quarta-feira, 31 de julho de 2013

Foto de Peter Baryshnikov


ALPHONSUS DE GUIMARÃES

Como se moço e não bem velho eu fosse
Uma nova ilusão veio animar-me.
Na minh’alma floriu um novo carme,
O meu ser para o céu alcandorou-se.
Ouvi gritos em mim como um alarme.
E o meu olhar, outrora suave e doce,
Nas ânsias de escalar o azul, tornou-se
Todo em raios que vinham desolar-me.
Vi-me no cimo eterno da montanha,
Tentando unir ao peito a luz dos círios
Que brilhavam na paz da noite estranha.
Acordei do áureo sonho em sobressalto:
Do céu tombei aos caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi tão alto...

CISNES BRANCOS


CISNES BRANCOS

ALPHONSUS DE GUIMARÃES

Ó cisnes brancos, cisnes brancos,
Porque viestes, se era tão tarde?
O sol não beija mais os flancos
Da montanha onde morre a tarde.
O cisnes brancos, dolorida
Minh’alma sente dores novas.
Cheguei à terra prometida:
É um deserto cheio de covas.
Voai para outras risonhas plagas,
Cisnes brancos! Sede felizes...
Deixai-me só com as minhas chagas,
E só com as minhas cicatrizes.
Venham as aves agoireiras,
De risada que esfria os ossos...
Minh’alma, cheia de caveiras,
Está branca de padre-nossos.
Queimando a carne como brasas,
Venham as tentações daninhas,
Que eu lhes porei, bem sob as asas,
A alma cheia de ladainhas.
O cisnes brancos, cisnes brancos,
Doce afago de alva plumagem!
Minh’alma morre aos solavancos
Nesta medonha carruagem...


The Marginalized, Front and Center

The Marginalized, Front and Center

Suzanne DeChillo/The New York Times
Peter Baryshnikov at the Camera Club of New York, in front of images he took of Guatemalan trash pickers and their families.
Peter Baryshnikov is following in the footsteps of his father, Mikhail — but not with jetés and battements.

 

“I took one or two dance classes just to try it, and a course in middle school, which I loved,” the younger Mr. Baryshnikov said.  “But it was just for fun.”
Instead, Mr. Baryshnikov, 23, is pursuing a career in photography, a lesser-known avocation of his father, who will go down in history for his ballet dancing and choreography, as well as his acting in projects like “White Nights” and “Sex and the City.”
“He’s always been more interested in the abstract, and he draws a lot from painting,” Mr. Baryshnikov said of his father. “My work is more content-based, it’s more about things.”
And it was a surprise hit earlier this season in Southampton, N.Y., where his first solo show — “Recycled: A Selection From Peter Baryshnikov’s ‘Guajeros,’ ” 16-by-20-inch black-and-white prints of Guatemalan trash pickers and their families, priced at $1,000 each — opened on the conveniently white walls of a private squash court behind a big house over Memorial Day weekend. The event was arranged by Gerson Zevi, an Internet gallery and art-buying service started by Alex Gerson, 25, and Matteo Zevi, 23, last spring as they were graduating from Harvard.
Among those buying the works was Kate De Rosa, a junior executive at Estée Lauder. “I’m from Colorado, and my family collects Edward Curtis photographs,” Ms. De Rosa said. “Peter’s work reminded me of that, and also of Edward Weston’s Mexico photography, the depiction of social realism and nature together.”
Andrew Krantz, who works in private equity at Goldman Sachs, bought “No Way Out,” depicting a man in a rainy ravine, facing the risk of a mudslide. “There’s such a mix of fear and despair and hope as he looks up,” he said, adding of the opening party, “Peter was great with both the kind of traditional gallerygoers you might see at Gagosian and young people just starting out.”
Mr. Baryshnikov got his start in the field “fooling around in photography class” in high school, at Fieldston, he said, where he also fenced and played soccer and ice hockey. He grew more serious at Whitman College, in Walla Walla, Wash. “It was good to get out of New York, get fresh air,” said Mr. Baryshnikov, who left Whitman after two years to get his bachelor’s of arts degree in photography from the Art Institute of Boston.
He is close to his father and mother, Lisa Rinehart, a dancer turned writer, and he has two sisters, Anna and Sofia-Luisa, still in college, and a half-sister, Alexandra, a dancer, whose mother is Jessica Lange. He is protective of the family’s privacy and any knee-jerk associations with his last name. The initial invitation to the Hamptons opening didn’t mention the artist by name because, Mr. Gerson said, “we didn’t want it to be about that.”
Though he plays down his family background, the younger Mr. Baryshnikov might as well have been born with a spoon of silver gelatin gripped in his hand. His godfather was Howard Gilman, the late philanthropist and collector of early photography.
“I remember him very well,” Mr. Baryshnikov said. “We had a copy of the huge book of his whole collection lying around. We always had a lot of photography books at our house. As I get older I keep discovering ways that he influenced me at such a young age, like my social conscience. I could tell that his compassion for all living things bled over into his work.”
Before the Hamptons show, in a West Village town house that Mr. Zevi was sharing with two investment-banker friends, Mr. Baryshnikov bent over a laptop screen displaying the final selection for the show and told of the time he provoked gunfire from members of MS-13, the multinational gang syndicate, when he strayed too far into their territory with his camera, capturing their gang tag on a wall. “It was just a warning shot,” he said. He kept that from his parents.
Mr. Baryshnikov processes his pictures at the Camera Club of New York on West 37th Street. “It’s been around since the late 19th century, and people like Stieglitz and Steichen and Strand belonged to it,” he said. Although he said he found the organization in a Web search for darkrooms, it’s only a few doors away from the Baryshnikov Arts Center, established by his dad.
At a worktable at the Camera Club, he acknowledged the incongruity of the trash pickers, overworked children and grimy, desecrated landscapes in his photos staring back at his show’s invited audience in the Hamptons.
“It’s tricky,” he said, “because selling the work and telling the story are two different things. But it’s important to get the work out there, to raise awareness of these people, to find a way to support them in their situations and make money that can be donated to the NGOs that help them.”
Yet, Mr. Baryshnikov said, “this isn’t just photojournalism” in service to advocacy. “Aesthetics are very important to me,” and he is not interested in commercial photography. “I don’t want conflicting interests, between the commercial and art,” he said. “I’ve seen it happen to friends. One started out making portraits, and now he’s shooting for Restoration Hardware. That’s, like, 180 degrees.”
To supplement his income, instead, he has absorbed at least a little of the family business: working at a physical therapy studio in Midtown.

Filha de João Cabral de Melo Neto vai filmar livro do pai sobre a história de Frei Caneca

Filha de João Cabral de Melo Neto vai filmar livro do pai sobre a história de Frei Caneca


Inez e seu pai, João Cabral de Melo Neto (fotos de 1954 e 1977)
Foto: Acervo pessoal
Inez e seu pai, João Cabral de Melo Neto (fotos de 1954 e 1977) Acervo pessoal
RIO - Ao longo de toda a infância e adolescência, Inez Cabral cansou de ouvir seu pai, o poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920-1999), lamentar o ostracismo de Joaquim do Amor Divino Rabelo, o Frei Caneca, herói pernambucano fuzilado em 1825 por liderar um movimento republicano durante o período monárquico. O assunto voltava de forma obsessiva: Caneca era um mártir quase ausente no imaginário nacional, pois “no Brasil só se fala em Tiradentes”. O autor de “Morte e vida severina” ia além: jurava que, se tivesse familiaridade com cinema, faria um filme contando os feitos do frade.
— Quando comecei a mexer com audiovisual, respondi ao meu pai: você não tem intimidade com cinema, mas eu tenho — lembra Inez, hoje com 64 anos. — Você escreve o texto e deixa que eu filmo a história.
Foram necessárias mais de três décadas de preparação, mas o tão sonhado projeto está perto de ganhar vida. Recém-aprovado pela Lei Rouanet, o filme está em fase de captação de recursos e deverá ser produzido sob o título “O frade”. Quando a claquete bater e Inez gritar “Ação!”, finalmente dará sequência a uma longa colaboração familiar. Artística e sentimental, vale frisar, pois reconciliou um pai e uma filha apartados por uma relação difícil. Cabral se encarregou do “roteiro”, que saiu do jeito que ele sabia fazer, ou melhor, em forma de teatro poético. Publicado em 1984, “Auto do frade” deveria ser a base do filme.
— Desde que o livro foi lançado, essa história martela minha cabeça e povoa meus sonhos — diz Inês, hoje radicada no Rio. — Falamos muito sobre o frade, sua vida, sua morte, o momento em que ela ocorreu, e claro, sobre minha visão em relação ao filme. Sobretudo nos últimos anos do meu pai, quando ele já estava praticamente cego, conversávamos todas as manhãs a respeito de seu trabalho e do meu sonho de filmar o “Auto...”.
Infância ‘diabólica’
Inez e Cabral voltavam a ter convivência diária e afetiva após muito tempo. Sua juventude, ela admite, foi “diabólica” (“Filha de pai pernambucano não é mole”, diz). Como o pai diplomata, aprendeu a adaptar-se a qualquer país. E era a única entre os cinco irmãos a bater de frente com os pais. Na adolescência, foi “hippie de butique” e quis fugir com um namoradinho para Istambul (“Na verdade, estava louca pra provar ópio”, confessa), o que provocou seu repatriamento em regime de urgência. Na Suíça, se engajou com a causa palestina. E Cabral ironizava: “Você colhendo fundos para palestinos, e nem sabe dos problemas do Brasil...”
Ser filha de poeta famoso, no entanto, tinha suas vantagens. Como o dia em que o telefone tocou na residência espanhola dos Cabral e, do outro lado, veio uma voz meio aguda: “Alô, eu poderia falar com Joan Cabral?” Era ninguém menos que o artista catalão Joan Miró, amigo de seu pai e um dos ídolos de Inez. Na época, ela estudava Belas Artes em Barcelona e quase caiu para trás quando o interlocutor se identificou. Apavorada, apenas balbuciou. “Você é que é a Inez?”, quis saber Miró. “Mas eu peguei você no colo!”
Os últimos passos
“O frade” será a experiência mais longa da cineasta em um filme. No currículo, ela conta com um curta e trabalhos para a TV, além de muitos anos como professora de cinema. Orçado em R$ 600 mil, o filme terá 70 minutos e representará o último dia de Caneca. A história será narrada pelos personagens, de maneira polifônica, como o autêntico “poema para vozes” idealizado por Cabral. Frei Caneca será vivido por José Dumont, e a trilha terá assinatura de Jaques Morelenbaum.
Inez define o filme como uma mistura de documentário histórico com espetáculo son-et-lumière. Mas ela pretende passar longe do academicismo solene. A maior dificuldade foi conceber a transposição em imagens do corpus poético do livro, sem que isso se desse de forma puramente ilustrativa.
— João Cabral não era um autor teatral, portanto seguiu regras literárias — diz a cineasta. — Como quis me manter o mais fiel possível ao texto, o filme ficaria pobre se apenas descrevesse em imagens o que ele diz magistralmente em palavras. O subtítulo do livro “Auto do frade” me deu a pista: “Poema para vozes”. Daí me veio a ideia do poema interpretado na trilha de áudio, tendo a liberdade de ilustrar o texto com imagens.
Apesar do cunho histórico, Inez fará associações com o Brasil atual. Em alguns trechos, a câmera será nervosa e dinâmica, como pede “a estética dessa criançada que está com equipamentos digitais captando tudo em tempo real”. João Cabral e Mídia NINJA?
— Sim, quero incorporar esse estilo. E, com ele, imagens documentais de Recife na época, gravuras, mapas etc. É importante reforçar as semelhanças da realidade brasileira de 1825 e de hoje. No livro, há trechos que lembram terrivelmente os últimos acontecimentos.
Se tudo der certo, Inez espera realizar um dos maiores desejos do pai: oferecer a Frei Caneca o protagonismo histórico que ele merece. A admiração do poeta era tanta, aliás, que se estendeu a Nossa Senhora do Carmo, de quem o frade foi “afilhado”.
— Meu pai se dizia ateu e simpatizante comunista, mas acreditava em duas coisas: no diabo e em Nossa Senhora do Carmo — recorda ela. — Ele dizia: “Se você morrer com uma medalha dela no pescoço, vai para o céu sem trâmites de alfândega”.
Trecho do monólogo de Frei Caneca
(extraído do livro ‘Auto do frade’)
Sei que acordei para pouco
e que entre a cela sinistra
onde só a luz das caveiras
com luz própria reluzia,
e outro telão de sono
que cai e que não se bisa,
é estreita a nesga do tempo
para que se chame vida.
E as ruas de São José
com que mais eu convivia,
que passeava sem prever
o passeio deste dia.
Eu sei que no fim de tudo
Um poço cego me fita.
Difícil é pensar nele
neste passeio de um dia,
neste passeio sem volta
(meu bilhete é só de ida).
Mas, por estreita que seja,
dela posso ver o dia,
dia Recife e Nordeste,
gramática e geometria,
do beira-mar e Sertão
onde minha vida um dia.

terça-feira, 30 de julho de 2013

FOTO


ONU vê progresso "impressionante" no Brasil

ONU vê progresso "impressionante" no Brasil

: Nas últimas duas décadas, o Brasil quase dobrou seu Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), passando de 0,493, em 1991, para 0,727, em 2010, um número que representa alto desenvolvimento humano, conforme o Atlas do Desenvolvimento Humano Brasil 2013; País registrou crescimento de 47,8% no IDHM; em 1991, 85,5% das cidades brasileiras tinham IDHM considerado muito baixo; em 2010, o percentual passou para 0,6% dos municípios; "Brasil mostrou que é possível acabar com desigualdades históricas em pouco tempo", disse membro da ONU


segunda-feira, 29 de julho de 2013

A JOVEM MARTHA

El regalo del papa Francisco para el nieto de Cristina Kirchner

El regalo del papa Francisco para el nieto de Cristina Kirchner

El Mundo
En el cierre de la Jornada Mundial de la Juventud, el sumo pontífice le entregó a la Presidenta un par de zapatos para Néstor Iván, hijo de Máximo Kirchner
 

RIO DE JANEIRO.- Cristina Kirchner recibió un regalo inesperado del papa Francisco. Durante el cierre de la Jornada Mundial de la Juventud (JMJ) en la ciudad de Río de Janeiro, el sumo pontífice le entregó a la Presidenta un par de zapatos y medias blancas para su nieto, Néstor Iván, el hijo de Máximo Kirchner.
"Miren lo que me regaló el papa Francisco para Néstor Iván", dijo la mandataria a los periodistas.
Ante un cronista de LA NACION, la mandataria, que viajó ayer a Brasil para participar de la ceremonia, se mostró "emocionada" por el regalo. La jefa del Estado contó, además, que el Papa también le "bendijo unos rosarios"

No es la primera vez que Cristina Kirchner recibe un regalo del Papa. En marzo pasado, la mandataria se reunió con Jorge Bergoglio en el Vaticano, tras su elección como sumo pontífice. Durante el encuentro, Francisco le entregó el documento con las conclusiones de la Conferencia del Consejo Episcopal latinoamericano de 2007; una mayólica que replica la placa con la imagen de la Plaza San Pedro en la que figuran los nombres de Cristina Kirchner, Michele Bachelet y el entonces papa Benedicto XVI, cuando celebraron en Roma los 30 años de la mediación de Juan Pablo II en el diferendo limítrofe con Chile por el canal de Beagle; y una rosa blanca, que simboliza la devoción que el Papa tiene por Santa Teresita.
Por su parte, la Presidenta le entregó un equipo de mate elaborado por artesanos y cooperativistas del Plan Argentina Trabaja y un poncho de vicuña.
Con la colaboración de Alberto Armendariz.

Ava Gardner: the Secret Conversations, by Peter Evans, review


Ava Gardner: the Secret Conversations, by Peter Evans, review


In a new book, the ghost of Hollywood’s most beautiful woman speaks. But, asks Gaby Wood, is it really her voice we are hearing?





Ava Gardner: 'I think the most vulgar thing about Hollywood is the way it believes its own gossip. Why can’t we settle for what I pretend to remember?'

Ava Gardner: 'I think the most vulgar thing about Hollywood is the way it believes its own gossip. Why can’t we settle for what I pretend to remember?' Photo: Rex





Late one night in January 1988, Ava Gardner rang Peter Evans – a veteran journalist she had never met – and asked him to ghostwrite her memoirs. “Dirk Bogarde says you’re OK,” she explained, “and you’re not a faggot.” So that was that.

The work, as Evans renders it, was difficult – mutual friends tell him at the outset that she’ll eat him alive, fight him all the way, and enact a string of other clichés. Gardner herself has misgivings: she suffers from depression and memory loss, she dislikes her own foul language when it’s on the page and, eventually, spurred by a comment made by her ex-husband Frank Sinatra, she fears a betrayal and pulls the plug.

Nine months after her death in 1990, a different memoir was published – Ava: My Story – which was rather straightforward. Clearly, she had found a tamer collaborator. But Evans still had the tapes. Why he waited to use them is unclear, and the question unanswerable: Evans himself died before he finished writing the last chapter of Ava Gardner: the Secret Conversations.

In some editions, the book is subtitled An Indiscreet Memoir by Peter Evans. In this one, Evans and Gardner are listed as co-authors. The former seems more honest. In any case, there are few revelations: she misses John Huston, Mickey Rooney was a “midget”, she graduated from the University of Sinatra.

'Ghosting” in this case is a very flexible verb. It’s not just that author and subject are shades by the time the book reaches us; and not even that you can’t tell if Evans is really writing it as if on Gardner’s behalf.


It’s also that Gardner, by the time she contacts Evans, has had two strokes and is a sexagenarian shadow of her famous self. Half her face, Evans writes, is frozen “in a rictus of sadness”; “as if getting old wasn’t tough enough”, Gardner says, apparently reading his thoughts. And more generally, there is a large-scale resurrection implicit. Ava Gardner is, Dirk Bogarde warns Evans, “essential to the Hollywood myth about itself. You tamper with that at your peril.”
One puzzling thing about Hollywood histories is that its subjects tend to speak like the characters they feel they’re expected to play. Gardner comes across here as a hard-boiled dame – “pretty damn soon there’s gonna be no corn in Egypt, baby”. It’s difficult to tell whether this is the talk of the period or a put-on. Were the pulp fiction writers taking down what they heard, or were the stars impersonating what they’d read?
But “authenticity” is something of a red herring in the context of Hollywood. It’s a world built on stories – whether scripted or gossiped about, covered up or reconstituted. “I think the most vulgar thing about Hollywood is the way it believes its own gossip,” Gardner tells Evans. But then she asks him to perpetuate it: “Why can’t we settle for what I pretend to remember? You can make it up, can’t you? The publicity guys at Metro did it all the time.” The MGM stars were all “made-up”: both painted and a fiction. In Evans’s account, Bogarde suggests that Gardner is “pathologically conflicted about herself, especially about her fame”.
This is the most interesting aspect of any of those women’s lives. Not who they “really” were (what would that mean when they spent their waking hours acting?), but who they thought they were, and how that played out in a world where millions of others thought they knew them, too. “I’m so ----ing tired of being Ava Gardner,” Evans says she told him. Such figures were designed, as F Scott Fitzgerald put it, “to be dreamed in crowds, or else discarded”. But that is its own kind of reality – can anyone in that complicated public-private dynamic be said to be actively wrong? The point about a star is that she enters your life: who Ava Gardner is to you or me is no less real than the person she was in the flesh. To us, she is merely less mortal.


NOITE DE VIGÍLIA ANIMADA

Protestos não ajudarão direita, diz brasilianista

Protestos não ajudarão direita, diz brasilianista


Segundo o professor Timothy Power, da Universidade de Oxford, “Dilma está mais fraca”, mas isso não melhora as chances eleitorais de nenhum dos seus adversários

POR SYLVIO COSTA Publicado no Congresso em Foco.

A agenda dos brasileiros tornou-se “pós-materialista”, afirma Timothy. Questões ligadas à “sobrevivência física e econômica são menos importantes no Brasil atual” Dos acadêmicos estrangeiros que adotaram o Brasil como objeto de estudos (os chamados “brasilianistas”), o cientista político Timothy Power está entre os mais ativos. Nascido nos Estados Unidos, mas há sete anos residindo na Inglaterra, ele dirigiu entre 2008 e 2012 o Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Oxford, no qual continua coordenando o programa de estudos brasileiros. Seu interesse pelo país, onde faz pesquisas desde 1990, se faz sentir na fluência com que fala português, com um sotaque bastante discreto. O Congresso em Foco encontrou Timothy por acaso, ao fim da tarde da última quinta-feira, no Senado. De saída de uma reunião no Instituto Legislativo Brasileiro (ILB), com o qual organiza um seminário sobre “presidencialismo de coalizão”, a se realizar em setembro, ele topou conversar sobre o significado das manifestações que ganharam as ruas brasileiras e o impacto que elas podem ter nas próximas eleições. Apesar da ligeireza da conversa (pouco mais de 20 minutos), o pesquisador fez algumas observações dignas de atenção. As mais interessantes dizem respeito ao impacto eleitoral dos protestos populares. Na sua opinião, “forças conservadoras não vão se beneficiar” dos protestos. O que vale, no seu entender, tanto para a direita mais radical quanto para nomes como o do senador Aécio Neves (PSDB-MG). Já Marina Silva lhe parece “quase o suficientemente distante” do sistema político que as ruas repudiaram, “mas nem tanto”. Sua conclusão: “A posição da Dilma está mais fraca, mas a insatisfação não está beneficiando nenhum ator politico”. Para ilustrar a ideia, Timothy Power recorre à língua nativa: “We can’t beat somebody with nobody [você não pode derrotar alguém com ninguém]”. O pesquisador atribui os protestos a uma reação generalizada contra os políticos e à insatisfação com a qualidade dos serviços públicos, fenômeno em que enxerga um forte componente geracional – uma nova leva de brasileiros, muitos nascidos depois da adoção do real (1994), estão “encantados” com uma “novidade”, a possibilidade de participarem da vida política e se fazerem ouvir. Ele considera baixa a influência da situação econômica no que alguns passaram a chamar de “jornadas de junho”.

E critica o PT. “Acho que o PT continua pensando nas ferramentas do passado. Por exemplo: vale mais uma CUT ou uma conta do Twitter hoje? Para mobilizar, acho que é a conta do Twitter, né?”, diz ele, ao mesmo tempo perguntando e respondendo, com um suave sorriso estampado entre os lábios.

Seguem os principais trechos da entrevista.

Pelo que o senhor conhece do Brasil e pelo que tem visto nas últimas semanas, pergunto: o que, na sua opinião, está acontecendo no país?

Vemos uma insatisfação, um conjunto de manifestações que não são partidárias, e o que salva um pouco a presidenta é que a oposição não é direcionada contra a Presidência da República nem contra o governo, é uma coisa mais generalizada. Mas acho que o PT continua pensando nas ferramentas do passado, né? Por exemplo: vale mais uma CUT ou uma conta do Twitter hoje? Para mobilizar, acho que é a conta do Twitter, né? Mas essas redes sociais facilitam a mobilização instantânea, que elas tornam muito fácil, mas a longo prazo ou mesmo no dia seguinte você não tem capilaridade porque não tem um mecanismo aglutinativo para continuar a mobilização. Nisso aí os movimentos mais tradicionais, os partidos, os sindicatos e o PT ganham.

Então, mobilização permanente e temporária são duas coisas bem diferentes, né? Mas as pessoas estão encantadas com a mobilização temporária que se vê nas ruas, porque é novidade. É coisa geracional. Desde 92, com o impeachment do Collor, não se teve nada parecido e antes disso foi 84 com as diretas já. É uma coisa um pouco cíclica. Essa geração… tem muita gente protestando que nasceu depois do Plano Real, é um outro Brasil. É a primeira vez que eles participam…

Na sua opinião, o alvo central dos protestos seria o governo, seriam os governantes, neste caso mais em geral, seria a situação econômica ou seria algo ainda mais amplo, uma repulsa geral às instituições, a tal crise de representatividade?

Acho que são duas coisas. Uma reação contra a classe política de modo geral, acho que aí não poupam ninguém. E também uma insatisfação com a qualidade dos serviços públicos. Muita gente lá fora, no Financial Times, no New York Times, estão tratando isso como se fosse resultado da desaceleração da economia. Acho que isso tem alguma coisa a ver, mais não muito. Eu acho que o povo não sente o pibinho como antes, o povo sentia o pibinho muito mais no final dos anos 90. Um ponto a mais de inflação ou um ponto a mais de desemprego ia matar o Fernando Henrique. Mas com o salário mínimo de hoje e a bolsa família de hoje, essas oscilações são menos importantes para o poder de consumo. O que se teve no Brasil foi uma revolução de consumo, o consumo não para… como que é credit bubble em português? Isso. Bolha de crédito. Não para de crescer… mas eu acho que é mais uma agenda de qualidade de vida, né? Fora do Brasil, as pessoas também estão perguntando: o que que aconteceu no Brasil? Teve uma crescente inclusão social nos últimos dez anos. Isso não deveria levar a menos protestos em vez de mais protestos? E é justamente o contrário, né? Porque as pessoas têm outros critérios comparativos. Hoje, elas aplicam critérios muito mais severos, querem mais qualidade. Trazem uma agenda que na ciência política a gente chamaria de pós-materialista. Quando a gente é materialista, pensa em emprego, inflação, sobrevivência física e econômica. Isso é menos importante no Brasil atual do que há 15 anos. Mas as pessoas não estão tratando exatamente de questões materiais quando falam em saúde , educação, transporte, segurança publica? Todas essas coisas não têm uma dimensão materialista? Eles foram incluídos nesse sistema, mas não gostam da qualidade dos serviços. O que o Brasil teve foi acess reforms [reformas de acesso]. Acesso às universidades, acesso ao SUS, acesso às ruas e estradas com carros, acesso aos aviões. Mas o acesso não resolve, né? Os números são impressionantes quando se conta o acesso, mas é a qualidade que estão reclamando. O cara pode comprar o primeiro carro da vida dele, mas ele não tem onde dirigir ou estacionar. O senhor estava falando em salário mínimo. O salário mínimo brasileiro está em duzentos e tantos dólares… Trezentos dólares. Passou de trezentos. Tá bom. Mas isso não é nada para uma família com quatro pessoas que vá ao supermercado fazer a compra de mês, não é? Para comprar alimento, para pagar o básico do básico, o salário mínimo brasileiro não está tão alto, se considerarmos os preços vigentes no Brasil. O país é muito caro. Será que esses protestos teriam ocorrido com a dimensão que têm ocorrido se a situação econômica fosse outra, ou seja, se a Dilma tivesse entregue o PIB e os investimentos que ela prometeu e não conseguiu entregar? Eu tenho minhas dúvidas se esses protestos foram motivados pelo desempenho econômico do Brasil. Eu acho que isso é coisa de menor importância. Eliane Cantanhede publicou um artigo anteontem [na Folha de S. Paulo] em que ela fala assim: o pibinho tirou oito pontos da popularidade da Dilma, mas os protestos tiraram 27 pontos a mais. Isso dá um pouco a proporção… Mas, por que tiraram? Por um mal-estar subjetivo ou por que a Dilma se atrapalhou de uma maneira absolutamente incrível, inesperada, ao reagir? Quer dizer, numa hora era a Constituinte, que horas depois já não valia mais nada, no dia seguinte era um plebiscito também proposto de forma amalucada, sem nenhuma construção prévia de consenso… Não foram essas questões que pesaram? Eu acho que você tem razão. Dentro de um mundo de formadores de opinião, acho que você tem total razão: essas coisas pesaram. Nesse mundo a visão que se tem da Dilma e da equipe econômica é supernegativa, não tem dúvida. Mas eu duvido muito que isso se infiltrou entre os populares. Acho que houve um tipo de chain reaction [reação em cadeia] a partir de São Paulo. Me falaram, não se é verdade, que ela telefonou para o [prefeito de São Paulo, Fernando] Haddad em janeiro e pediu que ele não aumentasse a tarifa de ônibus… … O Eduardo Paes recebeu esse pedido também… Isso. Pedir ao povo que pague R$ 0,20 a mais parece pouca coisa, né? Isso é difícil de explicar no exterior. Dez centavos de dólar? O que houve? Se você está me dando um serviço que é uma merda, você não tem o direito de aumentar o preço. Então, quando cancelaram o aumento, isso foi uma admissão pública de que o transporte público é uma merda. É uma confissão. Sim, vocês tinham razão, não podemos cobrar mais. Espero que agora o debate seja mais em torno da qualidade e não do preço. O problema é a qualidade. Quem capitaliza, se é que alguém capitaliza, este momento tão peculiar da história política brasileira? Qual força politica? A gente tem uma frase em inglês. We can’t beat somebody with nobody [“você não pode derrotar alguém com ninguém”]. A posição da Dilma está mais fraca, mas a insatisfação não está beneficiando nenhum ator politico. Mas a gente tem que comparar o Brasil com outros países. O bom é que não tem nenhum outsider no horizonte nacional. Não tem o Collor de 89, não existe. Tem uma experiência histórica que não sei até que ponto seria aplicável à situação atual do Brasil, mas tivemos Paris de 68 e a contracultura norte-americana dos anos 60, com manifestações plurais, bastante heterogêneas, com muitas mensagens contra várias coisas mas sem apontar um caminho claro em relação ao que aqueles manifestantes pretendiam. Em Paris, isso terminou em De Gaulle e nos Estados Unidos em um período longo de hegemonia do Partido Republicano, Nixon etc. Será que no Brasil não há uma possibilidade concreta de um candidato bem trabalhado pela direita, pelas forças conservadoras, voltar ao poder? Eu acho muito improvável. Só se os protestos continuassem com mais vandalismo, desordem, bagunça, mas acho muito difícil. Você nem tem o Enéas hoje. Nem aquele general daqui de Brasília. Como é mesmo o nome dele? Newton Cruz. Newton Cruz. Você não tem mais na política nacional uma figura dessas. Mas tem o Aécio Neves, que hoje une a direita. Ou não une? Aécio Neves? Se ficar claro para os conservadores que, olha, com esse cara a gente ganha a eleição, será que o povo mais à direita do espectro político terá alguma hesitação em montar nessa garupa? E o Aécio nem tem essa imagem de alguém hiperconservador. Tem uma imagem de ser uma pessoa maleável, do diálogo… O movimento é antipartido, o movimento é contra a classe politica. Não vejo um nome assim como o de Aécio Neves se beneficiando disso daí. Tem que ser um nome muito mais distante do centro do sistema político… Marina, por exemplo? Marina é quase o suficientemente distante, mas nem tanto. Ela está na fronteira. O que leva o senhor a acreditar que não haveria ambiente para um candidato de perfil mais conservador ganhar a eleição? Não vejo a direita se aglutinando em torno dos protestos, acho muito difícil. Acho que o Brasil passou disso aí. Não existe isso mais. Forças conservadoras não vão se beneficiar. Eu acho que quem tem ideias sobre melhoria de qualidade dos serviços públicos… é um debate chato, tecnocrata, mas tem que ser por aí. Professor, a Inglaterra está sendo muito citada como modelo a ser seguido na questão da prática médica e como inspiradora dessa exigência que o governo quer implantar para os médicos se dedicarem por pelo menos dois anos à saúde pública. O senhor tem alguma coisa que possa trazer sobre o assunto? Eu não sou britânico, sou americano. Tenho sete anos morando lá, mas não sei nada sobre o sistema de saúde britânico. Não posso falar com autoridade sobre isso.

Timothy Power, foto de Sylvio Costa -

O FINAL GLORIOSO




DILMA NO ENCERRAMENTO DA JMJ COM CRISTINA E EVO


domingo, 28 de julho de 2013

ENTREVISTA DILMA ROUSSEFF

ENTREVISTA DILMA ROUSSEFF
'Lula não vai voltar porque ele não saiu', afirma Dilma
Presidente diz que comparações com o seu antecessor não a incomodam
Evitando comentar queda na popularidade, petista prefere brincar: 'Tudo o que sobe desce, e tudo o que desce sobe'
MÔNICA BERGAMOCOLUNISTA DA FOLHA
O encontro da presidente Dilma Rousseff com a Folha, na sexta, no Palácio do Planalto, começou tenso. "Minha querida, você tem que desligar o ar-condicionado", dizia ela a uma assessora.
Com febre e faringite, medicada com antibiótico, corticóide e Tylenol, e com "o estômago lascado", ela estava também rouca. Em pouco tempo, relaxou. E passou quase três horas falando sobre manifestações, inflação, PIB e a possibilidade de Lula ser candidato a presidente. Leia abaixo os principais trechos:
Folha - As manifestações deixaram jornalistas, sociólogos e governantes perplexos. E a senhora, ficou espantada?
Dilma Rousseff - No discurso que fiz na comemoração dos dez anos do PT, em SP [em maio], eu já dizia que ninguém, ninguém, quando conquista direitos, quer voltar para trás. Democracia gera desejo de mais democracia. Inclusão social exige mais inclusão. Quando a gente, nesses dez anos [de governo do PT], cria condições para milhões de brasileiros ascenderem, eles vão exigir mais. Tivemos uma inclusão quantitativa. Esta aceleração não se deu na qualidade dos serviços públicos. Agora temos de responder também aceleradamente a essas questões.
Mas a senhora não ficou assustada com os protestos?
Não. Como as coisas aconteceram de forma muito rápida, eu acho que todo mundo teve inicialmente uma reação emocional muito forte com a violência [policial], principalmente com a imagem daquela jornalista da Folha [Giuliana Vallone] com o olho furado [por uma bala de borracha]. Foi chocante. Eu tenho neurose com olho. Já aguentei várias coisas na vida. Não sei se aguentaria a cegueira.
Se não fosse presidente, teria ido numa passeata?
Com 65 anos, eu não iria [risos]. Fui a muita passeata, até os 30, 40 anos. Depois disso, você olha o mundo de outro jeito. Sabe que manifestações são muito importantes, mas cada um dá a sua contribuição onde é mais capaz.
O prefeito Fernando Haddad diz que, conhecendo o perfil conservador do Brasil, muitos se preocupam com o rumo que tudo pode tomar.
Eu não acho que o Brasil tem perfil conservador. O povo é lúcido e faz as mudanças de forma constante e cautelosa. Tem um lado de avanço e um lado de conservação. Já me deram o seguinte exemplo: é como um elefante, que vai levantando uma perna de cada vez [risos]. Mas é uma pernona que vai e "poing", coloca lá na frente. Aí levanta a outra. Não galopa como um cavalo. Aí uma pessoa disse: "É, mas tem hora em que ele vira um urso bailarino". Você pode achar que contém a mudança em limites conservadores. Não é verdade. Tem hora em que o povo brasileiro aposta. E aposta pesado.
A senhora teve uma queda grande nas pesquisas.
Não comento pesquisa. Nem quando sobe nem quando desce [puxa a pálpebra inferior com o dedo]. Eu presto atenção. E sei perfeitamente que tudo o que sobe desce, e tudo o que desce sobe.
Mas isso fez ressurgir o movimento "Volta, Lula" em 2014.
Querida, olha, vou te falar uma coisa: eu e o Lula somos indissociáveis. Então esse tipo de coisa, entre nós, não gruda, não cola. Agora, falar volta Lula e tal... Eu acho que o Lula não vai voltar porque ele não foi. Ele não saiu. Ele disse outro dia: "Vou morrer fazendo política. Podem fazer o que quiser. Vou estar velhinho e fazendo política".
Para a Presidência ele não volta nunca mais?
Isso eu não sei, querida. Isso eu não sei.
Ao menos não em 2014.
Esses problemas de sucessão, eu não discuto. Quem não é presidente é que tem que ficar discutindo isso. Agora, eu sou presidente, vou discutir? Eu, não.
Mas o Lula lançou a senhora.
Ele pode lançar, uai.
O fato de usarem o Lula para criticá-la não a incomoda?
Querida, não me incomoda nem um pouquinho. Eu tenho uma relação com o Lula que tá por cima de todas essas pessoas. Não passa por elas, entendeu? Eu tô misturada com o governo dele total. Nós ficamos juntos todos os santos dias, do dia 21 de junho de 2005 [quando ela assumiu a Casa Civil] até ele sair do governo. Temos uma relação de compreensão imediata sobre uma porção de coisas.
Mas ele teria criticado suas reações às manifestações.
Minha querida, ele vivia me criticando. Isso não é novo [risos]. E eu criticava ele. Quer dizer, ele era presidente. Eu não criticava. Eu me queixava, lamentava [risos].
Como a senhora vê um empresário como Emílio Odebrecht falar que quer que o Lula volte com Eduardo Campos de vice?
Uai, ótimo para ele. Vivemos numa democracia. Se ele disse isso, é porque ele quer isso.
ENTREVISTA DILMA ROUSSEFF
Petista afirma que reforma é pedido de 'todo mundo'
Para presidente, plebiscito daria mais legitimidade a mudanças na política
'Como explicar 700 municípios sem médicos?', pergunta, ao defender importação de profissionais da saúde
DA COLUNISTA DA FOLHA
Leia o trecho em que Dilma Rousseff fala de plebiscito, reforma política e Mais Médicos.
Sua principal proposta em reação às manifestações foi a realização de um plebiscito para fazer a reforma política. A crítica à senhora é que ninguém nas passeatas pedia isso.
Pois acho que tá todo mundo pedindo reforma política. As manifestações podiam não ter ainda um amadurecimento político, mas uma parte tem a ver com representatividade, valores, o que diz respeito ao sistema político. Ao fato de que os interesses se movem conforme o financiamento das campanhas. Não dá para cuidar de transparência sem discutir o sistema. "O gigante despertou", diziam nos protestos --o que mostra o inconformismo com a nossa forma de representação.
O Congresso Nacional fará reforma contra ele mesmo?
Querida, por isso que eu queria um plebiscito. A consulta popular era a baliza que daria legitimidade à reforma.
Mas a senhora concorda que o plebiscito não sai?
Eu não concordo com nada, minha querida. Eu penso que é importante sair. E não sei ainda se não sai. Eu acho que é inexorável. Se você não escutar a voz das ruas, terá novos problemas.
E a saúde? Os profissionais da área dizem que o Mais Médicos é uma maquiagem porque o país tem uma estrutura precária de atendimento.
É? Pois é. Acontece que botamos dinheiro em estrutura. Jornais e TVs mostram que há equipamentos sem uso. Como você explica que 700 municípios não têm nenhum médico? E que 1.900 têm menos de um médico por 3.000 habitantes? Uma coisa é certa: eu, com médico, me viro. Sem médico, eu não me viro.
Gabinete tem quatro imagens de Nossa Senhora
FERNANDA ODILLADE BRASÍLIA
Uma caixa de chá inglês com o nome de "Dilmah" e pelo menos quatro imagens de Nossa Senhora espalhadas pelas mesas.
O gabinete presidencial do Planalto revela que Dilma Rousseff guarda curiosidades em seu local de trabalho, além de flores, muitos lenços de papel em caixas e pelo menos três umidificadores de ar para resistir à seca na capital.
Todos os domingos o Planalto abre as portas para que os turistas conheçam os salões e entrem na porta do gabinete de Dilma. Anteontem, numa mesinha de canto, havia uma caixa do chá "Dilmah English Breakfast", cujo fabricante diz tratar-se de "um presente da natureza para a humanidade", além de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Dilma tem outras duas imagens da padroeira do Brasil na mesa principal de trabalho, ao lado do computador, e uma de Nossa Senhora Auxiliadora próxima ao relógio de parede.
A única foto da mesa é a do neto Gabriel abraçando uma bola e vestindo camisa do Internacional.
Dilma havia deixado sobre a mesa dois livros: "Antes de que se me olvide [Antes que eu esqueça]" do diplomata venezuelano Alí Rodriguez Araque, e "Curso de Direito Administrativo" de Lucas Rocha Furtado, procurador do Ministério Público junto ao TCU.Furtado ficou surpreso: "Que orgulho. Se ela seguir as regras não vai ter problema com o TCU", brinca.
ENTREVISTA DILMA ROUSSEFF
'Não estou cogitando corte de ministérios'
Presidente diz que medida não geraria economia, afirma que Mantega ficará na Fazenda e vê inflação sob controle
Petista defende regulação do 'negócio' das comunicações e nega bloquear diálogo com empresariado
DA COLUNISTA DA FOLHA
Apesar da pressão pública e até de aliados, a presidente Dilma Rousseff diz que não cogita reduzir o número de ministérios. Diz que já tomou todas as medidas para diminuir custos do governo, afirma que o desemprego subiu na "margem da margem da margem", nega que tenha relaxado no controle da inflação e diz que não pretende mudar a equipe econômica: "O [ministro] Guido [Mantega] está onde sempre esteve: no Ministério da Fazenda".
Ela defende também o ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, criticado até no PT por supostamente defender as empresas de telecomunicações e interditar discussões sobre eventual regulação do setor de radiodifusão. "A regulação em algum momento terá de ser feita", afirma a presidente.
Folha - O PMDB engrossou o coro dos que defendem o enxugamento de ministérios.
Dilma Rousseff - Não estou cogitando isso. Não acho que reduza custos. As medidas de redução de custeio, nós tomamos. Todas. E sabe o que acontece? Vão querer cortar os de Direitos Humanos, Igualdade Racial, Política para as Mulheres. São pastas sem a máquina de outros. Mas são fundamentais. Política de cotas, por exemplo: só fizemos porque tem gente que fica ali, ó, exigindo.
A senhora sabe falar o nome de seus 39 ministros?
De todos. E todos eles ficam atrás de mim [risos]. Eu acho fantástico vocês [jornalistas] acharem que, nesse mundo de mídias, o despacho seja apenas presencial. Os ministros passam o tempo inteirinho me mandando e-mail, telefonando, conversando.
O ministro Guido Mantega está garantido no cargo?
O Guido está onde sempre esteve: no Ministério da Fazenda. E vocês podem me matar, mas eu não vou falar de reforma ministerial.
O desemprego em junho subiu pela primeira vez em quatro anos, na comparação com o mesmo mês do ano anterior.
Querida, o desemprego... [Consulta papéis.] Olha aqui, ó. É fantástico. Tem dó de mim, né? Como não podem falar de inflação, porque o IPCA-15 [prévia do índice oficial] deu 0,07% neste mês... E nós temos acompanhamento diário da inflação, tá? Hoje deu menos 0,02%. Tá? Ela [inflação] é cadente, assim, ó [aponta o braço para baixo].
E o emprego?
Houve uma variação. Foi de 5,9% para 6%. É a margem da margem da margem. Foram gerados 123.836 empregos celetistas. Em todo o primeiro mandato do Fernando Henrique Cardoso foram gerados 824.394 empregos. Eu, em 30 meses, gerei 4,4 milhões. Você vai me desculpar.
Com a inflação, também... Alguém já disse quanto é que caiu o preço do tomate? Ou só comentaram quando o tomate aumentou? [Pede para uma assessora checar os números. Ela informa que o tomate está custando R$ 4,50 o quilo.]
Eu não sou dona de casa, não posso mais ir no supermercado e não sei o preço do tomate hoje. Mas sei a estatística do tomate. Teve uma queda, se não me engano, de 16%. Eu ia naquele supermercado ali, ó [aponta a janela]. Não posso mais.
A senhora acha que os críticos do governo exageram?
Eu propus cinco pactos [depois das manifestações]. E eu tenho um sexto, sabe? Que é o pacto com a verdade. Não é admissível o que se faz hoje no Brasil. Você tem uma situação internacional extremamente delicada. Os EUA se recuperam, mas lentamente. Nós temos um ajuste visível na China. O Fed [Banco Central dos EUA] indicou que deixaria o expansionismo monetário, o que provocou a desvalorização de moedas em todo o mundo. E o país, nessa conjuntura, mantém a estabilidade. Cumpriremos a meta de inflação pelo décimo ano consecutivo. Sabe em quantos anos o Fernando Henrique não cumpriu a meta? Em três dos quatro anos dele [em que a meta vigorou].
A inflação subiu por vários meses no período de um ano.
Nós tivemos a quebra na produção agrícola americana, que afetou os mercados de commodities alimentares. Tivemos uma seca forte no Nordeste e também no sul.
A crítica é que a senhora relaxou no controle da inflação para manter o crescimento.
Ah, é? Tá bom. E como é que ela tá negativa agora?
Há dúvidas também em relação à política fiscal.
A relação dívida líquida sobre PIB nunca foi tão baixa. A dívida bruta está caindo. O deficit da Previdência é 1% do PIB. As despesas com pessoal, de 4,2%, as menores em dez anos. Como é que afrouxei o fiscal? Quero falar do futuro. De agosto até o início do ano que vem, faremos várias concessões, rodovias, ferrovias, aeroportos e portos, o que vai contribuir para a ampliação dos investimentos e para melhorar a competitividade da economia.
Mas o Brasil cresce pouco.
O mundo cresce pouco. Nós não somos uma ilha. Você não está com aquele vento a favor que estava, não. Nós estamos crescendo com vendaval na nossa cara.
O modelo de crescimento pelo consumo não se esgotou?
É uma tolice meridiana falar que o país não cresce puxado pelo consumo. Os EUA crescem puxados pelo consumo e pelo investimento. Nós temos que aumentar a taxa de investimento no Brasil. Aí eu concordo. Tanto que tomamos medidas fundamentais para que isso ocorra. Reduzimos os juros. Desoneramos as folhas de pagamento. Reduzimos a tarifa de energia. E fizemos um programa ousado de formação profissional, o Pronatec.
Os investimentos estão lentos e isso é creditado ao governo. Os empresários reclamam que a senhora não tem diálogo.
Eu? Veja a agenda de qualquer tempo da minha vida. Participei de todos os leilões, do período Lula e do meu. Entendo que eles [empresários] queiram conversar comigo, como faziam sistematicamente. Mas sou presidente. Eu não posso mais discutir taxa interna de retorno.
É outra crítica: o governo interfere, quer definir até a taxa.
É da vida o empresário pedir mais, o governo pedir menos. Aí ganha no meio. O Tribunal de Contas da União exige a definição de uma taxa de retorno. E o governo tem de ter sensibilidade para perceber quando está errado.
A senhora teria características que não contribuiriam para que projetos deslanchem. Seria centralizadora, autoritária.
Não, eu não sou isso, não. Agora, eu sei, como toda mulher, que, se você não acompanha as coisas prioritárias, tem um risco grande de elas não saírem. É que nem filho. Você ajuda até um momento, depois deixa voar.
A senhora já fez ministros chorarem com suas broncas?
Ah, que ministros choram o quê! Aquela história do [ex-presidente da Petrobras José Sergio] Gabrielli? Um dia escreveram que ele era pretensioso e autoritário. No dia seguinte, que eu tinha brigado e que ele chorou no banheiro. A gente ligava pra ele: "Eu queria falar com o autoritário chorão". Ô, querida, você conhece o Gabrielli? Ah, pelo amor de Deus.
A senhora não é dura demais?
Ah, querida, eu exijo bastante. O que exijo de mim, exijo de todo mundo.
Isso não inibe ministros?
Não tenho visto eles inibidos, não. Nenhum projeto de governo sai da cabeça de uma pessoa só. Não funciona assim. Se funcionasse, eu tava feita. Não trabalharia tanto.
Uma das questões que Lula encaminhou no fim do governo foi o da regulamentação da radiodifusão no país. A senhora enterrou esse assunto?
Não. Agora, o que eu e Lula jamais aceitaremos é que se mexa na liberdade de expressão. Vou te dizer o seguinte: não sou a favor da regulação do conteúdo. Sou a favor da regulação do negócio.
O que acha de o ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, ser chamado por críticos de "ministro do Plim-Plim"?
É um equívoco, uma incompreensão. Essa discussão [da regulação] está sempre posta. O [ex-chefe da Secretaria de Comunicação Social] Franklin [Martins] deixou um legado importante. E agora vai ter mais discussão. A regulação em algum momento terá de ser feita. Mas ela não é igual ao que se pensou há três anos. É algo complexo, até o que deve ser regulado terá de ser discutido.
Por quê?
Hoje o que está em questão não é mais empresa jornalística versus telecomunicações, TV versus jornais. Hoje tem a internet. Tem um problema sério, nos EUA, no Brasil, para jornais escritos, revistas. Vai haver problema de concorrência da internet, da plataforma IP, em TV.
Temos de discutir. Eu não tenho todas as respostas. Todo mundo terá de participar. O Google hoje atrai mais publicidade que mídias que até há pouco eram as segundas colocadas. A vida é dura. E não é só para o governo. [Dilma pede que a conversa seja encerrada, alegando cansaço]. Gente, preciso ir. Estou tontinha da silva [risos].
Ia perguntar sobre seus prováveis adversários em 2014, Aécio Neves e Marina Silva.
[Em tom de brincadeira] Não fica triste, mas sobre isso eu não ia responder, não.
 

sábado, 27 de julho de 2013