sábado, 20 de novembro de 2010

Machado de Assis traduz em conto o terror da escravidão


Vermelho
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20/11/2010

Machado de Assis traduz em conto o terror da escravidão


No dia da Consciência Negra, o Vermelho publica Pai contra mãe, um conto do nosso maior escritor sobre esta que foi uma chaga dilacerante da sociedade brasileira durante quase quatro séculos – a escravidão –, cujas sequelas se fazem sentir até os nossos dias, tanto na dura realidade em que vivem os descendentes dos escravos, como na psicologia social.
Machado de Assis é autor de uma obra comparável à dos grandes nomes da literatura universal. Com o inconfundível realismo característico da sua obra, Machado não expõe apenas a grande mazela, mas a particulariza, ao desvendar a pequenez da alma humana, consumida nas misérias do cotidiano e na luta mesquinha e egoísta pela sobrevivência. O texto segue abaixo.

Sobre a importância do escritor, oferecemos ao leitor um artigo de Aluízio Alves Filho, extraído da revista Achegas, em que ele conta um pitoresco episódio que ligaria a figura e a obra de Machado de Assis ao fundador do Partido Comunista, Astrogildo Pereira. Leia aqui.



Pai Contra Mãe

Por Machado de Assis

A Escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-deflandres.

A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.

O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.

Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.

Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: "gratificar-se-á generosamente", - ou "receberá uma boa gratificação". Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.

Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.

Cândido Neves, - em família, Candinho,- é a pessoa a quem se liga a história de uma fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao

Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos.

Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições. Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito.

Contava trinta anos. Clara vinte e dous. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes, olhavam muito para ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O que ela notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir a outras.

O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile; tal foi - para lembrar o primeiro ofício do namorado, - tal foi a página inicial daquele livro, que tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e foi a mais bela festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas.

-Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto. --Não, defunto não; mas é que...

Não diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só, embora viesse agravar a necessidade.

-Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha.


-Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara. Tia Mônica devia ter-lhes feito a advertência, ou ameaça, quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi.

A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço.

Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma cousa e outra; não tinha emprego certo.

Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia. porém, deu sinal de si a criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos seus sustos.

-Deus nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe.

A notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era escassa, os intervalos longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade.

-Vocês verão a triste vida, suspirava ela. -Mas as outras crianças não nascem também? perguntou Clara. -Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que pouco... -Certa como? -Certa, um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é que o pai dessa infeliz criatura que aí vem gasta o tempo?

Cândido Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de comer. -A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau... -Bem sei, mas somos três. - Seremos quatro. -Não é a mesma cousa. - Que quer então que eu faça, além do que faço? - Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu é vaga. Você passa semanas sem vintém. - Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase nenhum resiste, muitos entregam-se logo.

Tinha glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e fazia rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado.

Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido, gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a agilidade também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de cousas remotas, via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás do vicioso.
Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranhão.

Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais, copiou anúncios e deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir, sem aqueles pagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelo aluguéis.

Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava à tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de algum fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os parentes do homem.

-É o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir narrar o equívoco e suas conseqüências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego.

Cândido quisera efetivamente fazer outra cousa, não pela razão do conselho, mas por simples gosto de trocar de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa.

A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer. Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos. Não podiam ser mais amargos.

-Não, tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!

Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dous jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la, guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio. - Titia não fala por mal, Candinho. -Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem, seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguém, ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua. Enfim...

Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor,- crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em voz baixa. A ternura dos dous foi interrompida por alguém que batia à porta da rua.

-Quem é? perguntou o marido. -Sou eu.

Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o inquilino. Este quis que ele entrasse.

-Não é preciso... -Faça favor.

O credor entrou e recusou sentar-se, deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era proprietário; mas a palavra supria o que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.

-Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo.

Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava com algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não alcançando mais que a ordem de mudança.

A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve arte de alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio.

Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Cândido Neves, no desespero da crise começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio e iriam dormir melhor do que cuidassem.

Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dous dias depois nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu em dar a criança à Roda. "Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua dos Barbonos." Cândido Neves pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a levaria. Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite seguinte.

Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos . As gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata.

Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai, não obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o que tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a criação do menino; seria maior a miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à mulher que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direção da Rua dos Barbonos.

Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é que o agasalhava muito, que o beijava, que cobria o rosto para preservá-lo do sereno. Ao entrar na Rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo. --Hei de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele. Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta.

-Mas...

Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona. --Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio.

Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era

já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.


--Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço! - Siga! repetiu Cândido Neves. -Me solte! -Não quero demoras; siga!

Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia. Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoutes,--cousa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoutes.

-Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves.

Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele. Também é certo que não costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.

-Aqui está a fujona, disse Cândido Neves. - É ela mesma. -Meu senhor! -Anda, entra...

Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinqüenta mil-réis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.

O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as conseqüências do desastre.

Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor. Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.

-Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Discurso do Presidente Juscelino Kubitschek ao inaugurar o Palácio da Alvorada, em 30 de junho de 1958.






04 de Junho de 2009


“Entre os conselhos que me deu o venerando e antigo Arcebispo de Diamantina, Dom Serafim Gomes Jardim, no começo da jornada política que me conduziu à chefia do Governo, figurava o de cultivar a virtude da paciência. Vendo-me preparado para enfrentar tempestades, lutas e maldades em viagem tão perigosa, pediu-me o Santo Homem que me munisse de prudência e paciência, elementos indispensáveis e preciosos nessa longa caminhada. Posso, examinando-me detidamente, concluir que não dispensei o conselho amigo e que, se pude realizar alguma coisa de positivo do meu ambicioso programa, sem dúvida o devo a ter medido as minhas forças antes de cada passo, e ter exercido, até ao grau da mortificação, a paciência.

Brasília é um dos frutos da paciência que Deus me deu. Tenho-a mantido ao ouvir críticas e comentários os mais injustos e, mais do que injustos, repassados de incompreensão, esta acirrada inimiga da paciência. A injustiça tem sua origem quase sempre na paixão cega. A incompreensão, entretanto, porque uma forma de injustiça total, é o que mais fortemente acicata a paciência. É a incompreensão o mais escarpado de todos os óbices que devemos galgar, ainda que com as maiores dificuldades, para avançar e prosseguir na rota em que nos empenhamos.

A iniciativa de Brasília tem sido posta em dúvida por alguns setores da opinião pública. Sobre a operação da mudança de nossa Capital se fizeram ouvir, até agora, palavras vãs, erros de apreciação e, principalmente demonstrações que revelam desconhecimento da magnitude do efeito. Mas é preciso frisar que a idéia de Brasília já se enraizou no espírito dos homens de boa vontade, dos que não tem outro interesse e outro alvo senão o de querer arrancar da improdutividade uma imensa extensão territorial brasileira. Minha paciência em não discutir o que sei fruto da falta de visão, em suportar observações improcedentes, não me arrefeceu o ânimo e a resolução de levar avante a empresa que talvez pareça arrojada, mas que é medida inadiável e urgente para a transformação deste país.

Não podemos continuar indefinidamente a ser um território manchado de desertos, com uma população na sua maior parte colada ao litoral, com as mais ricas zonas do nosso território abandonadas e que servem apenas para referências literárias.

O nosso destino de ser grande nação é tão imperioso e forte, que é temeridade contrariá-lo, sufocá-lo. Nascemos com proporções continentais; nossa visão humana não pode ser menos ampla que a nossa realidade geográfica. Não teríamos proposto que se iniciasse um combate tenaz ao subdesenvolvimento em todo este hemisfério, sem que em nosso próprio território tivéssemos dado o exemplo dessa decisão. Esse combate, essa bandeira que acenamos aos países irmãos do Continente, a fim de que se revigore a unidade da América e não se perca o elevado ideal do pan-americanismo, está a exigir de todos os brasileiros decisão e firmeza.

Aproveito esta hora, de importância decisiva para o nosso destino de grande nação, em que lutamos e empreendemos urgentes esforços para assegurar ao Brasil a posição a que tem direito, e diante da responsabilidade que assumimos no campo internacional, desejosos de promover a harmonia e o fortalecimento de todo o Continente, aproveito esta hora para fazer um apelo a todos os brasileiros. O meu apelo é no sentido da paz e da união, não em torno de meu governo e da minha pessoa, que somos passageiros, mas em torno do Brasil, que desejamos eterno, do ideal que nos inspira, para que a nossa voz se faça ouvir forte e clara, acima dos ressentimentos e das dissenções momentâneas.

Mas a luta pelo desenvolvimento deve começar em nosso próprio país. E Brasília é um dos pontos básicos dessa luta de integrar o Brasil no seu território, de fortalecer a nação. Brasília não resulta apenas da obrigação de obedecer a um preceito constitucional: é um marco, é a bandeira de luta contra o subdesenvolvimento. E é mais que isso: é a conquista do que tem sido nosso apenas no mapa.

Não quero perder-me em palavras, nem com elas elevar torres de sonhos. A verdade e a justiça reclamam que o povo brasileiro seja informado e se dê conta de que estamos empreendendo a suspirada marcha para o Oeste, tão decantada e tão prometida, por anos e anos, à nossa gente.

Longe dos olhos citadinos, por entre dificuldades e tropeços de toda a sorte, vamos caminhando na conquista do Brasil. Enquanto nos distraímos e reclamamos nas cidades cheias de luz; enquanto nos empenhamos em debates políticos e outros, há um exército de vinte mil trabalhadores praticando feitos memoráveis no coração de nosso país, entre os quais a construção da estrada que em breve ligará diretamente a nova Capital da República à Região amazônica. É a Brasília-Belém, de dois mil e duzentos quilômetros, dos quais, já estão prontos 1.050. Trata-se, sem hipérbole, do desbravamento da grande selva. Quinhentos e cinqüenta quilômetros se abrem no meio de uma floresta densa, em que as árvores se perdem em alturas que custamos a crer, atingindo algumas até 70 metros. É um pedaço do Brasil que jamais, até hoje, nenhum homem da civilização trilhara. Reino de bichos selvagens, onde apenas alguns índios logram suportar o ambiente hostil.

Vinte mil seres, nossos irmãos, estabelecem a ligação entre a cidade que acaba de nascer e essa Amazônia que deixará de ser a misteriosa terra que Euclides da Cunha descreveu como mal despertando de um sono cósmico. Para se ter uma noção mais completa ainda de que tudo está por fazer nesse mundo de Deus, basta lembrar, aqui, que só agora um rio da importância do Tocantins vai ser atravessado por uma ponte de mil e duzentos metros.

Mas não é apenas essa obra ciclópica que está sendo tocada com rapidez inusitada. O plano de comunicações envolvendo Brasília e toda a região vai sendo executado com a perfeição e urgência possíveis. A rodovia Anápolis-Brasília acha-se concluída, com 130 quilometros asfaltados, estabelecendo assim a ligação indispensável da nova cidade com a Estrada de Ferro de Goiás. Já vai sendo também levada adiante a ligação São Paulo-Brasília. Até aqui só se faziam estradas de primeira qualidade para unir cidades importantes a sítios amenos, de prazer e veraneio. O Brasil oculto, pelo abandono e pelo esquecimento, não merecia grandes atenções. Em 1960 espero em Deus, com o esforço de nossos engenheiros e trabalhadores, que não só esta estrada, mas as outras projetadas também, como Rio-Belo Horizonte-Brasília, sejam entregues ao tráfego.

Vai fazer um ano e meio que desci aqui num campo de pouso provisório. Nada havia ainda. A mão do homem não erguera construção, nem cultivara terra. Era o campo bruto, a solidão, os horizontes rasgados do oeste. Aos pioneiros que deviam iniciar a ofensiva conquistadora cedeu o Exército barracas de campanha. Mas na primeira noite não foi possível a ninguém dormir. Uma onça rondava os pousos dos novos bandeirantes. Já vamos longe desse primeiro encontro que pertence ao dia de ontem, ainda quente, mas que em breve será uma hora na história de nossa civilização. Parece distante, pelo progresso que conquistamos, aquela primeira missa que aqui rezou Sua Eminência o Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, num altar armado no tempo, e cujas sábias e inspiradas palavras guardamos carinhosamente nas páginas iniciais da crônica de Brasília, que o futuro escreverá. O primeiro templo, dedicado à Senhora de Fátima, eleva-se na sua singeleza. O primeiro hotel, correto e moderno, se abre para atender aos que incessantemente procuram Brasília. O palácio do governo está concluído.

Experimento, meus senhores, uma sensação que se assemelha à da tranqüilidade. Vejo que o sonho adquire bases firmes de realidade; que tudo começa a concretizar-se.

Sei que não são pequenos os investimentos, mas sei também que são os mais mutáveis e certos que este país já fez até aqui em favor da unidade nacional e que libertarão o Brasil de muitas limitações. O país, forte e rico de amanhã, pagará facilmente o empréstimo que o país necessitado de hoje lhe faz. Chegou o momento de realizar-se a operação em benefício da saúde do Brasil.

As pequenas soluções não passam de paliativos que permitem apenas enfrentar as dificuldades de todo o dia. A mudança a que estamos procedendo, e que já procedemos, corresponde, pelos seus efeitos, a uma mudança do Brasil. É singular que se inquira de inoportuna e rentabilíssima operação que nos dará posse de nós mesmos, que nos trará possibilidades reais e a curto prazo, se medirmos os dias ao ritmo próprio das nações.

Alega-se que a geração atual está sendo sacrificada por uma idéia que só trará beneficio às gerações futuras. E se assim fosse? Haverá alguma coisa que mais eleve e justifique a vida humana do que essa oferenda de nós mesmos aos que nos sucederão no tempo? Condenar Brasília, porque não é para os nossos dias, e porque é um problema adiável, é atentar contra a verdade três vezes. O primeiro atentado vai contra a cidade mesma que já começa a erguer-se. Veremos, dentro em breve, em pleno funcionamento, a nova Capital dos Estados Unidos do Brasil. Ei-la jovem, mas presente. Outro atentado é alegar que poderíamos adiar a mudança, o que equivale, em termos exatos, a adiar a recuperação do Oeste brasileiro.

Digo e repito, e em dias futuros estas palavras serão mais bem compreendidas do que hoje – Brasília era inadiável. Mas apenas para argumentar – mesmo que não pudessem os homens de hoje ver viva a nova cidade, condená-la por esta razão – eis o terceiro atentado – seria condenar que se lançasse à terra a semente de uma árvore que fosse frutificar quando a mão do semeador se tivesse transformado em cinza. Ainda que esta árvore, que já surge aos nossos olhos com ramos promissores, levasse um século para crescer, não nos teríamos precipitado em plantá-la. Compreendo que alguns duvidem deste empreendimento. É que a razão de se estar mudando a capital para o centro do país é uma razão de fé, de confiança no Brasil. Quem tem confiança no Brasil crê em Brasília.

Tenho fé neste país. A fé que o Brasil me inspira é que me faz enfrentar lutas e cansaços e multiplicar a minha resistência. Não desconheço que as dificuldades que nos cercam são ponderáveis. Quem as conhece melhor do que eu? Mas como tenho fé, e estou apoiado em homens de fé, aí está a nova capital. Aí está Brasília que é, não o fim ou o objetivo de nossas lutas, mas o marco inicial desta dura e difícil jornada em demanda do grande Brasil.”

Discurso do Presidente Juscelino Kubitschek ao inaugurar o Palácio da Alvorada, em 30 de junho de 1958.


Rogel Samuel: AS ÁGUAS NEGRAS DA MORTE


AS ÁGUAS NEGRAS DA MORTE

Rogel Samuel


Era noite de natal.

No natal, a Edilene tomou o barco no Paraná da Eva, em Itacoatiara, a 270 km de Manaus, com seus dois filhos, Heloisa de 4 anos e Kelvin, de sete.

Era noite escura de natal, naquele último natal.

No meio da viagem, durante a travessia do rio, o barqueiro, um jovem de 16 anos, resolve matar Edilene, jogando-a na água, para apropriar-se de sua bolsa, onde havia R$ 90,00.

Empurrou-a na água.

Na luta que se seguiu, a bolsa também caiu. Perdeu-se. O barqueiro volta para Itacoatiara.

Como as crianças gritam e choram, ele as jogou no rio.

«Eu os joguei no rio porque eles estavam gritando muito chamando pela mãe e isso me deixou irritado».

Entretanto, Edilene, a mãe, conseguiu salvar-se a nado.

Deu com um banco de areia, e foi achada naquela mesma noite por outros dois meninos que brincavam.

Eram outros dois meninos, mas não eram os seus.

Os seus desapareceram.

Era noite de natal.

Sim, era.

(A notícia estava nos jornais de Manaus).

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Colônia, Monarquia, República: pactos de elite na história brasileira


Blog do Emir Sader| Copyleft Blog do Emir Sader, sociólogo e cientista, mestre em filosofia política e doutor em ciência política pela USP - Universidade de São Paulo.

Colônia, Monarquia, República: pactos de elite na história brasileira


EMIR SADER

Tivemos a proclamação da República mais de seis décadas depois da independência, porque esta nos levou de Colônia à Monarquia pelas mãos do monarca português, que ainda nos ofendeu, com as palavras – que repetíamos burocraticamente na escola- “antes que algum aventureiro o faça”. Aventureiros éramos nós, algum outro Tiradentes, ou algum Bolívar, Artigas, Sucre, San Martin O´Higgins, que lideraram revoluções de independência nos seus países, expulsando os colonizadores em processos articulados dos países da região.

Foi o primeiro pacto de elite da nossa história, em que as elites mudam a forma da dominação, para imprimir continuidade a ela, sob outra forma política. Neste caso, impôs-se a monarquia. Tivemos dois monarcas descendentes da família imperial portuguesa, ao invés da República, construindo estados nacionais independentes, expulsando os colonizadores ao invés do “jeitinho” da conciliação.

Como sempre acontece com os pactos de elite, o povo é quem paga o seu preço. Enquanto nos outros países do continente, as guerras de independência terminaram imediatamente com a escravidão, esta se prolongou no Brasil, fazendo com que fossemos o último país a terminar com ela, prolongando-a por várias décadas mais. Nesse intervalo de tempo foi proclamada a Lei de Terras, de 1850, que legalizou – mediante a grilagem, aquela falcatrua em que o documento forjado é deixado na gaveta e o cocô do grilo faz parecer um documento antigo – todas as terras nas mãos dos latifundiários. Assim, quando finalmente terminou a escravidão, não havia terras para os escravos, que se tornaram livres, mas pobres, submetidos à exploração dos donos fajutos das terras.

Dessa forma, a questão colonial se articulou com a questão racial e com a questão agrária. Esse pacto de elite responde pelo prolongado poder do latifúndio e pela discriminação contra a primeira geração de trabalhadores no Brasil, os negros que, trazidos à força da África vieram para produzir riquezas para a nobreza européia como classe inferior. Desqualificava-se ao mesmo tempo o negro e o trabalho.

A República foi proclamada como um golpe militar, que a população assistiu “bestializada”, segundo um cronista da época, sem entender do que se tratava – o segundo grande pacto de elite, que marginalizou o povo das grandes transformações históricas.

Midiendo el deshielo




Midiendo el deshielo

Con el calentamiento global golpeando duramente a la meseta tibetana, los científicos se reúnen para planificar una campaña de investigación internacional para comprender y mitigar los cambios en el ‘tercer polo’.

Jane Qiu
NATURE NEWS
10 de noviembre 2010

Frío, remoto y amenazado por el calentamiento global: la descripción se aplica no sólo a los
Polos Norte y Sur, sino también a una región de más de cinco millones de kilómetros cuadrados,
centrada en la meseta del Tíbet y el Himalaya, que los investigadores llaman el tercer polo (véase Nature 454, 393-396, 2008). Después del ártico y de la antártida, la región cuenta con
el depósito más grande de hielo de la tierra, con más de 46,000 glaciares y vastas extensiones de permahielo. Sin embargo, está mucho menos estudiado que sus contrapartes de altas latitudes, a pesar de que muchas más vidas dependen de él.

El tercer polo es también conocido como la torre de agua de Asia, debido a que sus glaciares alimentan a los ríos más grandes del continente, que sustentan a 1.5 billones de personas en diez países. Los glaciares se están derritiendo rápidamente, llenando lagos que pueden desbordarse e inundar valles. Sin embargo, poco se sabe sobre cómo el cambio climático se está desarrollando allí. Para intentar corregir esta situación, el Medio Ambiente para el Tercer Polo (TPE por sus siglas en inglés), un programa internacional dirigido por la Academia China del Instituto de Ciencias de Investigación de la Meseta Tibetana (ITP por sus siglas en inglés) en Beijing, celebró su segundo seminario el mes pasado en Katmandú. Los investigadores de la región hacían planes para llenar el vacío en el conocimiento, y discutieron los hallazgos que se suman a la urgencia.

"Todo el mundo está haciendo un trabajo importante en toda la región, pero no está claro cómo estos encajan juntos", dice Yao Tandong, director del ITP y presidente del comité de ciencia del TPE, que ayudó a organizar el taller. "La única manera de avanzar es que la comunidad internacional trabaje unida, para evaluar los riesgos asociados con el cambio climático".

Mientras que la población de la región se desarrolla, la principal prioridad de los investigadores es entender la situación y el destino de los glaciares que son una fuente vital de agua potable. El año pasado, una afirmación en el informe del 2007 del Panel Intergubernamental sobre el Cambio Climático (IPCC por sus siglas en inglés), que indica que los glaciares del Himalaya podrían desaparecer para el año 2035 resultó ser un error (véase Nature 463, 276-277, 2010). Pero los participantes en el taller argumentaron que la preocupación más amplia del IPCC por la rápida pérdida de hielo glaciar del Himalaya era correcta. "No hay duda de que muchos de los glaciares en la región están retrocediendo rápidamente", dice Baldev Raj Arora, ex director del Instituto Wadia de Geología del Himalaya en Dehradun, India.

Pero no está claro exactamente qué tan rápido, o cómo esto afectará a los recursos hídricos, porque no hay un inventario de los glaciares para toda la región. Por sí solos, los estudios de satélite ofrecen sólo una estimación aproximada de la superficie glaciar, y la lejanía, la altitud y las condiciones del severo clima dificultan la medición de la tierra.

La evidencia disponible es reveladora. Usando una combinación de mediciones por satélite y terrestres, el equipo liderado por Liu Shiyin, glaciólogo de la Academia China de Ciencias Ambientales de regiones frías y áridas, y el Instituto de Investigación de Ingeniería de
Lanzhou, acaban de terminar el segundo inventario nacional de glaciares de China, documentando unos 24,300 glaciares y registrando características, tales como su ubicación, longitud y área de superficie. Esto muestra que la superficie total de los glaciares se ha reducido en un 17% y que muchos han desaparecido desde que se inició el último inventario, hace aproximadamente 30 años.

Para hacer una mejor estimación de estos cambios, los investigadores también han medido el volumen de hielo y el balance de masa, de los glaciares representativos de diversas partes de los Himalayas. Estos arduos estudios, realizados a menudo en altitudes superiores a los 5,000 metros; muestran que "el impacto del cambio climático en algunos glaciares del Himalaya, es mucho peor de lo que se pensaba", dice Tian Lide, glaciólogo del ITP. El expansivo glaciar Kangwure en la vertiente norte de Monte Xixiabangma en el sur del Tíbet, por ejemplo, ha perdido casi la mitad de su hielo desde la década de 1970, y su espesor medio se ha reducido en 7.5 metros.

La mayoría de los glaciares en el Himalaya de la India, que han sido estudiados en detalle también están perdiendo masa, dice Arora. En todo el tercer polo "existen anomalías regionales, pero el equilibrio de la evidencia sin duda apunta hacia una tendencia de retiro rápido", con lo cual está de acuerdo Lonnie Thompson, un glaciólogo en la Universidad Estatal de Ohio en Columbus y co-presidente del Comité de Ciencia del TPE.

Peaje de carbono

Una de las causas de la retirada, es la cantidad creciente de hollín ‘humo negro’ generada por los combustibles fósiles y la quema de biomasa. Xu Baiqing, un científico del medio ambiente del ITP, que midió 50 años en los niveles de humo negro en los núcleos de hielo de cinco glaciares en diversas partes del el Himalaya, y encontró que el aumento de las emisiones desde la década de 1990, coincide con el rápido crecimiento industrial en la región. Angela Marinoni, una científica del clima del Instituto de Ciencias de la Atmósfera y el Clima en Bolonia, Italia, y sus colegas encontraron altas concentraciones de aerosoles, así como de humo negro, por encima de los 5,000 metros en el Himalaya de Nepal, lo que causó un calentamiento atmosférico significativo. Ellos calculan que la deposición de humo negro puede aumentar la fusión de la nieve y el hielo de un típico glaciar del Himalaya del 12 al 34%, reduciendo su capacidad para reflejar la luz.

Como consecuencia, los lagos glaciales son cada vez más grandes y más numerosos, causando más inundaciones. Un estudio dirigido por Yongwei Sheng, un ecologista de la Universidad de California en Los Ángeles, muestra que la zona de tales lagos en la meseta se ha incrementado en un 26% desde la década de 1970, con un efecto devastador para los pastizales circundantes. La explosión de lagos glaciales ha causado más de 40 inundaciones en el Himalaya desde la década de 1950, y habrá probablemente más en las próximas décadas, dice Pradeep Mool, un especialista en teledetección en la Conferencia Internacional Centro para el Desarrollo Integrado de las Montañas (ICIMOD por sus siglas en inglés) en Katmandú. Una encuesta del ICIMOD lista más de 20,200 lagos de origen glaciar en la región; doscientos son "potencialmente peligrosos" y necesitan de una estrecha vigilancia y un sistema de alerta temprana, dice Mool.

Hasta ahora, los científicos que tratan de predecir el futuro de los glaciares han tenido poco que hacer. Por una razón, dice Thompson, "los glaciares responden al cambio climático de manera diferente dependiendo de su tamaño, distribución de altitud, superficie cubierta de escombros y las características del valle". Y poco se sabe acerca de cómo está cambiando el clima en todo el tercer polo.

Yang Kun, un científico del clima en el ITP, encontró que muchas mediciones vía satélite
del balance de radiación de la Tierra - el equilibrio de la radiación solar entrante y el calor saliente –no funcionaba bien en las altas elevaciones del tercer polo, porque los instrumentos son típicamente calibrados y verificados con los datos de las tierras bajas. Estos pueden ser corregidos mediante medidas de campo, pero en toda la región, únicamente existen 16 estaciones meteorológicas por encima de los 5,000 metros.

Los investigadores tampoco pueden confiar en los modelos del clima. Utilizando los datos del tiempo de la única estación a 8,000 metros ubicada en el paso del Collado Sur, entre el monte Everest y Lhotse; Kenichi Ueno, un científico del clima en la Universidad de Tsukuba, Japón, mostró que los modelos climáticos mundiales no predicen bien el flujo de humedad y la radiación, a gran altura, especialmente cuando hace calor o durante la temporada del monzón. "Si usted quiere saber cómo afecta el clima los glaciares, tales detalles son cruciales" dice él. "Es muy importante contar con observaciones de más elevadas altitudes en toda la región."

Un esfuerzo conjunto

El comité de ciencia del TPE pronto redactará un borrador de un programa de investigación para documentar los efectos del cambio climático en los glaciares, el permafrost, los recursos hídricos, la biodiversidad y la población. El plan, que debe concluirse en el otoño de 2011, convocará expediciones conjuntas al Himalaya y a la meseta tibetana, y para tener estaciones de investigación multidisciplinarias a través de la región, para cubrir las principales zonas geológicas y los regímenes climáticos, así como los ríos importantes y las cuencas lacustres. Una vez que los costos se hayan definido, el comité buscará el apoyo de agencias financieras nacionales e internacionales.

La parte más importante del plan es contar con un depósito común de datos, dice Volker Mosbrugger, director de Mundo Senckenberg de la Biodiversidad, una coalición de institutos de investigación y museos de Frankfurt, Alemania, y el otro co-presidente del comité de ciencia de la TPE. Pero las rivalidades nacionales pueden interponerse en el camino, especialmente cuando los datos compartidos se refieren a recursos de agua. "Si es posible contar con una base de datos central y en ejecución, determinará si el programa puede ir más allá de su retórica", dice Gregorio Greenwood, director de la Iniciativa de Investigación de la Montaña de la Universidad de Berna. "Este será un gran desafío."


El comité elaborará una política que se negociará entre los países interesados en el programa, permitiendo a los científicos compartir información, pero dejando de lado lo que esté considerado como políticamente sensible. "Sin el trabajo conjunto y la puesta en común de los datos de todo el tercer polo", dice Yao, "la comprensión global de los mecanismos de impacto sobre el clima y la retroalimentación podría ser imposible".

Jane Qiu en Katmandú, Nepal.

Traducido al español por Lorena Wong.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

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VEJA OS CRÉDITOS EM
http://www.bbc.co.uk/portuguese/

Diamante raro cor-de-rosa é leiloado por US$ 46 milhões em Genebra


Diamante raro cor-de-rosa é leiloado por US$ 46 milhões em Genebra


Um anel com um raro diamante cor-de-rosa foi vendido nesta terça-feira pelo recorde de US$ 46 milhões. O leilão ocorreu em Genebra e o preço mínimo era US$ 27 milhões.

A pedra de rosa intenso, de 24.78 carat, foi comercializada pela última vez há 60 anos.

"É um dos diamantes mais desejados a entrar em leilão e sua beleza me fascina desde a primeira vez que pus meus olhos nele, alguns anos atrás", afirmou David Bennett, presidente do departamento de joalheria da Sotheby's na Europa e Oriente Médio, ao comentar a realização do leilão.

O valor obtido superou, em muito, o recorde mundial em leilões de joias, estabelecido em dezembro de 2008 quando o diamante cinza-azulado Wittelsbach obteve US$ 24,3 milhões.

A pedra rosa não aparecia no mercado desde que foi comprada, há 60 anos, do joalheiro norte-americano Harry Winston.

Fabrice Coffrini/AFP

Anel com o diamente rosa leiloado e que atingiu preço recorde de US$ 46 milhões em Genebra

Se o euro falir, a Europa falirá


"Se o euro falir, a Europa falirá"
Publicado em 16-Nov-2010
Situação tende a se deteriorar ainda mais na Europa...
A preocupação com os impasses e dificuldades para sair da crise (leia nota acima), agravada pela chamada guerra cambial, é mundial e um bom sinal disso disso está nas preocupações externadas, por exemplo, pela 1ª ministra da Alemanha, a chanceler Ângela Merkel, que vê riscos até de falência da Europa.

Ângela Merkel foi reeleita com 90,4% dos votos nesta 2ª feira (ontem) como líder da União Democrata-Cristã (CDU) para um 5º mandato de dois anos. No congresso do seu partido conservador que a reelegeu a 1ª ministra encareceu a necessidade da Europa derrotar os riscos à moeda local e criar uma nova âncora de estabilidade financeira e econômica na zona do euro.

Como ela mesmo chama a atenção a crise lá para eles também é grave. Além disso, está até em um processo de aprofundamento com a situação de Portugal e Irlanda se deteriorando sem que nada seja feito. Tanto os Estados Unidos como a China dão sinais também de que vão continuar a cuidar de suas economias - primeiro a deles, conforme demonstram as ações e medidas adotadas.

Diante da gravidade da situação, para Merkel é essencial que a União Européia (UE) trabalhe em conjunto para prevenir novas crises de confiança como a da Grécia e que se resolvam situações como as da Irlanda, pressionada agora a concordar com um pacote de socorro da UE para impedir a venda de títulos do mercado de dívida e o contágio a outros devedores europeus.

"Tudo está em jogo. Se o euro falir, a Europa falirá" previu Merkel.

A semana está apenas começando para os investidores brasileiros, mas já é preciso bastante fôlego para absorver todas as questões que rondam a economia global. A crise de dívida soberana na Europa, a inflação na Ásia e os efeitos da política monetária dos Estados Unidos formam o coquetel de dúvidas que deve dominar os mercados nos próximos dias.

Os problemas dos elevados déficits públicos da zona do euro voltam com tudo à cena, desta vez com a Irlanda no centro das tensões. Embora o “tigre celta” resista, com o procedente argumento de que não tem necessidade de financiamento no curto prazo, é cada vez maior a pressão para que aceite ajuda externa. Segundo o Financial Times, o Banco Central Europeu quer que a Irlanda acesse os recursos do fundo de suporte criado para a região. Os recursos serviriam para fortalecer os bancos irlandeses, altamente dependentes da liquidez oferecida atualmente pelo BCE.

A ajuda também poderia impedir o contágio para outras economias europeias. Uma nova preocupação é que Portugal parece ter entrado na fila. O próprio ministro de Finanças português, Fernando Teixeira dos Santos, reconheceu que o risco de o país ter de buscar socorro da Europa é alto, já que “o problema não é nacional”, mas da zona do euro.

Por isso, a reunião de dois dias dos ministros de Finanças da União Europeia, que começa hoje em Bruxelas, atrai grande atenção dos investidores internacionais. A questão é saber se já será fechado um acordo para a Irlanda. O encontro também acontece em meio à crise política na Itália, onde o primeiro-ministro Silvio Berlusconi sofre o risco de perder o cargo em razão de escândalos de corrupção e pessoais.

Outro tema relevante para os mercados é a pressão inflacionária sentida pela Ásia, fruto da alta dos preços dos alimentos, tendência que se confirma cada vez mais pesada. Na China, como a inflação dos alimentos atingiu 10% em outubro, o assunto traz preocupações. A Bolsa de Xangai despencou 3,98% hoje, diante da expectativa de que o governo anuncie providências.

O banco ING cita reportagem do China Securities Journal apontando que o governo considera a possibilidade de adotar inclusive controle de preços. “Nós acreditamos em um anúncio em breve, como na próxima semana”, escreve o analista Prakash Sakpal, do ING na Ásia.

Mesmo com todo o fluxo de recursos externos, a Coreia do Sul decidiu elevar os juros em 0,25 ponto porcentual, para 2,5%, movida pela pressão inflacionária. Com a medida, analistas acreditam que é apenas uma questão de tempo para o país anunciar novas medidas para conter a entrada de capital – ainda mais agora que o mecanismo ganhou o respaldo do G-20.

O pano de fundo é a política ultra acomodatícia dos Estados Unidos, que inunda outros países de recursos e levanta críticas generalizadas. Ontem, os Treasuries passaram por forte onda de vendas, com pressão de alta sobre os juros. Analistas enxergam diversas possibilidades para o movimento, desde uma realização das posições adotadas como antecipação ao anúncio do Federal Reserve até o risco de inflação – reclamação contida na campanha criada por um grupo de republicanos contra a estratégia de Ben Bernanke.

Os questionamentos sobre a inflação nos EUA acontecem num momento de melhora dos indicadores econômicos, a começar pelo payroll (relatório de emprego) do mês passado. Ontem, as vendas no varejo mostraram alta de 1,2% em outubro, acima da projeção de +0,8%. Hoje, o destaque da agenda é produção industrial de outubro, ao meio-dia (de Brasília).

Às 9h43(de Brasília), as bolsas de Londres (-1,50%), Paris (-1,57%) e Frankfurt (-0,80%) caíam, junto com o petróleo (-1,37%, para US$ 83,09 o barril).

No mesmo horário (acima), o euro operava a US$ 1,3592, de US$ 1,3587 do fim do dia ontem em Nova York. A libra valia US$ 1,6057, de US$ 1,6060. O dólar era cotado a 83,27 ienes, de 83,17 ienes na véspera.






domingo, 14 de novembro de 2010

Rogel Samuel: QUE IMPORTA O AREAL E A MORTE E A DESVENTURA?









QUE IMPORTA O AREAL E A MORTE E A DESVENTURA?

Rogel Samuel


A leitura do romance histórico de Aydano Roriz, «O Desejado», me fez reler a terceira parte da MENSAGEM de Fernando Pessoa.

'Sperai! Cai no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus

O romance me surpreendeu. Em vários pontos.
O autor diz que o jovem rei era hermafrodita, e por isso não se casou.
Seu cadáver foi embalsamado em Marrocos, e anos mais tarde resgatado por Felipe de Espanha.
Oh, tudo é mistério, e não «haverá rasgões no espaço / que dêem para outro lado»...
Romance intrigante, momentos de rara beleza. Mas volto ao mito. Prefiro o mito.
Sou, a meu modo, um sebastianista (mais seria se não fosse, para tanto viver tão curta a vida...). Por isso Camões entregou seu poema a D. Sebastião.
O jovem rei, no livro, é rapaz extremamente religioso, pudico, puritano, se delicia a matar porcos na cozinha, a assistir às sessões de tortura, ao suplicio dos condenados. Havia condenados pelos mais extremos e hediondos crimes, como o crime da masturbação, por exemplo.
A obsessão do rei em matar-mouros lembra certo presidente de nação distante, hoje. Conflito que vem de longe, entre nossa boníssima e caridosa civilização cristã e a dos cruéis árabes pagãos. Mas:

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Devemos a D. Sebastião o nome da nossa cidade do Rio de Janeiro.

Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

Talvez seja Mito.
Prefiro o Mito.

«No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião».


sábado, 13 de novembro de 2010

Zsa Zsa Gabor


A atriz Zsa Zsa Gabor, 93 anos, foi internada nesta sexta-feira em um hospital de Los Angeles devido a "um enorme coágulo", informou seu porta-voz.

"Esta manhã se queixava de dores e inchaço na perna" e quando foi examinada pelos médicos "descobriu-se um enorme coágulo", explicou John Blanchette, porta-voz da atriz americana de origem húngara.

"Temendo que o coálogo se deslocasse para o coração, os médicos decidiram interná-la" no Centro Médico Ronald Reagan da Universidade de Califórnia, em Los Ángeles, disse Blanchette.

Desde que quebrou a bacia, em julho deste ano, Zsa Zsa Gabor sofreu uma série de problemas de saúde, incluindo complicações na cirurgia para colocar uma prótese.

Gabor foi hospitalizada em 17 de julho, no centro médico Ronald Reagan, depois de sofrer uma queda da cama, o que a levou a ser operada no quadril.

Depois desta cirurgia, ela sofreu algumas complicações que a obrigaram a ficar internada quase três semanas.

ALENCAR BEM HUMORADO

Bella Josef: O ESPAÇO REDIMENSIONADO DA FICÇÃO


O ESPAÇO REDIMENSIONADO DA FICÇÃO

(texto sem formatação)


Bella Jozef *

Em seu último livro publicado, Cidade Calabouço (1973), i o romancista
Rui Mourão amplia a visão de As Raízes (1956) e Curral dos Crucificados
Í1971). Apesar de manter com as anteriores estreita identidade de intenções,
Cidade Calabouço manifesta visível amadurecimento do ficcionista que desvela
um mundo em crise. Constitue, a nosso ver, obra importante da ficção
da atualidade brasileira, que vem ao encontro das tendências da literatura
universal de vanguarda.
No nível semântico, o livro de Rui Mourão pertence ao "realismo mágico",
termo que necessita ser explicitado, por haver adquirido conotação
demasiado abrangente. Manifesta-se uma concepção poética da realidade,
¿través de metáfora literal ("imagem tensa e condensada" p. 29) que anula
o princípio da identidade e o conseqüente pensamento lógico. O processo cognoscitivo
leva-nos a uma apreensão da realidade empírica. A intuição acrescenta
a esse conhecimento a crença numa realidade supra-real. Ao unir
ambas visões, o homem ve-se diante de um todo. Para a mente mítica, o
empírico e o não-empírico possuem o mesmo grau de irrealidade. Ao eliminar
desta os princípios lógicos, perde-se a irreversibilidade do tempo e a dimensão
unívoca do espaço. Assim, nega-se a unidade e finitude dos fatos e
a necessidade teórica dc que um fato seja considerado único em um tempo
c espaço determinado. Na visão mítica da realidade, nada é estático, invariável
nem unívoco. As passagens de um segmento a outro têm lugar no que
Mircea Eliade chama de "tempo sagrado". Este difere do "profano" em sua
reversibilidade:
O tempo sagrado é recobrado e repetido indefinidamente (infinitamente).
Poderia dizer-se que não "passa", que não constitue uma
duração irreversível. É um tempo ontològico. "Parmidesiano"; sempre
permanece igual a si mesmo, não muda nem se esgota.

2
• Doutora em Letras Neolatinas, Livre Docente de Literatura Hispano-Americana,
Catedrática Honorária da Universidade Mayor de San Marcos (Peru), Bella Josef
é Professora Titular de Literatura Hispano-Americana na Faculdade de Letras
da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Além de inúmeros artigos em revistas
especializadas e suplementos literários publicou na Vozes História da literatura
Hispano-Americana (1971) e Espaço reconquistado (1974).
1 MOURÃO, Rui. Cidade calabouço. São Paulo, Quirón, 1973. 108 p.
2 ELIADE, Mircea. Le sacré et le profane. Paris, Gallimard, 1965. p. 69.
letras, Curitiba (251: 29-33, ¡ul. 197Í 2 9




O tempo mítico e o espaço mítico estão em um estrato definido. Dada
a contínua fluidez da vida são possíveis as passagens de um modo existencial
a outro e também de um tempo e um espaço a outro. Isto eqüivaleria a uma
superposição dos estratos empíricos e supra-real, sendo o primeiro o nível
onde ocorrem os fatos segundo leis lógico-causais e o segundo o meio, a
passagem que o unifica no todo.
Também a mitologia complexa de Cidade Calabouço o coloca na categoria
neo-barroca, por atualizar uma série de características surgidas na
época trágica e dinâmica do Barroco, sugerindo uma sociedade em crise,
"na prisão entre quatro paredes" (p. 17). A linguagem acumulativa e reiterativa
assinala o neo-barroco: a descrição amplia-se pela enumeração.
0 espaço é um dos elementos estruturantes da ficção. Todo romance está
ligado ao espaço, implicado pela ação ou pelo personagem. A representação
espacial tem-se modificado ao longo dos tempos. Era evocado como pano de
fundo, diante do qual agiam os personagens. Quase não era apresentado
como realidade vivida pelo personagem — experiência perceptiva e subjetiva.
As formas, as cores, os primeiros planos e os longínquos, tudo isto era o
cenário. Os elementos que, acumulados quantitativamente, visavam a criar
um efeito de real, através da objetividade, satisfaziam a uma exigência da
escola naturalista. 0 princípio de seleção era abandonado em função da buscada
exatidão. O realismo vincula o espaço às ações. Seleciona os detalhes,
atuando metonimicamente. Em Balzac, o espaço não é apenas o quadro de
uma ação romanesca, é o meio no qual ela se banha e ao qual se liga por mil
laços: O drama está inscrito nos lugares antes de o ser no desenvolvimento
de uma narrativa e o espaço é o avesso congelado de uma ação temporal.
Balzac pintou um mundo pleno; o espaço nele é o lugar de uma realização.
Nos últimos romances de Hugo e frequentemente em Zola o espaço se impõe
ao espírito do leitor como o desdobramento de poderes míticos. A partir
de Flaubert assistimos à promoção do espaço suscitado como uma presença,
r, percepção por uma consciência do universo sensível do espaço e do tempo.
O abandono da visão onisciente do narrador é substituído pela ótica de uma
consciência: o espaço passa a dizer não do mundo mas da consciência que
o reproduz. 3 Marcado pela subjetividade, o espaço existe a partir da percepção.
Transfigurado pelo mito ou pela desmitificação da escrita, o espaço
assume em Cidade Calabouço uma função em que predomina o valor simbólico,
o espaço dc transformações, disfarces e conversões, onde se desdobram
os signos. O espaço constitui-se como objeto estético. Ê verdadeiro
"topos" simbólico de um sistema de valores. Supõe realidade exterior ao
texto, a literalidade da escrita. A aparente exterioridade do texto, a superfície
é uma máscara que nos engana,
3 AUERBACH, E. À l'hotel de la mole. In: . Mimesis. Paris, Gallimard,
1968. p. 465-88.


3 0 letras, Curitiba (251: 29-33, jul. 1976


JOZEF, B. O espaco redimenclonado da ficção

já que se há uma máscara, não há nada detrás, impede que a consideremos
como superfície. A máscara nos faz crer que há uma
profundidade, mas o que esta máscara é é ela mesma: a máscara simula
a dissimulação para dissimular que não é mais que simulação.4

Espaço mitico

Uma cidade se ve mergulhada num carnaval que se eterniza (p. 53),
institucionalizado através de decretos e auxílios da Prefeitura: "Prefeito Nicanor
Bramante defende o direito de cada um ter a sua fantasia" (p. 22).
Nesse espaço mítico instaura-se uma dimensão alegórica que mantém a
ambigüidade da matéria ficcional. Em nenhum momento a obra constitui
exercício estilístico gratuito: a transcendente presença do Carnaval revela
uma dimensão mítica. Tempo e espaço se integram e interlacionam. O romancista
abandona o fluir cronológico ou mesmo interior da aventura humana,
em acumulação de acontecimentos no espaço dominante, numa verdadeira
estrutura caleidoscòpica. O espaço é dominado por grande comoção
coletiva. O indivíduo, na época contemporânea é substituído pela massa, manifestando
as inter-relações de uma coletividade, de uma cidade, daí o epicismo
(já assinalado por Fabio Lucas)-5 O antropocentrismo renovado luta
por recuperar o sentido em um mundo que exclui o homem. Os românticos
já tentaram reagir contra a violação da unidade básica integrada pelo eu e o
universo. A alienação do homem reduziu-o a uma acumulação de fórmulas
previsíveis que impossibilitaram uma procura ontològica.


Carnavalização e simbolismo

Pensar o mundo no espaço e não no tempo, através da simultaneidade,
adivinhar suas relações sob o ângulo de um momento único, confere ao momento
presente múltiplas possibilidades, um sentimento cósmico de presente
eterno: as ações são reunidas numa aproximação dramática em lugar de
devir. Ë uma realidade dinâmica que se estende espacialmente, um mundo
se fazendo.
A natureza espacial predominante em Cidade Calabouço, entre outros aspectos,
coloca-o na textura do carnavalesco e do simbólico. A narrativa de
predominância paródica, como esta, diminui o projeto humano, baixando a
estatura heróica. No sistema narrativo. Rui Mourão coloca elementos aparentemente
em oposição, que interrompem a narraçãò, opondo o modelo à
paródia. O agenciamento dos pormenores num contexto de paródia, onde as
exigências da narração contrariam a continuidade num sistema de espelhos
deformantes fazem do leitor cúmplice, frustrando o desejo de ordem e de
coerência, enquanto o autor lhe impõe uma nova figura da ordem: o fan-
* BAUDRY, Jean Louis. Ecriture, fiction, idéologie. Tel Quel, Paris, (31):15-30,
1967.
fi LUCAS, Fábio. Tensfio e inércia em Cidade calabouço. Minas Gerais, Belo
Horizonte, 2 mar. 1974 Suplemento literário, p. 8.
Letras, Curitiba (25): 29-33, Jul. 1976 3 1


JOZEF, B. O espaco redimencionado da ficção


tástico. Coloca o leitor dentro do quadro do fantástico e situa a ficção dentro
do universo temporal do leitor. As alusões a lugares reais enraízam a
ação na "realidade" tentando autentificar a organização, narrativa e seu funcionamento
fictício por um envio à dependência referencial. Dumézil coloca
a passagem do mito ao romance neste processo. Para Lacan, o real é o que
se exclui do processo da simbolização, a realidade será o próprio imaginário,
um pedido de reconhecimento dos feixes de significados onde se fala da
vida. Essas alusões reforçam um desenvolvimento farsesco com o qual a realidade
nada tem a ver: "Avenida Amazonas, ao lado do Cine Brasil", "Praça
Sete". "Xique-xique Carnaval Belorizontino" e singularizam, numa postura de
participação crítica, a dcsautomatização. A paródia, o disfarce, o burlesco
ião da mesma ordem, embora de natureza diferente. Esses instrumentos
do cômico nos enviam, assim como a ação, a um contexto que parece deslocado.
O desenvolvimento é aberto, dialógico. .A representação formal do
caos obtém, ao nível da forma, um efeito de descontinuidade. A intriga caracteriza-
se por um encadeamento de ações e motivos, através de desenvolvimentos
parciais, que vai paralelo à afirmação de um sistema de valores,
por ambíguo que seja. A arte torna-se meio de "introduzir um princípio de
ordem no universo":
Porque quem vive é para se assustar de repente esquecido até
que existiu, é para enfrentar os momentos explodidos alucinantes
e sobrar com a glória instantânea de haver desafiado o próprio
caos (p. 10-11).
O Carnaval, situado num espaço neutro e um tempo que não é o da
vida cotidiana torna-se um modo de pensamento e uma maneira de agenciar
esteticamente. Por sua natureza ritualística, apresenta a vida "às avessas",
através da relatividade dos valores.
O homem, dissociado das forças cósmicas e alienado da realidade pela
redução do conhecimento ao estritamente empírico, procura sua essência
perdida ("numa lembrada esquecida presente consciência de manhãs frescas
e orvalhadas" — p. 63) através de um redimensionamento do mito. O
tempo perde sua irreversibilidade e o espaço a unicidade, o que possibilita
a passagem de um tempo a outro e a superposição de planos espaciais. Permite
ser dentro de uma dinâmica, como a acumulação reiterativa de verbos
ou núcleos nominais: "todo mundo já corria se jogava, perseguindo empurtando
a emoção" p. 1). A multidão frenética irá ser comandada por Dionisio,
figura arquetípica, e iniciará o sacrifício dos retirantes, o único grupo
sedentário dentro da coletividade descrita. O mito do caos primogênito e o
do Apocalipse conjugam o feixe de significantes para uma leitura do mundo
contemporâneo, encerrando as personagens num sistema de relações de força
magicamente instauradas. A vida encontra-se lado a lado da arte, que
mata e ressuscita a realidade no momento em que a faz significar.
3 2 Letras, Curitiba (251: 29-33, ful. 197Í
JOZEF, B. O espaco redimenclonado da ficção


REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
AUERBACH, E. Mimesis. Paris, Gallimard, 1968 . 559 p.
BAUDRY, Jean Louis. Ecriture, liction idéologie. Tel Quel Paris, (31): 15-30, 1967.
ELIADE, Mircea. Le sacré et le protane. Paris, Gallimard, 1965. 188 p.
LUCAS, Fabio. Tensão e inércia em Cidade calabouço. Minas Gerais, Belo Horizonte,
2 mar. 1974. Suplemento literário, p. 8.
MOURÃO, Rui. Cidade calabouço. São Paulo, Quiron, 1973. 106 p.




Letras, Curitiba ( 2 5 ) : 29-33, Jul. 1976 33

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Rogel Samuel: A escritora Bella Jozef


Rogel Samuel: A escritora Bella Jozef

Bella escreveu artigos, livros, ensaios e em tudo era muito boa. Escreveu em jornais comuns, em revistas acadêmicas, textos de divulgação e eruditos. Ela era e quase uma jornalista, tal a sua capacidade de escrita. Viveu para a escrita.
Como professora foi catedrática, numa disputa concorridíssima com Mário Camarinha da Silva, na UFRJ. Os dois concorriam a uma mesma vaga, mas a disputa foi tão acirrada que a banca distribuiu o desempate: Mário ficou com a Literatura Espanhola e Bella com a Hispano-americana.
Eu assisti a tudo.
A tese de Mário Camarinha foi brilhante, sobre Borges (na época um desconhecido).
Bella tinha uma qualidade: era uma amiga.

Morre Bella Jozef






Morre no Rio a professora e crítica literária Bella Jozef



RIO - Morreu, nesta quarta-feira, no Rio de Janeiro, a professora e crítica literária Bella Jozef. Como crítica e professora universitária, Bella Jozef foi uma das principais intérpretes e divulgadoras da literatura hispano-americana no Brasil. Autora de obras de referência como "História da literatura hispano-americana" e "O espaço reconquistado: linguagem e criação no romance hispano-americano contemporâneo", Bella passou quase 70 de seus 84 anos de vida na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde ingressou aos 15 anos como aluna do curso de Letras, chegando mais tarde ao posto de professora emérita.

Filha de imigrantes russos, Bella Jozef nasceu no Rio de Janeiro em 29 de janeiro de 1926. Ainda adolescente começou os estudos universitários na UFRJ, onde se tornou assistente do poeta Manuel Bandeira, professor da instituição. Foi por estímulo de Bandeira que Bella se encaminhou ao estudo da literatura hispano-americana, a que dedicaria sua vida.

"É no continente que se produz o melhor romance moderno, a literatura mais universal pela temática, pelo achado estilístico e pela visão de mundo", declarou certa vez ao jornal da UFRJ.

Além de assumir por concurso a cátedra de literatura hispano-americana, Bella foi diretora do departamento de Letras Neolatinas e orientou dezenas de teses e dissertações. Autora de estudos sobre os principais escritores hispano-americanos do século XX, ela foi a coordenadora da seção brasileira do importante "Diccionario Enciclopédico de las letras de América Latina", publicado em 1998. Os anos de convivência e amizade com os escritores sobre os quais escreveu resultaram no lançamento em 1999 do livro de entrevistas "Diálogos oblíquos", com conversas com autores como Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e Gabriel García Márquez.

Bella Jozef morreu quarta-feira em seu apartamento no Flamengo. Deixa viúvo, Jorge, e dois filhos, Flavio e Rosine. O enterro será às 11h de sexta-feira no Cemitério Israelita do Caju.

Rogel Samuel: A árvore da gentileza













A árvore da gentileza

Rogel Samuel

A velha árvore em frente à minha janela foi completa, correta, perfeita, extremamente gentil – ao desabar depois da tempestade não prejudicou ninguém.

Para não atrapalhar o trânsito caiu no meio-fio, para não amassar um carro segurou-se na fiação e galhos, para não por em risco a vida das pessoas não se agarrou no cabo de alta-tensão, não caiu sobre minha janela – foi perfeita, morreu heroicamente e nobre.

Nem sei quantos anos ela estava ali, belíssima, portentosa.

Vai fazer muita falta, para mim, para os pássaros e macaquinhos que por ela desciam.
Para homenageá-la no seu túmulo recitei:

As Árvores

Na celagem vermelha, que se banha
Da rutilante imolação do dia,
As árvores, ao longe, na montanha,
Retorcem-se espectrais à ventania.

Árvores negras, que visão estranha
Vos aterra? que horror vos arrepia?
Que pesadelo os troncos vos assanha,
Descabelando a vossa rumaria?

Tendes alma também... Amais o seio
Da terra; mas sonhais, como sonhamos,
Bracejais, como nós, no mesmo anseio...

Infelizes, no píncaro do monte,
(Ah! não ter asas!...) estendeis os ramos
À esperança e ao mistério do horizonte.

(Olavo Bilac)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Rogel Samuel: E se não for crise financeira?


E se não for crise financeira?

PUBLICADO HÁ ANO NESTE BLOG EM 6 DE ABRIL DE 2009

Rogel Samuel

O artigo do professor Francisco de Oliveira publicado na Carta Maior e reproduzido no nosso blog me deixou preocupado. Para ele a crise não é financeira, mas de globalização. A indústria chinesa está há anos destruindo o parque industrial americano e inundando os Estados Unidos de dinheiro barato, através de empréstimos baratos, as subprimes.

800 milhões de novos trabalhadores apareceram na China e Índia, no elevado crescimento chinês. Em contrapartida, milhões de operários americanos perderam seus empregos.

Com novas tecnologias os chineses produziram e inundaram o mundo de artigos feitos com mão de obra baratíssima graças a um desenvolvimento tecnológico e científico, pois a “China hoje tem mais estudantes de curso universitário que os EUA, e mais pós-graduandos que o total de estudantes universitários do Brasil”, diz ele.

Resultado: Todos nós usamos algum produto chinês.

O pior é que o G20 está tratando a crise como financeira.

Se o professor estiver certo, os trilhões do Presidente Obama para tapar o buraco só vão agravar o problema. Vai aumentar o desequilíbrio. E a dívida.

REBELIÃO NA CADEIA DE MANAUS

Evaristo Carriego


FONTE ESTADO


Não é culpa de Evaristo Carriego ter passado à posteridade como personagem de Jorge Luis Borges. O poeta Carriego teve existência breve e real. Nasceu em 1883 na província de Entre Rios e cedo a família se mudou para Buenos Aires. Os Carriego moravam no bairro suburbano de Palermo, assim como os Borges, de quem foram vizinhos. Em vida, Carriego publicou apenas um livro de versos – Missas Hereges, em 1908. Morreu de tuberculose, em 1912, e, no ano seguinte, saiu o livro póstumo La Cancion del Barrio. Em 1930, Borges lhe dedicou um estudo, Evaristo Carriego, no qual analisa a obra e faz especulações sobre o homem e seu mundo.
No Brasil, conhecemos Carriego através dessa obra de Borges. E é tudo. Ou era, até a publicação deste pequeno e precioso Poesia Herege, com organização e tradução de Claudio Cruz e Liliana Reales. O miolo do livro é uma seleta com 11 poemas de Carriego. Antes deles vem o texto Apresentando Carriego, de Claudio Cruz. E, após os poemas, o estudo de Liliana Reales Leitura de uma Leitura de Borges: Evaristo Carriego. O volume, de 70 páginas, é editado pela Universidade Federal de Santa Catarina e custa R$ 15.
A ideia do livro, claro, é iluminar a persona de Carriego e tirá-la um pouco da poderosa sombra que lhe faz Borges. O poeta tem importância em si e não apenas porque virou objeto de estudo de um grande escritor, um dos maiores do século passado. Ele teria sido, no quadro da literatura do país vizinho, o primeiro a representar literariamente o “arrabal portenho”. Ou seja: os bairros populares, os valentões, as mulheres “que deram mau passo”, os desafios de guitarra e faca, as milongas e o tango, então nascente. Borges se interessa por esse universo, em especial em sua fase mais nacionalista. Esse mundo está presente em contos famosos como O Homem da Esquina Rosada. E está, de maneira orgânica e vital, em Carriego, por mais de uma razão. Primeiro, porque o modelo do arrabal adotado por Evaristo Carriego era Palermo, onde também morava a família de Borges. Aliás, o pai e Borges foi amigo do autor de La Canción del Barrio. Segundo porque, como descobre, a partir de Palermo pode olhar o mundo, de maneira mais ampla.
Esse bairro de Palermo, tanto imaginário quanto real, constitui o ponto central da obra do poeta. Está não apenas no que talvez seja o mais famoso desses poemas, A Alma do Subúrbio, mas em O Guapo, A Surra, No Bairro, O Beco de Nossa Casa, Voltaste, A Costureirinha que Deu Aquele Mau Passo, Uma Surpresa, e outros que fazem parte da edição. Trata-se de uma seleção refinada, que busca o melhor de Carriego, versos expoentes em uma obra que, de acordo com Claudio Cruz, pagou preço alto ao modernismo hispano-americano, o que relativizaria seu valor estético aos olhos de hoje. Há, no entanto, esse núcleo duro na obra de Carriego que vale ainda a pena ser lida ainda hoje, como testemunho das “vozes periféricas” ou como exemplo das “culturas subalternas”, revalorizadas nos dias de hoje, com a relativização dos cânones.
O próprio Borges diz que Carriego demorou a encontrar sua voz. Quando o fez, falou como ninguém da sua gente e da realidade à sua volta. Essa voz, dizem os críticos, foi encontrada a partir El Alma del Arrabal, seção de Missa Herege composta de onze poemas entre os 47 que compõem o único livro publicado em vida.
A essa voz, Borges foi sensível. A ponto de levá-lo a produzir um ato crítico que ressoa até hoje. As motivações para esse ato crítico podem ser discutidas – Liliana Reales encontra em Carriego a ressonância de um tema caro a Borges: o culto à coragem. Algo típico nas manifestações do gaucho argentino, que perde espaço em sua inserção social no processo de modernização da Argentina do final do século. Da economia agropastoril para a industrialização, do deslocamento do campo para a cidade, o personagem viril assimila-se ao marginal urbano. Seu campo de atuação seria o arrabalde portenho, que ganha assim uma localização no imaginário do continente americano comparável à do sertão brasileiro e ao Velho Oeste dos Estados Unidos. São localizações não apenas geográficas, mas sobretudo simbólicas e emblemáticas, com suas funções de abrigo aos mitos fundadores da nacionalidade.
Dessa forma, é natural que Borges dê início ao seu Carriego pela descrição do espaço onde vive o poeta. Palermo de Buenos Aires é o primeiro capítulo do livro e tentativa de buscar as raízes do bairro. Fundado por um italiano oriundo da capital da Sicília, Palermo deve seu nome a esse procedimento não de todo incomum – aquele que emigra substitui seu sobrenome pelo da cidade de origem e, dessa forma, a leva consigo para a terra estrangeira. Esse tal de Domenico, ou Dominguez Palermo, teria chegado àquela área por volta de 1605 ou 1614. Borges descreve o nascimento mítico do bairro em páginas que subordinam o factual ao espírito poético, num procedimento de sobreposição de imagens que ele mesmo define como “cinematográfico”. Para concluir: “Palermo era uma despreocupada pobreza”. Emerge na imaginação do leitor esse bairro humilde, de casas baixas, pátios de tipo espanhol, as esquinas, os valentões, as mulheres oprimidas e ocupadas em casa com seus filhos e trabalhos de costura. Um ambiente tão próximo do real e, ao mesmo tempo, banhado por certa irrealidade. O próprio Borges avisa que esse retrato se deve muito à sua imaginação, mais que ao testemunho dos fatos: “Acreditei, durante anos, que tinha crescido num subúrbio de Buenos Aires, um subúrbio de ruas perigosas e de ocasos visíveis. A verdade é que cresci num jardim, atrás de grades com lanças, e numa biblioteca de inumeráveis livros ingleses”. No entanto, o menino intelectual, em meio aos livros da biblioteca paterna, sonha com duelos e valentias dos compadritos e gauchos armados com suas facas. Ouvia ao longe as seis cordas da guitarra.
Esse sonho com o distante, com o marginal, o levou a Evaristo Carriego – como conta seu biógrafo James Woodall (Jorge Luis Borges – O Homem no Espelho do Livro, Bertrand Brasil, 1999, 436 pags) para decepção dos seus pais, Jorge e Leonor, que esperavam tema mais nobre para as preocupações do filho. Ao contrário do que fez com outros escritos da época, Borges permitiu que seu Evaristo Carriego fosse republicado ao longo de toda a sua vida. Está incluído em suas Obras Completas. Isso significa que tinha apreço por um livro que, do ponto de vista formal, é considerado um Borges “menor” por alguns críticos. É, como escreve Woodall, um tomo estranho, cheio de defeitos, que hesita entre o jornalismo, a crítica e o pitoresco urbano. Mas não será justamente esse formato heteróclito que dá ao Carriego de Borges parte do seu encanto?
Em todo caso, ao estudar Evaristo Carriego, Borges enfrentava alguns problemas de sua própria trajetória. Um deles, em particular: como conciliar o tom local e suas aspirações de universalidade? Essa talvez esteja na origem da mais bela página do estudo, acrescentada em 1950 – Prólogo a uma edição das Poesias Completas de Evaristo Carriego. Nela, Borges imagina um Carriego sonhando com Dumas e pensando com inveja em algum outro lugar, a Europa talvez, Paris, suas festas, suas mulheres, seus escritores. A vida estaria sempre em outro lugar, pensava aquele autor “jovem, orgulhoso, tímido e pobre, e se acreditava desterrado da vida” em seu subúrbio portenho. Borges pensa que Carriego estava imerso nessa triste meditação ção quando ouve ao longe “um rasgado de laboriosa guitarra”; vê pela janela as casas baixas de Palermo e a rua, na qual o compadrito Juan Muraña passa e toca o chapéu em cumprimento a alguém. Muraña que, na véspera, havia marcado a navalha o rosto de um desafeto, o chileno Suárez. Vê um velho carregando um galo de rinha, a lua no quadrado do pátio. Carriego compreende então que o universo estava todo lá, em Buenos Aires, em Palermo, em 1904. Naquele momento, conclui Borges, Carriego é Carriego. E pode escrever seu barrio e sua gente.
Borges pensava Borges, através de Carriego.
El Guapo
El barrio le admira. Cultor del coraje,
conquistó, a la larga, renombre de osado;
se impuso en cien riñas entre el compadraje
y de las prisiones salió consagrado.
—–
O bairro o admira. Cultor da coragem,
Conquistou, há muito, renome de ousado;
Se impôs em cem brigas entre a malandragem
E das muitas prisões saiu consagrado.

Jornais da Record lideram no Ibope em outubro


Jornais da Record lideram no Ibope em outubro

Outubro foi um bom mês para a Record. O "Fala Brasil" e o "Câmera Record" ficaram na liderança do Ibope da Grande SP, empatados com a Globo. O "Fala Brasil" está na liderança há 16 meses. Em outubro, marcou 6,9 contra 6,5 do "Mais Você". O "Câmera Record" terminou o mês com 10 pontos, mesmo índice da Globo. Das cinco exibições, foi líder isolado por duas vezes.


FONTE FOLHA ONLINE

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Rogel Samuel: A verdade sobre o ENEM






Rogel Samuel: A verdade sobre o ENEM




Críticas infundadas. Loucuras da imprensa não dão conta de que: "3,3 milhões de estudantes prestaram as provas do ENEM deste ano, uma forma mais democrática de concorrer nacionalmente a 83 mil vagas em 84 universidades federais do país.

"Ocorreram falhas que demonstram a necessidade de ajustes no sistema: 31 mil cadernos da prova amarela, por exemplo, tinham defeitos de impressão.

Destes, apenas 21 mil exemplares chegaram a ser distribuídos – a maioria acabou trocada no local do exame.

O Inep estima que entre 2 mil e 3 mil estudantes tenham sido prejudicados.

Repita-se: de um total de 3,3 milhões de participantes.

O MEC já assegurou a esses jovens a possibilidade de refazer o exame em condições de isonomia, ou seja, a tempo de concorrer às vagas disponíveis nas universidades federais.


Mas a mídia demotucana está sôfrega. Inconformada. Não digeriu o caroço da derrota eleitoral do seu candidato por uma diferença de 12 milhões de votos.

Atenção, 12 milhões de votos rechaçaram adicionalmente o golpismo udenista.

O mesmo que agora regurgita um ressentimento encalacrado no sistema digestivo e tenta transformar 0,04% dos participantes do ENEM em militancia a serviço de um revanchismo cego pela derrota, robusta, no escrutínio democrático.

É preciso avisar aos senhores da coalizão motucana e a seus ventrílocos no dispositivo midiático: agora, só em 2014 -- a Constituição brasileira não prevê terceiro turno."


(CARTA MAIOR)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Rogel Samuel: A obra póstuma



Rogel Samuel: A obra póstuma




De modo que, amigo/a leitor/a, foi assim que Guimarães Rosa iniciou um discurso na Academia de Letras... pela conclusão. Um dia desses conto para você como foi o meu encontro com Guimarães Rosa. Hoje não. Hoje quero dizer que a tarde está fria. Chris, ou o seu disco, toca uma sonata de Schubert. Todas as tardes frias se parecem com uma sonata de Schubert. Eu só sei disso por ouvi-las numa tarde fria e escura. As tardes frias e escuras são profundas. Não é a toa que o carioca é leviano. Aqui não há tardes frias e escuras. Só dá para ser superficial. Chris é de Portland, no Oregon. Há paredes, na sonata de Schubert. Paredes por onde a imaginação se debate, entre esses muros ela se agita, sonha com o espaço. Ninguém pode prender um homem livre. Podem encarcerá-lo na profundeza das mais secreta masmorra, mas internamente ele permanece livre, disse alguém. Na sonata em A maior, está dito "Opus Posthumous", D. 959. É assim, nessa tarde póstuma. A sonata da morte. Mas tão leve, tão linda. Um dia estive para morrer, fui entrando num bom estado de paz, de tranqüilidade... até que o médico me deu uma injeção e despertei neste nosso mundo. Chris, eu me lembro dele em Friday Harbour, Whashington DC. Havia um piano velho, descobrimos um piano velho, no fundo do estádio, onde todos os dias Chris ia praticar. O teclado estava meio solto. O velho piano quebrado. Lá, eu, ele e Chrystal, sua esposa, ouvíamos Beethoven. Era o único piano daquela parte da ilha. Opus Posthumous, diz o disco. Tão fria, tão bela, e tão póstuma. Lembra a limpidez frígida do túmulo.
A segunda vez que o encontrei foi na Austrália. Lá ele tinha um teclado portátil, com o qual podia tocar o Cravo Bem Temperado de Bach. Som de cravo. Nós estávamos no meio de uma grande floresta, alguns quilômetros de Kyogle. Ao amanhecer havia vários animais. Nos cercavam, nos espiavam. Pessoas falavam que ali havia as mais venenosas serpentes. A Austrália é a pátria das serpentes. Negras, veludo negro liso. Aquele era um lugar extraordinário: Vajradhara Gompa. As noites punham tantas estrelas que entontecíamos só de vê-las e pensá-las. Oh, Montanhas.
Sydney. Lembro do hotel Sullivans, Oxford Street 21, em Paddington. A vida noturna da cidade. Pubs, clubs. Visitei a exposição de Sebastião Salgado ali. Sydney é a capital da fotografia. Há um erotismo no ar. Respira jovialidade e democracia. Eu quase fico lá, de vez. Não há crimes, nem violência, em Sydney. Culturas variadas em harmonia. Fraternidade universal. Em Paddington estávamos em paz. Ouvi a Quarta Sinfonia de Brahms naquela monstruosa Opera House. Infelizmente a Orquestra Sinfônica de Sydney deixa a desejar. Ou aquele maestro. É certo que sou fanático desta sinfonia. Tenho dela diferentes gravações. A melhor, para mim, é a de Bernard Haitink, com a Boston Symphony Orchestra.
Vou escrever uma crônica para deixar na gaveta. Quando eu morrer, alguém, a amiga Nappy por exemplo, deve publicá-la. E publicar com o aviso: "Opus Posthumous". Chic.

domingo, 7 de novembro de 2010

JÓIAS DE SALVADOR DALI


Rogel Samuel: Hino ao trabalho




Rogel Samuel: Hino ao trabalho

FOTO XIXARO

Bilac escreveu um dos mais belos hinos ao trabalho, desde o trabalho pré-histórico operador do fogo, construtor da primeira casa, o que começou a lavrar, o lavrador o ferreiro o coveiro... costureiro, o escritor, marinheiro, cantor, eletricista, aviador, o socialista, o homem da esperança.... O trabalho é aquela atividade, aquela mercadoria valiosíssima, que visa a um determinado fim (O capital, I, 1). Atividade essa que opõe o homem à natureza e revela sua capacidade de gerar valor, seja pela força de trabalho humano fisiológico simples, seja pelo trabalho abstrato intelectual e artístico. Todo trabalho é um dispêndio de cérebro para criar riqueza, com músculo, nervos, mãos. Produzir é em si gerar uma mercadoria, um valor. O trabalho construiu o mundo, ou com operários manuais, mecânicos, ou com cantores, pianistas, escritores e poetas. Nós somos que fizemos.


Benedicite!

Bendito o que, na terra, o fogo fez, e o tecto;
E o que uniu a charrua ao boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que, do chão abjeto,
Fez, aos beijos do sol, o ouro brotar do trigo;

E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu; e o que achou o alfabeto;
E que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano;
E o que inventou o canto; e o que criou a lira;
E o que domou o raio; e o que alçou o aeroplano...

Mas bendito, entre os mais, o que, no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

sábado, 6 de novembro de 2010

Falece Ildásio Tavares




Falece Ildásio Tavares

Sonetos para Simone

(VI)

Quando eu morrer e reverter ao chão,

não profiram discursos nem louvores
se acaso tive glória ou tive amores,
não sepultem o passado em meu caixão.
Não quero missa, prece ou oração;

nem sufoquem meu corpo sobre flores;
não levem ao cemitério pranto ou dores,
quer seja de saudade ou de paixão.
Recitem versos, cantem melodia

não fui senão poeta em minha vida,
girando dentro em mim qual caracol
Terei mais luz no derradeiro dia,

um cruel esplendor na despedida
poesia enchendo o túmulo de sol.

Ildásio Tavares

Vítima de AVC (Acidente Vascular Cerebral) faleceu dia 31 de outubro Ildásio Tavares (nascido em Ubaitaba, atual cidade de Gongoji/BA, em25/01/1940), irmão da fotógrafa e poeta Ednalva Tavares e cunhado de José Louzeiro. Além de poeta, jornalista e compositor, tendo mais de 40 músicas gravadas por Vinícius de Moraes, Maria Bethânia, Alcione, Toquinho, Nelson Gonçalves e Maria Creuza, Ildásio Tavares também era professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Em Salvador, formou-se em Direito e em Letras na UFBA, tendo feito o Mestrado na Southern Illinois University, doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com pós-doutorado na Universidade de Lisboa. Durante muito tempo, Ildásio Tavares foi tradutor e professor de inglês, ofício do qual surgiu o seu livro "A Arte de Traduzir". O escritor deixa seis filhos e uma vasta obra literária que começou a ser publicada em 1968, com o livro "Somente um Canto".

O poeta Ildásio Tavares morreu Às 17h deste domingo (31/10), aos 70 anos. Destacado poeta e escritor, Tavares foi base para a personagem do escritor Jorge Amado, Ildásio Taveira, o poeta de "Tenda dos Milagres".

Tavares estava internado no Hospital Jorge Valente, em Salvador, desde o último dia 27, após ter sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Natural da Fazenda São Carlos, hoje cidade de Gongigi (Bahia). Ildásio publicou 42 livros, sendo 15 de poesia. Ele também andou pelo terreno da música popular, com canções (sempre em parceria) gravadas por nomes como Maria Bethânia, Alcione, Vinícius e Toquinho e Nelson Gonçalves. Escreveu a ópera afro-brasileira “Lídia d’Oxum”, com música de Lindembergue Cardoso. Conhecido por seu humor fino e mordaz, o poeta deixa saudades.



segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Rogel Samuel: Parabéns brasileiras!


Rogel Samuel: Parabéns brasileiras!

FOTO DE O DIA

A partir de hoje, as mulheres saem da pia da cozinha com um sentimento vitorioso. Como disse o negro Obama: Nós podemos! As mulheres devem comemorar esse fato histórico, pois há bem pouco tempo nem podiam votar. Num país machista, patriarcal e autoritário, onde a igualdade de oportunidade ainda é um problema. Onde as mulheres continuam com a “dupla jornada”, cuidam dos filhos e da casa além de trabalhar. Hoje a vitória é das cortadoras de cana, das lavadeiras e empregadas domésticas, das roceiras e cozinheiras anônimas, as babás, as professoras, as mães. A vitória é delas, de todas elas, mesmo daquelas desprezadas e condenadas. As “perdidas”, ou como disse Leila Míccolis “achadas”. Pois como escreveu o machista Victor Hugo:

Oh! não insulteis nunca uma mulher perdida!
Quem sabe qual o transe em que ela foi vencida?
Quem sabe se foi longo o seu combate rude,
Entre as mil privações que assaltam a virtude?


Estão de parabéns as minhas falecidas mãe Stella e minha avó Edília. Estão de parabéns a minha amiga Leila Miccolis e a Rose Marie Muraro feministas, e a merendeira da esquina. Estão de parabéns Helena de Lima e a querida Clementina. Estão todas de parabéns com essa vitória que é delas!