D. Dinis
Ai flores, ai flores do verde pinho
se sabedes novas do meu amigo,
ai deus, e u é?
Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado,
ai deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo,
aquele que mentiu do que pôs comigo,
ai deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado,
aquele que mentiu do que me há jurado
ai deus, e u é?
CANTIGAS DE AMIGO
Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo!
E ai Deus, se verrá cedo!
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
E ai Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
E ai Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amado,
por que hei gran cuidado!
E ai Deus, se verrá cedo!
Martin Codax, CV 884, CBN 1227
Pois nossas madres van a San Simon
de Val de Prados candeas queimar,
nós, as meninhas, punhemos de andar
con nossas madres, e elas enton
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.
Nossos amigos todos lá irán
por nos veer, e andaremos nós
bailando ante eles, fremosas en cós,
e nossas madres, pois que alá van,
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.
Nossos amigos irán por cousir
como bailamos, e podem veer
bailar moças de bon parecer,
e nossas madres pois lá queren ir,
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.
Pero de Viviãez, CV 336, CBN 698
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CANTIGAS DE AMOR
Quer'eu em maneira de proençal
fazer agora un cantar d'amor,
e querrei muit'i loar mia senhor
a que prez nen fremusura non fal,
nen bondade; e mais vos direi en:
tanto a fez Deus comprida de ben
que mais que todas las do mundo val.
Ca mia senhor quiso Deus fazer tal,
quando a faz, que a fez sabedor
de todo ben e de mui gran valor,
e con todo est'é mui comunal
ali u deve; er deu-lhi bon sen,
e des i non lhi fez pouco de ben,
quando non quis que lh'outra foss'igual.
Ca en mia senhor nunca Deus pôs mal,
mais pôs i prez e beldad'e loor
e falar mui ben, e riir melhor
que outra molher; des i é leal
muit', e por esto non sei oj'eu quen
possa compridamente no seu ben
falar, ca non á, tra-lo seu ben, al.
El-Rei D. Dinis, CV 123, CBN 485
Proençaes soen mui ben trobar
e dizen eles que é con amor;
mais os que troban no tempo da frol
e non en outro, sei eu ben que non
an tan gran coita no seu coraçon
qual m'eu por mha senhor vejo levar.
Pero que troban e saben loar
sas senhores o mais e o melhor
que eles poden, soõ sabedor
que os que troban quand'a frol sazon
á, e non ante, se Deus mi perdon,
non an tal coita qual eu ei sen par.
Ca os que troban e que s'alegrar
van eno tempo que ten a color
a frol consigu', e, tanto que se for
aquel tempo, logu'en trobar razon
non an, non viven [en] qual perdiçon
oj'eu vivo, que pois m'á-de matar.
El-Rei D. Dinis, CV 127, CBN 489
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CANTIGAS DE ESCÁRNIO E MALDIZER
Foi um dia Lopo jograr
a casa duü infançon cantar,
e mandou-lhe ele por don dar
três couces na garganta,
e foi-lhe escasso, a meu cuidar,
segundo como el canta
Escasso foi o infançon
en seus couces partir' enton,
ca non deu a Lopo enton
mais de três na garganta,
e mais merece o jograron,
segundo como el canta.
Martin Soarez, CV 974
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Ai, dona fea, foste-vos queixar
que vos nunca louv'en [o] meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
en que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!
Dona fea, se Deus me perdon,
pois avedes [a] tan gran coraçon
que vos eu loe, en esta razon
vos quero já loar toda via;
e vedes qual será a loaçon:
dona fea, velha e sandia!
Dona fea, nunca vos eu loei
en meu trobar, pero muito trobei;
mais ora já un bon cantar farei,
en que vos loarei toda via;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!
Joan Garcia de Guilhade, CV 1097, CBN 1486
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Roi Queimado morreu con amor
en seus cantares, par Sancta Maria,
por Da dona que gran ben queria:
e, por se meter por mais trobador,
porque lhe ela non quis ben fazer,
feze-s'el en seus cantares morrer,
mais resurgiu depois ao tercer dia!
Esto fez el por üa sa senhor
que quer gran ben, e mais vos en diria:
por que cuida que faz i maestria,
enos cantares que faz, á sabor
de morrer i e des i d'ar viver;
esto faz el que x'o pode fazer,
mais outr'omem per ren' nono faria.
E non á já de sa morte pavor,
senon sa morte mais la temeria,
mais sabe ben, per sa sabedoria,
que viverá, des quando morto for,
e faz-[s'] en seu cantar morte prender,
des i ar vive: vedes que poder
que lhi Deus deu, mais que non cuidaria.
E, se mi Deus a mim desse poder
qual oj'el á, pois morrer, de viver,
já mais morte nunca temeria.
Pero Garcia Burgalês, CV 988, CBN 1380
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João Zorro
Em Lixboa sobre lo mar
barcas novas mandei lavrar,
ay mia senhor velida!
Em Lisboa sobre lo lez
barcas novas mandei fazer,
ay mia senhor velida!
Barcas novas mandei lavrar
e no mar as mandei deitar,
ay mia senhor velida!
Barcas novas mandei fazer
e no mar as mandei meter,
ay mia senhor velida!
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CRONISTAS
Fernão Lopes
(1380-1460)
Porque escrevendo o homem do que não é certo, ou contará mais curto do que foi, ou falará mais largo do que deve; mas mentira em este volume, é muito afastada da nossa vontade. Ó! Com quanto cuidado e diligência vimos grandes volumes de livros, de desvairadas linguagens e terras; e isso mesmo públicas escrituras de muitos cartórios e outros lugares, nas quais depois de longas vigílias e grandes trabalhos, mais certidom haver não podemos da conteúda em esta obra.
Crónica de D. João I, Prólogo
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António Ferreira (1528-1569)
TRAGÉDIA CASTRO
(extractos)
ACTO IV
INÊS E O REI
CASTRO:
Meu Senhor,
Esta he a mãy de teus netos. Estes são
Filhos daquelle filho, que tanto amas.
Esta he aquella coitada molher fraca,
Contra quem vens armado de crueza.
Aqui me tens. Bastava teu mandado
Pera eu segura, e livre t'esperar,
Em ti, e em minh'innocencia confiada.
Escusarás, Senhor, todo este estrondo
D'armas, e Cavaleiros; que não foge.
Nem se teme a innocencia, da justiça.
E quando meus peccados me accusaram.
A ti fora buscar: a ti tomara
Por vida em minha morte: agora vejo
Que tu me vens buscar. Beijo estas mãos
Reaes tam piedosas: pois quiseste
Por ti vir-te informar de minhas culpas.
Conhece-mas, Senhor, como bom Rey,
Como clemente, e justo, e como pay
De teus vassallos todos, a que nunca
Negaste piedade com justiça.
Que vês em mim, Senhor? Que vês em quem
Em tuas mãos se mete tam segura?
Que furia, que ira esta he, com que me buscas?
Mais contra imigos vens, que cruelmente
T'andassem tuas terras destruindo
A ferro, e fogo. Eu tremo, senhor, tremo
De me ver ante ti, como me vejo:
Molher, moça, innocente, serva tua,
Tam só, sem por mim ter quem me defenda.
Que a lingua não s'atreve, o sprito treme
Ante tua presença, porém possam
Estes moços, teus netos, defender-me.
Elles falem por mim, elles sós ouve:
Mas não te falaram, Senhor, com lingua,
Que inda não podem: falam-te co as almas,
Com suas idades tenras, com seu sangue,
Que he teu, faláram: seu desemparo
T'está pedindo vida: não lha negues
Teus netos são, que nunca téqui viste:
E vê-los em tal tempo, que lhes tolhes
A glória, e o prazer, qu'em seus spritos
Lhe está Deos revelando de te verem.
REY:
Tristes foram teus fados, Dona Ines,
Triste ventura a tua.
CASTRO:
Antes ditosa,
Senhor, pois que me vejo ante teus olhos
Em tempo tam estreito: poem-nos hora,
Como nos outros soes, nesta coitada.
Enche-os de piedade com justiça.
Vens-me, senhor, matar? porque me matas?
REY:
Teus pecados te matam: cuida nelles.
(...)
REY:
Ó molher forte!
Venceste-me abrandaste-me. Eu te deixo,
Vive, em quanto Deos quer.
CASTRO:
Rey piadoso,
Vive tu, pois perdoas: moura aquelle,
Que sua dura tenção leva adiante.
PACHECO, REY, COELHO
Oh Senhor, que nos matas! que fraqueza
Essa he indigna de ti? de hum real peito?
Vence-te húa molher, e estranhas tanto
Vencer assi teu filho? que já agora
Terá desculpa honesta: não te esqueças
Da tenção tam fundada, que te trouxe.
REY:
Não pode o meu sprito consentir
Em crueza tamanha.
PACHECO:
Mór crueza
Fazes agora ao Reyno – agora fazes
O que faz a pouca agora em grande fogo.
Agora mais s'acende, arderá mais
O fogo do teu filho. A que vieste?
A pôr em mór perigo teu estado?
(...)
REY:
Não vejo culpa, que mereça pena.
PACHECO:
Inda hoje a viste, quem ta esconde agora?
REY:
Mais quero perdoar, que ser injusto.
COELHO:
Injusto he quem perdoa a pena justa.
REY:
Peque antes ness estremo, que em crueza.
COELHO:
Não se consente o Rey peccar em nada.
REY:
Sou homem.
COELHO:
Porém Rey.
REY:
O Rey perdoa.
PACHECO:
Nem sempre perdoar he piedade.
REY:
Eu vejo húa innocente, mãy de hús filhos
De meu filho, que mato juntamente.
COELHO:
Mas dás vida a teu filho, salvas-lh'alma,
Pacificas teu Reyno: a ti seguras.
Restitues-nos honra, paz, descanso.
Destrues a traydores; cortas quanto
Sobre ti, e teu neto se tecia.
Offensas, senhor, publicas não querem
Perdão, mas rigor grande. Daqui pende
Ou remedio d'hum reyno. ou quéda certa.
Abre os olhos às causas necessarias,
Que te monstramos sempre, e que tu vias.
Cuida no que emprendeste, e no que deixas.
O odio de teu filho contra ti,
Contra nós tal será, como qual fora,
Fazendo-se, o que deixas por fazer.
A ti ficam seus filhos, ama-os, honra-os.
Assi lh'amansarás grã parte da ira.
Senhor, por teu estado te pedimos:
Polo amor do teu povo, com que t'ama,
Polo com que sabemos que nos amas:
Mais estas razões fortes, que essa mágoa
Injusta, que depois chorarás mais,
Perdendo esta occasião, que Deos te mostra.
REY:
Eu não mando, nem vedo. Deos o julgue.
Vós outros o fazei, se vos parece
Justiça, assi matar quem não tem culpa.
COELHO:
Essa licenca basta: a tenção nossa
Nos salvará cos homens, e com Deos.
CHORO:
Em fim venceo a ira, cruel imiga
De todo bom conselho. Ah quanto podem
Palavras, e razões em peito brando!
Eu vejo teu sprito combatido
De mil ondas, ó Rey. Bom he teu zelo:
O conselho leal: cruel a obra.
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POEMAS LUSITANOS
António Ferreira (1528-1569)
SONETOS
1
Livro, se luz desejas, mal te enganas.
Quanto melhor será dentro em teu muro
Quieto, e humilde estar, inda que escuro,
Onde ninguém t'impece, a ninguém danas!
Sujeitas sempre ao tempo obras humanas
Coa novidade aprazem; logo em duro
Ódio e desprezo ficam: ama o seguro
Silêncio, fuge o povo, e mãos profanas.
Ah! não te posso ter! deixa ir comprindo
Primeiro tua idade; quem te move
Te defenda do tempo, e de seus danos.
Dirás que a pesar meu fostes fugindo,
Reinando Sebastião, Rei de quatro anos:
Ano cinquenta e sete: eu vinte e nove.
2
Dos mais fermosos olhos, mais fermoso
Rosto, que entre nós há, do mais divino
Lume, mais branca neve, ouro mais fino,
Mais doce fala, riso mais gracioso:
Dum Angélico ar, de um amoroso
Meneio, de um esprito peregrino
Se acendeu em mim o fogo, de que indino
Me sinto, e tanto mais assi ditoso.
Não cabe em mim tal bem-aventurança.
É pouco üa aima só, pouco üa vida,
Quem tivesse que dar mais a tal fogo!
Contente a alma dos olhos água lança
Pelo em si mais deter, mas é vencida
Do doce ardor, que não obedece a rogo.
3
S'erra minh'alma, em contemplar-vos tanto,
E estes meus olhos tristes, em vos ver,
S'erra meu amor grande, em não querer
Crer que outra cousa há ai de mor espanto,
S'erra meu esprito, em levantar seu canto
Em vós, e em vosso nome só escrever,
S'erra minha vida, em assi viver
Por vós continuamente em dor, e pranto,
S'erra minha esperança, em se enganar
Já tantas vezes, e assi enganada
Tornar-se a seus enganos conhecidos,
S'erra meu bom desejo, em confiar
Que algu'hora serão meus males cridos,
Vós em meus erros só sereis culpada.
4
Quando entoar começo com voz branda
Vosso nome de amor. doce, e suave,
A terra, o mar, vento, água, flor, folha, ave
Ao brando som se alegra, move, e abranda.
Nem nuvem cobre o céu, nem na gente anda
Trabalhoso cuidado, ou peso grave,
Nova cor toma o Sul, ou se erga, ou lave
No claro Tejo, e nova luz nos manda.
Tudo se ri, se alegra, e reverdece.
Todo mundo parece que renova.
Nem há triste planeta, ou dura sorte.
A minh'alma só chora, e se entristece,
Maravilha de Amor cruel, e nova!
O que a todos traz vida, a mim traz morte.
5
Se meu desejo só é sempre ver-vos,
Que causará, senhora, que em vos vendo
Assi me encolho logo, e arrependo,
Que folgaria então poder esquecer-vos?
Se minha glória só é sempre ter-vos
No pensamento meu, porque em querendo
Cuidar em vós, se vai entristecendo?
Nem ousa meu esprito em si deter-vos?
Se por vós só a vida estimo, e quero,
Como por vós a morte só desejo?
Quem achará em tais contrários meio?
Não sei entender o que em mim mesmo vejo.
Mas que tudo é amor, entendo, e creio,
E no que entendo, e creio, nisso espero.
6
(À morte da esposa)
Ó alma pura enquanto cá vivias,
Alma, lá onde vives, já mais pura,
Porque me desprezaste? Quem tão dura
Te tornou ao amor que me devias?
Isto era o que mil vezes prometias,
Em que minha alma estava tão segura?
Que ambos juntos Da hora desta escura
Noute nos subiria aos claros dias?
Como em tão triste cárcer' me deixaste?
Como pude eu sem mi deixar partir-te?
Como vive este corpo sem sua alma?
Ah! que o caminho tu bem mo mostraste,
Porque correste à gloriosa palma!
Triste de quem não mereceu seguir-te!
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Bernardim Ribeiro
MENINA E MOÇA
1. Monólogo da Menina
Menina e moça me levaram de casa de minha mãi para muito longe. Que causa fosse então daquela minha levada, era ainda piquena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que despois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, cuitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha.
Escolhi para meu contentamento (se em tristezas e cuidados há i algum) vir-me viver a este monte onde o lugar e a míngoa da conversação da gente fosse como já pera meu cuidado cumpria, porque grande erro fora, depois de tantos nojos quantos eu com estes meus olhos vi, aventurar-me ainda a esperar do mundo o descanso que ele não deu a ninguém. Estando eu assi só, tão longe de toda a gente e de mim ainda mais longe, donde não vejo senão serras que se não mudam, de um cabo, nunca, e do outro ágoas do mar que nunca estão que das, onde cuidava eu já que esquecia à desaventura por que ela e depois eu, a todo poder que ambas pudemos, não deixámos em mim nada em que pudesse achar lugar nova mágoa; antes tudo havia muito tempo, como há, que é povoado de tristezas, e com rezão. Mas parece que das desaventuras há mudança para outras desaventuras, que do bem não a havia para outro bem. E foi assi que, por caso estranho, fui levada em parte onde me foram diante meus olhos apresentadas em coisas alheas todas as minhas angústias, e o meu sentido de ouvir não ficou sem sua parte de dor.
Ali vi então, na piedade que houve de outrem, camanha a devera de ter de mim, se não fora demasiadamente mais amiga de minha dor do que parece que foi de mim quem me é a causa dela. Mas tamanha é a razão por que são triste, que nunca me veo mal nenhum que eu já não andasse em busca dele. Daqui me veo a mim parecer que esta mudança em que me eu agora vejo, já a eu então começava a buscar, quando me esta terra, onde me ela aconteceo. aprouve mais que outra nenhüa para vir nela acabar os poucos dias de vida, que eu cuidei me sobejavam. Mas em isto como em as outras cousas também me enganei, que agora já há dous anos que estou aqui, e não sei ainda tão-somente determinar pera quando me aguarda a derradeira hora. Não pode já vir longe.
Isto me pôs em dúvida de começar a escrever as cousas que vi e ouvi. Mas despois, cuidando comigo, disse eu que arrecear de não acabar de escrever o que vi, não era causa e para o deixar de fazer, pois não havia de escrever pera ninguém senão pera mim só, ante quem cousas não acabadas não havia de ser novo. Que quando vi eu prazer acabado ou mal que tivesse fim? Antes me pareceo que este tempo que hei-de estar assi em este ermo, como ao meu mal aprouve, não o podia empregar em cousa que mais de minha vontade fosse. Pois Deus quis, assi minha vontade seja.
Se em algum tempo se achar este livro de pessoas alegres, não o leam. Que, por aventura, parecendo-lhe que seus casos serão mudáveis como os aqui contados, o seu prazer lhes será menos prazer. Isto, onde eu estivesse, me doeria, porque assaz abastava nacer eu pera minhas mágoas, senão ainda para as doutrem. Os tristes o poderão ler, mas aí não os houve mais homens, depois que nas mulheres houve piedade. Nas mulheres, sim, por que sempre nos homens houve desamor. Mas para elas não o faço eu, que, pois que o seu mal é tamanho que se não pode confortar com outro nenhum, é para as mais entristecer. Sem-razão seria querer eu que o lessem elas, mas antes lhes peço muito que fujam dele e de todalas cousas de tristeza. Que ainda com isto poucos serão os dias que hão-de poder ser ledas, porque assi está ordenado pela desventura com que elas nascem. Para üa só pessoa podia ele ser, mas desta não soube eu mais parte, depois que suas desditas e minhas o levaram para longes terras e estranhas, onde bem sei eu que, vivo ou morto, o possue a terra sem prazer nenhum.
Meu amigo verdadeiro, quem me vos levou tão longe? Que vós comigo e eu convosco, sós soíamos passar nossos nojos grandes, e tão pequenos para os de despois! A vós contava eu tudo. Como vós vos fostes, tudo se tornou tristeza, nem parece ainda senão que estava espreitando já que vos fôsseis. E porque tudo ainda mais me magoasse tão-somente não me foi deixado em vossa partida o conforto de saber para que parte de terra íeis, que descansaram meus olhos em levarem para lá a vista. Tudo me foi tirado, no meu mal nem remédio nem conforto houve aí. Para morrer asinha, me pudera isto aproveitar, mas para isto não me aproveitou. Inda convosco usou desaventura algum modo de piedade em vos alongar desta terra, pois que pera não sentirdes mágoas não havia remédio, para as não ouvirdes vo-lo deu. Coitada de mim, que estou falando e não vejo ora eu que leva o vento as minhas palavras, e 'e que me não pode ouvir a quem falo!
Bem sei que não era eu para isto a que me quero ora pôr, porque escrever algüa cousa pede alto repouso, e a mim as minhas mágoas oras me levam para um cabo, oras para outro, e trazem-me assi, que me é forçado tomar as palavras que me elas dão, porque não são tão constrangida servir ao engenho como à minha dor. Destas culpas me acharão muitas neste livrinho, mas da minha ventura foram elas. Ainda que, quem me manda a mim olhar por culpar nem desculpas, que o livro há-de ser do que vai escrito nele! Das tristezas não se pode contar nada ordenadamente, porque desordenadamente acontecem elas, e também por outra parte não me dá nada não o lea ninguém, que eu não o faço senão para um só, ou para nenhum, pois dele, como disse, não sei parte tanto há. Mas se ainda está para me ser em algum tempo outorgado que este pequeno penhor de meus longos sospiros vá ante os seus olhos, muitas outras cousas desejo, mas esta me seria assaz.
Neste monte mais alto de todos que eu vim buscar pela soidade deferente dos outros que nele achei, passava eu minha vida como soía, ora em me ir pelos fundos destes vales que o cingem ao derredor, ora em me pôr do mais alto dele a olhar a terra como ia acabar ao mar, e depois o mar como se estendia logo após ela, para se ir acabar onde o ninguém visse. Mas quando vinha a noute, aceita a meus pensamentos, que via as aves buscar os pousos, üas chamarem as outras, parecendo que queria assossegar a terra mesma, então eu triste, com os cuida dos dobrados dos com que amanhecera, me recolhia para minha pobre casa, onde só Deus me é boa testemunha de como as noutes dormia.
Assi passava eu o tempo, quando, üa das passadas, pouco haveria, alevantado-me eu, vi a manhã como se erguia fermosa, estender-se graciosamente por entre os vales e deixar indo os altos. que já o Sol, alevantado até os peitos, vinha tomando posse nos outeiros, como quem se queria senhorear da terra. As doces aves, batendo as asas, andavam buscando üas as outras. Os pastores, tangendo as suas frautas e rodeados dos seus gados, começavam d'assomar já pelas cumiadas. Para todos parecia que vinha aquele dia assi ledo. Os meus cuidados sós, vendo como vinha o seu contrário, ao parecer, poderoso, recolheram-se a mim, pondo-me ante os olhos pera quanto prazer pudera aquele dia vir, se não fora tudo tão mudado, por onde o que fazia alegre todas as cousas, a mim só teve causa de fazer triste. E como os meus cuidados, para o que tinha a ventura já ordenado, me começassem d'entrar pola lembrança de algum tempo que foi, e que nunca fora, ensenhorearam-se assi de mim, que me não podia já sofrer a par da minha casa, e desejava ir-me por lugares sós onde desabafasse em sospirar. E ainda bem não foi alto dia, quando eu (parece que o senti) determinei ir-me pera o pé deste monte que de arvoredos grandes e verdes ervas e deleitosas sombras cheo é, por onde corre um pequeno ribeiro de ágoa de todo ano, que nas noutes caladas o rogido dele faz no mais alto deste monte um saudoso tom que mui tas vezes me tolheo o sono a mim, onde eu vou muitas vezes deixar as minhas lágrimas, onde também muitas infindas as torno a beber.
Começava então de querer cair a calma e no caminho, com a pressa que eu levava por fugir a ela, ou pola desaventura que me levava, três ou quatro vezes caí, mas eu, que depois de triste cuidei que não tinha mais que temer, não olhei nada por aquilo em que parece que Deus me queria avisar da mudança que depois havia de vir. Chegando à borda, olhei pera onde via maiores sombras e pareceram-me as que estavam além do rio. Disse eu então entre mim que naquilo se enxergava que era mais desejado tudo o que com mais trabalho se podia haver, porque não se podia ir além sem se passar a ágoa que corria ali mais mansa e mais alta que noutra parte. Mas eu, que sempre folguei de buscar meu dano, passei além e fui-me assentar de sob a espessa sombra de um verde freixo que para baixo um pouco estava e alguas das ramas estendia por cima da ágoa que ali fazia tamalavez de corrente e, empedida de um penedo que no meo dela estava, se partia para um e outro cabo, murmurando. Eu que os olhos levava ali postos, comecei a cuidar como nas cousas que não tinham entendimento havia também fazerem-se üas às outras nojo, e estava ali aprendendo tomar algum conforto no meu mal, que assi aquele penedo estava ali anojando aquela ágoa que queria ir seu caminho, como as minhas desaventuras noutro tempo soíam fazer a tudo o que mais queria, que agora já não quero nada. E crecia-me daquilo um pesar, porque a cabo do penedo tomava a ágoa a juntar-se e ir seu caminho sem estrondo algum, mas antes parecia que corria ali mais depressa que pela outra parte, e dizia eu que seria aquilo por se apartar mais asinha daquele penedo, imigo de seu curso natural que, como por força, ali estava.
Não tardou muito que, estando eu assi cuidando, sobre um verde ramo que por cima da ágoa se estendia se veo apousentar um roussinol, e começou tão doce mente cantar que de todo me levou após si o meu sentido de ouvir. E ele cada vez crecia mais em seus queixumes, cada hora parecia que como cansado queria acabar, senão quando tornava como que começava então. A triste da avezinha que, estando-se assi queixando, não sei como, caío morta sobre a ágoa, e caindo por entre as ramas, muitas folhas caíram também com ela! E pareceo aquilo sinal de pesar àquele arvoredo seu caso tão desestrado. Levava-a após si a ágoa e as folhas após ela. Quisera-a eu tomar, mas por a corrente que ali fazia grande, e por o mato que dali para baixo acerca do rio logo estava, prestesmente se me alongou da vista. Mas o coração me doeu tanto então em ver tão asinha morto quem antes, tão pouco havia, que vira estar cantando, que não pude ter as lágrimas.
Certo que por cousa deste mundo, depois que eu perdi outra cousa, não me pareceo a mim que chorasse assi de vontade. Mas em parte este meu cuidado não foi em vão porque, ainda que por a desaventura daquela avezinha fossem causadas minhas lágrimas, lá ao sair delas foram juntas outras minhas lembranças tristes. Grande pedaço de tempo estive assi, embargados meus olhos antre os cuidados que muito tempo havia que me tinham já então, e inda terão, té quando venha o tempo que algüa pessoa estranha, de dó de mim, com as suas mãos cerre estes meus olhos que nunca foram fartos de me mostrarem mágoas. Estando assi olhando para donde corria a ágoa, senti bolir o arvoredo. Cuidando que fosse outra cousa, tomou-me medo, mas olhando para lá, vi que vinha üa molher e, pondo nela bem os olhos, vi que era de corpo alto, desposição boa, o rosto de senhora, dona do tempo antigo. Vestida toda de preto, no seu manso andar e seguros meneos do corpo e do rosto e olhar, parecia d'acatamento. Vinha só, na semelhança tão cuidosa, que não apartava os ramos de si, senão quando lhe empediam o caminho ou lhe feriam o rosto. Os seus pés trazia per antre as frescas ervas, e parte do vestido estendido por elas. E antre uns vagarosos passos que ela dava, de quando em quando colhia um cansado fôlego, como que lhe queria falecer a alma. Sendo junto de mim, que me vio, ajuntando as mãos à maneira de medo de molher, um pouco ficou como que vira cousa desacostumada, e eu que também assi estava, não de medo, que a sua boa sombra logo mo não consentio, mas da novidade daquilo que ainda ali não vira, havendo muito que por meu mal tinha continuado aquele lugar e toda aquela ribeira.
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DIOGO BERNARDES
Diogo Bernardes (1520-1605)
ALGUNS POEMAS
As plantas rindo estão, estão vestidas
De verde variado de mil cores;
Cantam tarde e manhã os seus amores
As aves, que d'Amor andam vencidas.
As neves, já nos montes derretidas,
Regam nos baixos vales novas flores;
Alegram as cantigas dos pastores
As Ninfas pelos bosques escondidas.
O tempo, que nas cousas pode tanto,
A graça, que por ele a terra perde,
Lhe torna com mais graça e fermosura.
Só pera mim nem flor nem erva verde,
Nem água clara tem, nem doce canto,
Que tudo falta a quem falta ventura.
Onde porei meus oihos que não veja
A causa, donde nasce meu tormento?
A que parte irei co pensamento
Que pera descansar parte me seja?
já sei como s'engana quem deseja,
Em vão amor firme contentamento,
De que, nos gostos seus, que são de vento,
Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.
Mas inda, sobre claro desengano,
Assim me traz est'alma sogigada,
Que dele está pendendo o meu desejo;
E vou de dia em dia, de ano em ano,
Após um não sei quê, após um nada,
Que, quanto mais me chego, menos vejo.
Meu pátrio Lima, saudoso e brando,
Como não sentirá quem Amor sente,
Que partes deste vale descontente,
Donde também me parte suspirando?
Se tu, que livre vás, vás murmurando,
Que farei eu, cativo, estando ausente?
Onde descansarei de dor presente,
Que tu descansarás no mar entrando?
Se te não queres consolar comigo,
Ou pede ao Céu que nossa dor nos cure,
Ou que trespasse em mim tua tristeza:
Eu só por ambos chore, eu só murmure,
Que d'um fado cruel o curso sigo,
Não tu, que segues tua natureza.
Águas do claro Lima, que corria
Pera mim, noutro tempo, claro e puro,
Que correr vejo agora turvo, escuro,
Quem afogou em vós minh'alegria?
Cuidei que com vos ver descansaria
Do mal do cativeiro, triste e duro;
Mas mais sem gosto aqui, menos seguro
Me vejo, do que me vi em Berberia.
Mudança vejo aqui em arvoredos:
Creceram muitos, muitos acabaram,
Fez seu ofício em tudo a natureza;
Duas cousas, porém, não se mudaram:
Lugar e duro ser destes penedos,
De vossos naturais teima a dureza.
ALHEIO
Que vistes meus olhos
Neste bem, que vistes
Que vos vejo tristes?
VOLTAS
As vossas lembranças
Não vos dão tormentos,
Nem levam os ventos
Vossas esperanças.
Não sei que mudanças
Vós de novo vistes,
Que vos vejo tristes.
Que dor ou que medos
Causam vossa dor?
Lágrimas d'amor
Descobrem segredos.
Eu vos via ledos;
Vós não sei que vistes,
Que vos vejo tristes.
Escapei de cem mil Mouros,
e nesta serra Somata
Üa só Moura me mata.
VOLTAS
Vede quem dará certeza
A sucessos da ventura!
Pois faz em mim a brandura
O que não fez a crueza:
É tal sua gentileza
Que, nesta serra Somata,
Ela é a que só mata.
Quem haverá que não moura
Por esta Moura que mouro,
Se nos seus cabelos d'ouro
O Sol se prende e se doura?
É rosada, alva, e loura.
Não sei se lhe chame ingrata,
Pois um seu cativo mata.
Certo que, se livre fora
Do cativeiro em que vivo,
A me querer por cativo,
Não quisera outra senhora.
Com me matar me namora,
E quando melhor me trata,
Então de todo me mata.
CONTINUAÇÃO
quarta-feira, 11 de junho de 2008
ANTOLOGIA DE LITERATURA PORTUGUESA, 2
Fernão Lopes de Castanheda (1500-1559)
HISTÓRIA DO DESCOBRIMENTO E CONQUISTA DA ÍNDIA PELOS PORTUGUESES
(extracto)
Concertadas as naus de todo o necessário, Vasco da Gama tornou a seu descobrimento e partiu-se um sábado, vinte e quatro de Fevereiro, e aquele dia foi na volta do mar, e assi a noute seguinte, por se afastar da costa, que toda era mui graciosa. E uma quinta-feira à tarde, que foi o primeiro de Março, viu quatro ilhas, duas perto da costa e duas ao mar, e por não ir de noute dar nelas se fez na volta do mar, porque determinava de ir por entre elas, como foi, mandando diante Nicolau Coelho, por ser o seu navio mais pequeno que os outros. E, indo ele à sexta-feira por dentro de uma angra que se fazia entre a terra e hüa das ilhas, errou o canal e achou baixo, o que foi causa de virar atrás para os outros navios que iam após ele; e, em virando, viu que saíam daquela ilha sete ou oito barcos à vela.
A gente que vinha dentro eram homem baços e de bons corpos, vestidos de panos de algodão listrados e de muitas cores, uns cingidos até o giolho e outros sobraçados como capas, e nas cabeças fotas com vivos de seda lavrados de fio de ouro, e traziam terçados mouriscos e adagas. Estes homens, como chegaram aos navios, entraram dentro mui seguramente, como que conheceram os portugueses, e assi conversaram logo com es, e falavam aravia, no que se conheceu que eram mouros. Vasco da Gama lhe mandou dar de comer, e eles comeram e beberam; e, perguntados por um Fernão Martins, que sabia aravia, que terra era aquela, disseram que era hüa ilha do senhorio dum grande rei que estava adiante, e chamava-se a ilha Moçambique, povoada de mercadores que tratavam com mouros da Índia, que e trazia m prata, cravo, pimenta, gengibre, anéis de prata, com muitas pérolas, aljôfar, e rubis, e que doutra terra, que ficava atrás, lhe traziam ouro; e que, se ele quisesse entrar pera dentro do porto, que eles o meteriam, e lá veria mais largamente o que diziam. Ouvido isto por Vasco da Gama, houve conselho com os outros capitães que seria bom que entrassem, assi pera verem se era verdade o que aqueles mouros diziam, como pera tomarem pilotos que os guiassem dali por diante, pois os não tinham, e que Nicolau Coelho fosse sondar a barra: e assi se fez.
A povoação é de casas palhaças, povoada de mouros, que tratavam dali pera Sofala em grandes naus e sem coberta nem pregadura, cosidas com cairo, e as velas de esteiras de palma, e algüas traziam agulhas genoíscas, porque se regiam por quadrantes e cartas de marear. Com estes mouros vinham tratar mouros da Índia e do Mar Roxo, por amor do ouro que ali achavam. E, quando eles viram os nossos, cuidaram que eram turcos por a notícia que tinha de Turquia pelos mouros do Mar Roxo. E aqueles que foram primeiro à nossa frota o foram dizer ao Sultão, que assim chamavam ao governador do lugar que o governava por el-rei de Quíloa, de cujo senhorio era esta ilha.
Fernão Lopes de Castanheda, História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, Livro I, Cap. V.
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Fernão Mendes Pinto (1510?-1583)
PEREGRINAÇÃO
CAP. I – Do que passei em minha mocidade neste reino até que me embarquei para a Índia
Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram, começados no princípio da minha primeira idade e continuados pela maior parte e melhor tempo da minha vida, acho que com muita razão me posso queixar da ventura que parece que tomou por particular tenção e empresa sua perseguir-me e maltratar-me, como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome e de grande glória; porque vejo que, não contente de me pôr na minha Pátria logo no começo da minha mocidade, em tal estado que nela vivi sempre em misérias e em pobreza, e não sem alguns sobressaltos e perigos da vida, me quis também levar às partes da Índia, onde em lugar do remédio que eu ia buscar a elas as me foram crescendo com a idade os trabalhos e os perigos. Mas por outro lado, quando vejo que do meio de todos estes perigos e trabalhos me quis Deus tirar sempre a salvo e pôr-me em segurança, acho que não tenho tanta razão de me queixar de todos os males passados, quanta tenho de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha intenção escrevê-la para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que Passei no decurso de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezassete vendido, nas partes da Ìndia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago dos comfins da Ásia, a que os escritores chins, siameses, guéus, léquios, chamam em suas geografias a pestana do mundo, como ao adiante espero tratar muito particular e muito amplamente. Daqui por um lado tomem os homens motivo de não desanimarem com os trabalhos da vida para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana, ajudada do favor divino, e por outro me ajudem a dar graças ao Senhor omnipotente por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram, e dela as forças e o ânimo para os poder passar e escapar deles com vida. E tomando para princípio desta minha peregrinação o que passei neste Reino, digo que depois de ter vivido até à idade de dez ou doze anos na miséria e estreiteza da pobre casa de meu pai na vila de Montemor-o-Velho, um tio meu, parece que desejoso de me encaminhar para melhor fortuna, me trouxe para a cidade de Lisboa e me pôs ao serviço de uma senhora de geração assaz nobre e de parentes assaz ilustres, parecendo-lhe que pela valia tanto dela como deles poderia haver efeito o que ele pretendia para mim. Isto era no tempo em que na mesma cidade de Lisboa se quebraram os escudos pela morte de E1-Rei D. Manuel, de gloriosa memória, que foi em dia de Santa Luzia, aos treze dias do mês de Dezembro do ano de 1521, de que eu estou bem lembrado, e de outra coisa mais antiga deste reino me não lembro. A intenção deste meu tio não teve o sucesso que ele imaginava, antes o teve muito diferente, porque havendo ano e meio, pouco mais ou menos, que eu estava ao serviço desta senhora, me sucedeu um caso que me pôs a vida em tanto risco que para a poder salvar me vi forçado a sair naquela mesma hora de casa, fugindo com a maior pressa que pude. E indo eu assim tão desatinado com o grande medo que levava, que não sabia por onde ia, como quem vira a morte diante dos olhos e a cada passo cuidava que a tinha comigo, fui ter ao cais da pedra onde achei uma caravela de Alfama que ia com cavalos e fato de um fidalgo para Setúbal, onde naquele tempo estava E1-Rei D. João III, que santa glória haja com toda a corte, por causa da peste que então havia em muitos lugares do Reino: nesta caravela me embarquei eu, e ela partiu logo. Ao outro dia pela manhã, estando nós em frente de Sesimbra, nos atacou um corsário francês, o qual abalroando connosco, nos lançou dentro quinze ou vinte homens, os quais sem resistência ou reacção dos nossos, se assenhorearam do navio, e depois de o terem despojado de tudo quanto acharam nele, que valia mais de seis mil cruzados, o meteram no fundo; e a dezassete que escapámos com vida, atados de pés e mãos, nos meteram no seu navio com a intenção de nos venderem em Larache, para onde se dizia que iam carregados de armas que para negociar levavam aos mouros. E, trazendo-nos com esta determinação mais treze dias, banqueteados cada hora de muitos açoites, quis a sua boa fortuna que ao cabo deles, ao pôr do Sol, vissem um barco e seguindo-o aquela noite, guiados pela sua esteira, como velhos oficiais práticos naquela arte, a alcançaram antes de ser rendido o quarto da modorra, e dando-lhe três descargas de artilharia a abalroaram muito esforçadamente: e ainda q na defesa tivesse havido da parte dos nossos alguma resistência, isso não bastou para que os inimigos deixassem de entrar nela, com morte de seis portugueses e dez ou doze escravos.
Era este navio uma formosa nau de um mercador de Vila do Conde, que se chamava Silvestre Godinho, que outros mercadores de Lisboa traziam fretada de S. Tomé, com grande carregamento de açúcares e escravaria, a qual os pobres roubados, que lamentavam sua desventura, calculavam que valesse quarenta mil cruzados. Logo que estes corsários se viram com presa tão rica, mudando o propósito que antes traziam, se fizeram a caminho de França e levaram consigo alguns dos nossos para serviço da mareação da nau que tinham tomado. E aos outros mandaram uma noite lançar na praia de Melides, nus e descalços e alguns com muitas chagas dos açoites que tinham levado, os quais desta maneira foram ao outro dia ter a Santiago de Cacém, no qual lugar todos foram muito bem providos do necessário pela gente da terra, e principalmente por uma senhora que aí estava, de nome D. Brites, filha do conde de Vilanova, mulher de Alonso Perez Pantoja, comendador e alcaide-mor da mesma vila.
Depois que os feridos e os doentes foram convalescidos, cada um se foi para onde lhe pareceu que teria o remédio mais certo da vida, e o pobre de mim com outros seis ou sete tão desamparados como eu, fomos ter a Setúbal, onde me caiu em sorte mão de mim um fidalgo do Mestre de Santiago, de nome Francisco de Faria, o qual servi quatro anos, em satisfação dos quais me deu ao mesmo Mestre de Santiago, como seu moço de câmara, a quem servi um ano e meio. Mas porque o que então era costume dar-se nas casas dos príncipes me não bastasse para minha sustentação, determinei embarcar-me para a Índia, ainda que com poucas ilusões, já disposto a toda a ventura, ou má ou boa, que me sucedesse.
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Francisco de Sá de Miranda (1481-1558)
SONETOS
1
O sol é grande: caem coa calma as aves,
Do tempo em tal sazão, que sói ser fria.
Esta água que de alto cai acordar-me-ia,
Do sono não, mas de cuidados graves.
Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
Qual é tal coração que em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
Incertos muito mais que ao vento as naves.
Eu vira já aqui sombras, vira flores,
Vi tantas águas, vi tanta verdura,
As aves todas cantavam de amores.
Tudo é seco e mudo; e, de mistura,
Também mudando-me eu fiz doutras cores.
E tudo o mais renova: isto é sem cura!
2
Aquela fé tão clara e verdadeira,
A vontade tão limpa e tão sem mágoa,
Tantas vezes provada em viva frágua
De fogo, i apurada, e sempre inteira;
Aquela confiança, de maneira
Que encheu de fogo o peito, os olhos de água,
Por que eu ledo passei por tanta mágoa,
Culpa primeira minha e derradeira,
De que me aproveitou? Não de al por certo
Que dum só nome tão leve e tão vão,
Custoso ao rosto, tão custoso à vida.
Dei de mim que falar ao longe e ao perto;
E já assi se consola a alma perdida,
Se não achar piedade, ache perdão.
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GARCIA DE RESENDE
O Cancioneiro Geral, publicado por Garcia de Resende em 1516,
PRÓLOGO DO CANCIONEIRO GERAL
Muito alto e muito poderoso Príncipe Nosso Senhor
Porque a natural condiçam dos Portugueses é nunca escreverem cousa que façam, endo dinas de grande memória, muitos e mui grandes feitos de guerra; paz e vertudes, de ciência, manhas e gentilezas sam esquecidos. Que, se os escritores se quisessem acupar a verdadeiramente escrever nos feitos de Roma, Tróia e todas outras antigas crónicas e estórias, nam achariam mores façanhas nem mais notáveis feitos que os que dos nossos naturais se podiam escrever, assi dos tempos passados como d'agora: tantos reinos e senhorios, cidades, vilas, castelos, per mar e per terra tantas mil légoas, per força d'armas tomados, sendo tanta a multidão de gente dos contrairos e tam pouca a dos nossos, sostidos com tantos trabalhos, guerras, fomes e cercos, tão longe d'esperança de ser socorridos, senhoreando per força d'armas tanta parte de África, tendo tantas cidades, vilas e fortalezas tomadas e continuamente em guerra sem nunca cessar, e assi Guiné, sendo muitos reis grandes e grandes senhores seus vassalos e trebutários e muita parte de Etiópia, Arábia, Pérsia e Índias, onde tantos reis mouros e gentios e grandes senhores sam per força feitos seus súditos e servidores, pagando-lhe grandes páreas e tributos e muitos destes pelejando por nós, debaixo da bandeira de Cristos com os nossos capitães, contra os seus naturais, conquistando quatro mil légoas por mar que nenhúas armadas do Soldam nem outro nenhum gram rei nem senhor nom ousam navegar com medo das nossas, perdendo seus tratos, rendas e vidas, tornando tantos reinos e senhorios com inumerável gente à fé de Jesu Cristo, recebendo água do santo bautismo, e outras notáveis cousas que se não podem em pouco escrever.
Todos estes feitos e outros muitos doutras sustâncas nam sam devulgados como foram, se gente doutra naçam os fizera. E causa isto serem tam confiados de si, que não querem confessar que nenhuns feitos sam maiores que os que cada um faz e faria, se o nisso metessem. E por esta mesma causa, muito alto e poderoso Príncepe, muitas cousas de folgar e gentilezas sam perdidas, sem haver delas notícia, no qual conto entra a arte de trovar que em todo tempo foi mui estimadada e com ela Nosso Senhor louvado, como nos hinos e cânticos que na Santa Igreja se cantam se verá.
E assi muitos emperadores, reis e pessoas de memória, polos rimances e trovas sabemos suas estórias e nas cortes dos grandes Príncepes é mui necessária na gentileza, amores, justas e momos e também para os que maus trajos e envenções fazem, per trovas sam castigados e lhe dam suas emendas, como no livro ao adiante se verá. E se as que sam perdidas dos nossos passados se puderam haver e dos presentes se escreveram, creo que esses grandes Poetas que per tantas partes sam espalhados não teveram tanta fama como tem.
E porque, Senhor, as outras cousas sam em si tam grandes que por sua grandeza e meu fraco entender nam devo de tocar nelas, nesta que é a somenos, por em algúa parte satisfazer ao desejo que sempre tive de fazer algúa cousa em que Vossa Alteza fosse servido e tomasse desenfadamento, determinei ajuntar algúas obras que pude haver dalguns passados e presentes e ordenar este livro, nam pera por elas mostrar quais foram e sam, mas para os que mais sabem s'espertarem a folgar d'escrever e trazer à memória os outros grandes feitos, nos quais nam sam dino de meter a mão.
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GIL VICENTE
AUTO DA BARCA DO INFERNO
(extractos)
Barqueiro mano, meus olhos,
prancha a Brísida Vaz.
ANJO: Eu não sei quem te cá traz...
BRI.: Peço-vo-lo de giolhos!
Cuidais que trago piolhos,
anjo de Deos, minha rosa?
Eu sô aquela preciosa
que dava as moças a molhos,
a que criava as meninas
pera os cónegos da Sé...
Passai-me, por vossa fé,
meu amor, minhas boninas,
olho de perlinhas finas!
E eu som apostolada,
angelada e martelada,
e fiz cousas mui divinas.
(...)
DIA.: E as peitas dos judeus
que a vossa mulher levava?
COR.: Isso eu não o tomava
eram lá percalços seus.
Nom som pecatus meus,
peccavit uxore mea.
DIA.: Et vobis quoque cum ea,
não temuistis Deus.
A largo modo adquiristis
sanguinis laboratorum
ignorantis peccatorum.
Ut quid eos non audistis?
COR.: Vós, arrais, nonne legistis
que o dar quebra os pinedos?
Os direitos estão quedos,
sed aliquid tradidistis...
(...)
JUD.: Porque nom irá o judeu
onde vai Brísida Vaz?
Ao senhor meirinho apraz?
Senhor meirinho, irei eu?
DIA.: E o fidalgo, quem lhe deu...
JUD.: O mando, dizês, do batel?
Corregedor, coronel,
castigai este sandeu!
Azará, pedra miúda,
lodo, chanto, fogo, lenha,
caganeira que te venha!
Má corrença que te acuda!
Par el Deu, que te sacuda
coa beca nos focinhos!
Fazes burla dos meirinhos?
CAV.: À barca, à barca segura,
barca bem guarnecida,
à barca, à barca da vida!
Senhores que trabalhais
pola vida transitória,
memória, por Deos, memória
deste temeroso cais!
À barca, à barca, mortais,
barca bem guarnecida,
à barca, à barca da vida!
Vigiai-vos, pecadores,
que, despois da sepultura,
neste rio está a ventura
de prazeres ou dolores!
À barca, à barca, senhores,
barca mui nobrecida,
à barca, à barca da vida!
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Gil Vicente
Fala do Lavrador:
Sempre é morto quem do arado
há-de viver.
Nós somos vida das gentes
e morte de nossas vidas;
a tiranos, pacientes,
que a unhas e a dentes
nos tem as almas roídas.
Para que é parouvelar?
Que queira ser pecador
o lavrador;
não tem tempo nem lugar
nem somente d'alimpar
as gotas do seu suor.
Auto da Barca do Purgatório
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João de Barros (1496?-1570?)
DÉCADAS DA ÁSIA
VOLUME I
CAPÍTULO I
Como el-rei dom Manuel, no segundo ano do seu reinado, mandou Vasco da Gama com quatro velas ao descobrimento da Índia.
Falecido el-rei dom João, sem legítimo filho que o sucedesse no reino, foi alevantado por rei (segundo ele deixará o seu testamento) o duque de Beja, dom Manuel, seu primo co-irmão, filho do infante dom Fernando, irmão de el-rei dom Afonso; a quem por legítima sucessão era devida esta real herança, da qual recebeu posse pelo cetro dela, que lhe foi entregue em Alcácer do Sal, a vinte e sete dias de Outubro do ano de nossa redenção de mil quatro centos e noventa e cinco; sendo em idade de vinte e seis anos, quatro meses e vinte e cinco dias (como mui particularmente escrevemos em outra nossa parte intitulada Europa, e ali em sua própria crónica).
E porque, com estes reinos e senhorios, também herdava o prosseguimento de tão alta empresa como seus antecessores tinham tomado, que era o descobrimento do oriente por esse nosso mar oceano, que tanta indústria, tanto trabalho, e despesa, por discurso de setenta e cinco anos tinha custado, quis logo, no primeiro ano de seu reinado, mostrar quanto desejo tinha de acrescentar á coroa deste reino novos títulos sobre o senhorio de Guiné, que, por razão deste descobrimento, el-rei dom Joam, seu primo, tomou, como posse da esperança de outros maiores estados que por esta via estavam por descobrir. Sobre o qual caso, no ano seguinte de noventa e seis, estando em Montemor-o-Novo, teve alguns gerais conselhos: em que houve muitos e diferentes votos, os mais foram que a Índia não se devia descobrir. Por que, além de trazer consigo muitas obrigações por ser estado mui remoto para poder conquistar e conservar, debilitaria tanto as forças do reino que ficaria ele sem as necessárias para sua conservação. Quando mais que sendo descoberta, podia cobrar este reino novos competidores, do qual caso já tinham experiência, no que se moveu entre el-rei dom Joam e el-rei dom Fernando de Castella, sobre o descobrimento das Antilhas, chegando a tanto, que vieram repartir o mundo em duas partes iguais para o poder descobrir e conquistar. E pois desejo de estados não sabidos, movia já esta repartição, não tendo mais ante os olhos que esperança deles e algumas amostras do que se tirava do bárbaro Guiné, que seria vindo a este reino quanto se dizia daquelas partes orientais.
Porém, a estas razões houve outras em contrário, que, por serem conformes ao desejo de el-rei, lhe foram mais aceites. E as principais que o moveram, foram herdar esta obrigação com a herança do reino, e o infante dom Fernando, seu pai ter trabalhado neste descobrimento, quando por seu mandado se descobriram as ilhas de Cabo Verde, e mais por singular afeição que tinha á memória das cousas do infante dom Anrique, seu tio, que fora o autor do novo título do senhorio de Guiné que este reino houve, sendo propriedade mui proveitosa sem custo de armas e outras despesas que têm muito menores estados do que ele era. Dando por razão final, aqueles que punham os inconvenientes a se a Índia descobrir, que Deus, em cujas mãos ele punha este caso, daria os meios que convinham a bem do estado do reino.
Finalmente el-rei assentou de prosseguir neste descobrimento, e depois, estando em Estremoz, declarou a Vasco da Gama, fidalgo de sua casa, por capitão mor das velas que havia de mandar a ele, assim pela confiança que tinha de sua pessoa como por ter acção nesta ida, cá, segundo se dizia, estavam da Gama, seu pai já defunto, estava ordenado para fazer esta viagem em vida de el-rei dom Joam. O qual, depois que Bartolomeu Dias veio do descobrimento do cabo da Boa Esperança, tinha mandado cortar a madeira para os navios desta viagem, por a qual razão el-rei dom Manuel mandou ao mesmo Bartholomeu Dias que tivesse cuidado de os mandar acabar segundo ele sabia que convinha, para sofrer a fúria dos mares daquele grão cabo de Boa Esperança, que na opinião dos mareantes começava criar outra fábula de perigos, como antigamente fora a do cábo Bojador, de que no princípio falamos. E assim, pelo trabalho de Bartholomeu Dias levou ao apercebimento destes navios como para ir acompanhado Vasco da Gama até o por na paragem que lhe era necessária á sua derrota, el-rei lhe deu a capitania de um dos navios que ordinariamente iam á cidade de São Jorge da Mina.
E sendo já no ano de quatrocentos noventa e sete, em que a frota para esta viagem estava de todo prestes, mandou el-rei, estando em Montemor-o-Novo, chamar Vasco da Gama e aos outros capitães que haviam de ir em sua companhia, os quais eram Paulo da Gama, seu irmão, e Nicolau Coelho, ambos pessoas de quem el-rei confiava este cargo. E posto que por algumas vezes lhe tivesse dito sua tenção acerca desta viagem, e disso lhe tinha mandado fazer sua instrução, pela novidade da empresa que levava, quis usar com ele da solenidade que convém a taes casos, fazendo esta fala pública, a ele e aos outros capitães, perante algumas pessoas notáveis que eram presentes, e para isso chamadas:
«Depois que aprouve a Nosso Senhor que eu recebesse o cetro desta real herança de Portugal, mediante a sua graça, assi por aver a benção de meus avós de quem a eu herdei, os quais com gloriosos feitos e victórias que houveram de seus imigos a tem acrescentado por ajuda de tão leais vassalos e cavaleiros como foram aqueles donde vós vindes, como por causa de agalardoar a natural lealdade e amor com que todos me servis, a mais principal cousa que trago na memória, depois do cuidado de vos reger e governa em paz e justiça, é como poderei acrescentar o património deste meu reino, para que mais liberalmente possa distribuir por cada hum o galardão de seus serviços. E considerando eu por muitas vezes qual seria a mais proveitosa e honrada empresa e digna de maior gloria que podia tomar para conseguir esta minha tenção, pois, louvado Deus, destas partes da Europa em as de África a poder de ferro, temos lançado os mouros, e lá tomando os principais lugares dos portos do reino de Fez que é da nossa conquista, achei que nenhuma outra é mais conveniente a este meu reino (como algumas vezes com vosco tenho consultado) que o descobrimento da Índia e daquelas terras orientais. Em as quais partes, peró que sejam mui remotas da igreja Romana, espero na piedade de eos que não somente a fé de nosso Senhor Jesu Cristo seu filho seja por nossa administração publicada e recebida, com que ganharemos galardão antele, fama e louvor acerca dos homens, mas ainda reinos e novos estados com muitas riquezas vendicadas por armas das mãos dos bárbaros, dos quais meus avós com a ajuda, e serviço dos vossos e vosso, tem conquistado este meu reino de Portugal, e acrescentado a coroa dele. Porque, se da costa da Etiópia, que quase de caminho é descoberta, este meu reino tem adquirido novos títulos, novos proveitos e renda, que se pode esperar indo mais adiante com este descobrimento, se não podermos conseguir aquelas orientais riquezas tão celebradas dos antigos escritores, parte das quais por comércio têm feito tamanhas pofencias como são Veneza, Génova, Florença e outras mui grandes comunidades de Itália. Assi que, consideradas todas estas cousas de que temos experiência, e também como era ingratidão a Deus enjeitar o que nos tão favoravelmente oferece, e injuria àqueles príncipes de louvada memória de quem eu herdei este descobrimento, e ofensa a vós outros que nisso fostes, descuidar-me eu dele por muito tempo; mandei armar quatro velas que (como sabeis) em Lisboa estão de todos prestes para servir esta viagem de boa esperança. E tendo eu na memória como Vasco da Gama, que está presente, em todas cousas que lhe de meu serviço foram entregues e encomendadas, deu boa conta de si, eu o tenho escolhido para esta ida como leal vassalo e esforçado cavaleiro, merecedor de tão honrada empresa. A qual espero que lhe Nosso Senhor deixará acabar, e nela a ele e a mim faça tais serviços com que o seu galardão fique por memória nele e naqueles que o ajudarem nos trabalhos desta viagem, porque, com esta confiança, pela experiência que tenho de todos, eu os escolhi por seus ajudadores para em todo o que tocar a meu serviço lhe obedecerem. E eu, Vasco da Gama, volos encomendo, e a eles a vós, e juntamente a todos a paz e concórdia: a qual é tão poderosa que vence e passa todos perigos e trabalhos e os maiores da vida faz leves de sofrer, quanto mais os deste caminho que espero em Deus serem menores que os passados, e que por vós este meu reino consiga o fruto deles.»
Acabando el-rei de propor estas palavras, Vasco da Gama e todas as notáveis pessoas lhe beijaram a mão: assi pela mercê que fazia a ele como ao reino, em mandar a este descobrimento continuado por tantos anos que já era feito herança dele. Tornada a casa ao silêncio que tinha antes deste acto de gratificação, assentou-se Vasco da Gama em giolhos ante el-rei, e foi trazida uma bandeira de seda com uma cruz no meio das da ordem da cavalaria de Cristo, de que el-rei era governador e perpétuo administrador, a qual, estendendo o escrivão da puridade entre os braços em modo de menagem, disse Vasco da Gama em alta voz estas palavras:
«Eu Vaco da Gama, que ora por mandado de vós, mui alto e muito poderoso rei, meu senhor, vou descobrir os mares e terra do oriente da Índia, juro em o sinal desta cruz, em que ponho as mãos que por serviço de Deus e vosso, eu a ponha asteada e não dobrada, ante a vista de mouros, gentios, e de todo género de povo onde eu for, e que por todos os perigos de água, fogo, e ferro, sempre a guarde e defenda até à morte. E assi juro que na execução e obra deste descobrimento que vós, meu rei e senhor, me mandais fazer, com toda fé, lealdade, vigia, e diligência eu vos sirva guardando e cumprindo vossos regimentos que para isso me forem dados, até tornar onde ora estou ante a presença de vossa real alteza, mediante a graça de Deus em cujo serviço me enviais».
Feita esta menagem, foi-lhe entregue a mesma bandeira, e um rendimento em que se continha o que havia de fazer na viagem, e algumas cartas para os príncipes e reis a que propriamente era enviado, assi como ao Preste João das Índias, tão nomeado neste reino e a el-rei de Calecut, com as mais informações e avisos que el-rei dom João tinha havido daquelas partes segundo já dissemos. Recebidas as quais cousas el-rei o espediu; e ele se veio a Lisboa com outros capitães.
João de Barros, Décadas, I, Livro IV
HISTÓRIA DO DESCOBRIMENTO E CONQUISTA DA ÍNDIA PELOS PORTUGUESES
(extracto)
Concertadas as naus de todo o necessário, Vasco da Gama tornou a seu descobrimento e partiu-se um sábado, vinte e quatro de Fevereiro, e aquele dia foi na volta do mar, e assi a noute seguinte, por se afastar da costa, que toda era mui graciosa. E uma quinta-feira à tarde, que foi o primeiro de Março, viu quatro ilhas, duas perto da costa e duas ao mar, e por não ir de noute dar nelas se fez na volta do mar, porque determinava de ir por entre elas, como foi, mandando diante Nicolau Coelho, por ser o seu navio mais pequeno que os outros. E, indo ele à sexta-feira por dentro de uma angra que se fazia entre a terra e hüa das ilhas, errou o canal e achou baixo, o que foi causa de virar atrás para os outros navios que iam após ele; e, em virando, viu que saíam daquela ilha sete ou oito barcos à vela.
A gente que vinha dentro eram homem baços e de bons corpos, vestidos de panos de algodão listrados e de muitas cores, uns cingidos até o giolho e outros sobraçados como capas, e nas cabeças fotas com vivos de seda lavrados de fio de ouro, e traziam terçados mouriscos e adagas. Estes homens, como chegaram aos navios, entraram dentro mui seguramente, como que conheceram os portugueses, e assi conversaram logo com es, e falavam aravia, no que se conheceu que eram mouros. Vasco da Gama lhe mandou dar de comer, e eles comeram e beberam; e, perguntados por um Fernão Martins, que sabia aravia, que terra era aquela, disseram que era hüa ilha do senhorio dum grande rei que estava adiante, e chamava-se a ilha Moçambique, povoada de mercadores que tratavam com mouros da Índia, que e trazia m prata, cravo, pimenta, gengibre, anéis de prata, com muitas pérolas, aljôfar, e rubis, e que doutra terra, que ficava atrás, lhe traziam ouro; e que, se ele quisesse entrar pera dentro do porto, que eles o meteriam, e lá veria mais largamente o que diziam. Ouvido isto por Vasco da Gama, houve conselho com os outros capitães que seria bom que entrassem, assi pera verem se era verdade o que aqueles mouros diziam, como pera tomarem pilotos que os guiassem dali por diante, pois os não tinham, e que Nicolau Coelho fosse sondar a barra: e assi se fez.
A povoação é de casas palhaças, povoada de mouros, que tratavam dali pera Sofala em grandes naus e sem coberta nem pregadura, cosidas com cairo, e as velas de esteiras de palma, e algüas traziam agulhas genoíscas, porque se regiam por quadrantes e cartas de marear. Com estes mouros vinham tratar mouros da Índia e do Mar Roxo, por amor do ouro que ali achavam. E, quando eles viram os nossos, cuidaram que eram turcos por a notícia que tinha de Turquia pelos mouros do Mar Roxo. E aqueles que foram primeiro à nossa frota o foram dizer ao Sultão, que assim chamavam ao governador do lugar que o governava por el-rei de Quíloa, de cujo senhorio era esta ilha.
Fernão Lopes de Castanheda, História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, Livro I, Cap. V.
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Fernão Mendes Pinto (1510?-1583)
PEREGRINAÇÃO
CAP. I – Do que passei em minha mocidade neste reino até que me embarquei para a Índia
Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram, começados no princípio da minha primeira idade e continuados pela maior parte e melhor tempo da minha vida, acho que com muita razão me posso queixar da ventura que parece que tomou por particular tenção e empresa sua perseguir-me e maltratar-me, como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome e de grande glória; porque vejo que, não contente de me pôr na minha Pátria logo no começo da minha mocidade, em tal estado que nela vivi sempre em misérias e em pobreza, e não sem alguns sobressaltos e perigos da vida, me quis também levar às partes da Índia, onde em lugar do remédio que eu ia buscar a elas as me foram crescendo com a idade os trabalhos e os perigos. Mas por outro lado, quando vejo que do meio de todos estes perigos e trabalhos me quis Deus tirar sempre a salvo e pôr-me em segurança, acho que não tenho tanta razão de me queixar de todos os males passados, quanta tenho de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha intenção escrevê-la para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que Passei no decurso de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezassete vendido, nas partes da Ìndia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago dos comfins da Ásia, a que os escritores chins, siameses, guéus, léquios, chamam em suas geografias a pestana do mundo, como ao adiante espero tratar muito particular e muito amplamente. Daqui por um lado tomem os homens motivo de não desanimarem com os trabalhos da vida para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana, ajudada do favor divino, e por outro me ajudem a dar graças ao Senhor omnipotente por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram, e dela as forças e o ânimo para os poder passar e escapar deles com vida. E tomando para princípio desta minha peregrinação o que passei neste Reino, digo que depois de ter vivido até à idade de dez ou doze anos na miséria e estreiteza da pobre casa de meu pai na vila de Montemor-o-Velho, um tio meu, parece que desejoso de me encaminhar para melhor fortuna, me trouxe para a cidade de Lisboa e me pôs ao serviço de uma senhora de geração assaz nobre e de parentes assaz ilustres, parecendo-lhe que pela valia tanto dela como deles poderia haver efeito o que ele pretendia para mim. Isto era no tempo em que na mesma cidade de Lisboa se quebraram os escudos pela morte de E1-Rei D. Manuel, de gloriosa memória, que foi em dia de Santa Luzia, aos treze dias do mês de Dezembro do ano de 1521, de que eu estou bem lembrado, e de outra coisa mais antiga deste reino me não lembro. A intenção deste meu tio não teve o sucesso que ele imaginava, antes o teve muito diferente, porque havendo ano e meio, pouco mais ou menos, que eu estava ao serviço desta senhora, me sucedeu um caso que me pôs a vida em tanto risco que para a poder salvar me vi forçado a sair naquela mesma hora de casa, fugindo com a maior pressa que pude. E indo eu assim tão desatinado com o grande medo que levava, que não sabia por onde ia, como quem vira a morte diante dos olhos e a cada passo cuidava que a tinha comigo, fui ter ao cais da pedra onde achei uma caravela de Alfama que ia com cavalos e fato de um fidalgo para Setúbal, onde naquele tempo estava E1-Rei D. João III, que santa glória haja com toda a corte, por causa da peste que então havia em muitos lugares do Reino: nesta caravela me embarquei eu, e ela partiu logo. Ao outro dia pela manhã, estando nós em frente de Sesimbra, nos atacou um corsário francês, o qual abalroando connosco, nos lançou dentro quinze ou vinte homens, os quais sem resistência ou reacção dos nossos, se assenhorearam do navio, e depois de o terem despojado de tudo quanto acharam nele, que valia mais de seis mil cruzados, o meteram no fundo; e a dezassete que escapámos com vida, atados de pés e mãos, nos meteram no seu navio com a intenção de nos venderem em Larache, para onde se dizia que iam carregados de armas que para negociar levavam aos mouros. E, trazendo-nos com esta determinação mais treze dias, banqueteados cada hora de muitos açoites, quis a sua boa fortuna que ao cabo deles, ao pôr do Sol, vissem um barco e seguindo-o aquela noite, guiados pela sua esteira, como velhos oficiais práticos naquela arte, a alcançaram antes de ser rendido o quarto da modorra, e dando-lhe três descargas de artilharia a abalroaram muito esforçadamente: e ainda q na defesa tivesse havido da parte dos nossos alguma resistência, isso não bastou para que os inimigos deixassem de entrar nela, com morte de seis portugueses e dez ou doze escravos.
Era este navio uma formosa nau de um mercador de Vila do Conde, que se chamava Silvestre Godinho, que outros mercadores de Lisboa traziam fretada de S. Tomé, com grande carregamento de açúcares e escravaria, a qual os pobres roubados, que lamentavam sua desventura, calculavam que valesse quarenta mil cruzados. Logo que estes corsários se viram com presa tão rica, mudando o propósito que antes traziam, se fizeram a caminho de França e levaram consigo alguns dos nossos para serviço da mareação da nau que tinham tomado. E aos outros mandaram uma noite lançar na praia de Melides, nus e descalços e alguns com muitas chagas dos açoites que tinham levado, os quais desta maneira foram ao outro dia ter a Santiago de Cacém, no qual lugar todos foram muito bem providos do necessário pela gente da terra, e principalmente por uma senhora que aí estava, de nome D. Brites, filha do conde de Vilanova, mulher de Alonso Perez Pantoja, comendador e alcaide-mor da mesma vila.
Depois que os feridos e os doentes foram convalescidos, cada um se foi para onde lhe pareceu que teria o remédio mais certo da vida, e o pobre de mim com outros seis ou sete tão desamparados como eu, fomos ter a Setúbal, onde me caiu em sorte mão de mim um fidalgo do Mestre de Santiago, de nome Francisco de Faria, o qual servi quatro anos, em satisfação dos quais me deu ao mesmo Mestre de Santiago, como seu moço de câmara, a quem servi um ano e meio. Mas porque o que então era costume dar-se nas casas dos príncipes me não bastasse para minha sustentação, determinei embarcar-me para a Índia, ainda que com poucas ilusões, já disposto a toda a ventura, ou má ou boa, que me sucedesse.
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Francisco de Sá de Miranda (1481-1558)
SONETOS
1
O sol é grande: caem coa calma as aves,
Do tempo em tal sazão, que sói ser fria.
Esta água que de alto cai acordar-me-ia,
Do sono não, mas de cuidados graves.
Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
Qual é tal coração que em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
Incertos muito mais que ao vento as naves.
Eu vira já aqui sombras, vira flores,
Vi tantas águas, vi tanta verdura,
As aves todas cantavam de amores.
Tudo é seco e mudo; e, de mistura,
Também mudando-me eu fiz doutras cores.
E tudo o mais renova: isto é sem cura!
2
Aquela fé tão clara e verdadeira,
A vontade tão limpa e tão sem mágoa,
Tantas vezes provada em viva frágua
De fogo, i apurada, e sempre inteira;
Aquela confiança, de maneira
Que encheu de fogo o peito, os olhos de água,
Por que eu ledo passei por tanta mágoa,
Culpa primeira minha e derradeira,
De que me aproveitou? Não de al por certo
Que dum só nome tão leve e tão vão,
Custoso ao rosto, tão custoso à vida.
Dei de mim que falar ao longe e ao perto;
E já assi se consola a alma perdida,
Se não achar piedade, ache perdão.
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GARCIA DE RESENDE
O Cancioneiro Geral, publicado por Garcia de Resende em 1516,
PRÓLOGO DO CANCIONEIRO GERAL
Muito alto e muito poderoso Príncipe Nosso Senhor
Porque a natural condiçam dos Portugueses é nunca escreverem cousa que façam, endo dinas de grande memória, muitos e mui grandes feitos de guerra; paz e vertudes, de ciência, manhas e gentilezas sam esquecidos. Que, se os escritores se quisessem acupar a verdadeiramente escrever nos feitos de Roma, Tróia e todas outras antigas crónicas e estórias, nam achariam mores façanhas nem mais notáveis feitos que os que dos nossos naturais se podiam escrever, assi dos tempos passados como d'agora: tantos reinos e senhorios, cidades, vilas, castelos, per mar e per terra tantas mil légoas, per força d'armas tomados, sendo tanta a multidão de gente dos contrairos e tam pouca a dos nossos, sostidos com tantos trabalhos, guerras, fomes e cercos, tão longe d'esperança de ser socorridos, senhoreando per força d'armas tanta parte de África, tendo tantas cidades, vilas e fortalezas tomadas e continuamente em guerra sem nunca cessar, e assi Guiné, sendo muitos reis grandes e grandes senhores seus vassalos e trebutários e muita parte de Etiópia, Arábia, Pérsia e Índias, onde tantos reis mouros e gentios e grandes senhores sam per força feitos seus súditos e servidores, pagando-lhe grandes páreas e tributos e muitos destes pelejando por nós, debaixo da bandeira de Cristos com os nossos capitães, contra os seus naturais, conquistando quatro mil légoas por mar que nenhúas armadas do Soldam nem outro nenhum gram rei nem senhor nom ousam navegar com medo das nossas, perdendo seus tratos, rendas e vidas, tornando tantos reinos e senhorios com inumerável gente à fé de Jesu Cristo, recebendo água do santo bautismo, e outras notáveis cousas que se não podem em pouco escrever.
Todos estes feitos e outros muitos doutras sustâncas nam sam devulgados como foram, se gente doutra naçam os fizera. E causa isto serem tam confiados de si, que não querem confessar que nenhuns feitos sam maiores que os que cada um faz e faria, se o nisso metessem. E por esta mesma causa, muito alto e poderoso Príncepe, muitas cousas de folgar e gentilezas sam perdidas, sem haver delas notícia, no qual conto entra a arte de trovar que em todo tempo foi mui estimadada e com ela Nosso Senhor louvado, como nos hinos e cânticos que na Santa Igreja se cantam se verá.
E assi muitos emperadores, reis e pessoas de memória, polos rimances e trovas sabemos suas estórias e nas cortes dos grandes Príncepes é mui necessária na gentileza, amores, justas e momos e também para os que maus trajos e envenções fazem, per trovas sam castigados e lhe dam suas emendas, como no livro ao adiante se verá. E se as que sam perdidas dos nossos passados se puderam haver e dos presentes se escreveram, creo que esses grandes Poetas que per tantas partes sam espalhados não teveram tanta fama como tem.
E porque, Senhor, as outras cousas sam em si tam grandes que por sua grandeza e meu fraco entender nam devo de tocar nelas, nesta que é a somenos, por em algúa parte satisfazer ao desejo que sempre tive de fazer algúa cousa em que Vossa Alteza fosse servido e tomasse desenfadamento, determinei ajuntar algúas obras que pude haver dalguns passados e presentes e ordenar este livro, nam pera por elas mostrar quais foram e sam, mas para os que mais sabem s'espertarem a folgar d'escrever e trazer à memória os outros grandes feitos, nos quais nam sam dino de meter a mão.
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GIL VICENTE
AUTO DA BARCA DO INFERNO
(extractos)
Barqueiro mano, meus olhos,
prancha a Brísida Vaz.
ANJO: Eu não sei quem te cá traz...
BRI.: Peço-vo-lo de giolhos!
Cuidais que trago piolhos,
anjo de Deos, minha rosa?
Eu sô aquela preciosa
que dava as moças a molhos,
a que criava as meninas
pera os cónegos da Sé...
Passai-me, por vossa fé,
meu amor, minhas boninas,
olho de perlinhas finas!
E eu som apostolada,
angelada e martelada,
e fiz cousas mui divinas.
(...)
DIA.: E as peitas dos judeus
que a vossa mulher levava?
COR.: Isso eu não o tomava
eram lá percalços seus.
Nom som pecatus meus,
peccavit uxore mea.
DIA.: Et vobis quoque cum ea,
não temuistis Deus.
A largo modo adquiristis
sanguinis laboratorum
ignorantis peccatorum.
Ut quid eos non audistis?
COR.: Vós, arrais, nonne legistis
que o dar quebra os pinedos?
Os direitos estão quedos,
sed aliquid tradidistis...
(...)
JUD.: Porque nom irá o judeu
onde vai Brísida Vaz?
Ao senhor meirinho apraz?
Senhor meirinho, irei eu?
DIA.: E o fidalgo, quem lhe deu...
JUD.: O mando, dizês, do batel?
Corregedor, coronel,
castigai este sandeu!
Azará, pedra miúda,
lodo, chanto, fogo, lenha,
caganeira que te venha!
Má corrença que te acuda!
Par el Deu, que te sacuda
coa beca nos focinhos!
Fazes burla dos meirinhos?
CAV.: À barca, à barca segura,
barca bem guarnecida,
à barca, à barca da vida!
Senhores que trabalhais
pola vida transitória,
memória, por Deos, memória
deste temeroso cais!
À barca, à barca, mortais,
barca bem guarnecida,
à barca, à barca da vida!
Vigiai-vos, pecadores,
que, despois da sepultura,
neste rio está a ventura
de prazeres ou dolores!
À barca, à barca, senhores,
barca mui nobrecida,
à barca, à barca da vida!
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Gil Vicente
Fala do Lavrador:
Sempre é morto quem do arado
há-de viver.
Nós somos vida das gentes
e morte de nossas vidas;
a tiranos, pacientes,
que a unhas e a dentes
nos tem as almas roídas.
Para que é parouvelar?
Que queira ser pecador
o lavrador;
não tem tempo nem lugar
nem somente d'alimpar
as gotas do seu suor.
Auto da Barca do Purgatório
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João de Barros (1496?-1570?)
DÉCADAS DA ÁSIA
VOLUME I
CAPÍTULO I
Como el-rei dom Manuel, no segundo ano do seu reinado, mandou Vasco da Gama com quatro velas ao descobrimento da Índia.
Falecido el-rei dom João, sem legítimo filho que o sucedesse no reino, foi alevantado por rei (segundo ele deixará o seu testamento) o duque de Beja, dom Manuel, seu primo co-irmão, filho do infante dom Fernando, irmão de el-rei dom Afonso; a quem por legítima sucessão era devida esta real herança, da qual recebeu posse pelo cetro dela, que lhe foi entregue em Alcácer do Sal, a vinte e sete dias de Outubro do ano de nossa redenção de mil quatro centos e noventa e cinco; sendo em idade de vinte e seis anos, quatro meses e vinte e cinco dias (como mui particularmente escrevemos em outra nossa parte intitulada Europa, e ali em sua própria crónica).
E porque, com estes reinos e senhorios, também herdava o prosseguimento de tão alta empresa como seus antecessores tinham tomado, que era o descobrimento do oriente por esse nosso mar oceano, que tanta indústria, tanto trabalho, e despesa, por discurso de setenta e cinco anos tinha custado, quis logo, no primeiro ano de seu reinado, mostrar quanto desejo tinha de acrescentar á coroa deste reino novos títulos sobre o senhorio de Guiné, que, por razão deste descobrimento, el-rei dom Joam, seu primo, tomou, como posse da esperança de outros maiores estados que por esta via estavam por descobrir. Sobre o qual caso, no ano seguinte de noventa e seis, estando em Montemor-o-Novo, teve alguns gerais conselhos: em que houve muitos e diferentes votos, os mais foram que a Índia não se devia descobrir. Por que, além de trazer consigo muitas obrigações por ser estado mui remoto para poder conquistar e conservar, debilitaria tanto as forças do reino que ficaria ele sem as necessárias para sua conservação. Quando mais que sendo descoberta, podia cobrar este reino novos competidores, do qual caso já tinham experiência, no que se moveu entre el-rei dom Joam e el-rei dom Fernando de Castella, sobre o descobrimento das Antilhas, chegando a tanto, que vieram repartir o mundo em duas partes iguais para o poder descobrir e conquistar. E pois desejo de estados não sabidos, movia já esta repartição, não tendo mais ante os olhos que esperança deles e algumas amostras do que se tirava do bárbaro Guiné, que seria vindo a este reino quanto se dizia daquelas partes orientais.
Porém, a estas razões houve outras em contrário, que, por serem conformes ao desejo de el-rei, lhe foram mais aceites. E as principais que o moveram, foram herdar esta obrigação com a herança do reino, e o infante dom Fernando, seu pai ter trabalhado neste descobrimento, quando por seu mandado se descobriram as ilhas de Cabo Verde, e mais por singular afeição que tinha á memória das cousas do infante dom Anrique, seu tio, que fora o autor do novo título do senhorio de Guiné que este reino houve, sendo propriedade mui proveitosa sem custo de armas e outras despesas que têm muito menores estados do que ele era. Dando por razão final, aqueles que punham os inconvenientes a se a Índia descobrir, que Deus, em cujas mãos ele punha este caso, daria os meios que convinham a bem do estado do reino.
Finalmente el-rei assentou de prosseguir neste descobrimento, e depois, estando em Estremoz, declarou a Vasco da Gama, fidalgo de sua casa, por capitão mor das velas que havia de mandar a ele, assim pela confiança que tinha de sua pessoa como por ter acção nesta ida, cá, segundo se dizia, estavam da Gama, seu pai já defunto, estava ordenado para fazer esta viagem em vida de el-rei dom Joam. O qual, depois que Bartolomeu Dias veio do descobrimento do cabo da Boa Esperança, tinha mandado cortar a madeira para os navios desta viagem, por a qual razão el-rei dom Manuel mandou ao mesmo Bartholomeu Dias que tivesse cuidado de os mandar acabar segundo ele sabia que convinha, para sofrer a fúria dos mares daquele grão cabo de Boa Esperança, que na opinião dos mareantes começava criar outra fábula de perigos, como antigamente fora a do cábo Bojador, de que no princípio falamos. E assim, pelo trabalho de Bartholomeu Dias levou ao apercebimento destes navios como para ir acompanhado Vasco da Gama até o por na paragem que lhe era necessária á sua derrota, el-rei lhe deu a capitania de um dos navios que ordinariamente iam á cidade de São Jorge da Mina.
E sendo já no ano de quatrocentos noventa e sete, em que a frota para esta viagem estava de todo prestes, mandou el-rei, estando em Montemor-o-Novo, chamar Vasco da Gama e aos outros capitães que haviam de ir em sua companhia, os quais eram Paulo da Gama, seu irmão, e Nicolau Coelho, ambos pessoas de quem el-rei confiava este cargo. E posto que por algumas vezes lhe tivesse dito sua tenção acerca desta viagem, e disso lhe tinha mandado fazer sua instrução, pela novidade da empresa que levava, quis usar com ele da solenidade que convém a taes casos, fazendo esta fala pública, a ele e aos outros capitães, perante algumas pessoas notáveis que eram presentes, e para isso chamadas:
«Depois que aprouve a Nosso Senhor que eu recebesse o cetro desta real herança de Portugal, mediante a sua graça, assi por aver a benção de meus avós de quem a eu herdei, os quais com gloriosos feitos e victórias que houveram de seus imigos a tem acrescentado por ajuda de tão leais vassalos e cavaleiros como foram aqueles donde vós vindes, como por causa de agalardoar a natural lealdade e amor com que todos me servis, a mais principal cousa que trago na memória, depois do cuidado de vos reger e governa em paz e justiça, é como poderei acrescentar o património deste meu reino, para que mais liberalmente possa distribuir por cada hum o galardão de seus serviços. E considerando eu por muitas vezes qual seria a mais proveitosa e honrada empresa e digna de maior gloria que podia tomar para conseguir esta minha tenção, pois, louvado Deus, destas partes da Europa em as de África a poder de ferro, temos lançado os mouros, e lá tomando os principais lugares dos portos do reino de Fez que é da nossa conquista, achei que nenhuma outra é mais conveniente a este meu reino (como algumas vezes com vosco tenho consultado) que o descobrimento da Índia e daquelas terras orientais. Em as quais partes, peró que sejam mui remotas da igreja Romana, espero na piedade de eos que não somente a fé de nosso Senhor Jesu Cristo seu filho seja por nossa administração publicada e recebida, com que ganharemos galardão antele, fama e louvor acerca dos homens, mas ainda reinos e novos estados com muitas riquezas vendicadas por armas das mãos dos bárbaros, dos quais meus avós com a ajuda, e serviço dos vossos e vosso, tem conquistado este meu reino de Portugal, e acrescentado a coroa dele. Porque, se da costa da Etiópia, que quase de caminho é descoberta, este meu reino tem adquirido novos títulos, novos proveitos e renda, que se pode esperar indo mais adiante com este descobrimento, se não podermos conseguir aquelas orientais riquezas tão celebradas dos antigos escritores, parte das quais por comércio têm feito tamanhas pofencias como são Veneza, Génova, Florença e outras mui grandes comunidades de Itália. Assi que, consideradas todas estas cousas de que temos experiência, e também como era ingratidão a Deus enjeitar o que nos tão favoravelmente oferece, e injuria àqueles príncipes de louvada memória de quem eu herdei este descobrimento, e ofensa a vós outros que nisso fostes, descuidar-me eu dele por muito tempo; mandei armar quatro velas que (como sabeis) em Lisboa estão de todos prestes para servir esta viagem de boa esperança. E tendo eu na memória como Vasco da Gama, que está presente, em todas cousas que lhe de meu serviço foram entregues e encomendadas, deu boa conta de si, eu o tenho escolhido para esta ida como leal vassalo e esforçado cavaleiro, merecedor de tão honrada empresa. A qual espero que lhe Nosso Senhor deixará acabar, e nela a ele e a mim faça tais serviços com que o seu galardão fique por memória nele e naqueles que o ajudarem nos trabalhos desta viagem, porque, com esta confiança, pela experiência que tenho de todos, eu os escolhi por seus ajudadores para em todo o que tocar a meu serviço lhe obedecerem. E eu, Vasco da Gama, volos encomendo, e a eles a vós, e juntamente a todos a paz e concórdia: a qual é tão poderosa que vence e passa todos perigos e trabalhos e os maiores da vida faz leves de sofrer, quanto mais os deste caminho que espero em Deus serem menores que os passados, e que por vós este meu reino consiga o fruto deles.»
Acabando el-rei de propor estas palavras, Vasco da Gama e todas as notáveis pessoas lhe beijaram a mão: assi pela mercê que fazia a ele como ao reino, em mandar a este descobrimento continuado por tantos anos que já era feito herança dele. Tornada a casa ao silêncio que tinha antes deste acto de gratificação, assentou-se Vasco da Gama em giolhos ante el-rei, e foi trazida uma bandeira de seda com uma cruz no meio das da ordem da cavalaria de Cristo, de que el-rei era governador e perpétuo administrador, a qual, estendendo o escrivão da puridade entre os braços em modo de menagem, disse Vasco da Gama em alta voz estas palavras:
«Eu Vaco da Gama, que ora por mandado de vós, mui alto e muito poderoso rei, meu senhor, vou descobrir os mares e terra do oriente da Índia, juro em o sinal desta cruz, em que ponho as mãos que por serviço de Deus e vosso, eu a ponha asteada e não dobrada, ante a vista de mouros, gentios, e de todo género de povo onde eu for, e que por todos os perigos de água, fogo, e ferro, sempre a guarde e defenda até à morte. E assi juro que na execução e obra deste descobrimento que vós, meu rei e senhor, me mandais fazer, com toda fé, lealdade, vigia, e diligência eu vos sirva guardando e cumprindo vossos regimentos que para isso me forem dados, até tornar onde ora estou ante a presença de vossa real alteza, mediante a graça de Deus em cujo serviço me enviais».
Feita esta menagem, foi-lhe entregue a mesma bandeira, e um rendimento em que se continha o que havia de fazer na viagem, e algumas cartas para os príncipes e reis a que propriamente era enviado, assi como ao Preste João das Índias, tão nomeado neste reino e a el-rei de Calecut, com as mais informações e avisos que el-rei dom João tinha havido daquelas partes segundo já dissemos. Recebidas as quais cousas el-rei o espediu; e ele se veio a Lisboa com outros capitães.
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ANTOLOGIA DE LITERATURA PORTUGUESA
Festas de São João
Rogel Samuel
As festas de São João, em Manaus, se passavam ao redor das fogueiras acesas. Há uma excelente descrição do que eram anos atrás no livro de João Nogueira da Mata, “Amazônia, terra da promissão” (Manaus, 1979).
Todo o bairro da Cachoeirinha se transformava numa grande festa, num grande arraial. As pessoas trabalhavam por três dias para isso. O aluá era preparado em barril. Havia bolo de macaxeira e pão-de-ló. Casas e ruas ficavam ornamentadas com folhas de palmeira, bandeiras de papel coloridas e os chamados “balões chineses”. Havia bebidas que hoje nem conhecemos, como “jingerales”. Fogos de artifício, balões aéreos. Danças, quadrilhas, “casamentos” de brincadeira, com padrinhos e madrinhas. Além disso, havia o Boi-bumbá, com índios e vaqueiros, Pai Francisco, Catirina. As pessoas dançavam em plena rua até bem tarde. À meia-noite entravam as “cuias de cheiro”, pedindo as bênçãos de São João, recipientes com folhas trituradas de cabi, mucuracaá, capitiú, trevo e priprioca.
Bem longe se ouvia o batuque da casa da Mãe Joana, que era um centro de umbanda famoso da época que ainda existia quando eu era menino. O batuque era ouvido a noite toda.
João Nogueira da Mata, autor de muitos livros, com quem mantive correspondência, há muitos anos, já que fui professor de sua neta, aqui no Rio.
A festa popular de rua creio que desapareceu. Como em Manaus a luz elétrica era muito precária, aquelas noites eram iluminadas pelas fogueiras acesas, pelos balões e as estrelinhas, que eram pequeninos e delicados fogos de artifício. Os jovens se vestiam de caipira e dançavam as quadrilhas, que era uma espécie de minueto do Século 19, ao som de verdadeiras orquestras e sanfonas. Como escreveu Cazuza:
A noite é meu pé de vento
Prática da solidão
A rua é fria e serena
Seus faróis ao relento
Estrelas de mercúrio e prata
Um índio sem tribo vagava
Em pleno coração da mata
Brilha nas poças de água
O fogo que a chuva apagou
A noite é tão linda
A vida é tão bela
São João, acende a fogueira
Do meu coração
terça-feira, 10 de junho de 2008
DR. ALCEU

Rogel Samuel
Mestre Alceu Amoroso Lima escreveu sobre literatura e crítica literária, filosofia, política, história contemporânea. Foi meu professor de Cultura Brasileira. A cultura são as características humanas inatas. A cultura se opõe à idéia de natureza. É a capacidade de simbolização da vida coletiva, está na base das interações sociais. Vive da produção e transmissão do conhecimento.
Mas também aparece cultura como a capacidade intelectual de um indivíduo, o seu saber, a sua instrução. Quando se diz que alguém é “culto”.
O certo é que a cultura vive dos códigos e padrões que regulam a vida de um povo, do desenvolvimento de uma sociedade. A cultura se manifesta em todos os aspectos da vida, nos modos de sobrevivência, no comportamento, crenças, instituições, valores espirituais, criações materiais, arte etc.
Segundo o Mestre Alceu Amoroso Lima, “cultura é o que esquecemos do que aprendemos, mas é assimilado à nossa consciência”.
Nada mais simples!
Ele foi meu professor de “Cultura Brasileira”, cadeira criada especialmente para ele. Era a primeira vez que oferecia. Era uma novidade, na época, na “Faculdade Nacional de Filosofia, Ciências e Letras (Fnfi), da Universidade do Brasil. Um belo nome que depois mudaram para o prosaico Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Ironicamente, anos depois, fui o professor de “Cultura Brasileira” ali, naquela mesma Faculdade, naquela mesma Universidade, no mesmo lugar, matéria agora denominada Fundamentos da Cultura Brasileira.
Mas quem sou eu!
O Mestre Alceu, por que não lhe gravaram aquelas aulas magistrais? Vários intelectuais, escritores e poetas as assistiam, como Walmir Ayala. Alceu brilhava. Trazia 5 ou 6 livros debaixo do braço, para citação. Durante as preleções aulas, andava de um lado para o outro. Abria os braços, gesticulava. Tinha consciência de sua superioridade, de sua lucidez. Aquelas aulas fizeram história.
Ainda era um homem forte, na casa dos sessenta. Tinha sido atleta quando jovem, nadava de Botafogo à Urca, atravessando o mar.
Dizem que acordava cedo e saía para tomar café na padaria da esquina. Depois voltava para sua leitura diária de Croce, que lia todos os dias, durante certa época de sua vida. Eu era quase um menino, naquela época, uns vinte anos de idade, não aproveitei. Mas fiquei amigo do Mestre. Carregava sua pesada pasta, depois das aulas.
Certa vez esqueceu o título de uma obra de Anchieta, e eu bradei: “Auto da pregação universal”. Hoje me arrependo. Mas aquilo foi o início de nossa amizade.
Na última vez que o vi estava saindo do carro, em frente à Academia. Já velho. Pesado. Parei para vê-lo passar. Ele me cumprimentou. Não creio que me tenha reconhecido. Cumprimentou-me como faz uma pessoa que todos conhecem. Morreu logo após. Ficaram seus livros, suas aulas. Suas palavras. Ficou o que eu esqueci, mas foi incorporado à minha consciência.
Antes, carregava sua pesada pasta. Hoje, carrego sua grande ausência.
segunda-feira, 9 de junho de 2008
A pátria real e a pátria imaginária
A pátria real e a pátria imaginária
Rogel Samuel
“Não sejas um escritor, mas um profeta”, diz o verso de Antonio Quadros (1923-1993), o poeta português. Certamente assim os poetas eram conhecidos, na Grécia antiga. Que é um profeta? Profeta é o indivíduo que prevê o futuro, o que diz o que vai acontecer. “Não digas o que sabes nos teus versos, / Deixa para trás a ciência e a consciência; / Tudo aquilo que em ti não for ausência / São ideais perdidos, ou submersos.” É o poema. Não dizer o que sabe significa não repetir o passado, mas proferir o futuro, inaugurá-lo, fundá-lo. Falar do ausente, construir a presença daquilo que ainda não existe ou do que não está lá. O poema assim se chama “Poética contraditória”:
Não digas o que sabes nos teus versos,
Deixa para trás a ciência e a consciência;
Tudo aquilo que em ti não for ausência
São ideais perdidos, ou submersos.
Abandona-te às vozes que não ouves,
E liberta os teus deuses nos teus dedos;
Não busques os sorrisos, mas os medos,
E o que não for ignoto e só, não louves.
Ser misterioso e triste, é ser poeta:
Mesmo a luz que palpita nos teus cantos.
É uma imagem heróica dos teus prantos.
Percorre o teu caminho até ao fundo,
E com os versos que achaste, aumenta o mundo.
Não sejas um escritor, mas um profeta.
É um poema do livro de António Quadros “Viagem desconhecida”, de 1952. Nesta região desconhecida do porvir o poema se lança, ouvindo as vozes, liberando os seus deuses, os seus medos, o seu mistério, o seu pranto. É um mergulho no caminho do herói, ou seja, do profeta. Do que profere. O que diz o que não sabe, o que ouve o que não foi dito, o que vê o que não está na frente de seus olhos. Ou seja, entra nos portal heróico e perigoso do mito.
“António Quadros (1923-1993) defende que a nação portuguesa na sua essência (...) é dotada de um eschaton, de uma razão teológica, que consiste num diálogo ou numa dialética entre o humano e o divino: «Talvez nenhuma história humana, como a portuguesa, em seu esplendor, em seu claro-escuro e em seu negrume, seja tão dramaticamente exemplar desta dialéctica.» (...), escreveu Antonio Quadros Ferro (que deve ser seu filho). Ele chama isso de dialética entre Pátria Real e Pátria Imaginária.
“As caravelas já não partem deslumbradas a desvelar o Cabo. Não. O tempo é outro. Mas os pescadores portugueses continuam na praia a fixar com olhos estáticos o mar infindável e a viver e a lutar e a sofrer e a morrer o destino do mar.
E na imaginação das crianças e dos adolescentes, no inconsciente dos adultos frustrados numa fixação à terra que lhes parece injusta e odiosa, a ideia da aventura, da viagem, do descobrimento palpita como uma promessa e como uma fascinação" escreveu António Quadros.
Confira em:http://antonioquadros.blogspot.com/
Rogel Samuel
“Não sejas um escritor, mas um profeta”, diz o verso de Antonio Quadros (1923-1993), o poeta português. Certamente assim os poetas eram conhecidos, na Grécia antiga. Que é um profeta? Profeta é o indivíduo que prevê o futuro, o que diz o que vai acontecer. “Não digas o que sabes nos teus versos, / Deixa para trás a ciência e a consciência; / Tudo aquilo que em ti não for ausência / São ideais perdidos, ou submersos.” É o poema. Não dizer o que sabe significa não repetir o passado, mas proferir o futuro, inaugurá-lo, fundá-lo. Falar do ausente, construir a presença daquilo que ainda não existe ou do que não está lá. O poema assim se chama “Poética contraditória”:
Não digas o que sabes nos teus versos,
Deixa para trás a ciência e a consciência;
Tudo aquilo que em ti não for ausência
São ideais perdidos, ou submersos.
Abandona-te às vozes que não ouves,
E liberta os teus deuses nos teus dedos;
Não busques os sorrisos, mas os medos,
E o que não for ignoto e só, não louves.
Ser misterioso e triste, é ser poeta:
Mesmo a luz que palpita nos teus cantos.
É uma imagem heróica dos teus prantos.
Percorre o teu caminho até ao fundo,
E com os versos que achaste, aumenta o mundo.
Não sejas um escritor, mas um profeta.
É um poema do livro de António Quadros “Viagem desconhecida”, de 1952. Nesta região desconhecida do porvir o poema se lança, ouvindo as vozes, liberando os seus deuses, os seus medos, o seu mistério, o seu pranto. É um mergulho no caminho do herói, ou seja, do profeta. Do que profere. O que diz o que não sabe, o que ouve o que não foi dito, o que vê o que não está na frente de seus olhos. Ou seja, entra nos portal heróico e perigoso do mito.
“António Quadros (1923-1993) defende que a nação portuguesa na sua essência (...) é dotada de um eschaton, de uma razão teológica, que consiste num diálogo ou numa dialética entre o humano e o divino: «Talvez nenhuma história humana, como a portuguesa, em seu esplendor, em seu claro-escuro e em seu negrume, seja tão dramaticamente exemplar desta dialéctica.» (...), escreveu Antonio Quadros Ferro (que deve ser seu filho). Ele chama isso de dialética entre Pátria Real e Pátria Imaginária.
“As caravelas já não partem deslumbradas a desvelar o Cabo. Não. O tempo é outro. Mas os pescadores portugueses continuam na praia a fixar com olhos estáticos o mar infindável e a viver e a lutar e a sofrer e a morrer o destino do mar.
E na imaginação das crianças e dos adolescentes, no inconsciente dos adultos frustrados numa fixação à terra que lhes parece injusta e odiosa, a ideia da aventura, da viagem, do descobrimento palpita como uma promessa e como uma fascinação" escreveu António Quadros.
Confira em:http://antonioquadros.blogspot.com/
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domingo, 8 de junho de 2008
SOBRE A SUPERFÍCIE

SOBRE A SUPERFÍCIE
Rogel Samuel
Mas eu festejei este ano solitariamente os 49 anos de minha vida literária. O primeiro poema publiquei no 8 de fevereiro de l959, em O jornal de Manaus. Fiz versos como: “o vento/ o córrego entre as montanhas / a lua líquida / sobre a superfície”. Os lugares-comuns de sempre, ou seja, eu poetizei a "poesia" com os chavões conhecidos de que não me libertei até hoje.
Sim, festejo silenciosamente os 49 anos de minha profissão de escritor. Não escrevo com tristeza, mas com certa vitória. Afinal, há quem não tenha tido isso de vida. Pois, como escreveu Nietzsche que vi citado num blog outro dia: “Temos a arte para não morrer da verdade”.
Continuo escrevendo. Tive até certas alegrias, como a de ontem, quando recebi um email da escritora Cyana Leahy, autora de ensaios, ficção, poesia, artigos, com livros publicados no Brasil e no exterior. Cyana Leahy é pianista, formada em Letras, Mestrado em Educação, Doutorado em Educação Literária pela Universidade de Londres, professora da Universidade Federal Fluminense, orientou dissertações de mestrado e teses de doutorado. Elogiada por críticos como Rose Marie Muraro, Olga Savary, Maria Helena Martins, Regina Zilberman, Marco Lucchesi (meu ex-aluno) e Luiz Fernando Py. Publicou livros, traduziu outros nove, ganhou prêmios no Brasil e na Inglaterra, recebeu por três anos o prêmio de pesquisa Overseas Research Award, outorgado pelos reitores das universidades inglesas a trabalhos acadêmicos relevantes. E foi Prêmio de Destaque Nacional e Internacional em Cultura, pela Câmara Municipal de Niterói. Seu trabalho está em:
http://www.cyanaleahy.com/Pois bem, Cyana Leahy escreveu: “Rogel, você é apenas... o máximo! A visita ao cemitério é preciosa, deveria ser lida em escolas, faculdades de Letras, de História, de Produção Cultural, para desconstruir verdades impostas, sentimentos emprestados etc. e tal. Meus parabéns. É um presente receber sua coluna.
Grande abraço, Cyana.”
Vale!
sábado, 7 de junho de 2008
O jornal da TV
Rogel Samuel
Na primeira vez que estive em Frankfurt, que foi a melhor, notei que, no noticiário da TV, não apareciam notícias policiais. Perguntei então ao meu amigo L.: “Aqui não ocorrem crimes?” – “Sim. E terríveis”, respondeu ele. - Como não aparecem na TV? Perguntei. “São proibidos de aparecer”, disse-me ele. “Uma Associação de consumidores ganhou na Justiça o direito de nada saber sobre isso. Se há crimes, o problema é da polícia, e cabe à polícia nos proteger dos criminosos. Nós temos o direito de não ser amedrontados, e meus filhos não podem ver isso em casa”. “Se há um assassino à solta na rua, acrescentou, cabe à polícia capturá-lo, e para isso eu a pago com impostos. E não podem os canais de informação fazer matéria sobre isso”. “E a liberdade de imprensa?” Perguntei. “- A liberdade de imprensa não pode estar acima da minha liberdade de viver em paz”, respondeu. “Eu não preciso saber que estou em perigo, de nada adianta. Cabe ao Estado assegurar que eu esteja em segurança”.
E realmente a polícia alemã vivia atenta a tudo. Nada lhe escapava.
Naquele tempo, eu fumava. Um dia, tarde da noite, desci para fumar um cigarro em frente ao prédio de L., na Mendelssohnstrasse. Como naquela cidade havia câmeras em todo canto, logo chegou um carro da polícia e parou a uns dez metros, a observar-me. Aquilo me incomodou, apaguei o cigarro e subi. Pois o policial foi ver pela porta de vidro para que andar eu ia. Deve ter lavrado a ocorrência!
quinta-feira, 5 de junho de 2008
AS ENTRANHAS DO CORAÇÃO DA FLORESTA

AS ENTRANHAS DO CORAÇÃO DA FLORESTA
Rogel Samuel
O Choro n. 10 de Villa Lobos está entre o que de melhor se fez em música sinfônica no Brasil. Achei um vídeo no YouTube que me impressionou: a interpretação de Eleazar de Carvalho, magnífica. O ritmo de batuque é um grande "samba-enredo sinfônico", “um acompanhamento coral bem ritmado de onomatopéias supostamente indígenas (mas inventadas por Villa-Lobos) e a uma bateria marcada revezadamente por ganzá, tamborim, reco-reco, cuíca e similares de escola de samba”. É um show de brasilidade, um carnaval de sublimidades, vozes em delírio, aleluias, gritos alucinantes na ginga de Eleazar, que está imponente em sua Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo que corresponde, respondendo de pronto. Eleazar, como sempre, dançante no pódio, desvelando o útero do Brasil desde as suas entranhas selvagens, pois Villa Lobos alcança um nível raramente ultrapassado até hoje. Villa tinha consciência e amava o Brasil em sua aguda natureza, olhava para o horizonte futuro, para na sua raiz popular, mas com uma altivez e uma grandeza e uma imponência e um orgulho monumental. A música é um estranho ritual indígena, um festival, um hino de amor às belezas do Brasil. O filme é antigo, em preto-e-branco, mas dá para sentir a superioridade da massa orquestral. Sim, Villa era um louco. Louco porque tinha grandeza. Muito além do que os seus contemporâneos podiam assimilar. O excelente Coral é o da Associação Coral Adventista de São Paulo. Foi na Abertura do Festival de Inverno de Campos do Jordão de 1988.
Confira em:
http://www.youtube.com/watch?v=eT8u7_EsT5g&feature=related
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O SILÊNCIO ANTECEDE A CATÁSTROFE
O SILÊNCIO ANTECEDE A CATÁSTROFE
Rogel Samuel
Nós, brasileiros, temos o vício do desmatamento. Não podemos ver área verde. Queremos limpar, civilizar, modernizar, cimento puro, concreto. Até o mestre Niemeyer sugere isso, em sua obra. Lembro-me da árvore do quintal de minha amiga. Quando lá voltei, nada. “Podia ameaçar o muro da casa”, justificou. Não mantivemos, como os americanos, nossas antigas casas de madeira, ecológicas. O vizinho, que tem uma vivenda coberta de hera, é criticado. O mais comum é o cimentado, lajeado, árido, sob o sol de 40 graus. Isso é considerado moderno. Bom. Não é só madeireira que desmata, somos todos nós. Nos arredores do Rio, nossos subúrbios, a vegetação das montanhas desapareceu. Somos fabricantes de deserto. Escondemos nossas raízes indígenas com o vezo de tudo desmatar, de tudo transformar num monte de lixo. Nossos riachos também se transformaram em imundas valas. Há muitos anos deixei de comprar um sítio porque, antes de entregar, o dono mandou “limpar”: derrubou a mata! Um relatório da Organização Mundial de Saúde diz que mais de 2,6 bilhões de seres humanos, 40 por cento da população mundial, não tem água de boa qualidade. Como no poema de Nietzsche:
O deserto está crescendo.
Desventurado quem abriga desertos.
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quarta-feira, 4 de junho de 2008
VISITA AO CEMITÉRIO

VISITA AO CEMITÉRIO
Rogel Samuel
Sim, fui ao cemitério São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro. Mais conhecido como Cemitério do Caju. Não para visitar o túmulo de um amigo. Ou parente, meus mortos não estão ali. Mas para ver a sepultura do personagem de meu romance “Teatro Amazonas”, publicado por capítulos na Internet: o piauiense Fileto Pires Ferreira, nascido em Barras. Lá fui duas vezes. Na primeira vez não conseguir localizar Fileto. Mas conheci o jazigo do Barão do Rio Branco, de Cruz e Souza, do Presidente Figueiredo e de seu irmão, etc. De vários famosos. Na segunda visita já dispunha do número do carneiro, fornecido pelo neto do general. Apesar de estar escrevendo uma ficção, gosto de aproximar-me ao máximo dos fatos que podem realmente ter acontecido, ainda que, para mim, a realidade talvez seja um sonho, pois, como disse o poeta espanhol Calderón de La Barca, a vida é sonho. Sim, vou escrever um capítulo “contando” o sepultamento do Governador do Amazonas Fileto Pires Ferreira. Fui ver a cor local.
Entretanto, o cemitério está em lastimável situação. Abandonado. Cães e fezes, lixo e mato, lama e abandono. Aqueles senhores, antes tão importantes, que circulavam outrora por salões no brilho das lâmpadas de cristais e nos reflexos dos diamantes do colo das suas senhoras, com quem dançavam em salões presidenciais, aqueles personagens históricos, seus despojos estão abandonados em lugar imundo e fétido. Triste sina, estranha condição, diria Camões.
terça-feira, 3 de junho de 2008
LER OU ESCREVER

LER OU ESCREVER
Rogel Samuel
Há escritores que leram muito. Guimarães Rosa, por exemplo. Há outros que pouco leram, com Barthes. Este, disse uma biógrafa, leu pouco, pois escreveu sobre tudo o que leu. Rosa era um erudito, dominava vários idiomas. Como Borges. Há quem passe horas lendo. Como Foucault. De quem se disse que era o primeiro que chegava e o último que saía da Biblioteca Nacional. E tinha memória fotográfica. Ele certa vez ouviu uma conferência de Ricoeur às gargalhadas. Estava no fundo da sala, com seus admiradores. Debochava, irônico (era terrível). No outro dia, mostrou que tinha gravado na memória tudo o que foi dito e sobre isto deu uma aula, desmontando, ponto por ponto, o assunto. Ele era assim, segundo seu biógrafo. Péssimo caráter. Detestado por todos (no meio acadêmico todos se detestam entre si). Mas “era o homem mais inteligente que já apareceu”, disse um crítico. Estava à esquerda da esquerda. Portanto há quem leia muito e quem leia pouco, mas bem. Uma hora por dia. Como o sábio erudito Gaston Paris, que era enciclopédia viva. Quando perguntaram qual o segredo de sua imensa cultura, ele respondeu: “Leio uma hora por dia”. Há, por fim, escritores que leram muito e escreveram pouco. E outros, ao contrário, que preferiam escrever a ler.
Há uma fórmula americana de como ler, que diz: “SurveyQ3r”. A primeira leitura é “survey”, de pesquisa, uma olhadela geral rápida. Folhear o livro. O “Q” é de “question”, dúvidas, derivadas dessa pesquisa rápida. Aí vem 3 “r”. O primeiro é de ler (read), o segundo é de reler, o terceiro de resumir. Mas cada um tem seu jeito.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
O POEMA PROFÉTICO

O POEMA PROFÉTICO
Rogel Samuel
Mithrídates Correa é o poeta mais desconhecido da Amazônia. No entanto, muito escreveu. Em jornais, revistas, Manaus. Não publicou um só livro. Era um bom poeta. Poucos se interessaram por sua obra. Um dos poucos foi o grande piauiense Assis Brasil, que fez muito mais pela cultura brasileira do que um ministério da cultura. Devemos à persistência de Assis Brasil a melhor coletânea da poesia no Brasil em livro.
Mithrídates Correa nasceu em Manaus, em 1904 e lá faleceu, em 1968. Foi juiz no interior e professor Catedrático de Direito Administrativo da Faculdade de Direito da Universidade do Amazonas. “Promotor público, advogado, militante, poeta”, escreveu Assis Brasil.
Ele morreu no dia primeiro de janeiro de 1968.
Um dia antes de morrer, publicou no “Jornal do Comércio” de Manaus um poema profético, falando de sua morte: “não pode o coração sofrer engano, / ainda que seja um coração de aço”.
Apesar de não ter publicado nenhum livro, entrou em antologias e na Academia Amazonense de Letras, onde ocupava a cadeira Olavo Bilac.
Seus textos em prosa são excelentes, como li nos poucos fragmentos que nos sobraram. Seu testamento poético foi encontrado depois de sua morte. Um poema longo, do qual extraio alguns versos, que dizem: “Quando eu já não for / ... / que se abra o chão / e à voracidade da terra / minhas carnes atirem / vida em movimento, alma em ação / que eu volte a ser nada / como fui outrora / da vida um acontecimento / em trajetória para o esquecimento / e o que deixei de mim como lembrança / que sirva de alimento”.
Está o poema na revista da Academia Amazonense de Letras, n. 12, de 1968. Pouco depois de sua morte. Mas, como ele escreveu, em outro poema:
“Não morre o que transforma a força em pensamento
e desta arranca a cor e o movimento
e tudo que de belo o pensamento encerra”.
Fui o primeiro a colocar na Internet os poetas amazonenses antigos, no meu deletado “Site do Escritor”, que a Geocities teve o cuidado de tirar do ar, até hoje não sei por quê. Talvez porque excedia o limite do espaço on line. Mas não estava lá o poeta Mithrídates Correa.
Como ele escreveu, todos nós estamos “em trajetória para o esquecimento”.
domingo, 1 de junho de 2008
BOURNEMOUTH

CRÔNICA DE SEMPRE
Rogel Samuel (atualização diária)
1/6/2008
BOURNEMOUTH
Como eu disse ontem, a conexão com a Internet vai cobrir o Brasil. A banda larga mais rápida, tem a cidade de Bournemouth, no Reino Unido. Do tipo sem fio. Gratuita. Logo ao chegar fui tirando o laptop da mochila e perguntando a senha. E conectando-me com o Brasil. Agüentei as piores chuvas dos último 60 anos, em Bournemouth. Mas sobrevivi. Para chegar ao Arts Institute, todas as manhãs, era uma odisséia sem Homero. Estava sem carro, só havia um ônibus, de hora em hora, chovia, fazia frio. Para pegar o tal ônibus eu tinha de atravessar um bosque, um bosque selvagem, onde bem cedo alguns ingleses iam passear com seus enormes cães caçadores e pouco amistosos com um caboclo amazonense como eu. “São pacíficos”, disse-me alguém. Mas, durante a minha estada lá, uma jovem foi atacada por um “dócil” akita e perdeu parte do rosto. Fiquei ali de 17 de julho a 21 de agosto do ano passado. Tenho saudades do supermercado. Alguns produtos cá não tenho. Como o iogurte. E a paisagem, nos poucos dias de sol, que ali vivi. Tenho saudades da casa de sanduíches da estrada. Do enorme silêncio. Da solidão pesada e confortante. Os dias eram de ir e vir da Universidade, naqueles ônibus de dois andares ou de táxi. Ou passava o tempo todo trancado no quarto, trabalhando, escrevendo. Sou péssimo turista. Os primeiros momentos foram para entender como ir e vir. E onde comer. Na universidade não tinha problema. Mas eu não estava na cidade propriamente dita, mas quase no campo, em Northbourne, e onde eu morava não havia nada aberto à noite, a não ser um pub. Aonde nunca fui. Preferi beber meu uísque em casa, diante da tela do computador, sonhando com o calor de Manaus. Nos poucos momentos livres fui ao Square, no Pier, fiz algumas compras, caminhei no deck da praia, tomei um péssimo café. Mas não pense que não gostei de Bournemouth. Até escrevi um poema! (Foto de R. Samuel).
sábado, 31 de maio de 2008
CAPÍTULO 12

ELEAZAR DE CARVALHO EM MANAUS, PROBLEMA DE ACÚSTICA
- Mas uma concha acústica é indispensável para a realização de concertos nas salas de espetáculos, disse José Brandão, já suado e nervoso.
- Sim, mas nós não temos...
- Como não? Gritou o outro. Por que não?
- Nós tínhamos uma caixa acústica... chamada de “caixa timpânica”... mas foi retirada nas reformas do governo Efigênio Sales.
- O que é uma caixa timpânica, perguntou o deputado Lourival Gadelha que estava perto.
- É um equipamento cênico que tem a dimensão total da área de cena e que se monta e desmonta no palco sempre que necessário.
- Sim.
- São paredes laterais, parede de fundo e teto, feitas de material refletor acústico. Envolvem a orquestra, disse Brandão.
- Sim, concordou, o deputado.
Essas paredes oblíquas entre si, em ângulos criteriosamente definidos, de forma a garantir os níveis de reflexão e reverberação adequados, dando melhor audição para o público e músicos. O som tem que ser jogado para fora do palco uniformemente, permitindo o equilíbrio das diversas sonoridades de acordo com a formação da orquestra.
- E quando não estão sendo utilizadas?
- Elas saem. São móveis.
- Explique melhor, repetiu o deputado.
- Os diversos instrumentos emitem diferentes sons em todas as direções, disse Brandão, e uma considerável parte desses sons se perde no volume da caixa de palco, ao invés de preencher acusticamente a sala de espetáculo. A concha acústica conduz a sonoridade para o público, garantindo uma boa audiência em todas as partes da sala de espetáculo.
- Agora entendi, disse o deputado.
- Outra questão da maior importância é que os músicos têm de ouvir muito bem uns aos outros, para conseguirem tocar em harmonia. E para o solista, para o bom desempenho do solista, é fundamental garantir o que chamamos de conforto acústico.
- Sim. Sim. E agora? Que faremos?
- Uma caixa de palco como a do Teatro Amazonas sem uma concha acústica montada se revela como o pior espaço possível para um concerto. Os sons se misturam, viram barulho.
Foi chegando o Maestro Eleazar de Carvalho e todos se calaram de repente.
A Orquestra Sinfônica de São Paulo, naquele ano de 1981, se apresentaria no Teatro Amazonas, com seus 87 músicos.
- Como está a acústica, Maestro, perguntou, timidamente e temeroso, João Brandão.
- Péssima, respondeu Eleazar. Péssima. A acústica não é boa para a orquestra, esta
muito seca.
- Para compensar essa deficiência são necessários muitos instrumentos, explicou. E depois de olhar em volta:
- O espaço é insuficiente para reverberar, para rebater o som.
- Como assim? Perguntou o deputado.
- Por exemplo: cada som teria de percorrer 152 metros e voltar. Aqui ele
vai (ele fez um gesto), e quando volta o outro ainda está saindo.
Foi interrompido por João Brandão, o engenheiro do som:
- Maestro, verificamos que há um porão vazio nas mesmas dimensões do palco, aqui abaixo de nós... E que lá em cima tem uma caixa d’água.
- Ótimo, respondeu Eleazar de Carvalho. Serão usados como “caixas de ressonância”.
Foram ver a “caixa d’água”: era a tal “caixa-timpânica” que por um mecanismo de correntes descia até atrás da caixa do palco, fechando-a.
Era a primeira vez que Eleazar se apresentava em Manaus. Sua apresentação foi um sucesso.
Cerca de 85 anos antes, em Manaus, Lima Silva tinha sido chamado pelo ex-governador Ribeiro à sua chácara. Ele agora era advogado e graças à sua inteligência tinha uma banca rica e famosa. Teve de levar Marinalva, que fez um escândalo para ir junto. Quando ele disse que estava indo à chácara de Eduardo Ribeiro ela não teve dúvida:
- Ou me leva ou eu te mato!
Brandia um garfo.
- Mas, meu amor, vou a serviço...
Não teve jeito. Ribeiro era o grande ídolo político dela. “O maior homem da história”, dizia ela. Não ia perder nunca aquela oportunidade de conhecer o Pensador.
- De que o acusam, Governador? – perguntou Lima e Silva, olhando profissionalmente o outro.
- De tudo, doutor, de tudo! Calúnias! Mentiras!
E colocou um copo d’água em sua frente e uma jarra de refresco de manga sobre a mesa, perto de Marinalva. Estavam na copa do governador, que era o lugar mais fresco da casa, sentados ao redor da mesa quadrada coberta de papéis.
- Beba um refresco, madame, disse ele.
- Muito obrigada, Governador, respondeu ela, lisonjeada.
Eduardo Ribeiro falava como se dirige às massas, ainda que estivesse apenas com o advogado e sua esposa.
Aquela copa era o seu gabinete de trabalho, anexo à sala de jantar. Era a primeira vez que o advogado entrava na mansão que Ribeiro chamava de chácara, o chalé da Cachoeira Grande. Ribeiro tinha móveis exóticos, importados de vários lugares do mundo (algumas cômodas venezianas e poltronas voltaire talvez tivessem vindo do Teatro Amazonas), tapetes exóticos, quadros de Crispim do Amaral, pássaros, animais raros, jardins de orquídeas, catléia superba, catléia el-dorado, lago, tanque com cisne, um pequeno bosque ricamente preparado, caramanchões. Ribeiro vivia suntuosamente no seu pequeno palácio.
Eduardo Ribeiro passou para o outro uma folha de papel com a lista dos seus bens em discussão.
- Ladário e Gregório me acusam de enriquecimento ilícito.
- Sim, disse o outro.
Marinalva começou a se meter na conversa:
- Cretinos! disse ela. Vão pro Inferno!
Lima Silva tentou impedi-la de falar, mas Eduardo Ribeiro se antecipou:
- Vão mesmo, madame, disse ele, gostando.
E a seguir:
- Vejamos: O primeiro terreno... Sim, o primeiro terreno comprei de Juvêncio Alves. É posse antiga, na Praça da República. Custou 5.000$000.
Lima Silva anotou esse número numa folha de papel.
- Os terrenos número 2, 4 e 16 dessa lista, disse com naturalidade Ribeiro, foram comprados aos herdeiros do Capitão Nuno por 600$000, 2.000$ e 500$000 respectivamente. Estão fora de Manaus.
Marinalva jogava todo o seu charme em cima de Eduardo Ribeiro. Em dado momento encostou sua perna por baixo da mesa na dele. Ele delicadamente se afastou. Como ela repetiu alguns minutos depois, ele deixou e com a mão acariciou-a por entre as pernas, curvando sobre o papel que o marido estava atentamente lendo.
Lima Silva nada via ou fingia não ver. Examinava as contas e começava a ver dificuldade.
- O terreno número 3 está avaliado em 150$ e me foi doado pelo Dr. José Mello, juiz de direito. Está fora da Capital.
- Continue, governador.
- O terreno número 5 foi comprado por 100$000 ao Doutor Joaquim Lalor.
- O senhor dispõe dos recibos, não?
- Sim, claro, todos. O Thaumaturgo diz que custou 1.500$000.
- Mentiroso! – disse Marinalva. E conseguiu dar um leve beliscão na coxa do outro.
Lima Silva suspirou, bebeu um gole de água. Mas Eduardo Ribeiro gostou do apoio e disse:
- Sim, madame, mentiroso e covarde!
E continuou:
- Os terrenos de 6 a 16 estão na mesma situação, disse Eduardo Gonçalves Ribeiro com muita dignidade. E foram comprados pelos preços que estão nas escrituras.
Houve um silêncio constrangedor na sala.
- E os prédios? – perguntou, com voz neutra, o Dr. Lima Silva.
- Sobre os prédios que possuo em Manaus... No da Praça da República gastei 49:684$200 na sua construção.
Eduardo Ribeiro citava de memória, que era prodigiosa.
- Este chalé aqui não custou 500 contos, como o crápula inventou! Gastei 48:800 para construí-lo. Não é luxuoso, como o Senhor vê, apenas especial e elegante.
E levantando-se caminhou até a sacada, de onde apontou:
- Não tenho raridades da natureza, como a acusação aponta, mas uma variedade de animais que mandei vir da América.
- São lindos, disse Marinalva.
Ele, voltando para Lima Silva, disse:
- Tenho um prédio, que o Senhor certamente conhece, na rua Henrique Martins, comprado por 30 contos...
- Muito bonito por sinal, disse Marinalva.
- Obrigado Madame, sim, é bem elegante.
E a seguir disse:
- E a casa de minha velha mãe, no Maranhão, na rua de Santana número 110, comprei por 6 contos.
- Como ela está? Perguntou Marinalva.
- Não muito bem, madame. Está quase cega de um olho e tem fortes dores reumáticas.
- Reumatismo? Eu tenho um santo remédio, disse ela, tentando ajudar. Diga para tomar extrato de sucupira, bem forte, toda manhã...
- E a casa de sua irmã? Perguntou Lima Silva, tendo disfarçar o vexame.
- A casa de minha irmã, na rua São João, no Maranhão, foi-me doada, em 1893, por amigos de Manaus, que não quiseram revelar o nome.
- Vejamos os ativos monetários, Dr. Eduardo.
- Sim, sim. No Banco do Amazonas tenho 30 ações de 200$ cada uma.
- Na Cooperativa Militar?
- Ali tenho apenas 172 ações que valem 20$ cada uma. Eu as comprei quando ainda era estudante.
- No Maranhão?
- No Maranhão tenho 17 ações da Companhia de Viação Maranhense, hoje muito desvalorizadas.
- Sim, disse o outro. Eu conheço.
- E aqui tenho 3 carroças e um carro de luxo – uma vitória, o senhor viu – que comprei por 9:000$.
Lima Silva já estava atônito, mas não se revelava. Mantinha-se de reserva. E perguntou:
- O Senhor, Governador, tem com provar a origem desses bens? Quanto recebeu?
- Certamente, disse o outro com uma calma palaciana.
E tirando um papel da gaveta começou:
- Como comandante militar recebi 12 contos oitocentos e setenta mil réis (12:870$000).
E continuou:
- No meu primeiro mandato, como Governador Provisório, recebi 9 contos novecentos e quarenta mil réis (9:940$000).
- Sim, estou anotando.
- Como tenente recebi novecentos mil réis (900$000).
Marinalva estava sorridente e flertava abertamente.
- Sim, pois não.
Eduardo parou, para refletir. Depois disse:
- Como Governador do Amazonas, no meu segundo mandato, recebi 137:500$000.
- E como Capitão do Estado Maior?
- Recebi 13:250$000.
Lima Silva rapidamente somou.
- Somando tudo dá uns 173:420$000, disse Lima Silva.
- Sim, disse o ex-líder, com voz de liderança. Mais o que recebi como professor particular, de gratificações, de orçamentos e consultorias deve somar uns 200 contos. Sempre fui muito econômico, todos sabem.
Marinalva aplaudiu.
Sem se importar, Lima Silva parou para refletir um momento e começou a bater com o lápis nos dentes.
Fez-se um silêncio diplomático.
Depois Lima Silva disse:
- Governador, vai ser difícil para mim. Eu não me sinto preparado para defendê-lo. Está acima de minhas qualidades jurídicas. Para este caso eu aconselharia um advogado do porte de Ruy Barbosa.
Na despedida, já à porta, Marinalva beijou Eduardo Ribeiro. Ela era bem mais alta que ele e teve de curvar-se.
- Governador, disse ela, o senhor é o político mais honesto que eu conheço. Eu o amo, Governador! Eu o amo!
- Obrigado! Obrigado, minha senhora, respondeu Eduardo Ribeiro beijando sua mão e realmente feliz.
E acrescentou:
- Em todo caso, doutor, gostei muito de sua visita. Venham os dois jantar comigo na quinta-feira. Eu insisto!
E foi assim que, graças à Marinalva, começou a grande amizade de Lima Silva com Eduardo Gonçalves Ribeiro.
O que ele nunca soube foi que, já no dia seguinte, depois que ele saiu para o escritório, Marinalva foi ao Mercado e lá um emissário secreto do ex-governador entregava nas mãos de sua mulher um bilhetinho do governador.

LEITORES E INTERNAUTAS
Rogel Samuel
Pesquisa revela que o brasileiro lê muito. Ao contrário do que sempre se supôs, o brasileiro lê 4,7 livros por ano. Este é o resultado da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil encomendada pelo Instituto Pró-Livro ao Ibope e publicada em 28/05/2008 pelo Globo Online.
O brasileiro não é mau leitor. Os adultos lêem menos, 1,3 livros por ano. O Sul lê mais (5,5) do que o Sudeste (4,9). Depois vem o Nordeste (4,2) e o Norte (3,9).
As grandes cidades lêem mais (5,2) do que as pequenas (4,3). As mulheres (5,3) mais que os homens (4,1 livros por ano).
Quem mais lê são os jovens: “O público entre 12 e 13 anos chega a ler 8,6 livros por ano. De 5 a 10 anos, lêem 6.9. E de 14 a 17 anos o volume é de 6,6 livros por ano”.
A pergunta foi realizada em 311 municípios, em todo território nacional. Realizadas 5.012 entrevistas nas casas das pessoas, em novembro e dezembro de 2007.
Melhor, muito melhor está a Internet.
A banda larga atinge 18,3 milhões dos lares do Brasil. São 18 milhões de consumidores de media. O Brasil tem 40 milhões de internautas; e 22,4 milhões navegam em casa.
O número de brasileiros com acesso residencial à banda larga cresceu 53% no período de um ano, segundo estudo divulgado na quarta-feira, dia 28, pelo Ibope/Netratings. Eles chegaram a 18,3 milhões em abril de 2008. São 82% dos usuários domésticos no país, contra 11,9 milhões no mesmo período do ano passado.
O Ibope//Netratings usou a mesma definição da Anatel para definir a velocidade da banda larga. Considerou conexões acima de 56 Kbps (kilobits por segundo).
Os números são impressionantes.
São 22,4 milhões de brasileiros os que navegaram pela web de suas casas no mês passado, crescimento de 41,3% em relação a abril de 2007.
Foi o maior aumento dos 10 países monitorados.
“Considerando acesso residencial e doméstico, o Brasil tem cerca de 40 milhões de usuários de internet com mais de 16 anos”.
A média de tempo de navegação brasileira foi de 22 horas e 47 minutos no mês de abril. Foram milhares de páginas abertas, um recorde no mundo. Principalmente os adolescentes, nos site de relacionamento. E cresce o número de crianças e adultos.
A web vai fazer uma revolução no Brasil. E é por isso que nós escrevemos na web desde 1999.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
O ÚLTIMO REI DO NEPAL


O ÚLTIMO REI DO NEPAL
Rogel Samuel
O rei Gyanendra talvez seja o último rei do Nepal. O anterior foi assassinado. Gyanendra era tio do rei anterior, e o povo desconfiava que tenha sido o mandante de sua morte. O anterior, Birendra, foi assassinado dentro do palácio, com toda a família real. Alguém, armado de metralhadora portátil, fuzilou toda a família, que estava sentada na mesa de jantar. E depois se matou. Era o príncipe. Mas esta versão nunca convenceu ninguém.
O anterior, Birendra, foi um dos homens mais ricos do mundo. Apesar de corrupto,o povo o amava. Construiu um novo palácio. E uma nova coroa, que custou milhões de dólares. Casou-se com uma cantora de cabaré (dizem), que já era casada. Chamava-se a Rainha Aishwarya Rajya Laxmi Devi Shah. Era bela.
Fui ao Nepal em 93, 95 e 97. Birenda, o anterior, era rei.
Um dia, fomos receber uma amiga no aeroporto de Katmandhu. Como o rei ia sair do palácio à tarde, a cidade foi dividida ao meio pela manhã. Interditado o caminho por onde o rei ia passar para Pashupati, sagrado lugar hindu. Quase não conseguimos voltar para a Lótus Guest House.
Khatmandu é a reunião de 3 antigas cidades. Em Boudha estávamos nós. Ali, um monge budista, chamado Shamar Rinpochê, alertou o rei anterior Birenda do perigo de sua morte. Mais tarde, o rei teve um enfarte. Achou que era o perigo. O monge disse que não era. Era pior. O rei não acreditou.
Birenda, o anterior, vivia cercado de seguranças. Os muros do palácio, eletrizados, matavam curiosos. Mas o assassino morava lá dentro, junto com o rei. Era seu filho.
O Rei anterior, Birenda, significava o próprio deus Vishnu. Trocou o velho palácio de Hanuman Dhoka pelo novo, que mandou construir e apareceu na TV agora. Eu visitei o velho palácio. O novo ocupa uma área gigantesca em Narayan Hity, perto do centro de Thamel. São vários quarteirões. O velho palácio Hanuman Dhoka é um labirinto de corredores e salas escuras, com o nome do invencível protetor do exército nepalês, Sri Hanuman, o deus macaco. O Nepal nunca foi invadido pelos inimigos externos por causa dele.
O último rei do Nepal, Gyanendra, agora deposto, foi coroado naquele velho palácio de Hanuman Dhoka, e entronizado em trono de ouro, com uma grande serpente de ouro como espaldar. Mas o velho palácio foi cenário do maior massacre da história nepaleza. A célebre e sanguinolenta carnificina de Kot, de 1846, quando o Primeiro Ministro, Jung Bahadur Rana e seus 16 irmãos, mataram mais de 150 rivais no mesmo pátio. Pouparam o rei e a rainha.
Os maoístas agora estão no poder. Que os deuses o protejam.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
PESQUISA REVELA QUE BRASILEIRO LÊ
PESQUISA REVELA QUE BRASILEIRO LÊ
Rogel Samuel
Ao contrário do que sempre se supôs, o brasileiro lê 4,7 livros por ano. Este é o resultado da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil encomendada pelo Instituto Pró-Livro ao Ibope e publicada em 28/05/2008 pelo Globo Online.
Os adultos lêem menos, 1,3 livros por ano. O Sul lê mais (5,5) do que o Sudeste (4,9). Depois vem o Nordeste (4,2) e o Norte (3,9).
As grandes cidades lêem mais (5,2) do que as pequenas (4,3). As mulheres (5,3) mais que os homens (4,1 livros por ano).
Quem mais lê são os jovens: “O público entre 12 e 13 anos chega a ler 8,6 livros por ano. De 5 a 10 anos, lêem 6.9 e de 14 a 17 anos o volume é de 6,6 livros por ano”.
“A pesquisa foi realizada em 311 municípios, em todo território nacional. Foram realizadas 5.012 entrevistas domiciliares nos meses de novembro e dezembro de 2007”.
Rogel Samuel
Ao contrário do que sempre se supôs, o brasileiro lê 4,7 livros por ano. Este é o resultado da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil encomendada pelo Instituto Pró-Livro ao Ibope e publicada em 28/05/2008 pelo Globo Online.
Os adultos lêem menos, 1,3 livros por ano. O Sul lê mais (5,5) do que o Sudeste (4,9). Depois vem o Nordeste (4,2) e o Norte (3,9).
As grandes cidades lêem mais (5,2) do que as pequenas (4,3). As mulheres (5,3) mais que os homens (4,1 livros por ano).
Quem mais lê são os jovens: “O público entre 12 e 13 anos chega a ler 8,6 livros por ano. De 5 a 10 anos, lêem 6.9 e de 14 a 17 anos o volume é de 6,6 livros por ano”.
“A pesquisa foi realizada em 311 municípios, em todo território nacional. Foram realizadas 5.012 entrevistas domiciliares nos meses de novembro e dezembro de 2007”.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Há perigos rondando realmente a Amazônia?
Há perigos rondando realmente a Amazônia?
Rogel Samuel
Está cada vez mais interessante reeditar o livro “A Amazônia e a cobiça internacional” (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1982), de Arthur Cézar Ferreira Reis. A primeira edição deve ser de 1960. Está esgotado, há muitos anos e foi pioneiro no assunto. No nosso blog publiquei um capítulo. Lá, Arthur Cézar também denuncia a destruição dos animais da Amazônia. Citando Silva Coutinho, escreveu, por exemplo: “só no ano de 1719, para as 192.000 libras de manteiga de tartaruga exportada pela Capitania de São José do Rio Negro, hoje Estado do Amazonas, foi necessário exterminar 24 milhões de tartarugas”. Arthur Cézar escreveu: “A ocupação da terra foi feita pelo homem desordenadamente. Era natural que assim fosse. Sem considerar o futuro e na ignorância de que estava trabalhando contra as gerações de amanhã, destruiu florestas, secou rios, removeu dificuldades criando problemas para amanhã. Em todos os continentes ocorreu esta maneira de agir desastrada e imprevidente. O pior, porém, é que, sem querer aprender a lição da experiência, prosseguiu na tarefa condenável, desatento a tudo e a todas as previsões dos que se alarmavam com a conduta criminosa, destruindo, com a sua teimosia, as esperanças e as possibilidades dos que deviam sucedê-lo”.
No seu último pronunciamento, o senador Jefferson Péres ridicularizou o correspondente no Rio de Janeiro do jornal The New York Times que publicou uma matéria, com o título: “Amazônia, de quem é afinal?” O texto põe em dúvida a soberania do Brasil sobre a Amazônia. “Não se pode levar a sério, disse o Senador. Por quem seria feita a internacionalização? Pela ONU? A Carta da ONU não dá poderes a essa organização para retirar território de nenhum país. Isso não encontra amparo jurídico. A ONU não pode fazer isso. Quem faria a internacionalização? Uma intervenção americana? Não seria internacionalização, seria uma invasão, seria um ato imperialista impensável... Isso não vai acontecer. Não tenho tanto medo da cobiça internacional sobre a Amazônia. Tenho medo da cobiça nacional sobre a Amazônia, da ação de madeireiros, de pecuaristas e de outros que podem provocar, repito, o holocausto ecológico naquela região.”
Seja como for, é bom que sempre estejamos nós levantando o assunto. Dia virá que talvez tenhamos de defender nossa soberania na região com paus e pedras.
Rogel Samuel
Está cada vez mais interessante reeditar o livro “A Amazônia e a cobiça internacional” (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1982), de Arthur Cézar Ferreira Reis. A primeira edição deve ser de 1960. Está esgotado, há muitos anos e foi pioneiro no assunto. No nosso blog publiquei um capítulo. Lá, Arthur Cézar também denuncia a destruição dos animais da Amazônia. Citando Silva Coutinho, escreveu, por exemplo: “só no ano de 1719, para as 192.000 libras de manteiga de tartaruga exportada pela Capitania de São José do Rio Negro, hoje Estado do Amazonas, foi necessário exterminar 24 milhões de tartarugas”. Arthur Cézar escreveu: “A ocupação da terra foi feita pelo homem desordenadamente. Era natural que assim fosse. Sem considerar o futuro e na ignorância de que estava trabalhando contra as gerações de amanhã, destruiu florestas, secou rios, removeu dificuldades criando problemas para amanhã. Em todos os continentes ocorreu esta maneira de agir desastrada e imprevidente. O pior, porém, é que, sem querer aprender a lição da experiência, prosseguiu na tarefa condenável, desatento a tudo e a todas as previsões dos que se alarmavam com a conduta criminosa, destruindo, com a sua teimosia, as esperanças e as possibilidades dos que deviam sucedê-lo”.
No seu último pronunciamento, o senador Jefferson Péres ridicularizou o correspondente no Rio de Janeiro do jornal The New York Times que publicou uma matéria, com o título: “Amazônia, de quem é afinal?” O texto põe em dúvida a soberania do Brasil sobre a Amazônia. “Não se pode levar a sério, disse o Senador. Por quem seria feita a internacionalização? Pela ONU? A Carta da ONU não dá poderes a essa organização para retirar território de nenhum país. Isso não encontra amparo jurídico. A ONU não pode fazer isso. Quem faria a internacionalização? Uma intervenção americana? Não seria internacionalização, seria uma invasão, seria um ato imperialista impensável... Isso não vai acontecer. Não tenho tanto medo da cobiça internacional sobre a Amazônia. Tenho medo da cobiça nacional sobre a Amazônia, da ação de madeireiros, de pecuaristas e de outros que podem provocar, repito, o holocausto ecológico naquela região.”
Seja como for, é bom que sempre estejamos nós levantando o assunto. Dia virá que talvez tenhamos de defender nossa soberania na região com paus e pedras.
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