O SOL
Rogel Samuel
O primeiro poema de «Plenilúnio» de Ledo Ivo dá nome ao livro e surpreende.
Na força, quase brutal, de seus versos, uma estranha rima, que diz:
“Uma lua enorme
paira no céu pálido
..................
lua dissoluta
dos filhos da puta”
Depois o poeta, em «Soneto da neve», conta da neve «branca como o esperma», e inveja a noite,
«cobra escondida
entre as bananeiras»
os anjos ocultos no bosque»,
as almas, como o gelo, se evaporam
no dia findo», onde «galinhas brancas
ciscam o universo».
O poeta se encapsula «na rua General Polidoro»:
«minha vida eterna
é problema meu»
ou no «Soneto injurioso», onde
«o silêncio sucede ao barulho infernal
Assim será a morte, assim será o dia
em que a morte virá, fria como uma jia».
Assim será a morte, a velha puta escrota
que avança para nós escondida na bruma."
Gosto da poesia de Ledo Ivo dos 80 anos. Ele exorciza a morte. O título do livro não bate com os versos. Poesia do contraste. Pós-moderna.
Leio na praia. Interrompo a leitura. Olho o mar. Quatro engraxates descem a rampa. São quatro meninos parecidos, morenos. Dois devem ser irmãos, mesmo gêmeos. Um alcoólatra entra na água. O avô e sua netinha chegam na areia. Uma mulher se aproxima da água com cuidado. A mãe se preocupa com os filhos que correm. O rapaz põe seu cão para nadar. O velho sem barriga ainda se pensa jovem atleta e passeia de peito estufado, jogando os braços. O casal de amigos passa e me vê. Acena, e passa.
O sol.
“Assim será a morte, assim será o dia
em que a morte virá, fria como uma jia”.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
OBRAS COMPLETAS
OBRAS COMPLETAS
Rogel Samuel
É um livro enorme, 1.099 páginas. Gosto desse tipo de livro. «Obra completa». É bom ver a obra inteira, integral, completa. Não acho este vasto volume vai ser completo, final. Mesmo com mais de 80 anos, Lêdo Ivo continua com fôlego. Basta ler o seu último livro, o «Plenilúnio», com poemas de 2001-2004. Um dos seus melhores.
Gosto sim dessas obras completas, mas raramente leio as introduções críticas. Como sou um crítico literário medíocre mas de carteirinha, profissional, raramente leio os confrades. Com exceção, claro, dos gênios, como Roberto Schwarz , Haroldo de Campos.
Pois me enganei: li, e com admiração, o texto introdutório de Ivan Junqueira. Apesar da ironia no título («Quem tem medo de Lêdo Ivo?»), traça excelente visão da poesia do poeta e da poesia brasileira como um todo.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Os presidentes
Os presidentes
Rogel Samuel
O Presidente Lula elogiou a imprensa dizendo que sem a liberdade de imprensa nunca teria chegado ao poder.
Ele disse isso no discurso de abertura da Semana da Academia Internacional de Televisão, "que reuniu cerca de 300 executivos estrangeiros e brasileiros, jornalistas e políticos no salão Cristal do Hotel Copacabana Palace".
O Presidente afirmou ainda que, mais cedo ou mais tarde, "a verdade termina aparecendo": porque "os telespectadores ou leitores são críticos implacáveis e juízes muito severos" e que "são plenamente capazes de separar o joio do trigo, a informação da desinformação, a notícia da campanha, a verdade da eventual manipulação. Quem não demonstra consideração por sua inteligência, termina por perder credibilidade".
Para ele o melhor juiz é mesmo o leitor, e que já passou a época da manipulação.
Isso me leva à reflexão sinistra seguinte e sua questão: Será mesmo que um negro pode governar os USA? Quando Morales venceu escrevi um texto prevendo os imensos problemas que ele teria se levasse à frente seu projeto de governo.
Não sei em outro lugar, mas no Rio de Janeiro a rejeição ao Presidente metalúrgico é muito grande. Graças à sua pessoal interferência o Rio realizou o Pan. E ele recebeu por isso a maior vaia da história da República.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
A montanha de areia
A montanha de areia
Rogel Samuel
Há um texto antigo que diz: "A montanha de areia é dispersada". O símbolo, o sentido global disso é que o resultado dos nossos objetivos é comprometido e invertido. É um presságio que diz: Esmagar a montanha em poeira. Sua fonte e crédito é o MO, um jogo divinatório tibetano feito ou organizado por Mipham, um grande iogue antigo.
Eu o consulto às vezes, sem muita certeza de que o enigma se resolverá, ou se o MO vai dignar-se a falar comigo, um mísero mortal.
Não sei o que significa MO. Em Katmandhu, havia um famoso iogue, meio mendigo, que jogava o MO nas ruas. E era muito consultado.
Há outros jogos, como aquele que dizem Napoleão usava para a guerra. O imperador o trouxe do Egito, onde era utilizado pelos faraós.
Quem bom seria para nós, nas nossas dúvidas diárias, ter algo que nos dissesse se tal negócio seria bem sucedido, se aquela viagem seria boa, etc.
Vivemos nossas dúvidas sem recurso lógico para resolvê-las. Principalmente quanto ao futuro.
Mas recorro ao MO por hábito, por esporte, pela crença. Recorro ao MO na Internet:
http://www.magastral.com/astrotibet/mo/mo.html
Não recomendo a ninguém, pois vicia.
Hoje, por hábito, perguntei se eu deveria fazer uma certa viagem. O MO respondeu:
"A montanha de areia é dispersada". Ou seja, "o resultado dos vossos objetivos é
comprometido e invertido".
Confesso que fico feliz. Estou cada vez mais velho para viajar.
sábado, 6 de setembro de 2008
UM QUADRO
Um quadro
Rogel Samuel
Dogen, ainda Dogen (1200-1253) escreveu, ou melhor, pintou um quadro imaginativo perene, máximo, perto da perfeição absoluta, em poucas palavras. Nós vemos aí o tempo, o tempo vazio, o tempo imóvel, o pensamento imóvel, a imobilidade do instante eterno, a pura percepção do absoluto universal, vazio e luminoso - barco vazio sintoniza que não vamos a nenhum lugar, porque já chegamos, porque já estamos lá, inundados de felicidade, em paz com o universo, em paz com o céu e com o inferno, livres das ondas do bem e do mal, livres do ventos do destino, das causas, das conseqüências, das interferências, nós somos ali o todo e o tudo, com a transparência do luar.
Meia-noite.
Nenhuma onda, nenhum vento,
o barco vazio
é inundado de luar.
Rogel Samuel
Dogen, ainda Dogen (1200-1253) escreveu, ou melhor, pintou um quadro imaginativo perene, máximo, perto da perfeição absoluta, em poucas palavras. Nós vemos aí o tempo, o tempo vazio, o tempo imóvel, o pensamento imóvel, a imobilidade do instante eterno, a pura percepção do absoluto universal, vazio e luminoso - barco vazio sintoniza que não vamos a nenhum lugar, porque já chegamos, porque já estamos lá, inundados de felicidade, em paz com o universo, em paz com o céu e com o inferno, livres das ondas do bem e do mal, livres do ventos do destino, das causas, das conseqüências, das interferências, nós somos ali o todo e o tudo, com a transparência do luar.
Meia-noite.
Nenhuma onda, nenhum vento,
o barco vazio
é inundado de luar.
MORRE ALPHONSUS DE GUIMARAES FILHO
MORRE ALPHONSUS DE GUIMARAES FILHO
Rogel Samuel
Os grandes poetas morrem e ninguém sabe. Porque não morrem. Não morrem nunca. Eu não sabia até hoje, quando lí em Blocos, dito por Glauco Mattoso. Morreu o poeta e partiu, para a rota do desconhecido, como ele escreveu:
Rota do Desconhecido
Quando eu seguir na rota do desconhecido
a minha voz ficará cantando na tua memória
e tua alma sentirá a presença
do meu sonho em teu sonho,
do meu riso de perdão à miséria do mundo.
Então, Amada, canta!
A noite se embalará com as canções marinhas
subindo, diretas, do teu coração.
Tua alma será, então uma praia branca,
onde cantarão os pescadores tristes:
os teus sonhos de amor abraçados ao desânimo...
Eu irei longe... Minha memória errará nas estrelas
e minha alma será o vento que acarinha plantas,
que acarinha flores sonolentas.
Eu irei longe, eu irei tão longe,
que meu coração vencerá distâncias
para ouvir tuas canções praieiras,
amada, grande Amada,
e minha alma será o céu pontilhado de estrelas
que há de fazer adormecer tua saudade!
Publicado no livro Lume de estrelas: poemas (1940).
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 27-28
Rogel Samuel
Os grandes poetas morrem e ninguém sabe. Porque não morrem. Não morrem nunca. Eu não sabia até hoje, quando lí em Blocos, dito por Glauco Mattoso. Morreu o poeta e partiu, para a rota do desconhecido, como ele escreveu:
Rota do Desconhecido
Quando eu seguir na rota do desconhecido
a minha voz ficará cantando na tua memória
e tua alma sentirá a presença
do meu sonho em teu sonho,
do meu riso de perdão à miséria do mundo.
Então, Amada, canta!
A noite se embalará com as canções marinhas
subindo, diretas, do teu coração.
Tua alma será, então uma praia branca,
onde cantarão os pescadores tristes:
os teus sonhos de amor abraçados ao desânimo...
Eu irei longe... Minha memória errará nas estrelas
e minha alma será o vento que acarinha plantas,
que acarinha flores sonolentas.
Eu irei longe, eu irei tão longe,
que meu coração vencerá distâncias
para ouvir tuas canções praieiras,
amada, grande Amada,
e minha alma será o céu pontilhado de estrelas
que há de fazer adormecer tua saudade!
Publicado no livro Lume de estrelas: poemas (1940).
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 27-28
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
O SOPRO DO NADA
O sopro do nada
Rogel Samuel
O soneto parece uma carta, responde a um jovem. Posso? - pergunta ele. Não, não pode. Só um deus o pode. O homem não acompanha a um deus na lira. Não se pode acompanhar a lira de Apolo. Que se passa no coração de um deus? Seu canto é alento, vem do nada. É vento porque vida, cantar é existir. Para o deus tudo é possível, não para nós. O assunto do canto não é o que amas. O que amas passa, é momentâneo. O tema do canto é o eterno, o que está sempre lá, só deus o pode, nós não conseguimos acompanhar Rainer Maria Rilke.
Um deus o pode. Mas, dize-me, poderia um
homem acompanhá-lo na lira encantada?
Sua mente é discórdia e nas encruzilhadas
do coração Apolo não tem templo algum.
O canto, como o ensinas, não é o querer
nem busca do que querer que seja de atingível.
Cantar é existir. para o deus, tudo é factível.
Mas nós, quando é que somos? Quando ao nosso ser
dará ele de volta a terra e as estrelas?
Não é o que amas, jovem, mesmo que forçasse
a voz em tua boca. Aprende a esquecê-las,
tais canções. Elas passam, frutos do momento.
O canto em verdade de outro sopro faz-se.
Um sopro de nada. Um alento em Deus. Um vento.
(Trad. José Carlos Paes )
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
OS GRAMPOS
Os grampos
Rogel Samuel
Getúlio só falava em público com a mão na boca. Ele escondia a boca para que ninguém
que soubesse ler os lábios pudesse saber o que ele dizia. E dizem que ele contava coisas diferentes para cada interlocutor, fazendo uma grande confusão entre os seus supostos "confidentes", de forma que ninguém sabia ao certo o que ele pensava e que decisões ia tomar. Contam que ele se mostrava íntimo de todos, confiava em todos, e a todos ele traía. Mesmo sua mulher não sabia ao certo o que ele pensava, pois para ela um dia dizia uma coisa, no outro o seu contrário. Com isso ficou no poder por muitos anos.
De Tancredo se diz que ele nunca falava nada sério ao telefone, que desligava ou dizia algum disparate, como "não estou ouvindo" etc. Também não tinha confidentes.
Getúlio sempre era bonzinho e sorridente, mas quando seu interlocutor se retirava despejava o ódio nas coisas. Jogava tudo no chão. Era bonzinho e perigoso. E muito vaidoso: durante toda a vida desconheceu a existência de seu maior adversário, Carlos Lacerda. Dizem que nunca pronunciou o nome de Lacerda. Ignorou-o até o fim.
Talvez por isso Lacerda o odiava tanto.
Rogel Samuel
Getúlio só falava em público com a mão na boca. Ele escondia a boca para que ninguém
que soubesse ler os lábios pudesse saber o que ele dizia. E dizem que ele contava coisas diferentes para cada interlocutor, fazendo uma grande confusão entre os seus supostos "confidentes", de forma que ninguém sabia ao certo o que ele pensava e que decisões ia tomar. Contam que ele se mostrava íntimo de todos, confiava em todos, e a todos ele traía. Mesmo sua mulher não sabia ao certo o que ele pensava, pois para ela um dia dizia uma coisa, no outro o seu contrário. Com isso ficou no poder por muitos anos.
De Tancredo se diz que ele nunca falava nada sério ao telefone, que desligava ou dizia algum disparate, como "não estou ouvindo" etc. Também não tinha confidentes.
Getúlio sempre era bonzinho e sorridente, mas quando seu interlocutor se retirava despejava o ódio nas coisas. Jogava tudo no chão. Era bonzinho e perigoso. E muito vaidoso: durante toda a vida desconheceu a existência de seu maior adversário, Carlos Lacerda. Dizem que nunca pronunciou o nome de Lacerda. Ignorou-o até o fim.
Talvez por isso Lacerda o odiava tanto.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Borghese
Borghese
Rogel Samuel
"Borghese" é o título do poema de Rilke. Tradução de Augusto de Campos. O poema é tão bom, e nítido, que se pode "ver" as bordar de mármore, "ouvir" a água fluir, cair, a água caindo sobre a água ainda que muda, a água esperando a água, a água dialogando com a água, como no côncavo da mão que a vai beber, a água espelhando o céu, emoldurado pelo verde-escuro, a água que escorre na bela pia batismal em círculos constantes, impassíveis, sob o musgo que na última bacia fecha a travessia. Toda a arte se deve ao tradutor Augusto, que recriou o poema, que recriou o objeto de mármore, as bacias de água que em queda entram, derramam-se na nossa imaginação.
Duas velhas bacias sobrepondo
suas bordas de mármore redondo.
Do alto a água fluindo, devagar,
sobre a água, mais em baixo, a esperar,
muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,
como que só no côncavo da mão,
entremostrando um singular objeto:
o céu, atrás da verde escuridão;
ela mesma a escorrer na bela pia,
em círculos e círculos, constante —
mente, impassível e sem nostalgia,
descendo pelo musgo circundante
ao espelho da última bacia
que faz sorrir, fechando a travessia.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
O ERO POEMA
Rogel Samuel
Leio na Internet um poema erótico de Elmar Carvalho, um ero poema, da ero moça:
A ero moça
A aeromoça
abre os braços
e mostra as saídas
de emergência...
E eu a sonhar
que ela abrisse
as pernas e mostrasse
as entradas de quintessência.
Lembro-me bem das aeromoças que abrem os braços sobre as poltronas e as emergências. O poeta, na sua emergente eroticidade, mostra as saídas da quintessencia. Este é um poema que opõe a vida X a morte. As saídas de emergência... são para o desastre. As entradas de quintessência são para o êxito, a alegria, a vitalidade humana. Abrir os braços mostra as saídas da morte, abrir as pernas a maternidade da vida. É eros contra a morte. Como sempre.
Leio na Internet um poema erótico de Elmar Carvalho, um ero poema, da ero moça:
A ero moça
A aeromoça
abre os braços
e mostra as saídas
de emergência...
E eu a sonhar
que ela abrisse
as pernas e mostrasse
as entradas de quintessência.
Lembro-me bem das aeromoças que abrem os braços sobre as poltronas e as emergências. O poeta, na sua emergente eroticidade, mostra as saídas da quintessencia. Este é um poema que opõe a vida X a morte. As saídas de emergência... são para o desastre. As entradas de quintessência são para o êxito, a alegria, a vitalidade humana. Abrir os braços mostra as saídas da morte, abrir as pernas a maternidade da vida. É eros contra a morte. Como sempre.
sábado, 30 de agosto de 2008
RILKE
RILKE
Rogel Samuel
Geir Campos, bom poeta, é autor também de uma obra-prima: "Poemas de Rainer Maria Rilke", hoje só encontrável em sebos (Rio, José Olympio, 1953). De lá copio esta:
INICIAÇÃO
Quem quer que sejas: deixa tua alcova
da qual já sabes tudo que desejas;
teu lar na tarde, longe, se renova,
quem quer que sejas.
Com teus olhos exaustos, que ainda a custo
entre os gastos umbrais logram passar,
ergues inteira a sombra dum arbusto
posto ante o céu - esguio, singular.
E tens já pronto o mundo: estranho assim
como palavra que amadurecesse
no silencio, e que teu olhar esquece
quando lhe captas o sentido, enfim ...
Este é o primeiro poema do "Livro das imagens", diz-nos o tradutor. É um convite ao leitor, "quem quer que sejas", a abandonar o lar, a rotina, a alcova (?), e segui-lo numa viagem fantástica e estranha, no mundo da poesia, no seu silêncio, no seu sentido. Pois passando o umbral, erguendo a sombra de um arbusto, um inteiro novo mundo se abre, não o mundo da fantasia, mas a visão pura de um reino puro e luminoso, posto ante o céu como uma planície em que se capta o significado.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
RAINER MARIA RILKE
RAINER MARIA RILKE
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PRIMEIRA ELEGIA
Quem se eu gritasse, entre as legiões de Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgastar-nos a face — a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos — talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.
Sim, as primaveras precisam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga, ou
quando passavas sob uma janemla aberta,
uma viola d'amore se abandonava. Tudo isso era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre
distraído, aà espera, como se tudo
anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,
se grandes e estranhos pensamentos vão e vêm
dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta as amantes;
ainda não é bastante imoral sua celebrada ternura.
Tu quase as invejas — estas abandonadas
que te parecem tão mais ardentes que as
apaziguadas. Retoma infinitamente o inesgotável
louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda
mesma foi um pretexto para ser — nasciemnto supremo.
Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio
esgotado, como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem
qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou
como ela? Frutificarão afinal esses longínquos
sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objetivo amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo
mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detém.
Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam. Não que possas suportar
a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,
a incessante mensagem que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças, o rumor
dos jovens mortos. Onde quer que fosses,
nas igrejas de Roma e Nápoes, não ouvias a voz
de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,
sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa...
O que pede essa voz? a ansiada libertação
da aparência de injustiça que as vezes perturba
a agilidade pura de suas almas.
É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
às rosas e a outras coisas o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos trêmulas, medrosas,
não mais ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo o quanto se encandeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. — Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.
Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentas Linos, violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações — que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.
A MORTE DO POETA
Jazia. Seu altivo semblante
estava pálido e indiferente no leito inflexível,
desde que o mundo, afastado de seus sentidos,
retornara à Era fria.
Os que o viram em vida não compreendiam
como ele se integrava nas coisas;
é que tudo: essas profundezas e florestas
e a própria água eram o seu eu.
Ah! seu vulto era tudo isso
que ainda agora dele se acerca como para o envolver;
e sua máscara, que lívida se extingue,
é mole e aberta como a polpa de um fruto
que o ar corrompeu.
(Trad. de João Accioli)
TORSO ARCAICO DE APOLO
Não, não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta
E brilha. Se não fosse assim a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro, onde o sexo se alteara.
Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.
Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.
(Trad. de Manuel Bandeira)
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I:3
Um deus o pode. Mas, dize-me, poderia um
homem acompanhá-lo na lira encantada?
Sua mente é discórdia e nas encruzilhadas
do coração Apolo não tem templo algum.
O canto, como o ensinas, não é o querer
nem busca do que querer que seja de atingível.
Cantar é existir. para o deus, tudo é factível.
Mas nós, quando é que somos? Quando ao nosso ser
dará ele de volta a terra e as estrelas?
Não é o que amas, jovem, mesmo que forçasse
a voz em tua boca. Aprende a esquecê-las,
tais canções. Elas passam, frutos do momento.
O canta em verdade de outro sopro faz-se.
Um sopro de nada. Um alento em Deus. Um vento.
(Trad. José Carlos Paes )
Borghese
Duas velhas bacias sobrepondo
suas bordas de mármore redondo.
Do alto a água fluindo, devagar,
sobre a água, mais em baixo, a esperar,
muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,
como que só no côncavo da mão,
entremostrando um singular objeto:
o céu, atrás da verde escuridão;
ela mesma a escorrer na bela pia,
em círculos e círculos, constante —
mente, impassível e sem nostalgia,
descendo pelo musgo circundante
ao espelho da última bacia
que faz sorrir, fechando a travessia.
(Trad. Augusto de Campos )
O torso arcaico de Apolo
Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado
Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.
De outro modo erger-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros.
E não tremeria assim, como pele selvagem.
E nem explodiria para além de todas as fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.
(Tradução: Paulo Quintela)
- Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso - e se me quebro?
Eu sou tua água - e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.
Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.
Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.
Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.
(Tradução: Paulo Plínio Abreu)
- Hora Grave
Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.
Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.
Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.
Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.
(Tradução: Paulo Plínio Abreu)
Morgue
Estão prontos, ali, como a esperar
que um gesto só, ainda que tardio,
possa reconciliar com tanto frio
os corpos e um ao outro harmonizar;
como se algo faltasse para o fim.
Que nome no seu bolso já vazio
há por achar? Alguém procura, enfim,
enxugar dos seus lábios o fastio:
em vão; eles só ficam mais polidos.
A barba está mais dura, todavia
ficou mais limpa ao toque do vigia,
para não repugnar o circunstante.
Os olhos, sob a pálpebra, invertidos,
olham só para dentro, doravante.
(Tradução: Augusto de Campos)
A Pantera
No Jardin des Plantes, Paris
De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.
A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.
De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
(Tradução: Augusto de Campos)
A Gazela
Gazella Dorcas
Mágico ser: onde encontrar quem colha
duas palavras numa rima igual
a essa que pulsa em ti como um sinal?
De tua fronte se erguem lira e folha
e tudo o que és se move em similar
canto de amor cujas palavras, quais
pétalas, vão caindo sobre o olhar
de quem fechou os olhos, sem ler mais,
para te ver: no alerta dos sentidos,
em cada perna os saltos reprimidos
sem disparar, enquanto só a fronte
a prumo, prestes, pára: assim, na fonte,
a banhista que um frêmito assustasse:
a chispa de água no voltear da face.
(Tradução: Augusto de Campos)
São Sebastião
Como alguém que jazesse, está de pé,
sustentado por sua grande fé.
Como mãe que amamenta, a tudo alheia,
grinalda que a si mesma se cerceia.
E as setas chegam: de espaço em espaço,
como se de seu corpo desferidas,
tremendo em suas pontas soltas de aço.
Mas ele ri, incólume, às feridas.
Num só passo a tristeza sobrevém
e em seus olhos desnudos se detém,
até que a neguem, como bagatela,
e como se poupassem com desdém
os destrutores de uma coisa bela.
(Tradução: Augusto de Campos)
O Anjo
Com um mover da fronte ele descarta
tudo o que obriga, tudo o que coarta,
pois em seu coração, quando ela o adentra,
a eterna Vinda os círculos concentra.
O céu com muitas formas Ihe aparece
e cada qual demanda: vem, conhece -.
Não dês às suas mãos ligeiras nem
um só fardo; pois ele, à noite, vem
à tua casa conferir teu peso,
cheio de ira, e com a mão mais dura,
como se fosses sua criatura,
te arranca do teu molde com desprezo.
(Tradução: Augusto de Campos)
Fonte Romana
Borghese
Duas velhas bacias sobrepondo
suas bordas de mármore redondo.
Do alto a água fluindo, devagar,
sobre a água, mais em baixo, a esperar,
muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,
como que só no côncavo da mão,
entremostrando um singular objeto:
o céu, atrás da verde escuridão;
ela mesma a escorrer na bela pia,
em círculos e círculos, constante-
mente, impassível e sem nostalgia,
descendo pelo musgo circundante
ao espelho da última bacia
que faz sorrir, fechando a travessia.
(Tradução: Augusto de Campos)
Dançarina Espanhola
Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.
E logo ela é só flama, inteiramente.
Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.
Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.
(Tradução: Augusto de Campos)
O Cego
Ele caminha e interrompe a cidade,
que não existe em sua cela escura,
como uma escura rachadura
numa taça atravessa a claridade.
Sombras das coisas, como numa folha,
nele se riscam sem que ele as acolha:
só sensações de tato, como sondas,
captam o mundo em diminutas ondas:
serenidade; resistência -
como se à espera de escolher alguém, atento,
ele soergue, quase em reverência,
a mão, como num casamento.
(Tradução: Augusto de Campos)
Exercícios ao Piano
O calor cola. A tarde arde e arqueja.
Ela arfa, sem querer, nas leves vestes
e num étude enérgico despeja
a impaciência por algo que está prestes
a acontecer: hoje, amanhã, quem sabe
agora mesmo, oculto, do seu lado;
da janela, onde um mundo inteiro cabe,
ela percebe o parque arrebicado.
Desiste, enfim, o olhar distante; cruza
as mãos; desejaria um livro; sente
o aroma dos jasmins, mas o recusa
num gesto brusco. Acha que á faz doente.
(Tradução: Augusto de Campos)
O Solitário
Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.
Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,
ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.
(Tradução: Augusto de Campos)
O Fruto
Subia, algo subia, ali, do chão,
quieto, no caule calmo, algo subia,
até que se fez flama em floração
clara e calou sua harmonia.
Floresceu, sem cessar, todo um verão
na árvore obstinada, noite e dia,
e se soube futura doação
diante do espaço que o acolhia.
E quando, enfim, se arredondou, oval,
na plenitude de sua alegria,
dentro da mesma casca que o encobria
volveu ao centro original.
(Tradução: Augusto de Campos)
O mundo estava no rosto da amada -
O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.
Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?
Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.
(Tradução: Augusto de Campos)
INICIAÇÃO
Trad. Geir Campos
Quem quer que sejas: deixa tua alcova
da qual já sabes tudo que desejas;
teu lar na tarde, longe, se renova,
quem quer que sejas.
Com teus olhos exaustos, que ainda a custo
entre os gastos umbrais logram passar,
ergues inteira a sombra dum arbusto
posto ante o ceu - esguio, singular.
E tens já pronto o mundo: estranho assim
como palavra que amadurecesse
no silencio, e que teu olhar esquece
quando lhe captas o sentido, enfim ...
OUTONO
As folhas caem como se do alto
caissem, murchas, dos jardins do ceu;
caem com gestos de quem renuncia.
E a terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidao vazia.
Caimos todos nós. Cai esta mao.
Olha em redor: cair é a lei geral.
E a terna mão de Alguem colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.
HORA SOLENE
Quem nesta hora chora algures no mundo
sem motivo chora no mundo,
chora por mim.
Quem nesta hora ri algures na noite,
sem motivo ri-se na noile,
ri de mim.
Quem nesta hora anda algures no mundo,
sem motivo anda no mundo,
vem a mim.
Quem nesta hora morre algures no mundo,
sem motivo morre no mundo,
olha para mim.
A política são nossos sonhos
Rogel Samuel
"O desejo de ver as coisas melhorarem não adormece", escreveu Bloch.
São nossos sonhos diurnos, de realização política, prodigiosos, maravilhosos, incríveis ou antecipatórios. Queremos o admirável, o grandioso, o melhor para a sociedade, e isso pauta nossa ação política. O que é intuído como uma força de auto-expansão para a frente.
Ação política: melhorar a sociedade.
O máximo signo disso é votar.
Votar significa tentar fazer, envolver-se no sonho de uma verdade, de uma realidade justa.
Não se vota em um nome, mas numa idéia. A idéia é o partido. O partido político. Quando voto, exerço meu sonho de uma vida melhor. Para que voto? Para a solução dos problemas da sociedade.
O direito de votar é o direito de sonhar. Votar é fazer. Fazer a realidade.
E o mais importante voto não é aquele no futuro governante, mas no vereador, no deputado, no senador. Um governante sozinho nada pode fazer, ele precisa de muitos parlamentares que o apóiem, que lhe dêem base, sustentação. Por isso, o voto deve ser no partido. É o partido quem decide.
A política não é só a arte de governar, como também a arte de sonhar.
A política são nossos sonhos.
"O desejo de ver as coisas melhorarem não adormece", escreveu Bloch.
São nossos sonhos diurnos, de realização política, prodigiosos, maravilhosos, incríveis ou antecipatórios. Queremos o admirável, o grandioso, o melhor para a sociedade, e isso pauta nossa ação política. O que é intuído como uma força de auto-expansão para a frente.
Ação política: melhorar a sociedade.
O máximo signo disso é votar.
Votar significa tentar fazer, envolver-se no sonho de uma verdade, de uma realidade justa.
Não se vota em um nome, mas numa idéia. A idéia é o partido. O partido político. Quando voto, exerço meu sonho de uma vida melhor. Para que voto? Para a solução dos problemas da sociedade.
O direito de votar é o direito de sonhar. Votar é fazer. Fazer a realidade.
E o mais importante voto não é aquele no futuro governante, mas no vereador, no deputado, no senador. Um governante sozinho nada pode fazer, ele precisa de muitos parlamentares que o apóiem, que lhe dêem base, sustentação. Por isso, o voto deve ser no partido. É o partido quem decide.
A política não é só a arte de governar, como também a arte de sonhar.
A política são nossos sonhos.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Os pássaros aquáticos
Os pássaros aquáticos
Rogel Samuel
O mestre Dogen escreveu:
Vindo, indo, os pássaros aquáticos
não deixam um rastro
não seguem um traço.
Sem destino, sem passado, os pássaros aquáticos. Impossível seguir-lhes a rota, saber seu destino. Vão e vêm no espaço. Quem os controla? Por que não somos como esses pássaros, sem origem e sem destino, só presença infinita e eterna? Por que não nos libertamos do passado e da urgência do amanhã? O passado não mais existe, coisa morta. O amanhã é uma rua, no fim da qual é a morte. Por que carregamos o fardo de um passado, em direção à morte?
No meu bairro há um estranho mendigo, magro, sujo, barbudo. Não aceita dinheiro. Quando passa deixa um odor fétido de quem nunca mudou de roupa. Quantos anos terá? Não é velho. Deve ter um nome, todos têm um nome. Deve ter família em algum lugar. O diferente nele é que ele carrega um imenso e pesado saco nas costas.
Rogel Samuel
O mestre Dogen escreveu:
Vindo, indo, os pássaros aquáticos
não deixam um rastro
não seguem um traço.
Sem destino, sem passado, os pássaros aquáticos. Impossível seguir-lhes a rota, saber seu destino. Vão e vêm no espaço. Quem os controla? Por que não somos como esses pássaros, sem origem e sem destino, só presença infinita e eterna? Por que não nos libertamos do passado e da urgência do amanhã? O passado não mais existe, coisa morta. O amanhã é uma rua, no fim da qual é a morte. Por que carregamos o fardo de um passado, em direção à morte?
No meu bairro há um estranho mendigo, magro, sujo, barbudo. Não aceita dinheiro. Quando passa deixa um odor fétido de quem nunca mudou de roupa. Quantos anos terá? Não é velho. Deve ter um nome, todos têm um nome. Deve ter família em algum lugar. O diferente nele é que ele carrega um imenso e pesado saco nas costas.
terça-feira, 26 de agosto de 2008
A liberdade
A liberdade
Rogel Samuel
Escreveu Dogen:
Não siga as idéias dos outros
mas aprenda a ouvir a voz interior de si mesmo.
Seu corpo e mente ficarão claros
e você compreenderá a unidade de todas as coisas.
É o poema da liberdade. Do silêncio. Da voz do silêncio. Não seguir ninguém, saber ouvir o instinto, o impulso, o saber sem nome, o nada. Mas a voz interna só fala quando tudo cala, tudo se esvazia. É difícil deixar de seguir. Mas é possível. Como? Mas como?
A arte de ouvir o silêncio é a "espera". Esperar que as montanhas interiores falem, que o oceano de nosso íntimo se manifeste, diga-nos o que fazer, para onde ir, que decisão tomar. Saber esperar a manifestação do rumo, a movimentação da própria estrada, a abertura da porta por onde entrar, a auto-construção espontânea da ponte por onde passar de uma ação para outra.
O zen, ao contrário do que se pensa, não é inação. Mas é o saber usar a força invisível, a sabedoria inaudível, louca e pessoal.
Rogel Samuel
Escreveu Dogen:
Não siga as idéias dos outros
mas aprenda a ouvir a voz interior de si mesmo.
Seu corpo e mente ficarão claros
e você compreenderá a unidade de todas as coisas.
É o poema da liberdade. Do silêncio. Da voz do silêncio. Não seguir ninguém, saber ouvir o instinto, o impulso, o saber sem nome, o nada. Mas a voz interna só fala quando tudo cala, tudo se esvazia. É difícil deixar de seguir. Mas é possível. Como? Mas como?
A arte de ouvir o silêncio é a "espera". Esperar que as montanhas interiores falem, que o oceano de nosso íntimo se manifeste, diga-nos o que fazer, para onde ir, que decisão tomar. Saber esperar a manifestação do rumo, a movimentação da própria estrada, a abertura da porta por onde entrar, a auto-construção espontânea da ponte por onde passar de uma ação para outra.
O zen, ao contrário do que se pensa, não é inação. Mas é o saber usar a força invisível, a sabedoria inaudível, louca e pessoal.
A ENERGIA NEGRA
CRÔNICA DE SEMPRE
Rogel Samuel (atualização diária)
26/8/2008
A ENERGIA NEGRA
De Paris chega a notícia de que o observatório astronômico europeu XMM-Newton encontrou "o maior grupo de galáxias jamais visto no universo, uma descoberta que pode
confirmar a existência da "energia negra".
É um "monstro" com "uma massa correspondente a mil galáxias" e aparecia como uma mancha muito brilhante. Tem mil vezes a massa de nossa galáxia, a Via Láctea.
"A presença deste grupo confirma bem a existência de um elemento misterioso do Universo, a energia negra", talvez responsável pela aceleração da expansão do Universo, disse Georg Lamer, do Instituto de astrofísica de Potsdam (Alemanha).
Mas se o Universo continua em expansão significa que continua trabalhando, que ainda não terminou o seu brinquedo cósmico!
Estou delirando. Com a grandeza do Universo.
"Grupos de galáxias tão grandes como este são objetos raros no Universo", indicou Lamer. "A existência dessas galáxias só pode ser explicada pela energia negra", continuou.
Segundo os astrofísicos, a maior parte do grupo está longe, situado a 7,7 bilhões de anos-luz. É uma distância inacreditável.
As galáxias gigantes seriam formadas por um gás a uma temperatura de 100 milhões de graus. O que é difícil de entender.
Só falta descobrir de onde o Universo ri de nós.
Rogel Samuel (atualização diária)
26/8/2008
A ENERGIA NEGRA
De Paris chega a notícia de que o observatório astronômico europeu XMM-Newton encontrou "o maior grupo de galáxias jamais visto no universo, uma descoberta que pode
confirmar a existência da "energia negra".
É um "monstro" com "uma massa correspondente a mil galáxias" e aparecia como uma mancha muito brilhante. Tem mil vezes a massa de nossa galáxia, a Via Láctea.
"A presença deste grupo confirma bem a existência de um elemento misterioso do Universo, a energia negra", talvez responsável pela aceleração da expansão do Universo, disse Georg Lamer, do Instituto de astrofísica de Potsdam (Alemanha).
Mas se o Universo continua em expansão significa que continua trabalhando, que ainda não terminou o seu brinquedo cósmico!
Estou delirando. Com a grandeza do Universo.
"Grupos de galáxias tão grandes como este são objetos raros no Universo", indicou Lamer. "A existência dessas galáxias só pode ser explicada pela energia negra", continuou.
Segundo os astrofísicos, a maior parte do grupo está longe, situado a 7,7 bilhões de anos-luz. É uma distância inacreditável.
As galáxias gigantes seriam formadas por um gás a uma temperatura de 100 milhões de graus. O que é difícil de entender.
Só falta descobrir de onde o Universo ri de nós.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Somos Sonhos
Somos Sonhos
Rogel Samuel
Leio na Internet a frase de Shakespeare:"Nós somos feitos da mesma matéria dos sonhos".
E fico a imaginar quão extraordinária era a mente de Shakespeare que pôde fazer essa constatação metafísica de grande alcance.
Pois o alcance dessa meditação vai até a filosofia Madyamika e da "Tudo é mente" da Índia antiga, quando pensadores e iogues como Shantideva e Dromi Lotsawa compuseram
suas obras fundadas na descoberta de que "somos sonhos", somos apenas sonhos, e a realidade que nos cerca tem a mesma natureza e verdade dos sonhos.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
A campeã de 32 anos
Rogel Samuel
É muito bom ver esses jovens ganharem suas medalhas de ouro olímpico, um fato inapagável na vida de um atleta e de uma atleta. Uma medalha nunca é tirada, nunca é esquecida. Alguns pensam que é o país que ganha. Não é. É a atleta e o atleta, é ela ou ele o jovem campeão.
César Cielo se tornou o maior nadador brasileiro de todos os tempos. Com o ouro, alcança um feito que supera as conquistas de Gustavo Borges - até então, o mais bem-sucedido nadador brasileiro e Fernando Scherer, o Xuxa, também ganhador de duas medalhas olímpicas de bronze em Atlanta e em Sydney.
Maurren Maggi conquistou o primeiro ouro individual feminino. Nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, ela chegou como uma das favoritas ao ouro. Sua marca até então, 7,26 m, de junho de 1999, a colocava no seleto
grupo das atletas que passaram dos 7 metros. A marca é tão boa que, desde então, somente três atletas saltaram mais longe em todo o planeta, todas russas: Tatyana Kotova (7,42 m em 2002), Tatyana Lebedeva (7,33 m em 2004) e Irina Simagina (7,27 m em 2004).
Ela tem 32 anos.
É muito bom ver esses jovens ganharem suas medalhas de ouro olímpico, um fato inapagável na vida de um atleta e de uma atleta. Uma medalha nunca é tirada, nunca é esquecida. Alguns pensam que é o país que ganha. Não é. É a atleta e o atleta, é ela ou ele o jovem campeão.
César Cielo se tornou o maior nadador brasileiro de todos os tempos. Com o ouro, alcança um feito que supera as conquistas de Gustavo Borges - até então, o mais bem-sucedido nadador brasileiro e Fernando Scherer, o Xuxa, também ganhador de duas medalhas olímpicas de bronze em Atlanta e em Sydney.
Maurren Maggi conquistou o primeiro ouro individual feminino. Nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, ela chegou como uma das favoritas ao ouro. Sua marca até então, 7,26 m, de junho de 1999, a colocava no seleto
grupo das atletas que passaram dos 7 metros. A marca é tão boa que, desde então, somente três atletas saltaram mais longe em todo o planeta, todas russas: Tatyana Kotova (7,42 m em 2002), Tatyana Lebedeva (7,33 m em 2004) e Irina Simagina (7,27 m em 2004).
Ela tem 32 anos.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
A VELA DE PRATA
Rogel Samuel
Leio que Scheidt e Prada conquistam a prata na Star. O Brasil tem milhares de quilômetros de costa, uma tradição de velejadores jangadeiros. Muitos cantaram com Caymmi que era doce
morrer no mar. Mas não é. Meu pai foi marinheiro, naufragou. Não morreu disso, mas tinha mais desenvoltura sobre as águas do que sobre a terra firme. Em terra firme era desajeitado, reclamava do barulho, da poluição. Gostava mesmo era de viajar pela Amazonia. Viajou mais de 40 anos. Eu muitas vezes fui com ele, quando criança. Tenho boas recordações. Todas poéticas. O mundo verde, primitivo e perdido, da infância amazônica.
Rogel Samuel
Leio que Scheidt e Prada conquistam a prata na Star. O Brasil tem milhares de quilômetros de costa, uma tradição de velejadores jangadeiros. Muitos cantaram com Caymmi que era doce
morrer no mar. Mas não é. Meu pai foi marinheiro, naufragou. Não morreu disso, mas tinha mais desenvoltura sobre as águas do que sobre a terra firme. Em terra firme era desajeitado, reclamava do barulho, da poluição. Gostava mesmo era de viajar pela Amazonia. Viajou mais de 40 anos. Eu muitas vezes fui com ele, quando criança. Tenho boas recordações. Todas poéticas. O mundo verde, primitivo e perdido, da infância amazônica.
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