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segunda-feira, 24 de abril de 2017

BILAC



BILAC 

ROGEL SAMUEL 


No primeiro verso do soneto "Aos sinos" diz Bilac: "Plangei, sinos! A terra ao nosso amor não basta..." Lembro-me de ter lido em Hannah Arendt que, em 1957, foi lançado o primeiro satélite, foi saudado com alegria, diz ela, como "o primeiro passo para libertar o homem de sua prisão na terra". Por que não gostamos da Terra? Por que a destruímos? "A Terra, diz, é a própria quintessência da condição humana" [A condição humana]. 

Cansados de ânsias vis e de ambições ferozes, 
Ardemos numa louca aspiração mais vasta, 
Para trasmigrações, para metempsicoses! 

Entro em casa. Ouço a fita de Christopher Schindler. É a
gravação do concerto de 15 de junho de 2000, Portland, a que
assisti. 

Bilac atual, poderoso. 
Cantai, sinos! Daqui, por onde o horror se arrasta, 
Campas de rebeliões, bronzes de apoteoses, 
Badalai, bimbalhai, tocai à esfera vasta! 
Levai os nossos ais rolando em vossas vozes! 

Releio sempre Bilac. Os modernistas o odiavam. Tem momentos supremos. 
"Politicamente, diz Arendt, o mundo moderno em que vivemos surgiu com as primeiras explosões atômicas". Chris toca o "Tango", de Castro, um argentino. Depois arremete a "Sonata Dante", de Liszt, que busco no soneto "Dante no Paraíso": 


Enfim, transpondo o Inferno e o Purgatório, Dante 
Chegara à extrema luz, pela mão de Beatriz: 
Triste no sumo bem, triste no excelso instante, 
O poeta compreendera o mal de ser feliz. 

As notícias do mundo vêm devagar, entram pela TV, de muito
longe, como se de outro universo, lugar muito distante, cheio de guerras, miséria. Qual o "mal de ser feliz"? Elas penetram a sala de trabalho como penetra o fio de fumaça de um incenso. A terra ao nosso amor não basta... Fio de fumo da "fragilidade dos negócios humanos". 

A Sonata de Liszt canta, como Carpeaux: "Meu Dante" - "Dante pode ter sido, diz ele, em vida, um homem intratável, irrascível e orgulhoso, convencido do seu direito de ser lembrado e venerado por todos os séculos. Mas essa pretensão enorme se reduz, afinal, à exigência de ser lido." Otto Maria Carpeaux foi nosso paraninfo, na FNFi. Como era gago, seu discurso foi lido por um colega nosso. Atravessei a vida 
daquele tempo lendo seus artigos diários, no "Correio da
Manhã". De tanto lê-lo, apreendi a técnica: quatro parágrafos. O primeiro era uma espécie de introdução. O segundo, uma tese, uma proposta, uma opinião.
O Terceiro o inverso, o contrário. O quarto e último
parágrafo, que era a conclusão, a superação da contradição. Assim, o ensaio, geralmente pequeno, era a dialética de um tema. 

Todos os anos costumo reler a Divina Comédia inteira, diz ele. Lembro-me bem, dele. Na Universidade do Brasil. Do Reitor Pedro Calmon. 

Um dia, estudando na Biblioteca, senti que alguém estava atrás de mim. Era Pedro Calmon. Interessado no que eu estava lendo. Conversamos, ou melhor, ele falou. Calmon era homem extraordinário. Como eu tinha uns 19 anos e cara de menino, perguntou de onde eu era, como morava e vivia. Indagou se a comida do bandejão era boa (dizem que às vezes
comia lá, nunca vi). Disse-me que se eu precisasse de qualquer coisa teria nele um pai. Deu-me seu cartão. Era homem imprevisível. (A terra ao nosso amor não basta...) Certa vez, vindo pela Cinelândia de carro, Calmon viu um policial espancando um menino de rua. "Pare o carro!" 
e partiu contra o guarda, aos gritos: "Pare com isso! Pare com isso! Ele é apenas uma criança!" 
Vi-o numa das primeiras passeatas de estudantes. Ele apareceu sob estrondosa vaia. Queria fazer parar a massa, que rumava pela Rio Branco. Chorava. Tentava falar. "Não façam isso!" vociferava. "Não provoquem a reação! Vocês vão radicalizar!" 
Tinha razão, se viu depois. ("Campas de rebeliões, bronzes de 
apoteoses"). Anos depois fui seu vizinho, na Rua Santa Clara, 
Copacabana. Ele morava numa grande casa estilo (creio) normando. A esquerda sempre o desprezou, porque os presidentes da ditadura freqüentavam aquela casa. Quando ele morreu, os jornais não deram uma linha, exceto o que saiu no obituário. Foi Ministro da Educação (1950-51). Sua "História do Brasil" em 7 volumes é citada por Roberto Simonsen, que diz na "História Econômica do Brasil" se baseou em Euclides, Afrânio Peixoto, Gilberto Freire e Pedro Calmon para "fixar o valor do nosso homem, como fator de produção". Força de trabalho morena. Calmon foi um dos poucos convidados à cerimônia da coroação, na Inglaterra. 

Quando a rainha esteve aqui, meu amigo Don Kulatunga Jayanetti, monge budista do Sri Lanka, foi convidado por um embaixador asiático. Havia uma fila, para cumprimentá-la. Don parou a fila, Sua Majestade conversou com ele, revelou conhecimento e interesse budista. O Príncipe, seu esposo, continuou o diálogo, lhe disse ter feito um retiro de meditação Vipássana, no Ceylão. Mas... 

Ma la notte risurge e oramai 
é da partir, ché tutto avem veduto.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Bilac






Bilac


Rogel Samuel


Ele escreveu um soneto famoso, bendito o que fez na terra o fogo, o teto, a charrua, a enxada, o que plantou o pão do trigo, e forjou o ferro, o que fez o jazigo, a casa dos mortos, o que fabricou o alfabeto, e deu esmola, e fez o barco no mar, a vela ao pano, e inventou o canto, a lira, o dominou o raio, e alçou o aeroplano, e descobriu a esperança, essa mentira, essa ilusão:


"Benedicite"


Bendito o que na terra o fogo fez, e o teto
E o que uniu à charrua o boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que do chão abjeto,
Fez aos beijos do sol, o oiro brotar, do trigo;

E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu e o que achou o alfabeto;
E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano,
E o que inventou o canto e o que criou a lira,
E o que domou o raio e o que alçou o aeroplano...

Mas bendito entre os mais o que no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

domingo, 2 de dezembro de 2007

BILAC

BILAC



ROGEL SAMUEL




No primeiro verso do soneto "Aos sinos" diz Bilac: "Plangei, sinos! A
terra ao nosso amor não basta..." Lembro-me de ter lido em Hannah Arendt
que, em 1957, foi lançado o primeiro satélite, foi saudado com alegria,
diz ela, como"o primeiro passo para libertar o homem de sua prisão na
terra". Por que não gostamos da Terra? Por que a destruímos? "A Terra,
diz, é a própria quintessência da condição humana" [A condição humana].
Cansados de ânsias vis e de ambições ferozes,
Ardemos numa louca aspiração mais vasta,
Para trasmigrações, para metempsicoses!
Entro em casa. Ouço a fita de Christopher Schindler. É a gravação do
concerto de 15 de junho de 2000, Portland, a que assisti. Bilac atual,
poderoso.
Cantai, sinos! Daqui, por onde o horror se arrasta,
Campas de rebeliões, bronzes de apoteoses,
Badalai, bimbalhai, tocai à esfera vasta!
Levai os nossos ais rolando em vossas vozes!
Releio sempre Bilac. Os modernistas o odiavam. Tem momentos supremos.
"Politicamente, diz Arendt, o mundo moderno em que vivemos surgiu com as
primeiras explosões atômicas". Chris toca o "Tango", de Castro, um
argentino. Depois arremete a "Sonata Dante", de Liszt, que busco no
soneto "Dante no Paraíso":
Enfim, transpondo o Inferno e o Purgatório, Dante
Chegara à extrema luz, pela mão de Beatriz:
Triste no sumo bem, triste no excelso instante,
O poeta compreendera o mal de ser feliz.
As notícias do mundo vêm devagar, entram pela TV, de muito longe, como
se de outro universo, lugar muito distante, cheio de guerras, miséria.
Qual o "mal de ser feliz"? Elas penetram a sala de trabalho como penetra
o fio de fumaça de um incenso. A terra ao nosso amor não basta... Fio de
fumo da "fragilidade dos negócios humanos". A Sonata de Liszt conta,
como Carpeaux: "Meu Dante" - "Dante pode ter sido, diz ele, em vida, um
homem intratável, irrascível e orgulhoso, convencido do seu direito de
ser lembrado e venerado por todos os séculos. Mas essa pretensão enorme
se reduz, afinal, à exigência de ser lido." Otto Maria Carpeaux foi
nosso paraninfo, na Faculdade (a FNFi). Como era gago, seu discurso foi
lido por um colega nosso. Atravessei a vida daquele tempo lendo seus
artigos diários, no "Correio da Manhã". De tanto lê-lo, apreendi a
técnica: Geralmente com quatro parágrafos. O primeiro era uma espécie
de introdução. O segundo, uma tese, uma proposta, uma opinião. O
Terceiro o inverso, o contrário. O quarto e último parágrafo, que era a
conclusão, significava a superação da contradição. Assim, o ensaio,
geralmente pequeno, era a dialética de um tema. “Todos os anos costumo
reler a Divina Comédia inteira”, diz ele. Lembro-me bem, dele. Como me
recordo da Universidade do Brasil. E do Reitor Pedro Calmon.
Um dia, estudando na Biblioteca, senti que alguém estava atrás de mim.
Era Pedro Calmon. Interessado no que eu estava lendo. Conversamos, ou
melhor, ele falou. Calmon era homem extraordinário. Como eu tinha uns 19
anos e cara de menino, perguntou de onde eu era, como morava e vivia.
Indagou se a comida do bandejão era boa (dizem que às vezes comia lá,
nunca vi). Disse-me que se eu precisasse de qualquer coisa teria nele um
pai. Deu-me seu cartão. Era homem imprevisível. (A terra ao nosso amor
não basta...) Certa vez, vindo pela Cinelândia de carro, viu um policial
espancando um "pivete". "Pare o carro!" e partiu contra o guarda, aos
gritos: "Pare com isso! Pare com isso! Ele é apenas uma criança!"
Vi-o numa das primeiras passeatas de estudantes. Ele apareceu sob
estrondosa vaia. Queria fazer parar a massa, que rumava pela Rio Branco.
Chorava. Tentava falar. "Não façam isso!" vociferava. "Não provoquem a
reação! Vocês vão radicalizar!" Tinha razão, se viu depois. ("Campas de
rebeliões, bronzes de apoteoses"). Anos depois fui seu vizinho, na Rua
Santa Clara, Copacabana. Ele morava numa grande casa estilo (creio)
normando. A esquerda sempre o desprezou, porque os presidentes da
ditadura freqüentavam aquela casa. Quando ele morreu, os jornais não
deram uma linha, exceto o que saiu no obituário. Mas ele vinha de longe,
como se diz. Foi Ministro da Educação (1950-51). Sua "História do
Brasil" em 7 volumes era citada por gente como Roberto Simonsen, que diz
na "História Econômica do Brasil" se baseou em Euclides, Afrânio
Peixoto, Gilberto Freire e Pedro Calmon para "fixar o valor do nosso
homem, como fator de produção". Força de trabalho morena. Calmon foi um
dos poucos convidados à cerimônia da coroação, na Inglaterra.
Quando a rainha esteve aqui, meu amigo Don Kulatunga Jayanetti, monge
budista do Sri Lanka, foi convidado por um embaixador asiático. Havia
uma fila, para cumprimentá-la. Don parou a fila, Sua Majestade conversou
com ele, revelou conhecimento e interesse budista. O Príncipe, seu
esposo, continuou o diálogo, lhe disse ter feito um retiro de meditação
Vipássana, no Ceylão. Mas...

Ma la notte risurge e oramai
é da partir, ché tutto avem veduto.