sexta-feira, 18 de abril de 2008


Paris

Rogel Samuel


Havia uma chuva fina que molha o chão das ruas e põe as folhas das árvores pensativas. Nas três vezes anteriores que estive em Paris chovia sempre. Como todo amazonense, adoro Paris. Sonho morar em Paris, como os amazonenses da época de meu avô. Manaus, réplica, miniatura de Paris. Existia a Casa Louvre, A la ville de Paris, Café da Paz, Au bon marché, Livraria Palais Royal, Casa Sorbonne, Bijou . "Manaus, pequena Paris". Boulevar Amazonas, Boulevard Álvaro Maia. "A samaritana". Manaus, toda francesa. Na "Praça da Polícia", uma réplica do "Temple d'amour", de Versailles. Quando a borracha faliu, os comerciantes quebraram, mudaram-se para Paris, Lisboa. Os jornais da época marcam anúncios, despedida. Bela maneira de ir à falência: Iam para Paris. Onde já estudavam seus filhos. Um amigo reacionário me diz, com indignação: "A filha do Lula estuda em Paris". Meu pai estudou em Paris, no entre-guerras. Na realidade, ele era francês, ainda que tivesse nascido a bordo do navio Adamastor, em Remate de Males, que eu só sei onde fica devido a um livro de Mário de Andrade. Antes que a malária matasse todas as crianças nascidas ali, meu avô, que era alsaciano, transbordou sua mulher e filho para um navio inglês que passava. O menino ficou em Estrasburgo, a bela cidade, a Catedral mais bela do mundo. Aliás, ele morava perto da Catedral. Acordava ao som de seus sinos. A catedral é maior do que a própria cidade. Um dia, estando em Frankfurt, em casa de Karl Joseph, eu disse: "Vou ver Estraburgo". E ele respondeu: "Eu levo você". Fomos, que era domingo, eu, ele e sua esposa brasileira. De Estrasburgo, mandei um cartão para meu pai, ainda vivo. Lá, depois do almoço, quiseram voltar. No dia seguinte trabalhavam. Eu disse: "Não volto sem ver e ouvir o relógio da Catedral". Passei a infância ouvindo falar daquele relógio. Karl Joseph e a mulher foram descansar num hotel, na estrada, eu esperei dar 6 horas da tarde dentro da Catedral. A primeira coisa que aconteceu foi abrir-se uma portinhola e dali sair um boneco mecânico, um esqueleto vestido de Morte, bateu com um martelinho num sininho. Aquilo ecoou por toda a nave. Ao que o grande sino da Igreja respondeu, solene. Grave. Chove sempre que estou em Paris. Com Annie Gerault, que não tem medo de chuva, cortamos o Bois de Vincennes, pelas margens do lago "des Minimes", sob chuva forte, à noite. Annie mora na Rue Fondary, não longe da Torre Eiffel. Um dia fomos ver a nova iluminação da Torre. Depois, já bem tarde, Annie quis passear pela noite, no Jardin du Luxembourg. Como carioca, logo pensei em assalto. O jardim estava deserto, mas a sensação era de calma. Lembrei-me então: não estávamos no Rio.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

PAULO JACOB

PAULO JACOB

POR ROGEL SAMUEL


Sob vários aspectos, ele é o maior romancista da Amazônia. Não é muito lido, conhecido, porque autor difícil, sofisticado. Sua morte, no dia 7 de abril do ano passado, abre questão grave quanto à divulgação da cultura nacional brasileira. Sua morte não chamou atenção. Não se soube. Eu mesmo, amazonense de Manaus, onde morava o escritor, não tive conhecimento.
* * *
Vim a ouvir da boca de um chofer de táxi, em Manaus, no dia 18 de junho. Dizia-me ele: - ...Por ali , na rua onde morava aquele desembargador, que morreu no ano passado... A rua, cujo nome não me ocorre, fica ao lado do Igarapé. A casa, em frente ao igarapé, exibe a vocação de Paulo Jacob. Em Manaus, mas sempre voltado para a Floresta. Que ele conheceu bem, pois foi juiz em Canutama, no rio Purus, em 1952, e durante 10 anos viajou pelo Amazonas. Até que, nos anos 60, foi promovido a desembargador do Tribunal de Justiça.
* * *
Paulo Jacob escreveu muito. Muito. Cerca de 10 romances bem trabalhados. Quase ganhou o maior prêmio nacional de literatura da sua época, o Walmap, em 1969, com «Dos ditos passados nos acercador do Cassianã», 2º lugar. Excelente livro, imenso, denso, 359 páginas de um tipo pequeno, corpo 10 (Rio de Janeiro, Bloch, 1969). O Walmap tinha juízes como Jorge Amado, Guimarães Rosa e Antônio Olinto. Os três deram o 4º lugar para «Chuva branca», em 1967, um dos seus mais belos livros. Outro livro, «Vila rica das queimadas», título bem atual, ecológico, também ficou entre os finalistas do Walmap. O título denuncia, como o livro: «O coração da mata, dos rios, dos igarapés e dos igapós morrendo», sobre o desmatamento. «Chãos de Maíconã» também «menção honrosa» do Concurso Walmap.
* * *
Festejado foi pela crítica, Paulo Jacob. Leila Miccolis o considera «o Guimarães Rosa da Amazônia». Guimarães Rosa ficou entusiasmado com «Chuva branca». Aguinaldo Silva diz que ele fez «o primeiro grande romance da Amazônia». Assis Brasil compara «Chuva branca» a «Sagarana» de Rosa e a «The wild palms» de Willian Faulkner.
* * *
Ler Paulo Jacob é dificuldade. Chega que ele, em «Chãos de Maíconã», anexou um vocabulário da língua ianoname, no fim do livro. De um «Dicionário da língua popular da Amazônia» também ele é autor
* * *
Paulo Jacob nasceu em 24 de fevereiro de 1921 e faleceu no dia 7 de abril de 2004. Escreveu ainda: Muralha verde (1964), Andirá (1965), Estirão de mundo (1979), A noite cobria o rio caminhando (1983), O gaiola tirante rumo do rio da borracha (1987), além dos citados acima.
* * *
Em «Chuva branca», o personagem vai-se adentrando, vai-se assimilando na floresta, vai-se afastando da civilização, até que no fim parece que nem existiu - vira mito. No fim, na morte, ele tira a roupa, fica nu, perdido na mata, integrado nela, sabendo que vai morrer, perdido e integrado, no mitificado.
* * *
« O gaiola tirante rumo do rio da borracha» narra a viagem de um navio, um gaiola, um barco a vapor, saindo de Belém até o outro lado da Amazônia, no rio Purus até subir o rio Iaco, onde o navio naufragou e ali se soube que o preço da borracha despencara, de quinze mil réis caiu para oito, pondo na falência todos os coronéis. O personagem é o Comandante Antonio Damasceno.
* * *
Paulo Jacob foi professor universitário e Presidente do Tribunal de Justiça. Como Presidente de tribunal chegou a assumir o Governo do estado, em 1982. Sua morte deixa aberta a vaga de melhor romancista da região Norte.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

OS LIMITES DA LUZ DE MAIO


Mas você conhece a luz dos dias de maio? Já viu o céu e aquela luz filtrada em transparência luminosa, aquela luz azul, radiantemente azul, de um azul tão alto, tão nobre, tão vasto? Sabe de que é feito aquela imensa luz do universo em festa? Sabe de como tudo se transmuda em cristais de límpido brilho dos pequenos córregos que caem das altas montanhas como crianças bailarinas e jóias lantejoulas? E sobre as cidades como sobre os campos a luz de maio deita seu limo de íris e de poesia irisada. Já ouviu a música da luz de maio? A "rosa de maio", os lúcidos arpejos dessa temporada em que amamos e em que nosso espírito dança? Pois merecemos viver o mês de maio e suas fragrâncias, nos sagrados bosques de nossas florestas interiores e nos recolhimentos de nossos sonhos renovados...
A visão do mar me lembra uns versos de Valery:

"Que lavor puro de brilhos consome
"Tanto diamante de indistinta espuma
"E quanta paz parece conceber-se!
"Quando repousa sobre o abismo um sol,
"Límpidas obras de uma eterna causa
"Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria.

Valery escreveu esses versos no longo poema "Cemitério marinho", tão difícil de compreender, mas tão fácil de amar, de sentir. Mas creio que a "função" do poema é esta: a de ser sentido.
Terá a poesia alguma "função"? Precisa o poema ter certa compreensão intelectual?

"Esse teto tranqüilo, onde andam pombas,
"Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
"O meio-dia justo nele incende
"O mar, o mar recomeçando sempre.
"Oh, recompensa, após um pensamento,
"um longo olhar sobre a calma dos deuses!"

A tradução é de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia, que conheci na FNFi nos dias de estudante.
Olhar o mar é isso: ver a calma dos deuses, nas faiscações de pasta de prata. O mar acende seus pandeiros de prata, sua luz miraculosa azul.

"Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
"O sopro imenso abre e fecha meu livro,
"A vaga em pó saltar ousa das rochas!
"Voai páginas claras, deslumbradas!
"Rompei vagas, rompei contentes o
"Teto tranqüilo, onde bicavam velas!"
...............

'Tesouro estável, templo de Minerva,
"Massa de calma e nítida reserva,
"Água franzida, Olho que em ti escondes
"Tanto de sono sob um véu de chama,
"- Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
"Cume dourado de mil, telhas, Teto!"



Que a última estrofe de «O cemitério marinho» de Paul Valéry assim canta:

«Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o
Teto tranqüilo, onde bicavam velas! »

Uso a extraordinária tradução de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia.
O poema enorme, difícil.
Desde que o li, pela primeira vez, há mais de quarenta anos, tento penetrar no mar de seu sentido. Às vezes, parece entender-se. Outras vezes, inatravessável é o seu mar. Mas sempre o sinto, o que importa. O que importa é sentir um poema. Não «interpretá-lo». Os intelectuais matam o poema, intelectualizam-no. Por isso Barthes foi tão bom crítico. Barthes fazia o texto falar, deixava-o falar-se.

«Esse teto tranqüilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
um longo olhar sobre a calma dos deuses! »

Seja como for, Valéry nos abre à imaginação o grande oceano da morte. Mas «recomeçando sempre». Sempre, «sobre a calma dos deuses».
Sei que não é algo para ser lido assim, mas que tema mais religioso do que a morte neste túmulo do oceano de «tanto diamante de indistinta espuma », onde «quanta paz parece conceber-se!».

«Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria. »


O poema tem ímpetos de infinito, abre-se para a eternidade, «massa de calma e nítida reserva»:

«Água franzida, Olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
-Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, Teto!»

Valery disse que seu poema é sua «poesia verdadeira», mesmo as passagens mais abstratas. Disse que via ali uma espécie de «lirismo» , algo «abstrato mas de uma abstração motriz mais que filosófica».


Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.

Diz da vida, do amor, da ordem e desordem da vida e do amor, do mar e do sol, das colinas das ondas, da chave do mistério do «mar de nossa conversa», como dizia Cabral:


Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.

É uma reflexão sobre o tempo:


Belo céu, vero céu, vê como eu mudo!
Depois de tanto orgulho e tanta estranha
Ociosidade - cheia de poder -
Eu me abandono a esse brilhante espaço,
Por sobre as tumbas minha sombra passa
E a seu frágil mover-se me habitua.


É uma reflexão sobre os movimentos das ondas da vida:

A alma expondo-se às tochas do solstício,
Eu te afronto, magnífica justiça
Da luz, da luz armada sem piedade!
E te devolvo pura à tua origem:
Contempla-te!... Mas devolver a luz
Supõe de sombra outra metade morna.

O poema foi publicado no número de junho de «La Nouvelle Revue française», mas ele deve ter trabalhado no poema desde muito tempo.


Oh, para mim, somente a mim, em mim,
Junto ao peito, nas fontes do poema,
Entre o vazio e o puro acontecer,
De minha interna grandeza o eco espero,
Sombria, amarga e sonora cisterna
- Côncavo som, futuro, sempre, na alma.


Aqui vindo, o futuro é indolência.
Nítido inseto escarva a sequidão;
Tudo queimado está desfeito e no ar
Se perde em não sei que severa essência,
Faz-se a amargura doce e claro o espírito.



Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o
Teto tranqüilo, onde bicavam velas!

É esta tradução de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia.

domingo, 13 de abril de 2008

FILETO PIRES FERREIRA


GENERAL DR. FILETO PIRES FERREIRA


Raul de Azevedo


No cenário da política do Norte, antes de 1930, 0 General Dr. Fileto Pires Ferreira foi um nome falado e discutido, com valores próprios. Era, então, tenente do Exercito, e fora da Câmara dos Deputados para a curul governamental do Amazonas. Depois, promovido a Capitão. Homem inteligente, de sólida cultura, era ele de verdade uma figura interessante. Onde estivesse estava o movimento. Tinha acão, - pronta, enérgica e decisiva. Orador excelente, veemente, arrebatador de assistências, a sua frase tinha calor. Era um homem norteado pelo bem e com atitudes e gestos nobilitantes. Tinha princípios em política. Idéias firmes, ardente vontade de trabalhar pelo Amazonas, onde se radicara, e pelo Brasil. Republicano dos melhores. Fui um dos seus companheiros, um dos seus amigos, um dos seus auxiliares na linha da frente pró-Amazonas. Sei bem dos seus sentimentos, dos seus serviços, do seu idealismo. Foi talvez o discípulo mais amado de Benjamim Constant, um dos fundadores da Republica. Possuía uma fotografia do General com a mais alta e nobre das dedicatórias. Ardoroso, vibrante, às vezes impetuoso, era um homem de comando. Há homens que nascem para comandar, assim como outros para serem comandados...Ele era dos primeiros. Trabalhava sempre, trabalhava muito. Pensava de certo com Rojon, - "l'homme Ie plus heure c'est Ie plus ocupe" . Um resumo biografico: - Nasceu Fileto Pires Ferreira a 16 de marco de 1866, no município de União, Estado do Piauí. Filho de pais piauienses, capitão Raymundo de Carvalho Pires e D. Lydia de Sant' Anna Pires, fez os seus primeiros estudos em Terezina, onde tirou os preparatórios com brilhantismo. Com decidida vocação pela carreira militar ,seguiu para o Rio de Janeiro, em 1883, como soldado do Batalhão de Engenheiros, matriculando-se na Escola Militar do Rio Grande do SuI, em 1884. Aí repetiu, com o melhor êxito, os preparatórios de matemática, merecendo o grau distinto. Em 1885, foi transferido para a Escola Militar do Rio de Janeiro, tirando o primeiro e o segundo ano com aprovações distintas, conquistando o posto de alferes aluno em 1886. Até setembro estudou o 3.° ano, quando doença grave fê-lo interromper. Em 1888, entretanto, concluiu esse ano, sendo classificado em 1.° lugar nas duas matérias principais. Em 1889 fez o 4.° ano, com exames também de algumas matérias complementares, criadas no curso pelo regulamento Thomaz Coelho . Republicano desde os bancos escolares, educado nas idéias modernas e liberais, Fileto Pires, em 1889, tomou parte saliente em todo o movimento republicano, distinguindo-se pelo seu talento e valor. Discípulo amado de Benjamim Constant, esteve ao seu lado no preparo e na execução dos pIanos de 15 de novembro de 1889. Tomou parte em todos os acontecimentos revolucionários, marchando com a célebre 2.a Brigada, sob o comando de Benjamim Constant e depois de Deodoro da Fonseca. Proclamada a Republica, onde a sua cooperação se salientou, fez o serviço da guarnição no Quartel General nos dias subseqüentes. No Diario Oficial de setembro de 1891, ha um documento honrosíssimo para Fileto Pires, referente ao movimento republicano. Foi um dos que sufocaram a revolta do 2.° Regimento, em dezembro de 1889. Em 1.° de janeiro do ano seguinte, embarcou para o Amazonas, a disposição do Governador, 1o tenente Augusto Ximenes Villeroy, depois general reformado do Exercito. Em viagem soube que fora confirmado no posto de 2.° tenente e promovido imediatamente a 1o tenente, por serviços relevantes prestados à Republica. Chegando a Manaus, seguiu para Teffé como superintendente municipal, dispensando os seus vencimentos. Regressou pouco depois, seguindo para o Rio de Janeiro, para completar o seu curso em janeiro de 1891, quando recebeu o grau de bacharel em matemática e ciências físicas e naturais. Formado já e prestes a ser promovido a capitão, soube que a promoção estava feita, com classificação em Mato Grosso. Não querendo seguir para aquela região, pediu licença e foi transferido para o Estado Maior de 1.a classe. Incompatibilizado com o Governo de então por acontecimentos políticos do Piauí, seguiu para Minas Gerais, onde esteve quase um ano, trabalhando como engenheiro da Estrada de Ferro, regressando ao Rio em fins de 1891, licenciado pela Diretoria da Estrada. Por essa época deu-se 0 golpe de Estado. 0 Ministro da Guerra ordenou a sua presença no Quartel General, sendo, então, nomeado ajudante de ordens do 1.o distrito militar, no Pará. Aproveitando a sua ida ao Norte, o Marechal Floriano Peixoto confiou-lhe uma comissão importante e reservada - conferenciar com os chefes do movimento contra o golpe de Estado. Em Pernambuco teve ciência do contragolpe, tendo-se entendido já com Moreira Cesar, na Bahia, CaIheiros, em Alagoas e Coronel Câmara, em Pernambuco, quando recebeu telegrama do Marechal mandando aguardar ordens do Governo no Amazonas e agradecendo os serviços que prestara. Em dezembro de 1891, Fileto Pires chegou a Manaus. Do dia da sua chegada ate 27 de fevereiro de 1892, deu-se o celebre movimento revolucionário amazonense, que acabou na deposição do Governo Thaumaturgo de Azevedo. A 11 de Março chegava o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro; escolhendo e nomeando secretario do Governo o ilustre republicano, tendo servido nessas funções ate 16 de maio, cooperando eficazmente para o desenvolvimento do Amazonas. Serviu gratuitamente na Diretoria de Obras Públicas, sendo nomeado depois para servir nas Obras Militares. Em 1892 foi eleito deputado ao Congresso do Amazonas, sendo designado com três colegas para fomar o projeto da Constituição do Estado. Em setembro, promulgada esta, retirou-se para a capital da Republica, de onde regressou a 11 de fevereiro de 18937 quando se deram os fatos da pretendida deposição do dr. Eduardo Ribeiro pelo Coronel Bento Fernandes. Defendeu o governo legal, salientando-se na sufocação desse movimento. A 20 de março, eleito deputado federal, seguiu para o Rio de Janeiro, apoiando incondicionalmente os atos do bravo Marechal Floriano. Na Câmara Federal a sua figura foi saliente, discutindo as questões mais importantes, agitadas naquela casa. A 25 de julho do mesmo ano consorciou-se, na Capital Federal, com a Exma. Sra. D. Maria Lucrecia Gomes de Souza, pertencente a uma das famílias mais distintas do Rio de Janeiro, e filha do velho general Francisco Gomes de Souza, maranhense. Estalando a revolta de setembro de 1893, apresentou-se ao Governo, tendo servido com todo o patriotismo e abnegação nas Fortalezas de Santa Cruz e São João. Fez com rara pericia toda a obra de defesa da Fortaleza de S. João, tendo seguido logo após em comissão reservada do Governo para Santos, para a fortificação da cidade, de onde regressou a 11 de março de 1894, para assistir ao ataque decisivo da esquadra. Nesse tempo, em 1.o de março, era reeleito deputado federal pelo Amazonas, continuando na Câmara a apoiar o Marechal Floriano, ao lado dos seus amigos e companheiros general Francisco Glycerio, general Quintino Bocayuva e general Pinheiro Machado. Apresentou-se em 1894 a candidatura do Senador Manoel Francisco Machado para Governador do Estado do Amazonas, e esse fato abriu cisão no seio do Partido Democrata, sendo por esse tempo fundado o Partido Republicano Federal, sob a chefia do senador referido, sendo o dr. Fileto Pires escolhido um dos representantes do Partido, na capital da Republica. Acompanhou-o nessa situação o militar e deputado federal Gabriel Salgado. Travou-se então luta renhida entre as duas facções do Partido, tendo o dr. Fileto Pires, no Rio, dirigido todo o movimento político. Divergências posteriores entre moço piauiense e o senador Barão de Ladario arrastaram o senador Machado para as fileiras do sr. Costa Azevedo (Barão de Ladario). - Houve rompimento, ficando a política dividida em três grupos: - um dos Moreiras, representado pelos srs. coronel Joaquim José Paes de Silva Sarmento, outro do desembargador Antonio Gonçalves Pereira de Sá Peixoto e coronel Francisco Ferreira de Lima Bacury, e finalmente o terceiro, pelo sr. dr. Fileto Pires Ferreira e Gabriel Salgado. Regressando a Manaus, o distinto militar apresentou nos últimos dias de 1895 a candidatura do sr. Gabriel Salgado para Governador do Amazonas, sendo recusada. Então os amigos de Fileto Pires assentaram a sua candidatura que, a princípio, recusou e finalmente, depois de muita insistência e principalmente atendendo a um apelo do dr. Eduardo Ribeiro, foi aceita e eleito governador do Estado do Amazonas a 25 de março de 1896, tomou posse a 23 de julho do mesmo ano. De acordo com a lei promulgada pelo Congresso do Estado em 25 de março de 1898, foi concedida licença ao Dr. Fileto Pires para retirar-se do Amazonas, afim de tratar de sua saúde gravemente abalada, e na Europa se operar, tendo seguido dias depois, passando o Governo ao seu substituto legal Coronel Jose Cardoso Ramalho Jr., Vice-Governador. Em agosto de 1898, estando ainda na Europa, alguns dos seus "amigos" e protegidos se tornaram seus adversários políticos, falsificando sua assinatura, forjando sua renúncia a presidência do Estado. É a página mais negra e a mais repulsiva da política do Amazonas de outrora. Deixando a política, dedicou-se exclusivamente a carreira militar, tendo dado desempenho a diversas e importantes comissões. Entrando para o Corpo do Estado Maior, ocupou a chefia da 1.a Divisão. Em 22 de outubro de 1916, o Diario do Congresso estampou um parecer de sua lavra sobre o projeto da criação de um Estado Maior Mixto, de Defesa Nacional, que merecera a aprovação do General Moraes Rego, bem como do General Bento Ribeiro.Quando enfermou tinha em elaboração um regulamento do Exercito em campanha, sendo da sua autoria o projeto de regulamento sobre Administração nos corpos que, em 1917 foi publicado no Boletim do Estado Maior, tendo em vista o regime das Massas. Comandava o 9.° Regimento de Artilharia, quando a morte o surpreendeu. Faleceu 0 General Fileto Pires Ferreira no Rio de Janeiro a 11 de agosto de 1917, em sua residência, a Rua Visconde de Itamarati, 116. Vitimou-o um ataque de uremia. Assisti os seus funerais. Tomei parte em todas as homenagens que lhe foram prestadas. 0 seu enterro no cemitério de S. Francisco Xavier, no mesmo dia da sua morte, movimentou os seus inúmeros amigos e companheiros, militares e civis. Houve urna coincidência singular, - o seu falecimento ocorria no mesmo dia em que era lavrado pelo sr. Presidente da Republica o decreto da sua reforma. Fileto Pires Fereira teve os seguintes filhos: - 0 ilustre major Alkindar Pires Ferreira, falecido, senhoritas Nair e Iberina, e capitães Ibere, Ivan e dr. Helio Pires Ferreira. Era sobrinho do Marechal Firmino Pires Ferreira, que foi Senador Federal e Chefe político no Piauí, e cunhado do brilhante Dr. Guido Gomes de Souza, desembargador aposentado do Superior Tribunal de Justiça do Amazonas e do almirante Heráclito Belfort Gomes de Souza, ambos falecidos. O Amazonas, pelo motivo da sua morte, prestou-lhe diversas homenagens, - os poderes Judiciário, Legislativo e Executivo, imprensa e povo. Antes, fora um dos homens mais caluniados do Brasil. A politicalha precisava abatê-lo. Ai acima ficou uma referencia sobre um retrato do General Benjamim Constant oferecido ao dr. Fileto Pires Ferreira. A dedicatória do fundador da Republica vale por uma proclamação, - "Alma pura, coração generoso, francamente aberto aos nobres sentimentos, que mais honram a nossa espécie". Está datada de 1890. O sr. General Vicente Guimarães, ao desligar da Guarnição da Bahia o então major dr. Fileto Pires Ferreira, escreveu, - "Oficial disciplinado, disciplinador, devotado ao engrandecimento material e moral de sua classe, irrepreensível no cumprimento de seus deveres, o major Fileto prestou relevantes serviços a esta administração, já cooperando na construção dum campo de exercícios práticos e linhas de tiros que foi levada a efeito na fazenda da Ponta d'Areia, onde permaneceu durante 4 meses, ministrando instrucões a um contingente do 9.° batalhão, já na seleção dos voluntários que se destinavam às fileiras, base primordial para a organização do nosso Exército. Louvando o referido oficial pela lealdade, pela dedicação, inteligência e competência que sempre patenteou, quer no exercício de suas funções, quer no desempenho de comissões que lhe foram confiadas por este comando, cabe-me congratular-me em nome desta guarnição, com a do 2.o distrito, pela aquisição que vai fazer de tão distinto quão prestimoso camarada". Foi ruidoso no Pais o caso da chamada renúncia do dr . Fileto Pires Ferreira ao cargo de Governador do Amazonas. Ele publicou mesmo um livro interessantíssimo sobre o triste assunto, largamente documentado. 0 seu período governamental foi iniciado a 23 de julho de 1896, tendo recebido 0 mandato a 25 de março daquele ano. Seria por 4 anos. Foi privado dele, pela felonia, a 1º de agosto de 1898, tendo governado somente dois anos, alias proveitosos e fecundos para o Estado. Toda essa época ficou fora do serviço militar, dentro das prerrogativas emanadas da Lei pelo motivo do seu mandato de Governador. Era implicitamente a comprovação, por parte dos poderes constituídos, da sua situação política.O dr. Fileto Pires Ferreira deixou a administração a 4 de abril de 1898, embarcando doente para a Europa, com a sua família. Tinha que se submeter a uma grave intervenção cirúrgica. Fora em licença legal concedida pelo Congresso do Estado. De Paris, datada de 27 de Junho,o Congresso Legislativo recebeu a renúncia do Dr. Fileto Pires Ferreira, que então ali se encontrava, e aceitou-a. Mas a assinatura fora falsificada e com firma reconhecida. Foi feita por pseudos amigos seus, a quem protegia. Mas neste ensaio não pretendemos discutir nem tratar de atos subalternos. 0 nosso intuito é apenas salientar a obra magnífica daquele que foi sempre um homem digno, com serviços a Pátria, - Soldado e Cidadão. Já falamos do Soldado, - dos melhores , que o Pais tem tido . Falemos agora do Cidadão. Prefeito, Deputado ao Congresso do Estado, Deputado ao Congresso Federal, Governador do Amazonas, - ele prestou bons serviços ao País, particularmente ao Amazonas. Os seus pareceres, os seus discursos, - orador notável que era - a sua ação, e os seus trabalhos confirmam esses dizeres. Difícil será uma síntese dos seus dois anos de governo. Desde o primeiro ao último dia estivemos ao seu lado, auxiliar, companheiro e amigo. Oficial de Gabinete e depois Secretario do Estado, acompanhamos a sua obra de construção e reconstrução. Recebeu o dr. Fileto Pires Ferreira o Estado com um deficit de quase 4.000:000$000, e apenas em dezenove meses de governo, entregou-o com um saldo em dinheiro de quase 9.000: 000$000, e o Amazonas sem dividas, - e ainda com uma serie avultada de obras ! Encontrou todas as construções suspensas, vultosas dividas, e o Tesouro sem dinheiro. Teve que realizar um pequeno empréstimo, primeiro mês de administração, para completar o pagamento do funcionalismo. Entregou o Estado com todas as obras em andamento, outras iniciadas, sem dívida alguma e com um enorme saldo. Era, pois, um grande administrador. Uma das suas preocupações maiores era a demarcação dos limites do Estado Amazonas-Para, em litígio há muitos anos. Procedidos os estudos, feito o entendimento com o Pará, ao tempo governado pelo eminente dr. Jose Paes de Carvalho, foi o Governador até Belém afim de assinar o acordo com o Governo, finalizando, assim, a tradicional divergência. Secretario do Governo, fiz parte da pequena comitiva, e subscrevi o tratado de limites, que consultava a verdade, a justiça e os interesses de todos. Fileto Pires reorganizou a Justiça do Estado, respeitando os seus direitos, ampliando a sua ação. Acabou com as verbas orçamentárias, ilimitadas e as autorizações contrárias aos interesses do Estado. Fixou as verbas. Deram-lhe, sem que ele pedisse, no orçamento, autorização para contrair um empréstimo de £ 2.000.000, e muitas outras concessões e delas nunca se utilizou. Publicava todos os seus atos. Dava liberdade à imprensa. Clamou por uma devassa na sua vida publica e particular, quando foi traído. Mas a intervenção federal não se deu. A renúncia ficou entre os casos consumados da época. O seu programa principal foi organizar uma fiscalização séria e rigorosa, e desenvolver fontes de renda. Educação, saúde, Lavoura, Agricultura, Pecuária, Transportes, - melhorar tudo, como melhorou. Quando os sertões de Canudos se revolucionaram, Fileto Pires, oficial competente do Exercito, correu em defesa da Republica, enviando forças policiais amestradas para a luta. Tiveram grande êxito, sob o comando do depois general reformado Candido Mariano, falecido. Gritou contra a linha de limites com a Bolívia que estava sendo traçada, e que esbulhava o Amazonas e o Brasil. Pediu fosse verificada a nascente do Javary, e foi atendido. Cuidou dos limites do Amazonas com Mato Grosso. Estabeleceu harmonia e respeito dos poderes, prestigiando-os. Sendo maiores as rendas do Estado, aquele tempo, provenientes dos direitos cobrados pelas exportações da borracha e da castanha, alvitrou que os orçamentos fossem calculados em ouro. A questão cambial era então assunto momentoso, premente, de importância capital, para a própria vida do Estado. Cresceu no seu governo a produção da borracha e devido à baixa cambial, as cifras subiram, apresentando grandes arrecadações, devido também ao seu programa intransigente de fiscalização. Muita vez, com ele, fizemos fiscalizações de embarques. Trabalhou pela instrução pública, desenvolvendo-a, instalando escolas, grupos e cursos. Remodelou-as. A alfabetização do Brasil, de toda a vasta região sob o seu governo, era uma das suas preocupações continuas. Cuidou seriamente da catequese e civilização dos índios. Reorganizou enfim a estatística, serviços de higiene e meteorologia. Abriu novas comunicações, e é sua a primeira boa estrada de rodagem para, Sao Joaquim, no Rio Branco, e conseguiu que a Municipalidade da Labrea auxiliasse a exploração de outra para o Beny. Fazia o controle das rendas municipais e o seu emprego. Desenvolveu muito a vida comercial do Estado e, em reconhecimento, a Associação Comercial e todo o alto comércio ofereceram-Ihe, antes da sua partida para a Europa, um grande banquete. Alargou, desenvolveu, a navegação interna e de longo curso, beneficiando o Estado. Cuidou de regulamentar seriamente a venda e demarcação de terras publicas, acabando com os escândalos profissionais existentes. Reformou o contrato da viação urbana, substituindo a tração a vapor pela elétrica, reformou o seu material, sem maiores agravos para o Estado. Transformou, aperfeiçoando, o serviço telefônico, substituindo as linhas aéreas por cabos subterrâneos. Cuidou dos serviços de imigração. Melhorou o abastecimento d'agua e esgotos, calçamentos e nivelamentos da Cidade, fez obras internas e externas em muitos edifícios públicos, inaugurou o belo Teatro Amazonas, cuidou dos Palácios da Justiça e do Governo, do Ginásio, a construção do Instituto Vacinogênico, do desinfetório, da hospedaria de imigrantes, do bosque, parques, jardins. Trabalhava e agia em toda a parte. Era um empreendedor. Fileto Pires Ferreira - escreveu no seu livro sobre a política do Amazonas, esta frase certa, - "é a história que há de confessar os esforços que fiz, no sentido de nobilitar a autoridade que encontrei enfraquecida e rebaixada, a dedicação com que trabalhei para implantar um regime de ordem, disciplina, moralidade e economia" . De Milton e o conceito, - tout ce qui fait l'homme un homme est le veritable objet de l' enseignement . O Dr. Fileto Pires Ferreira foi um General e um Cidadão. Era um Homem.(IN: RAUL DE AZEVEDO. "TERRAS E HOMENS". RIO DE JANEIRO, PONGETTI, 1948)

FILETO PIRES FERREIRA


FILETO PIRES FERREIRA

Agnello Bittencourt


"Dicionário amazonense de biografia". (Rio, Conquista, 1973).

FILETO PIRES FERREJRA Governou de 26 de julho de 1896 a 4 de abril de 1898.
Projetou-se em uma das mais agitadas fases da história política do Amazonas, dentro do ciclo de inquietação que caracterizou os esforços de implantação e consolidação do regime republicano. Pertenceu ao grupo de jovens oficiais que subiu ao poder nos Estados logo após o 15 de Novembro.
Fileto Pires Ferreira, natural do Piauí, nasceu a 16 de março de 1866, filho do Capitão Raymundo de Carvalho Pires e D. Lydia de Santana Pires. Fez seus cursos primário e de preparatório em Teresina.
Iniciou sua formação militar em Porto Alegre em 1884. Transferido no ano seguinte para o Rio de Janeiro, veio a tomar parte na preparação do movimento republicano, sob a liderança de Benjamim Constant. Como Alferes-Aluno, juntamente com outros oficiais do Regimento de Artilharia, dirigiu um vibrante manifesto de solidariedade a Benjamim Constant, à semelhança de outros pactos de sangue com que a jovem oficialidade se dispunha levar sua indignação cívica e seus ressentimentos profissionais às últimas conseqüências. (Esse manifesto é reproduzido pelo acadêmico, Sr. Raymundo Magalhães Júnior, “Deodoro”— Vol. II, pág. 45).
A 15 de novembro de 1889, estava entre os oficiais da 2.a Brigada, à frente da qual o Marechal Deodoro da Fonseca compareceu ao Quartel-General para depor o Gabinete Ouro Preto, episódio da seqüência de acontecimentos que compõem a proclamação da República.
Em começo de 1890, foi mandado para o Amazonas, para servir ao lado de Augusto Ximenes de Villeroy, que, então, era 1.°-Tenente e Governador do Amazonas nomeado pelo Governo- Provisório, em substituição à Junta que assumiu o poder com a proclamação da República.
Ao chegar à Manaus, já como 1.°-Tenente, Fileto Pires foi nomeado Superintendente Municipal de Tefé. Regressou ao Rio de Janeiro, concluindo em 1891 sua formação militar básica, com o título de Bacharel em Matemática e Ciências Físicas e Naturais. Tinha deixado no Amazonas a semente de sua prosperidade política e, também, de grandes mágoas que sofreu.
A fim de evitar sua transferência para Mato Grosso, pediu licença. Temporariamente fora do serviço ativo do Exército, esteve em Minas Gerais, onde atuou como engenheiro em serviços ferroviários.
Logo após o golpe de Estado de Deodoro, Fileto Pires foi chamado ao serviço ativo, sendo classificado no Pará. Em viagem, durante a qual cumpriu missões de articulação com chefes militares que lhe dera o Marechal Floriano Peixoto, soube da queda de Deodoro da ascensão de Floriano. Deste recebeu ordem de seguir para Manaus.
Fileto Pires estava em Manaus, quando, a 27 de fevereiro de 1892, foi deposto do governo do Estado o então Coronel Thaumaturgo de Azevedo. Este aderira ao golpe de estado de Deodoro e agora era incluído na derrubada de governadores que veio com o contra-golpe de Floriano.
Após a breve interinidade do Capitão-de-Fragata José Inácio Borges Machado, assume o governo, a 11 de março de 1892, Eduardo Gonçalves Ribeiro, que convida Fileto Pires para Secretário do Estado.
Em 1893, eleito Deputado Federal, distinguiu-se, na Câmara, na defesa de Floriano e da terra que ali representava. Foram seus companheiros Francisco Ferreira de Lima Bacury, Gabriel Salgado dos Santos e Antônio Gonçalves Pereira de Sá Peixoto.
A 25 de julho de 1893 casou-se com Maria Lucrécia Gomes de Souza, filha do General Francisco Gomes de Souza. Ao explodir, logo após, a Revolta da Armada, Fileto Pires apresentou- se ao Governo, indo servir nas Fortalezas de Santa Cruz e São João.
A l.° de março de 1894, foi reeleito Deputado Federal pelo Amazonas, continuando a apoiar o Marechal Floriano, em uma época de muita agitação.
O ano de 1895 foi de grande movimentação política no Amazonas, sobretudo depois que o Partido Democrata, chefiado pelo Coronel Emílio José Moreira, apresentou, à sucessão de Eduardo Gonçalves Ribeiro, o nome do Senador Manuel Francisco Machado, que logo foi recusado. O Governador cujo mandato findava tinha predileção por Fileto Pires. Apresentado este, cindiu se o Partido Democrata, mas já estavam eleitos os seus deputados ao Congresso Legislativo do Estado, tornando-se, em conseqüência, arriscado para o Governo o propósito de promover o reconhecimento e a posse de Fileto. Tal risco porém, não convinha à política do Governo. Naquele tempo, havia um lema: “Governo não perde eleição”.
Preparou-se um golpe violento: em dia aprazado, os deputados foram convocados, na sede do Congresso. Compareceu, igualmente uma grande multidão de curiosos e interessados. Segundo o Regimento do Congresso, suas sessões seriam sempre realizadas ao meio-dia (12h). Às 9 horas, a Casa estaca à cunha; às 10 horas, a improvisada Mesa do Congresso presidida pelo Deputado Albuquerque Serejo, mandou fazer a chamada dos deputados, mas somente daqueles que não foram depurados pela Comissão de Reconhecimento, os quais eram em número de nove (9), tendo sido considerado eleito igual número de intrusos.
Não se pode imaginar o que se passou nesse momento naquela casa legislativa. Gritava-se, berrava-se, batiam-se palmas de aplausos, batiam-se os pés de protestos, tudo numa confusão dantesca. O Deputado Raymundo Nunes Salgado, um dos espoliados, frenético, com o relógio na mão, dizia: “São 10 horas apenas, quando é certo que o Regimento manda que a sessão comece às 12 horas!” Por outro lado, o Deputado Henrique Álvares Pereira, também com o seu relógio entre os dedos, em altas vozes, anunciava: “São 12 horas em ponto”. E Raymundo Salgado: “Vide, Senhores, como o sol está entrando por estas janelas, o que não é possível ao meio-dia!” Uma gargalhada misturada de assovios explode de todos os lados.
Nisto, nesse pandemônio, rebenta um “foguetão”, que ali mesmo, no terreno do edifício, era de costume ser queimado, desde muitos anos, para anunciar o meio-dia à cidade. Mas, naquele dia, assinalava a mentira oficial.
Tudo vi e ouvi do meu lugar de amanuense da Secretaria do Congresso. Lá se vão 70 anos. Tão impressionante aquela cena que, ainda, agora, não esqueci os seus detalhes!
Esse Congresso ficou assinalado, na história da minha terra, com o nome de Congresso Foguetão.
Faltavam poucos meses, em 1896, para o término do mandato de Eduardo Gonçalves Ribeiro. Realizou-se a eleição do seu candidato: o Capitão Fileto Pires Ferreira. Sendo sufragado nas urnas, foi reconhecido e empossado pelo “Congresso Foguetão”, no dia marcado por Lei.
Tudo foi feito como Eduardo Ribeiro traçara.
Fileto Pires desde sua investidura (23 de julho de 1896), foi um administrador dinâmico, honesto e bem orientado.
No seu governo foi inaugurado o Teatro Amazonas, a 31 de dezembro de 1896. Ainda no seu governo, o Amazonas colaborou com a União na repressão ao foco rebelde de Canudos: a 4 de agosto de 1897, um Batalhão de Infantaria da Polícia Estadual embarcou para juntar-se às forças que atacavam o reduto de Antônio Conselheiro, ficando todas as despesas desse participação a cargo do Estado.
A situação das finanças estaduais era lisonjeira, beneficiando-se do surto da borracha. A situação política, apesar da oposição, poderia achar-se sob o controle de Fileto Pires.
Por isso, adoecendo, Fileto Pires acreditou poder afastar-se tranqüilamente do Estado: a 4 de abril de 1898 embarcou para a Europa com a devida licença do Congresso. Ficou em seu lugar o Coronel José Cardoso Ramalho Júnior, Vice-Governador do Estado, que viria a preencher o resto do quatriênio.
Fileto Pires, estando em Paris, em tratamento de saúde, foi abandonado pelos seus amigos, pelos “incondicionais” de todos os tempos, do “Congresso Foguetão”.
Surgiu uma suposta “renúncia”, logo recebida e aceita pelo Congresso. Fileto Pires contestou energicamente a autenticidade do documento de “renúncia” e, dentro da legalidade, tudo fez para reaver seu mandato. Já no final de seu mandato presidencial, Prudente de Moraes preferiu encaminhar o caso à apreciação do Congresso Nacional. A seguir, no exercício da Presidência, Campos Salles, embora houvesse cogitado a princípio de promover a intervenção no Estado, esquivou-se de corrigir a situação, consagrando o fato consumado.
Fileto Pires recusou-se a voltar ao serviço do Exército pelo tempo restante do seu mandato. Após, dedicou-se inteiramente ao seu ofício militar até sua morte.
Fileto Pires Ferreira faleceu no posto de General, no Rio de Janeiro, a 11 de agosto de 1917, sendo sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier.
(Fontes subsidiárias de sua biografia:
Raul de Azevedo, “Terras e Homens”, pág. 141 e seg. — Rio de Janeiro — 1948;
Fileto Pires Ferreira, “A Verdade sobre o Amazonas”, 189 pág.
“Jornal do Comércio”, Rio de Janeiro – 1900).
(In: Agnello Bittencourt. Dicionário amazonense de biografia. Rio, Conquista, 1973.)

sábado, 12 de abril de 2008

poemas de friday harbour

poemas de friday harbour

rogel samuel








Na Ilha de Friday Harbour
caem poemas do céu
estrofes de Longfellow
nas folhasinhas da horta
que um deer um dia comeu
oh sabedorias aladas
nas placas nacas do mel
das árvores engravidadas
típicas moradas
da Ilha de Friday Harbour
onde por quase nada
saem poemas do chão











MAS NA ILHA DE FRIDAY HARBOUR
O DIA É MUITO MAIS LONGO
HÁ SÓIS POR TODOS OS LADOS
UNS NASCENDO, OUTROS SE PONDO
DE TAL MODO QUE O QUADRO
FICA EM FORMA DE XADREZ
(ALI TODOS TÊM VEZ)
SÃO VOZES BEM CONJUGADAS
HOKAI SUSAN TRINLEY
TODOS DE IGUAL MEDIDA
NA CONSTRUÇÃO DA MANHÃ
MEUS IRMÃOS E IRMÃS
CADA QUAL TEM O SEU SOL
ALÔ ALÔ MADRUGADA
NADA DE LUZ APAGADA
NA ILHA DE FRIDAY HARBOUR

















MESMO AS ORCAS DAS ILHAS
QUE SAEM SEM TER NENHUM PEJO
GORDAS E ASSANHADAS
VÃO POR ALI COM SEU BEIJO
PODEM ESTAR GLORIOSAS
TECNICOLORES MODA
DEMOCRÁTICAS AMERICANAS
ALI BALEIA BACANA
E TEMO QUE UM DIA PASSE
SEM QUE VEJA O MEU AMOR
DIZEM QUE MUDOU DE SEXO
OU ATÉ MESMO DE COR













bem está quem nessa ilha
sabe seu bem cortejar
por aqui passou o rei
e por aqui passará
a sua sagrada filha








tudo aqui nesta ilha
na ilha de Friday harbour
parece coisa de fada
as bandeirolas ao vento
a imaginária enseada
nada é feito a lamento
mas para contemplação
o soluço do silêncio
primeiro me faz sonhar
depois me moe de bocejos
tudo aqui nesta ilha
tem a mole maravilha
desta bela primavera
do senhor juan de fuca
dos anos de mil e tal
ao velho capitão vancouver
dos anos de setecentos








só na ilha de friday harbour
tive esta inspiração
onde por quase nada
poemas crescem do chão
onde as orcas das ilhas
saem passeando em pelo
e a lua movida a pilha
desenrosca seu novelo
















estou muito contente
com a lucidez dos faróis
que a noite põe no seu teto
quando estende seus lençóis
bem está quem nesta ilha
mora com seu amor
por aqui passou o rei
e logo mais passará
a sua lendária filha













não tem idéia onde pisa
nem onde me põe a paixão
há figurativas milhas
sob o tume do calção
bem está quem nessa ilha
nunca olha para o lado
pois não vê, misericórdia
quão rápido passa o amado















na ilha de san juan
verdadeiro nome da ilha
uma baía é chamada falsa
quem a vê não sob as águas
onde esconde a falsidade
nem se a baía atende
pelo nome de renome
que a faz tão respeitada
quão se sabe que ela mente
em vez de abrigo, desastre
traz para quem dela se sente


A ESCRITA OUTONAL

Luiz Bacellar. Ele é o poeta maior da Amazônia. Escreveu pouco. Retrata tardes manauaras, quentes, ensolaradas, vazias, quase inúteis. Fala de quintais, saputilheira, dos sanhaçus, da prata das aranhas. Da infância, da "Porta para o quintal":


Bem haja o sol e a brisa neste canto!
Cá fico maginando a tarde inteira
deixando relaxar nesta cadeira
de embalo o corpo bambo de quebranto.
Brincam nas folhas da saputilheira
brilhos metalescentes, cor de amianto
saltitam sanhaçus de curto canto,
aranhas tecem prata na trapeira.
As telhas debruçadas dos beirais
vão com as calhas de lata, lá entre elas,
coisas de chuva e vento conversando
quais velhinhas comadres; nos varais
a roupa brinca de navio de velas
minha infância perdida reinventando...

Ele já viveu numa casa brasileira, bem grande. Bem interiorana. Conhece a porta, sua paisagem - o quintal, árvores, varais, infâncias, o passado. A porta para o quintal dá para vida voltada sobre si mesma, para dentro, o recolhido, uterino. Não a porta do espaço público. Mas do interno. A rua difere, como no "rondel da cana":

caba - colete
rolete - cana
danças na rua
tua pavana,
dança que a tua
dança é geral
dançada ao vento
do canavial

Há uma hierarquia metafísica na poesia, na poética do seu encontro com sua cidade. A poesia de unidade, de tempo, aquela cidade ficava uma pacata província pós-moderna (moderno foi o extrativismo da borracha), pós-modernismo decadentista, o da econômica crise dos 50 anos - de 1912 a 1962.
No texto fragmentos do passado recente, destruído pela civilização de shopping da "zona franca". Manaus devagar, tudo se centralizava na Avenida Eduardo Ribeiro e poucas mais. Manaus de chafarizes, estatuária afrancesados. Manaus das tacacazeiras. Da lembrança.

Ponha, numa cuia açu
ou numa cuia mirim
burnida de cumatê:
camarões secos, com casca,
folhas de jambu cozido
e goma de tapioca.
Sirva fervendo, pelando,
o caldo de tucupi,
depois tempere a seu gosto:
um pouco de sal, pimenta
malagueta ou murupi.
Quem beber mais de 3 cuias
bebe fogo de velório.
Se você gostar me espere
na esquina do purgatório.
(Receita de tacacá)

Às vezes o poema se inventa clássico, como no "rondel do sapoti":

pardo mamilo
de cunhatã
que aromatizas
o ar da manhã
tua rosa polpa
destila mel
poma leitosa
doce farnel
tuas duras folhas
verdes espelhos
bisando o sol
a passarada
te faz varanda
para o arrebol

Quando vou a Manaus, das primeiras pessoas que encontro é Bacellar. Ele aparece, fidalgo (que é), sai da moldura de um quadro de símbolos antigos: pontes, feiras, S. Jorge, Cachoeirinha, São Sebastião. Sai com seus "Sonetos provincianos", "Três noturnos municipais", "Romanceiro suburbano", "Sol de feira". Existe um caso de amor com aquela cidade em cada poema. Ele a ama, e nela se reconhece:

Como um prisioneiro
a lua me espia pelas
grades do banheiro.

sexta-feira, 11 de abril de 2008


MEUS MORTOS HÃO DE VIR NO FIM DA TARDE


Rogel Samuel

De minha cara amiga Graça Carvalho recebo um precioso presente, a “Cartilha do bem sofrer com lições de bem amar”, do seu pai, o super-poeta amazonense Farias de Carvalho, publicada em 1967 e desde então esgotada. Lá re-encontro o poema “Ocaso”, que não lia desde que Farias de Carvalho foi meu professor, no noturno do Colégio Estadual, onde ele lecionava literatura e eu tanto aprendia com ele: “Meus mortos hão de vir no fim da tarde”. Só dá para ler este belo texto quem o situa na Manaus da década de 50, ou início de 60, quando foi ele escrito. Aquela era uma cidade sem iluminação, ilhada no meio da maior floresta tropical do mundo. Ao cair da tarde, as perigosas trevas da floresta invadiam, a nostalgia da escuridão e da morte ameaçava, aquele Rio Negro ficava realmente Negro. Negro como a Morte Negra. Negro da morte de vinte e oito mil índios vitimados em 1729, numa hecatombe nunca esquecida por aquelas margens, de tal sorte que perto dali há um rio, chamado Rio Urubu, “rio doente para sempre, / desde o município de Silves”, como certa vez escrevi; rio onde um dia meu pai não me deixou mergulhar, “como se ali o rio pudesse / para sempre me tragar”. Naquelas águas estão sepultados nossos antepassados e o grande guerreiro Ajuricaba, o herói que está em toda a parte ao mesmo tempo [Aiuricaua], rio de sangue Negro, de espinhos venenosos, de cadáveres históricos. Há demônios nas margens e eu me lembro da impressão trágica, da depressão que nos assaltava, ao cair da tarde, quando a cidade invadida por nuvens de moscas besouros, piuns, carapanãs sanguessugas, corujas, e aranhas peludas que saíam de seus esconderijos, e escorpiões de ébano que procuravam caça, a floresta ameaçada agora ameaçava, retomava e reconquistava o seu lugar em São João da Barra, nos expulsando para sempre, tudo debaixo da gloriosa chuva do ouro do mais esplendoroso por-de-sol do mundo, algo como explosão de bomba atômica terminal, final, de fim de mundo, finnisterra, que se expandia em coloridas nuvens para todos os lados, junto com misteriosas aves do entardecer. Ajuricaba veio do rio Hiiaá, na margem esquerda do Negro, entre o Padauari e o Aujurá, no distrito de Lamalonga. Para salvar seu filho caiu em emboscada e foi prisioneiro da Coroa Portuguesa, em 1729, a Coroa o queria vivo para o supliciar com castigo e morte. No caminho, Ajuricaba, que era homem fortíssimo, arrancou do poste o grampo que o prendia e, com as correntes nas mãos algemadas, faz a matança dos soldados portugueses antes de se precipitar nas águas escuras do Rio Negro, onde morreu, não sem antes as amaldiçoar, e diz a lenda que é por isso que aquelas águas são estéreis, e não têm peixe. Logo depois, em vingança, o capitão Belchior Mendes de Moraes dizimou 300 malocas, matando em sacrifício mais de 28 mil índios das margens do rio que passou a se chamar Rio Urubu devido à montanha de cadáveres. E mais tarde balesteiros, sob o comando de um padre de nome piedoso, Frei José dos Inocentes, depois nome de rua de puta em Manaus, espalharam roupas contaminadas com varíola que disseminaram uma gigantesca epidemia que infectou 40 mil índios, arruinados de varíola, que é uma doença infecto-contagiosa, virulenta, que apodrece o corpo ainda vivo com erupções de pus e raquialgia, pápulas, pústulas, cegueira e agonia de uma morte bacteriológica lenta, os cadáveres semi-vivos sendo devorados por moscas, piuns, carapanãs, mutucas, cabo-verdes, potós, catuquis, marimbondos, suvelas, besouros e formigas. A saúva antropófaga devora um corpo em 20 minutos. Na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em 1908, os mortos largados no caminho para serem enterrados na volta (30.430 operários foram internados no Hospital da Candelária, entre 1908 e 1912) e quando a locomotiva voltava só encontrava ossos brancos e limpos, comidos pelas saúvas. E também a formiga-de-fogo, a saca-saia, a lava-pés, a manhura, a cabeçuda, a taioca, a carregadeira, a táxi, a tracuá, a tocandira, peluda, enorme, venenosa, uma única picada basta para abater um homem, com fortes dores e febre, usada pelos índios na iniciação masculina dos garotos, que tinham de enfiar o braço numa cumbuca de tocandiras para provar que eram machos. E a formiga roceira, e a cortadeira, e a guerreira, a correição. Von Martius descreveu populações inteiras fugindo das formigas. As açucareiras eram capazes de fazer recuar um inteiro exército! Por isso os mortos vinham no fim da tarde, “molhados da ferrugem líquida do rio”, diz o poeta, “que banha as margens dêste ... silêncio lúcido e sonoro / que embala na praia ao fim das tardes / os olhos de éter dos defuntos tortos / que lambem com o olhar a praia longe”. Além disso, o trágico planger dos sinos da Matriz, construída por índios, da Igreja de São Sebastião, da Igreja dos Remédios, que se ouviam na inteira cidade, graves, ameaçadores, profundos, lembravam a Morte, e as rádios todas tocavam umas Avemarias, a Rádio Baré, a Difusora, a Rio-Mar, rádios de meu tempo, e misteriosas velhas beatas vestidas de negro, veladas, engolfadas, balbuciantes de preces, que se dirigiam às missas, entrando ainda sob a saraivada de toques dos imensos sinos magistrais. É claro que, para nós, jovens poetas, devassos e boêmios, era a hora de nos preparar para as aulas e depois beber no Bacurau, no início da João Coelho, junto com catraieiros, prostitutas, mendigos e bandidos alcoólatras, provando aqueles peixes fritos, o pacu, a sardinha, o matrinchão, entre goles de cachaça barata; ou íamos para o Bar Bolero, que ficava na Cachoeirinha, na Rua Belém (creio eu, pois a memória já me falha), onde ouvíamos Nelson Gonçalves cantar os maiores sucessos em serenata, como os “Lábios que beijei”, e isso ia até ao raiar do dia, quando voltávamos, bêbados, felizes, para nossas casas, a pé, sob o latido generalizado dos cachorros dentro dos muros das casas, cães que não compreendiam por que tão tarde (e tão cedo) passávamos nós por ali, no deserto das ruas que um dia inspirou o poeta L. Ruas a escrever:


Ah!Esta lua

Neste fim de rua

quarta-feira, 9 de abril de 2008

A Chuva nos Espelhos; Maria Azenha


A Chuva nos Espelhos; Maria Azenha


Risoleta Pinto Pedro


Para conseguir falar sobre este livro tive de fazer uma opção importante, definir aquilo sobre o que não posso falar. Porque é um livro infinitamente cheio de infinitos, como o espelho, o caos, as crianças e o mar. Só para exemplificar. Há outros. Eu escolhi não entrar no espelho, corria o risco de não sair. Escolhi não entrar no caos, corria o risco de não me distinguir dele, não ir pela mão das crianças que por aqui andam, corria o risco de ir parar para sempre a uma estrela. Escolhi seguir sempre o caminho do mar, como se faz nos labirintos, seguindo sempre por um dos lados, pelo menos é o que dizem os heróis que conseguiram sair. A escolha que fiz, o mar, também é perigosa, mas sempre dá para ir deixando migalhas que talvez os pássaros não comam e me possibilitem fazer o caminho de volta.
Este poema (não, não me enganei, não queria dizer livro, queria dizer poema, porque, para mim, é de um poema que se trata, poema em várias partes, o índice indica 31, mas essas são as visíveis, eu acho que são mais)… então este poema começa com vogais de água e sons abertos, e termina com o rumor no fogo, e sons fechados.
Segundo António telmo no seu livro Gramática Secreta da Língua Portuguesa, “… a fonética portuguesa é a demonstração de que cada língua possui uma estrutura sagrada.” Para mim, a poesia de Maria Azenha também o é.
No já aludido primeiro poema fala-se em :
“[…]
palavras sur-
preendidas pelos castiçais dos ii
[…]”
E não será por acaso que estes versos estão rigorosa e geometricamente no centro do poema, como Na Cartilha Maternal de João de Deus, esse outro cabalista, cujo esquema das vogais apresenta o “i” rigorosamente no centro, que no diagrama dos sephiroth corresponde ao lugar do Filho. Ou Tiphereth (sendo o “a” o do Pai e o “u” o do Espírito Santo).
A propósito disto, escreve António Telmo:
“Dirá o leitor que a situação do i no centro é ocasional e obedece tão só a razões fonéticas ou meramente estéticas. A caracterização posterior das letras e a sua distribuição por conjuntos levam-nos a pensar de outro modo.[…]”
Também a mim a linguagem dos sons neste poema me leva a pensar que nada do que se passa no mundo aqui criado é casual. Mas é, sim, um caso. Digno de atenção.
As abertas vogais de água são uma espécie de figura de convite, estão bem na abertura, e fazem aquilo que as figuras de convite fazem: convidam-nos a entrar. De outra forma seria difícil penetrar neste mundo, porque é o mundo da Flauta Mágica. O rumor no fogo com os seus sons fechados convida-nos ao silêncio a que se remete e nos remete o fim do poema. O fim que se vê, porque no mundo invisível o rumor permanece. E como fogo, cintila. Não crepita, para não se extinguir, guarda apenas um discreto rumor, o rumor do fogo lento dos alquimistas ou da cozinha destas mulheres de que aqui se fala. Que eu tenha contado, só mães são seis, mulheres são duas, e é interessante especular sobre esta relação matemática. Não vou fazê-lo, deixo-vos esse prazer.
Há ainda um rosto feminino, uma rapariga e um ser que é tratado pelo sujeito poético como “filha”. Mais três. E ainda: uma mulher chamada Lília, quase a versão feminina da flor, uma outra mulher chamada Perpétua, que por acaso ou talvez não, também é nome de flor, e uma pomba. E são mais três.
Resumindo esta poética matemática, temos seis mães, duas mulheres, três figuras do feminino, dois nomes e uma pomba.
Neste universo de “elas” encontrei-me ainda cinco vezes com a Lua, quatro com o chão, treze com o mar, quatro com as trevas, quatro com a noite, oito com a água. E não estou a contar as versões da água em nuvens, em gelo, em chuva, em fontes, em lágrimas…
Para equilibrar ou desequilibrar este conjunto, encontrei quatro vezes o Sol, quatro vezes as estrelas, sendo que uma é uma estrela magoada, três vezes o fogo, duas vezes o céu e uma vez o… pai.
Neste poema há mulheres com máscaras de rostos femininos (a “mulher” deste livro ela esconde-se atrás de si mesma): de rapariga, de Perpétua que é flor, de pomba que é asa. Mulher, flor, ave). Esta mulher/máscaras começa a viagem com as mães, ao encontro, ou pelo menos em busca… do pai. Navega nas trevas, por vezes iluminada pela lua por mares muitas vezes navegados, navega pelo meio da chuva, pelo meio das lágrimas, em paisagens de gelo. No corpo aquático da Mãe procura o Pai, nomes que aqui escrevo com maiúsculas, procurando o arquétipo.
Esta é, para mim, a única maneira possível de falar deste livro: pelo símbolo que também é o número. Porque o poema está escrito numa língua intraduzível, como criptado. As palavras são as que reconhecemos, mas criam relações tais que só mesmo entrando com elas na realidade do sonho, do símbolo ou do número é possível um ainda que leve encontro. É um mundo que se situa algures entre o concreto do pão e da semente, e o impalpável sem nome. Ou entre a neve e o lume.
Para além do mais, as palavras irradiam, criam ramificações como uma estrutura atómica. Ou como um labirinto, que deve ser a mesma coisa. A diferença, é que à entrada deste labirinto não está o cão das muitas cabeças mas uma mulher de muitos rostos a fingirem de máscara, que umas vezes é criança, outras rapariga, outras mãe, outras mar, outras Lua.
Mãe, Mar, Lua, e quase temos aqui, em peças de puzzle, sem conotações religiosas, a imagem de Ísis, ou a Virgem: Maria, que é mãe e é mar, sobre o crescente, que é Lua. Três escadas de três degraus letras ao encontro do quase inominável, do quase inominado paterno regaço, lá nesse lugar onde o sexo já não é seita ou separação, onde tudo se funde num imenso e silencioso rumor. Chamam-lhe amor.
Depois disto apenas me resta dizer, embora correndo o risco de parecer contradizer-me, que este é um poema sobre a realidade, porque lê-lo é entrar num dos infinitos mundos reais, partindo deste lugar aparentemente tão sólido, que é, já Platão dizia, sonho e sombra.
É um livro generoso que se abre para além das folhas, apesar (ou por causa) do hermetismo aqui tomado na acepção mais comum, mas também no sentido tradicional que lhe vem da origem, o deus da vara abraçada por serpentes.
Ousar entrar neste outro mundo que estas palavras criam faz encontrar um sentimento de reconhecimento, porque à medida que avançamos pelo labirinto das páginas, vamos murmurando para os nossos botões: “eu conheço este mundo, fica ao lado do meu”. Encontramos também de merecimento, e murmuramos:” eu mereço este mundo, porque o reconheço como mundo”.
Risoleta Pinto Pedro
Março, 2008

Ed Alma Azul, Fevereiro 2008

MARIA AZENHA: "A CHUVA NOS ESPELHOS"


vogais de água

há lugares onde chegam vogais de água

lugares novos espantados que assomam à memória

por redes vertiginosas


as suas entoações concentram-se em palavras fabulosas

palavras luminosas sur-

preendidas pelos castiçais dos ii

um projecto de água


digo:


transportar o sonho de um lado para outro

abrir com toda a força um buraco nos espelhos


RECEITAS DE AZUL

O famoso verso: 'Tome um pouco de azul, se a tarde é clara', de Carlos Pena Filho, lembra que foi Rimbaud quem inventou a cor das sonoridades vogais. A cor azul fala do som 'O'. Veja a tradução de Onestaldo de Pennafort:


O, fanfarras, clarins, trons de vitória, brados,

O, silêncios azuis de anjos e sóis povoados,

O, clarão vesperal, violáceo, dos seus olhos!
São esses silêncios azuis que só os anjos sabem,

os sóis povoados de luz dos seus olhos, clarão vesperal, brados.


Para ele, e não pergunte por quê, o 'O' é azul. Leia a tradução de Augusto de Campos:


O, supremo Clamor cheio de estranhos versos,

Silêncios assombrados de anjos e universos:

-Ó ! Ômega, o sol violeta dos Seus Olhos!


Com a tradução muda o poema todo. Para fazer-se um soneto azul, se deve, pois, proceder da seguinte forma, diz o poeta Pena Filho:


Tome um pouco de azul, se a tarde é clara

e espere pelo instante ocasional.

Nesse curto intervalo Deus prepara

e lhe oferta a palavra inicial.

Esse deus - esta musa, a inspiração, desce da 'súbita mão', de que fala Pessoa. Em 1917:


Súbita mão de algum fantasma oculto

Entre as dobras da noite e do meu sono

Sacode-me e eu acordo, e no abandono

Da noite não enxergo gesto ou vulto.

No 'Soneto do Desmantelo Azul', diz Carlos Pena Filho: ' Então, pintei de azul os meus sapatos '. Por onde ele andou?Brinca de azul Carlos Pena Filho, no 'Soneto do Desmantelo Azul':


Então, pintei de azul os meus sapatos

por não poder de azul pintar as ruas,

depois, vesti meus gestos insensatos

e colori, as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente

e aprisionar no azul as coisas gratas,

enfim, nós derramamos simplesmente

azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos

que no excesso que havia em nosso espaço

pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos

e vimos que entre nós nascia um sul

vertiginosamente azul. Azul.

O poeta amazonense Sebastião Norões é autor de um famoso soneto - 'Mar da memória' - Lá o azul vem do mar:

Eu quero é o meu mar, o mar azul.

Essa incógnita de anil que se destrança

em ânsias de infinito e me circunda

em grave tom de inquietude langue.

O mar de quando eu era, não agora.

Quando as retinas fixavam tredas

a incompreensível mole líquida e convulsa.

E o pensamento convidava longes,

delimitava imprevisíveis rumos

viagens de herói e de mancebo guapo.

Quando as distâncias fomentavam sonhos.

Rebenta em mim essa aspersão tamanha

que a imagem imatura concebeu

de quando o mar era meu, o mar azul.

Lá o azul do mar está pintado de 'ânsias de infinito', de vôo, de pensamento cujas distâncias fomentavam longes sonhos, o meu mar, o meu mar interior, o tamanho mar de quando ele era meu mar.

Para fazer-se um soneto azul deve-se esperar, fiando-se no azul do ar, da palavra inicial: 'que moldará nas nuvens no momento / de apascentá-las pela tarde pura' (Bacellar), e começar por lembrar 'que o mar era meu, o mar azul' (Norões). A cor local deve ser a do 'sol de sua cara / e um pedaço de fundo de quintal ' (Bacellar).

Mas nunca o mar foi tão vasto quanto nesses versos azuis de Le bateau ivre (Trad. Augusto de Campos):

E das manchas azulejantes dos venenos

/ ...... / Onde, tingindo azulidades com quebrantos

/ ......./ E o acordar louro e azul dos fósforos canoros!

/.........../ Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes...

/ .................../ Líquens de sol e vômitos de azul escuro;

É de Bacellar o soneto do verão:

No livre azul o sossegado vento

lívido sonha linhas de escultura

que moldará nas nuvens no momento

de apascentá-las pela tarde pura.

Num arrepio de pressentimento

o rufo de asa risca na brancura,

o sol arranca brilhos do cimento

do muro novo, a folha cai. Madura.

Tudo o verão proclama: a tarde limpa,

esmaltada de claro; pela grimpa do morro verde a cabra lenta vai... A luz resvala na amplidão sonora. Por que senti roçar-me a face agora um beijo, um frêmito, um suspiro, um ai?

Azul é o céu, é o espaço. Azul é profundidade, a transparência, o vazio, a liberdade. No livre azul, no mar azul, um pouco de azul da tarde, perdidos de azul, vertiginosamente azul. O azul onde passa o vento.

Termino com Rimbaud:

No meu torpor, não posso, ó vagas, as esteiras

Ultrapassar das naves cheias de algodões,

Nem vencer a altivez das velas e bandeiras,

Nem navegar sob o olho torvo dos pontões.

O VERÃO
O vento. Chega o verão. Com sua preguiça. Com seu mormaço. Seu cansaço. Também chega o erotismo. As chuvas. Com o sol. O sol na alma. O verão ventos velozes. Verão de mar. E amar. O verão amazônico. Diz o grande Bacellar:
No livre azul o sossegado vento lívido sonha linhas de escultura que moldará nas nuvens no momento de apascentá-las pela tarde pura.
Verão de livre azul. De nuvens e de tardes. Verão inania verba de Bilac:


Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
..................................................................
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?

Hoje passei pelo verão. Pelo mar, distante. Um fio de preguiça perfumada me fez ficar, perder-me. Naquele limite da linha do horizonte me firmei. Que sonhos trará este verão, com os seus mornos dedos azuis? Passa uma brisa...
Num arrepio de pressentimento o ruflo de asa risca na brancura, o sol arranca brilhos do cimento do muro novo, a folha cai. Madura. Todo verão proclama: a tarde limpa, esmaltada de claro; pela grimpa do morro verde a cabra lenta vai...

A luz resvala na amplidão sonora.
Por que senti roçar-me a face agora
um beijo, um frêmito, um suspiro, um ai?
(Bacellar disse).

Sim, o verão. Sua luz. Sua amplidão.
De muros claros. Seu cimento caiado, de Cabral. Reflete o branco o sol, o lento sol. E à noite suas inquietas estrelas. As ilhas de Fernando Pessoa, quando...

Evoca estrelas sobre a noite estar
Em afastados céus o pórtico ido...
E em palmares de Antilhas entrevistas
Através de, com mãos eis apartados
Os sonhos, cortinados de ametistas,

Sim, o Verão. Na transparente solidão do ar, em ruído e em bando, o triunfo dos pássaros. E, no horizonte, cortinados de ametistas praias espalmadas palmares. Vistas entrevistas. Distantes diamantes no espaço, no imperfeito sabor. O ver verão. Nas asas sobre a praia, "Para onde vai a minha vida, e quem a leva?" (tece Pessoa:)
Não tenho sentido, Alma ou intenção... Estou no meu olvido... Dorme, coração...).
Mas é mais verão no Rio. Só aqui o verão ganha significado: vida, pulsa, sua, lateja. Anuncia carnaval. O Rio mostra que está vivo. Como nunca. Esquecemos a idade. Tudo passa na Avenida, flores alvas das saias das baianas. O Carnaval, sonhado. Brilham fantasias. Internas. Em grandes blocos desfilam meus mortos, meus sonhos mortos. Meus personagens. Por isso:

nesse carnaval entôo em surdina
breve texto esta canção
desenvolvendo a paisagem cristalina
tinta azul, papel na mão
espuma do ar mantida em vestes finas
toldo de amor que aparelha e envolve
e te molesta a alegria matutina
passando o pente no tema a minha senha
e ergues a tricotar a estrela fescenina
brincando de tua passarela
e sonhada é férrea a tua serpentina
borboleta de papel de seda
que me despeço de tua face de menina
teu aço besuntado de abelha

Só o Vento... O verão.

domingo, 6 de abril de 2008

POEMA


e eu bebo veneno pelos olhos
quando vejo a tua forma de partir
que ela se torna numa larva negra
espuma do mar fervente em cada mão
o desiderato rumo dessa casa feita
linha errada em cada chão, o não
estarmos à roda desfibrada, a estrema
linha do mar que nos fareja, o vão
distúrbio funcional, minha malignidade
espectro desse estado quando morto
vagueia entre nós a nos aterrorizar
humores, forma aquosa, vítrea,
cristalina capa de estampadas letras
eras de superfície, punção, gata morta
costurada no leva e traz das ondas da maré
marco divisório de teus passos

(Bournemouth, UK, 19 de agosto de 2007)

sábado, 5 de abril de 2008

O MOTOCICLISTA

Rogel Samuel


Ele irrompe míssil e libera-se tanático
Cavaleiro do ferro negro?
De ameaçadora criança sentença?
Produto da anti-revolução objetividade?
Herói ou vítima veloz? Força?
Ou forma de menino marketing digital ruído?
Que fizeram de ti, ou sem ti?
Te perderam ou te estamparam?
De que insegura agressividade és a vitória?
De que burrice histórica és a glória?
Opressor: um trilhão de dólares mortíferos
disparam no ar sobre milhões de homens doentes e mortos
-- eis teu sonho ao videogame?
Sais das trevas de algum segredo
do incomunicado, ou morrerás
sozinho na bala da noite?
Por que, como policial, queres à força ver
um crime em cada vida?
uma troca em cada relação?
Que ávidos saques de prisão
têm teus inocentes dedos de revólveres
e de alavancas secretas?
Que sentes? Ah! A quem amas?

DILSON LAGES ENTREVISTA AFONSO LIGORIO


Dílson Lages - O que significou para o senhor o ingresso na Academia Piauiense de Letras? Afonso Ligório -Todo escritor tem o desejo de se filiar na Academia de Letras do seu Estado, ou da região onde mora. A Academia Piauiense de Letras sempre foi um sonho, desde menino. Mas eu tardei um pouco a entrar na Academia, porque me transferi para o Recife; depois, para Brasília. Nesse intermédio, fiquei, portanto, distante do momento literário do Piauí. Mas não tão distante a ponto de me separar. A distância era apenas física. Eu, constantemente, estava colaborando com os jornais da terra e vindo a Teresina para assistir a reuniões, a posses ou mesmo para participar de encontros da Academia Piauiense de Letras. Recentemente, fui convidado pelo jornalista e escritor Paulo Nunes para concorrer a uma das vagas, a aberta com o falecimento do ilustre escritor Lima Cordão. Então, participei e meus colegas da Academia acharam, por bem, votar em mim. Fui eleito. Para mim, foi grande o orgulho. Completou-se o quadro que tanto ambicionava quando menino, quando jovem e, agora, na velhice.
Dílson Lages - Em Outros Tempos, que é um livro de memória, o senhor focaliza um pouco da história do patriarcado rural piauiense, suas origens, um pouco da história de Teresina da década de 40. Pude perceber que o livro não traz fatos de interesse somente familiares ou pessoais: o senhor procurou dar a esses fatos uma dimensão mais coletiva. Correto? Afonso Ligório - Realmente, eu olhava sempre, olho sempre, os problemas de minha terra de modo global, nunca de modo particular. E a maneira que você observou em Outros Tempos realmente traduz esse sentimento de olhar a terra. É um sentimento que eu tenho, porque a terra é grande, é populosa, tem muitas atrações não somente para uma pessoa, mas para todas e, por isso, sempre quando me refiro a Teresina, ou a Luzilândia, onde eu nasci, refiro-me a qualquer pedaço do Piauí; faço sempre de modo amplo, não apenas examinando meu ângulo pessoal.
Dílson Lages - O senhor faz um retrato de Teresina da década de 40, em Outros Tempos. Como era Teresina de sua infância e adolescência? Afonso Ligório - Na Praça Pedro II, estava a área de diversão: o teatro 4 de setembro, o Cine Rex e havia além do mais, as chamadas retretas, onde o povo se distraia; o povo passeava diariamente, como uma espécie de lazer próprio da terra. Era uma cidade alegre, uma cidade agradável, onde se podia andar sem receio de agressões. O povo muito pacato, tudo de modo muito peculiar, muito próprio da terra. Eu adorava a minha terra na época em que era menino; também, na época em que era adolescente. Hoje, adoro muito mais ainda, em conseqüência de tudo que minha terra me deu. Dílson Lages -Em Outros tempos, nós encontramos várias crônicas sobre o rádio, o cinema, e a publicidade na década de 40, em Teresina. Como era o radio, o cinema e a publicidade em Teresina nessa época, segundo a crônica Outros tempos? Afonso Ligório -Na realidade, na década de 40, não existia rádio, mas um serviço de alto-falante, que na realidade se limitava à chamada amplificadora. Rádio amplificadora de alto- falante, que tinha um estúdio, na rua Barroso, com dois alto-falantes instalados, um na praça Rio Branco, num pé de outi, e outro, na praça Pedro II, junto ao teatro. Esses serviços de alto-falante eram na realidade o grande serviço de informação da cidade, porque Teresina vivia um período, sem jornais, sem veículos de informações, a exceção do Diário Oficial. Essa amplificadora tinha com principal animador um cidadão chamado Laguarte. Laguarte era um bom locutor e, além do mais, um animador nato. Ele dava à sua pequena estação de alto-falantes uma dimensão de uma grande estação. Para nós, os ouvintes que ficávamos nas praças públicas, aquilo distraia muito e nos atualizávamos, com informações relacionadas ao viver da cidade. A emissora, quer dizer, a Amplificadora Teresinense, depois, teve uma concorrente que foi um alto-falante da casa Rianil, que, também, em horário diferente tocava música e transmitia algumas notícias quando necessário. A rádio amplificadora tinha, também, para sobreviver, seus anúncios. Eles não eram gingles, pois ainda não existiam. Eram todos ao vivo. Eu me lembro de um anúncio, por exemplo, da rádio amplificadora teresinense que me impressionou e eu, como professor de comunicação do CEUB, levei à discussão dos meus alunos. Um anúncio que achei fantástico pela maneira com que ele abordava o problema para vender o produto. Ele dizia: ”Carro parado é prejuízo andando”. O que ele queria dizer era que carro parado é prejuízo em andamento. Então, “concerte seu carro antes”. Ele queria dizer isto. E a gente ficava admirado, às vezes, com essas criações sobre publicidade. É muito provável que o 1º anuncio, o 1º gingle, que apareceu tenha sido o das geladeiras Brigids, que foi um anuncio de muito sucesso na cidade. Mas havia também em Teresina aquelas pessoas que eram chamadas anuncio vivo. Existia um cidadão chamado Rodolfo Cavalcante. Este Rodolfo Cavalcante veio da Bahia, se instalou em Teresina e gostou da cidade. Ele era uma espécie de camelô, mas, além de camelô, também um versejador. Um homem que fazia versos e, de suas versos, também começou a fazer anúncios para as casas, aproveitando os temas, aproveitando determinados períodos propícios para campanhas.Ele, às vezes, para impressionar usava umas pernas-de-pau e nestas e anunciava casas para quem ele estava fazendo propaganda. Era realmente uma figura curiosa, uma figura bastante querida na cidade pela maneira com que anunciava. Portanto, como se vê, o inicio do anúncio em Teresina foi. através do anúncio vivo, com o Rodolfo Cavalcante, e, também, através da Radio Amplificadora Teresinense. Era um anúncio simples, mas já avançado para a época. Hoje, analisando aquelas pessoas sem um exemplo, sem uma experiência anterior, sem uma escola relacionada à propaganda ou à publicidade, posso afirmar que já faziam algo que realmente chamava a atenção. Dou parabéns aquela gente que não existe mais.
Dílson Lages - E o cinema escritor, como era o cinema na década de 40? Afonso Ligório -O cinema, na década de 40, já era falado. Em Teresina, o cinema veio aparecer nos anos 30 e nos anos 40. Já todos os cinemas da cidade tinham som. Existiam em Teresina o Cinema Olímpia, que ficava na praça rio Branco, e o Royal, pouco adiante, próximo ao Liceu. Depois, apareceu um terceiro cinema, que foi instalado no Teatro 4 de Setembro. Mas, depois, foi construído um prédio especialmente para ele na praça Pedro II, o Cine Rex. Na realidade, o Cinema Rex foi a grande novidade. O cinema Rayol era um cinema mais popular. Era cinema preferido da garotada, porque, neste cinema, se exibiam bastante seriados. Era o inicio de uma demonstração de violência que na realidade não existia no Piauí. Uma violência mais curiosa, uma violência que alguém aqui jamais imaginaria praticar, assim com os artistas apareciam como defensores da sociedade, homens que a sociedade confiava, em geral esses artistas principais eram endeusados pelo povo.O Cinema Olympia era um cinema para a classe média, um cinema em que a sociedade de modo geral participava, ia as três sessões que ele fazia funcionar diariamente. Depois, apareceu um quarto cinema em Teresina, chamado São Luis. O Cinema São Luis era ali defronte ao Clube dos Diários. Esse cinema foi inovador, porque colocou ar-condicionado na sala de projeção, dando conforto à platéia. Era um cinema muito bem cuidado, muito amplo. Por isso, dava muita satisfação assistir a um filme naquela sala. Na realidade, a história do cinema em Teresina é uma historia que vem acompanhando como nas demais cidades a evolução do cinema no mundo todo. Teresina nunca ficou atrás em nenhuma criação inovadora
Dílson Lages – O senhor escreveu Tempos de Leônidas Melo. O que pretendeu com esse ensaio? Afonso Ligório -Na realidade, eu pretendi resgatar a memória de Leônidas Melo, porque durante curto período, período inclusive logo posterior ao governo dele, houve uma preocupação um pouco precipitada sobre o governo dele. Apareciam apenas os defeitos; não aparecia aquilo que ele realmente tinha feito. Na verdade, Leônidas Melo era um homem integro, sério, um homem que tinha defeitos como os demais, Ele era um cidadão que nasceu em Barras e veio para Teresina fazer o ginásio. Aliás, passou 17 dias de viagem de Barras para Teresina a cavalo. Em Teresina, concluiu o curso secundário e foi estudar medicina. Tornou-se um grande medico. Depois, numa emergência política, foi sondado para ocupar uma secretaria de estado. Foi secretario e deu grande resultado. Foi diretor do Liceu e, também, com grande resultado. Como governador, a administração dele é coroada pela apresentação de algumas obras que se tornaram perenes e necessárias, por exemplo, o Hospital Getulio Vargas. Quando Leônidas melo construiu o Hospital Getúlio Vargas, basta dizer que Teresina não tinha nenhum pronto socorro . Teresina, na realidade, em matéria de assistência médica, era uma cidade muito pobre. Ele construiu o majestoso hospital que foi equipado com tudo, tanto que chamou a atenção de todo o Brasil para essa iniciativa e Teresina muito deve a ele. O saudoso Clidenor Freitas disse que o Hospital Getúlio Vargas deveria se chamar hospital Leônidas Melo, porque na realidade quem pensou, quem fez aquela grande casa foi Leônidas MeloUm dia, Leônidas, visitando obras do hospital em construção - e já quase concluído - encontrou uma quantidade enorme de material de construção que tinha sobrado. Ele, então, perguntou ao engenheiro: Com esse material pode-se construir um prédio? Vejam só, sobras de um hospital. Diante da resposta do engenheiro, Leônidas disse: “Pois bem. O senhor faça uma planta de um arquivo público e pode começar a obra”. O arquivo público é o atual arquivo, o prédio que foi construído. Ele construiu esse prédio com as sobras do material do Hospital Getúlio Vargas. Quer dizer, hoje, é difícil acontecer uma coisa dessas. Essa atitude de Leônidas Melo da uma dimensão da sua preocupação e, além do mais, da realidade que ele enfrentava num estado pobre como era o Piauí, em que não se podia fazer despesas desnecessárias O prédio está ali junto a Rui Barbosa. É um prédio de dois andares de aspectos sóbrio e que teve uma grande serventia como biblioteca pública inicialmente e, depois, arquivo público. Por ai se vê que Leônidas Melo era um administrador e homem que tinha na mente a realidade do seu estado. Mas não foi somente isto que ele fez - sua administração é palmilhada de adiantadas providencias, por exemplo, a instalação de telefones automáticos. Teresina foi uma das primeiras cidades do Nordeste a ter telefone automático. Portanto, quando eu fiz o meu livro Tempos de Leônidas Melo, procurei homenagear Leônidas Melo. A primeira vez que eu o vi, na realidade, eu era ginasiano e entendi que devia pedir ao interventor, na época, uma ajuda para um jornal que eu queria fazer - o jornal se chamou O Autêntico.. Eu tinha 14 anos. Fui aonde ele estava e pedi ao interventor uma ajuda. Ele me respondeu: “Mas você é um menino”. Insisti: “Eu sei, mas quero levar avante”. Ele não teve dúvidas, abriu a gaveta, puxou um cartão timbrado e mandou um bilhete para o diretor da Imprensa oficial, O sr Arthur Passos. Mandou um bilhete para ele, dizendo que atendesse ao portador no que fosse possível. Fiquei não apenas satisfeito, mas espantado com aquele gesto, porque quando se falava em Leônidas Melo aqui em Teresina, falava-se sempre em um ditador. Na realidade, eu não tinha visto esse ditador, tinha visto um homem compreensivo que me ajudou numa hora em que um estudante precisava de uma ajuda cultural e nós, então, fizemos um jornal na Imprensa Oficial.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

DILSON LAGES MONTEIRO


OS OLHOS DO SILÊNCIO

Por Caio Porfírio Carneiro

[caricatura de Dilson Lages]
Os poemas deste livro dizem tudo, sutil e silenciosamente, de cada tema que os compõem. Silenciosamente, porque nascem da aguda observação e apurada sensibilidade do poeta, e do coleio, que parecem dizer ao leitor que depois do que ficou dito nada mais há a acrescentar. Ou seja: uma força de verdade, quase transcendental, emerge de cada poema e leva quem o ler àquele estado de levitação, de perplexidade, e à interrogação maior: até que ponto a transfiguração artística amplia as verdades da vida?
Valendo-se de metáforas ricamente oportunas que nem parecem metáforas e de uma economia de meios no seu versejar, este poeta ascende muito e extrai essencialidades notáveis de “apanhados” do mundo que o cerca, tal como ele o sente e tal como o vê. Como se as criações poéticas viessem à tona em impactos de raios X; como se tudo o que há de aparente e palpável fossem – e até certo ponto são – uma grande mentira.
Quaisquer destas jóias, tomadas ao acaso, são um impacto e um lavor poético de primeira grandeza. Parecem até ampliações de haicais; parecem até – contraste surpreendente – solfejos de baladas que nos apontam, quase numa acusação, para a verdadeira alma da Vida e das coisas.


O seio pulsa na plama da mão

E rasteja sobre a pele

Em que a coruja constrói

A nudez dos versos. (“De corpo e Alma”)


Dizer mais o quê? Como, também tomado ao acaso, dizer mais de Tic Tac, tomando-se do poema, todo ele um achado, apenas a primeira estrofe?
O sonho sobrevive

Ao segredo das horas

E o tempo desliza

Nos dedos da madrugada.


Se as metáforas ocorrem fáceis é que elas nem parecem tão assim “metáforas”, visto como são postas com grande senso de oportunidade, fazendo um curioso jogo cênico de luz e sombra, de espelho e contra-espelho, bailam e cirandam, dispersam-se e justapõem-se em cadência lúdica que seduz:


Cai o sereno nas notas da noite

E o coração do sol se assombra.

O poema é tão bem concebido que a ênfase do verbo cai, no começo de cada estrofe, dá o tom exato desse jogo pendular de decisão e... indecisão. Daí o título oportuno: “(In) Decisão”. As citações continuariam, porque tudo em Os olhos do Silêncio é uma surpresa continuada. Mas não há como deixar de citar esta infinita e doída beleza do início do poema “Olhos no Infinito”:

A palavra seca

O rio que nasce

Nos meus olhos.

Pouco vimos, na nova poesia brasileira, um poeta de sensibilidade tão apurada e de tantos recursos de criação. Até na simplicidade da disposição formal dos versos e na amostragem inteira dos poemas espelham-se aquela referida dimensão totalizante, em margem para desvio de conteúdo ou de dispersão vocabular. Isto dá aos poemas uma magia própria e de grande encanto.
Eis porque Dílson Lages Monteiro é “total”, abrangente, objetivo, filosófico, garimpeiro da Alma e da Vida, e, justamente por tudo isto, universal.

Caio Porfírio Carneiro é escritor
PARA LER OS OLHOS DO SILÊNCIO, CLIQUE AQUI:
http://www.dilsonlages.com.br/obras_poesia.asp?id=3
VEJA COMENTÁRIOS SOBRE A OBRA:
http://www.dilsonlages.com.br/obras_comentario.asp?id=3