sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

foi numa noite de agosto

 
 
 
 
 foi numa noite de agosto
 
rogel samuel
 

foi numa noite de agosto
que apareceu a tal lua
os lábios naquela água
o corpo dado aos amantes
amantes não sabem nada
que há tempos não se via
a gargalhada menina
da lua de rica rima
poetas que não se fiem
poetas nada sabem
que é até mesmo uma pena
que esta caneta tão prima
não seja feita mais fina
como ponta de punhal

Maria do Rosário Pedreira


FOTO DE R. SAMUEL


“Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.”



Maria do Rosário Pedreira

O feitiço do samba: corpo e alma do Brasil


Ministra da Cultura conhece o futuro Museu da Moda

Ministra da Cultura conhece o futuro Museu da Moda

Projeto da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro será instalado no bairro carioca de São Cristóvão em 2016

    
Projeto Museu da Moda
Projeto Museu da Moda
A ministra da Cultura, Marta Suplicy, recebeu nesta segunda (13), no Rio, a secretária estadual de Cultura do Rio de Janeiro, Adriana Rates, para conhecer o projeto do futuro Museu da Moda. O encontro, na sede da Fundação Nacional de Artes – Funarte, no Palácio Gustavo Capanema, contou com a presença do presidente da instituição, Guti Fraga; da diretora da Casa da Marquesa de Santos, Luiza Marcier; da jornalista Hildegard Angel Bogossian, presidente do Instituto Zuzu Angel, além de outros profissionais envolvidos no projeto.
O Museu da Moda deverá ser instalado no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em uma área prevista de 6 mil m2, tendo como âncora o antigo Solar da Marquesa de Santos, que hoje se encontra em processo de restauração. A idéia, como explicou a secretária Adriana Rates, é fortalecer o bairro de São Cristóvão, que já possui um circuito criativo de moda, movimentado por micro e pequenas empresas de confecção de roupas e acessórios, além de projetar o país no mercado internacional de moda.
A ministra Marta Suplicy assistiu à apresentação do projeto, e pediu mais detalhes sobre os estudos para o desenvolvimento da iniciativa e seu futuro funcionamento. Ela também sugeriu que o Museu da Moda venha a oferecer um programa de cursos diferenciados e permanentes, como de restauro de têxteis, além de sugerir estratégias de comunicação que alcancem o público do segmento.
A secretária Adriana Rates se disse muito contente com a reunião e por ter apresentado o projeto à ministra da Cultura. “Ela tem uma visão global, muito acurada sobre o que conta, o que é importante. Estrategicamente falando, ela tem uma visão muito boa. E saber que ela gostou do projeto, nos dá uma segurança de ir à frente, sabendo que estamos fazendo alguma coisa que vai ter relevância para a Cultura no Brasil.”
A jornalista Hildegard Angel disse que o Instituto Zuzu Angel será um parceiro atuante do futuro Museu da Moda, pois o projeto do IZA é prestigiar a moda brasileira. Hildegard disse que a secretária de Cultura Adriana Rates é uma entusiasta do novo museu. “Ela conseguiu montar um projeto que até hoje era inviável, e se a ministra com o entusiasmo demonstrado hoje conseguir levar esse projeto adiante o Brasil vai, enfim, alcançar esse gol latino-americano”.
Luiza Marcier, diretora da Casa da Marquesa de Santos, explicou que o projeto nasceu da percepção da Secretaria de Estado de Cultura da sinalização da Prefeitura do Rio sobre a existência da cadeia produtiva da moda em São Cristóvão, além das intervenções no entorno, que estão revitalizando a Zona do Porto do Rio, próxima ao bairro. E também, a percepção de que o local poderá ser o bairro da economia criativa da cidade. “Isso é um ponto de partida do projeto. O Instituto Zuzu Angel, que há mais de 20 anos luta pela memória da moda a partir da coleção Zuzu Angel e também trabalhando no ensino da moda; e o SEBRAE, que já faz uma série de projetos de empreendedorismo da moda. Na verdade, a Secretaria percebeu esse momento de confluência da sociedade, de organizações governamentais e não governamentais. E a ideia é que o Museu da Moda seja capaz de congregar todas essas visões, que seja um lugar de reunir esse interesse que é juntar a memória da moda com a criação de moda. Então, é ter um lugar para o repertório, da criação para o ensino e o fomento. Dessa maneira, a gente acredita que a moda brasileira vá se colocar de uma forma afirmativa no cenário internacional.”
Concebido para ser instalado num espaço que terá como centro o antigo Solar da Marquesa de Santos, o Museu da Moda inicialmente irá funcionar a partir de três eixos: Memória, Educação e Fomento. O projeto prevê a construção de anexos que irão abrigar, entre outros, o acervo da moda brasileira – como uma coleção de 5 mil peças da estilista Zuzu Angel, conhecida como Coleção Política; coleção Século XIX; coleção Moda Brasileira (Século XX); coleção Moda Contemporânea; coleção Moda Praia; coleção Jóias Brasileiras; coleção Moda Etnográfica, além de outras –; áreas técnica (reserva e conservação de têxteis) e tecnológica; exposições nacionais e internacionais; banco de imagens; espaços compartilhados com novos criadores; áreas de eventos e de convivência (restaurante, café e livraria).
Para o desenvolvimento do projeto, o corpo técnico da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro visitou outros espaços do gênero na França, na Bélgica, nos Estados Unidos e em outros países.

Ravel - Bolero. Sergiu Celibidache 1971


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

FOTO


Ribamar de Sousa: O Ficcional Personagem-Representante do Capitalismo Decadente da Cidade de Manaus

Neuza Machado: Esplendor e decadência do império amazônico
 
Sobre o romance O amante das amazonas de Rogel Samuel
 
Ribamar de Sousa: O Ficcional Personagem-Representante do Capitalismo Decadente da Cidade de Manaus
 
Naquela época a Amazônia estava mudada. A recessão era grande, mas em Rio Branco havia 250.000 cabeças de gado, entre balcedos de murerus, aguapés e canaranas, vicejando a riqueza entre alagados e mondongos.
 
Nenhuma criada estava próxima. Foi a própria D. Mariazinha de Abreu que, levantando-se solene da cadeira, foi atender a quem batia à sua porta.
 
─ Bons dias, dona ─ disse-lhe aquele caboclo mal vestido, calças de brim, camisa de algodão cru de dura goma, chapéu de palha na cabeça e mala de madeira enrolada na mão. O homem tirara o chapéu para falar com ela.
 
─ A senhora sabe onde mora o Seu Juca das Neves?
 
Quando D. Maria viu aquilo empertigou-se, mas fez-se muito cortês ao responder, pois era assim que tratava aos que lhe ficavam abaixo de sua condição social.
 
─ Ao lado ─ disse, e retirou-se, vindo sentar-se diante da negra Sebastiana Vintém.
 
Era a senhora mais fina, mais elegante e mais bonita da época, sim, que é assim mesmo, conforme o digo, este narrador.
 
E aquele homem era Ribamar (d’Aguirre) de Sousa.[i]
 
Nestas últimas linhas do capítulo ONZE: RIBAMAR, quem se apresenta é o segundo narrador (aquele que somente agora se manifesta, para falar sobre o primeiro). Este segundo narrador é o verdadeiro alter ego do escritor amazonense Rogel Samuel, ou seja, aquele que ficou incógnito nos movimentados bastidores ficcionais de O Amante das Amazonas, enquanto o primeiro personagem-narrador Ribamar de Sousa, representante dos oprimidos retirantes, fugitivos da seca nordestina e escravizados por classes sociais e políticas poderosas, contava a sua própria história: da saída de Patos, Estado de Pernambuco, ao emprego no Palácio Manixi, em um Seringal perdido do Amazonas, como secretário particular de D. Ifigênia Vellarde.
O primeiro personagem-narrador, o Ribamar, por enquanto, não poderá seguir como o condutor do relato, pela simples razão de que agora ele se postará como o personagem principal, submetido ao olhar perscrutante do segundo e genuíno narrador pós-moderno/pós-modernista de Segunda Geração.
O que ocorreu nesta terceira fase do romance foi simples e criativo: o Narrador principal precisou de uma nova chave para penetrar às fortificações da Cidade e, logo a seguir, percorrê-la. Ora, este novo invólucro ficcional já não era um espaço autenticamente mítico, portanto, as anteriores chaves já não se encontravam disponíveis. Os “parentes” de Ribamar já estavam mortos e o lendário bugre Paxiúba ficara temporariamente para trás. A diretriz ficcional pós-moderna/pós-modernista de Segunda Geração determinou um segundo narrador (aquele que buscou/buscará esta necessária chave, para finalizar o relato), narrador “este” que esteve sublinearmente influente desde o início do romance. A assertiva rogeliana “conforme o digo, este Narrador” não deixa dúvida quanto à renovada determinação de transformação narrativa. Para o correto entendimento do que desejo a partir daqui refletir, busco outras palavras explicativas, ou seja, para que o Ribamar de Sousa, submetido a uma diferenciada fase de transição, pudesse continuar atuando, agora como personagem-representante da burguesia manauara pós-borracha, outro narrador (“este narrador”) teria de falar por ele, mesmo que aparentemente duplicado nas linhas finais, com a impressão ficcional de junção de ambos, como se fossem apenas um único narrador, propiciando a despedida do primeiro.
Entretanto, antes de minha reflexiva incursão nos bastidores sócio-políticos da cidade de Manaus envolvendo-me, por meio do relato rogeliano, com a já aproximada ─ e instigante ─ elevação sócio-política do neo-Ribamar de Sousa, necessito reconhecer esta efetiva voz narrativa que se apresenta. Quem é “este” novo narrador? Quem é “este” narrador diferenciado (que seria um personagem como outro qualquer, como diria Roland Barthes, se eu não pensasse o contrário), o qual, ao falar de D. Maria de Abreu e Souza, a personagem feminina que, no momento, centraliza o capítulo, o faz com elevada ternura?
 
Quando se sonha com a casa natal, na extrema profundeza do devaneio, participa-se desse calor inicial, dessa matéria bem temperada do paraíso material. (...).
 
É graças à casa que um grande número de nossas lembranças estão guardadas; e quando a casa se complica um pouco, quando tem um porão e um sótão, cantos e corredores, nossas lembranças têm refúgios cada vez mais bem caracterizados. A eles regressamos durante toda a vida, em nossos devaneios. Um psicanalista deveria, pois, atentar para essa simples localização das lembranças. (...) de bom grado daríamos a essa análise auxiliar da psicanálise o nome de topoanálise. A topoanálise seria então o estudo psicológico sistemático dos locais de nossa vida íntima. Nesse teatro do passado que é a memória, o cenário mantém os personagens em seu papel dominante. Por vezes acreditamos conhecer-nos no tempo, ao passo que se conhece apenas uma série de fixações nos espaços da estabilidade do ser, de um ser que não quer passar no tempo; que no próprio passado, quando sai em busca do tempo perdido, quer “suspender” o vôo do tempo. Em seus mil alvéolos, o espaço retém o tempo comprimido. É essa a função do espaço.[ii]
 
“Quando se sonha com a casa natal”, “participa-se desse calor inicial, dessa matéria bem temperada do paraíso material”. O início do capítulo é, com certeza, uma saudosa declaração de amor filial a uma venerada senhora (já falecida) e, sem dúvida, é também um retorno à casa primordial (a casa da avó) e à casa onírica (a Cidade de Manaus). O segundo narrador, neste renovado interregno, antes de reencontrar a “casa onírica”, sai em busca da “casa primordial” (“sai em busca do tempo perdido”) e, por um momento, vai ao encontro da inesquecível casa da infância e adolescência (a casa da avó materna). O narrador deseja “suspender o vôo do tempo”, reencontrar a “personagem” amada, a “personagem dominante”, mas não poderá ser recebido como a um filho pródigo pela Grande Mãe, simplesmente porque sua face ficcional se disfarça com a aparência subserviente de seu duplo. A venerada representante da figura materna não o reconheceu. (“Quando D. Maria viu aquilo empertigou-se, mas fez-se muito cortês ao responder, pois era assim que tratava aos que lhe ficavam abaixo de sua condição social”). A Grande Mãe foi muito cortês e ofereceu-lhe o direcionamento pedido (─ “ao lado”), mas não o convidou a reentrar na casa primordial, porque, verdadeiramente, o alter ego Ribamar de Sousa foi designado pelo ficcionista para substitui-lo na recuperação gloriosa de sua outra casa inesquecível, a casa onírica, a Cidade que, no momento, já sofria os estragos da decadência pós-borracha. Por tal motivo, o personagem Ribamar de Sousa fez/fará a aproximação do segundo narrador, primeiramente com a Grande Mãe (o destaque da “Casa Primordial”) e, posteriormente, com a Grande Casa do Passado (a Cidade de Manaus), a “Casa Onírica”, permitindo-lhe a necessária retomada, para que, páginas adiante, ele pudesse interagir com o meio sócio-político de seu pretérito notável.
 
Ela ─ e eu me lembro como se fosse hoje ─ não gostava de pintar as unhas pela manhã. Preferia pintá-las à tarde, pois de manhã, apesar da legião de criadas, tinha sempre muito o que fazer naquela casa. (...).
 
Sim ─ ela não gostava de pintar as unhas pela manhã. D. Maria de Abreu e Souza, ainda jovem e bonita, conforme a conheci, bela, elegante, morava na Rua Barroso, numa casa cujos fundos davam para o Igarapé do Aterro. D. Maria ia, naquela tarde, a um aniversário, e mandara um moleque chamar a negra Sabá para corrigir o esmalte das unhas, e já marcara hora na Mezzodi, a cabeleireira da época.
 
Foi quando bateram à porta. (...).
 
Nenhuma criada estava próxima. Foi a própria D. Mariazinha de Abreu que, levantando-se solene da cadeira, foi atender a quem batia  à sua porta.[iii]
 
Sobre “a casa onírica”, diz Gaston Bachelard:
 
Uma casa onírica é uma imagem que, na lembrança e nos sonhos, se torna uma força de proteção. Não é um simples cenário onde a memória reencontra suas imagens. Ainda gostamos de viver na casa que já não existe, porque nela revivemos, muitas vezes sem nos dar conta, uma dinâmica de reconforto.[iv]
 
Se examinássemos o caráter social das imagens (...). Esse exame determinaria uma outra camada das imagens, a camada do superego. Aqui a casa é o bem da família. Ela é encarregada de manter a família. (...) desse ponto de vista, é tanto mais interessante por estudar a família em seu conflito de gerações entre um pai que deixa periclitar a casa e o filho que devolve à casa solidez e luz. Em tal caminho, vai-se substituindo aos poucos a vontade que sonha pela vontade que pensa, pela vontade que prevê. Chega-se a um reino de imagens cada vez mais conscientes.[v]
 


[i] Idem: 106 - 107.
[ii] BACHELARD, 2005: 27 - 28.
[iii] SAMUEL, Rogel, 2005: 107.
[iv] BACHELARD, 1990: 92.
[v] Idem: 93.

BLOG DO ROCHA: SAMBÓDROMO DO RIO, 30 ANOS DE EMOÇÃO!


SAMBÓDROMO DO RIO, 30 ANOS DE EMOÇÃO!

FONTE:
http://jmartinsrocha.blogspot.com.br/

O professor Darcy Ribeiro, o mentor desse espaço cultural, foi quem inventou esse nome, uma junção de samba (dança brasileira de origem africana) com o grego dromo (corrida ou pista de corrida) - foi um belíssimo projeto do Oscar Niemeyer e, construído no governo do Leonel Brizola.

Ele foi construído no centro do Rio de Janeiro, na Avenida Marquês de Sapucaí, a parte final fica no bairro Cidade Nova -  com setecentos metros de comprimento – a sua inauguração foi em 1984, portanto, está completando 30 anos de idade.

No início foi chamado de “Avenida do Samba”, depois, “Passarela do Samba”, oficialmente chama-se “Passarela Professor Darcy Ribeiro”, mas o povo somente o conhece por “Sambódromo da Marques de Sapucaí”.

O grande problema na sua construção foi o prédio de uma antiga fábrica da Cervejaria Brahma – o que foi resolvido, recentemente, com o “destombamento” e a demolição do mesmo, permitindo fazer o traçado simétrico da primeira arquibancada, tudo por conta da AMBEV que aproveitou e fez outro prédio moderno no lugar.

Na concepção do Darcy Ribeiro, o local deveria ser de multiuso, ou seja, com escolas de tempo integral, palco para shows musicais, cultos evangélicos, exibição de motociclismo, etc. – serve para esses fins até hoje.

Conheci o Sambódromo poucos anos depois de construído, pena que foi após o carnaval – em minha opinião, a parte mais bonita é a “Praça da Apoteose”, o local culminante, o apogeu do desfile das Escolas de Samba.

O Sambódromo do Rio serviu de inspiração para o Brasil afora (em sete capitais), com a construção do Sambódromo em Manaus (Centro de Convenções) e o Bumbódromo em Parintins.

Parabéns aos 30 anos do Sambódromo da Marquês de Sapucaí! É isso ai.

http://jmartinsrocha.blogspot.com.br/

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Neuza Machado - O Igarapé do Inferno Como Limite do Fim do Mundo


Neuza Machado: Esplendor e decadência do império amazônico

 

Sobre o romance O amante das amazonas de Rogel Samuel

 

Neuza Machado - O Igarapé do Inferno Como Limite do Fim do Mundo


 

 

 

De Maria Caxinauá, assim como de Paxiúba, há muito para refletir. Entretanto, lembro-me, neste instante dinamizado (à moda bachelardiana) de que há outros personagens importantes, sitiados naquele “limite do fim do mundo”. Dali, todos escaparam para a “ilimitação” da esfera universal, um deles foi o Benito Botelho, filho de Isaura, a cozinheira do Palácio. Pelo altíssimo valor ficcional de Benito, busco a importância da cozinheira Isaura, no entrelaçar narrativo:

 

Os curumins brincam na ubá atracada. Fecham o nariz com dois dedos, pulam de pé. Depois correm pela margem. Estrídulos, incessantes, como um bando de periquitos. Mundico, o maior, é filho de Isaura, cozinheira do Palácio. Ela tem dois filhos de pais diversos. O segundo filho não está ali. Chama-se Benito Botelho e está em Manaus. Benito foi o maior intelectual amazonense. Quando menino, atacado de varíola, Benito foi levado por Frei Lothar, que se afeiçoou a ele. Acabou criado no Vassourinha, orfanato do Padre Pereira, pois Frei Lothar nunca parava muito tempo em Manaus.[i]

 

Eis a grande importância da cozinheira Isaura: ser a mãe do maior intelectual de Manaus, a Isaura cozinheira, aquela que também residiu nas delimitações do Igarapé do Inferno. Benito nasceu ali, dentro dos limites do Seringal Manixi, enquanto lugar infernal. Mas, no preciso momento narrativo, o Benito, aquele que “foi o maior intelectual amazonense”, estava a residir em Manaus, longe das terras de Pierre Bataillon e de seu Igarapé do Inferno. Mas, quem é o Benito Botelho? Como Pierre Bataillon pode permitir a saída do filho de sua escrava-cozinheira dos limites de suas terras e, com isto, propenso a se tornar “o maior intelectual de Manaus”? Comentarei a sua importante atuação posteriormente. Por ora, outro habitante ficcional do Manixi e seu Igarapé infernal exige a minha atenção. Necessito conhecer um outro digno morador da prisão-reserva de Pierre Bataillon: o índio Arimoque.

O índio Arimoque ─ possivelmente, um passageiro personagem ficcional ─ é citado apenas uma vez na extensão geográfico-narrativa do Seringal Manixi, mas sua presença lendária realça-se imensuravelmente, alcançando o plano ilimitado das palavras não-ditas. A sua rápida aparição põe-se em evidência justamente porque, assim como um meteoro brilhantíssimo passando pela terra, a lembrança de seu halo monumental continua a iluminar o espaço narrado. Por que um índio lendário, poderoso, se tornou “prisioneiro” dos fúnebres limites do Seringal? Seria ele também um representante da tribo dos Caxinauás pacificados? Se existiu realmente, sua fama ficou reservada por via oral apenas para privilegiados amazonenses. Nas lendas indígenas, conhecidas textualmente, não há o nome deste índio, assinalado rapidamente no romance de Rogel Samuel.

 

 Lá estava também eu, o ainda jovem Ribamar de Souza, que viera de Patos em busca de seu irmão Antônio e de seu tio Genaro ─ ambos agora mortos. Também o índio Arimoque, cujas estórias fantásticas ainda circulam até hoje pela região.[ii]

 

O índio Arimoque só aparece neste parágrafo. No entanto, posso afiançar que sua rápida menção possui importância capital no desenrolar narrativo. Diz Rogel Samuel: “Suas histórias fantásticas circulam até hoje pela região”. Com a permissão do relato, vou buscá-las por meio de uma aproximação histórica intuitiva, não autorizada cientificamente.

Examinando informações generalizadas sobre os diversos nomes de tribos da região amazônica mencionadas na obra de Rogel Samuel ─ principalmente das que se assemelhassem à possibilidade de o nome do índio Arimoque ser um patronímico, denunciando assim a sua origem genética ─ e procurando semelhanças fonéticas entre as grafias encontradas, avistei alhures uma referência aos índios Aruaques (comedores de farinha), também conhecidos por Kali’na ou Caraíbas. Esses Aruaques (ou Aruakes ou Arahuaco em espanhol), mesmo fazendo parte dos grupos indígenas do Brasil, são oriundos de outras localidades tais como Flórida (atualmente, região comandada pelos Estados Unidos da América do Norte), Porto Rico, Cuba, Antilhas, Bahamas, na cadeia secundária da Cordilheira dos Andes, e outros tantos e inúmeros locais da América do Sul. Os Aruaques são lendários, por isto obriguei-me a sinalizar uma aproximação genética deles com o índio Arimoque, da narrativa ficcional de Rogel Samuel. Possivelmente, o escritor optou por espécie de corruptela semântica para nomeá-lo rapidamente, em um criativo simulacro lingüístico. Não é a ficção pós-modernista a arte de imaginar o real? E, por ventura, a crítica literária não deveria se posicionar de acordo com o objeto estudado?

Os Aruaques, historicamente, foram os primeiros silvícolas que tiveram contato com o branco europeu. Eram índios pacíficos e, ao longo da história da colonização européia, das três Américas, desde a incursão de Colombo, em terras americanas do norte e da colonização dos espanhóis e portugueses, em terras americanas do Sul e América Central, foram transformados em cativos e muitos foram exterminados, por vias de genocídios e doenças do homem branco invasor. Entretanto, por meio de diáspora gentílica, tornaram-se lendários ao longo do segundo milênio. Assim reflito o personagem Arimoque de Rogel Samuel, “cujas estórias fantásticas ainda circulam até hoje pela região”: por intermédio de corruptela lingüística, os variados nomes indígenas Aruaque, Aryauak, Arimaque poderiam significar também o Arimoque rogeliano, ou seja, o apelido fixado no romance, e, interativamente, se associarem ao patronímico aqui realçado. Eis uma nomeação ficcional de capital importância. Por intermédio dela, busquei o reconhecimento de um dos maiores ramais indígenas do Brasil e adjacências.



[i] Idem: 58.
[ii] Idem: 86.

Arnesto, personagem de samba de Adoniran Barbora, morre aos 99 anos

Arnesto, personagem de samba de Adoniran Barbora, morre aos 99 anos


Ernesto Paulelli Foto: Isaumir Nascimento
Ernesto Paulelli Isaumir Nascimento
SÃO PAULO — Morreu aos 99 anos de causas naturais o violonista e advogado Ernesto Paulelli. O músico inspirou o compositor Adoniran Barbosa (1912-1982) a compor “Samba do Arnesto”. Ernesto Paulelli vivia em São Paulo, na Mooca, bairro da zona leste da capital. O velório do artista será realizado no Cemitério do Araçá a partis das 19h30 desta quarta-feira. As informações são do “Jornal do Brás”.
Ernesto e Adoniran se conheceram no final da década de 1930. Na época, Ernesto era vendedor de uma fábrica de cera e trabalhava como músico nas horas vagas. Frequentava rodas de samba e acompanhava artistas em apresentações nas rádios. Foi numa dessa ocasiões em que conheceu o compositor paulista, num encontro que resultou numa das mais famosas canções do samba de São Paulo.
Adoniran pediu a Ernesto um cigarro logo que o avistou na rádio. O violonista não fumava. Então, o compositor lhe pediu um cartão de visitas. Ao ler o nome, Adoniran perguntou: “Então você é Arnesto?”. O músico o corrigiu, respondendo que seu nome era com “E”. Ao que Adoniran teria replicado: “pois a partir de hoje será Arnesto. Vou lhe fazer um samba.”
Em nota, a Ordem dos Advogados de São Paulo lamentou a morte de Ernesto Paulelli. “Um exemplo de espontaneidade pela vida, que se interessou pela advocacia na terceira idade, quando se formou aos 60 anos, inscrevendo-se nos quadros da OAB já no ano seguinte. Mais do que vitalidade e perseverança, deixa a lição de que sempre é tempo de concretizar os sonhos”, disse o presidente da OAB - SP, Marcos da Costa.


Muere Paco de Lucía

Muere Paco de Lucía

El guitarrista algecireño, Premio Príncipe de Asturias de las Artes y emblema de la renovación y difusión mundial del flamenco, ha fallecido de un infarto en México a los 66 años.
Efe / Algeciras · Madrid |      
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Paco de Lucía, durante una actuación en las cuevas de Nerja./MH
                     
El guitarrista Paco de Lucía (Algeciras, 1947) ha fallecido hoy en Cancún (México) a consecuencia de un infarto mientras jugaba con sus hijos en la playa, según han informado del ayuntamiento de su localidad natal, que ha decretado tres días de luto oficial. Según el gabinete de prensa del consistorio, el fallecimiento ha sido confirmado por el sobrino del artista, Ramón Sánchez, hijo de Ramón de Algeciras. El artista era Premio Príncipe de Asturias de las Artes y emblema, junto con Camarón de la Isla, de la renovación y difusión mundial del flamenco.

El Ayuntamiento de Algeciras ha ofrecido a la familia del artista todo su apoyo para organizar los actos de despedida del guitarrista, según ha explicado el alcalde, José Ignacio Landaluce. Landaluce, que ha recibido a las siete de la mañana la noticia, ha ofrecido a la familia del guitarrista distintas alternativas para estos actos de despedida. "Sabemos que será de forma sencilla, como era Paco", ha explicado el alcalde, que señala que será la familia del guitarrista la que decida cómo se realizará esta despedida, posiblemente en el cementerio viejo de la ciudad.

Francisco Sánchez Gómez, de nombre artístico Paco de Lucía, había mezclado a lo largo de su larga trayectoria el flamenco con géneros como el jazz, la bossa nova y la música clásica. Discípulo de Niño Ricardo y de Sabicas, y respetado por músicos de jazz, rock y blues por su personal estilo, logró, entre otros muchos reconocimientos, un Grammy al mejor álbum flamenco 2004; el Premio Nacional de Guitarra de Arte Flamenco; la Medalla de Oro al Mérito de las Bellas Artes 1992; el Premio Pastora Pavón La Niña de los Peines 2002; y el honorífico de los Premios de la Música 2002.


Nacido el 21 de diciembre de 1947 con el nombre de Francisco Sánchez Gómez, a los 7 años cogió por primera vez una guitarra de la mano de su padre y luego de su hermano mayor. Por su madre portuguesa fue conocido como Paco, el de Lucía, al identificar al hijo con el nombre de la madre, Lucía Gomes. Con 12 años formó el dúo Los Chiquitos de Algeciras con su hermano Pepe al cante, grupo que triunfó en 1961 en un concurso de Jerez y con el que grabó su primer disco.

Contratado por el bailarín José Greco en 1960 como tercer guitarrista de la Compañía del Ballet Clásico Español, hizo su primera gira por EE.UU., y después fue segunda guitarra y viajó por medio mundo. Por entonces conoció a los guitarristas Sabicas y Mario Escudero, que lo animaron a componer su propia música. Se integró con 17 años en un grupo financiado por los representantes alemanes Horst Lippmann y Fritz Rau para su espectáculo Festival Flamenco Gitano, con el que recorrió Europa y en el que figuraban Camarón, El Lebrijano, El Farruco y Juan Moya.

Acompañado con frecuencia al cante por sus hermanos Ramón de Algeciras y Pepe de Lucía, editó sus primeros discos en solitario a mediados de los 60: La fabulosa guitarra de Paco de Lucía (1967) y Fantasía flamenca (1969). Su consagración le llegó en los 70, con memorables actuaciones en el Palau de Barcelona 1970 y Teatro Real y Teatro Monumental de Madrid 1975, y su primera grabación en directo Paco en vivo desde el Teatro Real, primer LP de Oro.

Fue en Madrid donde surgió la mítica pareja Camarón-De Lucía, tan virtuosa y purista como renovadora del flamenco, y que se tradujo en más de diez discos de estudio, como El duende flamenco (1972) y Fuente y caudal (1973).


Fue Premio Castillete de Oro del Festival de Las Minas 1975; single de oro 1976 por su magnífica rumba Entre dos aguas y LP de Oro en 1976 por Fuente y caudal. Fundó en 1981 su sexteto, con Ramón de Algeciras (segunda guitarra), Pepe de Lucía (cante y palmas), Jorge Pardo (saxo y flauta), Rubén Dantas (percusión) y Carles Benavent (bajo), lo que le permitió crear el concepto actual de grupo flamenco.

Colaboró en el disco Potro de rabia y miel de su gran amigo Camarón, y la muerte de éste, en 1992, lo llevó a cancelar sus actuaciones por todo el mundo durante casi un año. Incluso pensó en retirarse, regresando un año después a los escenarios con una nueva gira europea, en la que dio 40 recitales en EE.UU. y grabó Live in America.

Entre sus discos están Fantasía flamenca, Recital de guitarra, El duende flamenco de Paco de Lucía, Almoraima, Sólo quiero caminar, Paco de Lucía en Moscú, Zyryab, Siroco o Lucía (1998). Tras un silencio de cinco años, en 2004 editó Cositas buenas, calificado por la crítica de "obra maestra", el cual contiene ocho temas inéditos, como un trío con la guitarra de Tomatito y la voz recuperada de Camarón, y que le proporcionó ese año el Grammy Latino a mejor álbum flamenco. Un año antes había publicado su primer recopilatorio, Paco de Lucía por descubrir, con sus trabajos de 1964 a 1998.

En 2011 puso su guitarra en un disco de flamenco tradicional del músico Miguel Poveda. Este mismo año el cantante participó en un álbum de boleros de Rubén Blandes con la agrupación musical costarricense Editus.

Era hijo predilecto de la provincia de Cádiz (1997) y de Algeciras (1998) y doctor honoris causa por el Berklee College of Boston (EE.UU., 2010). El guitarrista estaba afincado en Toledo y pasaba temporadas en Cancún (México), donde practicaba la pesca submarina. Fruto de su primer matrimonio en 1977 con Casilda Varela en Amsterdam (Holanda), tuvo tres hijos: Casilda, Lucía y Francisco.