domingo, 30 de novembro de 2014

DNA


SARKOZY

UMP : « Pas de chèque en blanc » pour Sarkozy

Le Monde.fr | • Mis à jour le | Par      

Le nouveau président de l’UMP, qui s’exprimera dimanche lors du journal de 20 heures de TF1, pourra mesurer l’ampleur de la résistance à laquelle il doit faire face en interne.

Dix ans après sa première élection à la présidence de l’Union pour un mouvement populaire (UMP), Nicolas Sarkozy est revenu, samedi 29 novembre, aux manettes du parti. L’objectif reste le même : transformer l’appareil partisan en une machine de guerre électorale pour conquérir l’Elysée. La stratégie aussi : comme en 2004, il se pose en rassembleur du principal parti de droite. Mais son score est différent : il est près de 20 points inférieur à celui qu’il avait obtenu (64,5 % contre 85 %).

La victoire est là, mais on est loin du plébiscite espéré un temps par les sarkozystes. Le principal enseignement : l’ancien chef de l’Etat n’a pas tué le match à droite dans la course pour 2017. Sa petite victoire ne lui permet pas d’écraser la concurrence dans la nouvelle campagne qui débute, celle de la primaire de 2016 pour la présidentielle. M. Sarkozy n’a pas réussi à obtenir un score soviétique et à s’imposer comme le candidat naturel de son camp pour la présidentielle, comme cela avait été le cas il y a dix ans. Résultat : celui qui s’imagine comme le chef incontesté de son camp n’a pas les pleins pouvoirs. Le successeur de Jean-François Copé va devoir composer avec ses rivaux.
Et d’abord avec Bruno Le Maire, qui est l’autre gagnant du scrutin interne. En obtenant plus 29,18 %, le député de l’Eure a réussi son pari : il a émergé en portant le thème du « renouveau ». Il a montré qu’il faudrait désormais compter avec lui à droite. M. Le Maire, qui entend « garder [sa] liberté » pourrait profiter de la dynamique pour se déclarer candidat à la primaire. En attendant, Nicolas Sarkozy a déjà prévenu de s’entretenir avec lui lundi matin, comme avec les autres responsables du parti.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

NEUZA MACHADO: O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE

NEUZA MACHADO: O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE
 
SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL
 
Contudo, são os mítico-ficcionais Numas que estão aqui, nas páginas deste meu artigo teórico-interpretativo, como assunto de comentários reflexivos. E se, como diz o narrador-personagem, o Ribamar de Sousa, “a vida é um caminho que de repente se bifurca”, observo a seguir outras informações estimáveis.
“Nessa matéria nada é absoluto” (ou seja, pela via do dicionário português-brasileiro, “não tem limites”, “não sofre restrição de espécie alguma”, “não enuncia um sentido completo”, “não é narrativa autoritária”, “não é um narrar despótico, imperioso, soberano, incondicional, incontestável”, qualquer que seja a definição do termo “absoluto”), diz o narrador, reafirmando, por via ficcional, o que, reflexiva e teoricamente, procuro assegurar, pela diretriz do conhecimento fenomenológico, como narrativa pós-moderna/pós-modernista de Segunda Geração. “Nada é absoluto”, porque, para criar um texto narrativo, diferenciado das narrativas exemplares, lineares e absolutas, e para interagir com o arcabouço mítico-indígena da realidade sócio-mítica amazonense (que diligencia elevar a figura do índio de sexo masculino, forte, destemido, possuidor de “grosso falo” como símbolo de “dinâmica sexualidade”), o escritor, de origem manauara, obrigou-se criativamente e ficcionalmente a recuperar os traços do conhecimento coletivo e abrangente (formal e impositivo) de seu (do autor) anterior meio social citadino, por questões substanciais ainda relacionados com a história primitiva do homem brasileiro civilizado.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

NEUZA MACHADO: O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE


NEUZA MACHADO: O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE

SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL

Entretanto, de acordo com esta narrativa histórico-mítico-ficcional, especialmente, os Numas “não ficavam visíveis, às claras”. Seriam eles os míticos Numes de passados relatos simbólicos, aquelas aéreas divindades mitológicas que se elevavam no ar por meio de influição divinizadora? Seriam eles os antigos gênios alados, só perceptíveis por meio de espiritualíssima intuição? Ou foram germinados e multiplicados, simbolicamente e criativamente, a partir da deusa suméria Inanna, protetora da guerra e do prazer sexual, associada ao vento, enquanto divindade mítica? Se por vezes penso nas genealogias dos diversos arcabouços míticos-religiosos da humanidade, percebo sempre uma espécie de confluência aproximando os relatos.
“Não ficavam visíveis”: repenso a informação reflexivamente, porque esta fase do romance se desenvolverá por intermédio do patrocínio de reminiscências caprichosas do imaginário mítico-familiar, todas interligadas aos diversos narrares tradicionais da realidade mítico-indígena-e-social brasileira. Tais narrativas, indiscutivelmente poderosas, heroicamente/simbolicamente personificadas por criaturas aladas extraordinárias, foram, são e sempre serão representativas das potências da natureza e das incríveis incomuns qualidades do ser humano. Em outras palavras, os Numas ascendem, ficcionalmente e miticamente, por intermédio do poderoso tronco familiar, primitivo e ímpar, do índio amazonense, oriundo das altas e inóspitas regiões andinas. O mencionado tronco, certamente, no meio dos infindáveis inter-relacionamentos sócio-culturais, foi realçado como fundamento sanguíneo intercambiável, digno de ser aceito como altamente proveitoso no âmbito da real miscigenação da sociedade manauara e brasileira, altiva e historicamente preconceituosa, uma vez que o glorioso mito do ativo exercício do poder estará sempre e indissoluvelmente interligado às grandes alturas, pouco hospitaleiras.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

OMANIXI


 
POR NEUZA MACHADO
 
O Manixi da narrativa rogeliana poderá ser visto pelo mesmo prisma que revelou aos leitores universais o Sertão ficcional de Guimarães Rosa. Assim como o Sertão roseano, oriundo do sertão de Minas Gerais, que “está em todo lugar”, como diz Riobaldo (o personagem-narrador de Guimarães Rosa), do mesmo modo percebo o Manixi ficcional rogeliano. Assim como o Sertão de Guimarães Rosa foi visto, por mim, em meu livro, Do Pensamento Contínuo à Transcendência Vital (do cogito(1) ao cogito(3)), como um reflexo da casa primordial, repensada a partir da ciência filosófica de Gaston Bachelard, da mesma forma o espaço ficcional do Manixi será aqui interpretado. A narrativa revelou-me, e revelará aos futuros leitores rogelianos, as íntimas lembranças (memória) e recordações (matéria poética) do narrador amazonense, sobre a sua “casa primordial” inesquecível. Os sentidos vitais (auditivos, visuais, nasais, táticos, gustativos), provindos da infância e adolescência, vividos ali, permaneceram/permanecem intensos e persistentes em suas lembranças poetizadas, mesmo que ele esteja hoje distanciado geograficamente de seu lugar de nascimento, e são percebidos liricamente (matéria lírica interferindo no relato ficcional) ao longo da narrativa. Quem se lembra (recorda ficcionalmente) do Igarapé do Inferno (por que “do Inferno”?) e de toda aquela paisagem dantesca é o segundo narrador, originário do entrópico século XX. O personagem-narrador Ribamar de Sousa apenas se coloca como o porta-voz de suas reminiscências (ou o duplo, ou a máscara ficcional do criador singular atavicamente preso às lembranças e recordações do passado, fossem boas ou más).
 “Pois nós retornávamos em busca daquele passado interdito, pois nós chegávamos no fim daquela era, quando o Palácio transparecia com deslumbramento nos seus múltiplos reflexos das quinquilharias de cristal, janelas e bandeiras das portas transformadas em lúcidas placas de ouro reluzente e vívido e muito louco”, afirma(m) o(s) narrador(es) (s). O primeiro narrador, Ribamar de Sousa (reduplicado por uma pluralização pessoal) chega ao Palácio Manixi quando este já começava a apresentar-se em seu processo de decadência. Para revelá-lo reflexivamente aos leitores atuais e do futuro, buscarei reforço analítico-interpretativo na Poética da Casa de Gaston Bachelard e em outras interferências filosóficas (citações), valiosas, retiradas dos diversos livros de sua fase noturna. O Palácio, a Floresta, a Cidade, todos os planos desta obra diferenciada se distinguem a partir de um único princípio, ou seja, refletem a “casa inesquecível” de que nos fala Bachelard, com seus recantos secretos aninhados no mais profundo dos pensamentos. Por isto, o “Igarapé do Inferno” (por que Igarapé do Inferno?) se revela a sinalizar íntimas lembranças infernais, lembranças que obrigam o primeiro narrador a revelá-las. Quem está buscando o “passado interdito” é o segundo narrador, porque foi ele, enquanto singularidade ativa de seu núcleo social primitivo, que chegou ali, pelo nascimento, já no final de uma era de glórias capitalistas, já no início da decadência do esplendor da borracha.
O Palácio Manixi como reflexo das ruínas da casa natal. O Palácio como reverberação das perdas existenciais de um narrador invulgar que poderia ter nascido, crescido e permanecido na opulência, por ser herdeiro de nomes notáveis (perdidos, por interferência de durações mal administradas), mas que se viu na contingência de sair pelo mundo (assim como o Ribamar de sua história), “a criar [suas] próprias pélas” . O segundo narrador, certamente oriundo de famílias destacadas daquele passado de glórias, poderia ter sido, naquelas paragens de nascimento, um Zequinha Bataillon bem edificado. A crise da borracha decidiu o contrário. Seu parente Maurice Samuel (citação do romance), rico judeu-francês, figura de destaque na cidade do princípio do século XX, perdeu toda a sua fortuna, quando da recessão econômica da borracha, ficando na bancarrota. Foi, talvez, a partir da imagem de Maurice (possivelmente e sintagmaticamente, sempre destacada com reverência e respeito), metaforicamente assimilada (somatório) às antigas figuras dos chefes políticos manauaras, que houve surgir representações/recriação do poderoso Pierre Bataillon.
Recuperando as informações bachelardianas, contidas no capítulo “A dialética do energismo imaginário” , do livro A Terra e os Devaneios da Vontade, e se as comparo com as informações contidas no texto ficcional rogeliano, a delineação de grande efeito, poderosa, do personagem Pierre Bataillon, se tornará mais transparente.
Bachelard diz: “A vontade de poder inspirada pela dominação social não é nosso problema”, quer dizer, não é problema do filósofo (não é problema dele, do Gaston Bachelard). E continua: “Quem quiser estudar a vontade de poder é fatalmente obrigado a examinar primeiro os signos da majestade”, e isto é um problema do ficcionista-criador, e neste caso específico, do ficcionista manauara. Quem terá de se deixar seduzir momentaneamente pelo instante metafísico pós-moderno/pós-modernista de Segunda Geração, pelo “hipnotismo das aparências”, dos simulacros cotidianos que imperam em seu momento histórico, e quem terá de se embaraçar nos “ouropéis da majestade” de um personagem ímpar, poderoso, é o “demiurgo do vulcanismo”, conectado indissoluvelmente e indistintamente ao “demiurgo do netunismo” ─ o demiurgo da terra flamejante acoplado ao demiurgo da terra molhada ─ [oferecendo] “seus excessos contrários à imaginação que trabalha o duro e àquela que trabalha o mole”. “A vontade de trabalho não pode ser delegada, não pode usufruir o trabalho dos outros”, explica Bachelard. Então, a “vontade de trabalho” ficcional do narrador pós-moderno, extremamente diferenciada, ao revelar a grandeza e declínio da Era da Borracha, no Amazonas, não poderá ser avaliada como subproduto de suas inúmeras leituras (históricas ou não) sobre o assunto. Sua “vontade de trabalho”, ao intuir a sua ficção singular, ultrapassou os limites do explicitamente oferecido. Sua “vontade de trabalho” criou “as imagens de suas forças” narrativas, forças que o animaram “por meio das imagens materiais”, ficcionistas, de um Manixi esplendoroso e de um Pierre Bataillon repleto de um supremo poder (o poder capitalista selvagem que grassou no Amazonas, a partir do século XIX até meados do século passado ─ século XX ─, e que se enfraqueceu, posteriormente, retirando do lugar o esplendor de outrora).

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

MEDITAÇÃO NO PARQUE

MEDITAÇÃO NO PARQUE
 

Rogel Samuel

 
            Meditação no parque. Vento frio, apesar do verão. Frio, em Poços de Caldas. Reflexão no Parque. O ano de 2003. Passou. A criança passa, passa por mim, na pequena bicicleta. Olha para mim. Sorri. Nenhum plano, para o futuro. O futuro, esse não existe. Possivelmente não, nada será igual ao que planejamos. 2003 sim, foi muito bom. Mesmo. Passou, mas valeu. Se tive lá o meu cálice de lágrimas, também sorvi, e com avidez, a minha taça de prazeres e realizações. De um certo ponto de vista, esse foi um dos melhores tempos de toda a minha vida.  Não, não se deve pensar em melhorar o que é, o que está, e está bem em sua própria natureza de ser. A vida, esta coisa se oferece, como ampla paisagem, - nós tomamos o rumo. A vida é restauração, é tempo, tempo que se esgota, que se encurta, momento a momento, cada vez menor. Menos tempo, menos vida, a cada respiração mais próximos do fim, a temporalidade se põe no horizonte, como o sol, ainda muito brilhante, mas cadente. Que fizemos nós, do tempo que dispomos? Dizia o mestre Suzuky: «O Zen ordena que neguemos tudo o que se atravesse em nosso caminho, e mesmo essa tentativa de negar deve ser negada». Toda experiência de vida é única, se recusa a ser explicada. A vida, - um presente que recebemos devido à nossa coragem, ao nosso amor, ao nosso interesse pelas outras pessoas. Que fizemos nós, em 2003, na vida? Da vida? A que tipo de vida nós nos propusemos? Somo todos esquecidos,  vivemos sonâmbulos ou irrequietos. Nós nos esquecemos dela, da vida, seja o que for, do viver com amplidão de sentido. Nos esquecemos. Em 2003 escrevi essas crônicas. Com regularidade. Tive quem mas lessem. Tive alguns bons leitores. De qualidade. Veja você. Há uns poemas de Saichi, o carpinteiro poeta, que dizem:
 
                                    Onde estas tu, Saichi? No céu?
                                   Aqui é o céu.
 
                                   Esse eu, com um olho dado por ti,
                                   O olho que te vê.
 
                                  
            Soam agradavelmente aos ouvidos os ruídos do parque. Algumas vozes. Longínquas. Gritinhos estrídulos, crianças, pássaros. As velhas andam, vagarosas. Pesadas de passado. Se se libertassem do passado, dançariam, livres, leves, soltas no ar como nuvens. Como pássaros. O passado tem seu peso morto, acumulado, lastro do navio casco cheio de lodo ferro. Entre as flores passam jovens namorados, ainda jovens, ainda puros. Ele acreditam no amor, acreditam na vida. Seus corpos belos frescos, eles irradiam felicidade. Rosas. Eu hoje acredito no amor. Acredito na vida. As rosas abertas ao verão, às chuvas de verão. Sinto-me irmão daquelas velhas, confuso, lúcido, como os namorados, as crianças. Escreveu Fernando Pessoa (ou melhor Ricardo Reis, seu outro):
 
                                   Prazer, Mas devagar,
Lídia, que a sorte àqueles não é grata
Que lhe das mãos arrancam.
Furtivos retiremos do horto mundo
Os depredandos pomos.
Não despertemos, onde dorme, a Erínis
Que cada gozo trava.
Como um regato, mudos passageiros,
Gozemos escondidos.
A sorte inveja, Lídia. Emudeçamos. 
 
Sim, Pessoa, ou Ricardo Reis, tão sábio. As Erínias eram as Fúrias, seres terríveis que representavam o restabelecimento da Ordem, destruída por um crime. Eram vinganças vivas, e viviam no Erebo. Seres anteriores ao próprio Zeus. Geralmente havia três deusas, três Fúrias, tinham víboras em lugar de cabelos, cara de cão, corpo de vampiro, os olhos sanguíneos. «Erinis» significa «odiosa». O chamá-las de «Fúrias», como os Romanos, significava que eram «a loucura da vingança». Pessoa considera o prazer como um «crime», ou melhor, ele criminaliza o prazer do amor, o resvala na sua sexualidade. «Não despertemos, onde dorme, a Erínis / Que cada gozo trava»,
significa «gozemos escondidos». Como um regato entre árvores, como passageiros mudos, como adolescentes em «pecado», gozemos no escondido, no escuro, ou nas sombras do parque desta meditação do parque, com o cuidado e o medo do despertar policial das Erinis.
 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Morre o ex-ministro Marcio Thomaz Bastos

Morre o ex-ministro Marcio Thomaz Bastos Faleceu, nesta quinta-feira, o ex-ministro da Justiça Marcio Thomaz Bastos, que foi diagnosticado com um câncer pulmonar; ele estava internado no Sírio-Libanês e vinha conduzindo a defesa de duas empreiteiras envolvidas na Operação Lava-Jato: a Odebrecht e a Camargo Corrêa; antes de morrer, ele tentou um acordo de leniência entre as empreiteiras e a Justiça Federal, que foi rejeitado pelo Ministério Público

    

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Editora Entretextos na Fliporto 2014

Editora Entretextos na Fliporto 2014 Editora Entretextos na Fliporto 2014 As edições realizadas pelo Portal Entretextos,  que é formalmente editora desde 2013, marcaram  presença na Fliporto 2014. A editora trouxe para a feira três de suas publicações. Ares e Lares de Amores Tantos, de Dílson Lages Monteiro, lançado oficialmente na Feira do Livro de Pernambuco, e os livros Modernas Teorias Literárias - Breve Introdução (coautoria com Nova Alainça), do crítico literário, romancista e professor Rogel Samuel,  e Memorial do Ouro, de Gilberto de Abreu Sodré Carvalho. 
O ensaio de Rogel, ideal para adoção em faculdades de letras, esgotou-se já no segundo dia do evento. Para o diretor de Entretextos, o professor, editor e escritor Dílson Lages, a Editora pretende resgatar autores piauienses de domínio público, com obras de notável valor literário, mas  injustiçados pelo sistema literário. Além de textos nessa linha, Entretextos edita também ensaios acadêmicos consagrados ou que possam contribuir  a fim de lançar novas luzes sobre a literatura. 

domingo, 16 de novembro de 2014

LER OU ESCREVER


LER OU ESCREVER

Rogel Samuel

Há escritores que leram muito. Guimarães Rosa, por exemplo. Há outros que pouco leram, com Barthes. Este, disse uma biógrafa, leu pouco, pois escreveu sobre tudo o que leu. Rosa era um erudito, dominava vários idiomas. Como Borges. Há quem passe horas lendo. Como Foucault. De quem se disse que era o primeiro que chegava e o último que saía da Biblioteca Nacional. E tinha memória fotográfica. Ele certa vez ouviu uma conferência de Ricoeur às gargalhadas. Estava no fundo da sala, com seus admiradores. Debochava, irônico (era terrível). No outro dia, mostrou que tinha gravado na memória tudo o que foi dito e sobre isto deu uma aula, desmontando, ponto por ponto, o assunto. Ele era assim, segundo seu biógrafo. Péssimo caráter. Detestado por todos (no meio acadêmico todos se detestam entre si). Mas “era o homem mais inteligente que já apareceu”, disse um crítico. Estava à esquerda da esquerda. Portanto há quem leia muito e quem leia pouco, mas bem. Uma hora por dia. Como o sábio erudito Gaston Paris, que era enciclopédia viva. Quando perguntaram qual o segredo de sua imensa cultura, ele respondeu: “Leio uma hora por dia”. Há, por fim, escritores que leram muito e escreveram pouco. E outros, ao contrário, que preferiam escrever a ler.
Há uma fórmula americana de como ler, que diz: “SurveyQ3r”. A primeira leitura é “survey”, de pesquisa, uma olhadela geral rápida. Folhear o livro. O “Q” é de “question”, dúvidas, derivadas dessa pesquisa rápida. Aí vem 3 “r”. O primeiro é de ler (read), o segundo é de reler, o terceiro de resumir. Mas cada um tem seu jeito.

Modernas Teorias Literárias na FLIPORTO

Amigo Rogel, boa notícia. Ontem fui ao estande da Carpe Diem e seus livros tinham vendidos todos. Carpe Diem Editora vendeu seu livro na Fliporto deste ano. Fiquei muito feliz. Na segunda, tenho conversa pra viabilizar a distribuição dele pela Cultura. Espero que tudo dê certo. Estou feliz com a boa acolhida de Modernas Teorias Literárias.
Dilson Lages lança na Fliporto 2014
Dilson Lages lança na Fliporto 2014
A Feira Internacional do Livro de Pernambuco, que completa cinco anos de realização ao lado da Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), começa nesta quinta-feira, 13/11, indo até o domingo, 16/11, no Parque do Carmo, em Olinda. O evento contará com mais de 100 lançamentos de títulos inéditos e sessões de autógrafos com autores novos e nomes já consagrados no mercado literário. A expectativa, segundo a organização, é receber nos quatro dias de eventos mais de 100 mil pessoas.
 
“Temos mais de 100 editoras distribuídas em 70 estandes no ambiente da Feira. Com a venda de títulos de todos os gostos, dos clássicos aos mais contemporâneos e com preços a partir de R$ 2,00”, disse Alventino Lima, presidente da Associação do Nordeste das Distribuidoras e Editoras de Livros (Andelivros) e coordenador da Feira. Segundo ele, o evento está três vezes maior que a última edição e a entrada franca permite que todos os públicos sejam atingidos.
 
O homenageado deste ano é Raimundo Carrero, autor pernambucano que, curiosamente, foi vendedor de livros para Alventino Lima. “Conheço Carrero de longa data. Nos anos 60 ele foi vendedor de livros para mim e, hoje, tenho a enorme honra de vender os livros dele”, conta Lima. Durante o evento, Carrero irá autografar duas obras, A História de Bernarda Soledade – A Tigre do Sertão, que agora ganha versão francófona lançada em francês, e O romance do bordado e da pantera, inédito. A Feira abre todos os dias a partir das 10h e encerra as atividades às 22h, as sessões de autógrafo ocorrerão dentro dessa grade de horário, preferencialmente no período vespertino e noturno.
 
SESSÕES
 
Na programação do evento serão realizadas sessões de autógrafo e bate-papo com autores. Entre os confirmados estão: Chico Ferreira, autor de Chico, um baú cheio de causos; Selma Vasconcelos, com No curso da história: crônicas; Otelo Schambach, com Conversando com o Pediatra; e Paulo Markun, com Brado Retumbante – A Luta pela Democracia.
 
Já entre os que lançam inéditos: Rosenita Ribeiro de Souza, com Natureza Viva; Rose Oliveira, com Transparentes como eu; Dilson Lages Monteiro, com Ares e lares de amores tantos; Juliana Spinella, com Dores e Delícias – Do blog ao livro; e Raimundo Carrero com o lançamento da edição francesa de Bernarda Soledade, tigress du sertao.
 
Foto: Beto Figueirôa
 
V Feira Internacional do Livro de Pernambuco
 


Dilma: Lava Jato "vai mudar o Brasil pra sempre"



Dilma: Lava Jato "vai mudar o Brasil pra sempre"
Em Brisbane, na Austrália, onde participa da reunião do G20, o grupo dos vinte países mais ricos do mundo, a presidente Dilma Rousseff defendeu o aprofundamento das investigações da Operação Lava Jato; segundo ela, o caso "mudará para sempre a relação entre a sociedade brasileira, o Estado brasileiro e a empresa privada porque vai acabar com a impunidade"; ela também tratou com naturalidade as manifestações que pedem impeachment e volta dos militares; "O Brasil tem uma situação democrática consolidada e, por isso, faz parte da nossa história tolerar as manifestações, mesmo as mais extremadas"

16 de Novembro de 2014 às 07:18

sábado, 15 de novembro de 2014

O ROMANCEIRO

O ROMANCEIRO
 
Rogel Samuel
 
No início do "Romanceiro da Inconfidência", há uns versos que dizem:
"Não posso mover meus passos / por esse atroz labirinto". Cecília parece perdida no passado daquela história. "- pois sinto bater os sinos / percebo o roçar das rezas, / vejo o arrepio da morte, / à voz da condenação". Esses versos sempre me impressionaram, sempre me lembraram Minas, São João del Rey, Ouro Preto. Em Ouro Preto há uma estátua que simboliza a Justiça, a Culpa, o Medo, o Terror. É um ser assexuado, que segura uma espada apontada para fora, para o espectador, para mim. Uma espada pontiaguda, aguda e fina. Os lábios estão sorrindo, como deve sorrir a Morte, a Tortura, a Dor. Remete a um outro poema do "Cancioneiro": - o cenário: "Eis a estrada, eis a ponte, eis a montanha / sobre a qual se recorda a igreja branca. // Eis o cavalo pela verde encosta. / Eis a soleira, o pátio, e a mesma porta. // E a direção do olhar". Não sei por que sempre associei este olhar com a ponta daquela espada. A estátua está sentada e aponta da espada para frente. É uma alegoria do poder, e fica no alto da casa onde o Poder se exercia, talvez "A Casa do Contos". Não. Não me sinto bem, em Ouro Preto. Assim como São João Del Rey me parece uma cidade em luto. "Correm avisos nos ares, / Há mistério em cada encontro". Tudo se mistura com cartas, amores, traições. Símbolos. "O país da Arcádia / jaz dentro de um leque". O sorriso da maldade à "cálida luz de trêmulos pavios". Ninguém conseguiu a metáfora do passado, como este poema. "Assim viveram", diz ele, a todo instante. A espada, a cruz, o louro. Cecília escuta o tempo, as rosas, os muros. As vozes vêm de 1700, o vento é testemunha: "Selvas, montanhas e rios / estão transidos de pasmo." Há perguntas em toda parte, em toda sombra, em cada rasto. Cecília busca o passado como quem cata ouro. Teme queimar seus dedos com a ponta daquele inferno, daquela espada. Pois "a sede de ouro é sem cura".
 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MORRE MANOEL DE BARROS

Considerado um dos maiores autores da língua portuguesa, o poeta mato-grossense estava internado desde o último dia 24 no Hospital Proncor, de Campo Grande (MS), devido a uma obstrução intestinal. Segundo a assessoria do hospital, o poeta faleceu às 8h05, devido à falência múltipla dos órgãos

13 de Novembro de 2014 às 11:26

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

MORRE LEANDRO KONDER



Morre no Rio o filósofo marxista Leandro Konder
Filósofo marxista Leandro Konder morreu nesta quarta (12), em casa, aos 78 anos, de acordo com informação do Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde Konder lecionava na pós-graduação; autor de mais de 20 livros, o filósofo contou sua biografia em Memórias de um Intelectual Comunista (2008); velório está marcado para às 15h de amanhã (13), no Cemitério Memorial do Carmo

 

CANTIGAS DE FRANÇA

CANTIGAS DE FRANÇA

Genesino Braga

 
Venho de ouvir canções de França, que um chansonnier do mundo alto deixou escapar pela filtração de sua garganta de musgos brandos. Agora, eu trago mais um pouco daquela espiritualidade que iluminou Sarah Bernhardt e Mounet-Sully, que sublimou Musset e Flaubert e que deu a euforia das cores a Renoir e o segredo dos sons a Massenet. Agora, eu sinto mais soberba a força espiritual daquele “Allons enfants de la patrie” que o cântico heróico universalizou em compassos imortais.
O cantor nos transmite, pelos vitrais da sua voz, a luz coada de uma França povoada de imagens felizes. Suas canções estão cheias da ternura e da ironia daqueles vetustos recantos de chão querido, por onde vagaram santos e poetas, distribuindo, entre os homens e as coisas, muito vidro translúcido de Evangelho e os mosaicos de sol da Poesia. Falam-nos de paisagens singelas da campanha, do espírito de um provérbio cheio de bom senso, de algum cenário de porcelana rente ao Loire, de velhas fábulas e canções na boca dos paysannes – e tudo isso num modo de contar e de cantar que é o mais doce e o mais ático do mundo.
Porque, no repertório outado do chansonnier, desfilam as coisas belas, as coisas boas e as coisas amadas da amada França: desde o donaire dos figurinos de Lanvin e de Patou ao cosmopolitismo da Praça Pigalle; desde a suavidade dos perfumes de Guerlain e de Chanel ao formigamento das midinettes descendo das praças para o métro; desde o bouquet dos vinhos de Bourgogne – o Chambertim, o Pommard, os Rosés, o Chablis – ao intrincado das vielas do Templo ou das rampas de Montmartre. Paris está presente naquelas blagues, naquelas estrofes, naquelas boutades do “Ce Soir”, do “C’est si bon”, do “Pigalle”. Toda Paris, absorvente e seducente, com seus teatros, seus cafés, seus cabarés, seus boulevards; a Paris das perspectivas, dos cais do Sena, dos jardins, dos bois, dos museus, da mocidade alegre da Sorbonne e das modas femininas em linhas gráceis e volúveis; a jovem Paris eterna, Paris do amor, do espírito, do trabalho, do gênio, da poesia, da arte, da ciência, da razão de viver; a Paris das mulheres caindo como andorinhas e pétalas sobre a Praça Vendôme e a Concórdia; a Paris das noites feéricas alteando as letras lucifúlgures do “Moulin Rouge”, do “Bal Tabarim”, do “Shéhérazade”, com coristas e vedettes de todas as pátrias, suas cançonetas maliciosas, suas folias...
Toda a França, que tanto amamos e cultuamos, escorre e transborda nas canções que venho de ouvir. A teia de encanto e de afeto, que envolve de longe a saudade do cantor, é a líquida encarnação do mais puro e do mais alto lirismo que emana e esvaza daquelas estrofes sensitivas, plasmando a graça e a verve do encantador espírito de França.
Cantigas de França sempre me embalam e acalentam o coração... 
 
 

sábado, 8 de novembro de 2014

Como se fabrica a opinião pública (*)



Como se fabrica a opinião pública (*)
 
Pierre Bourdieu 


 De origem campesina, filósofo de formação, foi docente na École de Sociologie du Collège de France. Desenvolveu, ao longo de sua vida, diversos trabalhos abordando a questão da violência simbólica, da dominação e é um dos autores mais lidos, em todo o mundo, nos campos da antropologia e sociologia, cuja contribuição alcança as mais variadas áreas do conhecimento humano,discutindo em sua obra temas como educação, cultura, literatura, arte, mídia, linguística e política.


Como se define o espaço dos discursos oficiais, por meio de que prodígio a opinião de uma minoria se transforma em “opinião pública”? É isso que o sociólogo Pierre Bourdieu explica neste texto extraído de “Sur l'Etat. Cours au Collège de France 1989-1992? (Raisons d'Agir-Seuil, Paris, 2012).

Oficialidade, a má-fé coletiva
Uma das dimensões muito importantes da teatralização é a teatralização do interesse pelo interesse geral; é a teatralização da convicção do interesse pelo universal, do desinteresse do homem político – teatralização da fé no padre, da convição do homem político, de sua confiança naquilo que faz. Se a teatralização da convicção faz parte das condições tácitas do exercício da profissão de clérigo – se um professor de filosofia deve parecer acreditar na filosofia -, é porque é a homenagem fundamental do personagem oficial para com a autoridade; é aquilo que precisa conceder à autoridade para ser uma autoridade, para ser um verdadeiro personagem oficial. O desinteresse não é uma virtude secundária: é a virtude política de todos os mandatários. As escapadelas dos padres, os escândalos políticos são o colapso dessa espécie de fé política na qual todos estão de má-fé, a fé sendo uma espécie de má-fé coletiva, no sentido sartriano: um jogo no qual todos mentem a si mesmos e aos outros, sabendo que os outros também mentem a si mesmos. É essa a autoridade…

Pierre Bourdieu
Tradução: Mario S. Mieli

____________(*) Publicado no Le Monde Diplomatique – Il manifesto, via micromega Janeiro de 2012
Fonte:
http://imediata.org/?p=1189
Página atualizada em 5 de maio de 2014

A LUTA FEMINISTA NO CENTRO DOS COMBATES POLÍTICOS (*)



A LUTA FEMINISTA NO CENTRO DOS COMBATES POLÍTICOS (*)
Da dominação masculina
A dominação masculina está tão arraigada em nosso inconsciente que não a percebemos mais, tão de acordo com nossas expectativas que até nos sentimos mal em questioná-la. Mais do que nunca, é indispensável destruir as evidências e explorar as estruturas simbólicas do inconsciente androcêntrico que sobrevive nos homens e nas mulheres. Quais são os mecanismos e as instituições que realizam o trabalho de reprodução do “eterno masculino”? É possível neutralizá-los para liberar as forças de transformação que eles conseguem obstruir?
POR PIERRE BOURDIEU
Tradução: Márcia Sanchez Luz
Sem dúvida, eu não estaria me defrontando com um tema tão difícil se eu não estivesse amparado por toda a lógica de minha pesquisa. Nunca deixei de me espantar diante do que poderíamos chamar “o paradoxo da doxa” (1): o fato de que a ordem do mundo, tal como é, com seus sentidos únicos e seus sentidos proibidos, no sentido exato ou no sentido figurado, suas obrigações e suas sanções, seja a grosso modo respeitada, onde não teriam vantagem alguma as transgressões ou as subversões, os delitos e as “loucuras” (basta pensar no extraordinário acordo de milhares de disposições – ou de vontades – que admitem cinco minutos de circulação de automóveis na Praça da Bastilha ou na Praça da Concórdia, em Paris). Ou, ainda mais surpreendente, que a ordem estabelecida, com suas relações de dominação, seus direitos, seus privilégios e suas injustiças, se perpetue em definitivo tão facilmente, deixando de lado alguns acidentes históricos, e que as condições mais intoleráveis de existência possam parecer freqüentemente aceitáveis e até mesmo naturais.
Sempre vi na dominação masculina, e na maneira pela qual ela é imposta e suportada, o exemplo por excelência desta submissão paradoxal, efeito do que chamo de violência simbólica, violência doce, insensível, invisível para suas vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias simbólicas da comunicação e do conhecimento – ou, mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento ou, em última instância, do sentimento.
Esta relação social tão medíocre oferece assim uma ocasião privilegiada de perceber a lógica da dominação exercida em nome de um princípio simbólico conhecido e reconhecido pelo dominante e pelo dominado, uma língua (ou uma pronúncia), um estilo de vida (ou um modo de pensar, de falar ou de agir) e, geralmente, uma propriedade “distintiva”, emblemática ou “estigmatizada”, na qual a mais eficiente, simbolicamente, é esta propriedade corporal completamente arbitrária e não previsível que é a cor da pele.
Vê-se bem que nesses casos trata-se antes de tudo de restituir à doxa seu caráter paradoxal, e ao mesmo tempo desarmar os mecanismos responsáveis pela transformação da história in natura, do arbitrário cultural em natural. Para conseguirmos nos apropriar de nosso próprio universo e de nossa própria visão de mundo, é fundamental o ponto de vista do antropólogo, capaz de devolver ao mesmo tempo o princípio de visão e de divisão (nomos) que fundamenta a diferença entre o masculino e o feminino como nós a (des) conhecemos, seu caráter arbitrário, contingente e, também, simultaneamente, sua necessidade sociológica.
Não é por acaso que, já que ela quer deixar em suspenso o que chama magnificamente de "o poder hipnótico da dominação ”, Virginia Woolf (2) se arma de uma analogia etnográfica, unindo geneticamente a segregação das mulheres aos rituais de uma sociedade arcaica: “Inevitavelmente, consideramos a sociedade um lugar de conspiração que devora o irmão que muitos de nós temos razões para respeitar na vida privada, e que impõe, em seu lugar, um macho monstruoso, com voz tonitruante, punho cerrado, que, de uma maneira pueril, sinaliza no chão, com giz, estas linhas místicas de demarcação, entre as quais são fixados, rígidos, separados, artificiais, os seres humanos. Como um selvagem, adorna estes lugares de ouro e púrpura e os decora com plumas, perseguindo seus ritos místicos e desfruta dos prazeres suspeitos do poder e da dominação, enquanto nós, “suas” mulheres, ficamos fechadas em casa sem que nos seja permitido participar de nenhuma das numerosas sociedades onde sua sociedade (3) é composta".
“Linhas místicas de demarcação”, “ritos místicos”, esta linguagem da transfiguração mágica e da conversão simbólica que produz a consagração ritual, princípio de um novo nascimento, encoraja a dirigir a pesquisa a uma abordagem capaz de apreender a dimensão propriamente simbólica da dominação masculina.

Uma estratégia de transformação
Será necessário recorrer a uma análise materialista da economia dos bens simbólicos a fim de alcançar os meios para fugir à alternativa destrutiva entre o “material” e o “espiritual” ou o “ideal” (perpetuado hoje através da oposição entre os estudos ditos “materialistas”, que explicam a assimetria entre os sexos pelas condições de produção, e os estudos ditos “simbólicos”, freqüentemente notáveis, mas parciais). Inicialmente, entretanto, só um uso muito particular da etnologia pode permitir a realização do projeto, sugerido por Virgina Woolf, de objetivar cientificamente a operação propriamente mística, na qual a divisão entre os sexos, como a conhecemos, é o produto, ou de tratar a análise objetiva de uma sociedade organizada segundo o princípio androcêntrico (4) – a tradição Kabyle – como uma arqueologia objetiva de nosso inconsciente, isto é, como instrumento de uma autêntica sócio-análise.
Este atalho por uma tradição exótica é indispensável para romper a relação de familiaridade enganadora que nos une à nossa própria tradição. As aparências biológicas e os efeitos bem reais que as produzem, nos corpos e nas mentes, um longo trabalho coletivo de socialização do biológico e da biologização do social se conjugam para inverter a relação entre as causas e os efeitos, fazendo surgir uma construção social naturalizada (os “gêneros” enquanto hábitos sexuados) como o fundamento in natura da divisão arbitrária que se encontra no início e da realidade e da representação da realidade, que por vezes se impõe à própria procura.
Assim, não é raro que os psicólogos retomem a visão comum dos sexos como conjuntos radicalmente separados, sem interseções, e ignorem o grau de revestimento entre as distribuições das performances masculinas e femininas, e as diferenças (de grandeza) entre as diferenças constatadas nos diversos domínios (desde a anatomia até a inteligência). Ou, mais grave, eles se deixem guiar repetidamente, na construção e na descrição de seu objeto, pelos princípios de visão e de divisão inscritos na linguagem ordinária, através do esforço em medir as diferenças evocadas na linguagem – como o fato de que os homens seriam mais “agressivos” e as mulheres mais “medrosas” –, ou através do uso de termos medíocres e, portanto, de julgamentos de valores grosseiros, para descrever estas diferenças.
Mas será que esta função quase analítica da etnografia que desnaturaliza ao situar historicamente o que surge como o mais natural na ordem social – a divisão entre os sexos – não corre o risco de colocar em evidência circunstâncias e invariantes que estão baseadas no princípio de sua eficácia sócio-analítica e, assim, eternizar uma representação conservadora da relação entre os sexos, a mesma que resume o mito do “eterno feminino”?
É aqui que se faz necessário enfrentar um novo paradoxo para criar uma revolução completa na maneira de abordar o que se queria estudar sobre as espécies da “história das mulheres”: as invariantes que, além de todas as mudanças visíveis da condição feminina, se observam nos relatórios de dominação entre os sexos, não as obrigam a privilegiar os mecanismos e as instituições históricas que, no decorrer da história, não pararam de retirar essas invariantes da história?
Esta revolução no conhecimento provocaria uma revolução sem conseqüências na prática, e em particular na concepção das estratégias destinadas a transformar o estado atual do relacionamento de força material e simbólica entre os sexos.
Se for verdade que o princípio da perpetuação deste relacionamento de dominação não reside verdadeira e principalmente em um dos lugares mais visíveis de seu exercício, isto é, no seio da unidade doméstica, sobre a qual um certo discurso feminista concentra todos os seus olhares, e sim na Escola ou no Estado – lugares de elaboração e de imposição de princípios de dominação que são exercidos no seio do universo mais privado – abre-se um campo de ação imenso para as lutas feministas, convocadas a assumirem um lugar original e bem garantido no seio das lutas políticas contra todas as formas de dominação.
(***) Este texto é o preâmbulo do livro A Dominação Masculina, lançado em outubro de 1998, em Paris, pela Ed. Seuil.
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Notas:
(1) A doxa é o conjunto de crenças ou de práticas sociais que são consideradas normais.
(2) Virginia Woolf (1882-1941), romancista e teórica inglesa, autora, em particular, de Mrs Dalloway (1925), La Promenade au Phare (1927) e Orlando (1928).
(3) Virginia Woolf, Trois Guinées, traduzido por Viviane Forrester, edições Des Femmes, Paris, 1977, p.200.
(4) Que se coloca no centro do homem, e não da mulher.