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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

COPACABANA, COPACABANA - ROGEL SAMUEL

COPACABANA, COPACABANA - ROGEL SAMUEL


Depois de décadas, volto a morar em Copacabana. Lugar de velhos, como eu.
Voltei por isso, aqui tenho tudo perto, a pé, ao alcance dos meus passos lentos.
Talvez Copacabana já não tenha o glamour da juventude, quando de madrugada para passear pela praia saíam das boites aquelas belas damas cheias de jóias e depois o desjejum no Cervantes, que ainda existe.
Talvez já não existam os elegantes cafés, como a Colombo, onde era bom freqüentar ouvindo aquele piano da tarde, e todas aquelas luxuosas paredes de espelho que sumiram.
E já não existe o atelier do Dener, no Posto Seis. Nem o poeta CDA, que ali morava.
Que importa, continua o mar, como no “Canto esponjoso” de Carlos Drummond:
“Bela
esta manhã sem carência de mito,
E mel sorvido sem blasfêmia.
Bela
esta manhã ou outra possível,
esta vida ou outra invenção,
sem, na sombra, fantasmas.
Umidade de areia adere ao pé.
Engulo o mar, que me engole.
Calvas, curvos pensamentos, matizes da luz
azul
completa
sobre formas constituídas.
Bela
a passagem do corpo, sua fusão
no corpo geral do mundo.
Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto.”
Este é o poema de Copacabana. Drummond era o poeta de Copacabana, onde o vi passar, e me perfilei em reverência.
Ele vê corpos, curvas, mel sorvido sem blasfêmia, formas constituídas, sem deuses gregos, sem mitos, sem fantasmas...
Só a passagem de corpos, como o daquela garota de Ipanema que passava pelo Bar Veloso quando Vinícius estava como sempre bebendo, bebendo... engolindo o mar de cerveja que sempre bebia.
Drummond tem pensamentos curvos, ancas das ondas do mar, das mulheres seminuas, da calçada.
No fim aparecem os versos famosos, antológicos:
“Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto.”
E é assim que me sinto, em Copacabana.