ou três vezes vi rasto dela, vindo daquela direção. O rumo é este, beirando o igarapé até cruzar o primeiro afluente. Aquele do lado de lá, servindo de ponte o pau caído. Daí é centrar na terra alta, depois cortar pelo atalho da mãe-do-rio. No cuidado em centrar, com terras gerais ninguém brinca. O sol mal-a-mal dando sinal de claro de vir daquelas bandas. A ciência é não tirar vista da posição da picada. Tem outra melhor, mas muito pisada, um atoleiro dos infernos. Ainda assim é um bordejo, vai sair muito acima do buritizal comidia dela. Caminhada mais longa, arriscado espantar a bicha ao tomar chegada. Andando destabocado, distante de casa é coisa muita, pelo claro se vê. Mas deveras mesmo, o certo é especular as pegadas na travessia do varadouro, aqui ao lado. Eita! tou na sorte. Passou cedo por aqui. Terra molhada, pegada nova. Cala a boca, Luís Chato, o animal num de repente cisma, cai mata afora. Uma baitela fêmea, rasto aberto não engana. Maior que essa, só vi matar compadre Juvenal. Mas cuidado é que é, falando alto não vai prestar. E olhe só, aqui comeu a imbaúba, resina fresca escorrendo. Dessa vez, pego. Sustou seguida, rasgou o cacho do croatá. Assustou-se, cismou, que teria de havido? Afundou o pé no tijuco chega esparramou. Se anda corrida de onça, nem o diabo vai encontrar. Graças a Deus, como pensei não era, saiu devagar. Foi até ali, bordejou acolá, tomou direção naquela paragem mais entaniçada. É um fechado de cipó a atrapalhar qualquer um. Firmou caminhada nesse rumo. Com a ajuda de Deus, não passa de hoje. Começou a voltear, deve de estar deitada. Apitei, não respondeu. Andando sempre devagar, calcando leve o terreno. Ainda falsear o pé chato de merda, fez zoada. No calado, vai longe o estrupício. Se arisca, toma por outros lados. Amaciar o pé, o mais e mais. Tinha dito, dizia bem. Deitou-se, mas já se arriou de centro. Tomar reparo na cama. Fria, nem mosca por perto. Quando foi lã isso que deitou. É andar, andar, bicha danada pra rasgar mata.

--------------------------------------------

PAULO JACOB
Rogel Samuel

Sob vários aspectos, ele é o maior romancista da Amazônia.
Não é muito lido, conhecido, porque autor difícil, sofisticado.
Sua morte, no dia 7 de abril do ano passado, abre questão grave quanto à divulgação da cultura nacional brasileira.
Sua morte não chamou atenção.
Não se soube.
Eu mesmo, amazonense de Manaus, onde morava o escritor, não tive conhecimento.

*    *    *

Vim a ouvir da boca de um chofer de táxi, em Manaus, no dia 18 de junho.
Dizia-me ele:
- ...Por ali , na rua onde morava aquele desembargador, que morreu no ano passado...
A rua, cujo nome não me ocorre, fica ao lado do Igarapé.
A casa, em frente ao igarapé, exibe a vocação de Paulo Jacob. Em Manaus, mas sempre voltado para a Floresta. Que ele conheceu bem, pois foi juiz em Canutama, no rio Purus, em 1952, e durante 10 anos viajou pelo Amazonas.
Até que, nos anos 60, foi promovido a desembargador do Tribunal de Justiça.

*    *    *

Paulo Jacob escreveu muito. Muito. Cerca de 10 romances bem trabalhados.
Quase ganhou o maior prêmio nacional de literatura da sua época, o Walmap, em 1969, com «Dos ditos passados nos acercador do Cassianã», 2º lugar. Excelente livro, imenso, denso, 359 páginas de um tipo pequeno, corpo 10 (Rio de Janeiro, Bloch, 1969). 
O Walmap tinha juízes como Jorge Amado, Guimarães Rosa e Antônio Olinto.
Os três deram o 4º lugar para «Chuva branca», em 1967, um dos seus mais belos livros. Outro livro, «Vila rica das queimadas», título bem atual, ecológico, também ficou entre os finalistas do Walmap.  O título denuncia, como o livro: «O coração da mata, dos rios, dos igarapés e dos igapós morrendo», sobre o desmatamento. «Chãos de Maíconã» também «menção honrosa» do Concurso Walmap.

*   *   *

Festejado foi pela crítica, Paulo Jacob.
Leila Miccolis o considera «o Guimarães Rosa da Amazônia».
Guimarães Rosa ficou entusiasmado com «Chuva branca».
Aguinaldo Silva diz que ele fez «o primeiro grande romance da Amazônia».
Assis Brasil compara «Chuva branca» a «Sagarana» de Rosa e a «The wild palms» de Willian Faulkner.

*    *    *

Ler Paulo Jacob é dificuldade. Chega que ele, em «Chãos de Maíconã», anexou um vocabulário da língua ianoname, no fim do livro.
De um «Dicionário da língua popular da Amazônia» também ele é autor

*    *    *

Paulo Jacob nasceu em 24 de fevereiro de 1921 e faleceu no dia 7 de abril de 2004. Escreveu ainda: Muralha verde (1964), Andirá (1965), Estirão de mundo (1979), A noite cobria o rio caminhando (1983), O gaiola tirante rumo do rio da borracha (1987), além dos citados acima.

*    *    *

Em «Chuva branca», o personagem vai-se adentrando, vai-se assimilando na floresta, vai-se afastando da civilização, até que no fim parece que nem existiu - vira mito. No fim, na morte, ele tira a roupa, fica nu, perdido na mata, integrado nela, sabendo que vai morrer, perdido e integrado, no mitificado.

*    *    *

«O gaiola tirante rumo do rio da borracha» narra a viagem de um navio, um gaiola, um barco a vapor, saindo de Belém até o outro lado da Amazônia, no rio Purus até subir o rio Iaco, onde o navio naufragou e ali se soube que o preço da borracha despencara, de quinze mil réis caiu para oito, pondo na falência todos os coronéis. O personagem é o Comandante Antonio Damasceno.

*    *    *

Paulo Jacob foi professor universitário e Presidente do Tribunal de Justiça. Como Presidente de tribunal chegou a assumir o Governo do estado, em 1982. Sua morte deixa aberta a vaga de melhor romancista da região Norte.


quinta-feira, 6 de junho de 2019

O CAVALO DO APOCALIPSE

O CAVALO DO APOCALIPSE


O CAVALO DO APOCALIPSE

ROGEL SAMUEL

Leio o mágico poema de Farias de Carvalho (1930-1997), “Meu cavalo chegou”, meu ex-professor (sua filha a poetisa Graça Carvalho foi minha amiga, já falecida).
A personalidade de Farias era marcante, carismática, extraordinária e nos parecia grandioso ao falar aos alunos, a voz possante, os gestos teatrais, abertos, os grandes olhos que lembrava Orson Welles.

O poema começa com:

“Meu cavalo chegou (memória e nuvem),
 a aurora derramada sobre a crina.
 Meu cavalo chegou. Fome de tudo
 estou também: engoliremos mundos.”

Que significa esse cavalo? Pois sua poesia sempre tem isso: uma reflexão sobre o tempo, os mortos, um mergulho naquele espaço misterioso. A aurora sobre a crina, a fome sobre os mundos...

“Meu cavalo chegou. E, pressentidos,
 os caminhos me espiam de suas rédeas.
 Meu cavalo chegou. Há quanto tempo
 gasto-me em pés e olhos nesta espera...”

Os caminhos vêm das rédeas, os pés são de espera, os olhos no horizonte.
E o cavalo vem do mito, do tempo, do vento, dos espaços, da espera, da morte. Do sonho:

“Meu cavalo chegou. Eu despertava
 quando o vento falou-me de seus cascos
 e a poeira garantiu-me sua presença.”

E vem sob a poeira do tempo, sua presença neste cemitério, é o fim, cumprir-me-ei, a população desse campo o cavalo vem para completar, preencher, executar, recolher e levar os mortos:

“Meu cavalo chegou. Cumprir-me-ei.
 Tanta gente cansada nessas cruzes...
 Meu cavalo chegou. Mortos, montai!...”

Enfim, o cavalo significa a viagem, a partida, a passagem, a perda, o transporte, a fuga, o escape para a fantasia, para o mundo dos mortos, dos sonhos, do levar, do que arrasta, do que leva e retira, do afastar para sempre.
O cavalo branco retira os mortos e os apaga, no esquecimento, na névoa do nunca mais.
O cavalo chegou. Vamos partir.
--------------------------
 Meu cavalo chegou (memória e nuvem),
 a aurora derramada sobre a crina.
 Meu cavalo chegou. Fome de tudo
 estou também: engoliremos mundos.
 Meu cavalo chegou. E, pressentidos,
 os caminhos me espiam de suas rédeas.
 Meu cavalo chegou. Há quanto tempo
 gasto-me em pés e olhos nesta espera...
 Meu cavalo chegou. Eu despertava
 quando o vento falou-me de seus cascos
 e a poeira garantiu-me sua presença.
 Meu cavalo chegou. Cumprir-me-ei.
 Tanta gente cansada nessas cruzes...
 Meu cavalo chegou. Mortos, montai!...

terça-feira, 4 de junho de 2019

O IGARAPÉ DO INFERNO 1

http://oigarapedoinferno.blogspot.com/



O IGARAPÉ DO INFERNO, 1
ROGEL SAMUEL
           





            – Vou contar. O quê? Você quer que eu continue? Não, não, meu menino, dos líquidos do corpo, o pus, a gosma, a saliva, o muco, as palavras ingratas: a linfa a fonte o plasma aquoso, amarelo-transparente, entende o que digo?, enzimas, digo, ceras, seivas pegajosas, urina e cerveja, você não sabe o que isso, de ontem, de outra época, das terras voadoras das palavras verazes, elásticas, humores, borracha, pau de leite, sim, tudo que esmaga e esguicha, mas o pior é o sangue, o sangue, mas sim, você me interrompeu com perguntas, e estou pegando o rumo, e você?, e você? Eu passei a vida toda de palavras de nada





            Era assim que falava Maneco Bastos, Manuel Bastos Filho, para aquele rapaz. Ele tinha o mesmo nome do falecido pai, Manuel Bastos, dono do Bar Bacurau, na João Coelho.


            A noite prosseguia.


            Estavam na Lapa, no Rio de Janeiro. Somente poucos fregueses ali, bêbados, cansados. Clima de decadência, pobreza.


            – Pois sim sim, disse ele. Meteu a unha na fenda do parafuso, forçou, dali saiu um líquido gomoso e muito vermelho escuro, mas o parafuso não cedeu, nem se moveu, e ele quase não sentia a dor, a cabeça do parafuso fendida rasgou o dedo, pingando suor em cima, cabeça de falo e fendida, emperrado impedia a focalização do binóculo.


            Aquilo era luneta de 1845, merda, por quê?, o quê? agora o olho burro vê, focaliza, e tudo vê, bem nítido e bonito, mas a imagem da orla da Praia do Cuco, a língua branca, de açúcar, que avançava até as águas do Igarapé do Inferno.


            “Tudo bem?”, perguntou ele assim. “Aquilo se move?” Agora aquilo se move?, foi o que ele perguntou e disse, ou o que disseram que ele disse.


            Do convés do “Barão do Juruá” ele observava a orla da Praia do Cuco, a copa das arvores verdes, lindo lindo. Sim, um susto, um gesto. Que é? Não é? Continuava a se mover, tinha visto, continuava ainda vendo? Via. Com nitidez, dentro do círculo de luz do fim do foco. Do fim fundo escuro do foco. Mas nada não disse do que tinha visto e estava vendo. Nunca disse. Zequinha ficou e ninguém viu quando ele desceu do navio para a floresta, e em minutos desaparecia ali.





            Oh, oh! – disse ele. O desaparecimento de Zequinha Batelão foi um desastre! Um desastre escandaloso. Ele era dos homens mais ricos e bonitos do Amazonas, do Alto Juruá, na época. Sabe? Sabe? Um segredo: Todas as jóias da família ainda estão lá, até hoje escondidas, num cofre debaixo de uma grande pedra da Praia do Cuco. Inclusive a tiara de esmeraldas e brilhantes que pertenceu à Rainha Vitória. Mas só eu sei onde está.


            O fim de Zequinha foi lá a coisa mais misteriosa, perturbou a imaginação do povo amazônico. Hipóteses absurdas, cabeludas leseiras, injustificadas. Tolices, surpresas de todo tipo do fio fino do destino. O quê? O destino é isso, seu merda. Nós morremos e é só, morremos um pouco a cada agonia. O destino é o pré-dito, os ditos, os feitos, a trama universal. Não, não é acidental. Só quando feito não era o pretendido. Nós agarramos o destino com as mãos de sangue, com as mãos cegas, com as mãos da sobrevivência, com as mãos que sangram. O acidental não tem deliberação. Cega necessidade física. Luta de vida e de morte, contra a causalidade da sorte. Violência não – causa. Quando vejo minha vida, inteira, uma serie de anos e danos escrotos, estéreis, inúteis, impunes, sinto os acontecimentos mas sem as conexões, pois eu não sei ser: ser é esperar, ser é morrer.


            Mas com você me perco. Vamos, vamos continuar.


            Zequinha desapareceu em 1912. Tinha 22 anos. Já vendido o Seringal Manixi a um homem chamado Ferreira, Dr. Antonio Ferreira, de Manaus.


            Zequinha tinha chegado da Europa, Paris era um luxo, eu estive em Paris, morei em Paris, na Rua Fondary, 30, no Hotel Fondary. Era perto da Torre. Zequinha liquidou tudo, menos o “Palácio Manixi”, o "art-nouveau" palácio, como esta minha pessoa diz que aqui falo. Adiou o regresso, meses e meses, e não tinha pressa, esperava acontecimentos.





            Zequinha era um rapaz estranho. Mas o descompasso, o contraditório, ah isso era, delicado selvagem culto. Os cabelos lisos e pretos como a mãe índia, quíchua. Ele era uma mistura de índia com uma princesa espanhola. Família Cellis. Olhinhos também pretinhos, muito vivinhos e pretos. Lábios sensuais. Príncipe! Príncipe amazônico, selvagem, sofisticado, adamado, maneiro. Pois a que beleza se reduz a só. Você é belo? O belo é o que aparece belo, para mim só. Ser é parecer. Eu fui, na juventude. Eu era um luxo. Nessa idade? O quê? Quantos anos tenho? Ah, ah, não digo não, no esconso. Tenho o tenho, no que dá. Você quantos tem? Pois, meu caro, meu caríssimo. Nenhuma, você está bêbado, você quer agradar porque eu pago. Faz bem. Continue assim. Mas era assim. Um instinto social, no que de uma propriedade das coisas, um fato em si, mas de um valor lógico, do desejo, da utilidade, do prazer, da vida, valores cognitivos. O Belo é apenas uma frase. Um atributo. Mas eu esqueço que você só tem uns poucos anos. Eu vi, vivi, estou à morte. Estou à morte. Ah, ah, ah. Sim sim. A mor-te! Ah, ah, – ria-se ele.