quinta-feira, 3 de julho de 2014

INÊS, RAINHA PÓSTUMA - poema de Ivan Junqueira


INÊS, RAINHA PÓSTUMA

 

Estavas, linda Inês, póstuma e lívida,

como se a vida em ti não mais fluísse,

 mas quem te contemplasse saberia

que eras enfim o nervo do conflito:

não tanto aquele que te fez a vítima

dos reis e das intrigas da península,

 mas o que dentro de ti mesma urdiram

teu sangue abrupto o teu amor sem bridas.

 Por isso é que o sossego não te cinge

 nem te refreia o frêmito do instinto

que ainda fustiga o flanco de tuas cinzas.

 Ali, na pedra, és de ti própria a epígrafe:

princípio e fim da mísera e mezquinha

que depois de ser morta foy Rainha.

 

(JUNQUEIRA, Ivan. A rainha arcaica. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980, p. 118).

Apud. Rogel Samuel. Literatura básica. Petrópolis, Vozes, 1985.

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