segunda-feira, 30 de março de 2020

MEUS MORTOS HÃO DE VIR NO FIM DA TARDE


MEUS MORTOS HÃO DE VIR NO FIM DA TARDE


Rogel Samuel



De minha cara amiga Graça Carvalho, já falecida, recebi um precioso presente, a “Cartilha do bem sofrer com lições de bem amar”, do seu pai, o super-poeta amazonense Farias de Carvalho, publicada em 1967 e desde então esgotada.

Lá re-encontro o poema “Ocaso”, que não lia desde que Farias de Carvalho foi meu professor, no noturno do Colégio Estadual, onde ele lecionava literatura e eu tanto aprendia com ele: “Meus mortos hão de vir no fim da tarde”.
Só dá para ler este belo texto quem o situa na Manaus da década de 50, ou início de 60, quando foi ele escrito.
Aquela era uma cidade sem iluminação, ilhada no meio da maior floresta tropical do mundo. Ao cair da tarde, as perigosas trevas da floresta invadiam, a nostalgia da escuridão e da morte ameaçava, aquele Rio Negro ficava realmente Negro. Negro como a Morte Negra. Negro da morte de vinte e oito mil índios vitimados em 1729, numa hecatombe nunca esquecida por aquelas margens, de tal sorte que perto dali há um rio, chamado Rio Urubu, “rio doente para sempre, / desde o município de Silves”, como certa vez escrevi; rio onde um dia meu pai não me deixou mergulhar, “como se ali o rio pudesse / para sempre me tragar”.
Naquelas águas estão sepultados nossos antepassados e o grande guerreiro Ajuricaba, o herói que está em toda a parte ao mesmo tempo [Aiuricaua], rio de sangue Negro, de espinhos venenosos, de cadáveres históricos. Há demônios nas margens e eu me lembro da impressão trágica, da depressão que nos assaltava, ao cair da tarde, quando a cidade invadida por nuvens de moscas besouros, piuns, carapanãs sanguessugas, corujas, e aranhas peludas que saíam de seus esconderijos, e escorpiões de ébano que procuravam caça, a floresta ameaçada agora ameaçava, retomava e reconquistava o seu lugar em São João da Barra, nos expulsando para sempre, tudo debaixo da gloriosa chuva do ouro do mais esplendoroso por-de-sol do mundo, algo como explosão de bomba atômica terminal, final, de fim de mundo, finnisterra, que se expandia em coloridas nuvens para todos os lados, junto com misteriosas aves do entardecer.
Ajuricaba veio do rio Hiiaá, na margem esquerda do Negro, entre o Padauari e o Aujurá, no distrito de Lamalonga. Para salvar seu filho caiu em emboscada e foi prisioneiro da Coroa Portuguesa, em 1729, a Coroa o queria vivo para o supliciar com castigo e morte. No caminho, Ajuricaba, que era homem fortíssimo, arrancou do poste o grampo que o prendia e, com as correntes nas mãos algemadas, faz a matança dos soldados portugueses antes de se precipitar nas águas escuras do Rio Negro, onde morreu, não sem antes as amaldiçoar, e diz a lenda que é por isso que aquelas águas são estéreis, e não têm peixe. Logo depois, em vingança, o capitão Belchior Mendes de Moraes dizimou 300 malocas, matando em sacrifício mais de 28 mil índios das margens do rio que passou a se chamar Rio Urubu devido à montanha de cadáveres. E mais tarde balesteiros, sob o comando de um padre de nome piedoso, Frei José dos Inocentes, depois nome de rua de puta em Manaus, espalharam roupas contaminadas com varíola que disseminaram uma gigantesca epidemia que infectou 40 mil índios, arruinados de varíola, que é uma doença infecto-contagiosa, virulenta, que apodrece o corpo ainda vivo com erupções de pus e raquialgia, pápulas, pústulas, cegueira e agonia de uma morte bacteriológica lenta, os cadáveres semi-vivos sendo devorados por moscas, piuns, carapanãs, mutucas, cabo-verdes, potós, catuquis, marimbondos, suvelas, besouros e formigas. A saúva antropófaga devora um corpo em 20 minutos. Na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em 1908, os mortos largados no caminho para serem enterrados na volta (30.430 operários foram internados no Hospital da Candelária, entre 1908 e 1912) e quando a locomotiva voltava só encontrava ossos brancos e limpos, comidos pelas saúvas. E também a formiga-de-fogo, a saca-saia, a lava-pés, a manhura, a cabeçuda, a taioca, a carregadeira, a táxi, a tracuá, a tocandira, peluda, enorme, venenosa, uma única picada basta para abater um homem, com fortes dores e febre, usada pelos índios na iniciação masculina dos garotos, que tinham de enfiar o braço numa cumbuca de tocandiras para provar que eram machos. E a formiga roceira, e a cortadeira, e a guerreira, a correição. Von Martius descreveu populações inteiras fugindo das formigas. As açucareiras eram capazes de fazer recuar um inteiro exército!
Por isso os mortos vinham no fim da tarde, “molhados da ferrugem líquida do rio”, diz o poeta, “que banha as margens dêste ... silêncio lúcido e sonoro / que embala na praia ao fim das tardes / os olhos de éter dos defuntos tortos / que lambem com o olhar a praia longe”.
Além disso, o trágico planger dos sinos da Matriz, construída por índios, da Igreja de São Sebastião, da Igreja dos Remédios, que se ouviam na inteira cidade, graves, ameaçadores, profundos, lembravam a Morte, e as rádios todas tocavam umas Avemarias, a Rádio Baré, a Difusora, a Rio-Mar, rádios de meu tempo, e misteriosas velhas beatas vestidas de negro, veladas, engolfadas, balbuciantes de preces, que se dirigiam às missas, entrando ainda sob a saraivada de toques dos imensos sinos magistrais.
É claro que, para nós, jovens poetas, devassos e boêmios, era a hora de nos preparar para as aulas e depois beber no Bacurau, no início da João Coelho, junto com catraieiros, prostitutas, mendigos e bandidos alcoólatras, provando aqueles peixes fritos, o pacu, a sardinha, o matrinchão, entre goles de cachaça barata; ou íamos para o Bar Bolero, que ficava na Cachoeirinha, na Rua Belém (creio eu, pois a memória já me falha), onde ouvíamos Nelson Gonçalves cantar os maiores sucessos em serenata, como os “Lábios que beijei”, e isso ia até ao raiar do dia, quando voltávamos, bêbados, felizes, para nossas casas, a pé, sob o latido generalizado dos cachorros dentro dos muros das casas, cães que não compreendiam por que tão tarde (e tão cedo) passávamos nós por ali, no deserto das ruas que um dia inspirou o poeta L. Ruas a escrever:

Ah!

Esta lua
Neste fim de rua 


Vamos ler o poema:



MEUS MORTOS HÃO DE VIR NO FIM DA TARDE 


FARIAS DE CARVALHO


Meus mortos hão de vir no fim da tarde

molhados da ferrugem liquida do rio
que banha as margens deste meu silencio,
deste silencio lúcido e sonoro
que embala na praia ao fim das tardes
os olhos de éter dos defuntos tortos
que lambem com o olhar a praia longe. 
Meus mortos hão de vir no fim da tarde
mordendo a pele aquática do vento;
(vento, vento de tíbias descarnadas
arrepiando o pelo das vidraças). 
Meus mortos hão de vir no fim da tarde.
Aguçai vossos dentes, cães do tempo,
vamos comer a morte no crepúsculo.
molhados da ferrugem liquida do rio
que banha as margens deste meu silencio,
deste silencio lúcido e sonoro
que embala na praia ao fim das tardes
os olhos de éter dos defuntos tortos
que lambem com o olhar a praia longe. 
Meus mortos hão de vir no fim da tarde
mordendo a pele aquática do vento;
(vento, vento de tíbias descarnadas
arrepiando o pelo das vidraças). 
Meus mortos hão de vir no fim da tarde.
Aguçai vossos dentes, cães do tempo,

vamos comer a morte no crepúsculo.

quinta-feira, 19 de março de 2020

LER OU ESCREVER

LER OU ESCREVER


LER OU ESCREVER

Rogel Samuel

Há escritores que leram muito. Guimarães Rosa, por exemplo. Há outros que pouco leram, com Barthes. Este, disse uma biógrafa, leu pouco, pois escreveu sobre tudo o que leu. Rosa era um erudito, dominava vários idiomas. Como Borges. Há quem passe horas lendo. Como Foucault. De quem se disse que era o primeiro que chegava e o último que saía da Biblioteca Nacional. E tinha memória fotográfica. Ele certa vez ouviu uma conferência de Ricoeur às gargalhadas. Estava no fundo da sala, com seus admiradores. Debochava, irônico (era terrível). No outro dia, mostrou que tinha gravado na memória tudo o que foi dito e sobre isto deu uma aula, desmontando, ponto por ponto, o assunto. Ele era assim, segundo seu biógrafo. Péssimo caráter. Detestado por todos (no meio acadêmico todos se detestam entre si). Mas “era o homem mais inteligente que já apareceu”, disse um crítico. Estava à esquerda da esquerda. Portanto há quem leia muito e quem leia pouco, mas bem. Uma hora por dia. Como o sábio erudito Gaston Paris, que era enciclopédia viva. Quando perguntaram qual o segredo de sua imensa cultura, ele respondeu: “Leio uma hora por dia”. Há, por fim, escritores que leram muito e escreveram pouco. E outros, ao contrário, que preferiam escrever a ler.
Há uma fórmula americana de como ler, que diz: “SurveyQ3r”. A primeira leitura é “survey”, de pesquisa, uma olhadela geral rápida. Folhear o livro. O “Q” é de “question”, dúvidas, derivadas dessa pesquisa rápida. Aí vem 3 “r”. O primeiro é de ler (read), o segundo é de reler, o terceiro de resumir. Mas cada um tem seu jeito.

segunda-feira, 16 de março de 2020

O VÔO VAZIO


O VÔO VAZIO

Rogel Samuel


Ah, que quando abri meus olhos não, não nos primeiros instantes, não, mas logo compreendi que não sabia onde estava. Aquilo, aquele ruído grave, surdo, me deixava inerme, e devia estar naquela posição desde muito tempo, ali e sim, era importante ver e entender o que se passava, era realmente urgente, eu estava sozinho naquele avião, e o vôo prosseguia e eu estava em pleno ar.

Era uma aeronave grande, MD-11, de 285 lugares, capaz de carregar 280.320 quilos e viajava a 890 km por hora.

Talvez estivesse ali por acaso, esquecido, mesmo restasse ali para morrer. Costumo tomar uns comprimidos fortes para dormir nos vôos demorados, depois de me prender bem com o cinto de segurança na poltrona. Porventura todos os outros passageiros teriam saído, pulado, estaria eu naquela aeronave e assim conduzido para algum lugar em perigo, sem nenhum retorno, como para a morte num avião seqüestrado.

Quando acordei vi que nem imaginava para onde ia.

Com muito custo consegui destravar o cinto e erguer-me dali.
Fui até a frente do aeroplano.
Não vi ninguém.
Como a sede me atormentava, abri uma garrafa de água mineral e bebi um gole. Aquilo me reanimou.
Na tentativa de explicação, e como já estivesse a ponto de entrar em pânico, fui à cabine de comando, cuja porta encontrei trancada, mas que logo consegui abrir.
Havia o pessoal de bordo, sim, havia, que pude ouvi-los mas não consegui vê-los.
Conversavam entre si e riam.
Lá estavam.
Mas apareceu uma aeromoça muito irritada comigo, criticando-me severamente por eu ter saído de meu lugar e ir aonde não devia, por ter entrado na cabine.
Ela, sem querer ouvir nem me deixar falar, me ordenou com impaciência e autoridade, que eu logo retornasse à minha poltrona, que voltasse imediatamente para meu lugar, não me dando nem tempo para formular minhas indagações e saber onde estava e para onde ia, já revelando que não responderia às minhas indagações.

Mais conformado vi que tudo funcionava bem, que o vôo prosseguia e não corria perigo, com serenidade deixei-me ficar naquela desconhecida rota, viagem fantasma, como sob o sigilo e o controle do piloto automático.

Voltei reconfortado mas muito mais cansado com o esforço, de tal forma que me sentei no mesmo lugar e logo adormeci, ainda sob o efeito do forte tranqüilizante.

Caí num sono profundo.

No meu sonho considerava eu não saber onde estava, sonho que sempre se repete, não me recordava de onde vinha, não sabia para onde ia.

Eu continuava a sonhar.

O efeito do tranqüilizante não passara ainda, e estava eu mergulhado numa indiferença mortal, como que entorpecido.

Quando acordei, tinha uma sede terrível. Minha vista se escurecia, a mente se obscurecia e desmaiava num véu escuro povoado de alguns súbitos clarões, como relâmpagos. Tentei erguer-me outra vez da poltrona, na intenção de informar-me outra vez com o pessoal de bordo. Curiosamente só me lembrava de ter visto a aeromoça. 

Depois de algum tempo, consegui levantar-me. Andei. Entrei no banheiro.

Devíamos estar na velocidade de cruzeiro, porque havia estabilidade no vôo.

Sentei-se no vaso e desmaiei.

Uma turbulência me acordou.

Ergui-me e voltei.

Ao passar, tive vontade de tentar abrir a porta da aeronave. Eu sempre quis abrir aquela porta. Mas não consegui fazer nada.

Voltei ao meu lugar e percebi que agora existia alguém, alguma coisa que estava diferente: havia um homem sentado ali, no mesmo lugar, dormindo.

Tentei acordar aquele homem. Tentei acordá-lo. Mas não consegui, porque logo vi que era eu quem estava morto ali.

sexta-feira, 13 de março de 2020

GRIPE

esta gripe supimpa
pragueja espirra voa e limpa
vai se alastrar
no ar
ave invisível porca agourenta
vírus que vai globalizar
e matar
o ar, além de poluído,
vem embutido
de horror
como se não bastasse a crise
nem a cegonha sem-vergonha
da sida,
o mosquito decadente
da dengue
tropical,
agora
respirar faz mal
(rogel samuel

OS QUARTETOS DE BEETHOVEN

sábado, 7 de março de 2020

SUTRA CONTRA O CORONAVIRUS

RATANASUTTAM

O discurso das jóias (Esta paritta, ou proteção, foi proferida pelo Senhor Buddha para salvar a cidade de Vesali, devastada pela peste, pela fome e pelos maus espíritos. Deve ser recitada contra guerras e calamidades públicas):

1.  Qualquer que sejam os espíritos aqui reunidos
Sejam da terra, sejam do ar
Possam todos ser felizes!
E que ouçam com atenção
O que será dito a seguir.

2.  Que, em verdade, todos os espíritos
Tenham amor aos seres humanos
Que fazem oferendas dia e noite
Que, em verdade, proteja-os bem.

3.  Qualquer tesouro, aqui ou em outro mundo
Ou qualquer extraordinária jóia que haja nos céus
Nenhuma é igual ao Conquistador
A jóia no Buddha é insuperável
De acordo com esta verdade
Haja felicidade!

4.  A Extinção, a Liberdade, a Imortalidade, o Supremo
Tudo o Sábio dos Sakyas, o Tranqüilo, atingiu.
Não há nada igual ao Dhamma
A jóia no Dhamma é insuperável
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

5.  O que é puro o grande Buddha glorificou
Aquela concentração ininterrupta
Nunca foi visto nada igual a ela.
A jóia no Dhamma é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

6.  Os oito indivíduos de glorificada virtude
Os cento e oito gloriosos indivíduos
Aqueles pares de Quatro5
Os discípulos do Caminhante
São Dignos de oferendas
Que dão abundantes frutos
A jóia do Sangha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

7.  Os Bemrealizados, de mentes
Livres, isentos, na Revelação do Gotama
Realizaram aquilo que deve ser realizado
Mergulharam na imortalidade
Realizaram a obtida paz sem preço
A jóia da Sangha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

8.  Como um poste de Indra fixo na terra
Não se move aos quatro ventos
Digo que a boa pessoa é similar a isto
Quem definitivo viu as Nobres Verdades.
A jóia na Sangha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

9.  Aqueles que compreenderam claramente as Nobres Verdades
Bem expressas por Quem tem o Saber Absoluto
De acordo com a Plena Atenção que possam ter
Realizarão Aquilo em até oito nascimentos.
A jóia na Sangha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

10. Quem atingiu a Introspecção
Três conceitos abandona:
A crença num “eu” individual
A dúvida e o apego.
Às regras e rituais
Livrando-se de todas.
Está livre dos Quatro Estágios de Sofrimento
Incapaz de cometer os seis grandes crimes.
A jóia na Sangha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

11. Qualquer má ação que faça
Do corpo, palavra ou da mente
Ele nunca omite
Porque é dito que isto
É impossível para quem viu o Estágio.
A jóia na Sangha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

12. Como a copa da floresta cheia de flores
No primeiro mês da estação de verão
Assim ele pregou o Nobre Dhamma
Que leva ao Nibbana, o mais alto benefício
A jóia no Buddha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

13. O Nobre, o Conhecedor daquilo que é Nobre
O Doador daquilo que é Nobre
O Aceitador daquilo que é Nobre
O insuperável Ser que expôs o Nobre Dhamma
A jóia do Buddha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

14. O passado foi destruído, não há começo
Para o novo
Suas mentes desapegadas
A um futuro existir
Eles destruíram o ovo
Seus desejos desapareceram
Como uma lâmpada aqueles sábios
Se apagam
A jóia na Sangha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

(Estrofes de Sakka, Deus dos Deuses, a seguir:)

15. Nós, seres aqui reunidos
Sejamos da terra ou do ar
Homenageamos o abençoado Buddha
Respeitado por deuses e homens.
Possa haver felicidade!

16. Nós, seres aqui reunidos
Sejamos da terra ou do ar
Homenageamos o perfeito Dhamma
Respeitado por deuses e homens.
Possa haver felicidade!

17. Nós, seres aqui reunidos
Sejamos da terra ou do ar
Homenageamos a perfeita Sangha
Respeitada por deuses e homens.
Possa haver felicidade!

DE ACORDO COM ESTA VERDADE POSSAM AS TRÊS JÓIAS PROTEGER VOCÊ! (Três vezes)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O AMANTE DAS AMAZONAS

Teatro Amazonas custou o preço de 5 mil casas luxuosas. O dólar a 3 mil réis. Por 900 contos de réis se constrói o Palácio da Justiça. E por 1 mil e seiscentos contos de réis se constrói o Palácio do Governo; nunca concluído. O Teatro custou 10 mil vidas. Sim: Em 1919 no Amazonas já tinham chegado 150 mil emigrantes. A borracha naqueles anos foi tão importante quanto o café. O Amazonas exportou 200 mil contos de réis em borracha, contra 300 mil contos do café paulista na mesma época. Em 1908 é fundada a mais antiga universidade do Brasil, em Manaus, com cursos de Direito (o único que sobreviveu), Engenharia, Obstetrícia, Odontologia, Farmácia, Agronomia, Ciências e Letras. Nessa época 12 milhões de francos franceses sumiram, roubados no Governo de Constantino Nery. Encampa-se, fraudulenta e inutilmente, a Manaos Improvements, por 10.500 contos de réis - o preço do Teatro Amazonas. A história do Amazonas é um acúmulo de loucuras corruptas.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

EM SONHAR

em sonhar


ROGEL SAMUEL
à noite me visita
um ser quase invisível

ele vem de muito longe
e de um tempo muito passado

eu o vejo pela sala

sonho que ele é um rei de um reino mui esquecido
ou uma fada de um conto infantil

logo vejo que ele não existe
estou sonhando... e em sonho

combino as faces e imagens
com rios e lagos do meu amazonas

um igarapé no banho do passado
as águas são frias, os sorrisos estão no espaço

sinto-me bem
em sonhar

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

A QUEDA DO IMPÉRIO


Rasga a hiumara, anuncia a morte. Ferreira vê aquele homenzinho sentado, com a seringa a 308 libras a tonelada. No ano anterior estava a 374 £/t. A modificação do preço, porém, ia dar um salto para 655 £/t! Mas a queda seria brusca, em 1921 cairia para 72 £/t. Dez anos depois, em 1931, cairá mais ainda, chegará a 32 libra/t, menos da metade do preço de 109 anos antes, mesmo descontando-se a evolução dos preços e a pequena inflação. Era a Morte. A decadência e morte do império amazônico. De único produtor, o Brasil passou a produzir somente 1% do que consome. Um vulto desaparece por trás da porta, sumindo-se na galeria dos corredores. Altas paredes de estuque, a decoração pesada, barroca, o luxo surreal fantástico. Canta um jacamim no jardim dos patos. Aquelas salas se intercomunicavam numa área de 500 m2. São 15 cômodos de rodapé de maneira pintada, com balaustrada de coluna e forro de frisos dourados, soalho de acapu e pau amarelo. A entrada do edifício dá para um amplo hall, ao fundo do qual está o gabinete de trabalho do coronel. À esquerda, a porta da sala de música, isolada. À direita está a alcova e a circulação da galeria que dá uma volta por trás do edifício e retoma ao fundo da sala de música, assim como o terraço, que se abre dali para a parte de trás em ângulo reto. Uma grade de ferro fecha o jardim dos patos. Pierre me convida para o café, servido por um indiozinho Caxinauá na saleta contígua. Sentamo-nos num par de cadeiras Voltaire. A cururu-bóia, perdida, agita as folhas das raízes onde se enrosca como sapo. É um café forte, pelo que Pierre passa as noites em claro, vagando como fantasma através daqueles salões semi-iluminados por velas e lâmpadas de vaga-lumes. No meio da noite Pierre toca piano, lê, caminha dentro da casa do fim do mundo. As noites são soturnas, lúgubres, envolvem o Palácio em demônios que saem da escuridão. Pierre, indiferente, anda e seus passos se fazem ouvir ao longo a galeria das portas e janelas. Ele contempla os quadros, segue a fileira das janelas de folhas duplas fechadas até o chão, pesadas, almofadadas, bandeiras guarnecidas de cortinados franzidos de filó. No galpão, o viveiro dos patos com que se protege o Palácio de cobras, aranhas e escorpiões. A lâmina d’água tenta impedir a invasão das formigas. Mas sempre se encontra uma aranha peluda em cima da cama, ou se surpreende um escorpião atravessando por debaixo da mesa de jantar, ou se depara com uma cobra, coleando no vão do corredor. Ao cair da noite se fecham portas e janelas. Em turíbulos espalhados pela casa, se começa a queimar uma mistura de bosta de vaca e óleo de anta, para repelir insetos, cheiro que impregna e caracteriza o paço. Mesmo assim o prédio é assediado à noite por nuvens de insetos voadores, que querem entrar, atraídos pelas luzes. Ferreira sente medo. Todos os homens, empregados, balateiros, caucheiros, mariscadores, tropeiros, caçadores e índios parecem demônios. A casa é terrível, sobrenatural. Os olhos do caboclo Paxiúba e de Maria Caxinauá. Os salões encortinados como no teatro, a mobília esculpida - demônios e leões - tetricamente luxuosa. Pierre abre as portas de um armário e retira uma garrafa de Black. Ferreira bebe tendo nos olhos o curumim Caxinauá perfilado à sua frente. Aquela fortuna tinha uma fonte, que era o trabalho escravo da inteira nação Caxinauá, que produzia a alimentação que Pierre trocava pela produção de seringueiros que raramente recebiam dinheiro. A pequenina figura daquele homem apareceu por fim pintada na sua verdadeira frente.

 

sábado, 15 de fevereiro de 2020

O AMANTE DAS AMAZONAS



Era como se a peste desabasse sobre Manaus. A crise se demonstrava naquele silêncio quente, ao pôr-do-sol, luzes moribundas, o apagar do apogeu capitalista. A Amazônia ficou sem 80% da sua economia, um deserto morto, estéril, sobre a planície encharcada numa crise que durou meio século. As famílias ricas partiam para Paris, Lisboa. Quem ficou, estava como que morto. Fortunas colossais se reduziram a pó. Maurice Samuel, um dos ricos, perdeu até os móveis de sua casa, penhorados, e mudou-se para uma pequena casa alugada na Silva Ramos. Jóias eram vendidas a qualquer preço. Mulheres ficavam viúvas, passavam a costurar, para sobreviver. O capital desapareceu. Tudo o que era sólido se desfazia no ar e ruía como um castelo de cartas. O Teatro Amazonas foi abandonado, transformado em depósito de borracha velha. O que sobrou foi muito pouco, mas era o que eu mais amava.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

COPACABANA, COPACABANA - ROGEL SAMUEL

COPACABANA, COPACABANA - ROGEL SAMUEL


Depois de décadas, volto a morar em Copacabana. Lugar de velhos, como eu.
Voltei por isso, aqui tenho tudo perto, a pé, ao alcance dos meus passos lentos.
Talvez Copacabana já não tenha o glamour da juventude, quando de madrugada para passear pela praia saíam das boites aquelas belas damas cheias de jóias e depois o desjejum no Cervantes, que ainda existe.
Talvez já não existam os elegantes cafés, como a Colombo, onde era bom freqüentar ouvindo aquele piano da tarde, e todas aquelas luxuosas paredes de espelho que sumiram.
E já não existe o atelier do Dener, no Posto Seis. Nem o poeta CDA, que ali morava.
Que importa, continua o mar, como no “Canto esponjoso” de Carlos Drummond:
“Bela
esta manhã sem carência de mito,
E mel sorvido sem blasfêmia.
Bela
esta manhã ou outra possível,
esta vida ou outra invenção,
sem, na sombra, fantasmas.
Umidade de areia adere ao pé.
Engulo o mar, que me engole.
Calvas, curvos pensamentos, matizes da luz
azul
completa
sobre formas constituídas.
Bela
a passagem do corpo, sua fusão
no corpo geral do mundo.
Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto.”
Este é o poema de Copacabana. Drummond era o poeta de Copacabana, onde o vi passar, e me perfilei em reverência.
Ele vê corpos, curvas, mel sorvido sem blasfêmia, formas constituídas, sem deuses gregos, sem mitos, sem fantasmas...
Só a passagem de corpos, como o daquela garota de Ipanema que passava pelo Bar Veloso quando Vinícius estava como sempre bebendo, bebendo... engolindo o mar de cerveja que sempre bebia.
Drummond tem pensamentos curvos, ancas das ondas do mar, das mulheres seminuas, da calçada.
No fim aparecem os versos famosos, antológicos:
“Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto.”
E é assim que me sinto, em Copacabana.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Rogel Samuel - PRAZERES DE VERÃO

Rogel Samuel - PRAZERES DE VERÃO





Há quem escreva poemas contos novelas. Eu escrevo crônicas. Tenho alguns leitores. Há, também, quem escreva tratados. Quem deixou de escrever. Quem vá à praia. Bronzear-se. O Rio é balneário. Verões de sol. E de chuvas. Ainda bem. Achei um tempo para ir à praia. Antes, ia diariamente. Gostava do Pier, como todo mundo. Agora vou à Praia Vermelha, que não é comunista, nem lembra a Praça. Cercada de quartéis. Foi lá que a vi. Recentemente.

* * *

Conheço um maestro pela Quarta Sinfonia de Brahms. Ela diz quem é quem. Bruno Walter, com a Columbia Symphony Orchestra. Um mestre. Consegue a dimensão suprema. A orquestra excelente. Gravação de 1960. Walter, que nasceu em 1876, estava com 84 anos. Faleceu em 62. Todos já morreram: Klemperer em 73, Furtwangler em 54, Beecham em 61, Barbirolli em 70, Stokowsky em 77, Bernstein em 90, Karajam em 89, o
grande Mravinsky em 88, Scherchen em 66. Toda uma geração de grandes maestros.
Na Quarta sentimos o mundo desabar como uma cristaleira de estrelas. Conheci uma pessoa que não a podia ouvir sem verter lágrimas. "Por que chora?" - perguntei, certa vez. "Choro pela magnitude, a beleza" - respondeu.

* * *

Mas o cronista enlouqueceu? passei da praia para Brahms? Gosto de escrever ouvindo música. Fui arrancado da praia. Quando a vi, ela vinha preparada: barraca, cadeira, bronzeador. Sentou-se a meu lado. Não me viu. Ainda uma bela mulher. Cerca de 60 anos. O corpo, excelente. Rijo, pleno. O rosto não. Marcava nas rugas todas as vicissitudes por que passara. Há muito sei que nada escreve. Parar de escrever é mortal, para poeta. E ela escreveu dois belos livros, há muito tempo. As rugas marcavam a expressão severa, tensa. Armada. Onde moraria? Que estaria fazendo? Quando eu já pensava em retirar-me, apareceu a amiga. Começaram a conversar em voz alta. Lembrei-me de sua cristalina voz. Pude ouvir que cuidava dos netos, estivera no supermercado, e assuntos domésticos. Nada, nem uma palavra de poesia. Saí, sem me identificar, reconhecer, sem me despedir. Ela, porém, não me tinha visto. Será que ainda me reconheceria?

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

A boa poesia

A boa poesia
Rogel Samuel
Estamos no Brasil, mas não conseguimos almoçar no Bar Brasil, tão cheio. Nenhuma mesa. Fomos ao Nova Capela, aonde não íamos desde os anos 70. O mundo não passou, nesses lugares centenários. Nós, sim. Não mais encontramos o Válter e outros mortos. Nem os poetas daquela época. A poesia que naquela época se publicava em papel mimeógrafo. Alguns faziam um verdadeiro livrinho no mimeógrafo. Mas a poesia era boa. Tinha o sabor de algo proibido e revolucionário. A poesia dos excluídos, marginais e malditos. A boa poesia.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

O VESTIDO VERDE




O VESTIDO VERDE
Rogel Samuel
         Sim, toda vez que eu passava pela avenue de la Motte Picquet tinha de dar uma paradinha naquela loja de roupas caras, exclusivas, para ver o vestido verde. Era bom de ver, alegoria de nossa, da minha Amazônia. Era bom ver o traje, a indumentária transformada em arte. A toillette, coisa de arte francesa ou não, arte parisiense ou não, lembrava Burda, o magazine que ainda existe em se não me engano língua alemã com aquelas belas mulheres sob uns leves chapéus que sempre tinham o gosto das rendas desmaiadas das mantilhas das espanholas e rainhas.
         Sim, ao lado havia uma casa, talvez de doces, espécie de pâtisserie, e mais um pouco um café. Um elegante café. Em frente se ostentava a fachada da École Militaire, construída por Luiz XV, em frente ao du Champ de Mars, onde Napoleão estudou. E ficava no VIIe arrondissement, rica região de prestígio e alta burguesia. Lá atrás estava a UNESCO, que Eduardo Portella dirigiu, e várias embaixadas.  
         Por que gostava tanto eu da alta costura daquele vestido verde, exclusivo, eu que me visto tão mal, que ando pelas ruas do Rio de Janeiro como mendigo, de chinelo de dedo e uns blusões fora de moda?
         Por quê?
         Talvez porque, quando menino, minha mãe costurava e recebia o magazine Burda, em alemão, que meu pai traduzia para ela.
         Meu pai era francês de língua alemã, pois cresceu em Strasburg e ali foi educado. Sua língua “materna” era o alemão, não o francês.
         Eu vivia folheando aquelas revistas de minha mãe. Minha primeira “literatura” foi aquela, que minha mãe, enquanto costurava, me fazia ver.
         Minha mãe costurava muito bem. Durante um tempo, ela costurava “para fora”. Lembro-me de que ela estudou com a modista carioca que fazia os vestidos de Teresa de Sousa Campos, com quem minha mãe se parecia. Aquela modista, que morava na Prado Jr., esquina com Av. Atlântica, viveu um tempo em Manaus porque seu marido teve negócios por lá.
         Minha mãe era uma mulher elegante. Foi uma das “10 mais elegantes de Manaus”, apesar de não ser rica. Mas costurava excelentemente.
         O vestido verde permanecia sempre lá, caríssimo e exclusivo, como no outro lado do rio Negro aquelas árvores. Na outra margem do Igarapé do Inferno, do meu “Amante das amazonas” estão elas, vejo-as, entre as colunas das folhas, vêm da curva descendente que sai do verde-escuro para o verde-cré, até a fímbria da saia de aço da fria lâmina do rio. Como nessa matéria nada é absoluto, começo afirmando que o vestido era todo feito de pedacinhos de pano verde emendados uns aos outros pela parte de cima, e os retalhos caíam como folhas das árvores, como da copa das árvores, arriadas pelo pesado sol e forte, o chão liquido filtrado pelos raios através do verde escuro, as minúcias das luzes em redes de cobertura fofa, arriscada, acamada da folhagem seca como patê silvestre, pavê molhado, folheado, cremoso, marrom, onde se deitavam flores selvagens - sim, aquilo era a vestimenta do Igarapé do Inferno re-visitado, depois de tanto tempo, invadido, muito além do ponto onde a minha imaginação e o meu delírio anterior tinha chegado, nos limites do fim do mundo.
         Aqueles tecidos escondiam a mata molhada, literária. Um observador de bom olho nada veria ali, além de um vestido, mas algo havia, por trás da glorificação daquele esplendor de veludos e de sedas de um vegetal amazônico em plena Paris. As rendas da saia eram o que se podia chamar de solares, e penetravam minhas retinas ensandecidas como lâmina de faca, sincopadas e intrusas, compridas, naquele parque aquático de gigantes antigos, insatisfeitos por serem incomodados, dignos, altaneiros. Então era o rumo ignoto do arcaico, do mítico, do inominável, do distante, da paragem dos seres mágicos como Numas. Dir-se-ia que as estruturas antigas do mundo estavam escondidas ali, que lá o mundo terminava, nos seus desconhecidos motivos...
         E súbito eu via, na margem do rio, aparecer uma mulher vestida de verde com aquele vestido, e dançava na parte mais elevada do terreno, e com o braço erguido sustentava um vaso ritual, de onde partia uma seringueira já crescida. O tronco da árvore passava por trás dela, e era a estátua, agora verde, que D. Ifigênia Vellarde tinha trazido da Europa no fim do Século passado.
         Atrás daquela mulher congelada estava - magnífico, supremo, inominável, majestoso - o Palácio Manixi!
         E aquela mulher desfilava pelos salões do palácio, e das janelas abertas saíam grossos e longos galhos de árvores frondosas, nascidas por dentro, e assim parecia que o Palácio tinha criado asas e ia começar a voar. O Palácio se cobrira de uma pátina de beleza extraordinária, de uma vitalidade monumental - estava ali, vivo, lavado, enlouquecido marco de seu tempo. Era um santuário, dominava o ambiente, um templo antigo, perdido no meio da floresta, de uma outra era. Toda a luz ao redor irradiava dele, de uma civilização de um outro século, de um outro mundo desconhecido, limite vivo do luxo e do esplendor da borracha do fim do Império.
         A floresta avançava contra ele, construindo um estranho cerco sobre a moldura e irisação de sua arquitetura antiga coberta de cipós e de galhos de uma folhagem abundante que vinha de dentro dos salões requintados e criavam a aura de um extasiado espetáculo.
         Mas era no “Amante das amazonas” que aquilo se dava, não em Paris.
         Pois todos os suntuosos fantasmas exsurgiam dali. Toda a História desfiava o seu curso. O tempo ali se congelava, inerme, no meio dos amplos salões, desaparecendo ao longo daqueles mesmos corredores, escorrendo ao longo das paredes pesadas de estuque, lúgubres, de uma decoração barroca. Eram seres invisíveis todos mortos que despontavam, uma vez mais, arrastando longos e pesados vestidos de veludo verde, envergando reluzentes casacas, esquálidos, saídos daquele sepulcro do luxo daquele tempo, através daqueles amplos espaços povoados de símbolos, dentro daquela enorme construção de um outro mundo, do fim de um mundo de onde todos tinham fugido, povoado de demônios, culpados, expiando suas culpas mortas.
         E à noite desfilavam, ao longo daqueles corredores, através da seriação de janelas e portas, refletindo suas sucessivas silhuetas nos espelhos apagados, misturando-se com figuras pintadas nas paredes, e famintos, gélidos, sem ousar sair ao jardim abandonado, aquém do porto as ornadas figuras de fino e feroz olhar que não permitiam a ninguém penetrar naquele santuário do desperdício da riqueza antiga e condenada, ninguém pudesse subir aquela escadaria e atravessar aquelas salas além daqueles mármores trazidos há incontáveis anos para ladear-se com o cinzento e o estilizado. Era como se dissessem: “Desaparecei!”. Ou como se ameaçassem: “Afastai-vos!”.
         E à noite a figura do antigo e descamado dono poderia ser vista, através das janelas, como se o iluminasse uma catedral, mostrando-lhe a face horrível e desesperada, os olhos mergulhados no escuro, à procura de algo, à procura do tempo, à procura de si - e passando sem que ninguém o visse na sua infinita miséria. E todo o esplendor daquele luxo antigo era uma tortura sinistramente mergulhada na destruição de um império ali por fim silenciado.