quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

MANO

MANO

Coelho Neto

A INSPIRAÇÃO DO LIVRO

Tendo perdido os primeiros filhos, que foram tantos quantos os que sobreviveram, “como se a
Vida apostasse com a Morte em lhe não ceder uma só vitória, tirando de cada túmulo uma
ressurreição”, Coelho Netto desistiu do aperreado sistema, tão mal sucedido, de encerrar e
atabafar em lãs os pequeninos, decidindo-se pelo da liberdade e dos exercícios físicos. E os
outros sete medraram. Emmanuel, o Mano, era o mais velho. Robusto, culto, modesto e bom,
ele simbolizava o tipo de atleta perfeito que Coelho Netto, sempre eqüidistante das competições
partidárias, idealizou na sua campanha pelo aprimoramento da juventude brasileira.
No Fluminense Football Club, Mano integrou o mais famoso conjunto de amadores da história
do football carioca, conquistando o tri-campeonato da cidade em 1917-1918-1919. Sua morte,
em conseqüência de séria contusão que sofreu num jogo do Fluminense, ocorreu a 30 de
Setembro de 1922, quando contava 24 anos de idade.
Depois da maior desgraça da sua vida, Coelho Netto, como forçado das letras, tendo de
escrever sem cessar para manter a subsistência da família, quando tomava lugar à mesa, para
começar o trabalho diário, só trazia um pensamento:
“Falando ou escrevendo esquecem-me as expressões, faltam-me os termos. Só tu ficaste, tu só,
tudo mais se esvaiu”.
E, procurando derivativo sua imensa desventura, fez da pena um rosário e desfiou em lágrimas,
dia a dia, o Livro da Saudade – “Mano”.

Paulo Coelho Netto

Setembro de 1956

CAPELAS

Ele era bom. Tinha a serenidade dos fortes. A juventude do seu corpo de atleta guardava uma
alma antiga, de orgulhosa origem, mas sempre alegre por perdoar e esquecer. Nunca lhe saiu
da boca uma queixa. Acostumara os lábios ao ritmo do louvor.
Sabia admirar. Sabia amar.
Mano!
Quem o apelidou assim, de pequenino, adivinhou que, depois de grande, quando olhasse, de
olhos abertos, a vida, havia de ser o que foi: o irmão... o Mano, mais moço ou mais velho, dos
outros homens que o conheceram, os amigos da sua intimidade e aqueles que, junto de Coelho
Netto e da companheira admirável desse nobre artista, aprenderam o culto da beleza e da
bondade.

Álvaro Moreyra.

ÚLTIMA VITÓRIA

A Coelho Netto.

Era uma forte e meiga criatura,
Alma infantil em corpo de gigante;
E n'arena o julgáreis sempre ovante,
Da Grécia antiga olímpica figura.
Mas como cá na terra a desventura
Apunhala o valor a cada instante,
Chega-se a Morte ao moço triunfante
P'ra tocá-lo co'a ponta d'asa escura.
Preces da aflita mãe, que a dor crucia,
Prantos do pobre pai, que era um poeta,
Tudo o supremo transe lhe angustia.
Mas tinha o lutador crenças de asceta,
Rompe-se em luz o nimbo da agonia...
Sorri... Mais uma vez vencera o atleta.

Carlos de Laet

A MORTE DO SOL

A Coelho Netto

Rubro clarão no poente...
Desce abrasado o Sol... Por um momento,
Dir-se-ia
Que em sua marcha lenta se detém...
Contempla, a última vez, no firmamento
A estrada percorrida, desde o Oriente,
Numa larga passagem triunfal.
Vai mergulhar no Além,
Penetrar na Agonia,
Perder-se no seu próprio sangue - a Luz...
Sabe que vai morrer... Olha o declive
Que ao túmulo conduz;
Lança depois o último olhar
De saudade final
Sobre a terra distante, sobre o mar,
E rola no horizonte... - É a noite que se eleva...
É a Treva.
Parece que na terra nada vive,
Nada existe
Tudo se esvaiu: a forma, a cor,
Que são a alma das coisas no Universo...
Tudo agora é diverso
No cenário do mundo
Que vai viver sem luz e sem calor.
O sol partiu e o céu, pálido e triste,
Tornou-se mais profundo.
Para que serve a treva? Que razão
A faz surgir assim, tão bruscamente,
Após a fulgurante luz do dia?
Por que a noite, senão para melhor
Destacar o fulgor
Longínquo das estrelas?
Por que a noite, senão
Para aos homens dizer que todas elas
São outros tantos sóis, iguais ao Sol
Que vemos apagar-se no ocidente
Para se erguer de novo no arrebol?
Sóis que não morrem, que desaparecem
Somente ao nosso olhar e, quando descem
No horizonte, à mesma hora da descida,
Que é apenas ilusória,
Estão surgindo em plena glória
E em plena vida
Para outras regiões do espaço infindo...
Porque tudo que é lindo,
Perfeito e forte
Não pode aniquilar-se pela morte.
A existência nos mostra cada dia
Que o fluido da Beleza ou da Energia
Jamais se exala
Para perder-se; apenas se transforma,
Se aperfeiçoa e sobe numa escala
Em que se purifica a essência ou a forma
Das coisas... Vida é apenas harmonia.
Só na aparência alguma coisa ofusca
Esta ascensão contínua. Nada existe
Que, em verdade, a perturbe e a morte não seria
A única exceção
Para a parada brusca
Na evolução fatal da Natureza.
O espírito da Força e da Beleza
Não se dilui: persiste,
Segue em demanda de outra perfeição,
E, se escapa a visão dos nossos olhos,
Deixa d'alma nos íntimos refolhos
Tênues fios de viva claridade
Que, pelo pensamento, e elas nos unem
Por todo o sempre e que, talvez, um dia
Nos servirão de guia
No mistério que envolve a Eternidade,
E onde, vestindo novas existências
As parcelas das coisas, nas essências
De um mesmo todo extinto, se reúnem...
Por isto quando o Sol desaparece
E o clarão do seu rastro empalidece
E se extingue na sombra, esse repouso
De morte transitória
É o início apenas de uma nova glória!

Octávio Ribeiro da Cunha

AGONIA

A GABY

Se o amor nos aproximou mais fez ele unindo-nos inseparavelmente. Vendo-o, era como se nos
víssemos, aos dois, em um só reflexo - tu e eu, e, com tal visão, vivíamos felizes contemplandoa
debruçados sobre a correnteza da vida.
Hoje!...
Em vez do espelho límpido, no qual nos mirávamos sorrindo, vejo apenas a água triste das
lágrimas que transbordam dos teus e dos meus olhos, água fúnera, turvada pela saudade, limo
que assenta no fundo do coração.
Pior que o Letes do esquecimento é, sem dúvida, a memória, fonte onde nasce o rio da
saudade, corrente lúrida, toldada de lembranças. E é nesse rio que nos debatemos, tu e eu,
descendo juntos para o oceano ilimitado, com esperança de ainda o encontrarmos, como se
fosse possível achar no fundo da água morta a sombra que flutuou na sua superfície.

DOR

A alegria dispersa; a dor concentra.

É na dor que, em verdade, sentimos que um filho é carne da nossa carne.

Ao vê-lo sofrer vibramos doloridamente e, se ele geme, o seu gemido ressoa-nos no coração.

Os ais que lhe escapam do martírio são frechas que nos lancinam e, se baixam do clamor à

queixa humilde, doem-nos ainda mais, como a punção de uma lanceta aguda que se nos crava

paulatinamente.

Se o enfermo sara esquecem-se tais vozes, se elas, porém, se calam suspensas pela morte,

então represam-se-nos no íntimo, e nunca mais o coração as esquece e os gemidos nele

perduram como fica eterno nas conchas o marulho soturno do mar.

DUGPA RINPOCHÊ - PRECEITOS DE VIDA


DUGPA RINPOCHÊ - PRECEITOS DE VIDA:

Quem deseja a sorte alcança-a sempre. Não deprecie nunca os seus sonhos. Deve fazer um pacto com eles. Eles são a nascente e a força inesgotável que o levarão à vitória. Atrás do obstáculo, encontra-se uma liberdade virgem, um horizonte mais vasto.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

OS SINOS

Os Sinos

MANUEL BANDEIRA


Sino de Belém,
Sino da paixão...
Sino de Belém,
Sino da paixão...
Sino do Bonfim!...
Sino do Bonfim!...

Sino de Belém, pelos que ainda vêm!
Sino de Belém, bate bem-bem-bem.
Sino da paixão, pelos que ainda vão!
Sino da paixão, bate bão-bão-bão.

Sino do Bonfim, por que chora assim?...

Sino de Belém, que graça ele tem!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.
Sino da paixão. - pela minha irmã!
Sino da paixão. - pela minha mãe!

Sino do Bonfim, que vai ser de mim?...

Sino de Belém, como soa bem!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.
Sino da paixão... Por meu pai?...-Não! Não!
Sino da paixão bate bão-bão-bão.
Sino do Bonfim, baterás por mim?...

Sino de Belém,
Sino da paixão...
Sino da paixão, pelo meu irmão...
Sino da paixão,
Sino do Bonfim...
Sino do Bonfim, ai de mim, por mim!

Sino de Belém, que graça ele tem!

HUMBERTO DE CAMPOS, ESCRITOR MODERNISTA

HUMBERTO DE CAMPOS, ESCRITOR MODERNISTA

Rogel Samuel

Por seu estilo simples e direto, por seus textos curtos e anedóticos, pela simplicidade (aparente) de seu riquíssimo vocabulário, Humberto de Campos é um legítimo escritor modernista “avant la lettre”.
E mais:
Não é verdade que o escritor não conseguiu realizar a obra imortal que pretendia: Ele alcançou os cimos da glória de seu tempo, foi o escritor mais lido de sua época, um verdadeiro “best seller”, logo entrou para a Academia Brasileira de Letras, foi sucesso e público e de crítica, e, quando morreu, aos 48 anos, provocou uma comoção tão grande que o Rio de Janeiro parou espontaneamente em sua homenagem.
A simplicidade de seu vocabulário é enganosa, pois ele era um estudioso da língua e um erudito, e tinha uma memória extraordinária e uma capacidade de trabalho inigualável: quando jovem copiou integralmente o dicionário de Cândido de Figueiredo.
O que acontece é que até hoje eu não conheço nenhum trabalho crítico aprofundado sobre sua grande e volumosa obra.

O ORGULHO DE ALENCAR

O ORGULHO DE ALENCAR

POR

HUMBERTO DE CAMPOS


(Taunay - Reminiscências, vol. I, pág. 109)

O Imperador Pedro II não tinha grandes simpatias pessoais por José de Alencar. Porque este o houvesse ferido por mais de uma vez pela imprensa, ou porque lhe fizesse mal o amor-próprio, ou melhor, o orgulho do escritor, foi o soberano contrário, desde o princípio, à candidatura do seu ministro da Justiça à cadeira de senador pelo Ceará. No dia em que este lhe foi comunicar que era candidato, o monarca objetou-lhe:

- No seu caso, não me apresentava agora: o senhor é muito moço...

Alencar, num daqueles repentes que lhe eram habituais, não se conteve.

- Por esta razão, - disse - Vossa Majestade devia ter devolvido o ato que o declarou maior antes da idade legal...

E tomando conta de si:

- Entretanto, ninguém até hoje deu mais lustre ao governo...

O Imperador não lhe perdoou, jamais, esse ímpeto, vetando, como se viu depois, o seu nome, que era o mais votado da lista

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

DISCURSO DE COELHO NETO

Discurso na Última Sessão no Silogeu Brasileiro

DISCURSO DO SR. COELHO NETO
A Consagração da França

A ACADEMIA Brasileira nasceu no escritório da Revista Brasileira, no primeiro andar de um prédio humilde na antiga Rua Nova do Ouvidor, hoje Sachet. Duas salas acanhadíssimas: redação em uma, secretaria em outra.
Dos sócios da casa o menos assíduo era o sol, representado, quase sempre, pelo gás, porque, desde a escada, tinha-se a impressão de que, em tal cacifo, mal os galos começavam a cantar Matinas, a Noite recolhia a sua sombra, pelo menos a parte com que escurecia o quarteirão logo que o sino grande de São Francisco, lentamente em sons graves, dobrava as Ave-Marias.
Na redação reuniam-se, diariamente, chuchurreando um chá chilro, José Veríssimo, diretor da Revista, Paulo Tavares, secretário, Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Lúcio de Mendonça, Graça Aranha, Paula Ney, Domício da Gama, Alberto de Oliveira, Rodrigo Octavio, Silva Ramos e Filinto de Almeida.
Por vezes apareciam Bilac, Guimarães Passos, Raimundo Correia, Valentim Magalhães, Pedro Rabelo e outros.

Andava eu, então, publicando na Revista um romance – Agareno, – posteriormente crismado em Tormenta, e só me atrevia a afrontar-me com a treva da escada carunchosa e rangente, na qual, mais duma vez, encontrei ratazanas pré-históricas, quando recebia chamado para rever provas.
Com o negrume do recinto contrastava o brilho da palestra que ali se tratava. Se as idéias fulgissem e as imagens relumbrassem, certo não haveria em toda a cidade casa mais iluminada do que aquela. Infelizmente, porém, apesar dos conceitos diamantinos de Machado de Assis, do esplendor dos períodos de Nabuco, da cintilação espírito de Lúcio e dos paradoxos relampejantes de Paula Ney, era necessário manter sempre aceso um bico, ao menos, de gás, para que tantos luzeiros não andassem aos esbarros desmantelando pilhas de brochuras, abalroando nas mesas, que eram duas, uma das quais de pinho reles e tripeta, claudicando sob o peso glorioso de obras-primas à espera de editores.
Foi em tal pobreza obscura, como a do presepe (honni soit qui mal y pense!), que nasceu a Academia e, se anjos não esvoaçaram no beco, anunciando o natal da Instituição, cá em baixo, na terra rasa, teve a recém-nascida vozes que, se não a glorificaram com Hosanas, fartaram-se de a arrastar anunciando-lhe a morte com prognósticos ridículos.

Fraca, entanguida, morre, não morre, a Academia só não sucumbiu porque teve a desvelá-la a dedicação dos seus fundadores, que a aleitavam com esperanças, leite muito dessorado, e envolviam-na, para aquecerem-na, em faixas de entusiasmo.
Lúcio era o mais corajoso e solícito dos aios da pobrezinha. Foi ele que a vacinou com a linfa da perseverança; foi ele que a curou da coqueluche, que lhe pôs ao pescoço o colar de âmbar para evitar as crises da dentição, que a batizou no templo das musas e que lhe incutiu n’alma a grande Fé, tônico que a fortaleceu para vencer os percalços da primeira infância. Um dia – já, então, a Academia andava por seu pé, falava e comia de garfo nos famosos jantares da “Panelinha”, Machado de Assis, que era o seu Presidente, comunicou que o Governo resolvera dar à instituição, reconhecida de utilidade pública – instalação condigna em uma das alas do Silogeu, dotando-a ainda com uma verba de vinte contos anuais para sua manutenção.
Com tal benefício ficaram os acadêmicos dispensados da mensalidade com que contribuíam e, em vez do que lhes saía do bolso, muito ratinhado, passaram a receber a cédula de presença na importância de vinte mil réis.
E a Academia começou a funcionar com regularidade, e cadeiras, no edifício da Lapa, onde o sol entra a jorros e com o sol o estrondo dos bondes e de mil outros veículos perturbadores do silêncio e da serenidade. Certo dia – a Política não tem entranhas! – o Congresso, por motivos que a História ainda não averiguou, resolveu suspender a cesta dos pastéis e a Academia voltou ao regime da penúria, celebrado por Aristófanes e Licurgo – e as sessões tornaram-se pouco freqüentadas e desinteressantes. Foi nesse período de aperturas que a Morte, rebentando uma represa da Fortuna, fez com que rolasse para a Academia um rio de ouro.
O fenômeno causou surpresa, o macaréu chegou a provocar protestos e a Inveja açulou contra a que se deitara em estrame e acordara em leito atálico, toda a matilha do seu ódio.
O que se disse da herdeira, santo Deus! O interessante, porém (sempre a raposa da fábula!), é que muitos dos que mais se acirraram contra a vinha andam-lhe agora em volta, em cúpido farisco, d’olho nos cachos, que já lhes não parecem verdes, procurando meios de guindar-se pela cepa até alcançarem lá em cima os bagos sumarentos.

Eis que agora a França, não só acrescenta as posses da Academia com valores preciosos, como ainda lhe dá o prestígio de um prêmio de honra, fazendo-a legatária do palácio, que edificou para sua residência, na Avenida das Nações, com as riquezas que o exornam e que são exemplares, e dos mais belos, do seu patrimônio artístico, que ela, decerto, não confiaria a quem não fosse digno de os possuir. Que dirão de tal gesto os que tudo nos negam? Pois a França, a quem se não contesta a hegemonia intelectual, reconhece oficialmente a Academia Brasileira? A França de Montaigne e de Racine, de Rabelais e de Molière, de Ronsard e de Hugo, de Voltaire e de Anatole, acolhe no seu girão o Brasil de Gonçalves Dias e Alencar, de Castro Alves e Machado de Assis, de Álvares de Azevedo e Bilac, de Aluísio e Raimundo Correia!? Mas então nós somos alguma coisa... Ora esta!
Não há como o estrangeiro para descobrir o que temos, não só na terra, em belezas naturais, como nas criações da inteligência.

É possível que, de hoje em diante, assim como já nos interessamos por certas paisagens, louvadas pelos que nos visitam, leiamos os nossos autores dignificados pela França. Já não é sem tempo...
E não terminarei sem algumas palavras à nossa Academia. Não as direi eu, mas o grande Bernardes, que mas emprestará de uma das suas mais formosas selvas. Medite-as a Academia dos Felizes, porque há nelas conselho:

Na Igreja Primitiva os Cálices eram de madeira, como consta do Concílio Triburiense, celebrado em tempo do Papa Formoso, ano 895, e destes usaram os Sagrados Apóstolos, como diz Honório Augustudunense, citado por Bernardo Bispo na sua Hierurgia. E essa é a razão daquele tão decantado apotegma de S. Bonifácio Mártir, bispo de Mogúncia, que perguntado se era lícito consagrar em cálice de pau, respondeu: “Antigamente os cálices eram de pau, e os sacerdotes de ouro; agora os cálices são de ouro, e os sacerdotes de pau.”

GATO HERDA 24 MILHÕES

Tommaso é um gato preto de quatro anos que tinha tudo para 'dar' errado na vida, se acreditasse em superstições. Mas aconteceu exatamente o contrário. Ele acaba de herdar cerca de 10 milhões de euros (R$ 24 milhões) de sua dona, identificada apenas como uma viúva de 94 anos de idade. A idosa morreu na Itália em novembro e deixou para o gatinho essa humilde fortuna.
O testamento foi escrito um ano antes da velhinha morrer. Ela havia pedido para seus advogados que procurassem uma entidade protetora, mas nenhuma foi aprovada. A viúva conheceu então Stefania, uma enfermeira que também gostava de animais.
Stefania acabou trabalhando com a senhora e com Tommaso até a morte dela, quando descobriu que havia herdado os milhões para cuidar adequadamente do gato 'orfão'.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Bendito o que, na terra, o fogo fez, e o teto

BENEDICITE!


Olavo Bilac


Bendito o que, na terra, o fogo fez, e o teto;
E o que uniu a charrua ao boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que, do chão abjeto,
Fez, e aos beijos do sol, o ouro brotar do trigo;

E o que o feno forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu; e o que achou o alfabeto;
E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano;
E o que inventou o canto; e o que criou a lira;
E o que domou o raio; e o que alçou o aeroplano...

Mas bendito, entre os mais, o que, no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

sábado, 10 de dezembro de 2011

O túmulo beijado

Ruy Castro

O túmulo beijado


RIO DE JANEIRO - De 1895 a 1900, quando morreu, Oscar Wilde passou por toda espécie de tormentos que um ser humano poderia suportar. Meteu-se num imprudente processo por homossexualismo, ao ter um caso público com o filho de um nobre, e perdeu o caso. Na Inglaterra vitoriana, era crime ser gay. O tribunal condenou-o a dois anos de trabalhos forçados na penitenciária de Reading, onde ele foi cuspido e teve a cabeça raspada.
A ideia de ver um gigante como Wilde (1,90 m) humilhado e submetido a violências e privações por guardas boçais parece quase inacreditável. Mas aconteceu e, mesmo assim, ele conseguiu até escrever na prisão: o poema "Balada do Cárcere de Reading" e a memória "De Profundis", em forma de longa carta para Bosie, o jovem amante responsável por sua desgraça.
Libertado em 1897, falido e em desgraça em Londres, Wilde partiu para o degredo em Paris. Lá, esmolou agressivamente nas ruas. Viu manchas vermelhas aparecerem em seus braços, peito e costas, seguidas por erupções em todo o corpo. Teve um abscesso purulento no ouvido (tratado com morfina e ópio) e meningite. A 30 de novembro de 1900, seu corpo literalmente explodiu -liquefez-se. Ele tinha 46 anos.
Wilde foi enterrado no cemitério do Père-Lachaise e, como sua reabilitação literária foi imediata, seu túmulo sempre atraiu romeiros. Mas, de alguns anos para cá, eles não se limitam a contemplá-lo. Beijam-no e escrevem mensagens de admiração e amor, a lápis e batom. A cada limpeza, a pedra se desgasta. Na semana passada, para conter o processo, o túmulo ganhou uma redoma de vidro.
De cuspido por alguns a beijado por milhares -o que Wilde diria disso? Na verdade, sem saber, ele já disse: "A única diferença entre um santo e um pecador é que o santo tem um passado e o pecador, um futuro".

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

QUEM NESTE NATAL SE EU GRITASSE ME OUVIRIA DENTRE AS LEGIÕES DE ANJOS CELESTES?

QUEM NESTE NATAL SE EU GRITASSE ME OUVIRIA DENTRE AS LEGIÕES DE ANJOS CELESTES?

ROGEL SAMUEL

Neste ano, neste Natal de tanta espera, nesta época da guerra que nunca acaba, é para compreender o significado do nascimento, do renascimento de Cristo, e para isso relendo o Capítulo 10, do Evangelho de São João, onde está: "Minha vida, ninguém a pode tirar; ao contrário, eu espontaneamente a dou".

* * *

O que Ele diz ali é encontrado também em outro lugar, que em Jó, 3-16: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." Pois, repetia Ele: "Dou a minha vida pelas minhas ovelhas" (João, 10-16), significando que as protegeria, com seu próprio corpo, contra si, e a todo custo.

* * *

Naquela hora, depois de ter exposto aquilo, alguns homens pegaram em pedras para o apedrejar, ao que Jesus respondeu-lhes, segundo o texto bíblico: "pegaram pela segunda vez em pedras para o apedrejar. Disse-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas da parte de meu Pai. Por qual dessas obras me apedrejais? Eles responderam-lhe: Não é por causa de alguma boa obra que te queremos apedrejar, mas por uma blasfêmia, porque, sendo homem, te fazes Deus. Replicou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Vós sois deuses" (Sl 81,6)?.

* * *

Ora, pratico e estudo algumas das diversas formas de budismo há quase quarenta anos - theravada, zen e tibetano - e quanto mais estudo o budismo mais cresce minha admiração - minha veneração - pela figura e ensinamento de Cristo, dos maiores de todos os compassivos, dentre os mais legítimos representantes da pura compaixão, da mais pura compaixão pelos seres que ele chamava de "ovelhas", e a si pastor.

«Em verdade vos digo que eu sou a porta das ovelhas», ele discorria. Ou seja, com seu exemplo máximo, a doação à causa humana, sabia que iria tornar-se símbolo, líder. Pois, que é um líder, senão aquele a que todos seguem? "A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas, e as traz para fora. E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz". Assim reconhecem a sua voz, a fala do amor, da compaixão e da bondade.


* * *


Mas que significa aquilo: "Vós sois deuses"?

Que somos seres humanos, capazes de tudo, até mesmo do amor, da compaixão e da bondade?

* * *

Pois ameaçaram apedrejá-lo ao que ele replicou: Tenho-vos mostrado muitas obras boas. Por qual dessas obras me apedrejais? Os homens responderam que era pela blasfêmia - afinal ele dizia "Sou o filho de Deus", ou "Eu e o Pai somos um". E ele: "Como acusais de blasfemo aquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo, porque eu disse: Sou o Filho de Deus?" "Procuraram então prendê-lo, mas ele se esquivou das suas mãos. Ele se retirou novamente para além do Jordão, para o lugar onde João começara a batizar, e lá permaneceu. Muitos foram a ele e diziam: João não fez milagre algum, mas tudo o que João falou deste homem era verdade. E muitos acreditaram nele".

* * *


Neste fim de ano de tantas mortes, - de guerras políticas, religiosas, ideológicas, econômicas, - dá para compreender a definição, dá para ter esperança na acepção, na herança do representar do nascimento, do renascimento dos sentimentos humanos, do renascimento do sentido de Cristo, porque reconhecemos a sua nossa voz como a sua nossa voz do amor, a sua nossa voz da compaixão, da bondade ilimitada, suavidade ilimitada, pois, como escreveu Rilke, na "Primeira elegia":

Quem se eu gritasse, dentre as legiões de Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte.

Rogel Samuel

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

FLORBELA ESPANCA


FLORBELA ESPANCA

Rogel Samuel


Para Florbela Espanca a dor é, e estranhamente, um convento. No seu famoso soneto «A minha dor», escreveu ela: « A minha Dor é um convento»:

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.
Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...
A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!
Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...

Florbela era mulher bonita, extraordinária poetisa. Chamava-se Flor Bela de Alma da Conceição. Seu sucesso é posterior e recente. Otto Maria Carpeaux não a reconhece, na sua gigantesca História da Literatura Ocidental. A arte de Florbela é antiquada, seu «Livro das Mágoas», publicado em 1919, é livro não modernista, numa época em que apareceu a Bauhaus, em Weimar, fundada por W. Gropius, em que aparece  Miró, com seu «Nu com espelho». Florbela continua cultuando o velho soneto, à moda parnasiana. Hernâni Cidade referirá "a violenta contradição entre o conceito de poesia de duas épocas distantes ou próximas". Mas é, possivelmente, António Ferro que, num artigo do Diário de Noticias, logo em Janeiro de 1931, chama a atenção para a poesia de Florbela.

O primeiro verso canta:« A minha Dor é um convento ideal».

Como interpretar esse verso, esse convento? Talvez pela solidão, o abandono... mas isso é uma deformação do sentido ideal de convento. As freiras lá não estão senão porque comungam e comungam com Deus, com Cristo. Um convento doloroso é uma contradição de termos, idéia de que alguém lá tivesse sido colocado à força, algo como uma prisão solitária, vazia e sinistra. Principalmente “ideal”. De forma que esse verso, « A minha Dor é um convento ideal» determina as significações do inteiro soneto. E mais:

« Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.»

- mantém um segredo, ou melhor, uma «bela» contradição, pois que, se ali há claustros, sombras, a pedra em convulsões sombrias, há também «requinte», ou seja, apuro, refinamento, elegância, esmero, elevação, perfeição, volutas simétricas, arcos belos de pedras convulsionadas, Florbela transpôs, contagiou o seu secreto claustro com toda a sua sensualidade feminina, com o seu erotismo amante, esses arcos nada místicos ou de um misticismo tântrico, amoroso, sexualizado, corporal, poderosamente inscrito nas paredes, reescrito nas curvas, nas ancas, nas pernas daquela construção ideal e reservada à sua agonia amorosa, onde « os sinos têm dobres de agonias Ao gemer, comovidos, o seu mal...», o seu pecado, o seu som de funeral.  Há lírios, mas belos, há:

«Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!»

Florbela contradiz o seu misticismo feminino, a beleza mística, na solidão final de seus versos:

« Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...»

- onde se ouvem os sinos tocarem, nesses «em» três vezes repetidos.

Filha ilegítima, nascida em 8 de dezembro de 1894, Florbela se mata em 1930. Não foi pobre, teve 3 maridos e 2 divórcios, algo incomum, na época. Estudou Direito, em Lisboa. Culta. Editou seus próprios livros: «Livro de mágoas» em 1919, e «Livro de Soror Saudade», em 23. Não era conservadora, como disse. Mas avançada para seu tempo. E feminista. Era. Matou-se. Sua morte ela o anunciou em carta. Não conheceu o seu grande sucesso posterior.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

As notícias dos amigos

As notícias dos amigos

Rogel Samuel

Quando ficamos velhos, as notícias dos amigos são sempre más. Este teve um AVC, aquele morreu, esta está com um câncer, e assim vai.
Parece que aos velhos só estão reservadas as catástrofes.
Mas não é bem assim. Às vezes nos chegam surpresas, e boas.
 A última que me chegou foi a minha eleição como sócio correspondente da Academia Amazonense de Letras.
Para quem não conhece a AAL, isto não parecerá importante.
Mas eu a bem conheço.
É uma instituição seletíssima, onde estão nomes de governadores, senadores, e grandes escritores do passado.
Eu a respeito como o seio da excelência

Os correspondentes da Academia: A lista é ilustre. Inclui, no Rio de Janeiro, Ruy Barbosa, Coelho Neto, Graça Aranha, Humberto de Campos, meu ex-professor Tristão de Ataíde, e por aí vai.

Por isso, quando recebi o telefonema do Presidente José Braga dizendo que eu havia sido "aclamado" (foi a palavra que usou) sócio correspondente da Academia Amazonense de Letras, quando ouvi a notícia eu me senti orgulhoso de pertencer a tão importante galeria.


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A BONECA ROUBADA

A BONECA ROUBADA

Rogel Samuel

Eram duas irmãs húngaras Ilona e Helena.

Ilona se extasiou quando pequena por uma boneca de uma vitrine que havia perto da praça Ferencike Ter.

Foi a que, exatamente aquela, mas por acaso, sua irmã Helena ganhou de presente de aniversário.

Ora, ainda que tivesse ganho muitas outras bonecas caras (já que a família era muito rica, antes da invasão comunista), Ilona nunca perdoou sua irmã Helena por ter conquistado a posse daquela que era a sua amada.

Veio a guerra. A destruição. A morte. Tropas avançavam, vindas do Oriente e depois de todos os lados. A família teve de fugir, apavorada. E nada puderam levar. No desespero dos últimos minutos antes da partida, as bombas já rebentando na rua, a família se separou, dividiu e se perdeu.

Enfim, após a acidentada viagem, Ilona conseguiu vir para o Brasil, com o pai.

E Helena e a mãe se socorreram na Suíça.

Acontece que, na hora da aflição extrema, no desespero da fuga, ninguém viu que a menina Ilona conseguiu meter escondida em meio às suas saias a boneca da irmã que ela amava tanto.

A boneca estava abandonada pela irmã Helena, junto com todos os objetos pessoais da família, que nada pôde levar além da roupa do corpo.

Mesmo as jóias que sua mãe procurou conservar no bolso acabaram sendo arrestadas pelos policiais.

Por fim desampararam a velha avó às margens da estrada, pois, fraca e doente, não podia acompanhar a caminhada.

Após esta tragédia, os anos se passaram, a vida deu meia volta, prosseguiu nos seus eixos e à sua maneira.

Um dia, Helena, que já estava casada com Peter em Paris, descobriu que a irmã Ilona, viúva rica, estava morando no Brasil.

Helena soube também que Ilona guardava ainda a sua boneca perdida.

Depois disso, Helena só pensava em recobrar a sua boneca húngara e acabou vindo com o marido até São Paulo, onde Ilona residia.

E após muito esforço e muita discussão acabou recuperando a boneca.

Mas logo passado pouco tempo, Ilona apareceu em Paris, foi visitar a irmã Helena e lá conseguiu seduzir o marido dela, Peter.

Ilona fugiu para o Brasil com Peter, abandonando a boneca roubada.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

CONY SOBRE HUMBERTO DE CAMPOS


Carlos Heitor Cony confirma a popularidade de
Humberto de Campos:


"Eu considero o melhor cronista brasileiro o Humberto de Campos, que hoje está completamente esquecido; porque ficou faltando na obra do Campos um romance, uma obra não subordinada ao tempo. Quando o Humberto de Campos morreu, em 1934, eu era
criança, e o comércio do Rio de Janeiro fechou as portas. Era luto nacional que ninguém decretou. Isso porque todo mundo lia Humberto de Campos. Ele morreu cedo, com 48 anos, numa operação. Foi uma comoção. Ninguém chegou à popularidade de
Humberto de Campos. A melhor crônica dele chama-se “Um amigo de infância”. É a mais bonita da literatura brasileira". 


( Roberta Scheibe - Entrevista concedida por Carlos Heitor Cony à autora em 2003, na Universidade de Passo Fundo, para a monografia intitulada “Crônica: o diálogo entre Literatura e Jornalismo”).

UM AMIGO DE INFÂNCIA
(Memórias, 1933.)

Humberto de Campos
No dia seguinte ao da mudança para a nossa pequena casa dos Campos, em Parnaíba, em 1896, toda ela cheirando ainda a cal, a tinta e a barro fresco, ofereceu-me a Natureza, ali, um amigo. Entrava eu no banheiro tosco, próximo ao poço, quando os meus olhos descobriram no chão, no interstício das pedras grosseiras que o calçavam, uma castanha de caju que acabava de rebentar, inchada, no desejo vegetal de ser árvore. Dobrado sobre si mesmo, o caule parecia mais um verme, um caramujo a carregar a sua casca, do que uma planta em eclosão. A castanha guardava, ainda, as duas primeiras folhas unidas e avermelhadas, as quais eram como duas jóias flexíveis que tentassem fugir do seu cofre.
- Mamãe, olhe o que eu achei! - gritei, contente, sustendo na concha das mãos curtas e ásperas o mostrengo que ainda sonhava com o sol e com a vida.
- Planta, meu filho... Vai plantar... Planta no fundo do quintal, longe da cerca...
Precipito-me, feliz, com a minha castanha viva. A trinta ou quarenta metros da casa, estaco. Faço com as mãos uma pequena cova, enterro aí o projeto de árvore, cerco-o de pedaços de tijolo e telha. Rego-o. Protejo-o contra a fome dos pintos e a irreverência das galinhas. Todas as manhãs, ao lavar o rosto, é sobre ele que tomba a água dessa ablução alegre. Acompanho com afeto a multiplicação das suas folhas tenras. Vejo-as mudar de cor, na evolução natural da clorofila. E cada uma, estirada e limpa, é como uma língua verde e móbil, a agradecer-me o cuidado que lhe dispenso, o carinho que lhe voto, a água gostosa que lhe dou.
O meu cajueiro sobe, desenvolve-se, prospera. Eu cresço, mas ele cresce mais rapidamente do que eu. Passado um ano, estamos do mesmo tamanho. Perfilamo-nos um junto do outro, para ver qual é mais alto. É uma árvore adolescente, elegante, graciosa. Quando eu completo doze anos, ele já me sustenta nos seus primeiros galhos. Mais uns meses e vou subindo, experimentando a sua resistência. Ele se balança comigo como um gigante jovem que embalasse nos braços o seu irmãos de leite. Até que, um dia, seguro da sua rijeza hercúlea, não o deixo mais. Promovo-o a mastro do meu navio e, todas as tardes, lhe subo ao galho mais empinado, onde, com o braço esquerdo cingindo o caule forte, de pé, solto, alto e sonoro, o canto melancólico da "Chegança", que é, por esse tempo, a festa popular mais famosa de Parnaíba:
Assobe, assobe, gajeiro,
Naquele tope real...
Para ver se tu avistas,
Otolina,
Areias de Portugal!
Mão direita aberta sobre os olhos, como quem devassa o horizonte equóreo, mas devassando, na verdade, apenas os quintas vizinhos, as vacas do curral de Dona Páscoa e os jumentos do sr. Antônio Santeiro, eu próprio respondo, com minha voz gritada, que a ventania arrasta para longe, rasgando-a, como uma camisa de som, nas palmas dos coqueiros e nas estacas das cercas velhas, enfeitadas de melão-são-caetano:
Alvíssaras meu capitão,
Meu capitão-general!
Que avistei terras de Espanha.
Otolina,
Areias de Portugal!
A memória fresca, e límpida, reproduz, uma a uma, fielmente, todas as passagens épicas, todas as canções melancólicas e singelas da velha lenda marítima com que o majestoso mulato Benedito Guariba, uma vez por ano, à frente dos seus caboclos improvisados em marujos portugueses, alvoroça as ruas arenosas de Parnaíba. O vento forte, vindo das bandas da Amarração, dá-me a impressão de brisa do oceano largo. O meu camisão branco, de menino da roça, paneja, estalando, como uma bandeira solta. O cajueiro novo, oscilando comigo, dá-me a sensação de um mastro erguido rolando diante de mim, na curva do horizonte, onde o céu e o mar se beijam e misturam, as terras claras de Espanha, e areias de Portugal.
Pouco a pouco, a noite vem descendo. Um véu de cinza envolve docemente os coqueiros dos quintais próximos. Os bezerros de Dona Páscoa berram com mais tristeza. As vacas, apartadas deles, respondem com mais saudade. Os jumentos do sr. Antônio Santeiro zurram as cinco vogais e o estribilho "ípsilon", marcando sonoramente as seis horas. Os do sr. Antonio do Monte, ao longe, conferem e confirmam o zurro, o focinho para o alto, olhando o milho de ouro das primeiras estrelas. E eu, gajeiro de uma nau ancorada na terra, desço tristemente do folhudo mastro do meu cajueiro, sonhando com o oceano alto, invejando a vida tormentosa dos marinheiros perdidos, que não tinham, pelo menos, a obrigação de estudar, à luz de um lampião de querosene, a lição do dia seguinte...
Aos treze anos da minha idade, e três da sua, separamo-nos, o meu cajueiro e eu. Embarco para o Maranhão, e ele fica. Na hora, porém, de deixar a casa, vou levar-lhe o meu adeus. Abraçando-me ao seu tronco, aperto-o de encontro ao meu peito. A resina transparente e cheirosa corre-lhe do caule ferido. Na ponta dos ramos mais altos abotoam os primeiros cachos de flores miúdas e arroxeadas como pequeninas unhas de crianças com frio.
- Adeus, meu cajueiro! Até à volta!
Ele não diz nada, e eu me vou embora.
Da esquina da rua, olho ainda, por cima da cerca, a sua folha mais alta, pequenino lenço verde agitado em despedida. E estou em S. Luís, homem-menino, lutando pela vida, erijando o corpo no trabalho bruto e fortalecendo a alma no sofrimento, quando recebo uma comprida lata de folha acompanhando uma carta de minha mãe: "Receberás com esta uma pequena lata de doce de caju, em calda. São os primeiros cajus do teu cajueiro. São deliciosos, e ele te manda lembranças..."
Há, se bem me lembro, uns versos de Kipling, em que o Oceano, o Vento e a Floresta palestram e blasfemam. E o mais desgraçado dos três é a Floresta, porque, enquanto as ondas e as rajadas percorrem terras e costas, ela, agrilhoada ao solo com as raízes das árvores, braceja, grita, esgrime com os galhos furiosos, e não pode fugir, nem viajar... Recebendo a carta de minha mãe, choro, sozinho. Choro, pela delicadeza da sua idéia. E choro, sobretudo, com inveja do meu cajueiro. Por que não tivera eu, também, raízes como ele, para me não afastar nunca, jamais, da terra em que eu, ignorando que o era, havia sido feliz?
Volto, porém. O meu cajueiro estende, agora, os braços, na ânsia cristã de dar sombra a tudo. A resina corre-lhe do tronco, mas ele se embala, contente, à música dos mesmos ventos amigos. Os seus galhos mais baixos formam cadeiras que oferece às crianças. Tem flores para os insetos faiscantes e frutos de ouro pálido para as pipiras cinzentas. É um cajueiro moço, e robusto. Está em toda a força e em toda a glória ingênua da sua existência vegetal.
Um ano mais, e parto novamente. Outra despedida; outro adeus mais surdo, e mais triste:
-Adeus, meu cajueiro!
O mundo toma-me nos seus braços titânicos, arrepiados de espinhos. Diverte-se comigo como a filha do rei de Brobdingnag com a fragilidade do capitão Guliver. O monstro maltrata-me, fere-me, tortura-me. E eu, quase morto, regresso a Parnaíba, volto a ver minha casa, e a rever o meu amigo.
- Meu cajueiro, aqui estou!
Mas ele não me conhece mais. Eu estou homem; ele está velho. A enfermidade cava-me o rosto, altera-me a fisionomia, modifica-me o tom da voz. Ele está imenso e escuro. Os seus galhos abraçam coqueiros, afogam laranjeiras que noivam, ou ultrapassam a cerca e vão dar sombra, na rua, às cabras cansadas, aos mendigos sem pouso, às galinhas sem dono... Quero abraçá-lo, e já não posso. Em torno ao seu tronco fizeram um cercado estreito. No cercado imundo, mergulhado na lama, ressona um porco... Ao perfume suave da flor, ao cheiro agreste do fruto, sucederam, em baixo, a vasa e a podridão!
- Adeus, meu cajueiro!

Os correspondentes da Academia


Os correspondentes da Academia

Rogel Samuel

A lista é ilustre. Inclui, no Rio de Janeiro, Ruy Barbosa, Coelho Neto, Graça Aranha, Humberto de Campos, meu ex-professor Tristão de Ataíde, e por aí vai.

Por isso, quando recebi o telefonema do Presidente José Braga dizendo que eu havia sido "aclamado" (foi a palavra que usou) sócio correspondente da Academia Amazonense de Letras, quando ouvi a notícia eu me senti orgulhoso de pertencer a tão importante galeria.

O escritor vive dessas pequenas conquistas.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A História do Brasil, de Pedro Calmon

A História do Brasil, de Pedro Calmon

Rogel  Samuel

Acordo cedo. Recebo, ainda em roupa de dormir, na porta, a visita de um amigo, que me vem buscar a “História do Brasil”, em sete volumes, de Pedro Calmon. Ele é um estudioso do Doutor Pedro. Aproveito e lhe dou duas sacolas cheias de livros, porque sei que meu amigo mora em casa grande no subúrbio. Os livros não têm espaço no meu apartamento. Biblioteca sempre foi um problema, para mim. Compro muito e dou muitos livros. Nunca os vendo. Livros amontoados pelos cantos, já lidos. Poucos lidos estão nas poucas estantes. Os outros, em fila dupla, ou deitados, escondidos. Hoje se foram os sete volumes da História do Brasil, do Doutor Pedro. Vou sentir sua falta. Ah, isso vou.