domingo, 28 de outubro de 2007

Encontros Prontos

Rogel Samuel


Quando partiu, ele a viu na estrada.
Ela sorriu para ele. Nunca a tinha visto. Ele se ergueu da poltrona e, abrindo a janela, escancarou um adeus para ela, colocando meio corpo fora do ônibus.
Nunca mais a veria, mas estava apaixonado. Subitamente apaixonado. Partindo de Búzios. Voltava para o Rio.
Dias depois a encontrou em Copacabana, onde morava. Era ela.
Amaram-se logo naquele dia.
Casaram-se.
Têm três filhos.

* * *

Na fila, ele procurou falar com ela. Iniciou conversa.
Ela sorriu, mas nada falou.
Ele chegou a encostar-se nela.
No elevador cheio, ele pôde senti-la, aspirar seu perfume e calor, excitado. Tonto.
Chegando no seu andar, foi rápido.
Às quatro eu espero você na portaria. Está bem?, falou, como se fosse ela fosse amiga de infância. Ele ia ao dentista, calculou a hora, mas sem esperança.
Está bem, ela disse, e ninguém reparou que não fossem amigos há mais tempo.
Às quatro ele estava lá. E ela apareceu.
Amaram-se naquele mesmo dia, num hotel.
Há vinte anos se encontram.
Se amam.

* * *

Era tarde. Tarde para ir à praia. Principalmente no inverno. Na praia deserta estava ela. No meio da praia deserta estava ela. Quase frio.
Ele veio, puxou conversa. Nada.
Ele desistiu dela, tirou a roupa, pulou na água. Saiu tiritando de frio.
Mas o vento, a juventude o secaram. Resolveu partir. Na partida, passou por aquela menina, despedindo-se. Disse uma besteira:
Quando puder apareça na minha casa...
E se foi.
Já na calçada, bem longe, voltou-se para olhar o mar: a menina acenava para ele.
Seria para ele? Teve de certificar-se de que não havia mais ninguém ali.
Voltou até a praia.
Ela disse: "Como você quer que eu vá à sua casa se não me deu o endereço"?
Ele passou-lhe o telefone. A noite caía: "Quer ir lá agora?", ele perguntou.
Não, disse ela. Eu telefono.
Ele explicou que ia viajar no dia seguinte. Que ficaria um mês fora.
E assim foi.
Quando voltou, a secretária eletrônica era tomada de vários recados silenciosos.
Alguém ligara muitas vezes, mas não disse nada.
Pouco tempo depois, naquele mesmo dia, ela telefonou.
Eles se encontraram. Ficaram juntos por quatro anos.
Até que... ela conheceu um alemão, por quem se apaixonou e se foi com ele para Frankfurt.
Conheceu o alemão na mesma praia. Quase no mesmo lugar.

* * *

São três casos. Encontros prontos.
E verdadeiros.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Os Relógios

Rogel Samuel


Já, sim, a leitora o leitor já possuiu um daqueles relógios pequeninos, de pulso, quadrados, como para o tempo ali enquadrar no seu abraço de aço? Eu já. Vários. O primeiro, dourado. Dei à Stella. Que o usou até a vista ficar cansada, e as horas não ver. O segundo, com o Alfa e o Ômega, simples mas belo relógio de corda. O terceiro, um miúdo Mido, fino e lindo, presente de estima, está com minha amiga Jessuma, trocada a pulseira por uma coisa viva e animal. Todos eu os usava no curtir das horas. Sim, não chamava o tempo a vida o mínimo respeito. Como porém belo e charmoso este meu novo relógio, comprado a um camelô de Manaus, antes de retornar ao meu Rio de Janeiro. Porque custou pouco não o amo menos. O tampo, de cristal lapidado como as vidraças do Teatro Amazonas. Brilha. O fundo mostrador verde musgo, vêm da curva descendente que sai do verde-escuro para o verde-cré até a fímbria da saia de aço da sua fria lâmina de rio Amazonas, degradée, como o fundo do mar de nós mesmos. A pulseira de aço e «ouro», se distribui no corpo do braço como uma face, uma pele. Não, nem tem marca, mas corruptela disto. Inverte duas letras. Nele vejo o solo verde do meu amor em suas medidas e cores, o seu termo de sala aberta. Quero crer que sua força exibe o nosso tempo online, pós-industrial. O mapa da História jogado no chão da certeza dessa placa sulcada, elevada, no limite de seus giros de ponteiros, dia e noite, como em Cole Porter. Mas não bate. É construção silenciosa, marca o passo do compasso da espera da morte. Não. Nele, no Mostrador, vejo anunciado o termo final, o tempo que se esgota, que se estreita, que se exígua, que se míngua, que se encurta, que de repente se despeja como lixo no fundo de um hotel de luxo se despeja nos galões do beco imundo, sepulcral, onde mendigos batem os dentes, de frio e fome. O risco final da estrada, o próximo futuro terminal do encerrar-se no jardim feito de passagens vividas, deslocadas, em passo passado. Ouço sua voz silenciosa. Ouço. Vítrea lâmina de aço. Se esquece. Sabe vozes que se foram. Extintos perfumes, talvez você conheça aqueles relógios de plásticos, os sonoros limites que emitem os sons, seus cantos de morte, pois cada relógio anuncia a morte, cada tic-tac apressado põe a vida em marcha-ré, na diminuição, trêmulo esquecimento que os relógios comem como ratos o tempo roedores, e sabem come-los, esses monstros de corda e de bateria do passado, caixinhas de música funestas, quatros ornatos mortos, ponteiros de punhal do vento, beirais do nada enigmáticos, invenção de vultos, quermesse da conclusão, carril de finado.

terça-feira, 23 de outubro de 2007


Dr. Tito



Rogel Samuel





Mas era Dr. Tito um dos homens mais elegantes que já se viu.

Alto, magro, bigodes grisalhos, as pontas arqueavam para cima, extremamente bem vestido, bem talhado terno, com colete, a gravata presa por uma pepita de ouro, chapéu de feltro — ele andava em Manaus com tal elegância como se desfilasse num bulevar parisiense — Dr. Tito Bettencourt era o dentista de nossa família.

Inspirava confiança, homem civilizado, galante, cortês. Sabia como discretamente parar na rua as pessoas para a rápida conversa, social. Para cada uma, uma frase diferente. E tirava, levantava discretamente o chapéu, para as pessoas que só conhecia de vista:

— Como vai a nossa D. Edília? perguntava, ao encontrar minha mãe. Meus cumprimentos à sua família, - e partia ele, muito digno, soberbo, jovial apesar da sua idade.

Ele não era dr. Bodecker, de Ledo Ivo, em «Rilke vai ao Dentista».

Rilke vai ao dentista.
Nenhum dos seus anjos o acompanha.
Ou todos os anjos do mundo o acompanham.
É outono em Berlim. As folhas das tílias
caem como os pássaros silenciosos.
O homem não foi feito para as pequenas dores.

Protegido do frio por um espesso sobretudo
(presente da princesa Maria von Thurn und Taxis)
Rilke se encaminha para o consultório do dr. Bodecker.
As ruas iguais aos mares sucessivos
o conduzem à vida, não à Morte.

(E como gostaria eu de ser o poeta Rainer Maria Rilke.)

Mas no consultório, vestia-o um avental de linho alvíssimo, impecável.

À minha relutância em abrir a boca, brincava:

— Vamos jovem, homem é homem, bicho é bicho.

E Dr. Tito a broca começava.

Na época não havia motor, aquilo, aquela engenhoca era pedalada, aquele instrumento de tortura funcionava como funcionava uma máquina de costura.

Então Dr. Tito cantava uma valsa.

Era sempre a mesma valsa, o «Danúbio azul», que ele lalarilava, feliz, cantando no ritmo de suas alegres pedaladas.

Quando a dor aumentava, ele elevava o volume de sua voz, de sua valsa. E continuava a embrocação. Os nossos gritos eram sufocados pela sua voz.

Não tinha enfermeira, nem assistente, nada, ninguém. Trabalhava sozinho, no seu consultório, na rua Sete de Setembro. A sala de espera do consultório, sem nenhuma ostentação, se constituía de umas cadeiras e um sofá de palhinha. De lá era possível ouvir a valsa, o Dr. Tito cantando o «Danúbio azul».

Quando terminava, ele aparecia, feliz, na porta, apertava a mão de alguns homens, curvava-se às senhoras, em deferência, e dizia, entusiasmado, para alguma criança presente:

— «Oh, meu grande amigo! Que prazer em vê-lo aqui!»

Dr. Tito morava perto, numa imensa casa, que freqüentávamos nos aniversários. A casa, em estilo antigo, tinha um pátio interno. Mas as lembranças me fogem, pois vêm de um outro mundo, de um mundo mítico, remoto.

No consultório, nunca me lembro de que tivesse perdido a paciência, o sorriso, a temperança, a amabilidade.

E gostávamos dele, nós crianças, apesar de seus alicates, suas brocas, suas garras e de sua valsa.

O «Danúbio azul».

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

A Lembrança de Valquíria (2)


A Lembrança de Valquíria (2)


(novas páginas do antigo diário)





Rogel Samuel





Palavras. Palavras entrecortadas. Curiosa angústia. Eu ponho tudo em jogo, eu não estou com ela. Que faço aqui? Novo grupo de policiais acaba de chegar, as imediações estão um campo de guerra, um campo selvagem. Quando a porta se abriu, nós nos precipitamos pela saída dos fundos. Eu ainda pensei que a porta resistiria, mas cedeu de uma vez, uma invasão começou. Depois começa a lavrar o incêndio. Armários despencam aos tiros, granadas, rebentam estrondos. "Sim, fui uma juventude agredida", disse Val, anos depois. O silêncio aquece o inverno longo. Você coloca sua marca, a marca de seus dedos em tudo o que faz. Você traz no corpo o seu sinal.

Na estação, o garoto olha para trás, e corria, assustadíssimo. A fome passa. Estou bem disposto, a viagem de trem me reanima, a vida volta a seus trilhos, volta ao natural. Sinto-me de novo participante, cidadão, digo que isso é passageiro. Não sei dar linearidade a esta narrativa, ela vai-se desenrolando de dentro – a sua ordem é desordem assim, parece impossível, fico diante do que sai de minhas lembranças, fico impotente, como sob flashes atordoantes. Os olhos dela me chegam, me abraçam. Às vezes, penso que é ela quem me reencontra, seu fantasma comigo — a minha morte — um salto surpreendente. Eu tenho de usar de muita habilidade para prosseguir o tema doloroso, o tema fundamental, o propósito verbal de minha existência devastada, não mais estando disposto à lastimação solitária de origem. Minha lembrança. Recebo minha lembrança no seio de sua vacuidade. A emancipação desaparece, por momentos. Mas nada pode ser dito. Vivo disto. Sobrevivo disto. Vivi com o principal de meus dias de paz. «Quem colhe o mel dos deuses», diz a voz, «não mais se cura». Sei que amanha acordo melhor. Bela sensação de claridade, de espaço, daquele espaço em que passamos nossos corpos e nos estabelecemos — quero abraçar este espaço — rematar o real nele contido - recortá-lo para o recriar. Hei de contar, de cantar a mais bela canção de amor aqui, mais bela que alguém já pode viver. Val me telefonou dizendo que Ricardo... Mas isso resiste à clareza de uma narração, de uma explicação, tenho de avançar a palmo. Com teimosia, mas com cautela. Estou perdido. Melhor seria se eu pudesse logo contar certos detalhes, tornar seguro o caminho. A situação está na reta final. Mas não, não há mais ninguém, senão você, vem você, você prossegue, sim. Todos se colocaram na ausência. Sinto-me ainda na ilha, mergulho para esquecer, deixar para trás o som de suas praias, sempre nos meus ouvidos. Não, devo clamar, duvidar. Naquele tempo vivia numa ilha. Lá estava Val, também. Tínhamos uma casa na ilha. O principal de mim estava lá. Eu amava ou não tinha outra escolha. Ali era um ser todo dissolvido — um ser úmido, onde os sentimentos mais estranhos assustavam, assaltavam, chegavam com seu trânsito nervoso, a violentação de suas multiplicidades — de não sei quantos desagradáveis motivos nervosos difíceis de aturar.



* * *



A tarde ia desaparecendo. Um calor brando, silencioso. Valquíria aparece. Jovem. Máxima. Ela aparece jovem. Reencontro a Valquíria adolescente na Valquíria de hoje. Estou decididamente envolvido na sua substância material. Desde sempre nos envolvemos, nos identificamos. Ela vive, dança no meu ser, à vontade. Tento compreender isso, tento a resposta. Sua voz vem de longe, do tempo. Sua voz. Quando se convive, durante toda uma vida, mesmo com intervalos, com essa voz, nunca se pode sobreviver sem ela. Pessoa que se ama sempre. Estou sempre prestes a procurá-la, de novo. Por isso nunca a liberto. Sempre fui a ela, onde ela estiver. Seu timbre sempre adquire o som de um fundo que conheço mas não sei dizer de onde. Agora é o tom do amor desfeito. Refaço. Tento. Nós corremos paralelos, juntos, nos unimos em tempos sucessivos. Eu sempre. Tenho-a em meus braços? Ou ela me domina? Agora, como depois. Como sempre antes de sempre, depois, depois de depois. Nós nos deitávamos, era a comunhão, ela tão presente, como se fosse ela o mais sólido e absurdo elo da vida. Sem ela, vivo em abstrato. Se opacifica. Eu sou agora Val. Ela cheira a floresta. Nós sempre corremos em vias paralelas, nos unimos no tempo. O bom contato de seu corpo, de sua materialidade, de seu cheiro de mato moreno, de seu calor algo que eu podia beber o insaciável. Estrada. Depois a estrada. As palmeiras, eucaliptos, rubor essencial que sempre a eterniza. E eu sei que posso ficar até o sangue correr de meus dedos, aqui, a falar e a repetir sobre ela, interminável, inesgotável, solitariamente.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007




O Coração das Trevas


Rogel Samuel


Em «O coração das trevas», de Conrad, há uma extraordinária cena em que um navio de guerra francês bombardeia a costa africana.

Nada havia lá, no continente africano: «não havia uma única choça à vista, e no entanto o navio estava bombardeando o litoral».

Na realidade, estava o navio bombardeando a África!

O espetáculo desta sinistra e singular cena reside no fato de um país europeu rico, de um país do primeiro mundo, militarmente poderoso, estar ali, descarregando seus «longos canhões de seis polegadas», sobre o solo africano.

Isso me lembra que meu falecido pai contava que, do alto de seus navios ao longo do Rio Amazonas, os ingleses se exercitavam no tiro ao alvo matando os jacarés ao sol sobre as praias.

Ou pior ainda: Num dos inúmeros livros que pesquisei, para escrever meu «O amante das amazonas» (Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 2005) deparei com a horrorosa descrição de um grupo de senhores europeus disparando suas Winchesters sobre as crianças, indiozinhos que tinham vindo à margem do rio curiosos à passagem do grande e belo navio, «destampando as cabecinhas a tiros»!

Mas em «Heart of darkness» de Joseph Conrad o poderoso vaso de guerra tinha ancorado perto da costa e «ali estava ele, incompreensivelmente, em meio àquela imensa e vazia extensão de água, céu e terra, dando tiros para o continente».

«Heart of darkness» inspirou um dos melhores filmes de Francis Ford Coppola, «Apocalypse now».

Gosto tanto deste filme que o possuo em VHS, revendo-o periodicamente. Nele inclusive há uma das melhores aparições de Marlon Brando, interpretando o Coronel Kurtz. O som, a fotografia e o ator coadjuvante Robert Duvall ganharam Oscar. O filme recebeu a Palma de Ouro do Festival de Cannes.

Sou herdeiro da guerra do Vietnã. Explico-me melhor: passei a juventude lendo, diariamente, pelo Correio da Manhã, as notícias da guerra. Além dos comentários de Otto Maria Carpeaux a respeito.

Tenho até, na gaveta, esquecida entre os escritos esquecidos, uma novela cujo pano de fundo é aquela guerra e mais a nossa guerra intestina, a nossa ditadura militar.

* * *

É o que nos lembra os ataques diários ao Governo e ao PT por parte da grande mídia no último mês.

«Bum, fazia um dos canhões de seis polegadas, e uma chamazinha brilhava rápida e se extinguia, uma fumacinha branca se desvanecia no ar, um minúsculo projétil silvava debilmente... e nada acontecia».

Aquelas balas não poderiam pulverizar todo o continente africano, mas o estavam castigando!

O inimigo era a própria existência da África.

O espetáculo sinistro, entretanto, revela uma coisa: hoje a África está destruída.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

17/10/2007 - 10h27
Castelo do Drácula é o segundo imóvel mais caro do mundo à venda

Bucareste, 17 out (EFE).- O Castelo de Bran, no centro da Romênia
e ligado à lenda do príncipe Vlad Tepes, que inspirou o vampiro
Drácula, é o segundo imóvel mais caro do mundo posto à venda,
conforme classificação da revista americana "Forbes".

O castelo foi avaliado pela revista em US$ 140 milhões. A quantia
é justificada pelos analistas pelo retorno que o local pode gerar a
um potencial proprietário.

No topo da lista da Forbes está uma propriedade em Beverly Hills
(Califórnia, EUA), avaliada em US$ 165 milhões, que pertenceu ao
empresário da imprensa William Randolph Hearst.

O castelo romeno foi posto à venda pela Baytree Capital, em nome
de Dominic de Habsburgo, filho da princesa Ileana da Romênia, depois
que a propriedade foi devolvida à família pelas autoridades romenas,
no ano passado.

Conforme um acordo com o Ministério da Cultura romeno, o Castelo
de Bran, o segundo edifício mais visitado da Romênia após o Castelo
de Peles em Sinaia, deverá conservar a função de museu até 2009.

Situado perto de Brasov, no centro da Romênia, foi construído
pelos cavaleiros da Ordem Teutônica no princípio do século XIII e
durante a Idade Média serviu para defender a rota comercial entre a
Transilvânia e a Valáquia.

O príncipe Vlad, o Empalador, inspiração histórica do personagem
fictício Drácula, utilizou o castelo com fins militares várias vezes
durante seu reinado, no século XV.

Os colonos alemães de Brasov, que compraram o castelo no final do
século 15, presentearam o prédio à rainha Maria da Romênia em 1918.

Ela o transformou em residência e o deixou de herança para a filha
Ileana.


Considerações Vãs




Rogel Samuel




Liberdade é o famoso poema de Sophia de Mello Breyner Andresen,que diz:

O poema é
a liberdade

Um poema não se programa
porém a disciplina
-sílaba por sílaba-
o acompanha

Sílaba por sílaba
o poema emerge
-como se os deuses o dessem
o fazemos

Antes de examinarmos o poema, escreveu Lênin que: «em uma república burguesa, ainda que na mais livre e democrática, a "liberdade" e a "igualdade" nunca puderam ser nem foram outra coisa senão a expressão da igualdade e da liberdade dos possuidores de mercadorias» («Aliança operário-camponesa». Rio, 1961, pág. 486).

Por «possuidores de mercadorias» entendemos os proprietários dos bens de capital. A velha burguesia.

Minha citação vem do mestre Nelson Werneck Sodré, «Fundamentos do materialismo histórico» (Rio, Civilização Brasileira, 1968).

Recebi de Nelson Werneck Sodré uma carta, a propósito do meu livrinho «Como curtir o livro» O que é Teolit? (Rio de Janeiro/ São Paulo. Editora Marco Zero, 1986. 53 p).

Ele aceitou o convite do sindicato para dar uma palestra (quase secreta) na nossa Faculdade de Letras da UFRJ. No fim lhe passei meu livrinho, com dedicatória e endereço.

Hoje, o que disse Lênin parece óbvio.

Mas será?

No texto citado, Lênin diz da liberdade e igualdade da classe dos proprietários, isto é, da burguesia.

Porém o conceito de liberdade mostra ser político. Um conceito de poder.

Só há liberdade quando houver liberdade política, igualdade de condições.

A liberdade política pressupõe democracia, partido político.

Hegel: "A necessidade não é cega senão na medida em que não é compreendida".

Interpretava Engels essa afirmação dizendo que a liberdade consiste "nessa soberania sobre nós mesmos e sobre o mundo exterior, fundada no conhecimento das leis necessárias da natureza".

O reinado da necessidade se resume num aprisionamento, limitação.

Ausência do consumo «inútil». Como a arte.

A grande e gloriosa invenção do capitalismo se manifesta em consumir o inútil. Invenção e conseqüência.

A classe que esteja condenada a consumir apenas a necessidade de sobrevivência está excluída dos bens consumo, daquela sociedade que gera capital e crescimento econômico. Não tem liberdade.

Mas não nos libertamos de uma sociedade divida em classe no Brasil.

A liberdade é a necessidade que toma consciência de si (Plekhanov).

Todo pensamento de Hegel se funda na filosofia da consciência de si.

«Cada passo dado na senda da cultura representa um passo dado na rota da liberdade» (Engels: Anti-Dühring. pág. 139).

A «liberdade» e a «igualdade» expressam a igualdade e a liberdade da classe que tem «consciência de classe», na ressonância da consciência de si.

A arte, que também se expande no espaço da liberdade, manifesta esta consciência que uma sociedade tem de si mesma.

O poema é
a liberdade

A liberdade aqui é a forma que se ajusta em si, que tem « consciência de si», e portanto é assim como é, ou seja, não se ajusta a algo que não seja. É o nascimento e manifestação espontânea da matéria.

O poema é espontaneamente livre.

Um poema não se programa
porém a disciplina
-sílaba por sílaba-
o acompanha

Ou seja: já nasce na sua disciplina interna.

«O poema deve ser, não significar», disse Macleish.

Faz a arte a mimese do distanciamento estético, intensifica a percepção, distorce propositalmente a realidade, tenciona o discurso com suas promessas de liberdade - o reflexo da sociedade.

Só o poema é livre.

A liberdade social fica além do muro da mimese, num eterno devir, conquista permanente: toda liberação aparece como algo que, uma vez conseguido, logo perdido, para iniciar-se uma nova fase de trabalho de conquista, não da liberdade passada, mas da nova dimensão da liberdade por vir, pois o ser livre não é algo estático, mas dinâmico.

Não se dá na reintegração do que se perdeu, mas na integração do que antes não havia.

Por isso na arte da cultura brasileira se vê que a «liberdade» e a «igualdade» nunca puderam ser conseguidas para todos, mas continuam sendo expressão da igualdade e da liberdade burguesa.

A liberdade não é fazer o que se bem entende, mas ser responsável por seus atos.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

A espada das mãos vazias

A espada das mãos vazias

Rogel Samuel


Fernando Pessoa é perfeito. Em tudo o que fez. Leio «O guardador de rebanhos», a sua técnica de meditação. Na melhor tradição dos mestres Zen, ele diz: sou um pastor de pensamentos.


«Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

«Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.»

Reúne ele os pensamentos como um pastor suas ovelhas. Para que não se percam. Não se extraviem. Não divaguem. Não delirem. Reúne suas ovelhas dentro de si. É o que o Zen diz: «Viver dentro da casa». Dentro da casa é dentro de si. « Permanecer como se é, estar completo em si mesmo ... cada manhã é uma boa manhã, cada dia um lindo dia, não importa a tormenta que esteja desabando... » (Suzuki, «Viver através do Zen»).

Diz Suzuki que o poeta Hakuin (1685-1768) explica aquilo assim:

«As formigas vagarosas lutam para carregar as asas de uma libélula morta;

As andorinhas da primavera pousam lado a lado num ramo de salgueiro;

As fêmeas dos bichos-da-seda, pálidas e cansadas, ficam imóveis segurando as cestas repletas de folhas de amora;

Os garotos da vila são vistos com rebentos de bambu roubados arrastando-se através das cercas quebradas.»

Mas não é para ser compreendido! Se for compreendido, terá outro sentido. Nossas experiências diárias «são de fato experiências do Zen, mas não conseguimos reconhecer isso porque nós, como seres intelectuais, perdemos algo que nos permitia entender o significado».

Que perdemos? Perdemos a beleza. A claridade. Não vemos a beleza dos pássaros no céu, as flores na terra. A luz sobre a montanha, as sombras estreladas da noite.

A vida em si é beleza, algo misterioso. Escapa à compreensão intelectual.

Sotoba, um dos poetas da dinastia Sung, escreveu:

«A chuva nebulosa no Monte Lu,
E as vagas encapeladas no Che Kiang;
Quando ainda não se esteve lá
Muita mágoa se possui;
Mas uma vez lá e para casa se encaminhando,
Quantas coisas prosaicas se observa!
A chuva nebulosa no Monte Lu,
E as vagas encapeladas no Che Kiang.»
[Suzuki, «Essays in Zen Buddhism», I, p. 22.]

«Não há nada especial»: O mesmo velho mundo... e não obstante deve haver algo novo e belo na nossa consciência, pois de outra forma não se poderia dizer: "Está tudo o mesmo".

Uma grande mudança, uma grande iluminação teve lugar. Mas tudo está o mesmo.

Por isso um monge jardineiro aproximou-se certa vez do mestre e manifestou-lhe o desejo de ser iluminado no Zen. O mestre disse: «Venha novamente quando não houver ninguém por perto». No dia seguinte, o monge observou que não havia ninguém perto e implorou-lhe para revelar o segredo. Disse o mestre: "Aproxime-se mais de mim". O monge chegou mais perto dele. Disse então o mestre: "O Zen é algo que não pode ser transmitido por palavras".

Algum segredo foi revelado? Sim, o sol brilha no luminoso dia. E ele está alegre e feliz.

Pessoa reúne seus pensamentos como um jogador reúne suas cartas de baralho. São os pensamentos-realidade, pensamentos-pedras.

Desconfia das aparências, das ilações. O Ser só existe quando se torna consciente de si mesmo, diz Suzuki. Mantêm-se na arte da atenção, da presença. Quando ver, ver. Quando ouvir, somente ouvir. Não sair. A distração, para o mestre Zen, é a morte. Como para o lutador de espadas. A alegria, a felicidade está no momento presente, no fragmento presente.

E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

O passado é um cadáver morto e podre, o futuro é ilusão e desconhecido. Passado e futuro trazem confusão mental, sofrimento. Se me deixo na confusão de minhas ilusões fico perdido e em perigo, como quem escala a montanha. Ver é ver, pensar é pensar. Cada um de cada vez. Ver e pensar ao mesmo tempo é a loucura burra das fantasias irreais. Uma realidade só se dá única. Ver e estar consciente de que estou vendo, pensar e estar consciente de que estou pensando. Um guardador de rebanhos.

É por isso que digo que Pessoa era perfeito, em tudo o que fazia, que fechava os olhos e deitava na relva. Pleno. Na rainha das meditações, a realidade plena. Plenamente alcançada. Desperto. Livre.

Como diz o Zen: «Seguro uma espada em minhas mãos e fico com as mãos vazias».

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

VEJA AS NOSSAS FOTOS DOS AVIÕES NO RIO DE JANEIRO EM:

http://www.flickr.com/photos/12439475@N05/sets/72157602435526800/
Florbela Espanca




Rogel Samuel




Para Florbela Espanca a dor é, e estranhamente, um convento. No seu famoso soneto «A minha dor», escreveu ela: « A minha Dor é um convento»:

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...

Florbela era mulher bonita e uma extraordinária poetisa. A maior de seu tempo. Chamava-se Flor Bela de Alma da Conceição. Mas seu sucesso é posterior e recente. Otto Maria Carpeaux não a conhece, na sua gigantesca História da Literatura Ocidental. A arte de Florbela é antiquada, seu «Livro das Mágoas», publicado em 1919, livro não modernista numa época em que apareceu a Bauhaus, em Weimar, fundada por W. Gropius, em que aparece Miró, com seu «Nu com espelho». Ela continua cultuando o velho soneto à moda parnasiana. Hernâni Cidade referirá "a violenta contradição entre o conceito de poesia de duas épocas distantes ou próximas". Mas é, possivelmente, António Ferro que, em artigo do Diário de Noticias, logo em Janeiro de 1931, chama a atenção para a poesia de Florbela.

O primeiro verso canta:« A minha Dor é um convento ideal». Como interpretar esse verso, esse convento? Talvez pela solidão, abandono... mas isso é uma deformação do sentido ideal de convento. As freiras lá não estão senão porque comungam e comungam com Deus, com Cristo. Um convento doloroso é uma contradição de termos, idéia de que alguém lá tivesse sido colocado à força, algo como uma prisão solitária, vazia e sinistra. De forma que esse verso, «A minha Dor é um convento ideal» determina as significações do inteiro soneto. E mais:

«Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.»

- mantém um segredo, ou melhor, uma «bela» contradição, pois que, se ali há claustros, sombras, a pedra em convulsões sombrias, há também «requinte», ou seja, apuro, refinamento, elegância, esmero, elevação, perfeição, volutas simétricas, arcos belos de pedras convulsionadas, Florbela transpôs, contagiou o seu secreto claustro com toda a sua sensualidade feminina, com o seu erotismo amante, esses arcos nada místicos ou de um misticismo tântrico, amoroso, sexualizado, corporal, poderosamente inscrito nas paredes, reescrito nas curvas, nas ancas, nas pernas daquela construção ideal e reservada à sua agonia amorosa, onde «os sinos têm dobres de agonias Ao gemer, comovidos, o seu mal...», o seu pecado, o seu som de funeral. Há lírios, mas belos, há:

«Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!»

Florbela contradiz o seu misticismo feminino, a beleza mística, na solidão final de seus versos:

«Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...»

- onde se ouvem os sinos tocarem, nesses «em» que três vezes se repetem, em ninguém.

Filha ilegítima, nascida em 8 de dezembro de 1894, Florbela se mata em 1930. Chamava-se Flor Bela de Alma da Conceição. Não foi pobre, teve 3 maridos e 2 divórcios, algo incomum, na época. Estudou Direito, em Lisboa. Culta. Editou seus próprios livros: «Livro de mágoas» em 1919, e «Livro de Soror Saudade», em 23. Não era conservadora, como disse. Mas avançada para seu tempo. E feminista. Era. Matou-se. Sua morte ela o anunciou em carta. Não conheceu o seu grande sucesso posterior.



A Lembrança de Valquíria

Rogel Samuel







(Fragmento do caderno de memória)



Uma tarde, nela atravessávamos a luz, andávamos pela rua daquele subúrbio, o bairro, silenciosos, graves, gravemente subimos o aclive, os passos, resumimos nossas conversas a um leve contato, leve toque dos dedos, ocasionais, toque rápido, cheio de emoção e felicidade. Mas a vida não, mas a vida não é um brinquedo. Não consigo saber o que se passou, as recordações recortam imagens irrecuperáveis. Tento compreender. O que acontecia naquele momento, naquele passar de sua presença inteira, fixa, na minha frente - de uma existência - o passado como tela de cinema implantado no olho da memória. A vida não pára, não parou. Não chego ao desespero, ao estranho relacionamento que tenho, hoje, com o que hoje sou. O presente aqui não é nem alegre, nem triste. Tenho de começar devagar.

Certo dia, quando aciono, quando acordo, o teto do quarto com uma coloração rósea, a janela aberta dá para um labirinto em que o olhar ostenta mover-se, e que se vai desdobrando em abstrata claridade, a fragrância marinha emanando suave, fria, perfumada, vinda do horizonte, a janela respirava... Entrava, quase imperceptível, um som, aquele som, um murmúrio, doce, azulado, como o mar. As pessoas amigas me tinham recomendado calma. Mas eu não consigo. Lembro-me ainda das retas cruzes das ruas da cidade indiferente. Vista do alto prédio, a cidade. Foi naquela madrugada que a sentença me chegou, forte, perfeita, correta, aterradora como a de um assassino: Val. Era ela. Val me abandonava. As persianas batem, fortes, nervosas. As roupas por cima da cama, acordava do sonho do meu amor desfeito. O amor, como uma bala, passava de boca em boca. Se espalhava. Eu sofria a angústia, a queda. O amor é um mar. Cheiro familiar de café. Um pente um espelho. Eu penso. Matar o meu sonho. Não, VaI. Eu tinha soluções. Alguns homens formavam grupo no ângulo da esquina, e ela... ah, súbita felicidade da totalidade!... agora nós estávamos na praça. Na orla da praia eu subia até um pedestal vazio, que chegava à cabeceira do tanque retangular, e no ar abria os braços, espalmava as mãos, feliz, e ainda me consigo ver. De lá dizia, de lá me recordava de mim mesmo, eu para mim agora, a um majestoso e largo mar que soava no ar com a clara voz de Val, com todas as claras vozes daquele tempo, a aragem crescendo no meio de tudo, infiltrando-se na camisa aberta, os seios nus.

Nada me prende mais, hoje, do que a demora do passado no momento presente, esse momento interior imensurável, onde às vezes a força dos instantes retardam os passos do passado para sempre. Às vezes, como num sonho, largo pesado sonho estirado, os momentos são assim inteiramente vivos, inesperados. Neles me movo, me reconstruo, me recomeço. Em frente. Naquela praia nós nos largávamos, era como se durante a vida toda estivéssemos ali. Na areia suave, como se as lembranças estivessem inteiramente nuas, vistas de hoje o mar, vedação alta e azul, as coisas vastas, as coisas em bloco, as coisas se dissolviam em explosões de brancas espumas, cristas, covas, límpidas cintilações coriscantes.

Ainda estou perdido, perplexo. Ainda me movo mal nesse espaço. Ela. Ela penteia os cabelos, diante do espelho, os ombros largos. Muitos anos se passaram diante da imagem de Val, naquele espelho. Era ali, a sua viagem, uma viagem de barco, ela, os cabelos muito soltos no convés, chovia quase todo tempo, interminável ruído da chuva, a chuva nascia da ondulação das dobras do lençol de chuva azul, verde, nós riamos, recebíamos de face as espetadelas gélidas das gotas do ar. Isso é tudo? Durante todo o tempo em que vivemos juntos, parece hoje, por uma misteriosa deformação mágica, que todas as tardes são de sua presença, de seu mar, onde sempre se ouvem ondas, onde as luzes, os sóis se impunham, juvenis, um elemento, alto, magro, qual garça branca, andando atrás da pedra, do deserto, entre o carro e um adorno, uma corrente, ele se precipitava entre as coisas da memória, se encostava ao cimento do muro. Aqui, Val aqui, atrás o seu ciúme, conectando com o que se refere, com tudo o que... bombas (anos depois os soldados invadem o prédio, rebentam no meio da sala cruelmente as bombas, eu procurava Valquíria entre os acontecimentos tumultuosos, estávamos encurralados ali, não conseguimos sair daquilo, não há nenhum telefone funcionando). Esse amor. Tenho de deixar sossegado? Posso iludi-lo com amenidades? Eu sempre penso em matar minha lembrança, meu passado. Ele estaria morto finalmente se eu não o estivesse revirando agora.

Depois que eu me separei de Val penso que a vida está acabada. Não podia amar o amor, aquela doença, o relacionamento com Val, o fantasma. Tinha ido lá, ver o fantasma. Tinha ido até lá, a porta da cozinha estava em frente de onde eles se encontravam, passava a mão sobre sua cintura, mordendo-a suavemente no ventre, mas a porta ameaçou abrir, estava sendo arrombada, uma prosaica chave começou a ser introduzida na fresta, seria surpreendido ali, ele, um nome, uma legenda, ele, como ainda me lembro de tudo isso? estarei vitima de uma VaI que estava em minha vida como uma alucinação, um convite ao prazer, ao mais louco prazer, em sua vida, fonte máxima, única, ela era um vivo convite à vida, a porta, os azulejos brancos, duas pias do lado da geladeira. A beleza, a beleza acompanha o tempo.

No barco, na lua de mel, ainda chove persistente, a voz era como sempre clara e dizia que ouviriam uma certa música, sim, para não nos afogarmos naqueles golfões de sentimento maciço, mole, gosmento. Não, não nos afogaremos nesse mar, não nos afogaremos dentro do fundo de nós mesmos.

Não no barco, esmagada, não, mas na cozinha, com Val, a eterna, a porta se abre, a policia se apodera do que tinha sido aquela casa, eles estão fora, jogam o conteúdo fora, foram engolidos pelo silêncio? fugiram dali! Val, a política, a nova liberdade de viver é assim? Todo o meu empenho é vão, todo o meu empenho para que nada aconteça a ela, desde minha juventude eu assim jogo, tudo, joguei tudo na mesa verde da via do destino, a vida, a família, e era ela, fugimos dali, que valia tudo diante dela? De que valia tudo isso?

A revolução, a ditadura militar, estava vitoriosa, nos colocava na clandestinidade. Fomos parar numa estação de trem do subúrbio, distante, onde ela morava, olhando a planície com desânimo, quase uma centena de pessoas esperava a vinda do trem. Ali mesmo, naquela zona, passavam soldados sem destino, rapazes distraídos entre gritos de vendedores de balas.

sábado, 13 de outubro de 2007

Onde Estás, Poesia?

Rogel Samuel





Todos conhecemos «A canção de amor de J. Alfred Prufrock» de T. S. Eliot. E todos conhecemos seus labirintos, desvios, suas alusões. A dificuldade de leitura, a começar pelos primeiros versos:

Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão.
Oh, não perguntes: "Qual?"
Sigamos a cumprir nossa visita.

Os poetas difíceis impressionam. A poesia, neles, se insinua e se mostra no dito por meio de metáforas, alegorias, analogias, símbolos, índices, metonímias que provoca o impacto estético que é chamado beleza. Impressionam os poetas a poesia. Não a dificuldade aleatória, gratuita. Mas a profundidade dos alucinantes temas, como no «Por de sol» de Holderlin, na tradução de Manuel Bandeira (A arte do poeta diz a arte do sonho. A beleza do mundo dos sonhos, para nós, dá a condição prévia de todas as artes plásticas e também uma parte essencial da poesia):

Onde estás? A alma anoitece-me bêbeda
De tôdas as tuas delícias; um momento
Escutei o sol, amorável adolescente,
Tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite.

Ecoavam ao redor os bosques e as colinas;
Êle no entanto já ia longe, levando a luz
A gentes mais devotas.
Que o honram ainda.

O que o discurso afigura, na poesia, não é o mundo, mas sua essência. Por isso escapa das medidas do lógico, essencializa a própria linguagem. Na poesia, a linguagem procura, tenta falar de si mesma. Com as determinações das manifestações do real (o pensável, não o percebível). Nos versos de Elliot, o anoitecer é um «um paciente anestesiado sobre a mesa». Esta metáfora hospitalar retorna no que pergunta:

E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
- Tudo isso, e tanto mais ainda? —
Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos...

O que impede a poesia de ser totalmente ilegível chama-se «ideologia», que é a visão do mundo que há em tudo que falamos. O mundo "aparece", mesmo quando não falamos exatamente dele, já que só temos, para falar, o seu discurso (dele). Sim, «impossível exprimir exatamente o que penso! », diz, ele, Eliot, como se «uma lanterna mágica projetasse / Na tela os nervos em retalhos... »

A beleza está no que não diz, mas retém. Silencia. E nos versos de Holderlin a alma anoitece, bêbada de prazeres, dos prazeres da poesia. O sol joga malha de ouro sobre tudo e começa a cantar. O som do seu canto ecoa nas colinas. Nos bosques. Há uma pátina de sexualidade nesse cantar, bêbado de prazeres. O adolescente-poeta escuta o ouro do cantar do sol, que leva às luzes. A noite caminha próxima, há delícias no ar desse poetar. Nesse pomar, como a «Quietude», de Ungaretti, que diz, na tradução de Menotti del Picchia:

A uva está madura e campo arado,
o monte se destaca das nuvens.

Nos poentos espelhos do verão
caiu a sombra

Entre os dedos incertos
sua luz é clara
e longínqua

Foge com as andorinhas
o último desespero

A hermenêutica vê os textos como expressões da vida social fixada na escrita, através de fatos psíquicos, de encadeamentos históricos. Sua interpretação consiste, então, em decifrar o sentido oculto no aparente, em desdobrar os diversos graus de interpretação ali implicados. Só há interpretação quando houver ambigüidade, e é na interpretação que a pluralidade dos sentidos se torna manifesta. Por isso, é necessário interpretar o que diz Hans Sachs, nos «Mestres cantores»: A arte da escrita e da poesia diz a verdade do sonho. «Nos poentos espelhos do verão / caiu a sombra ». Ou «Já se desprende a magra flor», de Salvatore Quasimodo, na tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti:

Nada saberei de minha vida
escuro monótono sangue.

Não saberei quem amei, quem amo
agora que aqui contido, reduzido a meus membros,
no gasto vento de março
enumero os males dos dias desvendados.

Já se desprende a magra flor
dos galhos. E eu contemplo
a paciência de seu vôo irrevogável.

Se só podemos interpretar um mundo já previamente compreendido, esta limitação pode ser transposta pela fusão de novos horizontes. A compreensão depende de certa maneira de olhar, em que não há separação, divisão, julgamento. De um ouvir de outra qualidade a investigação depende. Temos primeiramente de investigar aquilo que nos impede de investigar corretamente. Dali aparece a investigação que pode começar a processar-se. E novos horizontes poderão, então, ser percebidos. Na «Imitação da alegria», diz Quasimodo:



Ali onde as árvores fazem
a tarde ainda mais abandonada
indolente
sumiu teu último passo,
como a flor que mal se mostra
sobre a tília e insiste em viver.

Buscas sentido para teus afetos,
encontras o silêncio em tua vida.
Outro destino me revela
o tempo refletido. Pesa-me
como a morte, a beleza que agora
noutras faces brilha.
Perdida está toda coisa inocente
mesma nesta voz, sobrevivente
a imitar a alegria.

O que o poeta diz é «vamos, tu e eu», «sigamos por certas ruas quase ermas,através dos sussurrantes refúgios», « ali onde as árvores fazem / a tarde ainda mais abandonada», «nos poentos espelhos do verão / entre os dedos incertos», vamos « tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite». Enfim, vamos buscar da poesia o poema, e mergulhar no « sentido para teus afetos», pois a beleza pesa como a morte.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

a luz do poema: as m�os#links#links

receitas de azul






O famoso verso: 'Tome um pouco de azul, se a tarde é clara', de Carlos Pena Filho, lembra que foi Rimbaud quem inventou a cor das sonoridades vogais. A cor azul fala do som 'O'. Veja a tradução de Onestaldo de Pennafort:

O, fanfarras, clarins, trons de vitória, brados,
O, silêncios azuis de anjos e sóis povoados,
O, clarão vesperal, violáceo, dos seus olhos!


São esses silêncios azuis que só os anjos sabem, os sóis povoados de luz dos seus olhos, clarão vesperal, brados.



Para ele, e não pergunte por quê, o 'O' é azul. Leia a tradução de Augusto de Campos:



O, supremo Clamor cheio de estranhos versos,
Silêncios assombrados de anjos e universos:
— Ó ! Ômega, o sol violeta dos Seus Olhos!


Com a tradução muda o poema todo.



Para fazer-se um soneto azul, se deve, pois, proceder da seguinte forma, diz o poeta Pena Filho:



Tome um pouco de azul, se a tarde é clara

e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.



Esse deus — esta musa, a inspiração, desce da 'súbita mão', de que fala Pessoa. Em 1917:



Súbita mão de algum fantasma oculto
Entre as dobras da noite e do meu sono
Sacode-me e eu acordo, e no abandono
Da noite não enxergo gesto ou vulto.



No 'Soneto do Desmantelo Azul', diz Carlos Pena Filho: 'Então, pintei de azul os meus sapatos '. Por onde ele andou?



Brinca de azul Carlos Pena Filho, no 'Soneto do Desmantelo Azul':



Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori, as minhas mãos e as tuas.



Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.



E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.



E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.



Enfim, Carlos Pena Filho dá a receita: ' Para fazer um soneto':

Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse,
antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.

O poeta amazonense Sebastião Norões é autor de um famoso soneto — 'Mar da memória' — Lá o azul vem do mar:

Eu quero é o meu mar, o mar azul.
Essa incógnita de anil que se destrança
em ânsias de infinito e me circunda
em grave tom de inquietude langue.

O mar de quando eu era, não agora.
Quando as retinas fixavam tredas
a incompreensível mole líquida e convulsa.
E o pensamento convidava longes,

delimitava imprevisíveis rumos
viagens de herói e de mancebo guapo.
Quando as distâncias fomentavam sonhos.

Rebenta em mim essa aspersão tamanha
que a imagem imatura concebeu
de quando o mar era meu, o mar azul.

Lá o azul do mar está pintado de 'ânsias de infinito', de vôo, de pensamento cujas distâncias fomentavam longes sonhos, o meu mar, o meu mar interior, o tamanho mar de quando ele era meu mar.



Para fazer-se um soneto azul deve-se esperar, fiando-se no azul do ar, da palavra inicial: 'que moldará nas nuvens no momento / de apascentá-las pela tarde pura' (Bacellar), e começar por lembrar 'que o mar era meu, o mar azul' (Norões).

A cor local deve ser a do 'sol de sua cara / e um pedaço de fundo de quintal ' (Bacellar).

Mas nunca o mar foi tão vasto quanto nesses versos azuis de le bateau ivre (Trad. Augusto de Campos):

E das manchas azulejantes dos venenos / ...... / Onde, tingindo azulidades com quebrantos / ......./ E o acordar louro e azul dos fósforos canoros! /.........../ Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes... / .................../ Líquens de sol e vômitos de azul escuro.

É de Bacellar o soneto do verão:


No livre azul o sossegado vento

lívido sonha linhas de escultura

que moldará nas nuvens no momento

de apascentá-las pela tarde pura.

Num arrepio de pressentimento

o rufo de asa risca na brancura,

o sol arranca brilhos do cimento

do muro novo, a folha cai. Madura.

Tudo o verão proclama: a tarde limpa,

esmaltada de claro; pela grimpa

do morro verde a cabra lenta vai...

A luz resvala na amplidão sonora.

Por que senti roçar-me a face agora

um beijo, um frêmito, um suspiro, um ai?



Azul é o céu, é o espaço. Azul é profundidade, a transparência, o vazio, a liberdade. No livre azul, no mar azul, um pouco de azul da tarde, perdidos de azul, vertiginosamente azul. O azul onde passa o vento.



Termino com Rimbaud:



No meu torpor, não posso, ó vagas, as esteiras
Ultrapassar das naves cheias de algodões,
Nem vencer a altivez das velas e bandeiras,
Nem navegar sob o olho torvo dos pontões.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007



olê olá


Grupo sério, interessante de ver, sindicalistas protestam na porta do Palácio, Lula sai, convidado a sair, sai, protestos aumentam, mas logo começam a gritar, em uníssono: "olê, olê, olá, Lula, Lulá", meu Deus, que gente é esta?, que felicidade é esta?, que grande novidade republicana?, a que talvez nunca mais poderemos assistir, outra vez, um certo Operário, que nunca a História se repete, um amado Presidente, amado pelo seu povo. Por enquanto? Sim, claro. Talvez, talvez, nada é eterno, a Reforma da Previdência aí vem, ou já veio, e já se foi, dependendo de quando será publicada está croniquinha. Sim, exulto, eis aí, inacreditável, passados tantos meses, tantos anos, Lula Presidente: mas súbito meu microcomputador pára, congela, ameaça e morre. Um dia de enlouquecer, aquele. Sem computador me suicido?! Telefono urgente, aflito, para Nappy, socorro meu!, minha boa amiga, que sempre me salva, horas aflitivas, e ela, que de fato aparece, me diz coisas complicadas, não compreendo, estressado, tonto, em pânico, meu computador, velhíssimo, seis longos anos de idade, pré-histórico, agora, como todo velho, sem memória, esclerosado, em crise de incompatibilidade consigo mesmo, com sua (placa)mãe, contraíra ou não um vírus, seja asiático, seja africano (porque, para nós, todos vêem daquelas regiões dos países eternamente distantes, perigosamente cheios de ozamas e saddans), ela — a Suprema Nappy — me disse, e o que diz ela — a Poderosa Nappy — eu rezo, ela é a Nossa Senhora Desatadora dos Lógicos Nós, e mui compungido, eu crente, ela minha mestra em computação, por ela que hoje sei fazer a webpage, e agora distinguir um gif animado de um arquivo html (sabe o que é "html"? — nem eu), excelsa linguagem, Indecifrável Poesia Internet, extra Internet non est sallus, Maria Poema, Poema Visual-virtual, extra Internet nemo salvatur, e fico mudo, cego e surdo, sem micro, nem Macro, fora da Comunidade Internet, como minha amiga Leila esteve pelas longas horas de uns dias, eu sem nada, ou melhor, reduzido ao Absoluto Nada do sem Senha, eu, o Deletado, na caixa de lixo do spam, sim, ponho-me a tocar um concerto histérico de Pehr Henrik Nordgren, um compositor finlandês, sim, Nordgren, como Erik Bergman, expressa violenta, claramente o que sinto, cortado, expulso, exilado, no campo nu do sem horizonte, sem conexão o que restou do que sou? — mas Nappy vai salvar-me, do suicídio talvez, retorna à casa, de onde me traz, embrulhada, emprestada, aquela sua extraordinariamente rápida máquina, oh, o que sou, quem sou eu sem o word?, o nestscape? que até mesmo o amor só hoje se tem de fazer sob a proteção antivirótica dos nortons, nos chats blogs combs, sim, preservado pelos preservativos de cafeína você acredita que exista vida fora da sala de vídeo, "dia virá / em que os amantes serão caçados a bala", escrevi, e em linux e windows só ela, a Nappy mágica, capaz de me fazer algo assim, olê, olê olá, vivá, vivá, o telefone toca, a Chris, que me diz, de São Paulo, isto e aquilo, e lhe conto a odisséia não-Maria, ó Neuza Machado, e recomendado por Chris que não compre novo micro agora, o que é Real é Virtual, que deixe para terça-feira próxima, que vem nova fase, tal astro em conjunção com qual casa, na superação de si e reconstrução da subjetividade perdida — e tudo bem ensaladado, na semana que vem estarei lá, olê olá, vamos vadiar, no Rio, no mar, vamos sambar.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

nossa senhora de burka




Ela escreveu NOSSA SENHORA DE BURKA (Coimbra: Alma Azul, 2002). Ela é Maria Azenha. Escreveu um livro de elegias que enquadram, que descrevem nosso mundo, a realidade pós-11-de-setembro. Uma edição primorosa, papel especial, pesado. Livro bonito. É um dos mais impressionantes textos sobre esta história recente, presente. Azenha mostra o rosto "coberto de sangue e de feridas". Sua primeira parte se chama "Da guerra" e trata do horror das novas guerras de nosso tempo ("este é um tempo de terror"), da nossa hipocrisia ("um tempo de máscaras"), época de partida, tema português ("os navios partiram / nunca mais regressaram"), ou seja: "hoje / ao som de guerras / os homens / esfomeados". Porque, diz Azenha: "eis como tudo entra de súbito no mundo / e um certo país é de repente um sino / tudo começou subitamente naquele segundo / igual e tão terrível à morte de tanta gente / ainda com a luz e os escombros de raiz / naquele dia terrível como a espada do vento".

Raras vezes se encontra poeta tão radicalmente engajado na Terra, para desenterrar esta palavra gasta, como noticiário do Terror, isto é, do horror da nova política de guerra que grandes e poderosas nações "desenvolvidas" da "civilização" movem agora contra povos miseráveis, mulheres veladas, religiões negadas, crenças consideradas exóticas. Perpassa ali o vento quente do deserto, naquelas 57 páginas ("pássaros mortos / um dia apodrecem").

Ela nasceu em Coimbra, licenciou-se em Coimbra, na Universidade de Coimbra, em Ciências Matemáticas. Publicou cerca de 10 livros. Foi professora nas Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa. Mas logo optou pela Arte. Hoje é professora de numa escola de ensino artístico de Lisboa. É Doutora. É Pintora.

Azenha se mostra um poeta que questiona o pensamento do mundo. Pensar o mundo, em poesia,deve ter-se porte grandioso que ela realmente tem. Dá conta, ela, transforma a tragédia histórica contemporânea em pura poesia ("américa nas tuas mãos ficou o sinal da cruz / o terrorismo entrou / e em alguns livros também").

Leia Azenha em:



http://www.geocities.com/rogelsamuel/azenha.html


Tecer melhor quem poderia aquele cenário da brutalidade mundial, da barbárie atual? "agora o pequeno barulho da guerra / é tão natural / como este poema que fiz".



eis como tudo chegou

eis o que não chega ao fim



No seu livro ouvimos o grito surdo, o agudo grito das mulheres do Afeganistão, mulheres de burca. O grito entre bombas. Nos seus versos a doutrina nova das armas, Azenha tripula, expõe a nudez da guerra contemporânea, com maestria e simplicidade, como contasse de um tempo remoto, o tempo nosso.



Em livro anterior, escreveu: AS VEIAS DO ESPAÇO



digo o voo das aves

essas veias levíssimas do espaço

as suas sílabas subitamente sentadas

em cadeiras voláteis

digo essas delicadas naves

que navegam por metáforas matemáticas



as suas figuras de números tranquilos

os seus modos de penetrar o espaço

as suas danças de átomos

os seus múltiplos resíduos

em silenciosos halos de naufrágios



digo as suas galáxias de luz e números





***



A segunda parte de NOSSA SENHORA DE BURKA se intitula: "Da morte": "guardo a minha vida em livros de poemas / poemas que vou soletrando devagar / escritos em toalhas de sangue / indefesos às chuvas matinais, / é nos livros que vou negando / o vazio das grandes ausências, / sobre a morte nada direi. / é inverno frio. estou à porta".

Dia virá em que Maria Azenha será lembrada como a grande autora da poética da alma de nossa época, porque "o meu destino é este o preço / é escrever. porque eu meço / os mistérios da morte e do mundo. / guardo a minha parca bagagem / sem poderes a minha caligrafia / de medos e de campas dentro / do sangue dos pomares / e o teu nome que escrevo / contra o tédio dos livros, mãe".

Abrindo o pórtico do corpo, do seio, ela diz: "sobre o meu corpo cresce uma rosa", que é a cicatriz no corpo da geografia do mundo em chamas e em dores.

Ou, como diz Azenha: "a europa é a minha casa / por isso posso chorar muito / estou triste muito triste / não estou triste estou triste / sinceramente não estava à espera disto / quem tem a culpa toda sou eu / fui eu quem fez esta embrulhada / em vez de ouvir a empregada dizer / temos que ser uns para os outros / devia era ter continuado a escrever / poemas de amor / poemas de amor"





poemas

poemas



poemas

que foi sempre o que escrevi



agora percebo o que é o terrorismo

agora percebo

estou triste estou muito triste



tenho o corpo podre de pax





Eis um livro raro, bom como poucos. Nos dois lados, como num disco, ou moeda: o lado A é da guerra, o lado B é da morte. Livro já consagrado. Já clássico.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

filosofar em ipanema

filosofar em ipanema





Ipanema deslumbrante nesta manhã. Início de Primavera. Vou direto, dentro de um táxi, para a livraria, onde me espera a antologia "Rios", ali lançada. Há tempos não venho a Ipanema. Nada há para fazer aqui. Nisso reside o ponto: a gratuidade. Andar, sem objetivo. Muito raro. Sempre vamos a um lugar para fazer algo, comprar um livro, almoçar, ou mesmo passear (o que também percorre o núcleo das ações visando a um fim). Encontramo-nos num limite. O afastamento da natureza, onde era exigido o exercício pleno dos sentidos, o artificialismo da vida tecnológica, uma espécie de inteligência sem alma. Nosso mundo é o mundo eletrônico dos microcomputadores, porta-vozes de uma felicidade sem alma, anestésica, onde tudo funciona sem nervo. Fomos transformados em objetos da ciência da comunicação, imanente ao todo. Nosso mundo é o da imanência, do imediatismo. A realidade não estaria na medida em que se pode transcendê-la. A transcendência pertence à categoria humana antiga, arcaica, da consciência em relação às coisas. A vacuidade do olhar que vê o vídeo revela a imanência existencial do homem não mais exercendo o seu poder de transcendência.

Ora, o objeto se define como o emprego que a tecnologia moderna faz das coisas, tornadas úteis, práticas, aperfeiçoadas, interrompendo-se a continuidade harmoniosa e natural em que se encontravam. O olhar que vê o objeto não é o mesmo olhar que vê a coisa dada na natureza, assim como o olhar que vê o vídeo não é igual ao olhar que vê a flor. Olhar a flor mostra a redenção do olhar capaz de transcendência. O vídeo fez o olhar desaprender, não mais saber decodificar a flor como apenas flor, flor sem conceito, flor de flor, dado único, irrepetível, espantoso no universo. O que caracterizava o filósofo antigo era o seu espanto, o pathos, a surpresa do fato. Olhava o mundo com surpresa. Nós olhamos um mundo velho, com olhos gastos. Não nos surpreende o olhar. A flor que é flor, agora, só a que vem pronta, cheia de semiologia, não a flor nascida na margem da estrada, única, linda, e espantosa. Espantar-se com o haver a flor é ter aptidão filosófica. O olhar já não pára na margem da estrada, para a contemplação silenciosa da flor. Pois a contemplação pertence a um passado historio, arcaico, desusado, heróico, remoto, quase pré-histórico. A contemplação não é possível, mas a tecnologia, que traduz tudo, fato matematizado. A técnica, o esquecimento do olhar. Por isso os aposentados, os "inativos", nada mais tendo a fazer, se deixam cair em depressão, adoecem e morrem, para alegria dos sistemas previdenciários.

A técnica prepara o homem para aceitar a imanência, que submete o sujeito ao jugo do objeto. Envolve-o num sistema de significados. Ensina-o a (não)-ser "feliz", ou seja, ativo. Em tempo de crise, o homem do Estado pós-científico, pós-moderno, pós-11-de-setembro, se submete sem protesto ao mundo dos objetos sem experimentar um horror a reificação. A tecnologia, como instrumentalização das coisas, se converte em instrumentalização dos homens — condição primordial do viver moderno, dizia o velho Marcuse. O homem instrumentalizado, instrumento da técnica. Sua cultura é a de massa, da TV. A sociedade fica assim desprovida de si, do seu caráter societário, assiste-se a uma anestesia da sociedade, provocada pela "racionalização", palavra que Max Weber utiliza para caracterizar a forma capitalista de atividade econômica, a forma de troca própria do sistema de comércio burguês, que aparece a partir do século XII e que se desenvolve no Renascimento ao nível do Direito Romano, imagem da organização imperialista da sociedade romana, estabelecida no Direito Privado que nasce em substituição à idéia da vida pública grega.

Na medida em que nós possamos ver o homem também como uma coisa, seu absurdo não é menor do que o das pedras, mas ele não é sempre redutível à realidade inferior que nós atribuímos as coisas. Pois o problema que se avista na reificação é o da incomunicabilidade, o absurdo de viver no mundo despovoado de sentido social, de não participar da história, de não compreender o todo, de ignorar as causas das decisões dos acontecimentos. O homem pós-pós-moderno se encontra num limite. O afastamento da natureza, onde era exigido o exercício pleno dos sentidos, o artificialismo da vida tecnológica, uma espécie de inteligência sem alma.

Hoje a dominação se acha legitimada como poder científico-militar. Há desarmonia? — Então isso é o Terrorismo. Filosoficamente falando, estamos numa fase de barbárie. Os poetas estão desaparecendo do cenário central das decisões. O fato da invasão militar aparece não só como irracionalidade do comportamento político, mas como loucura mesmo. Loucura é a incapacidade de se comunicar eficazmente com o outro. Cortando a comunicação, a loucura corta a ligação com o continente racional.

Os motivos sociais do nosso tempo estão mascarados por imperativos militares, onde se identificam técnica, dominação, racionalidade, produtividade, guerra, grupos de extermínio, narcotráfico, destruição do meio ambiente e sendo mais uma possibilidade, como disse Ernest Bloch, do que uma atualidade. "O olho, que tudo vê, não se vê" diz o aforismo de Wittgenstein. Em breve vamos ver que estamos na encruzilhada. A filosofia grega era objetiva. Descartes, no classicismo, pensou uma filosofia do sujeito: Seu Discurso sobre o método, que é um texto dedicado a orientar a razão para dentro do sujeito, o demonstra classicamente. Esse caminho chega ao idealismo alemão, pois Kant, com sua crítica da razão, e Hegel, com o desenvolvimento do pensamento negativo (o objeto é o que o sujeito não é) chegaram ao conceito de subjetividade-objetiva, fundindo dialeticamente sujeito e objeto. A história da filosofia poderia ter parado aí. Não parou. Nietzsche quebra a estabilidade. O problema do sujeito atinge, então, um nível nunca visto, pois o problema não está além, mas aquém. "O que quer aquele que diz que nada quer?". Entretanto, para as sociedades pós-modernas, o homem mesmo ainda é desconhecido. Mas será possível ainda falar de pós-modernidade depois de 11 de setembro?

E eu continuo a filosofar, andando sem destino, pelas ruas de Ipanema.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007



CONCEIÇÃO





Chamava-se Conceição.

Talvez fosse 'nome de guerra' da bela jovem, profissional do amor, no cabaré Xangri-lá. Manaus.

Ele se apaixonou.

Ao Cabaré chegava de carro. Trazia presentes caros, jóias.

O Xangri-lá era fora da rota da estrada.

Sítio deserto, secreto, no baixio da selva, longe dos olhos das famílias, mas conhecidíssimo dos jovens da época.

Ali os boleros se arrastavam, decadentes. Dalva de Oliveira, Ângela Maria, amores contrariados, tristeza, dor. Um dizia: 'Assim... se passaram dez anos...'

Dançava-se.

Mas o ambiente tinha certa classe.

Limpo, as moças quietas nos cantos, os fregueses sentados às mesas, sós ou em grupos, calmos, pediam uma XPTO, sorriam para as mulheres, todas jovens, que correspondiam, discretas.

Um ou outro se levantava, tirava dama para dançar, depois a conduzia para mesa.

Encontros íntimos, se houvesse, aconteciam fora da vista, nos fundos do prédio, para onde se ia através de cortinados sucessivos de renda, atravessando-se por um corredor misterioso, iluminado de mortiça luz vermelha.

Galeria de portas.

Tudo perfumado de cumaru, flores de papel crepom.

Para quem chegava, lugar de dança. Havia aqueles que só iam para dançar, prosear com amigos, beber uma cerveja à noite.

As moças, assim chamadas, vinham do interior.

Jovens, havia com menos de dezoito anos, na época comum e muito apreciado.

Elas pareciam felizes.

Algumas faziam as unhas, outras se distraíam com velhas revistas de moda, qualquer coisa.

Mas caladas.

Um ritual, o ambiente. Lá estavam algumas das mais respeitáveis famílias da terra, a maioria homens casados, e em Manaus a primeira pergunta era: 'De que família você é?'

Ele era jovem e solteiro.

Pois conheceu Conceição, e por ela se apaixonou, de verdade.

Paixão de jovem sempre séria, quis casar-se, ninguém deixou, ela mesma não quis, que continuassem amigos, assim.

E ela naquele bordel, mas exclusiva dele.

Todo o dinheiro que lhe dava era enviado para a família. No fim de um ano o recurso dava comprar uma casa.

Às vezes ela viajava...

Dizia que visitava a mãe velha. Dizia. Ausentava-se por uns dias.

Mas voltava sempre bela, fresca, feliz.

...........................

Um dia se foi de vez.

Desapareceu no Interior, ninguém mais a viu.

Deixou um bilhete, escrito por outrem, pois era analfabeta.

Que tinha um noivo, há muito tempo comprometida, viera para trabalhar, ganhar dinheiro antes de se casar. Agradecia por tudo, deixava um 'Deus te recompense'.

Ele enlouqueceu.

Gritou. Chorou. Adoeceu. Foi procurá-la. Mas o Amazonas é enorme.

Tempos depois, no cabaré, soube que ela estava casada e grávida.

Passaram-se cinqüenta anos.

Semana passada, vinha ele frajola e sacudido pelas lojas Amazonas Shopping quando abordado por senhora de idade.

— Lembra-se de mim?

— Não, disse ele. Não se lembrava.

Ela tirou um cartão da bolsa e deu para ele:

— Eu sou a Conceição... — e desapareceu na massa.

No dia seguinte, viu que tinha perdido o número.

Outra vez.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007


fala inicial



No primeiro verso: "Não posso / mover / meus passos", há sete sílabas, com três tônicas: PO / VER / PAS — e marcam a sucessão de tônicas e átonas, compassada sucessão dos iniciais passos do "Romanceiro da Inconfidência", de Cecília Meireles.

Mas já que o Romanceiro começa por um "não" — "não" de "não posso", ou seja, "não" de interdição, do Interdito, do Proibido, do Negado, "não" da "morte e destruição", daquela revolução que se perdeu, trágica, "que transita sobre angústias".

Quem diz, no início: "não posso", numa introdução negativa, negada, invertida, inversa — diz também "não entrarás, ó leitor", e/ou "não vou ser capaz de fazer", ó poeta. É a anti-proposição, do Romanceiro.

Não, não posso entender o que aconteceu, naquele labirinto da História, onde o Brasil é esquecido, nó cego, morto, apagado, não da memória daquela estória de amores e de ódios. Não, não compreendo eu, o que estava acontecendo, naquele vinte e um de abril, no instante de lá, a terra está confusa, no ar sinto sinos, na boca ouço "o roçar das rezas", na pele me arrepia a morte, ao ouvir a condenação, a culpa, o degredo, o Não.




Não posso mover meus passos

por êsse atroz labirinto

de esquecimento e cegueira

em que amôres e ódios vão:

— pois sinto bater os sinos,

percebo o roçar das rezas,

vejo o arrepio da morte,

à voz da condenação;




Mas vejo, e já pressinto, a masmorra, a sombra, o carcereiro que transita pisando angústias com o coração fechado, as altas madeiras do cadafalso, a morte pública, o pasmo da multidão.

O poema todo é acompanhado pela batida sincopada de um "ÃO", - ão! – ão! – ão! — que se repete, com a regularidade da marcha fúnebre, cadavérica, do bater de pesados, soturnos sinos, funerários: vão, condenação, coração, multidão, oração, proclamação etc. até o fim, com o fim mortal "eterna escuridão".



— avisto a negra masmorra

e a sombra do carcereiro

que transita sobre angústias,

com chaves no coração;

— descubro as altas madeiras

do excessivo cadafalso

e, por muros e janelas,

o pasmo da multidão.



O próximo verso é magistral: "batem patas de cavalos". Por quê digo magistral? Primeiro, pelas consoantes que batem: o "b", o "p", o "t", o "k" (de cavalos) — todas batem naqueles cinco "aa" – ba – pa – ca – va ---- de tal modo que quase é possível, com certa imaginação sonora, ouvir as patas dos cavalos batendo nas calçadas, nas pedras daquelas ruas de Vila Rica, no dia vinte e um de abril de 1789, cavalos dos soldados da morte, cavalos signos masculinos do poder de vida e morte.

Ah, aliás todo o poema é sonoro: dá para "ouvir" o bater dos sinos, o sussurrar das rezas, o tilintar das chaves, as patas dos cavalos, a voz do Brigadeiro... — aquilo fala da desgraça, das vozes daquele fatídico dia.



Batem patas de cavalos.

Suam soldados imóveis.

Na frente dos oratórios,

que vale mais a oração?

Vale a voz do Brigadeiro

sobre o povo e sobre a tropa,

louvando a augusta Rainha,

— já louca e fora do trono

na sua proclamação.




Ali, o poema cai na "cova do tempo". Lá, as "intrigas de ouro e de sonho" se confundiram sinistramente com a condenação e a morte. Ali, se misturam "quem ordena, julga e pune" com "quem é culpado e inocente". Lá, a "tinta das sentenças" e "o sangue dos enforcados" morrem no mesmo pântano lúgubre e terrível. Ali, "o castigo e o perdão" caem na mesma cova. Lá, confundem-se "liras, espadas e cruzes". E ali no mesmo vão obscuro, "as palavras, o secreto pensamento, as coroas e os machados, mentira e verdade estão". Lá os "ossos, nomes, letras, poeira...". Sim, rostos, almas, herdeiros, rastros — o mundo está no mesmo chão do esquecimento.



Ó grandes muros sem eco,

presídios de sal e treva

onde os homens padeceram

sua vasta solidão...



Você sabe o que é "muros sem eco"? Muros sem fala, nem eco? Muros dos presídios amargos e escuros? Presídios de solidão vasta e padecer?



Não choraremos o que houve,

nem os que chorar queremos:

contra rocas de ignorância

rebenta a nossa aflição.



Choramos êsse mistério,

êsse esquema sôbre-humano,

a força, o jôgo, o acidente

da indizível conjunção

que ordena vidas e mundos

em pólos inexoráveis

de ruína e de exaltação.



Ó silenciosas vertentes

por onde se precipitam

inexplicáveis torrentes,

por eterna escuridão!



No alto da praça principal de Ouro Preto há estátua de mulher que sorri, no cimo do prédio onde é hoje o Museu da Inconfidência, mas que era Cadeia: um museu da tortura (tão próprio nesse país), a Casa do Poder Repressivo, na época da Inconfidência, sim, há uma estátua, e ela representa a justiça, ela é mulher com afiada e pontiaguda faca, espada na mão, espada que aponta o espaço, lá onde se pode imaginar o vão do ventre de um ser humano, espada fina, na ameaçadora mão, da Justiça, que ri, que sorri, que perigosamente sorri, de prazer, de gozo, sorriso do mistério, nunca desvendado, sorriso das lendas mortas, das silenciosas vertentes, das falas, dos mitos, da substância inexplicável das correntes escuras da escravidão, sorriso da morte, do escuro destino, da sombra da Noite, da destruição das vidas e dos amores, de amadas, de poetas, de ouro, de diamantes, daquele esquema ultramarítimo da espoliação capitalista, da força da devassa, do santo inquérito, do cadafalso, da tortura, das masmorras de pedra, do esquartejamento, do ouro!

terça-feira, 2 de outubro de 2007


FOTOGRAFIA

Rogel Samuel

Foi num sebo novo, aonde nunca tinha ido. No Catete. Em frente aqueles
prédios da Primeira República. Em frente ao Palácio. Aquele palácio
tinha sido a casa do Barão de Nova Friburgo, que tinha fazendas de café.
Em Nova Friburgo visitei, também, sua casa. Num parque belíssimo. No
sebo encontrei uma pilha de revistas "Fotoarte". Era uma revista
dirigida por Francisco Aszmann, um dos maiores fotógrafos do mundo de
sua época. Um dos mais premiados no mundo inteiro. Ele foi meu professor
de fotografia, e muito do que eu (pouco) sei de como ver um quadro se
deve a ele. Eu comecei a buscar o que procurava: a fotografia "Bois",
que eu já conhecia, e que sabia que estava num daqueles números. Eu
conhecia detalhes da foto, e de como Aszmann a tirara. Ele contara numa
das aulas que tinha ficado horas à espera da manada que entrava numa
estreita ponte. Tirou a foto e pulou da ponte pela ribanceira de dez
metros, na Hungria. A foto ficou anos esquecida, porque o boi da direita
estava ligeiramente desfocado: um crime para os padrões estéticos
daquela época. Mas em 194....., o conceito mudou e Aszmann pode ganhar
todos o títulos com uma única foto. Um dia eu ganhei um prêmio de
fotografia. Era uma competição coletiva, na ABAF, no Rio. Eu lecionava
no subúrbio carioca e tomava o trem, pela manhã. Ia com a câmera. Eu só
andava com ela. A tiracolo. Em plena Central do Brasil comecei a
fotografar uns garotos de rua, com tele-objetiva. Um deles tinha um
tampão branco, no olho, de esparadrapo. Quando revelei a foto, a criança
aparecia angustiada, atrás de uma monstruosa coluna (que na realidade
era um vão do prédio da Central), e por trás estava, desfocado, o grande
edifício do Quartel Geral das Forças Armadas. Ameaçador. Não deu outra:
tirei o primeiro prêmio - estávamos em plena ditadura militar, e aquele
menino sujo esmagado num canto virou o maior símbolo. Minha foto fez
sucesso. Mas eu a perdi, pois era um diapositivo colorido. Aprendi com
Aszmann, o menino estava no "ponto ouro" do quadro
(o canto inferior esquerdo). O Brasil, que hoje tem Sebastião Salgado,
já teve Francisco Aszmann, o professor. Abandonei quase completamente a
fotografia, hoje. Talvez porque se tornou uma arte cara. Mas
principalmente porque já não tenho tempo nem laboratório em casa.
Fazíamos em casa as fotos em preto-e-branco. Um dia, talvez, vou partir
para a foto digital.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

COM A TUA
vox
lamento a perda
da fonte mágica de
Ós.