quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

DIVERSOS POEMAS DE ROGEL SAMUEL



COM A TUA
vox
lamento a perda
da fonte mágica de
Ós.

(Na foto: BOURNEMOUTH, UK. Ver Poemas de Bournemouth)


TE LAVARÁS
nas minhas
lacrimações
florais


EU TE FABRICO
e não
eu te desvelo
cantares
mel e dia
do ar


EU TE AMO
naquilo
em que o teu
é a linha
e o ponto



EU TE PASSO
e passo
livremente
de cantar


POIESIS. Prática de
desnivelamento
de amor



estação devemos
que importa o poético?


- (EM) ILHA.
somos
sobes a ladeira
sobes Santa Teresa
sobes


SOBES
a cada grande
complemento


OVIDIO: METAMORFOSES

Trad. livre R. Samuel

A MINHA ALMA CANTA
AS FORMAS TRANSFORMADAS EM OUTRAS FORMAS.
Ó DEUSES, INSPIRAI-ME!
POIS NÃO FOSTES VÓS, POR CERTO,
QUEM AS TRANSFORMOU?
MINHA OBRA E MEU CANTO
CONDUZI, ININTERRUPTO,
DESDE AS PRIMEIRAS ORIGENS
DESTE MUNDO
ATÉ A NOSSA ÉPOCA ATUAL.

Antes do mar, antes da terra e do céu
que tudo cobre
um só era o todo desta natureza
a que chamamos Caos,
massa rudimentar massa informe.
Nada senão seu próprio peso
sim, as coisas semeadas em discordes
montes, amontoadas sem nenhum ajuntamento.

Pois nenhum filho do Céu e da Terra
dava luz ao mundo. Nem Febo no horizonte
no nascente
reconstruía seus chifres,
nem a terra pendia do ar
que a envolvia em sustentáculo
vazio, em seu próprio peso,
nem mesmo a querida Anfitrite
(a virgem) estendia
seus braços pelos limites
daquelas terras.

Onde quer que houvesse o piso da terra
ali também havia o mar, havia o ar.
A terra instável, a onda inábil, o ar
privado daquela luminosidade.
Nada ali permanecia como era,
em sua forma própria, e uma coisa
se chocava às outras porque
num só corpo o frio lutava contra
o quente, o úmido com o seco,
o mole com o duro, o pesado
contra o sem peso algum.



MÍSTICO LIRISMO
te chamo
místico-lirismo
vejo-te assim


SUAS ÁGUAS
frias idas
escorridas
suas águas
magoadas



NESSA NOITE
dessa fonte
desse lado
nesse sentido
passa o perdido

POEMAS DE BOURNEMOUTH
e eu bebo veneno pelos olhos
quando vejo a tua forma de partir
que ela se torna numa larva preta
a espuma do mar fervente em cada mão
o desiderato rumo dessa casa feita
a linha errada em cada palma, o não
estarmos à roda desfibrada estreita
limita o mar que nos fareja o cão.
distúrbio funcional, minha malignidade
espectro desse quarto quando um morto
vagueava entre vivos a nos aterrorizar
humores, forma aquosa, vítrea,
e cristalina capa de estampadas letras.
eras superfície, punção, a gata morta
no leva e traz das ondas da maré
marco divisório de teus passos.

(Bournemouth, UK, 19 de agosto de 2007)

os dias se arrastam, lentos
as noite se sucedem, escuras
e frias
neste quarto de hotel.

muitas vezes pensei em sair
em ver o mar na noite fria,
mas me recolho cedo
encapsulado
em recordações

o mundo não está
nem lá fora
nem aqui dentro

o mundo não está



(Bournemouth, UK, 15 de agosto de 2007)

à medida que envelheço
vou ficando
como minha avó

à medida que envelheço
mais vou tendo
minha avó no espelho
(Bournemouth, UK, 14 de agosto de 2007)

todas as coisas se parecem contigo
[passo a ver-te em cada dobrada lua]
nada me afastará de ti, pois estás em todas as coisas
onde o olhar
onde há olhar
onde olhar

ver quero ver-te
mas só consigo ouvir-te
há uma canção que me embala
e me adormece

não te tenho perto
tão perto
nem durmo contigo

mas não faz falta
o amor se espraia para sempre

no ar

(Bournemouth, UK, 13 de agosto de 2007,
às 21:20).

SUAS CLARAS
fáceis águas
ouçamos
com benesses d'água


NESSA FONTE
solitária
paremos nossas
meditações

NESSA FONTE
solitária
paremos nossas
meditações



Na
partitura do ser
não experimentemos


POST-SCRIPTUM. Nau viajemos
irmão
nossas profundas
comemorações.


FIM. O que
não chegou
faltará depois


DOZE. Mais e mais
o que há são portas
para o pouso
das palavras


ONZE. Casamos
nossa paz
com tua dor

DÉCIMO. Esta página
tomada
como está
é perto
do que estou a pedir


NONO. É preciso negar
que o real
Quando não me amares mais
perdoarás sem repouso

e eu bebo veneno pelos olhos
quando vejo a tua forma de partir
que ela se torna numa larva preta
a espuma do mar fervente em cada mão
o desiderato rumo dessa casa feita
a linha errada em cada palma, o não
estarmos à roda desfibrada estreita
limita o mar que nos fareja o cão.
distúrbio funcional, minha malignidade
espectro desse quarto quando um morto
vagueava entre vivos a nos aterrorizar
humores, forma aquosa, vítrea,
e cristalina capa de estampadas letras.
eras superfície, punção, a gata morta
no leva e traz das ondas da maré
marco divisório de teus passos.

(Bournemouth, UK, 19 de agosto de 2007)




OITAVO. Pinta o que escrevo
canta
palavra pinta acima. Nem
isso de aparição

SÉTIMO. Nunca mais
pomos os olhos no
tua pena
aceleraste


SEXTO. Por perto
ronda o céu
aberto
que é necessário ao
heroico fugir.


os dias se arrastam, lentos
as noite se sucedem, escuras
e frias
neste quarto de hotel.

muitas vezes pensei em sair
em ver o mar na noite fria,
mas me recolho cedo
encapsulado
em recordações

o mundo não está
nem lá fora
nem aqui dentro

o mundo não está



(Bournemouth, UK, 15 de agosto de 2007)


QUINTO. Deixa de
lastimação
que amanhã
não acordarás


QUARTO. Mastigação
poroso
precipício pavor
pítico lavado
sinto
paro


à medida que envelheço
vou ficando
como minha avó

à medida que envelheço
mais vou tendo
minha avó no espelho
(Bournemouth, UK, 14 de agosto de 2007)


todas as coisas se parecem contigo
[passo a ver-te em cada dobrada lua]
nada me afastará de ti, pois estás em todas as coisas
onde o olhar
onde há olhar
onde olhar

ver quero ver-te
mas só consigo ouvir-te
há uma canção que me embala
e me adormece

não te tenho perto
tão perto
nem durmo contigo

mas não faz falta
o amor se espraia para sempre

no ar

(Bournemouth, UK, 13 de agosto de 2007,
às 21:20).

TERCEIRO. Do ser
precisavas no
que estavas fazendo
Perto de ti nada
podes fazer

SEGUNDO. O que
de que
ao qual pertences
te engole


NÃO. Não escreverá
um só texto
mas o que for dito
e luminoso
como salto de sapato
sapo


CALMAMENTE. Sentes
que é preciso assumir
o que sentes


CAIXA. Não na abertura
porém no vácuo
entregarás o cimentado
serviço de freiras

PÓ.

De tal
viverás
e renascerás
fênix

NAUS. Não velejarás
por viajar
não velejarás
entre as paredes más

TRÊS. Há tempos
querida
que eu quero escolher-te
entre os compatíveis
depois


DOIS. É preciso
dizer
e fazer
calmamente pensar
e dar-me

UM. Unicamente
delido e só
sou
neste meu quarto
passo

QUE QUERES?
Não vais ficar junto a
melhor fonte solitária

TRIO. Sou nada
sonata de secreto
tilintar
Cale-me a calma em
conforme sou
RIMA

SECO. Não. Ninguém
ou/e nada
me calará
por sobre o muro das
lamentáveis considerações

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

ERNEST CASSIRER




ERNEST CASSIRER

UMA CHAVE PARA A NATUREZA DO HOMEM: O SíMBOLO

O BIOLOGISTA Johannes von Uexkül1 escreveu um livro em que procede a uma revisão crítica dos princípios da biologia. De acordo com UexküI (NOTA l), a biologia é uma ciência natural, que precisa ser desenvolvida por meio dos métodos empíricos usuais - os da observação 'e experimentação. O pensamento biológico, por outro lado, não pertence ao mesmo tipo do pensamento físico ou do químico. Uexküll é um resoluto campeão do vitalismo, defendendo o princípio da autonomia da vida. A vida é uma realidade final e dependente de si mesma. Não pode ser descrita nem explicada em termos de física ou de química. Partindo deste ponto de vista, Uexküll desenvolve um novo esquema geral de pesquisa biológica. Como filósofo, é idealista ou fenomenalista. Mas seu fenomenalismo não se baseia em considerações metafísicas ou epistemológicas, mas, antes, em princípios empíricos. Como ele assinala, seria de um dogmatismo muito ingênuo a presunção de que existe uma realidade absoluta de coisas, idêntica para todos os seres vivos. A realidade não é uma coisa única e homogênea; imensamente diversificada, possui' tantos padrões e planos diferentes quantos são os organismos diferentes. Todo organismo, por assim dizer, é um ser monadário. Tem um mundo próprio, porque tem uma experiência própria. Os fenômenos que encontramos na vida de certas espécies biológicas não são transferíveis para nenhuma outra espécie. As experiências - e portanto as realidades - de dois organismos diferentes são incomensuráveis entre si. No mundo de uma mosca, diz UexküIl, só encontramos "coisas de moscas"; no mundo de um ouriço do mar só encontramos "coisas de ouriços do mar".
Partindo desta pressuposição geral, Uexküll desenvolve um plano originalíssimo e engenhoso do mundo biológico. Desejando evitar todas as interpretações psicológicas, segue um método inteiramente objetivo ou behaviorista. A única chave para a vida animal nos é proporcionada pelos fatos da anatomia comparada. Se conhecermos a estrutura anatômica de uma espécie animal, possuiremos todos os dados necessários à reconstrução de seu modo especial de experiência. Um estudo cuidadoso da estrutura do corpo animal, do número, da qualidade e da distribuição dos vários órgãos dos sentidos e das condições do sistema nervoso, nos dará uma imagem perfeita do mundo interior e exterior do organismo. Uexküll principia suas investigações com um estudo dos organismos inferiores; estendeu-as gradativamente a todas as formas da vida orgânica. Em certo sentido, recusa-se a falar em formas inferiores ou superiores de vida. A vida é perfeita em toda parte; é idêntica, tanto no menor como no maior dos círculos. Todo organismo, até o mais rudimentar, não só se acha adaptado, num sentido vago (angepasst) ao seu meio, mas também inteiramente coordenado ( eingepasst) com seu ambiente.
De acordo com sua estrutura anatômica, possui certo Merknetz e certo Wirknetz - um sistema receptor e um sistema destinado a responder à estimulação. Sem a cooperação e o equilíbrio destes sistemas o organismo não poderia sobreviver. O sistema receptor, pelo qual uma espécie biológica recebe os estímulos externos e o sistema pelo qual reage a ele estão, em todos os casos, intimamente interligados. São elos da mesma cadeia, descrita por Uexküll como o círculo funcional (Funktionskreis) do animal. (Veja Johannes von Uexktill, Theoretische Biologie (2.' edição, Berlim, 1938); Umwelt und Innenwelt der Tiere 0909; 2.' edição, Berlim, 1921).

Não posso entrar aqui na discussão dos princípios biológicos de UexküIl. Referi-me tão-somente aos seus conceitos e à sua terminologia a fim de formular uma pergunta geral. Será possível utilizar o plano proposto por Uexküll para uma descrição e caracterização do mundo humano? É evidente que este mundo não constitui exceção às regras biológicas que governam a vida de todos os outros organismos. Entretanto, no mundo humano encontramos uma nova característica, que parece ser a marca distintiva da vida humana. O círculo funcional do homem não foi apenas quantitativamente aumentado; sofreu também uma mudança qualitativa. O homem, por assim dizer, descobriu um novo método de adaptar-se ao meio. Entre o sistema receptor e o sistema de reação, que se encontram em todas as espécies animais, encontramos no homem um terceiro elo, que podemos descrever como o sistema simbólico. Esta nova aquisição transforma toda a vida humana. Em confronto com os outros animais, o homem não vive apenas numa realidade mais vasta; vive, por assim dizer, numa nova dimensão da realidade. Existe uma diferença inequívoca entre as reações orgânicas e as respostas humanas. No primeiro caso, a resposta dada a um estímulo exterior é direta e imediata; no segundo, a resposta é diferida. É interrompida e retardada por um lento e complicado processo de pensamento. A primeira vista, este atraso pode parecer uma vantagem. muito discutível. Inúmeros filósofos lançaram advertências contra este pretenso progresso. "L'homme qui médite", diz Rousseau, "est un animal dépravé": não se aprimora, mas se deteriora a natureza humana quando ultrapassa as fronteiras da vida orgânica. Entretanto, não existe remédio contra essa inversão da ordem natural. O homem não pode fugir à própria consecução. Não pode deixar de adotar as condições da própria vida. Já não vive num universo puramente físico, mas num universo simbólico. A linguagem, o mito, a arte e a religião são partes deste universo. São os vários fios que tecem a rede simbólica, a teia emaranhada da experiência humana. Todo o progresso humano no pensamento e na experiência aperfeiçoa e fortalece esta rede. Já não é dado ao homem enfrentar imediatamente a realidade; não pode vê-Ia, por a~sim dizer, face a face. A realidade física parece retroceder proporcionalmente, à medida que avança a atividade simbólica do homem. Em lugar de lidar com as próprias coisas, o homem, em certo sentido, está constantemente conversando consigo mesmo. Envolveu-se por tal maneira em formas lingüísticas, em imagens artísticas, em símbolos míticos ou em ritos religiosos, que não pode ver nem conhecer coisa alguma senão pela interposição desse meio artificial. Tanto na esfera teórica quanto na prática, a situação é a mesma. Nem mesmo nesta última vive o homem num mundo de fatos indisputáveis, ou de acordo com suas necessidades e desejos imediatos. Vive antes no meio de emoções imaginárias, entre esperanças, temores, ilusões e desilusões, em seus sonhos e fantasias. "O que perturba e alarma o homem", diz Epicteto, "não são as coisas, são suas opiniões e fantasias a respeito das coisas".
Do ponto de vista a que acabamos de chegar, podemos corrigir e ampliar a definição clássica do homem. A despeito de todos os esforços do irracionalismo moderno, a definição do homem como animal rationale não perdeu sua força. A racionalidade, com efeito, é uma característica inerente a todas as atividades humanas. A própria mitologia não é, pura e simplesmente, um conjunto vulgar de superstições ou de grosseiras ilusões. Não é puramente caótica, pois possui forma sistemática ou conceitual. (Veja Cassirer, Die Begrittstorm im mythischen Denken (Lipsia, 1921). Mas, por outro lado, fora impossível caracterizar como racional a estrutura do mito. A linguagem foi freqüentemente identificada com a razão, ou com a própria origem da razão. Mas é fácil ver que esta concepção não consegue abarcar todo o campo. É uma pars pro toto; oferece-nos uma parte pelo todo. Pois lado a lado com a linguagem conceitual há a linguagem emocional; lado a lado com a linguagem lógica ou científica há a linguagem da imaginação poética. Em primeiro lugar, a linguagem não expressa pensamentos nem idéias, mas sentimentos e afeições. E até uma religião "dentro dos limites da razão pura", como a concebeu e elaborou Kant, não é mais que uma simples abstração. Transmite apenas a configuração ideal, a sombra de uma genuína e concreta vida religiosa. Os grandes pensadores que definiram o homem como um animal rationale não eram empiristas, nem jamais tentaram oferecer uma explicação empírica da natureza humana. Por meio desta definição, expressavam antes um imperativo moral fundamental. Razão é um termo muito pouco adequado para abranger as formas da vida cultural do homem em toda sua riqueza e variedade. Mas todas estas formas são simbólicas. Portanto, em lugar de definir o homem como um animal rationale, deveríamos defini-Io como um animal symbolicum. Deste modo, podemos designar sua diferença específica, e podemos compreender o novo caminho aberto ao homem: o da civilização.
(1. Veja Cassirer, Die Begrittstorm im mythischen Denken (Lipsia, 1921).


terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Saques em Santa Catarina!



Saques em Santa Catarina!

Rogel Samuel


A filha de minha amiga MA mora em Santa Catarina e contou que os barqueiros cobravam
R$150,00 para resgatar as pessoas de suas casas e depois voltavam nas mesmas casas e saqueavam tudo. A casa da filha de minha amiga não foi atingida, pois não houve inundação na rua dela.
Eu me lembro da cidade de Manaus. As chuvas torrenciais da parte antiga da cidade nunca
conseguem inundar a cidade porque existe uma malha de galerias subterrâneas que atravessam as ruas. São galerias monstruosas e, dizem, daria para passar um veículo qualquer. Foi obra do piauiense Fileto Pires Ferreira e do maranhense negro Eduardo Ribeiro, que
construíram a cidade de acordo com o traçado original do piauiense Thaumaturgo de
Azevedo, conforme se pode ler no meu romance histórico sobre a construção de Manaus
que está publicado online em:
http://www.dilsonlages.com.br/coluna_cont.asp?id=1155

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

"Escrevo melhor em dólar"



"Escrevo melhor em dólar"

Rogel Samuel

Recentemente minha amiga Leila Miccolis escreveu e publicou um texto no seu blog
http://leilamiccolis.blogspot.com/ intitulado "O LUCRO DO SABER".
"Hoje recebi um e-mail de um escritor que propunha colocar à venda em Blocos um
livro seu porque o site desse autor "não tinha fins lucrativos", no dizer dele próprio", disse Leila, e defendia a seguir a remuneração dos autores.
Ao seu texto escrevi o seguinte comentário (eu tenho a mania de escrever em maiúscula, desculpem): O BRASIL SÓ SERÁ VISTO COMO UM PAÍS DESENVOLVIDO (E PÓS-MODERNO) QUANDO OS POETAS E ESCRITORES FOREM RESPEITADOS E REMUNERADOS COMO PRODUTORES DE CULTURA, ASSIM COMO OS CINEASTAS, OS MÚSICOS ETC. ESCREVER NÃO É UMA ATIVIDADE ESPORTIVA OU LAZER DE UMA CLASSE OCIOSA, NEM UMA ATIVIDADE DE FIM DE SEMANA, MAS O ESCRITOR QUE SE VÊ COMO TAL LEVA A SÉRIO O SEU TRABALHO E HOJE MAIS DO NUNCA PELA INTERNET ELE TEM NOVOS CANAIS DE COMUNICAÇÃO COM SEU PÚBLICO. POR ISSO LEILA MICCOLIS ACERTOU EM CHEIO NA RAIZ DO PROBLEMA: OU SEJA, A PROFISSÃO DE ESCRITOR!
ESSE DEBATE DEVE APROFUNDAR-SE, TEM DE APROFUNDAR-SE PARA LEVANTAR OS POETAS DO ESTADO ANESTÉSICO, DO TORPOR EM QUE NÓS NOS ENCONTRAMOS.
TRATA-SE DE UM PROBLEMA DE SOBREVIVÊNCIA DA NACIONALIDADE.
Sobre este tema me lembro do seguinte e curioso fato artístico, desta vez musical, narrado por Nalen Anthoni em vídeo da EMI.
Depois da Segunda Guerra, o compositor inglês William Walton (na foto) compôs um concerto para Jascha Heifetz a pedido deste. Depois, em 1956, o violoncelista Gregor Piatigorsky, um dos maiores do seu tempo, fez o mesmo pedido a Walton. Mas Piatigorsky fez o pedido através de um intermediário, o pianista Ivor Newton.
Walton respondeu: "Eu sou um compositor profissional. Escrevo não importa o quê para
qualquer um desde que me pague..." E depois de uma pausa, acrescentou: "Eu escrevo melhor quando me pagam em dólar".
Walton terminou o concerto no mesmo ano, o magnífico Concerto para Violoncelo e Orquestra, que está no vídeo, e que foi executado pela primeira vez em janeiro de 1957 por Piatigorsky com a Boston Symphony Orchestra, dirigida por Charles Munch.
Não se diz quanto o violoncelista pagou. No vídeo da EMI, a NBC é conduzida por Malcolm Sargent, em 1957.

domingo, 30 de novembro de 2008

Ernesto Penafort










Ernesto Penafort

(Capa de Getulio Alho. Retrato do autor: Bico de pena de Edmilson Salgado)





SONETO

noutros tempos, olinda, eras futuro.
sob sol e silêncio se descia
ao vale, e o vale fértil pressentia
a intenção dos abraços, além-muro.
vieram ventos. choveu do intento puro
o desejo de ser, no qual se cria:
pronta a rosa entendida falecia
sob sol e silêncio no chão duro.
várias chuvas passaram, hoje banho
noutras águas a vida, pois, de antanho,
só a luz do teu rosto é que me ocorre,
entre silêncio e sol, mas como tudo,
se incorpora, no tempo, a um fruto mudo:
sob sol e silêncio nasce e morre.


enquanto a lua for calada e branca
eu serei sempre o mesmo, este esquisito,
este invisível vulto, apenas visto
quando o vento, de leve açoita as folhas.
enquanto a lua for calada e branca
eu serei sempre o mesmo, apenas visto
quando um raio de sol morre na lágrima
que se despede de uma folha verde.
eu serei sempre assim, apenas sombra,
apenas visto quando a voz de um gesto
colhe no bosque alguma flor azul.
apenas visto quando em fundo azul
voar a garça (o meu adeus ao mundo?),
enquanto a lua for calada e branca.


SONETO DO OLHAR AZUL

de azul, azul demais é a luz dos olhos
que espiam em constante claridade
o escorrer, como um rio, uma cidade
com seus becos e sombras - vãos mistérios.
estranhamente azul é a luz dos olhos
que se alçam como pássaros - aéreos
de azul e luz - suspensos de saudade;
e de onde escapa um rio (o rio outro)
cujo leito é de saI e de agonia,
por sobre cujas águas não flutua,
embora em desespero, a luz do dia.
é noturno esse olhar? quem sabe a imagem
daquilo que entre gritos se anuncia
e em silencio acontece - e se faz lua.



O TOURO

o louro cinza traz sobre o ocipício
estranha meia lua eclipsada
no turvo olhar das vacas do Cambixe.
é belo o touro. o olhar (lâmina e gelo)
passeia-nos as aImas decorando-as
como se fossem seus os nossos pastos.
de seu dorso escorrem-Ihe os desejos
que se fincam nas patas feito plantas
de onde brota-Ihe o viço das andanças.
um mugido de cores o ilumina
e a tarde se afugenta de seu lombo
sorvendo o que ha de luz pela ravina.
e silencio o curral. sobreflutua
eclipsada e estranha meia lua.

SONETO DO OBJETIVO MAIOR


tudo está por fazer e ja cansada
te encontras neste inicio de aventura.
tudo está por ser feito e sossegada
te fincas sobre gestos de impostura.
tudo está por cumprir nesta jornada
que agora nos propomos, e amargura
tu mostras antes mesmo a caminhada
que nos há de levar a essa futura
vida que nos aguarda em seus segredos.
por que deténs-me então por entre os dedos
que, antes, teceram tudo o que hoje somos?
não podemos ficar. partir é tudo.
e o que temos de bom sobre o chão mudo.
vamos, seremos mais do que já fomos.


SONETO DO AZUL IRREAL

o irreal azul engole O mundo, enquanto
da morte magra polipartem galhos
e o vento os faz dançar. a leve dança
confunde-se à das aves, negras aves
que alem das folhas verdes se entrevêem
em vôos circunféricos (ao bote
a postos?). Ja um canto ocupa o quadro
e o vento, esse abstrato, como a chuva,
borrifa as notas pelo incerto azul.
e permanece o azul, incerto e calmo.
sob sua pele semelhante a um lago,
em cujo fundo um mundo se agitasse,
existe o nosso (o que foi e é, será?)
agora, vê-se o azul sangrando nuvens.







O touro






o touro cinza traz sobre o ocipício
estranha meia lua eclipsada
no turvo olhar das vacas do Cambixe.
é belo o touro. o olhar (lâmina e gelo)
passeia-nos as almas decorando-as
como se fossem seus os nossos pastos.
de seu dorso escorrem-lhe os desejos
que se fincam nas patas feito plantas
de onde brota-lhe o viço das andanças.
um mugido de cores o ilumina
e a tarde se afugenta de seu lombo
sorvendo o que há de luz pela ravina.
é silêncio o curral. sobreflutua
eclipsada e estranha meia lua.





SONETO DO MURO AZUL




na tarde já passada ainda presente
está o vulto do amor inacabado.
uma lembrança de asa que pressente
um vôo de garça atravessar, molhando,
o olhar horizontal do poeta ausente
ao momento em que estava ali fincado.
era de fato amor. irreverente,
foi o seu gesto triste e tão lembrado.
ambos se olharam. desse olhar cruzado,
ergueu-se o muro azul e transparente
que pelos dois jamais fora pensado.
a musica é a culpada? e o olhar turvado?
na tarde já passada ainda presente
está o vulto do amor inacabado.




(Azul geral, Manaus, Edições Madrugada, 1973. Prefácio de Antísthenes Pinto. Posfácio de Farias de Carvalho).


A MEDIDA DO AZUL

A medida do azul é o estender-se
do olhar por sobre os seres. Esse arguto
perceber que se tem de não mover-se
o objeto - já por ser absoluto.
A medida do azul é ver um luto
contido em toda flor e o abster-se,
cada qual de assumir seu tom enxuto
e noutro que o não seu absorver-se.
A medida do azul, pelo contrário,
não é ver no horizonte o fim do olhar,
mas o ter desta vida aonde chegar,
pois ali tem o mundo o seu ovário:
e o retorno acontece, sempre estável,
eis que o azul é o início do infindável



%%%%%%%%%%%%%%%%



Do corpo, da memória


Ernesto Penafort (1936-1992)




eis que surges, noite morta.
nem te adivinhava antes,
já vagava em outras terras,
outros mares me banhavam.
entretanto, estás
presente, suor do corpo.
rastro de quem anda,
amor de quem partiu.

eis que surges, noite morta.
mesmo adivinhar-te
era um absurdo, noite morta.
principalmente agora
que vejo luz e longe,
estás presente, suor do corpo,
memória e tatuagem,
novamente suor do corpo,
estás presente,
memória de quem anda,
suor de quem partiu.




SONETO ULTIMO
DA REVELAÇÃO DERRADEIRA


eis que a tarde enfuna o lenço
gris de sua despedida.
quanto mais não me convenço
mais é noite - absorvida
hora a que já não pertenço.
pronto exsurge um corpo só
que embora pensa caminha
coberto do mesmo pó
que em si próprio remoinha
seja embora para o espanto,
daqueles cuja ferida
teimam tê-la recolhida
haja luz por sobre o manto
e ecloda em forma de canto.


OS POMBOS MORREM DE PÉ



Acaso não me tivessem chamado a atenção, eu jamais o teria notado. Era belo e se consumia na mais ampla serenidade.
De pé sobre o parapeito e suavemente encostado à parede da Academia Brasileira de Letras, o pombo da paz casava o frio de sua morte ao frio da tarde. Fria não somente por ser de julho, mas fria também e principalmente porque mais uma paz morrera nas ruas, como tantas outras que diariamente se esgotam pela indiferença dos homens.
Do baixo céu da tarde pendia um ar pesado trazendo a chuva fina que descia. Dessas frequentemente acontecidas durante o inverno no Rio, obrigando cada um a olhar para o chão e pensar nos seus problemas. 0 dia se abatia e machucava tudo - as árvores, as ruas, as pessoas. Era uma queda horizontal da tarde.
No parapeito - triste beiral sem vento - humilde como o chão, o pombo da paz era campo de aéreas gotas de chuva que mansamente Ihe pousavam nas penas sossegadas. E nos dava o exato motivo de pensar que ele lutara. De que aquela fora uma paz que suara para não deixar nunca de continuar se cumprindo.
De seus olhos imigrava um olhar gelado que perseguia o infinito e era puro como as alturas atingidas. Que alados caminhos espiavam agora os seus olhos de gelo? Teriam acaso outros telhados o seu tranquilo voejar, na intimidade serena das chaminés? Adejaria por quais lugares aquela paz, ali aos poucos se findando, de pé como uma estatua?
Os homens passavam embrulhados de espessa taciturnidade. Dirigiam-se todos de encontro à noite que os esperava quieta, escura sempre. Nos seus recessos talvez uma fuga ou alguma solução para os problemas da quotidiana angustia. A noite, os bares se enchem de nações que logo se desfazem quando os sonhos adormecem.
Morto, estranhamente em pé, continuava o pombo feito uma estátua da paz, que pela paz e sendo paz, em paz se consumia.



(A medida do azul. Manaus, Governo do Estado do Amazonas, 1982. Introdução de L. Ruas)


Ernesto Penafort nasceu em Manaus, Amazonas, em 27 de março de 1936 e faleceu na mesma cidade em 3 de junho de 1992. Fez seus estudos em Manaus, formando-se em advocacia pela Faculdade de Direito do Amazonas. Era jornalista, poeta, contista. Morou 11 anos no Rio de Janeiro e só não se formou em Ciências Sociais pela Universidade do Brasil porque se desentendeu com um professor faltando um ano para concluir o curso. Foi redator da Rádio Nacional do Rio de Janeiro e da Folha de São Paulo. Voltando para Manaus, trabalhou na Fundação Cultural do Amazonas. Pertenceu ao Clube da Madrugada.

Enquanto a lua for calada e branca



Enquanto a lua for calada e branca


Rogel samuel


Os livros do poeta amazonense Ernesto Penafort (1936-1992) são hoje as maiores raridades bibliográficas. Nem em sebos se encontram. Ele escreveu Azul Geral (Madrugada, 1973), 1982 A Medida do Azul (Imprensa Oficial, 1982), Os Limites do Azul (Imprensa Oficial, 1985), Do Verbo Azul (Gov. do Estado do Amazonas, 1988). Penafort nasceu e morreu em Manaus.
Na década de 60, estudou Ciências Sociais na Universidade do Brasil, sem concluir
o curso, voltou para Manaus, fez Direito. Foi presidente do Clube da Madrugada e
era muito conhecido em sua época. Eu não o conheci pessoalmente ainda que devemos ter-nos encontrado na Universidade ou em Manaus. Mas sempre ouvi falar dele. Eu incentivei um meu orientando do curso de Mestrado em Teoria literária para fazer uma pesquisa sobre a poesia de Penafort, o que daria a monografia de sua dissertação final. Mas meu aluno abandonou o curso e nunca concluiu o trabalho.
Um dos seus poemas é este:

enquanto a lua for calada e branca
eu serei sempre o mesmo, este esquisito,
este invisível vulto, apenas visto
quando o vento, de leve açoita as folhas.
enquanto a lua for calada e branca
eu serei sempre o mesmo, apenas visto
quando um raio de sol morre na lágrima
que se despede de uma folha verde.
eu serei sempre assim, apenas sombra,
apenas visto quando a voz de um gesto
colhe no bosque alguma flor azul.
apenas visto quando em fundo azul
voar a garça (o meu adeus ao mundo?),
enquanto a lua for calada e branca.

(Azul geral)

sábado, 29 de novembro de 2008

O GRÊMIO



O GRÊMIO

Rogel Samuel

Outro dia, apareceu aqui a referência ao Grêmio Satírico Gregório de Matos. Éramos jovens, quase meninos. Durou um ano, Ira Esteves, Iran Fersil, Aflopes, Aury Silva Braga, eu, outros. Uma é hoje esposa de um ex-governador. Nunca mais a vi. Aflopes era mais velho e criava (acreditem) uma onça em casa. Tudo era possível, naquela época. Ele trouxe o filhote do interior do Amazonas. Criou. Amava o bicho. Depois, Aflopes sumiu, mudou-se para Belém e sumiu. Uma outra poetisa é tia de um atual senador do Amazonas. Nunca mais a vi. Nosso grêmio era famoso. Mantivemos uma polêmica contra outros poetas, pelos jornais. Contra Benjamin Sanches, autor de "Argila". Um bom poeta. Eu assinava "Calixto Diniz". Sanches escrevia, em resposta: "Cá li isto, que você escreveu". Bons tempos. Boas lembranças. Depois vim para o Rio de Janeiro. Ira foi para Los Ângeles. Separamo-nos. O Grêmio, entretanto, continua presente, no espaço real da poesia perene, lá.
Lá.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Obra prima em surdina



Obra prima em surdina

Rogel Samuel

Bilac atinge o mais alto grau de sua arte literária em "Surdina". Lembra Goethe e Pessoa, e o verso é perfeito, com acentos na 4 e 8 sílabas. Os sss do primeiro verso moram em silêncio: "No ar sossegado um sino canta". O silêncio e frio cantam a atmosfera.
A paisagem misteriosa. A paisagem é um estado de alma. Os amores mortos, fracassados,
nublados, vazios. A vida é estrada deserta. A espera da morte, o sonho erradio. O
coração de luto. O amor em surdina, escondido, proibido. A solidão resume-se em "ninguém", para aquele que caminha solitário. Mas o poeta ainda chora os amores dizimados, perdidos, nesta pálida Vênus, a deusa do panteão do Amor. Pálida ela aparece. E Bilac atinge o mais alto grau de sua arte.

Surdina

No ar sossegado um sino canta,
Um sino canta no ar sombrio...
Pálida, Vênus se levanta...
Que frio!


Um sino canta. O campanário
Longe, entre névoas, aparece...
Sino, que cantas solitário,
Que quer dizer a tua prece?


Que frio! embuçam-se as colinas;
Chora, correndo, a água do rio;
E o céu se cobre de neblinas.
Que frio!


Ninguém... A estrada, ampla e silente,
Sem caminhantes, adormece...
Sino, que cantas docemente,
Que quer dizer a tua prece?


Que medo pânico me aperta
O coração triste e vazio!
Que esperas mais, alma deserta?
Que frio!


Já tanto amei! já sofri tanto!
Olhos, por que inda estais molhados?
Por que é que choro, a ouvir-te o canto,
Sino que dobras a finados?


Trevas, caí! que o dia é morto!
Morre também, sonho erradio!
A morte é o último conforto...
Que frio!


Pobres amores, sem destino,
Soltos ao vento, e dizimados!
Inda vos choro... E, como um sino,
Meu coração dobra a finados.


E com que mágoa o sino canta,
No ar sossegado, no ar sombrio!
- Pálida, Vênus se levanta.
Que frio!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Camisetas de Obama



Camisetas de Obama

Rogel Samuel


Acabo de ver num camelô do centro do Rio de Janeiro umas belas camisetas com o Presidente Barack Obama. Ele virou ídolo carioca! Na banca estava ao lado do Kaka e do Ronaldinho Gaucho.
Nunca vi isto - um Presidente Americano vira ídolo no Brasil.
Quanto ao mais, o capitalismo se protege. 88 bilhões para salvar os ricos bancos e empresas. Ninguém critica.
A bolsa sobe. E a África pobre, quem salvará? Quando se fala da bolsa família se critica.
É para pobre. Um dia até um eclesiástico disse que a bolsa família vicia. Oh, Deus,
comer também vicia.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O IGARAPÉ DO INFERNO



SEGUNDO CAPÍTULO DE

O IGARAPÉ DO INFERNO

JÁ ESTÁ ONLINE EM

http://www.blocosonline.com.br/home/index.php
O MAIOR PORTAL DE LITERATURA DO PAÍS.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O bom escritor



O bom escritor

Rogel Samuel


Recebo um email do escritor Paulo Lins. Autor do romance "Cidade de Deus". Ele é um
escritor excelente, seu texto lembra seu modelo - José Lins do Rego. Acho o livro bem
melhor do que o filme, me perdoem. E é uma obra de ficção, ou seja, inventada, literária, artística.
Paulo Lins foi meu aluno na Faculdade de Letras da UFRJ. Lembro-me bem dele, de sua
turma e do curso que dei, lemos com os novos escritores da época, João Gilberto Noll, Scliar, etc.
Paulo Lins é um escritor sofisticado, elegante. Levou dez anos para realizar o seu
grande romance, publicado em 1997 e hoje traduzido em vários idiomas.

Uma muito boa leitura.

sábado, 22 de novembro de 2008

O Buda é mente



O Buda é mente

Rogel Samuel


Dogen (1200 - 1253) escreveu um pequeno e enigmático poema que diz:


"A mente é em si mesma Buda" - difícil de praticar, mas fácil de explicar.
"Quando não há mente não há Buda (No mind, no Buda)" - difícil de explicar, mas fácil
de praticar.
(The Zen Poetry of Dogen: Verses from the Mountain of Eternal Peace, by Steven Heine).


Dogen é um dos poetas máximos do Zen.
Na realidade ele deve ter sido um mestre realizado.
Ora, o que ele quis dizer com "A mente é em si mesma Buda"?
Se o Buda é mente significa que a visão de samsara e nirvana se intercomunicam, ou
são a mesma coisa.
Samsara não é o inferno, o sofrimento mundano. Nem nirvana é o céu, o paraiso celestial.
Tudo depente de uma interpretação mental, ou melhor, do tipo de visão que assumimos.
O nosso mundo pode ser visto em sua verdadeira natureza, e aí está o nirvana.
Ou pode ser visto através das distorções de nossos fatores mentais do ódio, do desejo
e da obscuridade. E aí temos o samsara.
O mundo não é nem paraiso nem inferno.
Ele é o que nós mesmos fazemos dele.
Nós o construímos. Podemos construir o paraíso e o inferno.

Um dia, dois homens passeavam na orla do mar. O céu estava limpo e no horizonte se
descortinava o panorama do universo, amplo e luminoso.
Mas tinha havido uma prolongada greve dos coletores de lixo da cidade.

- Que lindo dia! - exclamou o primeiro homem.
- Quanta sujeira! - exclamou o segundo homem, sempre de cabeça baixa, olhando o lixo das
calçadas.
- Que magnífica paisqagem!
- Que fedor!

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Pão e vinho, 1



Pão e vinho, 1

Rogel Samuel

Traduzo, livremente, um poema de Holderlin. Traduzo do inglês, sem muito compromisso com o original. O texto lembra Eliot. Fala de uma cidade, o seu lixo, o seu barulho, os seus carros (ainda eram carruagens, iluminadas por tochas, o poeta viveu de 1770 a 1843), o fim do dia, os homens voltam para casa, pensam, avaliam o dia, sinos, um apito de guarda, a lua, a noite que vem, as estrelas, um poema moderno, envolvente, forte, vivo.

Sobre o lixo da cidade. As ruas iluminadas crescem
quietas, e carros passam, adornados com tochas.
Homens vão para casa descansar, cheio dos prazeres do dia;
Suas mentes estão ocupadas avaliam lucros e perdas
Em casa. O mercado ocupado vem descansar,
Desocupado agora das flores e uvas e artes.
Mas a música de cordas em jardins distantes:
Talvez os amantes brinquem ali, ou um homem solitário pensa
Sobre amigos distantes, e sobre sua própria juventude.
Fontes apressadas fluem entre canteiros de flores fragrantes,
Sinos tocam suaves no ar do crepúsculo, e um guarda
Chama fora de hora, atento ao tempo.
Agora uma brisa sobe e toca a crista do arvoredo—
Olha a lua que, como a sombra de nossa terra,
Também sobe pura! Fantástica noite vem,
Cheia de estrelas, desinteressada provavelmente de nós—
Espantosos brilhos da noite, um estranho entre os humanos,
Tristemente sobre os topos das montanhas, em esplendor.

(Poems of Friedrich Holderlin. Translations by James Mitchell)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Dia da consciência negra: Cruz e Sousa



Dia da consciência negra: Cruz e Sousa

Rogel Samuel

No dia da consciência negra me debruço a ler o nosso poeta maior, nos sons desses violões. A sonoridade é perfeita, e se ouvem os violões em "velhos vórtices velozes dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas".

Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,


Seus versos expõem os "oens", lamentos mornos, soluços murmurantes,


Ah! plangentes violões dormentes, mornos,

Soluços ao luar, choros ao vento…

Tristes perfis, os mais vagos contornos,

Bocas murmurejantes de lamento.



O poeta negro é sofisticadíssimo. Compete com os melhores seus iguais poetas simbolistas franceses. Sabia francês, latim, grego, matemática. Combateu a escravidão – era filho de escravos. Sofreu preconceito racial quando quis ser promotor. Trabalhou na Central do Brasil.

Seus quatro filhos morreram de tuberculose, e ele também. Ele é o poeta da angústia metafísica, das nuances. E nada mais Brasil do que esses violões.



Noites de além, remotas, que eu recordo,

Noites da solidão, noites remotas

Que nos azuis da Fantasia bordo,

Vou constelando de visões ignotas.





Sutis palpitações a luz da lua,

Anseio dos momentos mais saudosos,

Quando lá choram na deserta rua

As cordas vivas dos violões chorosos.





Quando os sons dos violões vão soluçando,

Quando os sons dos violões nas cordas gemem,

E vão dilacerando e deliciando,

Rasgando as almas que nas sombras tremem.





Harmonias que pungem, que laceram,

Dedos Nervosos e ágeis que percorrem

Cordas e um mundo de dolências geram,

Gemidos, prantos, que no espaço morrem

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O POR DE SOL DE HOLDERLIN



O POR DE SOL DE HOLDERLIN

Rogel Samuel

Onde estás? A alma anoitece-me bêbeda
De tôdas as tuas delícias; um momento
Escutei o sol, amorável adolescente,
Tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite.

Ecoavam ao redor os bosques e as colinas;
Êle no entanto já ia longe, levando a luz
A gentes mais devotas.
Que o honram ainda.
(Trad. Manuel Bandeira )

Não faz muito tempo que conheci você. Onde estará? Por que você não vence esta sua tendência à auto-destruição? Contra a minha vontade estou preso a este laço invisível que nos une.
Onde está?- pergunta o poeta. Suas lembranças me embebedam e envenenam. Mas o canto da noite já se ouve e o sol, já um pouco distante, o sol adolescente Apolo, já toca na sua lira as notas do seu noturno.
No ambiente ao redor, nas colinas e nas árvores, ainda ecoam os cânticos do sol, que agora já leva a luz e seus adoradores.
Ó Holderlin!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

AS AMAZONAS DE BILAC



AS AMAZONAS DE BILAC

Rogel Samuel

Amaldiçoa o poeta estas atuais "eras sombrias de miséria moral" E diz que a Pátria deve esperar "a aurora". Será a Revolução? Pois "ela virá, com outras eras, outro sol, outra crença em outros dias!"
Grita o poeta que "Davi renascerá contra Golias, Alcides contra os pântanos e as feras" e a revolta dos corações "como crateras, e hão de em lavas mudar-se as cinzas frias".
Faz o poeta aquela reconstrução da subjetividade das "nobres ambições, força e bondade, justiça e paz" que "virão sobre estas zonas, da confusa fusão da ardente escória."
E de quem será a glória? De quem o exército da suprema vitória?
Delas, das Amazonas Virgens, na esplêndida cavalgada de glória daquelas mulheres da mitológica divindade.

AS AMAZONAS

Nem sempre durareis, eras sombrias
De miséria moral! A aurora esperas,
Ó Pátria! e ela virá, com outras eras,
Outro sol, outra crença em outros dias!
Davi renascerá contra Golias,
Alcides contra os pântanos e as feras:
Os corações serão como crateras,
E hão de em lavas mudar-se as cinzas frias.
As nobres ambições, força e bondade,
Justiça e paz virão sobre estas zonas,
Da confusa fusão da ardente escória.
E, na sua divina majestade,
Virgens, reviverão as Amazonas
Na cavalgada esplêndida da glória!

foi numa noite de agosto



foi numa noite de agosto
que apareceu a tal lua
os lábios naquela água
o corpo dado aos amantes
amantes não sabem nada
que há tempos não se via
a gargalhada menina
da lua de rica rima
poetas que não se fiem
poetas nada sabem
que é até mesmo uma pena
que esta caneta tão prima
não seja feita mais fina
como ponta de punhal

Não posso reter os teus traços



Não posso reter os teus traços
Nem as notas de teu tema
Pois tua música se esquece
Como as vozes do poema
Da paixão, que mais um traço
Foi do azul de minha pena,
E quando te vir já será garço
O repique da tua cena
e o afastado abraço...
(oriunda onda a que cerca de aço
me levarão tuas algemas?)

veludoso coro


Veludoso coro
Desta ameixeira
Quando pomos d’ouro
Cobrem a cumeeira
Sobre todos nós
Sua eletricidade
Melodioso foro
De felicidade.

sete dias serão


Sete dias serão, Manaus, ó sete amadas,
Por que se integre à terra este cantor.
Ó monstruosas noites desamparadas
De mim se aparte a porta dessa dor.
O espelho dágua ostenta a aranha alada
Que me arrasta o interno aeroplano,
Tresloucada vespa, cristalizada
Inoculando o inferno do engano.
Mas chega de canção, Amor, que neste canto
As finas rimas dessa ladainha
Escondem teus morenos ombros de arpejos.
Ó franca zona! Do Teatro o manto!
Por sete dias tua canção é minha
Na invenção literária dos teus beijos.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Vozes que ouvi no passado


Vozes que ouvi no passado

Rogel Samuel


Vozes que ouvi no passado
falando-me desse tema
repassam-me tais coisas
desse teor e lema
o perdido no passado
sem pátria nem destino
sem o breve e o lento
momentâneo acontecer...
passantes falantes viventes
foram essas vozes passadas
o refazer da imagem:
de onde vens e para quê?
e por que levantar o depósito
do que mantido deveria ser
por que ouvir de novo, porquê?
Cuidado, oh cuidado!
De que maldito arquivo
tais falas me fazem ser?
Por que não me deixas no alívio
daquelas cenas esquecidas
para que servem essas vistas
e aquelas tristes visitas
as sedas que vestem o corpo
morto, e as ressecadas toalhas
os castiçais tão deveras
os mortos rostos rever
oh vozes que ouvi no passado
que me entristecem apenas
com esmaecidas cenas
relâmpagos do que já foi
isso não tem mais valor
que não seja fazer crer
de que tudo valeu a pena
mas meu Deus tanta gente
por essa cena passou
tanta gente morreu
quanta, quantos mortos quantos
no esquecido cimento
da pele fria, mas quantos
de repente me vejo os mortos
em seu pálido desfilar
e os que ainda vivos
que pressinto seu passar
oh vozes, oh visões da verdade
que desse presente passado
não me deixam esquivar
que tamanha crueldade
fazem comigo então
não me deixando esquecer
que de tortura aparecem
falando-me internamente
repassando tais cenas
de que estou afastado

SOBRE O TEATRO AMAZONAS


SOBRE O TEATRO AMAZONAS


No seu Blog, Leila Miccolis escreveu:
"TEATRO AMAZONAS", de Rogel Samuel, em Blocos Online.
Há quem prefira elogiar diretamente para mim um autor em vez de dirigir-se para ele próprio, o que é uma pena, porque esse retorno é muito importante para quem escreve, ainda mais uma obra inédita do fôlego de Teatro Amazonas, inédito publicado originariamente em Blocos, em 22 capítulos. A obra mereceu logo de início reportagem no jornal "Amazonas em Tempo" que, com grande tino, percebeu desde o início a importância da obra: afinal são raros os romances históricos sobre temas brasileiros, e a visão de Rogel Samuel é primorosa: falar da construção de uma arquitetura que abalou os alicerces de uma nação político-social-economicamente. Para os que aplaudiram, mesmo sem escrever ao autor, uma ótima novidade: na próxima coluna, do dia 10 de novembro, o autor começa outra novela sobre o tema amazonense. Porém antes que isso aconteça, não resisto a registrar um comentário que circulou na lista pessoal do autor, escrito por outra colunista de Blocos, Clarisse de Oliveira — figura também com um passado histórico, filha de Clarice Índio do Brasil —, que em sua infância possuía aquarelas do artista plástico De Angelis, responsável pela pintura interior do Teatro Amazonas. Escreve Clarisse de Oliveira: “Hoje, li o último capítulo da história do Teatro Amazonas, em Manaus. Fascinante e retém nossa atenção o tempo todo, pois, Rogel Samuel, intercala a narração com a descrição das personagens, sempre focalizando sua mixagem racial dos primeiros séculos de Vida do Brasil. Afora a mixagem racial, os atritos livres das personalidades em seu desempenho na política do Estado de Manaus, surgindo da periferia da Mata Amazônica e se baseando nos reflexos que chegavam no Brasil, da Europa, principalmente de Paris, onde até a roupa mais fina era enviada para ser lavada lá. A pintura ornamental de teto e paredes, de que herdei umas quatro aquarelas, me levavam a imaginar a beleza barroca da moldura do palco do Teatro. Na minha infância, a mãe de meu padrinho Gaspare Cornazzani, que se chamava "Altiniana", mulher belíssima, que muitos diziam: "É um cromo", eu ouvia falar sempre. Ela chamava a atenção no Teatro Amazonas, em seu camarote, exibindo beleza física e luxo em vestimenta e jóias. Assim, na embocadura de uma selva tropical, uma construção meio Paris e barroco italiano, tem agora um livro com a história de sua construção narrada de maneira fascinante pelo escritor Rogel Samuel, natural de Manaus". Depois de ler este texto pensei no velho chavão: "como o mundo é pequeno". Ou, em roupagem mais atual, como o universo é sincrônico...

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

SOBRE O IGARAPÉ DO INFERNO

SOBRE O IGARAPÉ DO INFERNO


Do escritor Dílson Lages Monteiro recebi, nesta terça-feira, 11 de novembro de 2008, a seguinte mensagem acerca do primeiro capítulo do nosso romance "O igarapé do Inferno":
"Amigo Rogel, acabo de ler - ler, reler e reler - o primeiro capítulo de O igarapé do inferno.
Envolvente, sobretudo pela vitalidade do narrador e pelas rupturas causadas no plano sintático, que dão um tom especial ao texto - uma cadência muito particular que prende e motiva à linha seguinte. Aguardarei os próximos. Bom romance!".
Como disse a escritora Sonia Sales, nós, escritores, vivemos dessas coisas, dessas palavras. Nada esperamos do nosso trabalho, senão ouvir de um bom leitor/a uma opinião
como essa, sincera, espontânea, vinda da emoção.
O livro está sendo publicado em
http://www.blocosonline.com.br/home/index.phponde ainda se encontra na primeira página.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Euryalo Cannabrava

NATUREZA E HISTÓRIA



Euryalo Cannabrava



O Sr. Sérgio Buarque de Holanda, crítico literário forrado de cultura filosófica, em uma de suas crônicas publicadas no Diário Carioca fez alguns comentários sobre duas comunicações que tive a honra de apresentar ao Congresso Brasileiro de Filosofia. As observações do excelente critico paulista ferem em cheio alguns pontos fundamentais que se relacionam com as deficiências e irremediáveis desvios da atividade especulativa entre nós.

É inegável que os trabalhos reunidos agora nos “Anais” do referido Congresso estão longe de confirmar a existência, no Brasil, de vocações filosóficas de primeira ordem. A maioria das comunicações se caracteriza por singular abstinência em matéria de idéias: os congressistas em geral preferiram debater as questões históricas da filosofia a enfrentar corajosamente os seus problemas. Diversos trabalhos não apresentam qualquer vestígio de originalidade, limitando-se os seus autores a catalogar citações sobre os assuntos mais variados, sem preocupação alguma de coerência e unidade no curso da exposição.

Nada mais lamentável do que essa incapacidade, tão generalizada entre nós, de distinguir o que é simples memorização erudita daquilo que revela penetração crítica e capacidade de análise. Há, sem dúvida, certa resistência ao esforço crítico, que se manifesta através da adesão incondicional aos sistemas especulativos e da recusa obstinada em rever os fundamentos de nossas convicções mais profundas.
Discutindo, há alguns anos, com um amigo que se mostrava exageradamente receptivo aos ensinamentos da filosofia cristã, tive oportunidade de lhe fazer várias perguntas indiscretas. Entre elas, lembro-me de algumas que o irritaram bastante: “Se você acredita que Jacques Maritain é um gênio, qual o adjetivo que reservará para São Tomás, em cuja obra o escritor francês foi buscar todas as suas idéias? E se você teima em proclamar que São Tomás é um supergênio, que qualificativo aplicará a Aristóteles, inspirador de pelo menos dois terços da filosofia tomista?”
É claro que essas perguntas ficaram até agora sem resposta. Tudo isso indica, entretanto, que o entusiasmo fácil por idéias alheias nem sempre é acompanhado pela tentativa de examinar criticamente as verdadeiras razões de nossa admiração. E se alguém nos força a apresentar evidências, que justifiquem a aceitação de certos sistemas ou credos filosóficos, torna-se difícil dissimular a gratuidade de nossa adesão.
Foi assim que se difundiu, nos últimos tempos, entre os círculos filosóficos da América Latina, fascinados pelo sortilégio do pensamento germânico, a ingênua convicção de que existem fundamentos sérios para a distinção entre as ciências naturais e as ciências histórico-culturais. Os adeptos (quase sempre sectários e intransigentes) dessa famosa dicotomia do grupo das ciências julgam-se inteiramente dispensados de qualquer espécie de justificação. Eles acreditam que a bifurcação das disciplinas em naturais e histórico-culturais deve ser aceita sem maior exame.
O prestígio do nome de Wilhelm Dilthey contribuiu muito para a generalização, na América Latina, da absurda convicção de que existe incompatibilidade, ou diferença profunda, entre o conhecimento da natureza e o conhecimento da história. O filósofo Ortega y Gasset encarregou-se da tarefa de cavar um abismo entre a realidade histórica e a realidade natural. Foi ele quem afirmou dogmaticamente que o homem não é natureza e sim história.

Nenhum desses pensadores, porém, jamais se lembrou de demonstrar que a classificação bipartida das ciências encontra apoio em critérios racionais e lógicos. A disciplina competente para estabelecer normas de classificação é a lógica formal. Pergunta-se, portanto, se Dilthey, ou Ortega y Gasset, seu discípulo moderno, demonstrou com o necessário rigor que as ciências históricos-sociais satisfazem os requisitos lógicos de objetividade, consistência e ordenação sistemática das disciplinas denominadas positivas.

O filósofo alemão Dilthey nunca se preocupou em provar que existe uma ciência histórica, por exemplo, completamente distinta das ciências naturais: para isso seria indispensável que ele se referisse explicitamente aos característicos e propriedades lógico-formais que distinguem o conhecimento histórico do conhecimento natural. Cabia-lhe, ainda, a tarefa complementar de justificação da lei histórica, mencionando as razões ponderáveis que o levaram a atribuir a esta última o mesmo status lógico da lei natural. A lei natural se verifica, quando se torna possível estabelecer relações quantitativas de proporcionalidade constante entre duas ou mais variáveis. O mesmo por acaso se poderá dizer das supostas leis históricas?

O recurso à filosofia dos valores e critérios puramente especulativos jamais poderá suprir a ausência de princípios lógicos, que estabeleçam normas para a classificação bipartida das ciências. Mas a lógica formal não somente separa e divide as disciplinas, como também estatui regras para a redução de uma ciência a outra ciência.
Essa redução, como observa Ernest Nagel em artigo recente (1), se verifica somente quando os termos que ocorrem nos enunciados da disciplina secundária (biologia por exemplo) podem ser explicitamente definidos com o auxílio do vocabulário especifico das disciplinas primárias (física e química). Essa seria a técnica a se aplicar ao domínio das ciências histórico-sociais (disciplinas secundárias) com o objetivo de reduzi-las ao grupo previamente formalizado das ciências naturais (disciplinas primárias).
O sr. Buarque de Holanda manifesta a esse propósito sérias dúvidas de que tal tarefa possa ser levada a cabo no domínio das ciências históricas. As suas observações se aplicam mais rigorosamente às tentativas ingênuas de matematização da história, psicologia ou sociologia. O crítico paulista discute esse problema animado de um sadio pessimismo, pois é evidente que nada indica, ainda remotamente, qualquer possibilidade de se executar esse ambicioso projeto.
Seria ingênuo, por outro lado, acreditar que a redução da história à economia, ou a outras ciências, possa verificar-se nas mesmas condições em que amplos capítulos da química foram reduzidos à estrutura da física, mediante a tradução dos termos daquela disciplina na linguagem da teoria atômica. Ora, tanto a formalização da história, como a sua equiparação a outra disciplina básica seriam, diante dos recursos atuais da lógica formal, comparáveis ao trabalho de unificação das artes ou de sua transformação em um único modelo...
Pois é precisamente a história - fator comum a todas às disciplinas - que permanecerá provavelmente irredutível a qualquer tentativa de matematização. O domínio histórico é o campo em que se movimentam as forças irracionais, os interêsses e as tendências afetivas, os valores misteriosos de variáveis desconhecidas e para-metros ocultos. Nesse setor parece sempre pouco fecunda a técnica que consiste em formular postulados básicos e deduzir dessas proposições primitivas uma série de conseqüências relevantes.
O que parece mais provável é que a formalização da economia e sociologia se reflita indiretamente na esfera do conhecimento histórico. O trabalho de Lazarsfeld e Lundberg em sociologia indica diretrizes que poderão orientar os futuros pesquisadores. A extensão do método científico à história obedecerá, portanto, a princípios estratégicos diferentes daqueles que se fizeram valer no domínio dos fatos naturais.
A história dificilmente adquirirá o “status” lógico-formal de uma disciplina positiva, mediante recurso direto às leis de derivabilidade sintáxica e aos processos modernos de matematização. É possível, porém, que o progresso de outras ciências, muito próximas da história, no sentido de utilização crescente da técnica de formalização, contribua para eliminar parcialmente os efeitos desastrosos do diletantismo literário e filosófico sobre uma disciplina que não se caracteriza pelo rigor sistemático de suas construções.
(1) Mechanistic Explanation and Organismic Biology - Philosophy and Phenomenological Research -- March, 1951.
[texto de Ensaios filosóficos. INL, Rio de Janeiro, 1957.]

A marinha bilaquiana

A marinha bilaquiana

Rogel Samuel

O princípio das coisas oscila sobre o mar, sobre as ondas do mar. Docemente sopra o vento e geme – mas o gemido é de gozo. A cena é erótica e aumenta com o enfunar, o encher, o inflar, o inchar das velas, como de falos. Traços de luzes passam, tremeluzem, brilhos. No céu pára um luar, ou melhor, o céu prepara um luar. E “Tu, palpitante e bela, Canta! Chega-te a mim! Dá-me essa boca ardente!”. No poema tudo se faz em Eros, sobre a feminidade das águas. A cena é retomada com o oscilar do batel, no ritmo da cópula do gozo.

Marinha


Sobre as ondas oscila o batel docemente...
Sopra o vento a gemer. Treme enfunada a vela.
Na água mansa do mar passam tremulamente
Áureos traços de luz, brilhando esparsos nela.

Lá desponta o luar. Tu, palpitante e bela,
Canta! Chega-te a mim! Dá-me essa boca ardente!
Sobre as ondas oscila o batei docemente...
Sopra o vento a gemer. Treme enfunada a vela.

Vagas azuis, parai! Curvo céu transparente,
Nuvens de prata, ouvi! - Ouça na altura a estrela,
Ouça de baixo o oceano, ouça o luar albente:
Ela canta! - e, embalado ao som do canto dela,
Sobre as ondas oscila o batel docemente.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

domingo, 9 de novembro de 2008

O IGARAPÉ DO INFERNO




LEIA HOJE

O IGARAPÉ DO INFERNO
de Rogel Samuel
em

BLOCOS ONLINE
HOJE DIA 10 DE NOVEMBRO EM BLOCOS ONLINE!

(Desenho da artista plástica Ira Esteves, 1984, hoje residente em Los Angeles)

O ciclo de Bilac

Rogel Samuel

De manhã o sangue a promessa, o assomo, o sonho, a juventude, a força. Depois a flor e o noivado, perfume, árvore, cântico amor. De tarde o esplendor da glória e do triunfo, o pensar maduro. A noite de saudade, as lágrimas, as folhas, o passado, o dormir. A vida toda perpassa no poema de Bilac, com a elegância e sonoridade do príncipe dos poetas do Brasil.

Ciclo

Manhã. Sangue em delírio, verde gomo,
Promessa ardente, berço e liminar:
A árvore pulsa, no primeiro assomo
Da vida, inchando a seiva ao sol... Sonhar!


Dia. A flor, - o noivado e o beijo, como
Em perfumes um tálamo e um altar:
A arvore abre-se em riso, espera o pomo,
E canta à voz dos pássaros... Amar!


Tarde. Messe e esplendor, glória e tributo;
A árvore maternal levanta o fruto,
A hóstia da idéia em perfeição... Pensar!

Noite. Oh! saudade!... A dolorosa rama
Da árvore aflita pelo chão derrama
As folhas, como lágrimas... Lembrar!

sábado, 8 de novembro de 2008

A EMOÇÃO DEMOCRÁTICA


A EMOÇÃO DEMOCRÁTICA


Eis o email na íntegra sem retoques que minha amiga Ira Esteves enviou no dia seguinte da eleição de Obama:
"Oi querido,que bonito o que voce escreveu sobre o meu voluntariado pro Obama,realmente a gente doava o que podia,se nao era dinheiro,era a nossa conta de celular,o nosso tempo e o nosso amor a causa.Mas deu certo.Ligando pros estados que eram republicanos de carteirinha ha decadas,os voluntarios e o proprio Obama,com seus discursos,conseguiram mudar o curso da historia.Escrevi varias paginas,no embalo da emocao,com todos os dados que recolhi durante esse trabalho,coisas que eu nao sabia e aprendi e que sei que muito brasileiro nao sabe,e dei a Obama uma alcunha,um titulo que para mim resume seu papel durante esses 21 meses de campanha mas que ele o sera daqui pra frente e para sempre: Obama, o unificador.Num pais dividido.alias sempre o foi,porque racismo aqui eh visceral,eh cultural,infundido a ferro e fogo, ele conseguiu unir os desafetos ancestrais e mais recentes,culturas que se odeiam dentro do mesmo espaco ,asiaticos,hispanos,negros,brancos lado a lado,gritando Obama! Obama! e rindo uns pros outros e se ajudando e trocando ideias echorando e dancando.Eu vi.Eu chorei e ri junto e na hora em que acabamos nosso trabalho,nos despedimos com a consciencia de um dever cumprido mas certos de uma vitoria que viria fatalmente,e eu disse pra moca bonita cheia de cachinhos ruivos: until the victory! e ela gritou: Yes,we can! e vim pra casa com aquela mesma alegria e aquele mesmo sentimento de plenitude e felicidade que senti durante todas as campanhas do Lula,que era operario,nao era negro,mas no nosso pais um presidente operario era impensavel,tipo racismo,segregado a um limbo onde permaneciam os nao pertencentes,os fora da lei,os pobres e desvalidos do meu pais.Mas Lula teve a audacia da esperanca,que eh o que se diz aqui de Obama,escreveram ate um livro sobre ele com esse titulo,e venceu apos tantas derrotas e ate se diz,roubo.Mas Obama levou de roldao tudo o que a direita feroz e reacionaria dizia dele.esmagou como um rolo compressor os ataques que o diziam socialista,amigo de ativistas do oriente Medio,mulcumano,gay,sem experiencia nenhuma,nada impediu sua vitoria avassaladora.Yes,we can! eu escrevi em portugues no painel onde os voluntarios deixavam suas emocoes: Sim,podemos! e assinei,Ira Esteves,from Brazil e puz a data,circulando tudo com um coracao.Ivan,o terrivel,encontrou tipo agrupamentos como tribos,dentro da sua Russia,todos se odiando ferozmente,matando-se diariamente,brigando sem uma causa realmente seria ou justa.E virou a mesa.E unificou seu povo,que se transformou numa das maiores nacoes do mundo.Mas o fez a ferro e fogo.Obama unificara com seu carisma e sua brilhante inteligencia,mas pricipalmente por amor a sua terra,ao seu povo e com o respeito que um autentico lider tem nao so pelos que o apoiaram,mas por todos,mesmo por aquelesque o rejeitaram,pois ele tem a consciencia de que ele sera o presidente de todos e o responsavel pela mudanca desta nacao.Eh o inicio de uma Nova Ordem.Yes,we can! Beijo da amiga irma Baby.Ah, e nao dei 90 telefonemas,dei 240.Me manda de volta esse email,eu quero te-lo,porque escrevi emocionada."

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Bilac patriótico

Bilac patriótico

Rogel Samuel




Bilac era um conhecido patriota, fazia conferências, incentivava o serviço militar
obrigatório, escreveu o Hino à bandeira do Brasil e era o Patrono do Serviço Militar,
o divulgador do Tiro de Guerra, escreveu obras como “Através do Brasil”,
sobre o Brasil.

Mas principalmente era um poeta forte, circulando no cerne do país, latejando nele
no seu lenho, como perfume, e sombra, e sol, e orvalho, e seiva, e voz possante.

Amazônico, fala dos liquens, cipós, frondes, ninhos, frutos.
O poema, apesar de tudo, é erótico, um tanto feminino, "em teu seio se esconde,
rebento em luz e em cânticos me espalho!"

Leiamos:



Pátria


Pátria, latejo em ti, no teu lenho, por onde
Circulo! e sou perfume, e sombra, e sol, e orvalho!
E, em seiva, ao teu clamor a minha voz responde,
E subo do teu cerne ao céu de galho em galho!


Dos teus liquens, dos teus cipós, da tua fronde,
Do ninho que gorjeia em teu doce agasalho,
Do fruto a amadurar que em teu seio se esconde,
De ti, - rebento em luz e em cânticos me espalho!


Vivo, choro em teu pranto; e, em teus dias felizes,
No alto, como uma flor, em ti, pompeio e exulto!
E eu, morto, - sendo tu cheia de cicatrizes,


Tu golpeada e insultada, - eu tremerei sepulto:
E os meus ossos no chão, como as tuas raízes,
Se estorcerão de dor, sofrendo o golpe e o insulto!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Morre Ima Sumac

Morre Ima Sumac

Rogel Samuel


Uma das maiores cantoras de todos os tempos, morre aos 86 anos Ima Sumac (Setembro 13, 1922 – Novembro 1, 2008).
O público jovem brasileiro talvez nem se lembre ou não a conheça. Pois bem:
Ela lançou e cantou o "Babalu" que a nossa Angela Maria gravou no Brasil.
Seus discos mais famosos foram "Mambo" de 1954 e "A lenda da virgem do sol".
Atualmente é muito difícil ouvi-la. Mas tenho a maioria de seus discos conseguidos
das mais estranhas maneiras, inclusive pela Internet.
Mas hoje o ouvinte atento não precisa sofrer como eu sofri para conseguir seus
discos, pois o Youtube está cheio de belos vídeos.
Ela conservou sua beleza até aos 80 anos.
Ela usou de todos os recursos de sua voz que tinhas várias tonalidades e grande
extensão.

Podemos começar ouvindo Babalu em:

http://www.youtube.com/watch?v=hBKvrgOi9Dg
Depois ouça:

http://www.youtube.com/watch?v=9YO9DpEDh3E&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=fbuqH_Gkgq0

segunda-feira, 3 de novembro de 2008


Vem aí

O IGARAPÉ DO INFERNO
de Rogel Samuel

em

BLOCOS ONLINE

AGORA DIA 10 DE NOVEMBRO EM BLOCOS ONLINE!

(Desenho da artista plástica Ira Esteves, 1984, hoje residente em Los Angeles)

ATRAVESSAR FLORESTAS

Rogel Samuel


Diz Baudelaire que a natureza faz o homem através de vivos pilares das árvores e é lá que
ouvimos aquelas vozes da unidade, os rumores que cantam os perfumes do nosso destino, através de nossos símbolos, dos nossos sentidos, das nossas estradas que têm a mesma extensão da expansão do universo. Baudelaire é, aqui, o poeta da grandeza, da mais vasta escuridão e larga claridade.

Correspondências



A Natureza é um templo onde vivos pilares

Podem deixar ouvir confusas vozes: e estas

Fazem o homem passar através de florestas

De símbolos que o vêem com olhos familhares.

Como os ecos além confundem seus rumores

Na mais profunda e mais tenebrosa unidade,

Tão vasta como a noite e como a claridade,

Harmonizam-se os sons, os perfumes e as cores.

Perfumes frescos há como carnes de criança

Ou oboés de doçura ou verdejantes ermos

E outros ricos, triunfais e podres na fragrância

Que possuem a expansão do universo sem termos

Como o sândalo, o almíscar, o benjoim e o incenso

Que cantam dos sentidos o transporte imenso.

BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. São Paulo: Círculo do Livro, 1995. Tradução, posfácios e notas de Jamil Almansur Haddad.




Livro on-line de Dilson Lages





"1. CHÃO EM ARDORES



- Aqui o Marataoã parece que saiu do lugar – repetia a balconista, com o leque em mãos. O leque dançando, dançando ao som seco e abafado do vento. O leque atritando o ar em coreografias." Continue lendo o primeiro capítulo de O morro da casa grande. Acesse aqui:

http://www.dilsonlages.com.br/coluna_cont.asp?id=1075


O LEQUE DA BALCONISTA

Rogel Samuel



No início do primeiro capítulo, "Chão em ardores", do livro de Dílson Lages Monteiro vemos dois tipos de deslocamentos: um aparente, outro coreográfico.
O primeiro é topológico - o Rio Marataoã aparentemente se desloca. O segundo é nervoso, feminino e excita o ar com suas coreografias: o leque da balconista.
Ainda que não sabemos o que vai acontecer depois, aí está um "deslocamento". Será que o livro vai contar uma ação transformadora, de mudança social, de ação verbal, de revolução social?
O leque da balconista está inquieto, erótico, sedutor.
A seguir, diz o texto:
"O rio já baixava o curso d’água. Dali nem se necessitava atravessar as figueiras, nem descer rua abaixo até a margem... Dali se via a bola de luzes queimar os olhos e deitar o fogo do céu sob a lâmina d’água. O mesmo fogo que ruborizava os corpos e confundia a visão da manhã".
Descreve o quadro, o fato, mas já com ações de baixar, atravessar, descer, sob o sol abrasador.
Depois continuo.

domingo, 2 de novembro de 2008


Diário do Povo destaca barrenses no Amazonas

Barras

por Manoel Lages (barras@45graus.com.br)


Diário do Povo destaca barrenses no Amazonas

Artigo publicado pelo escritor Dílson Lages Monteiro na edição de hoje, 26, no Diário do Povo, ressalta a participação de barrenses na História do Amazonas, a partir do novo romance de Rogel Samuel, um dos mais destacados críticos literários do Brasil. Fileto Pires Ferreira e Thaumaturgo, segundo o artigo, tiveram enorme participação na vida política daquela região no final do século XIX. Reproduzimos ao deleite dos conterrâneos o artigo, seguido de entrevista concedida por Rogel, do Rio de Janeiro, onde mora, para Dílson Lages, Ei-la:

Piauienses viraram ficção na Amazônia

TEATRO DO AMAZONAS: romance sobre a casa de espetáculos joga luz nas figuras de Fileto Pires Ferreira e Thaumaturgo de Azevedo
(*) Dílson Lages Monteiro
Especial para o Diário do Povo

Um é descrito como "magro, ágil, elétrico, homem de fino trato, olhar inteligente, meio romântico, ousado, impetuoso, um tanto ingênuo, elegante de espírito (...) bem nascido, família abastada, dona do Norte do Piauí, a terra do gado". O outro, como um combativo homem público de ampla atuação, a seu tempo, no Norte do País. Fileto Pires Ferreira e Thaumaturgo de Azevedo, piauienses que governaram o Amazonas, respectivamente, entre 1896-1898 e 1891-1892, são personagens do romance "Teatro do Amazonas", de autoria do amazonense Rogel Samuel.


A obra conta a história de uma das mais opulentas casas de espetáculos do país, o Teatro do Amazonas, inaugurado em 31 de dezembro de 1896 e, dentre outras características, redimensiona o papel de Fileto e Thaumaturgo na história do Amazonas.
O romance põe em relevo a atuação do protagonista da obra, Fileto Pires, na vida política daquele Estado. Para o autor, Pires Ferreira foi um dos grandes governadores do Amazonas, porém, injustiçado.
Para construir o perfil dos personagens, Rogel realizou vasta pesquisa histórica, vasculhando desde os livros clássicos sobre a história amazo-nense aos estudos genealógi-cos. Até mesmo cemitérios o autor visitou durante a pesquisa. Mas foi na Biblioteca Nacional que encontrou preciosidades, desconhecidas dos piauienses e mesmo de historiadores amazonenses, e, baseado nelas, deu fôlego à obra.
O livro permite mergulhar em detalhes da Manaus do final do século XIX e início do século XX. "A vida em Manaus era exuberante, elegante e rica, e bem alegre, já naquela época. Era o início do apogeu de uma sociedade que enriquecia rapidamente, com a extração da borracha."
Ainda retratando Manaus, no capítulo quarto, o Natal de 1900, descreve o autor:


"Poucos anos depois a economia do Amazonas entrou em decadência e ruína. Ma-naus quase foi transformada numa cidade fantasma. O manto negro de uma recessão a cobriu durante cinqüenta anos, povoando suas ruas uma legião de mendigos. O Teatro Amazonas fechou as portas por meio século e durante algum tempo se transformou em depósito de borracha crua. Todos os espelhos de cristal, os quadros, as estátuas, as cortinas de veludo, os lustres, os tapetes de linho, os jarros de porcelana, os móveis de luxo, as mesas e cadeiras móveis foram roubados."
A publicação dos capítulos de Teatro do Amazonas ocorre originalmente nos endereços eletrônicos Blocosonline e, simultaneamente, em Entre-textos e no próprio site do escritor. A cada quinzena, novo capítulo é publicando nesses sites. Atualmente, 11 capítulos estão à disposição do internauta.
Rogel Samuel é poeta, escritor, webjornalista e colunista do Blocos On Line e Entre-textos, além de ser professor aposentado adjunto e doutor do Departamento de Ciência da Literatura na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.
Dentre as suas obras, já publicou: "Crítica da Escrita", em 1979; "Manual de Teoria Literária", já com 14 edições; "Literatura Básica, em 3 volumes, em 1985; "O que é Teolit?", em 1986; "120 Poemas, em 1991"; "Novo manual de Teoria Literária", 4ª. Edição, em 2007 e o romance "O Amante das Amazonas", 2005. O autor assina o blog http://literaturarogelsamuel. blogspot.com/

Romance é publicado na Internet
Como nos folhetins antigos, que tinham seus capítulos publicados nas páginas dos jornais, o autor de "Teatro do Amazonas" usa a rede mundial de computadores e divulga o romance em seu diário virtual.

DIÁRIO DO POVO - Como nasceu, escritor, a idéia de construir este romance?
Rogel - A minha intenção inicial era escrever sobre Eduardo Ribeiro, governador do Amazonas. Cheguei a escrever vários capítulos, que se perderam. Dele pouco se sabe.

DP - O Teatro do Amazonas é o tema de seu romance de mesmo nome. O Teatro foi construído no final do século XIX. Que tempo é esse na narrativa de Teatro do Amazonas?
Rogel - Procuro reconstruir o ambiente da época, ou pelo menos na minha imaginação. É um tempo romanesco.

DP - O romance histórico é resultado não apenas do talento do escritor em escrever ficção, mas também de pesquisa. Quais as fontes de pesquisa em que o senhor mergulhou e que foram decisivas na construção de espaços, personagens e da própria trama?
Rogel - Foram decisivas algumas fontes, como os livros de Fileto Pires Ferreira, Thaumaturgo de Azevedo e Eduardo Ribeiro, que quase ninguém leu. Além de Mário Ypiranga e Genesino Braga.

DP - Um dos protagonistas do romance é Fileto Pires Ferreira, piauiense, que governou o Amazonas. Em linhas gerais, como é o Fileto personagem? Por que ele figura como um dos protagonistas?
Rogel - Fiquei impressionado com o livro de Fileto "A verdade sobre o caso do Amazonas", muito bem escrito. Descobri que, apesar de só governar 19 meses, foi o grande governador de sua época e de todos os tempos no Amazonas. Descobri também que ele é esquecido e injustiçado.

DP - Por que Fileto Pires Ferreira seria um injustiçado na história do Amazonas?
Rogel - Sim, um injustiçado. Era honesto, empreendedor e romântico. Aliás, ainda estávamos no Romantismo, no Amazonas. Fileto amava tanto o Amazonas que seus três filhos tiveram nome de índio.

DP - Pesquisando para construir o romance, o senhor descobriu bastante sobre Fileto e também sobre o piauiense Taumaturgo de Azevedo, outro personagem que integra o enredo. Que informações descobertas sobre essas figuras foram motivo de encantamento?
Rogel - Thaumaturgo foi um herói nacional, mas reconhecido ainda hoje. Governou o Piauí e o Amazonas. Não foi esquecido, como Fileto. Entretanto, não há uma rua ou escola em Manaus com o nome deles. E pouca gente sabe que foi Thaumaturgo quem traçou o plano da cidade de Manaus.

DP - No século XIX, os romances históricos eram declaradamente nacionalistas. Já no século XX, passaram a agregar elementos psicológicos e a voltar-se para as mentalidades em relação ao passado. Qual precisamente o viés de o "Teatro do Amazonas"? A missão dele é reinterpretar o passado?
Rogel - Não sei, ao sabor da pena, não tenho distan-ciamento estético para saber. Só sei é que é algo que estava há muito dentro de mim, e que há muitos anos precisava sair de mim. O viés é pessoal. É um ajuste de contas comigo mesmo, está nas minhas entranhas, no meu sangue.

DP - A publicação dos capítulos ocorre gradativamente em Blocos online, em seu site e no site Entre-textos. O que muda na recepção da obra, em sua análise, quando ela é publicada dessa forma e na internet?
Rogel - Acredito na Internet, creio que por aí se vai encontrar o futuro. O atual governo pretende instalar dezenas de milhões de computadores nas escolas de primeiro e segundo grau, com Internet banda larga. Se não me engano serão 37 milhões. Você pode imaginar o que isso vai significar em número de leitores novos, de futuros leitores. Em breve, cada romance como o meu, publicado na Internet, terá não mais milhares de leitores, mas alguns milhões.

(*) Dílson Lages Monteiro é escritor

O LEQUE DA BALCONISTA

O leque da balconista

Rogel Samuel


No início do primeiro capítulo, "Chão em ardores", do livro de Dílson Lages Monteiro vemos dois tipos de deslocamentos: um aparente, outro coreográfico.

O primeiro é topológico - o Rio Marataoã aparentemente se desloca. O segundo é nervoso, feminino e excita o ar com suas coreografias: o leque da balconista.

Ainda que não sabemos o que vai acontecer depois, aí está um "deslocamento". Será
que o livro vai contar uma ação transformadora, de mudança social, de ação verbal,
de revolução social?

O leque da balconista está inquieto, erótico, sedutor.

A seguir, diz o texto:

"O rio já baixava o curso d’água. Dali nem se necessitava atravessar as figueiras, nem descer rua abaixo até a margem... Dali se via a bola de luzes queimar os olhos e deitar o fogo do céu sob a lâmina d’água. O mesmo fogo que ruborizava os corpos e confundia a visão da manhã".

Descreve o quadro, o fato, mas já com ações de baixar, atravessar, descer, sob o sol abrasador.

Depois continuo.

O MORRO DA CASA GRANDE

LEIA O PRIMEIRO CAPÍTULO DO ROMANCE ON-LINE DE

DILSON LAGES MONTEIRO

"O MORRO DA CASA GRANDE"


1. CHÃO EM ARDORES



- Aqui o Marataoã parece que saiu do lugar – repetia a balconista, com o leque em mãos. O leque dançando, dançando ao som seco e abafado do vento. O leque atritando o ar em coreografias." Continue lendo o primeiro capítulo de O morro da casa grande. Acesse aqui:http://www.dilsonlages.com.br/coluna_cont.asp?id=1075

sábado, 1 de novembro de 2008

O MUNDO DOS SONHOS


O mundo dos sonhos

Rogel Samuel


Certa vez traduzi do francês um poema de Vladimir Soloviev (Moscou, 1853-1900) e um leitor do meu blog fez um comentário interessante:

POEMA

VLADIMIR SOLOVIEV
(Moscou, 1853-1900)

Amada criança não vê você
Tudo que percebemos
Reflexo é, uma sombra
Do invisível para nós?
Criança amada não compreende
Que da vida cotidiana o fracasso
É eco deformado
Das triunfantes harmonias?
Amada criança você não sente
Que o que importa nesta Terra
É o que um coração diz a outro coração
Na mensagem silenciosa?
(Trad. Rogel Samuel)

"De Sousa disse...
Creio que o poema é muitíssimo bom.
Mas a tradução não consegue dar uma pálida imagem da sonoridade e do ritmo que seria necessário tentar transpor para a língua portuguesa. Mesmo assim, bem haja pela tentativa e pelo resultado!
Avelino de Sousa"

Eu agradeço ao leitor, que sei ser um especialista em literatura russa.
A primeira estrofe me lembra algo que li em Nietzsche.
Nietzsche parte do sonho como fenômeno psicológico para estabelecer os fundamentos de sua estética. A arte do poeta é dizer a arte do sonho.
A beleza do mundo dos sonhos é para nós a condição prévia de todas as artes plásticas e também uma parte essencial da poesia.
Entretanto, o sonho nos deixa a impressão de não ser mais do que uma aparência. Todo homem dotado de espírito filosófico pressente que, por trás da realidade que se descortina aos sentidos, se encontra uma “outra” muito diferente, sendo que a primeira não passa de uma aparição da segunda.
O filósofo percebe a realidade como um puro fantasma, como uma imagem de sonho.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A praia de Dover


Rogel Samuel

Matthew Arnold escreve um dos mais belos textos poéticos de todos os tempos e cantos em todas as línguas. O original diz:

Dover Beach

by Matthew Arnold

The sea is calm to-night.
The tide is full, the moon lies fair
Upon the straits; -on the French coast the light
Gleams and is gone; the cliffs of England stand,
Glimmering and vast, out in the tranquil bay.
Come to the window, sweet is the night air!
Only, from the long line of spray
Where the sea meets the moon-blanch'd land,
Listen! you hear the grating roar
Of pebbles which the waves draw back, and fling,
At their return, up the high strand,
Begin, and cease, and then again begin,
With tremulous cadence slow, and bring
The eternal note of sadness in.
Sophocles long ago
Heard it on the Aegean, and it brought
Into his mind the turbid ebb and flow
Of human misery; we
Find also in the sound a thought,
Hearing it by this distant northern sea.

The Sea of Faith
Was once, too, at the full, and round earth's shore
Lay like the folds of a bright girdle furl'd.
But now I only hear
Its melancholy, long, withdrawing roar,
Retreating, to the breath
Of the night-wind, down the vast edges drear
And naked shingles of the world.

Ah, love, let us be true
To one another! for the world, which seems
To lie before us like a land of dreams,
So various, so beautiful, so new,
Hath really neither joy, nor love, nor light,

Nor certitude, nor peace, nor help for pain;
And we are here as on a darkling plain
Swept with confused alarms of struggle and flight,
Where ignorant armies clash by night.

[1867]

Eu conheço a tradução da segunda estrofe copiada de um livro velho.

O Mar da Fé
Também existiu, no passado, cheio, e em volta da praia do mundo
Estendia-se como as dobras de uma faixa desdobrada.
Agora, porém, somente lhe escuto
O bramido melancólico, longo, fugidio,
Que se aparta para as lufadas
Do vento noturno, escorrendo por vastas e horrendas costas
E pelos areais desnudos do mundo.”
....................................................
Ah!, amor, sejamos fiéis
Um ao outro.
Pois o mundo, que parece
Estender-se à nossa frente como uma terra de sonhos,
Tão diversas, tão formosas, tão novas,
Na verdade não tem nem alegria, nem amor, nem luz,
Nem certeza, nem paz, nem lenitivo para a dor;
E estamos aqui como numa planície penumbrosa,
Varrida de confusos alarmas de combate e de fuga,
Na qual exércitos ignorantes à noite travam batalha.”


Não me lembro quem traduziu. Mas valeu. A tradução é livre. Acrescenta elementos que não estão no texto. Mas é rica e bela. E sobre ela iremos nos deleitar novamente.

balada para todo amor

balada para todo amor


rogel samuel


todo amor é assim, plágio
cópia de cópia de si, no mesmo
sim na sua visibilidade
no seu sexo. Porque todo amor
é aquela alegre repetição
doença de sonho e de tensão
acontecimento que tanto faz
se desfaz. De que não posso
dizer o que quero, ou o que vale
nem mesmo vale a pena
[O amor, seu troco.]
O caro, o espaço, o caroço
o que sobra o que falta e o falho.
Todo amor falece. Não cresce.
Não é o que se espera.
Dele nada sobra. Além do gozo.
Da calma, da cama, do colo
da palavra: só as notas altas
o cantam. As baladas mais.
A exultação mais plena.
Pois todo amor é outra vez
o mesmo amor. É sempre. É pouco.
E só se estabelece quando
impossivelmente fala a falta
do tolo amor, que já é lembrança
excessiva. Que todo amor costura
um tédio. E tem a surpresa da morte.
Somos suas presas em suas levezas.
Corre o fundo tempo por seus lodos
mostra a sua sede à noite morta.
Quem me crê sabe o que digo:
o amor já vem perdido, pois perder-se
é o destino amante. Dele vem logo
o mote o trote o corte a espada
que o amor tem em seus dentes
pois sua loucura é o nada.
[Em 14 de maio de 2.000]