segunda-feira, 5 de maio de 2014

TEATRO AMAZONAS: Um romance histórico de Rogel Samuel! Quem matou Eduardo Ribeiro?

TEATRO AMAZONAS: Um romance histórico de Rogel Samuel! Quem matou Eduardo Ribeiro?

     
       

Foto retrato de Eduardo Ribeiro.
Foto retrato de Eduardo Ribeiro.
Por José Ribamar Mitoso*
(Jornalista) Lima Silva, quem matou Eduardo Ribeiro? Perguntou a seco Waldemar Scholz, o barão alemão da borracha.

Esta pergunta, formulada ainda no segundo capítulo, move todo o enredo e toda a trama do romance Teatro Amazonas, do escritor Rogel Samuel. Embora os bastidores políticos da construção deste teatro de ópera na floresta seja o mote da narrativa, é esta trama monarquista e escravocrata para matar Eduardo Ribeiro que, no fundo, mais interessa na obra.
 
Na verdade, são duas tramas que se encaixam: os bastidores da construção do Teatro Amazonas e a conspiração que assassinou Eduardo Ribeiro.
Teatro Amazonas
Quem foi o melhor governador do Amazonas no século XIX : José Paranaguá ou Eduardo Ribeiro? Qual o mais importante dos dois: o que iniciou ou o que concluiu a construção do teatro? Por que monarquistas e escravocratas queriam matar (e mataram) aquele que foi o primeiro governador de Estado e o primeiro senador negro da República brasileira? O que é história e o que é ficção na trama do romance? O assassinato do construtor da Manaus Moderna foi político ou passional? Após uma macabra trama para assassiná-lo, o jornalista Lima Silva matou Eduardo Ribeiro apenas porque o Pensador comeu a Marinalva?
 
Durante a narrativa, através do narrador e através da voz de uma autoridade pública da época, são feitos alguns comentários sobre as obras de governo dos dois governadores do Amazonas.
 
Sobre José Paranaguá: assumiu o governo do Estado em 1882, ainda como agente indicado pela monarquia, e é descrito por uma autoridade pública como o “melhor governador da história do Amazonas”. Entre outros feitos, “…por ter lançado o projeto do Teatro Amazonas … por ter criado a Biblioteca Pública e o Museu Botânico… por ter criado a infraestrutura para o ciclo da borracha … por ter apoiado os professores, as ciências, as letras e as artes …”. A lista é longa.
 
Sobre Eduardo Ribeiro: segundo o narrador, governou o Amazonas, eleito, já no período republicano, e em seu segundo mandato, que iniciou em 1893, construiu a Manaus Moderna. O narrador informa ao leitor que Eduardo Ribeiro planificou a cidade, aterrou igarapés, construiu muitos edifícios públicos, praças e monumentos, criou um moderno sistema de saneamento e de abastecimento de água, fez contenções, organizou os transportes urbanos, as linhas dos bondes, a iluminação pública … A lista também é longa.
 
Porém, não são as obras inanimadas que mais chamam a atenção no romance. Melhor que todas elas, a animação da vida social e a animação da vida individual de Marinalva é que encanta.
 
O narrador nos informa que Marinalva era, inicialmente, amante de Lima Silva e o enlouquecia. Era “cabocla, pequena, leviana, sensual … e até perto dos sessenta anos continuou uma mulher atraente e sexy … muito elegante, bem-vestida, no rigor da moda de Paris e, ao contrário das demais caboclas naquela idade, continuava em forma”. Mais ainda: (…) “Depois do terceiro uísque, (Marinalva) perdia a compostura, chegava a “fletar” com todos os homens. Marinalva “traia Lima Silva até com os trapicheiros!”
 
 
Contudo, … “junto dela, (Lima Silva) perdoava tudo. Era capaz de beijar seus pés, que, alias eram bonitos… Tinha os cabelos negros, lisos, brilhantes, a pele bronzeada, os seios pequenos. Olhos de índia, de onça, a cor variava pelo amarelo-ouro-esverdeado, cor indefinível, falsa, perigosa. Ela dizia que tinha vindo de Amatari. Não tinha documentos. Quando Lima Silva mandava fazer os documentos dela, Marinalva os perdia. Silva a cobria de presentes, roupas e jóias, dizia que queria casar-se com ela, abandonar a esposa, e de fato seria capaz de tudo para ficar com ela. Ela se ria, jurava que sim, e no dia seguinte sumia na orgia da noite, voltava bêbada e louca na manhã seguinte para aquela casa que Silva tinha alugado para ela, na Cachoeirinha. Silva ameaçava abandoná-la e deixava de vê-la. Mas quando Marinalva estava sem dinheiro aparecia no Foro, ou na Câmara, ou mesmo na porta da casa dele. Ameaçava fazer escândalo. Silva segurava o seu braço e a tirava dali, e tudo acabava na cama, ela gemendo, ele extasiado de prazer e de genuíno amor. Não, não tinha cura. Marinalva, ela dizia que se chamava assim. Mas como tudo nela era possível, ele não sabia se era verdade” .
 
Certa vez, na casa d’O Pensador, na frente de Lima Silva, (…)“Marinalva jogava todo o seu charme em cima do então ex-governador Eduardo Ribeiro. Em dado momento, encostou sua perna por baixo da mesa na dele. Ele delicadamente a afastou. Como ela repetiu alguns minutos depois, ele deixou e com a mão acariciou-a por entre as pernas, curvando-se sobre o papel que o marido dela estava atentamente lendo”.
 
“Lima Silva nada via ou fingia não ver”.
 
A partir deste ponto, o narrador começa a moldar a trama do romance de tal modo que a conspiração política para matar Eduardo Ribeiro começa a se misturas com vingança passional. A partir daí, o leitor vai ter que ser bem esperto para compreender que o plano da elite monarquista e escravocrata para assassinar um líder negro republicano e abolicionista começa a contar com fatores extras.
 
É claro que Eduardo Ribeiro comeu Marinalva e é claro que Lima Silva assassinou Eduardo Ribeiro, mas não é nada claro sobre quem armou e sobre quem estimulou Lima Silva.
 
O tempo cronológico é o final do século XIX e início do século XX.
 
O tempo social é a transição da monarquia para a República no Estado do Amazonas, unidade federada do Brasil.
 
O tempo narrativo é um jogo temporal alucinante, que embaralha passado, presente e futuro, em uma trama capaz de “baratinar” a cabeça de um leitor conservador, acostumado com a narrativa cronológica e linear do romance tradicional. A narração, em certo momento, chega no futuro, nos anos 90 do século XX. É preciso saber ler.
 
O fluxo narrativo é veloz, sintético e envolvente. Do mesmo modo que seu preciosismo morfossintático: as frases, os diálogos diretos e as descrições estão muito bem encaixados na fluidez do fluxo narrativo. São precisas, rápidas, simples e melódicas.
Verdade que nas descrições faltam árvores, plantas, pássaros, animais, sons, igarapés, rios, fatos naturais e presentes na vida social, especialmente no lazer e na moradia Amazônica de então – ou de “dantanho”, como se dizia na época.
 
Ao contrário, contudo, há descrições brilhantes de detalhes arquitetônicos, urbanos e estéticos da vida social. Estas descrições da vida urbana de Manaus, possibilitam o refinamento da percepção do leitor, que passa a entender melhor a complexa cidade de cinqüenta mil habitantes, encravada no coração da floresta Amazônica. Do colar de esmeralda art-nouveau ao decote da mulher de um barão da borracha, do detalhe rococó da mesa da varanda do Barão Waldemar ao detalhe da marca “do champanha La Grand Dame Veuve Clicquo” utilizada nas orgias. Nada escapa ao olhar treinado do narrador.
 
Contudo, de fato, é o conteúdo, especialmente o preciosismo da pesquisa histórica, e os fatos narrados, o que mais fascina neste romance ou, pelo menos, que mais fascinou este leitor modesto e desavisado.
Assim como a curiosidade sobre a vida de Marinalva!
*(José Ribamar Mitoso é: Escritor, Dramaturgo e Professor da UFAM)

A completa realização de P'ang Yün

A completa realização de P'ang Yün

Rogel Samuel


Primeiramente o texto tece o tempo. Não existe. O passado não existe, é passado. Não tente lembrar o passado. Deixo-o onde está. Onde (não) está.
O presente não é tangível. Passa rápido. Ao tocá-lo já é outro, já não é.
Quanto ao futuro... que futuro? Qual futuro? Ainda nada sabemos dele. Não é pensável, antes.
Não tente julgar, não avalie as coisas que vierem aos olhos: não existe ordem a ser mantida nem sujeira a ser limpa.
O dharma não tem vida (nem não vida).
A realização está completa.
Assim é o poema:

“A realização última

P'ang Yün


O passado já é passado
Não tente recuperar.

O presente não fica
Não tente tocá-lo.

Momento a momento
O futuro não veio
Não pense nisto
Antes.

Tudo que vem ao olho,
Deixe que seja
Não há nenhuma ordem
A ser mantida,
Não há nenhuma sujeira
A ser limpa.

Com a mente realmente vazia
Penetrado, o dharma
Não tem nenhuma vida.

Quando puder estar assim,
Você completou
A realização última.

P'ang Yün”.

domingo, 4 de maio de 2014

REFLEXÕES SOBRE AS SONATAS ETC

REFLEXÕES SOBRE AS SONATAS ETC
 
ROGEL SAMUEL
 
Quase não são obras separadas, individualizadas. As 32 Sonatas de piano de Beethoven parecem ter uma sequencia, uma estrutura só, como se fossem a continuação de uma só obra.
Eu as ouço há tantos anos, e somente agora começo a compreendê-las.
Para mim, o melhor intérprete é Arthur Schnabel.
Meu pai tocava uma delas, e eu tinha uma fita cassete em que ele tocava a 14ª. Depois de sua morte não mais tive coragem de ouvi-la (pois era possível também ouvir sua voz e era como se ele saísse do túmulo). A gravação se perdeu.
Lembro-me de que o meu amigo Nathanael Caixeiro ouviu a gravação, e teceu comentários pianísticos sobre a execução, disse que era uma interpretação e uma técnica antiga, desusada nos nossos dias.
Nathanael já é falecido, era um excelente músico, tocava em orquestra, violinista, tinha uma coleção de violinos em casa, apesar de pobre, professor do Estado (onde o conheci), professor da Gama Filho (de Idéias Contemporâneas), poliglota e tradutor. Traduziu muitos livros da Zahar, da Vozes etc.
Nathanael também era pintor excelente, onde assinava “Petit Grand”, em referência à sua pequena altura.
Foi um dos meus grandes amigos.
Devo a ele a publicação do meu “Manual de teoria literária”, pois foi ele quem levou os originais para a Editora Vozes, insistiu que o publicassem, e assim foi. Tivemos 14 edições.
E hoje estamos na 6ª do “Novo Manual de teoria literária”. Natha ficaria feliz, com isso.
Eu tocava piano aos 5 anos de idade. Mas não gostava. Abandonei. Meu pai me ensinava.
Ele aos 5 fazia parte do coro infantil de sua escola, em Strasburg.
Um dia, começaram a ensaiar exaustivamente um Hino, até que chegou o dia e a professora disse: “quando o Maestro fizer assim pra vocês, vocês ataquem o Hino...”
Meu Deus, era a Nona Sinfonia de Beethoven!

sexta-feira, 2 de maio de 2014

JOSÉ RIBAMAR MITOSO SOBRE O "TEATRO AMAZONAS"

Mestre Rogel, este é o melhor romance da história da Amazônia, na modesta opinião deste dramaturgo-contista. O Correio da Amazônia é o jornal eletrônico dos trabalhadores e das centrais sindicais. Os trabalhadores merecem ler este romance. E vossa excelência ser lido por eles. Um beijo e obrigado por ter enviado este presente para mim!

TEATRO AMAZONAS: MINHA MODESTA LEITURA DO ROMANCE HISTÓRICO DE ROGEL SAMUEL !
( QUEM MATOU EDUARDO RIBEIRO? )
Domingo
www.correiodaamazonia.com.br

-(Jornalista) Lima Silva, quem matou Eduardo Ribeiro? Perguntou a seco Waldemar Scholz, o barão alemão da borracha.
Esta pergunta, formulada ainda no segundo capítulo, move todo o enredo e toda a trama do romance Teatro Amazonas, do escritor Rogel Samuel. Embora os bastidores políticos da construção deste teatro de ópera na floresta seja o mote da narrativa, é esta trama monarquista e escravocrata para matar Eduardo Ribeiro que, no fundo, mais interessa na obra.
Na verdade, são duas tramas que se encaixam: os bastidores da construção do Teatro Amazonas e a conspiração que assassinou Eduardo Ribeiro.
Quem foi o melhor governador do Amazonas no século XIX : José Paranaguá ou Eduardo Ribeiro? Qual o mais importante dos dois: o que iniciou ou o que concluiu a construção do teatro? Por que monarquistas e escravocratas queriam matar (e mataram) aquele que foi o primeiro governador de Estado e o primeiro senador negro da República brasileira? O que é história e o que é ficção na trama do romance? O assassinato do construtor da Manaus Moderna foi político ou passional? Após uma macabra trama para assassiná-lo, o jornalista Lima Silva matou Eduardo Ribeiro apenas porque o Pensador comeu a Marinalva?
Durante a narrativa, através do narrador e através da voz de uma autoridade pública da época, são feitos alguns comentários sobre as obras de governo dos dois governadores do Amazonas.
Sobre José Paranaguá: assumiu o governo do Estado em 1882, ainda como agente indicado pela monarquia, e é descrito por uma autoridade pública como o “melhor governador da história do Amazonas”. Entre outros feitos, “...por ter lançado o projeto do Teatro Amazonas ... por ter criado a Biblioteca Pública e o Museu Botânico... por ter criado a infraestrutura para o ciclo da borracha ... por ter apoiado os professores, as ciências, as letras e as artes ...”. A lista é longa.
Sobre Eduardo Ribeiro: segundo o narrador, governou o Amazonas, eleito, já no período republicano, e em seu segundo mandato, que iniciou em 1893, construiu a Manaus Moderna. O narrador informa ao leitor que Eduardo Ribeiro planificou a cidade, aterrou igarapés, construiu muitos edifícios públicos, praças e monumentos, criou um moderno sistema de saneamento e de abastecimento de água, fez contenções, organizou os transportes urbanos, as linhas dos bondes, a iluminação pública ... A lista também é longa.
Porém, não são as obras inanimadas que mais chamam a atenção no romance. Melhor que todas elas, a animação da vida social e a animação da vida individual de Marinalva é que encanta.
O narrador nos informa que Marinalva era, inicialmente, amante de Lima Silva e o enlouquecia. Era “cabocla, pequena, leviana, sensual ... e até perto dos sessenta anos continuou uma mulher atraente e sexy ... muito elegante, bem-vestida, no rigor da moda de Paris e, ao contrário das demais caboclas naquela idade, continuava em forma”. Mais ainda: (...) “Depois do terceiro uísque, (Marinalva) perdia a compostura, chegava a “flertar” com todos os homens. Marinalva traia Lima Silva até com os trapicheiros!”
Contudo, ... “junto dela, (Lima Silva) perdoava tudo. Era capaz de beijar seus pés, que, alias eram bonitos... Tinha os cabelos negros, lisos, brilhantes, a pele bronzeada, os seios pequenos. Olhos de índia, de onça, a cor variava pelo amarelo-ouro-esverdeado, cor indefinível, falsa, perigosa. Ela dizia que tinha vindo de Amatari. Não tinha documentos. Quando Lima Silva mandava fazer os documentos dela, Marinalva os perdia. Silva a cobria de presentes, roupas e jóias, dizia que queria casar-se com ela, abandonar a esposa, e de fato seria capaz de tudo para ficar com ela. Ela se ria, jurava que sim, e no dia seguinte sumia na orgia da noite, voltava bêbada e louca na manhã seguinte para aquela casa que Silva tinha alugado para ela, na Cachoeirinha. Silva ameaçava abandoná-la e deixava de vê-la. Mas quando Marinalva estava sem dinheiro aparecia no Foro, ou na Câmara, ou mesmo na porta da casa dele. Ameaçava fazer escândalo. Silva segurava o seu braço e a tirava dali, e tudo acabava na cama, ela gemendo, ele extasiado de prazer e de genuíno amor. Não, não tinha cura. Marinalva, ela dizia que se chamava assim. Mas como tudo nela era possível, ele não sabia se era verdade” .
Certa vez, na casa d’O Pensador, na frente de Lima Silva, (...) “Marinalva jogava todo o seu charme em cima do então ex-governador Eduardo Ribeiro. Em dado momento, encostou sua perna por baixo da mesa na dele. Ele delicadamente a afastou. Como ela repetiu alguns minutos depois, ele deixou e com a mão acariciou-a por entre as pernas, curvando-se sobre o papel que o marido dela estava atentamente lendo”.
“Lima Silva nada via ou fingia não ver”.
A partir deste ponto, o narrador começa a moldar a trama do romance de tal modo que a conspiração política para matar Eduardo Ribeiro começa a se misturas com vingança passional. A partir daí, o leitor vai ter que ser bem esperto para compreender que o plano da elite monarquista e escravocrata para assassinar um líder negro republicano e abolicionista começa a contar com fatores extras.
É claro que Eduardo Ribeiro comeu Marinalva e é claro que Lima Silva assassinou Eduardo Ribeiro, mas não é nada claro sobre quem armou e sobre quem estimulou Lima Silva.
O tempo cronológico é o final do século XIX e início do século XX.
O tempo social é a transição da monarquia para a República no Estado do Amazonas, unidade federada do Brasil.
O tempo narrativo é um jogo temporal alucinante, que embaralha passado, presente e futuro, em uma trama capaz de “baratinar” a cabeça de um leitor conservador, acostumado com a narrativa cronológica e linear do romance tradicional. A narração, em certo momento, chega no futuro, nos anos 90 do século XX. É preciso saber ler.
.O fluxo narrativo é veloz, sintético e envolvente. Do mesmo modo que seu preciosismo morfossintático: as frases, os diálogos diretos e as descrições estão muito bem encaixados na fluidez do fluxo narrativo. São precisas, rápidas, simples e melódicas.
Verdade que nas descrições faltam árvores, plantas, pássaros, animais, sons, igarapés, rios, fatos naturais e presentes na vida social, especialmente no lazer e na moradia Amazônica de então - ou de “dantanho”, como se dizia na época.
Ao contrário, contudo, há descrições brilhantes de detalhes arquitetônicos, urbanos e estéticos da vida social. Estas descrições da vida urbana de Manaus, possibilitam o refinamento da percepção do leitor, que passa a entender melhor a complexa cidade de cinqüenta mil habitantes, encravada no coração da floresta Amazônica. Do colar de esmeralda art-nouveau ao decote da mulher de um barão da borracha, do detalhe rococó da mesa da varanda do Barão Waldemar ao detalhe da marca “do champanha La Grand Dame Veuve Clicquo” utilizada nas orgias. Nada escapa ao olhar treinado do narrador.
Contudo, de fato, é o conteúdo, especialmente o preciosismo da pesquisa histórica, e os fatos narrados, o que mais fascina neste romance ou, pelo menos, que mais fascinou este leitor modesto e desavisado.
Assim como a curiosidade sobre a vida de Marinalva!

O dia em que saí no Ibrahim Sued

O dia em que saí no Ibrahim Sued



O dia em que saí no Ibrahim Sued

Rogel Samuel

Era a sexta-feira do dia 17 de maio de 1985 e no sábado eu estaria na Radio MEC no programa da minha amiga Nísia Nóbrega, já falecida, falando sobre Guimarães Rosa. Nísia Nóbrega era uma boa poetisa e amiga, mulher elegante, dona de um belo apartamento na Glória, onde recebia os amigos para conversar... sobre poesia. Foi lá que conheci Guillermo Francovich, o grande filósofo boliviano.
Não era a primeira vez que eu participava do seu programa. Pelo telefone, Nísia me falou:
- Vou anunciar nossa entrevista n’O Globo, disse-me ela.
Qual não foi minha surpresa quando li no dia seguinte a coluna do Ibrahim: pois Nísia era amiga da Vilma Guimarães Rosa que tinha acesso livre à coluna e foi lá que anunciou.
Não preciso dizer que todo mundo leu. Só não sei se ouviu o nosso programa.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

OS LIMITES DA LUZ DE MAIO

OS LIMITES DA LUZ DE MAIO
 
Rogel Samuel

 
Mas você conhece a luz dos dias de maio? Já viu o céu e aquela luz filtrada em transparência luminosa, aquela luz azul, radiantemente azul, de um azul tão alto, tão nobre, tão vasto? Sabe de que é feito aquela imensa luz do universo em festa? Sabe de como tudo se transmuda em cristais de límpido brilho dos pequenos córregos que caem das altas montanhas como crianças bailarinas e jóias lantejoulas? E sobre as cidades como sobre os campos a luz de maio deita seu limo de íris e de poesia irisada. Já ouviu a música da luz de maio? A "rosa de maio", os lúcidos arpejos dessa temporada em que amamos e em que nosso espírito dança? Pois merecemos viver o mês de maio e suas fragrâncias, nos sagrados bosques de nossas florestas interiores e nos recolhimentos de nossos sonhos renovados...
       A visão do mar me lembra uns versos de Valery:
 
"Que lavor puro de brilhos consome
"Tanto diamante de indistinta espuma 
"E quanta paz parece conceber-se!
"Quando repousa sobre o abismo um sol, 
"Límpidas obras de uma eterna causa
"Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria.
 
       Valery escreveu esses versos no longo poema "Cemitério marinho", tão difícil de compreender, mas tão fácil de amar, de sentir. Mas creio que a "função" do poema é esta: a de ser sentido.
       Terá a poesia alguma "função"? Precisa o poema ter certa compreensão intelectual?
      
"Esse teto tranqüilo, onde andam pombas,
"Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
"O meio-dia justo nele incende
"O mar, o mar recomeçando sempre.
"Oh, recompensa, após um pensamento,
"um longo olhar sobre a calma dos deuses!"
 
       A tradução é de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia, que conheci na FNFi nos dias de estudante.
Olhar o mar é isso: ver a calma dos deuses, nas faiscações de pasta de prata. O mar acende seus pandeiros de prata, sua luz miraculosa azul.
 
"Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
"O sopro imenso abre e fecha meu livro,
"A vaga em pó saltar ousa das rochas!
"Voai páginas claras, deslumbradas!
"Rompei vagas, rompei contentes o 
"Teto tranqüilo, onde bicavam velas!"
...............
        
'Tesouro estável, templo de Minerva,
"Massa de calma e nítida reserva,
"Água franzida, Olho que em ti escondes 
"Tanto de sono sob um véu de chama,
"- Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
"Cume dourado de mil, telhas, Teto!"
 
 
 
             Que a última estrofe de «O cemitério marinho» de Paul Valéry assim canta:
 
«Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o 
Teto tranqüilo, onde bicavam velas! »
 
             Uso a extraordinária tradução de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia.
             O poema enorme,  difícil.
             Desde que o li, pela primeira vez, há mais de quarenta anos, tento penetrar no mar de seu sentido. Às vezes, parece entender-se. Outras vezes, inatravessável é o seu mar. Mas sempre o sinto, o que importa. O que importa é sentir um poema. Não «interpretá-lo». Os intelectuais matam o poema, intelectualizam-no. Por isso Barthes foi tão bom crítico. Barthes fazia o texto falar, deixava-o falar-se.
            
«Esse teto tranqüilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
um longo olhar sobre a calma dos deuses! »
 
             Seja como for, Valéry nos abre à imaginação o grande oceano da morte. Mas «recomeçando sempre». Sempre, «sobre a calma dos deuses».
             Sei que não é algo para ser lido assim, mas que tema mais religioso do que a morte neste túmulo do oceano de «tanto diamante de indistinta espuma  », onde «quanta paz parece conceber-se!».
 
«Quando repousa sobre o abismo um sol, 
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria. »
 
 
             O poema tem ímpetos de infinito, abre-se para a eternidade, «massa de calma e nítida reserva»:
 
«Água franzida, Olho que em ti escondes 
Tanto de sono sob um véu de chama,
-Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, Teto!»
 
       Valery disse que seu poema é sua «poesia verdadeira», mesmo as passagens mais abstratas. Disse que via ali uma espécie de «lirismo» , algo «abstrato mas de uma abstração motriz mais que filosófica».
 
 
Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.
 
Diz da vida, do amor, da ordem e desordem da vida e do amor, do mar e do sol, das colinas das ondas, da chave do mistério do «mar de nossa conversa», como dizia Cabral:
 
 
Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.
 
       É uma reflexão sobre o tempo:
 
 
Belo céu, vero céu, vê como eu mudo!
Depois de tanto orgulho e tanta estranha
Ociosidade - cheia de poder -
Eu me abandono a esse brilhante espaço,
Por sobre as tumbas minha sombra passa
E a seu frágil mover-se me habitua.
 
 
       É uma reflexão sobre os movimentos das ondas da vida:
 
A alma expondo-se às tochas do solstício,
Eu te afronto, magnífica justiça
Da luz, da luz armada sem piedade!
E te devolvo pura à tua origem:
Contempla-te!... Mas devolver a luz
Supõe de sombra outra metade morna.
 
       O poema foi publicado no número de junho de «La Nouvelle Revue française», mas ele deve ter trabalhado no poema desde muito tempo.
 
 
Oh, para mim, somente a mim, em mim,
Junto ao peito, nas fontes do poema,
Entre o vazio e o puro acontecer,
De minha interna grandeza o eco espero,
Sombria, amarga e sonora cisterna
- Côncavo som, futuro, sempre, na alma.
 
 
Aqui vindo, o futuro é indolência.
Nítido inseto escarva a sequidão;
Tudo queimado está desfeito e no ar
Se perde em não sei que severa essência,
Faz-se a amargura doce e claro o espírito.
 
 
 
Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o 
Teto tranqüilo, onde bicavam velas! 
 
É esta tradução de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia.
 
 
 

O Processo de Trabalho ou o Processo de Produção de Valores de Uso



O Capital
O Processo de Trabalho ou o Processo de Produção de Valores de Uso
A UTILIZAÇÃO  da força de trabalho é o próprio trabalho. O comprador da força de trabalho consome-a, fazendo o vendedor dela trabalhar. Este, ao trabalhar, torna-se realmente no que antes era apenas potencialmente: força de trabalho em acção, trabalhador. Para o trabalho reaparecer em mercadorias, tem de ser empregado em valores-de-uso, em coisas que sirvam para satisfazer necessidades de qualquer natureza. O que o capitalista determina ao trabalhador produzir é, portanto um valor-de-uso particular, um artigo especificado. A produção de valores-de-uso muda sua natureza geral por ser levada a cabo em benefício do capitalista ou estar sob seu controle. Por isso, temos inicialmente de considerar o processo de trabalho à parte de qualquer estrutura social determinada.
Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza. Desenvolve as potencialidades nela adormecidas e submete ao seu domínio o jogo das forças naturais. Não se trata aqui das formas instintivas, animais, de trabalho. Quando o trabalhador chega ao mercado para vender sua força de trabalho, é imensa a distância histórica que medeia entre sua condição e a do homem primitivo com sua forma ainda instintiva de trabalho. Pressupomos o trabalho sob forma exclusivamente humana. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colméia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto que tinha conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem de subordinar sua vontade. E essa subordinação não é um ato fortuito. Além do esforço dos órgãos que trabalham, é mister a vontade adequada que se manifesta através da atenção durante todo o curso do trabalho. E isto é tanto mais necessário quanto menos se sinta o trabalhador atraído pelo conteúdo e pelo método de execução de sua tarefa, que lhe oferece por isso menos possibilidade de fruir da aplicação das suas próprias forças físicas e espirituais.
Os elementos componentes do processo de trabalho são:
1) a atividade adequada a um fim, isto é o próprio  trabalho;
2) a matéria a que se aplica o trabalho, o objeto de trabalho;
3) os meios de trabalho, o instrumental de trabalho.
A terra (do ponto de vista económico, compreende a água) que, ao surgir o homem, o provê com meios de subsistência prontos para utilização imediata, (1) existe independentemente da acção dele, sendo o objecto universal do trabalho humano. Todas as coisas que o trabalho apenas separa de sua conexão imediata com seu meio natural constituem objectos de trabalho, fornecidos pela natureza. Assim, os peixes que se pescam, que são tirados do seu elemento, a água, a madeira derrubada na floresta virgem, o minério arrancado dos filões. Se o objecto de trabalho é, por assim dizer, filtrado através de trabalho anterior, chamamo-lo de matéria-prima. Por exemplo, o minério extraído depois de ser lavado. Toda matéria-prima é objecto de trabalho, mas nem todo objecto de trabalho é matéria-prima. O objecto de trabalho só é matéria-prima depois de ter experimentado modificação efectuada pelo trabalho.
O meio de trabalho é uma coisa ou um complexo de coisas, que o trabalhador insere entre si mesmo e o objeto de trabalho e lhe serve para dirigir sua atividade sobre esse objeto. Ele utiliza as propriedades mecânicas, físicas, químicas das coisas, para fazê-las atuarem como forças sobre outras coisas, de acordo com o fim que tem em mira. (2) A coisa de que o trabalhador se apossa imediatamente, - excetuados meios de subsistência colhidos já prontos, como frutas, quando seus próprios membros servem de meio de trabalho, - não é o objeto de trabalho, mas o meio de trabalho. Desse modo, faz de uma coisa da natureza órgão de sua própria atividade, um órgão que acrescenta a seus próprios órgãos corporais, aumentando seu próprio corpo natural, apesar da Bíblia. A terra, seu celeiro primitivo, é também seu arsenal primitivo de meios de trabalho. Fornece-lhe, por exemplo, a pedra que lança e lhe serve para moer, prensar, cortar etc. A própria terra é um meio de trabalho, mas, para servir como tal na agricultura, pressupõe toda uma série de outros meios de trabalho e um desenvolvimento relativamente elevado da força de trabalho. (3) O processo de trabalho, ao atingir certo nível de desenvolvimento, exige meios de trabalho já elaborados. Nas cavernas mais antigas habitadas pelos homens, encontramos instrumentos e armas de pedra. No começo da história humana, desempenham a principal função de meios de trabalho os animais domesticados, (4) amansados e modificados pelo trabalho, ao lado de pedras, madeira, ossos e conchas trabalhados. O uso e a fabricação de meios de trabalho, embora em germe em certas espécies animais, caracterizam o processo especificamente humano de trabalho e Franklin define o homem como"a toolmaking animal", um animal que faz instrumentos de trabalho. Restos de antigos instrumentos de trabalho têm, para a avaliação de formações econômico-sociais extintas, a mesma importância que a estrutura dos ossos fósseis para o conhecimento de espécies animais desaparecidas. O que distingue as diferentes épocas econômicas não é o que se faz, mas como, com que meios de trabalho se faz. (5) Os meios de trabalho servem para medir o desenvolvimento da força humana de trabalho e, além disso, indicam as condições sociais em que se realiza o trabalho. Os meios mecânicos, que em seu conjunto podem ser chamados de sistema ósseo e muscular da produção, ilustram muito mais as características marcantes de uma época social de produção, que os meios que apenas servem de recipientes da matéria objeto de trabalho e que, em seu conjunto, podem ser denominados de sistema vascular da produção, como, por exemplo, tubos, barris, cestos, cântaros etc. Estes só começam a desempenhar papel importante na produção química. (5a)
Além das coisas que permitem ao trabalho aplicar-se a seu objeto e servem de qualquer modo para conduzir a atividade, consideramos meios de trabalho em sentido lato todas as condições materiais seja como forem necessárias à realização do processo de trabalho. Elas não participam diretamente do processo, mas este fica sem elas total ou parcialmente impossibilitado de concretizar-se. Nesse sentido, a terra é ainda um meio universal de trabalho, pois fornece o local ao trabalhador e proporciona ao processo que ele desenvolve o campo de operação (field of employment). Pertencem a essa classe meios resultantes de trabalho anterior, tais como edifícios de fábricas, canais, estradas etc.
No processo de trabalho, a atividade do homem opera uma transformação, subordinada a um determinado fim, no objeto sobre que atua por meio do instrumental de trabalho. O processo extingue-se ao concluir-se o produto. O produto é um valor-de-uso, um material da natureza adaptado às necessidades humanas através da mudança de forma. O trabalho está incorporado ao objeto sobre que atuou. Concretizou-se e a matéria está trabalhada. O que se manifestava em movimento, do lado do trabalhador, se revela agora qualidade fixa, na forma de ser, do lado do produto. Ele teceu e o produto é um tecido.
Observando-se todo o processo do ponto de vista do resultado, do produto, evidencia-se que meio e objeto de trabalho são meios de produção (6) e o trabalho é trabalho produtivo. (7)
Quando um valor-de-uso sai do processo de trabalho como produto, participaram da sua feitura, como meios de produção, outros valores-de-uso, produtos de anteriores processos de trabalho. Valor-de-uso que é produto de um trabalho torna-se assim meio de produção de outro. Os produtos destinados a servir de meio de produção não são apenas resultado, mas também condição do processo de trabalho.
Excetuadas as indústrias extrativas, cujo objeto de trabalho é fornecido pela natureza (mineração, caça, pesca etc; a agricultura se compreende nessa categoria apenas quando desbrava terras virgens), todos os ramos industriais têm por objeto de trabalho a matéria-prima, isto é, um objeto já filtrado pelo trabalho, um produto do próprio trabalho. É o caso da semente na agricultura. Animais e plantas que costumamos considerar produtos da natureza são possivelmente não só produtos do trabalho do ano anterior, mas, em sua forma atual, produtos de uma transformação continuada, através de muitas gerações, realizada sob controle do homem e pelo seu trabalho. No tocante aos meios de trabalho, a observação mais superficial descobre, na grande maioria deles, os vestígios do trabalho de épocas passadas.
A matéria-prima pode ser a substância principal de um produto, ou contribuir para sua constituição como material acessório. O meio de trabalho consome o material acessório: assim, a máquina a vapor, o carvão; a roda, o óleo; o cavalo de tração, o feno. Ou o material acessório é adicionado à matéria-prima, para modificá-la materialmente: o cloro ao pano cru, o carvão ao ferro, a anilina à lá; ou facilita a execução do próprio trabalho: os materiais, por exemplo, utilizados para iluminar e aquecer o local de trabalho. A diferença entre substância principal e acessória desaparece na fabricação em que se processe uma transformação química, pois nesse caso nenhuma das matérias-primas empregadas reaparece como a substância do produto. (8)
Tendo cada coisa muitas propriedades e servindo em conseqüência a diferentes aplicações úteis, pode o mesmo produto constituir matéria-prima de processos de trabalho muito diversos. O centeio, por exemplo, é matéria-prima do moleiro, do fabricante de amido, do destilador de aguardente, do criador de gado etc. Como semente, é matéria-prima de sua própria produção. O carvão é produto da indústria de mineração e, ao mesmo tempo, meio de produção dela.
O mesmo produto pode no processo de trabalho servir de meio de trabalho e de matéria-prima. Na engorda de gado, por exemplo, o boi é matéria-prima a ser elaborada e ao mesmo tempo instrumento de produção de adubo.
Um produto que existe em forma final para consumo pode tornar-se matéria-prima. A uva, por exemplo, serve de matéria-prima para o vinho. Ou o trabalho dá ao produto formas que só permitem sua utilização como matéria-prima. Nesse caso, chama-se a matéria-prima de semiproduto, ou, melhor, de produto intermediário, como algodão, fios, linhas etc. Embora já seja produto, a matéria-prima original tem de percorrer toda uma série de diferentes processos, funcionando em cada um deles com nova forma, como matéria-prima, até atingir o último processo, que faz dela produto acabado, pronto para consumo ou para ser utilizado como meio de trabalho.
Como se vê, um valor-de-uso pode ser considerado matéria-prima, meio de trabalho ou produto, dependendo inteiramente da sua função no processo de trabalho, da posição que nele ocupa, variando com essa posição a natureza do valor-de-uso.
Ao servirem de meios de produção em novos processos de trabalho perdem os produtos o caráter de produto. Funcionam apenas como fatores materiais desses processos. O fiandeiro vê no fuso apenas o meio de trabalho, e na fibra de linho apenas a matéria que fia, objeto de trabalho. Por certo, é impossível a fiação sem material para fiar e sem fuso. Pressupõe-se a existência desses produtos para que tenha início a fiação. Mas, dentro desse processo ninguém se preocupa com o fato de a fibra de linho e o fuso serem produtos de trabalho anterior, do mesmo modo que é indiferente ao processo digestivo que o pão seja produto dos trabalhos anteriores do triticultor, do moleiro, do padeiro etc. Ao contrário, é através dos defeitos que os meios de produção utilizados no processo de trabalho fazem valer sua condição de produtos de trabalho anterior. Uma faca que não corta, o fio que se quebra etc. lembram logo o cuteleiro A e o fiandeiro B. No produto normal desaparece o trabalho anterior que lhe imprimiu as qualidades úteis.
Uma máquina que não serve ao processo de trabalho é inútil. Além disso, deteriora-se sob a poderosa ação destruidora das forças naturais. O ferro enferruja, a madeira apodrece. O fio que não se emprega na produção de tecido ou de malha, é algodão que se perde. O trabalho vivo tem de apoderar-se dessas coisas, de arrancá-las de sua inércia, de transformá-las de valores-de-uso possíveis em valores-de-uso reais e efetivos. O trabalho, com sua chama, delas se apropria, como se fossem partes do seu organismo, e de acordo com a finalidade que o move lhes empresta vida para cumprirem suas funções; elas são consumidas, mas com um propósito que as torna elementos constitutivos de novos valores-de-uso, de novos produtos que podem servir ao consumo individual como meios de subsistência ou a novo processo de trabalho como meios de produção.
Os produtos de trabalho anterior que, além de resultado, constituem condições de existência do processo de trabalho, só se mantêm e se realizam como valores-de-uso através de sua participação nesse processo, de seu contacto com o trabalho vivo.
O trabalho gasta seus elementos materiais, seu objeto e seus meios, consome-os, é um processo de consumo. Trata-se de consumo produtivo que se distingue do consumo individual: este gasta os produtos como meios de vida do indivíduo, enquanto aquele os consome como meios através dos quais funciona a força de trabalho posta em ação pelo indivíduo. O produto do consumo individual é, portanto, o próprio consumidor, e o resultado do consumo produtivo um produto distinto do consumidor.
Quando seus meios (instrumental) e seu objeto (matérias-primas etc.) já são produtos, o trabalho consome produtos para criar produtos, ou utiliza-se de produtos como meios de produção de produtos. Mas, primitivamente, o processo de trabalho ocorria entre o homem e a terra tal como existia sem sua intervenção, e hoje continuam a lhe servir de meios de produção coisas diretamente fornecidas pela natureza, as quais não representam, portanto, nenhuma combinação entre substâncias naturais e trabalho humano.
O processo de trabalho, que descrevemos em seus elementos simples e abstratos, é atividade dirigida com o fim de criar valores-de-uso, de apropriar os elementos naturais às necessidades humanas; é condição necessária do intercâmbio material entre o homem e a natureza; é condição natural eterna da vida humana, sem depender, portanto, de qualquer forma dessa vida, sendo antes comum a todas as suas formas sociais. Não foi por isso necessário tratar do trabalhador em sua relação com outros trabalhadores. Bastaram o homem e seu trabalho, de um lado, a natureza e seus elementos materiais, do outro. O gosto do pão não revela quem plantou o trigo, e o processo examinado nada nos diz sobre as condições em que ele se realiza, se sob o látego do feitor de escravos ou sob o olhar ansioso do capitalista, ou se o executa Cincinato lavrando algumas jeiras de terra ou o selvagem ao abater um animal bravio com uma pedra. (9)
Voltemos ao nosso capitalista em embrião. Deixamo-lo depois de ter ele comprado no mercado todos os elementos necessários ao processo de trabalho, os materiais ou meios de produção e o pessoal, a força de trabalho. Com sua experiência e sagacidade, escolheu os meios de produção e as forças de trabalho adequados a seu ramo especial de negócios, fiação, fabricação de calçados etc. Nosso capitalista põe-se então a consumir a mercadoria, a força de trabalho que adquiriu, fazendo o detentor dela, o trabalhador, consumir os meios de produção com o seu trabalho. Evidentemente, não muda a natureza geral do processo de trabalho executá-lo o trabalhador para o capitalista e não para si mesmo. De início, a intervenção do capitalista também não muda o método de fazer calçados ou de fiar. No começo tem de adquirir a força de trabalho como a encontra no mercado, de satisfazer-se com o trabalho da espécie que existia antes de aparecerem os capitalistas. Só mais tarde pode ocorrer a transformação dos métodos de produção em virtude da subordinação do trabalho ao capital e, por isso, só trataremos dela mais adiante:
O processo de trabalho, quando ocorre como processo de consumo da força de trabalho pelo capitalista, apresenta dois fenômenos característicos.
O trabalhador trabalha sob o controle do capitalista, a quem pertence seu trabalho. O capitalista cuida em que o trabalho se realize de maneira apropriada e em que se apliquem adequadamente os meios de produção, não se desperdiçando matéria-prima e poupando-se o instrumental de trabalho, de modo que só se gaste deles o que for imprescindível à execução do trabalho.
Além disso, o produto é propriedade do capitalista, não do produtor imediato, o trabalhador. O capitalista paga, por exemplo, o valor diário da força de trabalho. Sua utilização, como a de qualquer outra mercadoria, por exemplo, a de um cavalo que alugou por um dia, pertence-lhe durante o dia. Ao comprador pertence o uso da mercadoria, e o possuidor da força de trabalho apenas cede realmente o valor-de-uso que vendeu, ao ceder seu trabalho. Ao penetrar o trabalhador na oficina do capitalista, pertence a este o valor-de-uso de sua força de trabalho, sua utilização, o trabalho. O capitalista compra a força de trabalho e incorpora o trabalho, fermento vivo, aos elementos mortos constitutivos do produto, os quais também lhe pertencem. Do seu ponto de vista, o processo de trabalho é apenas o consumo da mercadoria que comprou, a força de trabalho, que só pode consumir adicionando-lhe meios de produção. O processo de trabalho é um processo que ocorre entre coisas que o capitalista comprou, entre coisas que lhe pertencem. O produto desse processo pertence-lhe do mesmo modo que o produto do processo de fermentação em sua adega. (10)



O Capital - Volume 1 - Parte III - Capítulo VII
Processo de Trabalho e Processo de Produção de Mais valia
Secção 1.
O Processo de Trabalho ou o Processo de Produção de Valores de Uso