quinta-feira, 15 de maio de 2008

CAPÍTULO ONZE

O BRAÇO ERGUIDO DE APOLO



- Pare o carro, disse Scholz para o cocheiro da sua vitória.
Os dois saíram do carro e começaram a caminhar debaixo daquelas sombras das árvores do largo de São Sebastião.
- Sim, disse Lima Silva, a estátua de Apolo ficaria em cima do arco do frontão.
- Que significam aquelas duas figuras no centro do arco? – perguntou Scholz, apontando para cima com a ponta do guarda-chuva.
- As belas artes e as artes liberais, respondeu o outro. O escudo no centro marca a data da inauguração.
- E por que não colocaram a estátua de Apolo? – perguntou Scholz, olhando fixamente para Lima Silva.
- Não sei. Dizem que não foi colocado sobre o frontão por excesso de peso, respondeu Silva. Mas tenho outra interpretação.
- Como assim? Que interpretação?
- Apolo era um colosso de quase cinco metros, na mão esquerda uma lira e a mão direita, levantada e estendida para trás, à altura da cabeça, recompensava as artes. Sentadas no chão, a seu lado, estavam duas figuras, a História e a Fama, respectivamente à direita e à esquerda. Alem disso, duas gigantescas liras ornamentais deveriam estar em cada canto superior da fachada frontal do teatro e também lá não foram postas.
- E por que o busto do Eduardo Ribeiro está ali? – perguntou de repente Scholz.
- Vaidade, tudo é vaidade. Vaidade do ex-governador, disse Silva. Ele está ao lado de Joaquim Manuel de Macedo, do compositor Enrique Mesquita, do ator João Caetano, do compositor Carlos Gomes, do ator Francisco Correia Vasques, do maestro Enrique Gurjão.
E depois de uma pausa:
- Substituiu José de Alencar.
- De quem é o projeto da fachada?
- De Crispim do Amaral, disse Silva.
- O homem dos sete instrumentos.
- Sim.
- E onde estão o grupo de Apolo e as duas grandes liras? Onde as puseram? – quis saber Scholz.
- No lixo!
O milionário abriu bem os olhos e olhou para o amigo.
- Que lixo? – perguntou.
- Estão abandonadas, há vários anos, no pátio da Usina de Bondes da Cachoeirinha... Nem sei se ainda existem.
- Por que abandonadas?
- Amigo, Apolo se tornou deus da música porque venceu Pan em torneio. A partir daí o deus vivia cercado das nove musas. Tocava lira. Aquela estátua foi causa de polêmica, desde que desembarcou em Manaus...
- Por quê?
- Primeiro porque o deus está nu, ou semi-nu, o que ofende à moral da terra: acharam que não ficaria bem colocar um homem nu no alto do arco, como símbolo não sabem de quê.
Riram-se.
- Depois, prosseguiu Lima Silva, há um fato mais sutil, delicado. A sociedade brasileira é extremamente machista. Se ali estivesse uma deusa nua, tudo bem. Em Manaus isto se agrava.
- Compreendo. Na Alemanha também é assim, disse o alemão.
- Além disso, Eduardo Ribeiro é solteiro e há boatos ferinos acerca de sua masculinidade pois, e nunca se soube que ele tivesse mulher. Fala-se de um filho, mas ninguém viu esse filho, até hoje. Ninguém questiona a masculinidade dele na sua frente, porque o baixinho é agressivo, mal humorado e truculento. Se aquela estátua estivesse no cimo do teatro logo alimentaria ilações caluniosas e ironias a respeito dele próprio.
Riram-se, divertidos.
- Mas há um fato mais grave.
- Ainda? - perguntou Scholz, interessado.
- Amigo, aquela estátua, aquele Apolo é muito feminino.
- Como feminino?
- Veja: Apolo segura a lira com o braço esquerdo da mesma forma que uma colegial carrega seus cadernos, abraçada contra a cintura.
- Sim.
- O outro braço, o direito, está horizontalmente estendido para trás, com a palma para baixo, num gesto de desprezo, de dádiva, de doação, de aborrecimento.
- Pois não.
- O braço está levemente erguido à altura da cabeça e a palma e o pulso caem como quem acaba de lançar um punhado de sementes na terra – afinal a estátua representa Apolo recompensando as musas, mas com desdém, com desprezo e ar blasé, com afetação, ele ali não dá importâncias às suas musas, as rejeita, não as leva em conta, e as recompensa como quem diz “peguem essas migalhas que é tudo o que merecem”.
- Continue, disse Scholz, já divertido.
- O punho para baixo e o movimento contorcido e dançante das pernas e do corpo feminino sem grande musculatura do deus que se retorce para algo que está atrás dele, embora ele esteja olhando para a frente, para o alto, e os cabelos compridos e a face feminina não fazem dele um homem, mas sim uma mulher, um eunuco efeminado.
- Sim.
- Por isso aquele Apolo teatral, saído de um cabaré de hetairas, desenhado por Crispim do Amaral para ser a culminância do nosso teatro, foi logo recusado, e rejeitado mesmo para ser colocado em praça pública aos olhos do povo: seria apedrejado! Aquele Apolo é um grande travesti. Seria motivo da chacota do povo.
- Como as pinturas masculinas do interior do teatro, não acha?
- Sim. Mas ali dentro aqueles efebos femininos estão entre mulheres que dançam, disfarçados entre virgens de corpos ágeis que se atropelam pressurosas aos pórticos do espetáculo.
- E as grandes liras, perguntou Scholz. Não há razão subjetiva para ser contra as grandes liras?
- Abandonadas. Sim, aqui não há explicação. Puro descaso. Eu as vi, Scholz, são belíssimas. Imensas, cerca de 3 ou 4 metros de altura. Como impressionantemente belo era o conjunto de Apolo entre duas deusas. Coisa de museu.
(Anos depois, dizem, o governador Álvaro Maia mandou destruir tudo).
- Arte e dinheiro jogados fora.
- Dinheiro público, disse Lima Silva. O grupo de Apolo e as liras de bronze custaram milhares de francos franceses, parece que 46 mil liras. Eram pesadíssimos e maciços, e foram fundidos em Paris, por Koch Frères, que é uma famosa fundição.
- Eu sei. Tenho trabalhos deles no meu jardim.
- Colocado no mais alto da cidade, Apolo condenaria todos os habitante à chacota e ofenderia a masculinidade universal.

JORNAL LITERÁRIO

É assim que Ascendino Leite chama seu diário. Li ontem em Blocos que ele publicou um livro no ano passado. Como ele nasceu em 1915 (creio), está com 93 anos. Li a maioria dos seus diários. Ascendino é dono de um estilo elegante e claro, tem umas frases surpreendentes. Convicto escritor “da direita”. Mas isso não o impede de ser um grande escritor. Não é tão bom romancista quanto cronista. Ainda que seus romances tiveram o maior sucesso de crítica. Escreveu quatro romances, dezesseis volumes de diário, livros de poesia, traduções. Foi jornalista. Recentemente a UFPB publicou sua entrevista com Guimarães Rosa. Ascendino morou no Rio e na velhice voltou para a sua Paraíba. Para mim seu melhor livro é “Um ano no outono”, de 1972. Não é um grande poeta. Sua obra foi elogiada por Alceu, Raquel, Afrânio Coutinho, Gilberto Freire, Jorge Amado etc. Soube fazer amigos e inimigos. Sua arte se resume em: “Não há novas formas de dizer. Há o que dizer, com gosto e com arte. Se me desse propor alguma coisa seria a de uma urgente volta à expressão daquilo que é verdadeiramente comum. (O vigia da tarde, 1982).

quarta-feira, 14 de maio de 2008

ESCREVER

É um vício, oficio do escritor. Escritor é quem tem de escrever para viver. Não para necessariamente ganhar dinheiro com seu ofício, mas pela necessidade biológica. Alguns fazem da sua vida uma torre de papel, e nela vivem. Como Montaigne. Ele escreveu resumo de leituras, comentários, ensaios. Montaigne possuía um castelo. Com torre. Nós vivemos hoje a era pós-papel, pós-civilização escrita. O escrever e o ler sobrevivem. O conceito de livro mudou. Mas a arte de escrever não. O instrumento intelectual mudou. Hoje é o computador. Não apenas o livro. O computador é um livro em luminosidade elétrica. Dá no mesmo. É o nosso catecismo e vade-mecum. A linguagem hoje faz também um espetáculo da tela. Na web está a grande biblioteca do homem atual. André Gide em carta de março de 1892 disse para Paul Valery: “Não se deveriam fazer senão livros na vida: o resto me enfada!”

terça-feira, 13 de maio de 2008

SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS


Hoje comecei a ler o estudo que Neuza Machado escreveu e vai publicar sobre meu romance “O Amante das amazonas”. É um livro, mais volumoso do que o próprio romance, e ela diz que ainda não terminou. Eu fico como um leitor do que escrevi. O original tem quase 200 páginas e o que eu vejo ali é que Neuza Machado é uma apaixonada pelo Amazonas, onde morou dois anos como professora da federal de lá. Neuza é mineira, mas foi seduzida pela grande floresta. Quanto mais o leio, mais sinto que não foi o meu romance o merecedor de tudo aquilo, mas a Amazônia. O último reduto da realidade e natureza dos tempos primitivos. O livro é bom, talvez melhor do que o romance. Eu não me deixo envolver pelo fato e pelo texto, mas estou ansioso que o livro seja logo publicado. Antes de ser um exercício teórico sobre uma “obra literária”, o livro faz a apresentação de um universo. O universo amazônico.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

DO MUNDO NADA SE LEVA

Como diz o povo. Gostaria de saber o dia de minha morte. Venderia tudo, iria para um hotel em Paris. De lá escreveria para meus poucos leitores. Certamente seriam crônicas como esta. Lembro-me de Antony Burgess, autor de minha preferência. Quando o médico lhe disse que estava para morrer escreveu A Clockwork Orange, ou “Laranja mecânica”, seu melhor livro. Não morreu. Ainda escreveu e viveu muito. Escrever é viver. Quem escreveu bons livros viveu bem. Boas crônicas também. A vida é tempo, a crônica é tempo, é cronos. O deus da época dourada. O senhor saturniano do tempo. Estou sem tempo, tenho de sair. A crônica está terminada.

O tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.
(Mário Quintana).

domingo, 11 de maio de 2008

IPANEMA

IPANEMA


Morei em Ipanema, na época de ouro do bairro. Morava numa pensão. Sim, existia pensão em Ipanema, onde hoje existe a grande loja da H. Stern, na Visconde de Pirajá. Eu era jovem e feliz. Em baixo havia uma sorveteria, e em cima os quartos alugados. O prédio pertencia a uma senhora muito idosa, espanhola, que morava nos fundos. Meu quarto dava para a rua e tinha um balcão. Poucos metros adiante, a praia de Ipanema se estendia com deslumbramento. O mundo era novo, a vida nova, o êxtase. Fui feliz, naquele quarto espanhol. Já era professor e tinha um Ford Galaxie LTD gigantesco com que ia dar aula no distante subúrbio de Campo Grande. Ali pensavam que eu era milionário. Mas era mesmo um poeta. Um mau poeta.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

A MORTE DE ARTUR DA TÁVOLA

A MORTE DE ARTUR DA TÁVOLA


A morte de Artur da Távola nos pega de surpresa, pois ele era uma pessoa com uma vitalidade impressionante, com uma capacidade de trabalho gigantesca nos vários caminhos de seu fazer: a política, a literatura, a música, a crítica, os amigos. Ele era bem carioca. Ou melhor: carioca de Ipanema, onde morou quando jovem, onde cresceu vizinho e amigo da minha amiga escritora Clarisse de Oliveira, na rua Garcia Dávila. Falava como um bom homem de Ipanema, um clássico, sorridente, culto, simples. Todos nós éramos envolvidos por seu charme e simpatia, e por sua prosa, por seu texto elegante, machadiano. Houve época em que escrevia diariamente, tanto que eu sempre dizia que era uma equipe. Com ele vai desaparecendo um tipo de pessoa de uma época em que era possível viver em Ipanema ao lado de Tom, Mário Henrique Simonsen, Glauber, Rubem Braga... e os moradores da favela ao lado, todos reunidos no boteco da praça General Osório bebendo e cantando como bons amigos.

O NAUFRÁGIO

O NAUFRÁGIO


Sim, nada mais irresponsável do que viajar pelos rios da Amazônia. Certa vez, fiz o barco retornar. Voltávamos do mesmo lugar do naufrágio, de Manacapuru, o fotógrafo Alberto César Araújo, Azauri Passos e eu. Quando vi o excesso de peso, a instabilidade do barco, gritei para o dono: "Volta!" Berrei feito um louco, fiz um escândalo, eles voltaram e nos deixaram no porto. Meu pai, que era marinheiro
profissional, da Marinha Francesa, nunca permitiu que a família navegasse naqueles "Navios de Linha". Os rios amazônicos são oceanos e os perigos são imensos. As águas cheias de paus, troncos, bancos de areia, torrões, pedrais, salões e muiunas, rebojos, ituranas, panolas, panelões, praias, sacados, jupiás, ipuêras, baixios, cambões, caldeirões, esqueletos, praias de duas cabeças, voltas -obstáculos e perigos da navegação ordinária, de grande ou de pequeno calado,
para navios, motores, canoas, montaria e igarités... O dono do hotel onde me hospedo em Manaus morreu ali, na mesma região. Caiu na água e desapareceu no sorvedouro. Bebe-se muito, durante o trajeto. Há maior número de navios no fundo do que navegando na superfície. Duas brigas dentro do barco "Comandante Sales" podem ter ocasionado o maior naufrágio já ocorrido na região de Manacapuru, totalizando 46 mortos. Não havia saída de emergência aberta. A lona que protege as laterais da embarcação estava amarrada, impedindo a saída dos passageiros no meio da noite. Um sobrevivente conseguiu rasgar a lona e salvar várias vidas. A vida, a preciosa vida.

O GRÊMIO

O GRÊMIO



Outro dia, apareceu aqui a referência ao Grêmio Satírico Gregório de Matos. Éramos jovens, quase meninos. Durou um ano, Ira Esteves, Iran Fersil, Aflopes, Aury Silva Braga, eu, outros. Uma é hoje esposa de um ex-governador. Nunca mais a vi. Aflopes era mais velho e criava (acreditem) uma onça em casa. Tudo era possível, naquela época. Ele trouxe o filhote do interior do Amazonas. Criou. Amava o bicho. Depois, Aflopes sumiu, mudou-se para Belém e sumiu. Uma outra poetisa é tia de um atual senador do Amazonas. Nunca mais a vi. Nosso grêmio era famoso. Mantivemos uma polêmica contra outros poetas, pelos jornais. Contra Benjamin Sanches, autor de "Argila". Um bom poeta. Eu assinava "Calixto Diniz". Sanches escrevia, em resposta: "Cá li isto, que você escreveu". Bons tempos. Boas lembranças. Depois vim para o Rio de Janeiro. Ira foi para Los Ângeles. Separamo-nos. O Grêmio, entretanto, continua presente, no espaço real da poesia perene, lá.
Lá.

terça-feira, 6 de maio de 2008

A APARIÇÃO NA ALAMEDA



Canta o poema «Aparição» de Stéphane Mallarmé (1842-1898), na deliciosa tradução de Onestaldo de Pennafort:

A lua estava triste. Arcanjos sonhadores
Em pranto, o arco nas mãos, no sossego das flores
Aéreas, vinham tirar de evanescentes violas
Alvos ais resvalando entre o azul das corolas.
- Era o dia feliz do teu primeiro beijo.
Para me torturar, meu sonho, meu desejo
Embriagavam-se bem do perfume de queixa
Que mesmo sem remorso e sem motivo deixa,
No coração que o colhe, a colheita de um sonho.
Eu ia à toa, o olhar no chão velho e tristonho,
Quando, trazendo nos cabelos um sol lindo,
Na alameda e na tarde apareceste rindo.
E eu julguei ver, com seu chapéu de luz, a fada
Que nos meus sonos bons de criança mimada
Sempre deixou nevar dentre as mãos mal fechadas
Punhados celestiais de estrelas perfumadas.

Se nós «traduzíssemos» - a lua se entristecia - poderíamos melhor sonhar com a atmosfera do poema. Sim, a lua se entristecia, como os arcanjos que voavam ao redor. A lua se entristecia e fazia os arcanjos chorar. Ou fazia chorar as suas violas lamurientas. O branco vem da lua para os «ais» das violas... Mas por que se entristeceria a lua? Aquele era o feliz dia do seu primeiro beijo, feliz e não triste. O poeta ia colher um sonho, o beijo do verso musical. O arco nas mãos dos anjos soa um pouco fálico, mas em Mallarmé tudo é obscuro. Ele ia, caminhava à toa, olhando o chão velho quando ela aparece com seu sol nos cabelos. Com seu punhado de estrelas nas mãos, para a criança, estrelas perfumadas. O poema parece simples, claro. Mas não, nunca se sabe. Em Mallarmé não.
A lua estava triste, mas o sol aparece. A tristeza ia ali, até que aparece o sol nos cabelos da amada. O poema opõe «sol» e «lua». Geralmente o sol é masculino; como a lua, feminina. Geralmente. A lua pacifica e entristece. O sol aumenta e anima. É assim naquela mitologia tântrica. Aqui o poeta é lua, a amada sol. Não excepcional o fato de Mallarmé ser um poeta «maldito».
Os malditos são os que invertem as coisas, revolucionam e põem tudo de cabeça para o ar. A vida da poesia assim o faz. A poesia é a fada da criança mimada e voluntariosa em seus cuidados. Sem remorso, sem queixa. Não, não há romantismo, mas decadentismo. E simbolismo. Mallarmé faz dançar os seus símbolos, seus arcanjos e convivas do salão da Rue de Rome, no «verbo mágico» das suas «extravagâncias verbais», na volúpia do seu famoso hermetismo, aqui não tão impenetrável. Evasão, magia, mas algo tênue: o poema é quase ainda parnasiano.
Mallarmé ilumina as vitrines de palavras e imagens que dançam em festa galante na alameda da tarde. Por isso o poema musical, deliciosamente valsa.

Para me torturar, meu sonho, meu desejo
Embriagavam-se bem do perfume de queixa
Que mesmo sem remorso e sem motivo deixa,
No coração que o colhe, a colheita de um sonho.

- a música que a embaladora tradução de Pennafort mantém acesa, digo, audível, como em certas assonâncias:

me - meu - meu
vam-se - bem - perfume - quei
mes - sem - mor - sem
coração - colhe - colheita

- tão boa quanto o ritmo do original francês:

Ma songerie aimant à me martyriser
s'enivrait savamment du parfun de tristesse
que même sans regret et sans déboire laisse
la cueillaison d'un rêve au coeur qui l'a cueilli.

Sim, sim, as soluções de Pennarfort são sempre ótimas. Mas ele acaba escrevendo um novo texto. Outro poema. Paródia.

domingo, 4 de maio de 2008

IRANÁRIS FERREIRA DA SILVA


                                  Iranáris Ferreira da Silva (1912 - 2009).

IRANÁRIS FERREIRA DA SILVA
(Iran Fersil)


Iran Fersil




Rogel Samuel





Morreu hoje, às 15 horas, no Rio de Janeiro, o poeta amasonense IRANÁRIS FERREIRA DA SILVA (Manaus 4 de abril 1912 - 24 de setembro 2009), o Iran Fersil. Ele foi jornalista no Rio (A noite) e professor de matemática na Escola Técnica de Manaus.

Ele tinha 97 anos e meio e era casado há 75 anos com sua esposa, Eulice Esteves da Silva, já falecida. Morreu dormindo, de parada cardíaca. Deixou os filhos Maíra Esteves, Nicolino Marinho D'Antona, Renata D'Antona e duas netas, a conhecida escritora Eulícia Esteves (Coordenadora de Música Popular da Funarte) e Isabela Esteves Albrecht, arquiteta, que mora em Paris.

Iranáris era meu amigo há 50 anos. Sua produção poética é muito grande, mas toda publicada nos jornais de Manaus. Ele nunca publicou um só livro. Ele dizia que sua mãe era uma índia Baré.

Era do nosso Grêmio Gregório de Matos. Leia:






POUCO SONHO E MUITO AMOR


Diz-me baixinho, amor; diz, segredando,
palavras de afeto e de carinho,
para que eu vá dormindo de mansinho,
depois desperter mais e mais te amando.
Vem em meus olhos, lado a lado, andando,
para que eu não me sinta tão sozinho;
vem, sem receio, que eu serei bonzinho,
porque sem ti me quedarei chorando.
E nosso par será mui venturoso:
símbolo de amor, de gozo e de ventura
que tanta inveja então há de causar.
Serás feliz, querida, eu bem ditoso,
no lindo sonho cheio de ternura
que de tão belo não devia findar!



VOLTA!

Você voltou! Por que você voltou?
Melhor seria sempre ser ausente.
Pois que mudada está, mui diferente,
não parecendo aquela que me amou.

Perdeu, mesmo, o jeito de inocente
que, noutros tempos, tanto me encantou...
Sorriso, fala... em fim tudo mudou. .
Como possível foi, tão de repente?

Volta! Já não desejo ter agora
o mesmo amor que tive outrora,
que fêz minhalma desvairada, louca.

Vai! Segue, em paz, seus floridos caminhos!...
Que outros possam colher os seus carinhos,
que de o fazer minha vontade é pouca!



MINHA VIDA

É minha vida um grã vergel talhado
por fortes ventos das desilusões;
os flóreos ramos com que hei sonhado
brotam flôres de decepções.

Nos seus canteiros, já não há trinado
a passarada, tão belas canções...
somente anum, em canto magoado,
toca de perto os nossos corações.

Minhalma errante, passa, preocupada,
colhendo, aqui, ali, pétalas caídas
que já não têm um pouco de perfume...

Assim, meu coração, de caminhada,
está deserto de amizades tidas,
guardando um resto de feral ciúme...


POUCO SONHO E MUITO AMOR

Diz-me baixinho, amor; diz, segredando,
palavras de afeto e de carinho,
para que eu vá dormindo de mansinho,
depois desperte mais e mais te amando.

Vem em meus sonhos, lado a lado, andando,
para que eu não me sinta tão sôzinho;
vem, sem receio, que eu serei bonzinho,
porque sem ti me quedarei chorando.

E nosso par será mui venturoso:
simb’lo de amor, de gôzo e de ventura
que tanta inveja então há-de causar.

Serás feliz, querida, eu bem ditoso,
no lindo sonho cheio de ternura
que de tão belo não devia findar!


A MORENA E A ROSA

Dei-lhe uma rosa perfumada e bela
colhida há pouco num dos meus jardins
tenho açucenas cravos e jasmins
mas nenhum’outra se compara a ela.

Nem todas flôres têm felizes fins
mas minha rosa que destino o dela:
iluminando o peito da donzela
dando realce a todos os seus quindins.

No lindo quadro se nos afigura
uma bela e meiga, outra linda e pura
que enfim nos deixa a alma duvidosa

pois entre a flor e a escultural pequena
não sei se a rosa que enfeita a morena
ou se a morena que realça a rosa.

sábado, 3 de maio de 2008


A MISSÃO DE PURNA


Olavo Bilac



(Do Evangelho de Buddha)
[Mantivemos a grafia original]
Ora Buddha, que, em prol da nova fé, levanta
Na India antiga o clamor de uma cruzada santa
Contra a religião dos Brahmanes, - medita.

Immensa, em torno ao sabio, a muldidão se agita :
E há nessa multidão, que enche a planicie vasta,
Homens de toda a especie, Aryas de toda a casta.

Todos os que (a principio, enchia Brahma o espaço)
Da cabeça, do pé, da côxa ou do antebraço
Do deus vieram á luz para povoar a terra :
- Kchátrias, de braço forte armado para a guerra ;
Çakias, filhos de reis; leprosos perseguidos
Como cães, como cães de lar em lar corridos ;
Os que vivem no mal e os que amam a virtude ;
Os ricos de belleza e os pobres de saúde ;
Mulheres fortes, mães ou prostitutas, cheio
De tentações o olhar ou de alvo leite o seio ;
Guardadores de bois ; robustos lavradores ,
A cujo arado a terra abre em fructos e flores ;
Creanças ; anciãos ; sacerdotes de Brahma ;
Párias, Sudras servis rastejando na lama ;
- Todos acham amor dentro da alma de Buddha,
E tudo nesse amor se eterniza e transmuda...
Porque o sabio, envolvendo a tudo, em seu caminho
Na mesma caridade e no mesmo carinho,
Sem distincção promette a toda a raça humana
A bemaventurança eterna do Nirvana.

Ora, Buddha medita...
Á maneira do orvalho,
Que, na calma da noite, anda de galho em galho
Dando vida e humidade ás arvores crestadas,
- Aos corações sem fé e ás almas desgraçadas
Concede o novo credo a esperança do somno :
Mas... as almas que estão, no horrivel abandono
Dos desertos, de par com os animaes ferozes,
Longe do humano olhar, longe de humanas vozes,
A rolar, a rolar de peccado em peccado?...

Ergue-se Buddha :
"Purna!
O discipulo amado
Chega :
"Purna ! é mister que a palavra divina
Da agua do mar de Oman á agua do mar da China,
Longe do Indus natal e das margens do Ganges,
Semeies, atravez de dardos, e de alfanges,
E de torturas ! "
Purna ouve sorrindo, e cala...
No silencio em que está, um sonho doce o embala.
No profundo clarão do seu olhar profundo
Brilham a ancia da morte e o desprezo do mundo.
O corpo, que o rigor das privações consome,
Esqueletico, nú, comido pela fome,
Treme, quasi a cahir, como um bambú com o vento;
E erra-lhe á flor da bocca a luz do firmamento
Presa a um sorriso de anjo...
E ajoelha junto ao Santo :
Beija-lhe o pó dos pés, beija-lhe o pó do manto.

"Filho amado ! - diz Buddha - essas barbaras gentes
São grosseiras e vis, são rudes e inclementes ;
Se os homens (que, em geral, são máos os homens todos)
Te insultarem a crença, e a cobrirem de apodos,
Que dirás, que farás contra essa gente inculta ? "

"Mestre ! direi que é boa a gente que me insulta,
Pois, podendo ferir-me, apenas me injuria...

"Filho amado ! e se a injuria abandonando, um dia
Um homem te espancar, vendo-te fraco e inerme,
E sem piedade aos pés te pizar, como a um verme ?
"Mestre ! direi que é bom o homem que me magôa,
Pois, podendo ferir-me, apenas me esbordôa...
" Filho amado ! e se alguem, vendo-te agonisante,
Te furar com um punhal a carne palpitante ?

" Mestre! Direi que é bom quem minha carne fura,
Pois, podendo matar-me apenas me tortura...

" Filho amado ! e se, emfim, sedentos de mais sangue,
Te arrancarem ao corpo enfraquecido e exsangue
O ultimo alento, o sopro ultimo da existencia,
Que dirás, ao morrer, contra tanta inclemencia ?

" Mestre ! direi que é bom quem me livra da vida...
Mestre ! direi que adoro a mão boa e querida,
Que, com tão pouca dôr, minha carne cançada
Entrega ao summo bem e á summa paz do Nada ! "
" Filho amado ! - diz Buddha - a palavra divina,
Da agua do mar de Oman á agua do mar da China,
Longe do Indus natal e dos valles do Ganges,
Vae levar, atravez de dardos e de alfanges !
Purna ! ao fim da Renuncia e ao fim da Caridade
Chegaste, estrangulando a tua humanidade !
Tu, sim ! pódes partir, apóstolo perfeito,
Que o Nirvana já tens dentro do proprio peito,
E és digno de ir prégar a toda a raça humana
A bemaventurança eterna do Nirvana ! "



Bilac, Olavo. Poesias. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1916:243.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

TEATRO AMAZONAS, 10

TEATRO AMAZONAS, 10

COELHO NETO

-Bolo de cupuaçu? - perguntou Lima Silva, servindo o moço.
- Sim. A vida é a variedade. Assim como o paladar pede sabores diversos, assim a alma exige novas impressões, disse Coelho Neto.
-É uma iguaria amazonense, disse Karl Waldemar Scholz. Mas só na minha casa existe esta receita.
-Por quê? – quis saber o escritor.
-Minha cozinheira aplicou a receita da torta de maça alemã.
-Apfelstrudel? – perguntou Coelho Neto, em perfeita pronúncia alemã.
-Sim, respondeu Scholz. Contém pedaços de castanha do Pará e calda de cupuaçu.
-Uma delícia, disse o escritor, aprovando.

Era dia 10 de setembro de 1899. Coelho Neto deixaria Manaus no dia seguinte, no paquete “Manaus”, posando para o fotógrafo Lucciani.

Coelho Neto, maranhense, filho de um português e de uma índia, desembarcou na noite de 11 de agosto. Estava na cidade há 26 dias, no Hotel Cassina. Ele já era famoso aos 35 anos, descrito por Genesino Braga como alto, magro e discretamente elegante. Tinha publicado, naquela época, sete romances, sete livros de contos, quatro volumes de crônicas, três novelas, dois volumes de “educação moral e cívica”, dois poemas dramáticos, uma balada e uma conferência. Redator da “Gazeta do Rio”, de Patrocínio; e do “Diário de Notícias”, de Rui Barbosa. Professor de história da arte na Escola Nacional de Belas Artes. Mesmo grupo de Bilac, Murat, Aluísio de Azevedo, Raimundo Correia, Paula Ney, Guimarães Passos, Raul Pompéia, Martins Fontes.

Já na primeira noite esteve reunido com a intelectualidade amazonense, ou que lá vivia, como Raul de Azevedo, Fran Paxeco e Cláudio de Sousa, que depois entrou para a Academia Brasileira de Letras.
No dia seguinte, no Teatro Amazonas, foi assistir, junto com o Governador Ramalho, à opereta portuguesa: “Os 28 dias de Clarinha”.
No outro dia, almoço com amigos, a bordo; almoço com Eduardo Ribeiro na sua chácara; almoço na casa do diretor do “Amazonas Comercial”; almoço no Palácio do Governo, na chácara de Inácio Pessoa, na casa de Th. Vaz; visita ao Centro Artístico, ao Congresso, ao Ginásio, à Escola Normal, ao Instituto Benjamin Constant, ao quartel de polícia, ao hospital da Beneficência Portuguesa; e piquenique no Tarumã; baile de gala no “Sport Club” - Coelho Neto parecia chefe de estado. No Teatro Amazonas foi glorificado com duas bandas de música, no meio da operetta, “Dia e noite”, quando Claudio de Sousa, que era médico em Manaus, o saudou: houve hino nacional e discurso do próprio escritor.

-Volto amanhã, disse Coelho Neto.
E acrescentou:
-Estou cansado e saudoso. Deixei no Rio um filho recém-nascido e a viagem foi longa.
- Conte-me sua viagem, indagou, vivamente, Lima Silva.
- Parei no Espírito Santo, na Bahia, em Sergipe, em Pernambuco, na Paraíba, em Fortaleza, no Maranhão, no Pará.

Depois de alguns minutos de conversação, Lima Silva disparou:
- Tem visto Thaumaturgo de Azevedo?

Houve momento de constrangimento. Coelho Neto corou.

O arguto Lima Silva queria saber o que estava por trás daquela viagem, pois o escritor não devia ter vindo a Manaus somente para almoçar e ser homenageado. Sabia que ele era ligado aos militares republicanos, como secretário-geral da Liga de Defesa Nacional. Coelho casou-se com Maria Gabriela Brandão, logo após a Proclamação da República, tendo como padrinho o próprio Presidente Deodoro da Fonseca. O casal teve treze filhos, dos quais só sete sobreviveram. Devia conhecer de perto o ex-governador Thaumaturgo, que era amigo de Deodoro.
- Sim, o tenho visto, disse ele, meio sem jeito.
- E Fileto Pires Ferreira? – perguntou Lima Silva.
- Este está recluso na sua casa no Andaraí. Mora no meio de um pântano...
- No meio da floresta?
- Sim, não visita ninguém, nem recebe, mas luta por seus direitos. Está preparando um livro que vai chamar-se “A verdade sobre o caso do Amazonas”. Por aqui ninguém fala dele, só de Eduardo Ribeiro.
- Sim, é verdade.
- É a glorificação do Eduardo Ribeiro. O governo de Fileto parece que nem existiu, que foi uma nulidade.
- Não foi, respondeu Lima Silva. Foi melhor do que o de Eduardo.
- Como assim? – quis saber Coelho.
- Fileto governou 19 meses. Eduardo 4 anos. No Governo de Eduardo Ribeiro houve a construção das pontes sobre os igarapés de Manaus, de Bitencourt, da Cachoeirinha, de Flores, o aterro do Igarapé do Espírito Santo, o calçamento das ruas 7 de Setembro, 24 de Maio e av. Eduardo Ribeiro, o início da iluminação elétrica, o início da construção do Palácio do Governo, do prédio da Imprensa Oficial e do Palácio de Justiça, o reinício das obras do Teatro Amazonas, a abertura do Cemitério de São João Batista, a abertura da estrada para o Rio Branco.
- Tudo isso? Perguntou o escritor maranhense?
- Sim. Mas nos 19 meses do Governo de Fileto Pires houve a inauguração, a 22 de outubro de 1896, do Serviço de Eletricidade, com 222 lâmpadas, contratado no Governo anterior. Melhoramentos, escavações, nivelamentos e calçamentos das ruas 7 de Dezembro, Demetrio Ribeiro, Quintino Bocaiúva, Marechal Deodoro, Independência, Barroso, Saldanha Marinho, Marcilio Dias, 10 de Julho, Jose Clemente, Monsenhor Coutinho (Progresso), Emilio Moreira, Ramos Ferreira, Ipixuna, Oriental e Marques de Santa Cruz, num total de 215.000 m3 de aterros e desaterros. Fileto fez o aterro do Igarapé dos Remédios, num total de 80.000 m3 com terra retirada da praia do Rio Branco, onde hoje está Escola Técnica Federal. O contrato assinado com Henry Edward Weawer, 8 de outubro de 1897, compreende o trecho entre Mundurucus e ponte dos Remédios. Fez a continuação das obras do Palácio da Justiça e do Governo. A construção do primeiro fora contratada a 18 de abril de 1894 com a firma Moers & Moreton e do segundo, a 25 de fevereiro de 1893, com a mesma firma. Ambos foram rescindidos em 1897. O Palácio da Justiça fora orçado em 654.2955933, mas só a rescisão do contrato custou 329.609S219. O Palácio do Governo, obra monumental, jamais concluída (seria o maior prédio já construído no Brasil) , foi calculado em 1.118.008, posteriormente aumentado para 1.481.134 e que teve uma rescisão de 158.252. Fileto terminou a rampa da praça 15 de Novembro e dos jardins da Matriz. Fechou o contrato do melhoramento do porto, assinado a 2 de dezembro de 1896 com J. Martins da Silva. Também o contrato para o estabelecimento da viação urbana e suburbana, assinado a 24 de setembro de 1897 com Frank Hirst Hebblctwhite. Manaus nos fins de 1897 já possuía 16 quilômetros de linhas, 25 bondes para carga e 10 para passageiros, tendo transportado 171.783 usuários, a 250 reis a passagem. Fileto fez a iluminação dos bairros do Mocó, Cachoeira Grande e Cachoeirinha com 300 lampiões a nafta. A construção da rede complementar de água, contratada, com Edward Weaver por 4.750 libras. Fileto instalou o serviço telefônico de 330 aparelhos, montados pela firma do engenheiro Helliodoro Jaramillo, cujo início de funcionamento se deu em 1897. Fileto concluiu as obras do Teatro Amazonas, que estavam paradas e o inaugurou em 31 de dezembro de 1896.
- Tudo isso em 19 meses?
- Sim. E não deixou dívidas, mas um monstruoso saldo. Ele começou seu governo pagando as dívidas, pois Ribeiro tinha deixado o Governo quebrado. Fileto pagou todas as dívidas do governo anterior e alavancou as obras.
- O Sr. tem razão, doutor.
No fim daquela tarde Lima Silva desconfiou que Coelho Neto tinha vindo ao Amazonas como observador político da capital para preparar o desfecho que ia cassar a pretensão de Eduardo Ribeiro de assumir o Senado.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Profissão: escritor de crônicas

Rogel Samuel

Neste Primeiro de Maio me lembro: O escritor de crônicas é o construtor do efêmero. Seu texto vai ser esquecido no dia seguinte. Diferente do romancista, que possui a ânsia de imortalidade. A crônica de jornal, no mesmo dia em que nasce, já está a morrer. Como as
flores, dizia Shakespeare. Nada mais virtual. É claro que existiram Rubem Braga e Machado (tenho lido o segundo volume de "A semana", uma obra-prima do gênero). Mas gênio não conta. Está fora da regra, fora do parâmetro humano. Como Mozart, que estou ouvindo agora. Como referir-se sem exagero a Mozart? A crônica do acontecimento, principalmente, morre logo,
cedo. "Eu não sabia que você gostava de escrever crônica", disse uma amiga. "Eu não gosto da sua poesia, disse outra (a Clarisse), mas leio suas "crônicas de sábado". Quando eu era jovem, e ainda morava em Manaus, mantinha uma coluna diária na Gazeta, um jornal da época. Não tenho nenhum recorte disso. Lembro-me de que lá escrevia, "também", Ramayana de Chevalier, autor de "No circo sem teto da Amazônia". Ele escrevia umas coisas violentíssimas contra o governo. Era pai de Scarlet Moon. Quase toda a minha "produção" daquela época se perdeu (e não se perdeu grande coisa). Havia um cronista em Manaus
chamado Afonso de Carvalho. Ele talvez foi o melhor prosador da literatura amazonense. Só publicou crônicas. Eu tenho vontade de pedir um dia para o dono do maior jornal de Manaus (que por sinal é seu parente), o matutino A crítica, onde Afonso publicou a maioria de suas crônicas para que o republique. Hoje ninguém o conhece. Nenhuma história da literatura. Nem mesmo os professores de "literatura amazonense" da Universidade do Amazonas (matéria que existia mesmo). Nunca o leram! Nem ouviram falar... Eu mesmo testei, um dia. E por quê? Porque era "apenas" um cronista (ainda que publicou seus livros de crônica). O único lugar em que Afonso, que foi meu amigo, apesar de ter idade para ser meu pai, pode ser lido, é no nosso blog (vou publicar, com direito a foto, com cigarro na boca, conforme o figurino de Clark Glabe da época). O único intelectual que o reconhece
é Luiz Bacellar. O poeta. Afonso de Carvalho publicou alguns livros. Só tenho "Vozes azuis" e "A lua é dos pobres". Nem no livro do Arthur Engrácio ele está (e onde estou). Engrácio também era meu amigo, embora nunca o vi. Nós nos comunicávamos por carta. Um dia,
encontrei um conto dele numa antologia nos Estados Unidos. Ele nem sabia. Há vários escritores brasileiros conhecidos nos EUA. Em Portland, no Oregon, visitei a maior livraria que já vi. Tinha a dimensão de um supermercado de dois andares. Um quarteto de
cordas tocava, ao vivo. Lá comprei Galvez, do Márcio, em inglês, para o meu amigo Christopher Schlindler, o pianista. Chris é um poliglota. Fala a maioria das línguas, inclusive japonês. Conhece tibetano. Fala um português quase sem acento. Sua mulher, Chrystal, se dedica ao latim e ao grego. A casa deles é de madeira. Pintada de vermelho. Americano tem mania de casa de madeira, antigas de cem anos. Quando se anda no segundo andar, toda a casa soa. Estremece. O porão é cheio de objetos e antiguidades que a Chrystal coleciona. Ela é avaliadora dessas coisas. A imensa biblioteca fica no térreo. E o piano. Com eles fiz, várias vezes, a deliciosa "garage sell", que é a venda de coisas que as donas de casa americanas não querem e as vendem, na garage, onde montam uma feira,
certos dias. Tudo muito barato. A vida americana é calma e suave, ali em Portland, a cidade das rosas. Como em Poços de Caldas. Nada que se pareça com a violência dos filmes americanos. Dirige-se devagar. Algumas pessoas saem sem fechar as janelas de suas casas. Há flores e áreas verdes em toda parte. Tudo muito diferente de Miami. Detesto Miami. Terra de gangster. Em Miami a polícia nos olha, a nós sul-americanos, como se todos fôssemos traficantes, bandidos. No Oregon não, você está em paz. Há montanhas pacíficas. Há o monte Hood, um monumento de neve, no horizonte. As camélias e os rododendrons. O republicanos colocam a bandeira americana no telhado. Nunca vi um brasileiro colocar o verde-amarelo estandarte no telhado no Brasil. Vai ver que é até proibido por lei.

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem rôto na batalha
Que servires a um povo de mortalha!...

Eu sempre achei que, se Castro Alves tivesse escrito esses versos na época da ditadura militar brasileira, seria imediatamente preso, por ofensa à bandeira nacional. Mas não mais, crônica, que a lira tenho cansada, e a voz enrouquecida. E não do canto.

IRA ESTEVES, EMAIL

DE LOS ANGELES, ONDE MORA, ESCREVEU IRA ESTEVES:

Essa tua cronica,Profissao: escritor de cronicas,me fez rir-muito- e chorar de emocao.Para que saibas,antes de partirmos desta terra:tenho 5 herois (dizem que ai das pessoas que t^em herois,mas eu tenho pessoas a quem cultuo e danem-se os que nao tem a quem amar,que cultuar eh amar alem do amor). Pela ordem: meu avo,que me criou,sabio e culto,meu pai,idem,embora com um genio do cao,mas brilhante,voce,tambem sabio e culto,que me ensinou a amar os livros mais do que meu pai que tinha centenas deles e aos quais eu sempre recorri,na minha curiosodade de saber.E olhe que nos temos a mesma idade,mas voce ja era Rogel Samuel,o escritor,embutidos nos teus verdes anos,ja firme e decidido no teu caminhar,assim sempre te vi e sempre te admirei muito. No nosso Gremio Gregorio de Mattos-imagine,Gregorio de Mattos!-ensaiavamos de escritores e aprendi muito com voce.Li Proust ao 16 anos e mamae rasgou o livro todo,tadinha,horrorizada,mas tambem ela veio de Portugal tendo estudado em um convento de freiras...Voce me emprestou o livro e fiquei apavorada:comeque eu vou falar pro Rogel?Mas voce so riu e disse,deixa Baby,depois eu arranjo outro.Assim eh voce,amigo,generoso,respeitando sempre a sede de saber dos outros,eu li tudo o que voce me pos nas maos,tao menina,Sartre,Bertrand Russel,imagine,e eu tao menina,eu acho,ate hoje,que esas coisas todas fizeram a minha cabeca,a convivencia contigo ,teu incentivo e as interminaveis horas de bate-papo,que nao eram palavras ao vento:eram pedras anexadas a fundacao de um ser,assim como meu avo e meus pais o fizeram.Voce faz parte disso e te admiro e te adoro,aqui falo sempre em voce,quem me conhece ja te conhece de nome e o que es.Ainda nao fiz a numerologia da gente,mas acho que temos algo ai.Os outros dois,sao Freud e Reich,claro.Mas penso que so pude entender esses pensadores,de discurso tao pesado,tao complexo,porque tive essa iniciacao,tua e de meu pai-papai mais politico,na epoca,e distanciado de coisas religiosas,mas muito culto.E so tenho uma heroina:minha mae,culta,quando foi pro Brasil ja falava portugues e espanhol,mas la aprendeu ingles e frances,falavas essas liguas fluentemente,desenhista e pintora,pianista,professora,dinamica,ela teve colegio no Rio antes de eu nascer,na Marechal Floriano,em frente a Light,mas com a guerra papai foi pra Manaus e eu fui pra la com ela com 5 anos, ela teve que vender o colegio.Sempre empreendedora,pediu ao papai para ter outro colegio,e assim foi ate perderem tudo,que Manaus enterra tudo,ne?Mas sabe?essa estoria de Energia que tanto falam antes,ela ja sabia,com uma oracao de judeus,palavras milenares,fazia parar a chuva,pra que eu fosse pro Colegio Brasileiro ou pra outro lugar.Eu pedia,mamae,faz parar a chuva,e ela ia assimpra fora falava aquelas coisas todas e achuva ia melhorando.Incrivel!eu ficava maravilhada!O que eu leio hoje nos tais livros que falam de Energia cosmica,ela ja sabia,ela e emu avo,que ele a criou nesses parametros.Nos dois tivemos pessoas incriveis em nossas familias,nao sei se essas novas geracoes as tem.Bem,virou um jornal,mas eu sempre quiz te falar essas coisas,porque a gente nunca sabe do nosso passamento,e eu quero prestar esse tributo a voce,te agradecer por tudo isso ai.Obrigada por voce existir na minha vida.Beijao.A irma-amiga de sempre,Baby.Te escrevi a respeito da cronica- maravilhosa!

quarta-feira, 30 de abril de 2008

AFONSO DE CARVALHO






Dias e noites


Os dias e noites são de uma tepidez mortal, e dias assim não convidam a pensar. Há uma exaUstão de ferro candente sobre as coisas do mundo, sobre a terra e sobre as águas, e os nossos corações sofrem as angústias de todos os tormentos das horas perdidas, as horas que não pudemos viver. É Novembro que se aproxima, amor. Bem sabes, querida, que este pode-ria ser um mês de alegrias, em que cantássemos aleluias de ressurreição, um mês em cujo inicio eu estaria te ofertando poemas de amor, em surdina, somente para as teus sentidos ou-virem, apenas para o teu coração comover. Não será assim, todavia, anjo meu. Para mim, o mês que se aproxima é uma quadra de recordações, e eis que me perco a meditar, não pen-sando nas glórias da existência, que não as quero, mas em ti, amor imortal, em ti somente. Que será de nós, amanhã? Pensamentos, palavras, emoções, tudo gira em torno de tua mara-vilhosa pessoa, tu, que és única, que és insubstituível, que estás presente em todas as minhas horas vazias, como uma obsessão e como uma loucura de que não me quero curar, para a qual não há remédio. Farei versos a ti. Novembro se aproxima, e com ele, e durante ele, meu velho coração não terá outro destino: só tu o ouvirás, só contigo ele estará. Ninguém mais.


MEDITAÇÃO DE NOVEMBRO

A tua não será uma vida em berço de rosas e sempre haverá pequenos obstáculos através da estrada que se abrirá a teus pés de peregrina impenitente. Será pouco o arrimo com que contarás, e teus amigos serão ainda menos, porque foste escolhido sob o signo desditoso das traições. Tem cuidado com eles, portanto. A tua será uma luta solitária e deves confiar apenas no valor de tua moral, na altivez de tua consciência, na pujança dos teus próprios méritos pessoais, se algum tiveres a teu favor — foi assim que Ela me disse quando eu nasci. E assim tem sido, ó companheiro que me segue, ó corcéis do tempo que passam, velozes, carregados de essências cósmicas no rumo inacabável das noites sem fim. Sim, a vida é bela, ó companheiro, mas os lagos azuis estão encapelados e ouço um rumor de torrente através das idades, que nascem e desaparecem como espumas, e só duas vozes amigas eu encontrei: a tua voz, minha mãe, e a tua,- querido amor do coração. Terei, talvez, um destino luminoso? Ou serei o último dos facínoras? Ou o mais execrável e repelente dos monstros? Creio que o meu será o destino que quiseres, ó espírito humilde de minha mãe, ó coração bondoso do meu amor. Lançarei meu rosto sobre a poeira das estradas, calcarei um ferro em braza sobre o coração dolorido e por certo morrerei, amor, morrerei por ti. Que importa a dor suprema do holocausto? Ainda haverá pelo mundo uma valsa de Strauss, uma Apassionata de Beethoven, uma Serenata de Shubert e o riso cristalino das crianças, que estes nunca morrerão, querida amiga, nunca morrrerão.
Minha mãe, e tu. meu amor, tão próximo e tão longe de mim. Chegou Novembro, o nono mês das meditações. O meu desejo e minha necessidade é apenas de preces. Estarei contente.

ULISSES, REIZINHO E BRUCUTU

Bem sabes que esta crônica que estou escrevendo, para o dia 4 que iremos viver, bem sabes que é uma divagação sobre a minha própria pessoa, mas toda ela está impregnada de ti, de tua lembrança imorredoura, e nesta crônica haverá muita música, porque agora, estou ouvindo a tua voz e por isso contarei uma história do que eu desejaria ser no dia 4. hoje que vai passar. Conto essa história, sim, porque sei que ela enternece os teus ouvidos, e porque essa é uma história que noutros tempos eu vivi. Lembrei-me repentinamente daquele Ulisses de Saroyan, sabes? E assim como me lembrei de Ulisses, poderia, também, me lembrar do ingênuo Reizinho das histórias de Soglów, ou do Capitão América ou mesmo do simplório e rude Brucutú, que estes são cavalheiros muito importantes, segundo eu penso. É que somos crianças, apesar de tudo, doce coração. Para que pensar em bombas atômicas? Para que pensar em delírios mortais de angústias humanas? ou em gemidos do sub-solo que, se os ouvíssemos agora, nos cortariam o coração? Para que? Não, voz amiga do terno sentimento. Ulisses pelo menos ficará aguardando a passagem da vida, metido nas suas calcinhas rotas de menino vagabundo, e estará contente quando o trem soltar o apito saudoso na curva da estrada, deixando o seu penacho de fumo bailando no ar. Então Ulisses irá embora, assobiando e tropeçando nau pedras do caminho, porque para ele a vida acabou, a vida é somente a paisagem do trem. Pois, assim mesmo doce coração, é a emoção que sinto por ti, neste 4 de novembro que iremos viver. Não haverá festas nem flores.
Tudo será silêncio e indiferença. Estarei no exílio e não falarei com ninguém. De que me serve falar com alguém que não sejas tu? E de que poderia eu falar, se tenho a certeza de que ninguém ia. compreenderia, a não ser tu, Coração terno e querido? Também não desejarei ouvir palavras estranhas, assim como o Ulisees de Saroyan se despedia da vida à passagem do trem pela. curva da estrada. Em momentos como este é quando tudo perde a cor, e nada interessa, amada minha. Sem ti nada existe. A vida se transforma num vácuo os violinos permanecerão mudos, o sol esconder-se-á na paisagem silenciosa das sombras.
O sorriso das crianças ó terna, ó infantil bondade de Ulisses, orai por nós....


SÓ, COM OS AMIGOS

Depois das horas melancólicas- do dia maior, ainda há passos perdidos pelo caminho das sombras e os ultimas Cantos da jornada agreste perdem-se na vastidao infinita dos mundos mortos e depois será o silencio sobre tudo, a mansidão, a quietude... Aqui ficarei, Coração, à sombra desta arvore amiga e acolhedora. Trouxe comigo os meus trágicos amigos da estepe e deles nao me afastarei, por hoje. Sim, porque só com eles me sentirei bem, me sentirei à vontade, nestas horas de recolhimento e saudade, quando há em mim uma ansia feroz de viver, mas quando o meu amigo me diz nao tente a penetração dos umbrais do pais do sonho, porque esta é a situação mais real, mais viva e mais permanente. Hoje nao desejarei a companhia amavel de, por exemplo, Elizabeth Barret, Keats ou Lord Byron, porque nao me sinto com disposiçao de planar nas alturas do sonho, nao terei forças, talvez, para atravessar a nevoa densa que me envolve o espirito e só tenho tentaçao pelos espaços limitados, onde haja sombra, onde haja silêncio, e nao rumores de vozes para me incomodar. Se é certo que a única voz que eu desejo, se é certo que ela nao vem, entao que a vida me deixe em paz, com meus tragicos e torturados amigos da estepe. Esse Raskolnikoff encherá o dia de um homem que pensa e sei que viverei bem com ele, era como se estivesse tambem amargurado, sentindo, como ele, o veneno de mil viboras sobre a consciencia atormentada, e no fim recebesse o castigo que eu acho que tambem mereço. Sim, o castigo, que para mim seria o sepultamento das esperanças que me restam. Estou tao obscuro, Coração, que nem poderei pensar nas tranças dos teus cabelos, que eu adoro, nem na magia de tua voz, pela qual enlouqueço. Arvore amiga que me dá sombra, passaros que cantam, vento que acaricia e sol que me da luz, para ver e para sentir, por que me abandonais? !

Porem, ainda resta uma ilusão, ainda ha uma esperança. Nao morrerei ainda, Coraçao. Podem cantar, passaros de minha vida.

Ventos assassinos, passai ao longe. .. Ha uma voz que me segue.



MANHÃS DE SOMBRAS





...Manhãs sombra.. Serena tranquitidade no ar. O ceu está carregado de amena e fluida caligem que reconforta o corpo cansado e bandos álacres passarinhos vieram pousar no meu telhado de pobre e eu penso que hoje teremos um dia feliz. Deus queira, irmão. Num dia como este, numa manha assim, seria impossivel a uma pessoa odiar. Eu, pelo menos, não poderia. Sinto desejos de abraçar a todos aqueles que me detestam, e penso que nao me custaria muito estalar um beijo enternecido na face dos Judas, e seria mesmo capaz de oferecer minha ultima camisa ao homem que me espera ali, na esquina, para me apunhalar. Hoje eu serei deste geito, irmao. Estou para perdoar todas as ofensas e te juro que serei o mais humilde dos mortais da terra. Acabou-se a negrura da alma, o coração adormeceu, comovido, e hoje este coração tem tempo para sonhar. Sonhos alegres, sonhos sem rancores, sonhos amaveis, carinhosos, ingenuos, sonhos assim como me pedes, Amor. Bem, a causa de eu estar possuido de tanta ternura, ja sabes qual é, Coração. Tu me infundiste confiança, tu me deste consolo, tu me fizeste convicto, de que sou um homem feliz, talvez o mais feliz de todos eles, porque nenhum é tao amado e tao querido e tao desejado como eu, por ti; nenhum é mais senhor de tua vida e de tuas emoçoes, e nao quero para mim mais do que isto, não quero, eu te juro. 0 resto são ilusões que se desfazem, sao cristais partidos, como dizia Balzac. Estou pensando agora numa alma de criança, ouviste? Quem sabe se não existe hoje, nesta manhã fluidica que reconforta, o espirito de uma delas, dentro de mim? Quem sabe se não é Ulisses, que me veio visitar? Estou pensando que sim, Coração, e se deste modo eu penso é porque não vejo e não ouço as vozes do orgulho e do preconceito, tudo é placides e bemaventurança, e sinto-me num mundo diferente, e há uma estrela e há um farol que me guia, e tudo isso es tu, doce Coração do meu amor. Quisera que todos os dias fossem como o de hoje, porque o meu deeejo é ser bom, ó Senhora das Graças. - Amem ...


ROTEIRO DA TAPAJÓS


Se voce der uma espiada na praça de Sao Sebastiao, principalmente acontecendo isto em noite de lua, voce poderá ver que ela deve ter sido uma praça bonita, no tempo em que esta era uma cidade risonha. Nao vamos falar aqui a respeito da noite, porque Manaus, toda ela, e uma cidade horrivel quando o sol se vai e é possivel que voce nem possa encontrar as praças e as ruas que nela existem, porque estao escuras, sujas, maltratadas, feias. A ausência da luz é sentida nessas ocasioes, a boa lua dos namorados, a lua dos que teimam em ser notivagos, e dos poetas, que ainda existem. Sao Sebastiao, deve ser dito, é uma praça amada. Ostenta o lindo monumento de bronze, as calçadas carijós e a igreja do santo, que foi capitao e foi martir, porque preferiu flcar do lado dos perseguidos, traindo a Cesar, de quem recebia soldo. Mas aqui, como o assunto nao é bem a praça, e quero me referir a rua que nasce dela, falarei nao só da igreja como tambem da mercearia de seu Manuel, que fica na outra esquina, para depois contar o caso em miudos, como é meu desejo assim fazer. A igreja de Sao Sebastiao, que é a nossa paróquia, ao que sei dela, foi construida por um frei Jesualdo Machetti. Na entrada, do lado direito, voce vera que tem uma placa de marmore e nessa placa, alem do nome do frei, há uma data em algarismos romanos: MDCCCLXXVIII, que uma pessoa entendida me contou que, traduzida para o nosso conhecimento, quer dizer 1878. A igreja pertence aos capuchinhos e todos os domingos la estamos, ouvindo a missa, quando frei Jose faz uma pregaçaozinha que ninguem entende, va1endo pela intençao. Tem pelas paredes murais de De Angelis e penso que São Sebastiao nao sera a única igreja da terra que possue vitrais. Frei Jose é um grande trabalhador e nesta condiçao deve ter visto o nascimento da rua dos Tapajos, que, como disse, nasce na igreja dele. Sou um tapajó, sabeis. Falo hoje dos tapajós e do que existe de bom na taba deles. Seu Manuel, no canto, vende sorvetes e aperitivos, trabalhando, ele me disse, 18 horas por dia. Um portugues simpatico, de cara alegre.Se ficar rico, que ninguem se admire. Sua mercearia é frequentada e seu Manuel sabe ser comerciante. Diz gracinhas para as domesticas das cadernetas, possue um jipe da marca Wills, e assim vai levando. Seu Manuel é homem respeitado na rua Tapajos, sua mercearia tem fama na redondeza, o que é merecido, sem duvida. Aqui, no fundo da igreja é a residencia dos capuchinhos e mais adiante, se voce for subindo, encontrara a Delegacia de Saude Federa1, confrontando a outra mercearia, que tem como dono um outro portugues, o sr. Monteiro. Deste lado esta o Luso, que apesar de ser "Sporting Clube" exibe apenas Pastorinhas e promove bailes retumbantes em datas certas do ano. As Pastorinhas do Luso sao famosas e dos bailes nem é bom falar. Animadíssimos, os soalho treme e a orquestra pode nao ser um primor, mas que ajuda, ajuda. No numero 154 moro eu, um dos tapajós mais antigos da taba. Com portas para a rua, de noite as cadeiras vão para a calçada e fica-se vendo as proesas da Tereca (é a gata).






(Vozes azuis. Manaus, Sérgio Cardoso, 1956).





Anjos e porcos

Faz tempo não vou ao cemitério no dia dos Finados e eu gosto de cemitérios. São lugares tranqüilos, têm ciprestes, reina paz e silêncio e todos que moram ali estão deitados, dormindo, como no verso de Bandeira, os corações parados, as bocas fechadas, ninguém incomodando ninguém. Este é o mundo dos mortos, leitor, pessoas que já existiram em cima da terra - foram bons? foram ruins? - mas aqui não se pergunta o que eles praticaram em vida, se eram pretos ou brancos, se tiveram dinheiro ou eram pobres, se religiosos ou ateus, porque a morada é comum, a terra é a mesma e lá no fundo, depois da última batida, dizem que os mistérios são muitos, o corpo fica e apodrece porém a alma tem um destino, que, até hoje, não conhecemos. Se aquelas pessoas todas que ali compareceram no dia dos Finados pensassem um pouquinho, estou certo de que o aspecto do local, nesse dia, seria bem diferente: não transformariam o campo santo, pelo menos, em salão de palestras, não levariam seus mercados para ali funcionar, haveria ordem, respeito, que os espíritos estão olhando e eles sabem o que vai no coração e nos sentimentos de cada um. Os irreverentes pagarão caro, é o que dizem, e brevemente vai descer um carro de fogo resplandecente, igual ao de Elias, e o carro só levará aqueles que, entre outras causas, souberam se portar bem nas visitas aos cemitérios - e ai dos debochados, dos cínicos, dos mal intencionados. Estes ficarão na terra, virarão bichos disformes ou tochas vivas e isto se dará quando o novo Sol penetrar em nosso sistema planetário, verticalizando o eixo da Terra, e os bons passarão a morar noutros mundos, alguns serão possivelmente anjos, que assim está escrito, irmãos, e a era se aproxima, preparem-se. Qualquer dia não se assustem se esses fatos forem confirmados em sua mais completa exatidão. Estamos na lua, hoje, mesmo sem morte. Mais uns dias e estaremos em Marte, ou talvez Vênus, que é mais perto. Anjos, dizem os teósofos. Mas você não irá, irmão, você roubou no peso, escondeu o leite das crianças, furtou o espólio da viúva, será bicho disforme, portanto, um porco. Sirva-se. O bom chiqueiro, a terra, é seu. Pode grunhir. Você não quis assim?
[A lua é dos pobres. Manaus, Sergio Cardoso, 1960.]



Casebres



NA semana passado a coluna de Ibrahim Sued publicou matéria interessante para os amazonenses. Alguém não gosta do Ibrahim, e deve ter seus motivos; não digo que gosto, leitor, mas confesso que, jornalisticamente falando, a coluna que ele escreve é boa; por isso leio o Ibrahim e considero-o mesmo uma dos grandes atrações do O GLOBO. Mas, eu dizia, Ibrahim Sued tocou no Amazonas e, tocando, a coluna de Sued certamente nos interessa. Marcel Camus andou por aqui, ele disse, e sabemos que andou, e Camus é aquele cineasta francês que fez um filme cujos artistas principais são os escurinhos brasileiros e o filme de Camus foi um bruto sucesso, ganhou palma de ouro e palma de mil mãos, foi o primeiro classificado numa festa mundial de cinema e por essa razão Camus voltou, pensando talvez em repetir a invejada glória, fazendo outra fita, para ganhar outro prêmio. Que Marcel a faça, são meus votos. Ele ficou maravilhado com o Amazonas, declara Sued na sua coluna. Passou todo um dia, “desde o nascer até o pôr do sol, na praia, a estudar os ângulos de filmagem”. Diz Sued que a imaginação de Camus ficou encantada com verdadeira cidade flutuante nos arredores da capital” e foi aí que alguém atrapalhou a história. Não se sabe quem foi esse alguém, que o Sued não diz. Era um homem da terra, um amazonense. “Se o senhor vai em outubro, desisto, afirmou-lhe o homem. Não haverá nenhuma cidade flutuante para o senhor filmar. Só um monte de casebres sujos, enterrados na lama”, - uma pinóia, quis o informante dizer. Imagino qual tenho sido a reação do francês, ouvindo semelhante espirito-de-porquismo do tal homem da terra. E’ possível que, pensando bem, o poeta do Orfeu preto tenha desistido daquilo que ele esperava ser a sua segunda glorificação, em outra festa de filmes. Se for indivíduo de muita firmeza, pode ser que não desista e venha, porem... Meus caros amigos, eu fui repórter muito tempo e meu campo de luta, meu posto, era exatamente aquilo que pode ser uma pinóia para o informante de Camus, mas acontece que um poeta vê tudo com olhos diferentes, a lama brilha, o fedor tem cheiro de jasmim e tudo aquilo, no fundo, é um palco iluminado e no caso o francês Camus seria um Orestes Barbosa redivivo, porque ele tem imaginação, e sonha, vê coisas que você não vê, sente o que você não sente — não é cego, não é burro, Compreende? Aqueles casebres na lama não são apenas um filme, são uma epopéia, maior que Guerra e Paz, mais comovente que Ben-Hur. Breve vou escrever esse livro, leitor; não, acho que não posso.
[A lua é dos pobres. Manaus, Sergio Cardoso, 1960.]

O temporal


A mais bonita descrição de um temporal amazônico, quem a fez foi o escritor Ferreira de Castro no seu livro “A Selva”. Li esse livro há bastante tempo, leitor, porém eu mesmo nunca assistira a um desses temporais, apesar das tantos anos que aqui resido, metido nesta cidade, sem coragem de avançar pelo mato, pois lá eu sei, é onde estão os acontecimentos que empolgam, lá é onde a natureza se manifesta em toda a sua grandeza e suas variadas dimensões. Viver em cidade é erro, saibam, e gostei de ver o entusiasmo do nosso amigo Bartolo, acabado de chegar de Brasília e eu sei que lá não existe mais selva, no entanto a natureza brasileira é ainda impregnada daquilo que aqui nós temos em abundância, aquele gosto de terra, aquele cheiro de chão - mas voltemos, leitor, a falar dos nossoss temporais. Foi ante-ontem que aconteceu um, e bem forte. Estava eu no terceiro andor de um prédio, olhando nuvens escuras que corriam e se aproximavam, derramando água na selva bruta, fazendo turbulência incrível para os lados do sudoeste, e de repente a área toda, onde eu estava, foi envolvida pelo turbilhão, água e vento às pamparras. Fechei a janela, e fiquei a espiar a fúria dos elementos através de uma frincha. Maravilha das maravilhas. A madeira rangia, parecendo o gemido de almas penados em desespero, e a água, caindo em bátegas violentos sobre as vidraças, dava-me a impressão de um novo dilúvio universal que se abatesse sobre minha cabeça, tão forte, tão rugidor, e em certos instantes até o medo queria se aproximar, dominando-me, não fosse eu pensar que ali estava um nordestino, e um nordestino não tem direito a ter medo da água do céu, que ela é Deus quem monda e dela depende nossa inteira existência. O rio Negro levantava ondas colossais, com suas embarcações em louco redemoinho, batendo aqui e ali, e até pensei que o roadway fosse arrancado do seu lugar, jogado do outro lado da baía, porém isso não aconteceu, leitor, e bem alegres devem ter ficado os peixinhos - peixinhos e peixões - que aquele foi um Carnaval que eles muito devem ter apreciado, tal era o reboliço e a confusão no local. Se a gente pudesse se aproximar, é possível ouvisse as cuícas e os tamborins dos peixinhos em festa. A grande baía nunca esteve tão animada, como na tarde daquele temporal. Os peixes velhos é que não devem ter gostado. Um pescador me disse que os peixes velhos são como pessoas velhas: aposentam-se, fazem a cama, deitam-se e só comem aquilo que lhes cai em cima, restos que alguém atira no água e dá ao fundo, sem que outros peixes mais vivos aproveitem na sua descida. E fico eu a pensar na semelhança dos peixes com os criaturas. Eu, por exemplo, não suporto mais o Carnaval. Barulhos e turbulências me incomodam. O silêncio, sim, é que é bom. E no fundo do rio o silêncio deve ser ainda mais agradável. Os peixes velhos, leitor, que o digam.
[A lua é dos pobres. Manaus, Sergio Cardoso, 1960.]

terça-feira, 29 de abril de 2008

A POESIA CONCENTRADA POR DILSON LAGES


A POESIA CONCENTRADA POR DILSON LAGES


Rogel Samuel

O que chama de poesia zen é a que apresenta o que já é presente, isto é, o que está na nossa frente, diante dos nossos olhos, onde ali é colocado como um “está aí”: “eis-me”, e em poucos versos, poucas palavras:


A mulher de vermelho

molha as flores da passarela


É a poesia mínima, reduzida ao mínimo, no minimalismo característico do pós-moderno, o nosso tempo. Lembro-me de que a poesia partiu dos grandes poemas heróicos, dos grandes textos homéricos, para os romances medievais, os cantos clássicos, as estrofes românticas, os pequenos poemas pós-modernos. Houve exceções. Isso é a generalidade: a fina teia dos poetas na época da Internet. Que será da poesia? Que gênero poético? Para onde vai a literatura? Ninguém sabe. Mas os poemas agora se reduzem ao cerne, duas três rimas, umas poucas imagens e a imensidão do espaço do papel em branco – a poesia do Dilson tende assim ao haicai:


A flor nasce nos olhos da lua

Diante do espelho que sou.

(Isto: o poeta no espelho. O poeta que vê:)

...a rua é ruínas

E vejo o sol...

(Que sabe recolher “os resíduos do dia” nas suas anotações de estrofes, que são como notas apressadas de um repórter perseguido pelos “rostos dos fantasmas”, pelo “trânsito do vento” – a realidade transformada em nada, a natureza vinda do sertão:

Ouço o mugido do gado

preservando o encanto da noite

e galopamos na tangente do açude

onde o céu se oferece para contemplação.


A madrugada corre ensandecida.

Minhas mãos alcançam as alturas

e degusto o oásis do sertão

onde cavalgamos sonhos.

(E da cidade. Na)

ESPERANÇA EM FORMA DE NUVEM


A cidade decresce

a multidão de prédios-diamantes

na manhã que se inicia

e no céu cinza das avenidas

as aves unidas dançam

ao som silencioso do vento

a canção veloz do vôo.


Já não há lirismo, nesse trâmite. “Já não navego o ego”, escreveu. Mas “o silêncio parou de tocar”, e


Acordo a madrugada

e repouso em mim a noite

que dormiu demais

para despertar a manhã

e vestir-me de céu.


Esta poesia faz das coisas uma concretude e não uma imagem, pois a realidade é tanta que “a água na vidraça / despedaça...” e o mundo se descerra em “faces e disfarces”. Neste caso o silêncio é um consolo, pois serve para “arrancar o coração das paredes”. No:


O MUNDO VISTO POR DENTRO


A ausência zera o rosto

coberto pela toalha da alma

e a máscara da face

abre o cárcere

para o mundo se mostrar

como é.

É muito interessante sentir que se pode ler no “Sabor dos sentidos” a meditação de “Os olhos do silêncio”, que pisa no freio das palavras e dissolve o fragmento do pensar.


Ali o silêncio é interno, o silêncio sempre fala mais alto, “pó do vento”, o que “apaga a escuridão”, o silêncio como arte decorativa: “o manto de anjo na sala de estar”

sexta-feira, 25 de abril de 2008

CLARISSE DE OLIVEIRA comenta

Lendo o ultimo capitulo sobre o teatro
Amazonas, fiquei feliz com a exposição
dos trabalhos de Coelho Neto e também
saber que ele era filho de um português
e de uma india.
Coelho Neto era amigo do meu avô Indio
do Brazil, e por minha mãe, fiquei sabendo
que ele era espirita e dos filhos que perdeu,
havia um que tinha o apelido de "Mano".
Uma sua descendente, Olga Coelho Neto de
Freitas, frequentava muito minha casa e era
amicissima de minha mãe - infelizmente perdi
o contato com "Olguinha", pois gostava muito
dela.
O seu trabalho sobre o teatro, está magnifi-
co e é uma riqueza para a historia do Brazil.
Se você publicar o livro, ele deverá ser
obrigatorio em curriculo escolar.
O que neste comentario for essencial, eu
(viu, "gostari - pulou) gostaria de ser publi-
cado no seu blogo sob o assunto.
clarisse

quarta-feira, 23 de abril de 2008

MANUEL MAURICIO DE ALBUQUERQUE

A ESCRAVIDÃO AFRICANA

POR MANUEL MAURICIO DE ALBUQUERQUE

O escravo africano chegava ao Brasil como mercadoria e, como tal, sujeito à conseqüente seleção que o tornava mão-de-obra mais qualificada e, portanto, de maior valor. Sendo portadores de técnicas mais desenvolvidas do que os indígenas, os que resistiam ao alto índice de mortalidade durante as viagens ofereciam condições de sobrevivência física e de rentabilidade muito lucrativas para a classe escravista. Na África, já existiam estruturas sociais onde as forças produtivas haviam alcançado um nível de desenvolvimento capaz de produzir excedentes. Essas organizações sociais onde já se detectavam relações de classe dispunham de força de trabalho mais capacitada a enfrentar o desgaste do trabalho escravo.
A obtenção do escravo na África se fazia, comumente, pela troca com as formações sociais escravistas como os Reinos de Mali e do Congo. Este escravo que resultava de processos repressivos diversos para sua obtenção era transformado em valor de troca como efeito da intervenção comercial e político-militar européia nas formações sociais africanas aliada aos setores dominantes nestas sociedades. No caso das formações sociais que se organizavam feudalmente, como o Daomé e nas de tipo asiático, como o Império de Gana, o intercâmbio com o setor mercantil negreiro estimulou práticas escravistas complementares. A busca de escravos não estava articulada às necessidades produtivas locais, mas sim às relações de intercâmbio. Portanto, os contatos com os comerciantes de escravos e com os agentes político-militares que defendiam os interesses colonialistas determinou uma dominação escravista que favorecia a acumulação de riqueza nos setores dominantes dos sistema feudal e asiático. A posse de escravos disponíveis como mercadoria condicionava a aquisição de produtos estrangeiros, notadamente os tecidos, as miçangas, as armas, as jóias, além do ouro, cobre, algodão, tabaco, cachaça e zinbo ou búzio. Este último, abundante nas praias da Bahia, era exportado para a África onde servia como moeda e objeto religioso.
Também ocorria na África o apresamento direto como o que se praticava no Brasil. Esse processo era mais empregado nos ataques às comunidades primitivas africanas. No entanto, os escravos assim obtidos não eram mercadoria imediatamente exportável, porque a sua rentabilidade apresentava as mesmas desvantagens que a classe proprietária enfrentava na exploração do escravo indígena.
A necessidade de garantir o abastecimento contínuo de força de trabalho escrava principalmente destinada à América, produziu práticas de alianças políticas entre os representantes dos interesses coloniais e os diversos Estados africanos. Esta política africana foi iniciada pelo Reino de Portugal a partir do século XV e tinha como suporte principal a celebração de acordos comerciais e políticos. Estes ajustes, em geral, previam a regularização das trocas mercantis, a permissão para o estabelecimento de feitorias e fortalezas e a liberdade de ação para os missionários catequistas. Um bom exemplo desta política foram as relações estabelecidas com o Reino do Congo e que determinaram sobre esta unidade política africana um amplo processo de dominação colonial. Ainda que, em última instância, os contatos com a África se realizassem sob o controle do Estado Português, a importância crescente da economia brasileira como consumidora de escravos e de outros produtos africanos não tardou a se fazer sentir. O tráfico direto entre os portos negreiros africanos e os receptadores brasileiros passou a assumir uma importância crescente. Mais de uma embaixada vinda da África buscou entendimentos diretos com autoridades sediadas no Brasil, uma delas, a que o Rei do Congo enviou ao Conde de Nassau-Siegen em 1643. Nos séculos segiuntes (1750, 1795 e 1805) chegaram à Bahia com destino a Portugal emissários de soberanos do Daomé, outra importante área escravista.
Aos poucos o monopólio português no tráfico negreiro começou a ser limitado pelas investidas concorrenciais de outros Estados Europeus, notadamente pelos representantes das burguesias comerciais holandesa, inglesa e francesa. A partir do século XVII, as áreas fornecedoras de escravos controladas pela burguesia portuguesa foram se tornando cada vez mais reduzidas, principalmente depois que o asiento negreiro foi concedido pelo Estado Espanhol aos holandeses e mais tarde aos ingleses. Somente Angola e Moçambique permaneceram como centros fornecedores de escravos dominados colonialmente pelo Estado Português.
O recurso à exploração do escravo africano não suscitou as mesmas dúvidas quanto à sua legitimidade como ocorreu em relação às populações indígenas da América. Quando da chegada a Portugal dos primeiros africanos capturados, o Infante D. Henrique reclamou os cativos que lhe cabiam na qualidade de Grão-Mestre da Ordem de Cristo. Na medida em que a importância do trabalhador direto escravo crescia, de início articulado à estrutura econômica das Ilhas do Atlântico e posteriormente à do Brasil, o problema do seu cativeiro legal tornou-se ponto pacífico. Em geral, argumentava- se que era mercadoria estrangeira, adquirida legitimamente a autoridades bárbaras e pagãs que a vendiam em obediência a normas jurídicas próprias. Por isso, o Bispo Azeredo Coutinho, além de invocar as leis portuguesas e as bulas pontifícias, pôde escrever em sua obra, Análise sobre a jurisdição do comércio de resgate. da Costa da África (1808): "OS escravos que se compram na costa da África são homens pretos, nascidos no meio de nações bárbaras e idólatras, condenados pelas leis do seu país à escravidão perpétua e onde as leis não protegem nem mesmo a vida dos inocentes... "
A partir do descobrimento da América aumentou enormemente a busca de escravos africanos, determinando que as diversas burguesias européias procurassem garantir a sua dominância sobre as áreas fornecedoras. Os efeitos dessa dominância sobre as formações sociais africanas cresceram na razão direta em que se processava a sua subordinação a partir da dependência comercial. A demanda contínua de escravos ultrapassou rapidamente a capacidade decisória das autoridades locais cujo campo de autonomia transformou- se, ao se confinar aos limites ditados pelas exigências do tráfico negreiro. A guerra, como solução escravizadora, dimensionou as antigas rivalidades locais imprimindo-lhes uma amplitude destrutiva e acelerada dos contingentes demográficos africanos. Calcula-se que, entre os séculos XVI e XIX, somente para a América viera vinte milhões de escravos constituindo- se essa transferência forçada no exemplo mais importante de emigração compulsória que se conhece. Regiões houve, como em certas áreas de Angola no século XVII, que ficaram reduzidas a virtuais desertos. Ao mesmo tempo, por exemplo, as práticas jurídico-políticas, próprias dessa sociedade articuladas ao comércio de escravos, passaram a ser ajustadas à nova conjuntura, cominando-se a pena de perda da liberdade em grau muito mais extenso do que era previsto pelo direito tradicional antes vigente.
No Brasil, o escravo africano e seus descendentes foram utilizados prioritariamente não apenas nas atividades realizadoras de produtos destinados à exportação, como na agro-manufatura do açúcar, no plantio do algodão, do café, no extrativismo mineral. Foi também a força de trabalho explorada no artesanato, nas manufaturas, na prestação de serviços e, em menor escala, na pecuária. Pode-se, assim, afirmar que o trabalhador escravo de origem africana foi a força de trabalho fundamental até a segunda metade do século XIX, quando se iniciou a transição do Escravismo para o Capitalismo. Diferentemente do que ocorreu com o Indígena, o escravo africano não mereceu a mesma defesa da Igreja. Esta última não apenas o explorou como trabalhador, semelhantemente aos proprietários escravistas leigos, como ainda participou das rendas do comércio negreiro na África. A esse respeito é muito útil a leitura de Relações Raciais no Império Português de Charles Boxer, bem como as informações contidas em Os Jesuítas no Grão-Pará e a História de Antônio Vieira, ambos de João Lúcio de Azevedo. Este pesquisador português oferece material empírico principalmente para a análise da posição dos inacianos em relação à escravidão de africanos.
A esse respeito, o 14.0 Sermão do Rosário, pronunciado por Antônio Vieira, é bem elucidativo. Depois de comparar a atividade dos escravos na produção do açúcar aos padecimentos do Cristo e de equiparar o engenho ao próprio inferno, ele conclui, no entanto, que: "Deveis dar infinitas graças a Deus, por vos haver dado conhecimento de si e por vos haver tirado de vossas terras. onde vossos pais e vós vivíeis como gentios; e vos ter trazido a esta, onde instruídos na fé vi vais como cristãos e vos salveis". Essa mesma peça de oratória nos informa sobre o critério de discriminação racial que presidia a formação das agremiações religiosas. Vieira censura os mulatos por se reunirem na Irmandade de Nossa Senhora de Guadalupe, desprezando a do Rosário organizada por negros.
Devido à importância da exploração do produtor direto escravo, foram raras as manifestações em sua defesa durante a etapa dominada pelas práticas mercantilistas. Um dos poucos exemplos foi o do Pe. Manuel da Rocha, autor do livro Etíope resgatado, sustentado, corrigido, instruído e libertado, publicado em 1757. Os de terminantes econômicos impuseram também, ~m última instância, o abandono das práticas de organização familiar da massa escrava, na medida em que a exigência de um casamento cristão dificultava as operações de compra e venda de que era objeto a propriedade escrava. Mesmo Antonil, um defensor da ordem escravista, censurava a pouca instrução religiosa dos trabalhadores escravos que se limitava a práticas ritualísticas maquinais. O mesmo Autor alude, imprecisamente, à feitiçaria como recurso vindicativo do escravo, informação essa que se constitui em uma das referências mais antigas à manutenção no Brasil de procedimentos religiosos africanos.
Para o Brasil vieram representantes de dois grandes grupos lingüísticos: o sudanês e o banto e, em menor quantidade, os que empregavam o idioma árabe. Dentre as formações sociais sudanesas encontravam- se as que se organizavam nos Estados de Gana e do Mali, ambos fortemente articulados ao intercâmbio transaariano com o Magreb, como fornecedores de ouro, cobre, marfim e escravos. A partir do século XV abriu-se nova rota comercial que unia os diversos Estados-sudaneses à Tunísia e à Líbia atuais. Entre os povos classificados como sudaneses vieram para o Brasil representantes dos contingentes iorubás, gêges, hauçás e minas; dos bantos, foram introduzidos os angolas e cabindas.
Os principais centros receptores e distribuidores de escravos foram Salvador, Recife e Rio de Janeiro. No século XVIII, nada menos de dez mil escravos importados eram considerados indispensáveis às atividades mineradora, agromanufatureira do açúcar e principalmente do cultivo do algodão. O tráfico negreiro recrutava pelo menos vinte embarcações de nacionalidade portuguesa que demandavam, anualmente, aqueles portos brasileiros, em particular o de Salvador. Nessa última cidade desenvolviam- se estaleiros, havia condições técnicas para providenciar reparos aos navios e as plantações do Recôncavo forneciam o tabaco que era valor de troca extremamente valorizado na África.
O Rio de Janeiro teve importância menor, embora desde o século XVII já exportasse escravos para a América Espanhola através de Buenos Aires. No século XVIII, com o ascenso da atividade extrativa mineradora, cresceu a importância regional do Rio de Janeiro que passou a receber e a distribuir escravos para abastecer as necessidades econômicas locais e as que se processavam em Minas Gerais, Goiás e Mato-Grosso.
Originários, em sua maior parte, dos centros fornecedores do litoral africano, os escravos eram negociados por armadores e comerciantes especializados, os pombeiros e taganhões em estreita articulação com os agentes da Fazenda Real localizados em diversos pontos do litoral africano como São João Batista de Ajudá, São Tomé, São Filipe de Benguela, São Paulo de Luanda e outros. No século XVI, domina.ram as remessas de escravos fornecidas pelo chamado ciclo de Guiné, superado nos dois séculos seguintes pelos ciclos de Angola e Congo e o da Costa da Mina, respectivamente. Esse intercâmbio representava uma massa considerável de capital que ao se deslocar favorecia o enriquecimento da burguesia comercial traficante de escravos. Dessa forma, esse setor de classe reforçava a sua dominância sobre os proprietários eScravistas do Brasil, dentro dos objetivos repressivos do Sistema Colonial. Isso produziu reclamações constantes dos prejudicados que muitas vezes chegaram à franca rebeldia como ocorreu com os senhores de engenho do Maranhão ao promoverem a Revolta de Beckman (1684-1685).
A importância do tráfico de escravos africanos constituiu a principal fonte de reprodução dessa força de trabalho.
Com efeito, o período de vida útil do escravo produtor direto era bastante baixo, oscilando em entre se e dez anos,
Segundo Simosem. Certas atividades eram particularmente letais, entre elas o extrativismo do ouro e do diamante, o trabalho nas salinas, nas armações de pesca e de beneficiamento da baleia e nas fases de produção intensiva de açúcar. A alta mortalidade dos escravos diretamente ocupados nas atividades produtivas era ainda aumentada pelo excesso de trabalho, a má alimentação, enfermidades, castigos e outros elementos congêneres. Por outro lado, não havia estímulo ao crescimento vegetativo da população escrava na medida em que tal iniciativa implicava em uma diminuição da exploração do trabalhador direto escravo. Devido às condições em que se desenvolveu a estrutura econômica escravista colonial, o investimento na escrava grávida e na criança escrava era considerado antieconômico em função dos interesses da classe proprietária. Diferente, no entanto, era a situação do escravo prestador de serviços, em particular os que estavam adstritos às lides domésticas e os pretos de ganho, geralmente' trabalhadores urbanos e especializados e cuja atividade era alugada pelos seus proprietários.
O tráfico negreiro constituiu importante fonte de renda para o Estado Absolutista. De início, o comércio de escravos era livre, sujeito apenas a um tributo variável cobrado por cabeça de escravo exportado para o Brasil. Em certos períodos, o Estado monopolizou diretamente o tráfico, como ocorreu a partir da publicação da Carta Régia de 1697, que oficializava essa atividade. Certas companhias de comércio privilegiadas - a do Estado do Maranhão, no século XVII, a do Estado do Grao-Pará e Maranhão e a de Pernambuco e Paraíba no século seguinte - receberam o monopólio do comércio de escravos, limitado a áreas determinadas do Brasil.
Os comerciantes também pagavam impostos ao adquirirem à Fazenda Real escravos desembarcados, o mesmo ocorrendo quando se tratava de trabalhadores transferidos de uma região para outra. Isso aconteceu principalmente na
etapa dominada pelo extrativismo mineral cujas exigências promoveram deslocamentos constantes de escravos do Nordeste e da Bahia para zonas mineradoras. A capitação era o imposto unitário cobrado aos proprietários de acordo com o número de escravos ocupados nas minas de ouro e na extração de diamantes.
O intercâmbio com a África, além de enriquecer a burguesia comercial, promoveu a abertura de mercados para a
produção brasileira ou a que era reexportada através do Brasil. Com isso diminuía a dependência da classe dominante colonial em relação ao principal mercado de consumo que era o europeu.
Quanto à quantidade de escravos importados durante a Etapa Colonial, o que existem são cálculos aproximados,
sujeitos a reservas. A necessidade de escravos era contínua, sobretudo porque o período de vida útil desse trabalhador era inferior às necessidades econômicas, o que implicava numa demanda constante de reposição da força de trabalho. De acordo com Afonso Taunay os números prováveis de escravos africanos, desembarcados na etapa anterior à instalação do Estado Português no Brasil (1808), foram os seguintes:
Século XVI ............ ... 100.000
Século XVII ............ ... 600.000
Século XVIII ............ ... 1.300.000
As duas primeiras cifras correspondem ao desenvolvimento da atividade produtora de açúcar, a que se juntaram, no século XVIII, o extrativismo mineral e o cultivo do algodão, principalmente.
Na Etapa Colonial, a exploração do escravo africano e de seus descendentes nascidos no Brasil, os chamados crioulos, não deixou de desenvolver práticas racistas que discriminavam os negros e os mestiços, mesmo que fossem juridicamente livres. É verdade, no entanto, que a ideologia racista aqui foi menos violenta do que em outras áreas escravistas da América. A mestiçagem se desenvolveu expressivamente e não havia impedimentos legais à compra de liberdade ou alforria, embora essas práticas fossem de iniciativa da classe proprietária.
Negros e mulatos organizavam- se em separado, tanto nas atividades econômicas, como em práticas jurídico-políticas e mesmo nas ideológicas. Essas informações podem ser ilustradas pelo Regimento dos Henriques e pelas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário, de São Benedito e outras.
Embora legalizasse as práticas escravistas, o Estado Absolutista Português mais de uma vez legislou no sentido de coibir os maus tratos de que eram vítimas os escravos. Um dos exemplos foi a Carta-Régia de D. Pedro II de Portugal, em 1700, se bem que se possa afirmar que essas medidas tinham alcance e prática muito limitados. As Ordenações Filipinas atribuíam as penas de morte ou de mutilação ao escravo que atacasse o seu proprietário e autorizavam o emprego do açoite como recurso para obter declarações sobre a localização de escravos fugidos.
Durante toda a Etapa Colonial pode-se observar várias práticas de resistência dos escravos. Esses conflitos em geral assumiam formas de solução individual, tais como fugas, suicídio ou assassínio de feitores e de proprietários. Mais importantes foram as revoltas e as fugas coletivas para a formação de quilombos como os do Rio de Janeiro, o da Bahia, o de Palmares, em Alagoas e Pernambuco atuais, todos organizados no século XVII. No século seguinte, entre outros, formaram-se os do Rio das Mortes, em Minas Gerais, e o da Carlota, em Mato Grosso, sendo que a maioria deles foi destruí da por expedições oficiais financiadas direta ou indiretamente pela classe proprietária. Já no início do século XIX, além da formação de novos quilombos, começaram a se registrar rebeliões urbanas, das quais, uma das mais importantes foi a de escravos hauçás que uniu escravos de Salvador e do Recôncavo em 1807.
O chamado sincretismo religioso, conjunto de práticas ideológicas afro-católicas também se constituiu em um recurso de preservação de identidade social, inicialmente limitado aos escravos e depois a seus descendentes inclusive os juridicamente livres. A dominação do Catolicismo que se impunha à população escrava foi por ela reinterpretada numa aparente conversão na qual puderam ser conservados valores e comportamentos originalmente africanos. Nesse sentido, as práticas rituais afro-brasileiras foram um aspecto particular da luta social, de vez que a situação de escravo o impedia de ter condições de resistência legal aos níveis econômico e político. A concentração da resistência ao nível das práticas ideológico-religiosa s adquiriu, assim, enorme importância. O universo ideológico passou a se constituir e a produzir os elementos quase que exclusivos de uma coesão social possível.
A dominância do pensamento religioso pelo seu próprio associacionismo intrínseco facilitava, em certa medida, a superação da permanência das rivalidades que dividiam a população escrava.
Por ser uma forma de resistência limitada e, portanto, menos perigosa para a classe proprietária, as reuniões religiosas sofreram perseguições menos ostensivas, sem deixar por isso de se desenvolverem em semiclandestinidade . O Estado apoiou a Igreja na repressão a essas práticas não-católicas e estimulou a formação de irmandades que incorporavam a população de cor, escrava ou livre, aos quadros sociais controlados oficialmente. Nessas irmandades não somente se mantinham as separações por critérios de cor (negros, mulatos), como por situação jurídica (trabalhadores livres e escravos) e mesmo por lugar de origem na África. Aliás, esse último recurso foi largamente empregado pelas autoridades para impedir sublevações de escravos. A este respeito, o testemunho de Luís dos Santos Vilhena na sua Recopilação de Notícias Soteropolitanas e Brasílicas, datada de 1802, é bastante eloqüente:
"Por outro principio não parece ser muito acerto em política. o tolerar que pelas ruas e terreiros da cidade (do Salvador)
façam multidões de negros de um e outro sexo, os seus batuques bárbaros a toques de muitos e horrorosos atabaques, dançando desonestamente e cantando canções gentílicas, falando línguas diversas e isto, com alaridos tão horrendos e dissonantes que causam medo e estranheza, ainda aos mais afoitos, na ponderação de conseqüências que dali podem provir, atendendo ao já referido número de escravos que há na Bahia. corpo ração temível e digna de bastante atenção, a não intervir a rivalidade que há entre crioulos e os que não o são; assim como entre as diversas nações de que se compõe a escravatura vinda das costas da África."
A advertência de Vilhena foi, posteriormente, bem atendida pela comunicação do 80 Conde dos Arcos, o último Vice-Rei do Estado do Brasil e depois Governador e Capitão-General da Bahia, onde organizou a repressão ao movimento revolucionário pernambucano de 1817:
« o governo... olha para os batuques como para um ato que obriga os negros, insensível e maquinalmente, de oito em oito dias, a renovar as idéias de aversão recíproca que lhes eram naturais e que todavia vão se apagando, pouco a pouco, com a desgraça comum...»
Embora limitadamente, a ideologia liberal-burguesa também contribuiu para a organização da resistência de grupos sociais nos quais se incluíam trabalhadores negros e mestiços, muitos deles escravos. Sua participação pode ser assinalada especialmente na Conspiração Baiana de 1798, cujo caráter mais popular oferece contraste flagrante com as Conspirações Mineira e do Rio de Janeiro e com o movimento revolucionário nordestino de 1817.
Ainda que no projeto contestatório de 1798 dominem as reivindicações que conduzissem à autonomia política da Colônia ou, mais imediatamente, de uma de suas partes, a Capitania da Bahia, já existe a proposta de uma forma efetiva de cidadania. Assim é que se defendem o livre acesso aos empregos, a extinção dos preconceitos raciais e, sem tanta
unidade, a abolição da escravatura. Depondo perante o Tribunal da Relação da Bahia, um dos acusados, Manuel Faustino dos Santos, alcunhado o Lira, declarou que os conspiradores pretendiam instalar:
" . .. um governo de igualdade, entrando nele brancos, pretos e pardos; sem distinção de cores, somente de capacidade para mandar e governar". O mesmo conspirador havia confidenciado a um escravo, Luís da França Pires, também aliciado como conjurado:
«. . que estava projetado um levante nesta Cidade, o qual se executava daí a um ou dois meses, a fim de serem libertos todos os pretos e pardos cativos'. I
Ao lavrar a sentença condenatória, aliás bastante severa no tocante aos escravos, artesãos e soldados, os juízes capitulavam como agravantes:
«. .. as imaginosas vantagens de uma República Democrática, ' onde todos serão iguais, onde os acessos e lugares representativos serão comuns, sem diferença de cor, nem de condição'.»

(in PEQUENA HISTORIA DA FORMACAO SOCIAL BRASILEIRA)

terça-feira, 22 de abril de 2008

TERRA


TERRA


Rogel Samuel


Desenho de R. Samuel

terra de meus mais belos poemas
vão-se as cenas amarelas
também passou o amor com seu fardo
oh amados, da aliança esquecidos
no centro daquelas feras terras
vêm com seu automático gatilho
oh jovens orientais de olhos sagazes
oh bebedores de cerveja e seda
eu quero ter teu belo bolero thai
sob tua pele de chrystal e neve
o teu trunfo de veludo as tuas músicas
andando e esquecido de pelúcia
nas veias velhas da terra se irradiam
e há no teu colo as folhas macias
para onde eu quero voltar