terça-feira, 30 de abril de 2013

Comerei teu corpo no crânio da tua cabeça

Rogel Samuel: Avenida Brasil

Quando chegamos no Rio, entrando pelo portal da Avenida Brasil, parece que chegamos no Iraque em guerra: fábricas fechadas, janelas quebradas, lixo no chão, pó como pólvora, telhados desabados, cumeeiras expostas, esqueletos de prédios decadentes, calçadas em ruínas, o deserto de uma cidade sem vida, de uma cidade arruinada, dizimada pela guerra dos pichadores, dos horrores, dos pavores, dos horrores do mal.


Como cantavam os índios do Amazonas:

“Comerei teu corpo no crânio da tua cabeça
Sobre tuas cinzas dançarei
E exultarei!”

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Morre tartaruga egípcia que conheceu Napoleão

Morre tartaruga egípcia que conheceu Napoleão

Foto: Divulgação/Zoológico de Gizé
Uma tartaruga egípcia de 270 anos de idade faleceu no zoológico de Gizé, nas proximidades do Cairo, capital do país africano. Com tamanha longevidade, o quelônio estava vivo - e adulto - quando Napoleão invadiu o Egito, ainda no século XVIII, conforme esta notícia da agência Prensa Latina.

Nascida em 1743, a tartaruga "foi testemunha" da Revolução Industrial, da Revolução Francesa e de fatos relevantes na história egípcia: o segundo reinado dos mamelucos, da construção do Canal de Suez, da assinatura do tratado de paz egípcio-israelense e dos mais de 30 anos do regime do presidente Hosni Mubarak, derrubado por uma revolta popular em 2011.
O zoológico não divulgou as causas da morte do animal. O fato causou muitos comentários nas redes sociais. Uma das piadas dizia que o bicho sobreviveu a períodos turbulentos da história do Egito mas não suportou as disputas entre partidários e opositores do presidente Mohamed Morsi. (a dica foi do Édson Pedro)

Igreja excomunga padre por defender homossexuais


Igreja excomunga padre por defender homossexuais

Por Chico Siqueira | Estadão Conteúdo
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A Igreja Católica anunciou nesta segunda-feira a excomunhão do padre Roberto Francisco Daniel, o padre Beto, de Bauru (SP). O padre é acusado de cometer heresia e de ferir os dogmas da fé religiosa ao divulgar na internet suas opiniões sobre o tratamento dado pela Igreja Católica aos temas sexuais. Nos vídeos, o padre critica a igreja por manter uma posição considerada retrógrada sobre a relação de parceiros bissexuais e do mesmo sexo.


Segundo a Diocese de Bauru, o padre Beto foi excomungado por um padre perito em Direito Canônico, nomeado juiz, chamado pelo bispo de Bauru, Dom Frei Caetano Ferrari, para estudar a situação. Ao analisar o caso, o juiz chegou à conclusão de que Beto poderia ser excomungado e também enfrentar um processo de demissão do Estado Clerical, que será enviado para o Vaticano. A Igreja se revoltou porque as opiniões do padre chegaram em vídeos enviados à Confederação Nacional dos Bispos, ao Núncio Apostólico e até ao Vaticano.
 

O anúncio de excomunhão foi feito em nota divulgada pelo bispado e assinada por um Conselho Presbiterial Diocesano. A nota explica a convocação do padre perito em Direito Canônico, nomeado como juiz-instrutor e diz que houve tentativa de um último diálogo, mas que Beto reagiu agressivamente, recusando o diálogo. Diante da negativa, que teria ocorrido na presença de cinco membros do Conselho dos Presbíteros, decidiu-se pela excomunhão.

"O referido padre feriu a Igreja com suas declarações consideradas graves contra os dogmas da Fé Católica, contra a moral e pela deliberada recusa de obediência ao seu pastor (obediência esta que prometera no dia de sua ordenação sacerdotal), incorrendo, portanto no gravíssimo delito de heresia e cisma cuja pena prescrita no cânone 1364, parágrafo primeiro do Código de Direito Canônico é a excomunhão anexa a estes delitos", diz a nota.
 

Fogueira
 

Padre Beto disse que foi pego de surpresa. Pelos vídeos divulgados há duas semanas, ele foi advertido pelo bispo de que deveria retirar os vídeos da rede social e internet e fazer uma retratação, cujo prazo terminaria nesta segunda, mas ao chegar pela manhã para entregar a carta de demissão, ele foi levado para uma sala, onde havia cinco pessoas, o juiz e uma cadeira vazia. "Fiquei surpreso porque fui cumprir o combinado com o bispo, que era para eu manifestar até hoje e não participar de uma reunião", contou padre Beto.
"Quando me sentei na cadeira, perguntei se aquilo era um tribunal e se a cadeira era para o réu. Como me disseram que era e que eu seria o réu, eu me levantei e disse que estava ali para entregar a carta, mas eles me disseram que não aceitaria a carta e que eles é que iriam me demitir", contou. A situação, segundo Beto não durou mais de sete minutos. Ele então registrou a carta em cartório para que fosse levada ao bispo por um oficial de Justiça, mas o bispo não a recebeu.
 

Demissão
 

Padre Beto disse que não vai tomar qualquer procedimento com relação ao caso. "Dou graças a Deus que hoje em dia não existe mais fogueira, senão eu estaria queimado a essa hora", afirmou. Segundo o padre, ele vai sobreviver com as aulas que leciona em três em faculdades, em cursinhos de segundo grau e com suas palestras. Para ele, sua excomunhão e possível demissão tem outra causa. "É fruto de intrigas 'hierárquicas', de colegas e gente invejosa que existem dentro da igreja", disse.
 

O bispado informou que o juiz-instrutor tem autoridade para fazer a excomunhão. O juiz e o bispo não quiseram dar entrevista, mas a igreja informou que padre está excomungado, privado de celebrar e receber todos os sacramentos e que enfrentará agora um processo de demissão do Estado Clerical. O processo é sigiloso, iniciado na Diocese e enviado ao Vaticano por se tratar de matéria reservada à Santa Sé, que é a responsável pela sentença definitiva. A partir daí, o réu não poderá mais se chamado de padre e fica impedido do exercício do ministério sacerdotal. Já a excomunhão é a privação da recepção de qualquer sacramento, mas se o padre demonstrar arrependimento a Igreja poderá retirar a excomunhão, mas não a demissão do Estado Clerical.
...


O poema profético

    

O POEMA PROFÉTICO

Rogel Samuel

Mithrídates Correa é o poeta mais desconhecido da Amazônia. No entanto, muito escreveu. Em jornais, revistas, Manaus. Não publicou um só livro. Era um bom poeta. Poucos se interessaram por sua obra. Um dos poucos foi o grande piauiense Assis Brasil, que fez muito mais pela cultura brasileira do que um ministério da cultura. Devemos à persistência de Assis Brasil a melhor coletânea da poesia no Brasil em livro.
Mithrídates Correa nasceu em Manaus, em 1904 e lá faleceu, em 1968. Foi juiz no interior e professor Catedrático de Direito Administrativo da Faculdade de Direito da Universidade do Amazonas. “Promotor público, advogado, militante, poeta”, escreveu Assis Brasil.
Ele morreu no dia primeiro de janeiro de 1968.
Um dia antes de morrer, publicou no “Jornal do Comércio” de Manaus um poema profético, falando de sua morte: “não pode o coração sofrer engano, / ainda que seja um coração de aço”.
Apesar de não ter publicado nenhum livro, entrou em antologias e na Academia Amazonense de Letras, onde ocupava a cadeira Olavo Bilac.
Seus textos em prosa são excelentes, como li nos poucos fragmentos que nos sobraram. Seu testamento poético foi encontrado depois de sua morte. Um poema longo, do qual extraio alguns versos, que dizem: “Quando eu já não for / ... / que se abra o chão / e à voracidade da terra / minhas carnes atirem / vida em movimento, alma em ação / que eu volte a ser nada / como fui outrora / da vida um acontecimento / em trajetória para o esquecimento / e o que deixei de mim como lembrança / que sirva de alimento”.
Está o poema na revista da Academia Amazonense de Letras, n. 12, de 1968. Pouco depois de sua morte. Mas, como ele escreveu, em outro poema:
“Não morre o que transforma a força em pensamento
e desta arranca a cor e o movimento
e tudo que de belo o pensamento encerra”.
Fui o primeiro a colocar na Internet os poetas amazonenses antigos, no meu deletado “Site do Escritor”, que a Geocities teve o cuidado de tirar do ar, até hoje não sei por quê. Talvez porque excedia o limite do espaço on line. Mas não estava lá o poeta Mithrídates Correa.
Como ele escreveu, todos nós estamos “em trajetória para o esquecimento”.

As águas, as lembranças




      As águas, as lembranças
As águas, as lembranças

NEUZA MACHADO

As “águas” (as lembranças imperecíveis do narrador) provêm
“dos desconhecidos lugares da origem Numa”, uma tribo desconhecida
geograficamente e que ficou à margem da história do Amazonas, por
exigências sócio-substanciais. Desta tribo de índios audazes, só se
perpetuaram os referentes conhecidos e aplaudidos ligados à força
física, ao lado indômito, à imponente belicosidade do animus dessa tribo
diferenciada. As “águas” (as lembranças) desses lugares da origem
Numa ficaram desconhecidas por leis de “sobrevivência”, relegadas
friamente ao esquecimento. “Se perdem”/se perderam no esquecimento,
porque foram interditadas vergonhosamente pelo anterior regime
patriarcal. Foram/são esquecidas e passaram/passam, porque, se íntimas,
representaram/representam “perigo”, se fossem/se forem verbalizadas.
Essas “águas”, que veem de “desconhecidas origens Numas”,
são especiais, porque provêm do devaneio interno de quem narra. O
narrador rogeliano Ribamar de Sousa a designa como uma “narrativa
animal” porque ela é uma projeção da matéria primitiva que
vigorou/vigora no imaginário-em-aberto do escritor. Refiro-me àquela
matéria inovadora que surge entropicamente depois do repouso
fervilhante, intimamente relacionada com os juízos de descoberta, de
que nos fala Bachelard, em seu livro A Dialética da Duração.154
“O galho quebrado diz: “Não passarás”. E além da Curva do Tucumã, a
passagem do eixo do rio se separa. Pode-se banhar e pescar, deste lado. Mas
aos poucos os Numas se infiltravam, avançavam, atravessavam. Passavam

além de si mesmos, não respeitando seus próprios limites. Atravessando o rio
e a ordem que o rio exercia na floresta”.
“O galho quebrado diz: “Não passarás”, em outras palavras,
não havia/não há ainda permissão para que se infringisse/infrinja as leis
preconceituosas que comandaram/comandam o mundo dito social. Mas,
para “além da Curva do Tucumã, a passagem do eixo do rio se separa” e
“pode-se banhar e pescar, deste lado”. A imaginação rogeliana, como
diria Bachelard, oculta “a tonalidade profunda do devaneio criador”156,
pois ela está resguardada pelas lembranças inesquecíveis de antigas
leituras foucaultianas, bachelardianas e outras. Além da “Curva do
Tucumã, a passagem do eixo do rio”, que separa o substancialmente
dito (“gêneses lineares”) do não-dito (o que não possui história),
propicia o momento da infração ficcional, porque, daquele lado, pode-se
“banhar” no rio das ditosas ou amargas lembranças imperecíveis e
“pescar” novíssimos juízos. Michel Foucault desenvolve um assunto
interessante sobre a genealogia do poder e do saber.
“A genealogia é cinza; ela é meticulosa e pacientemente documentária. Ela
trabalha com pergaminhos embaralhados, riscados, várias vezes reescritos”.
“Paul Rée se engana, como os ingleses, ao descrever gêneses lineares, ao
ordenar, por exemplo, toda a história da moral através da preocupação com o
útil: como se as palavras tivessem guardado seu sentido, os desejos sua
direção, as ideias sua lógica; como se esse mundo de coisas ditas e queridas
não tivesse conhecido invasões, lutas, rapinas, disfarces, astúcias. Daí, para a
genealogia, um indispensável demorar-se: marcar a singularidade dos
acontecimentos, longe de toda finalidade monótona; espreitá-los lá onde
menos se os esperava e naquilo que é tido como não possuindo história ─ os
sentimentos, o amor, a consciência, os instintos; apreender seu retorno não
para traçar a curva lenta de uma evolução, mas para reencontrar as diferentes
cenas onde elas desempenharam papéis distintos; e até definir o ponto de sua
lacuna, o momento em que eles não aconteceram”.
“A genealogia exige, portanto, a minúcia do saber, um grande número de
materiais acumulados, exige paciência. Ela deve construir seus “monumentos
ciclópicos”, não a golpes de “grandes erros benfazejos” mas de “pequenas
verdades inaparentes estabelecidas por um método severo”. Em suma, uma
certa obstinação na erudição. A genealogia não se opõe à história como avisão altiva e profunda do filósofo ao olhar de toupeira do cientista; ela se
opõe, ao contrário, ao desdobramento meta-histórico das significações ideais
e das indefinidas teleologias. Ela se opõe à pesquisa da “origem”.157
“O galho quebrado” da genealogia númica impediu, ao longo da
história patriarcal, que a árvore se fortalecesse e permanecesse
socialmente altiva, como as “de 70 metros de altura”. “A genealogia é
cinza”, diz Michel Foucault. Enquanto forma documental, o estudo da
procedência de uma ramificação familiar e/ou tribal poderá ser
aniquilado por reelaborações não confiáveis. A genealogia deve/deveria
construir seus “monumentos ciclópicos”, não a golpes de “grandes erros
benfazejos” mas com “pequenas verdades inaparentes estabelecidas por
um método severo”; a genealogia deveria deixar de ser cinza.

Miritiba de Humberto de Campos

Miritiba de Humberto de Campos












Miritiba de Humberto de Campos


Rogel Samuel



Humberto de Campos nasceu em Miritiba, hoje Humberto de Campos, Estado do Maranhão em 1886 e morreu em 1934 no Rio de Janeiro. Foi um escritor de sucesso. Começou do nada, como tipógrafo, escriturário, redator de jornal. Chegou à Academia, na sucessão de Emilio de Meneses. Era um sucesso. Quem não leu Humberto de Campos naquela época? Diz Assis Brasil: "“Tido e elogiado como um prosador admirável, a fase poética de Humberto de Campos, no começo de sua carreira (1904-1915), quando publicou os dois volumes De Poeira, enquadra-se numa fase de transição, a que alguns chamam de neoparnasiana, mas sem uma característica definida. Certo, o homem de sensibilidade que também sabia fazer versos, como alguns de seus contemporâneos.”
(apud Antonio Miranda).

Jornalista e político. Foi autodidada. Getúlio o admirava. Escreveu mais de 30 livros. Leiamos "MIRITIBA":



É o que me lembra: uma soturna vila

olhando um rio sem vapor nem ponte;

Na água salobra, a canoada em fila...

Grandes redes ao sol, mangais defronte...



De um lado e de outro, fecha-se o horizonte...

Duas ruas somente... a água tranqüila...

Botos no prea-mar... A igreja... A fonte

E as grandes dunas claras onde o sol cintila.



Eu, com seis anos, não reflito, ou penso.

Põem-me no barco mais veleiro, e, a bordo,

Minha mãe, pela noite, agita um lenço...



Ao vir do sol, a água do mar se alteia.

Range o mastro... Depois... só me recordo

Deste doido lutar por terra alheia!




O soneto é extraordinário. Descreve a sua "soturna vila" natal, o rio, a água salobra, as canoas, as redes de pescar, os mangais. Tudo síntese do quadro. O horizonte, duas ruas, a igreja, as grandes dunas ao sol. A criança parte com a mãe, que agita um lenço, entra o barco no mar, na vida, no grande mar da vida, na terra alheia.

domingo, 28 de abril de 2013

FOTOGRAFIA

FOTOGRAFIA


Rogel Samuel

Foi num sebo aonde nunca tinha ido. No Catete. Em frente aqueles
prédios da Primeira República. Em frente ao Palácio. Aquele palácio
tinha sido a casa do Barão de Nova Friburgo, que tinha fazendas de café.
Em Nova Friburgo visitei, também, sua casa. Num parque belíssimo. No
sebo encontrei uma pilha da revista "Fotoarte". Era uma revista
dirigida por Francisco Aszmann, um dos maiores fotógrafos do mundo de
sua época. Um dos mais premiados no mundo inteiro. Ele foi meu professor
de fotografia, e o muito do que eu (pouco) sei de como ver um quadro se
deve a ele. Eu comecei a buscar o que procurava: a fotografia "Bois",
que eu já conhecia, e que sabia que estava num daqueles números. Eu
conhecia detalhes da foto, e de como Aszmann a tirara. Ele contou numa
das aulas que tinha ficado horas à espera da manada que entrava numa
estreita ponte. Tirou a foto e pulou da ponte pela ribanceira de dez
metros, na Hungria. A foto ficou anos esquecida, porque o boi da direita
estava ligeiramente desfocado: um crime para os padrões estéticos
daquela época. Mas em 1940 o conceito mudou e Aszmann pode ganhar
todos o títulos com uma única foto. Um dia eu ganhei um prêmio de
fotografia. Era uma competição coletiva, na ABAF, no Rio. Eu lecionava
no subúrbio carioca e tomava o trem, pela manhã. Ia com a câmera. Eu só
andava com ela. A tiracolo. Em plena Central do Brasil comecei a
fotografar uns garotos de rua, com tele-objetiva. Um deles tinha um
tampão branco, no olho, de esparadrapo. Quando revelei a foto, a criança
aparecia angustiada, atrás de uma monstruosa coluna (que na realidade
era um vão do prédio da Central), e por trás estava, desfocado, o grande
edifício do Quartel Geral das Forças Armadas. Ameaçador. Não deu outra:
tirei o primeiro prêmio - estávamos em pleno regime militar, e aquele
menino sujo esmagado num canto virou o maior símbolo. Minha foto fez
sucesso. Mas eu a perdi, ou melhor, a vendi. Aprendi com
Aszmann, o menino estava no "ponto ouro" do quadro
(o canto inferior esquerdo). O Brasil, que hoje tem Sebastião Salgado,
já teve Francisco Aszmann, o professor. Abandonei quase completamente a
fotografia, hoje. Talvez porque se tornou uma arte cara. Mas
principalmente porque já não tenho tempo nem laboratório em casa.
Fazíamos em casa as fotos em preto-e-branco. Um dia, talvez, vou partir
para a foto digital. Aí está a foto do mestre Aszmann "Bois".

LULA É O CARA

(Gravura de HELOISA PIRES FERREIRA)

Eu insisto: Lula é "o cara"


A GRANDEZA DESPOJADA

A GRANDEZA DESPOJADA

NEUZA MACHADO



Entretanto, apesar do ou graças ao conflito, a partir da página oitenta e nove, um novíssimo narrador rogeliano se obrigou a surgir para revelar aos leitores que, desde o início da narrativa, o interregno capitalista esteve ali presente (o lado capitalista do Manixi), ansioso por destruir a grandeza mítica do lugar. Subitamente, aparecem ratos na narrativa. Os dois poderes não poderão permanecer juntos naquele espaço efervescente de transição. Um deverá destruir o outro. A mudança narrativa instiga o leitor interessado. Ele terá de descobrir (se houver ou não um fecho narrativo tradicional) quem sairá vencedor. Quem está despojando a grandeza da Floresta Amazônica? Como desvelar o Manixi (o Palácio e as terras que o rodeiam) ao longo da narrativa rogeliana? Por que “o sumiço do filho de Pierre Bataillon, um homem que vivia debaixo do ouro no Alto Juruá, permanece encoberto de tal mistério, sempre um acontecimento mitificado na imaginação do povo amazonense e acreano, e todas as hipóteses, levantadas então, não se puderam justificar, nem explicar”? Por que a Cidade de Manaus revela-se, na segunda etapa da narrativa como segundo espaço de mediação ficcional? E os ratos? Por que os ratos? Há ratos na Floresta. Há ratos na Cidade. Há “ratos” entre “as tábuas do chão”, “ratos” como “um traço cinematográfico, contínuo”, um “corroer” que incomoda, ativando a sensibilidade e a inteligência do leitor, demonstrando que, holisticamente, há “ratos” em todas as partes do mundo a abalar os primordiais e puros alicerces da civilização. Não foi o narrador Ribamar (o narrador tradicional das histórias contadas e relidas) que viu os tais ratos, foi o outro narrador (o das histórias lidas, relidas e inúmeras vezes repensadas), porque somente um narrador capacitado para tal função poderia formalizar criativamente o início da decadência da época da borracha (aquele que vê “o risco preto no chão”), ou seja, o início da decadência do plano das exigências conceituais a interagir com um discurso saído da própria “consciência fervilhante” (G. Bachelard).


MACHADO, Neuza. O Fogo da Labareda da Serpente: Sobre O Amante das Amazonas de Rogel Samuel

sábado, 27 de abril de 2013

Nova pesquisa traz à luz cartas que revelam um Graciliano Ramos gregário e cordial

Nova pesquisa traz à luz cartas que revelam um Graciliano Ramos gregário e cordial
 

MARCELO BORTOLOTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Em Maceió, nos anos 1930, o escritor Graciliano Ramos, morto há 60 anos, era decano de uma turma de jovens intelectuais da qual faziam parte o poeta Aloísio Branco, o ilustrador Tomás Santa Rosa e o filólogo Aurélio Buarque de Holanda. Por este motivo, ganhou o apelido jocoso de "o velho Graça".
Cartas revelam Graciliano Ramos gentil e satisfeito com a própria obra
Carta dá nova leitura a atritos de Graciliano Ramos em Moscou
Quando mudou-se para o Rio, passou a frequentar a livraria José Olympio e conheceu a nata da intelectualidade na então capital.
Mais tarde filiou-se ao Partido Comunista, chegando a se candidatar a deputado federal. Esta trajetória não impediu que Graciliano, homenageado da Flip deste ano, mantivesse fama de homem fechado, tímido e de raros amigos.

Acervo Projeto Portinari
Sob o olhar de Graciliano Ramos (sentado), Luís Carlos Prestes (dir.) entrega a Cândido Portinari ficha de filiação ao PCB, nos anos 1940
Sob o olhar de Graciliano Ramos (sentado), Luís Carlos Prestes (dir.) entrega a Cândido Portinari ficha de filiação ao PCB, nos anos 1940
Folclore que ele próprio alimentava com sua intolerância a intimidades gratuitas ou a gestos derramados. Esta imagem é colocada em cheque na recente pesquisa que reuniu a correspondência do escritor.
De 1909 a 1952, ele recebeu ou enviou cartas para 106 correspondentes, número que surpreende e contradiz sua fama de casmurro. Nelas, surge um Graciliano amigo, cordial, interessado pelos problemas literários e políticos do seu tempo, e sempre irônico e afiado em suas críticas.
O levantamento foi feito pela pesquisadora da USP Ieda Lebensztayn, com orientação de Marcos Antonio de Moraes, e será publicado em livro este ano. Foram localizadas 160 cartas inéditas, entre a correspondência ativa e passiva.
Sua rede de contatos engloba desde figuras da extrema direita como o católico Alceu Amoroso Lima a gente de extrema esquerda como o líder comunista Luís Carlos Prestes. Entre os interlocutores também estão Jorge Amado, José Lins do Rego, Cândido Portinari, Nelson Werneck Sodré e Cyro dos Anjos.
"Diziam que ele era um homem isolado e seco, mas estas cartas mostram o contrário", diz Lebensztayn.
A primeira reunião da correspondência de Graciliano Ramos foi publicada em 1980. O livro trazia cartas envidas a familiares e a um único amigo, Joaquim Pinto da Mota Lima. Nelas transparecia um escritor apaixonado pela esposa e devoto da família.
Mas a reserva e o isolamento social continuavam sendo uma característica marcante, como comentou o poeta
Lêdo Ivo sobre aquela coletânea: "Os elementos básicos da sua personalidade --o individualismo cerrado, o pessimismo visceral, o ensimesmamento, um sentimento de desvalor pessoal que tende à autodestruição-- se destacam sempre nestes contatos".
A correspondência agora reunida traz informações muitas vezes fragmentárias, mas ajuda a relativizar cada um destes traços.

NOTA DO BLOG: ALCEU NÃO ERA "EXTREMA DIREITA"

NA CHINA

Rolls Royce Wraith é o mais potente da história da marca

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O porvir

O porvir


Rogel Samuel

“Pensar é transpor”, disse Bloch. Por isso, seu princípio da esperança não é o da “espera”, mas do “avanço” – ou seja, a esperança, ali, já não significa a passividade do esperar, do receber do milagroso céu, do acontecer ao acaso, mas da construção do futuro, ativo alcance da transposição daqueles obstáculos que eterna e repetidamente aparecem na nossa frente. É a construção do futuro. Projetamos um objetivo, ou o buscamos no horizonte infinito? Que queremos nós? Bloch introduz no pensamento marxista este novo cosmorama com esta sua teoria prospectiva. Não existe senão o aqui e agora e o avanço para o futuro. Nós temos de extrair o futuro de suas profundezas misteriosas. E para isso precisamos de nos tornar ao futuro, na aceitação do novo. É este o signo, a chave dessa teoria do progresso social, dessa teoria da revolução própria do princípio da esperança. No que não existe, o sonhar para a frente.
Quem começou este tema fundamental da filosofia foi o russo Dimitri Pissarev (1840-1868) citado por Lênin em “Que fazer?” (São Paulo, Hucitec, 1988, p. 132) que escreveu: “Com o que devemos sonhar? (...) O desacordo entre o sonho e a realidade nada tem de nocivo se, cada vez que sonha, o ser humano acredita seriamente em seu sonho, se observa atentamente a vida, compara suas observações com seus castelos no ar e, de uma forma geral, trabalha conscientemente para a realização de seu sonho. Quando existe contato entre o sonho e a vida, então tudo vai bem”.

A pequena Paris



















A pequena Paris

NEUZA MACHADO

No entanto, “que belo lugar”! Tão “limpo”! “Lembrava Paris”. O Ribamar até então era apenas um “caboclo mal vestido, calças de brim, camisa de algodão cru de dura goma, chapéu de palha na cabeça e mala de madeira enrolada na mão”. Quem estava a se lembrar de Paris ao apreciar a Cidade? O primeiro ou o segundo narrador? Ou um terceiro viajante-narrador, profundo conhecedor da Cidade de Paris? Como poderia o Ribamar de Sousa da “mala de madeira enrolada na mão”, ou mesmo o segundo narrador, lembrar-se de Paris? Seria a Paris decalcada no “Cosmorama”, aquele interessante aparelhozinho ótico que o acompanhou quando de sua peregrinação até ao Seringal Manixi?


Diz o narrador, ao refletir ficcionalmente o declínio sócio-econômico da Cidade de Manaus: “Tudo o que era sólido se desfazia no ar e ruía como um castelo de cartas. O Teatro Amazonas foi abandonado, transformado em depósito de borracha velha. O que sobrou foi muito pouco, mas era o que eu mais amava”. O Teatro Amazonas, mesmo transformado em depósito de borracha velha, era o local que o narrador “amava”. O Teatro Amazonas, o símbolo da Cidade manauara, se estabeleceu no alto, como marca do poder da era da borracha. Posteriormente, “em ruínas”, significou a decadência de um primitivo Império capitalista, o de base familiar. Uma outra forma de Capitalismo Selvagem estava a surgir no mundo: o Capitalismo sem freios das multinacionais estrangeiras. Naquele instante universalmente dinamizado, o Teatro tornou-se um artigo sem serventia para os manauaras, um monumento do passado em ruínas, abrigado em uma Cidade em ruínas sócio-financeiras. No entanto, para o narrador-cidadão do mundo, ainda era o lugar mais “amado” (não seria de se admirar o fato de que, no momento, neste ano de 2008, o narrador aqui realçado esteja a escrever um romance chamado Teatro Amazonas).
O fogo da labareda da serpente
Sobre O AMANTE DAS AMAZONAS, de Rogel Samuel

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A ausência de Neuza Machado



A ausência de Neuza Machado
A ausência de Neuza Machado
A ausência de Neuza Machado

 
 
 
 
Cunha e Silva Filho

                        Conheci Neuza Machado quando, de 1999 a 2006, fui lecionar no curso de Letras da Universidade Castelo Branco, em Realengo, Rio de Janeiro. Não me lembro bem como foi o meu primeiro contato com ela. Só sei que, de repente, já éramos bons colegas no ambiente universitário. Ela lecionava teoria literária; eu, literatura brasileira e, depois, língua inglesa, cheguei mesmo a lecionar também, e por um semestre, literatura americana.
                       Me lembro bem de que, uma noite, após uma reunião geral com o reitor, saí do auditório e fui para a cantina, lugar de encontro de professores e alunos e lá Neusa me perguntou se eu tinha alguma facilidade de conseguir um editor para um livro dela pronto a ser publicado. Por um ou outro motivo, ela pensava que eu tivesse assim bons contatos, o que não era o meu caso. Ficamos amigos e dessa amizade que cresceu mais com as muitas vezes que, no Centro do Rio, coincidia de tomarmos o mesmo ônibus para Realengo.
                     Foi nessas vezes que comecei a conhecê-la melhor. Nessas idas de ônibus cujo percurso durava uma hora ou mais, dependendo do trânsito, e em ônibus lotado, aproveitávamos para falar principalmente de literatura, de escritores, dos tempos de graduação na Faculdade de Letras da UFRJ, dos bons professores e das dificuldades inerentes aos tempos de estudante, ia formando minha opinião sobre esta colega que não chegou a ser amiga íntima, mas cujo convívio profissional no mesmo ambiente de trabalho foi suficiente para que sentisse admiração pela sua formação intelectual e seus anseios de estudiosa e pesquisadora sobretudo na sua área de maior interesse, a teoria literária.
                   Neuza era mineira e tinha muito do que se fala de bem dos mineiros.Por outro lado, a sua personalidade simpática e brincalhona por vezes escondia algo de um temperamento muito crítico e rigoroso com o que fazia na sua vida profissional. Sua visão do fenômeno literário era penetrante, muito seletiva, numa abordagem metodológica que se orientava pela análise semiológica, por ela declaradamente haurida da experiência que teve nas aulas de Anazildo Vasconcelos da Silva, professor da Faculdade de Letras da UFRJ. Na sua dissertação de Mestrado, O narrador toma a vez, em que discute o conto “A hora e a vez de Augusto Matraga”, de Guimarães Rosa, depois editada por conta própria, em 2006, Neuza deixa bem nítida essa inclinação às aproximações semiológicas (Greimas, Barthes, Anazildo Vasconcelos da Silva e outros) e sociológicas (Goldaman, Luckács, Weber e outros) do fenômeno literário. Percebe-se que neste estudo ela mobilizava um instrumental teórico diversificado, pluralista, no qual não havia nenhuma prevenção dogmática e radical na interpretação da obra literária.
                  Não li sua tese de doutoramento, a qual da mesma forma, deu continuidade e aprofundamento à obra de Guimarães Rosa, porém, nesse estudo me recordo bem de que se serviu largamente do pensamento de Bachelard que me parece deve ter sido a sua viga-mestra na condução do desenvolvimento da sua tese. Penso que a orientou foi o professor Rogel Samuel, um escritor de cuja obra Neuza iria se ocupar com dedicação e competência, tornado-se provavlemente a sua maior intérprete e divulgadora.
                  Neuza foi ficcionista, além de crítica e ensaísta. Na sua coluna Letras no Entretextos, deixou páginas que demonstram sobejamente sua capacidade de análise e sua maneira original de absorver o que a sua formação lhe propiciou em anos de estudos leituras e de experiência docente. Não podemos negar a sua vocação para o debate teórico no sentido mais elevado do termo.
                 Neuza era uma mulher batalhadora, sobretudo no que pretendia fazer no domínio intelectual,   Percebendo claramente quão é espinhoso se publicar no país através das grandes editoras, ela não perdeu tempo, criou a sua própria “editora”, cuidou de todos os trâmites burocráticos e saiu vitoriosa: editou sua dissertação de mestrado e possivelmente alguns outros trabalhos. Ela cuidava praticamente de tudo para que seus livros viessem a publico. Era, pois, uma determinada.
               Respeitada por seus pares na Universidade.Castelo Branco, mulher corajosa ao defender seus pontos de vista, sobretudo no campo teórico, Neuza Machado antes de ter lecionado naquela universidade, também ensinou na Universidade Estácio de Sá, na Universidade Sousa Marques e, por um ano, saindo do Rio de Janeiro, lecionou na Universidade Federal do Pará ou Amazonas, não sei bem. Anos antes, participou de um congresso em Paris ao lado de Rogel Samuel, de quem sempre foi uma admiradora e amiga. Me recordo de que, na Castelo Branco, adotava livros de Samuel Rogel, que, de resto, foi seu professor na Faculdade de Letras da UFRJ, no tempo em que funcionou na Avenida Chile antes de se transferir definitivamente para o campus do Fundão.
             Uma outra lembrança que me ocorre de Neuza, durante nossas conversas regadas a boas gargalhadas que às vezes surpreendiam os outros passageiros do ônibus que nos levava para a Universidade Castelo Branco, era a sua disposição de sugerir boas dicas naquela época em que eu estava escrevendo minha tese de doutorado. Eram sugestões inteligentes que me apontavam dimensões novas ao meu estudo do conto de João Antônio ( 1937-1996).
           Tenho, sim, saudades de nossas conversas, nas quais Neuza me superava nos inúmeros relatos de fatos passados de sua vida de universitária,de professora, alguns pitorescos, alguns divertidos, outros de natureza amorosa, sobre situações que presenciou e vivenciou no mundo acadêmico que se tornariam mais segredos, casos particulares do mundo dos vivos e do tumultuado relacionamento entre as pessoas, confidências não exprimíveis do ponto de vista confidencial. Era uma ótima causeuse a querida Neuza Machado.
          Ela sabia de sua importância , de seu valor, de sua capacidade como profissional aberta e disponível ao universo do saber e da inteligência. A notícia de seu falecimento prematuro me deixa menos feliz apesar do meu afastamento a partir da minha saída há poucos nãos da Universidade Castelo Branco.Seus alunos sem dúvida hão de sentir muita a sua falta, a sua palavra alegre, muitas vezes brincalhona e educadamente irônica. À sua família e amigos envio daqui os meus sentimetos de muito pesar.
 
 
 

NEUZA MACHADO

Leia nossa coluna em
http://www.blocosonline.com.br/home/index.php
sobre o súbito falecimento de Neuza Machado, a maior intérprete de O AMANTE DAS AMAZONAS.


quarta-feira, 24 de abril de 2013

MILAGRES


BUDISMO - PSICOLOGIA DO AUTOCONHECIMENTO
Dr. Georges da Silva e Rita Homenko

Certa vez, quando o mestre Bankei calmamente pregava a seus seguidores, sua fala foi interrompida por um sacerdote de nome Shinshu que acreditava em milagres e pensava que a salvação vinha da repetição de palavras sagradas.
Mestre Bankei, incapaz de continuar a palestra, perguntou ao sacerdote o que queria ele dizer.
- O fundador da minha religião, - continuou o sacerdote - estava na margem de um rio com um pincel na mão. Seu discípulo estava na outra margem segurando uma folha de papel. E o fundador escreveu o Santo nome de Amida no papel, através do rio, pelo ar. Podes fazer algo tão milagroso?
- Não, - disse Bankei - só posso fazer pequenos milagres como: comer, quando estou com fome; beber, quando tenho sede e, quando insultado, perdoar.


terça-feira, 23 de abril de 2013

FALECE NEUZA MACHADO

Com 66 anos de idade, falece Neuza Machado de parada cardíaca.


Ela faleceu subitamente. E o livro que Neuza Machado escreveu sobre “O amante das amazonas” pode ser lido em:

O Punhal de Clarisse de Oliveira











O Punhal de Clarisse de Oliveira


Rogel Samuel


Um dos textos mais cortantes, mais fortes, mais plenos de significados de Clarisse de Oliveira é o seu "O punhal".

Eu o leio desde que foi escrito, há muitos anos.

Já foi elogiado até por uma crítica de literatura que mora em Paris, que me perguntou: "quem é esta escritora? eu a conheço?"

Lembrei-me dele neste início de ano, após um diálogo ardente com NEUZA MACHADO a respeito de certos pontos de minha vida.

O texto lembra um poema em prosa de Borges, mas tenho certeza de que Clarisse não se inspirou nele.

Eu conheci o Gerardo de que ela fala. E já devo ter visto esse punhal no apartamento de Clarisse quando ela morava em Ipanema e onde me hospedei.

Isso já faz muitíssimos anos.

Depois que ela se mudou para um lugar distante, só acessível por carro, não a visitei mais, pois estou há uns 30 anos sem dirigir.

Clarisse mora no meio do mato, numa floresta. Ela gosta, nada se pode fazer.

Leia O punhal:




O Punhal

(Clarisse de Oliveira)

A mão que acaricia é aberta;
Mas quando ela se fecha
no cabo de um punhal,
ela é mortal.
Quando meu amigo Gerardo morreu,
abriram seu armário de caça,
e me mandaram escolher
o que eu quisesse.
Escolho cinco assobios de madeira
que imitam os cantos dos pássaros,
e um grande e estreito punhal,
o cabo trabalhado em prata
e pedra preciosa brasileira.
Eu percebi muito tempo depois,
que a lamina do punhal
era mais pesada que o cabo
e isso permitia
que se eu o largasse de certa altura,
ele caia fincado na madeira
sem esforço.

Tive uma vida ferida,
no seio de uma familia
que não me compreendia.
Às vezes, adolescente,
eu segurava o punhal, pensando:
- Você me tiraria desta vida,
mas pressinto
que me acompanharás
o tempo todo -
companheiro agressor,
mas sustentáculo
onde muitas vezes
o amor nos ameaça
na sombra
mas o segredo da Vida
abre Asas em nosso Espirito.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Ódio e preconceito: França vive primavera sombria

Ódio e preconceito: França vive primavera sombria
O país que desenhou os conceitos de Direitos Humanos e onde as liberdades cívicas são um exemplo universal se meteu no labirinto das fobias: à islamofobia e ao racismo que marcaram a campanha eleitoral para as eleições presidenciais de abril e maio passado se seguiu uma homofobia agressiva que fez várias vítimas e colocou em primeiro plano pequenos grupos fanáticos que, oriundos de várias correntes da direita, confluíram em uma frente comum de perigosas intenções. O debate sobre o casamento homossexual fez a França voltar à Idade Média. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.

Paris - A França vive uma primavera sombria. A extrema direita, os grupos ultra católicos e a oposição conservadora montaram um show de homofobia latente que chegou até as agressões físicas contra os homossexuais e passou o limite da intimidação com uma carta de ameaças cheia de pólvora enviada ao presidente da Assembleia Nacional, Claude Batolomé. A lei sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo deve ser aprovada definitivamente nesta terça-feira na Assembleia Nacional. No entanto, o projeto acendeu um foco de tensão violento, com manifestações massivas a favor e contra o texto, ameaças aos deputados que o defendem, destruição de locais, golpes e insultos aos homossexuais e uma infinidade de episódios de uma vulgaridade de comedia barata.

O país que desenhou os conceitos de Direitos Humanos e onde as liberdades cívicas são um exemplo universal se meteu no labirinto das fobias: à islamofobia e ao racismo que marcaram a campanha eleitoral para as eleições presidenciais de abril e maio passado se seguiu uma homofobia agressiva que fez várias vítimas e colocou em primeiro plano pequenos grupos fanáticos que, oriundos de várias correntes da direita, confluíram em uma frente comum de perigosas intenções.

A chamada lei sobre “o matrimônio para todos” proposta pelo Executivo socialista destampou a existência de uma França iracunda e intolerante até a intimidação física. Há uns dez dias, um jovem casal franco-holandês de homossexuais, Olivier e Wilfred de Bruijn, foi atacado no distrito XIX de Paris por um grupo de cinco jovens, que os agrediu brutalmente. “Olha, são homossexuais”, disse um deles e imediatamente começaram a agredi-los. A foto de Wilfred de Brujin com a cara desfigurada pelos golpes deu a volta ao mundo: ele mesmo fez com que ela circulasse na internet.

De Brujin está certo de que a surra que levou é uma consequência da radicalização que a lei provocou: “Desde o verão passado, o clima se tornou odioso para os homossexuais na França. Nos sentimos atacados, ameaçados, insultados. O debate deixou livre uma violência verbal e física que antes parecia contida. A culpa é dos bispos da Igreja católica e de políticos como Jean-François Copé”. Este político é hoje o líder do principal partido de oposição, a UMP, que aproveitou o antagonismo que levantou a lei sobre o matrimônio igualitário para atacar o governo e recuperar a credibilidade de um partido que vinha perdendo velocidade. Mas a agressão dos homossexuais parisienses não foi a única: nas localidades de Lille e Bordeaux ocorreram novos ataques contra os homossexuais. A França voltou à Idade Média no que diz respeito a este tema. A tensão é tal que a política reforçou sua presença nos bairros frequentados pelos homossexuais para evitar a repetição das agressões.

No início, apesar das dezenas de milhares de pessoas que os adversários da lei reuniam nas manifestações ninguém captou a importância que essa corrente iria tomar. O movimento contra a lei está composto por um leque de grupos que vão desde os fundamentalistas católicos de Civitas, bispos e padres de corte conservador, deputados ou prefeitos da oposição conservadora, núcleos de neonazistas, membros do grupo terrorista que se opôs à independência da Argélia, a OAS, militantes e quadros do partido de extrema direita Frente Nacional, nostálgicos da monarquia da Ação Francesa, pequenos grupelhos xenófobos das Juventudes Nacionalistas, neonazistas do Bloco Identitário e um monte de famílias que vem a lei como uma ameaça à civilização ocidental.

Toda essa torrente está liderada por uma mulher, Frigide Barjot, uma ex-comediante e cronista mundana que se veste toda de rosa como um incongruente prato de confeitaria. A denominada Frigide teve seu caminho de Damasco em 2004, quando realizou uma peregrinação até a Virgem de Lourdes e se tornou uma fervorosa católica. Frigide Barjot se auto-considera como “a porta voz de Jesus”. A líder deste bando intimidador considera que vive sob “uma ditadura” e, dirigindo-se ao presidente socialista François Hollande, disse certa vez: “Hollande quer sangue, e o terá”. Como a lei também contempla a possibilidade de que duas pessoas do mesmo sexo possam adotar filhos, seus opositores se apoiam nesse capítulo para negar toda forma de homofobia: “nos preocupa que as crianças sejam educadas por dois pais ou duas mães”, disse Frigide.

A carta cheia de pólvora enviada ao presidente da Assembleia Nacional tem o mesmo corte explícito. “Nossos métodos são mais radicais e expeditivos que as manifestações. Vocês quiseram a guerra, pois aí está ela”. Mais adiante, o texto diz: “o matrimônio para todos equivale à supressão total do matrimônio. No caso de você ficar omisso diante desse ultimato, sua família política sofrerá fisicamente”. O debate ultrapassou em muito o tema de lei e se tornou hoje uma clara mostra de descontentamento político contra François Hollande. No início das manifestações, os cartazes eram contra o texto, mas com o passar das semanas e das marchas cada vez mais massivas – chegando a reunir até 300 mil pessoas – o protesto se focalizou nos socialistas: hoje se veem muitas faixas pintadas que dizem “Hollande demissão”. Outra afirma: “Hollande, não queremos tua lei sobre casamento homossexual, queremos trabalho”.

Estes meses de debates, insultos, violência, missas ao ar livre e pessoas de joelhos na porta da Assembleia Nacional, frases arrebatadas e excitadas na televisão terminaram por fazer dos homossexuais um demônio perigoso, uma espécie de elemento tóxico da sociedade. A direita conseguiu com eles o mesmo que fez com os estrangeiros: transformá-los em um sinônimo de coisa nociva. O resultado é dramático para os homossexuais e as lésbicas mais jovens, com escassa experiência na discriminação. Agora, têm medo de serem reconhecidos e de serem agredidos por sua sexualidade. Em nome da integridade da família e da educação dos filhos por casais tradicionais, os bispos e padres que movem os fios de ódio por baixo de suas batinas terminaram por transtornar o perfil de um país exemplar. Em vez da concórdia promoveram a intolerância e a divisão. Com isso ressuscitaram e uniram em um mesmo rechaço a todos os ramos dos extremos.

Os protagonistas dessa primavera sombria francesa sonham com uma espécie de maio de 68 ao contrário, ou seja, ao invés de uma revolução libertadora dos costumes, uma revolução conservadora que volte a colocar a mordaça na sociedade.

Tradução: Katarina Peixoto

Fase 2 do "mensalão" está nas mãos de Zavascki

Fase 2 do "mensalão" está nas mãos de Zavascki

:
Recursos começam a ser apresentados hoje e se encerram no dia 2 de maio; nesta nova fase do processo, futuro dos réus condenados depende, essencialmente, do novo ministro Teori Zavascki; basta seu voto para que as condenações por formação de quadrilha, como de José Dirceu e José Genoino, terminem empatadas; terá ele coragem suficiente para resistir às pressões da mídia, se estiver disposto a votar nesta direção?


MAS O AURORA

MAS O AURORA

Rogel Samuel


É um velho bar. Tem mais de cem anos. O livro de Barthes, que já li, se torna maravilhoso, ali. Outro dia fui à Adega Flor de Coimbra, na Rua Teotônio Regadas, na Lapa. No mesmo lugar morou Portinari. Ao lado, a Sala Guiomar Novaes, e atrás a Sala Cecília Meireles. A adega era freqüentada por Villa Lobos, Manuel Bandeira. Na Sala Guiomar Novaes estão as "mãos", em bronze, da pianista. Constato que eram bem pequenas. Como pôde a grande pianista ter mãos pequenas? Hoje quem toca na sala é uma pianista famosa, não sei dizer por quê. Às vezes é boa. Outras vezes é "dura". Na minha frente estava um agradável senhor, com quem converso antes do concerto, sobre a iluminação, a acústica etc. Vejo que no programa havia uma certa "Terceira balada", de J. A. Almeida Prado, primeira audição mundial. Foi o melhor do programa. A balada era uma improvisação livre sobre um tema de uma música banal, ou mesmo vulgar: "Parabéns para você". Mas a "Terceira balada" era extraordinária. Depois vi que o autor era aquele agradável senhor com quem conversei sobre banalidades. Na volta não pude ir pela calçada e entrar no Metrô, como gostaria. A noite tinha caído. 

domingo, 21 de abril de 2013

sábado, 20 de abril de 2013

A Terra é um ser vivo: E nós somos o seu sistema nervoso

A Terra é um ser vivo: E nós somos o seu sistema nervoso

: Há cerca de 40 anos o cientista britânico James Lovelock fez furor com o lançamento da sua "Hipótese Gaia", proposição científica na qual ele definia a Terra como um organismo vivo, inteligente e sensível. Discutida e em parte desacreditada, a ideia volta hoje com toda a sua força original