quarta-feira, 23 de abril de 2014

O IGARAPÉ DO INFERNO, 6

O IGARAPÉ DO INFERNO, 6

ROGEL SAMUEL

           


                Eu já contei essa estória, já. Eu passei a vida toda de palavras de nada. Era 1898. Era. Eu sei o ponto. O que você pensa? Passo aqui os dias e noites pensando nessa coisa morta, vaga, lenta, recompondo dias e noites, que há muito perdi o sonho da vida, do mundo, o Amazonas está longe, longe, noutro lugar. Talvez eu nem saiba mais como eu era, nessa minha estória, pois tenho que inventar para fugir para contar que estou aqui.




            Em 1898.


            Naquela época, havia o bugre enorme, caboclo Paxiuba. Tinha quase um metro e noventa de altura. Cada braço valia um monstro. Era bicho do mato, me lembro dele. Vi briga dele, vi a mosca morta fedorenta da morte, a conversa dele, assassino, sim, sim, sem sussurro. Aquele bugre era filho de um negro, de um barbadiano sem nome, com uma índia caxinauá. É o que dizem. Mas isto sei. Conheceram o pai dele, na estrada de ferro Madeira-Mamoré. O pai ainda era maior. Mas morreu cedo, de malária.




            Como sempre, ali naquele término se desembainha o Igarapé Bom Jardim – tão belo! – que desce no misterioso Jordao que corre ao largo do Rio Tarauacá que vai morrer no Alto Juruá de águas barrentas como leite – que sai triunfantemente no Solimões, no Amazonas, o Rei de todos os rios. O meu Rio. O Amazonas é o meu rio!




            Nas águas aneladas, enleadas, chagadas de mágoas do vale verde está a minha alma, lá no fundo está tudo, o começo de tudo e o fim – quando eu estiver pra morrer vou pro fundo daquele inferno verde.


            Paxiuba ia sempre ao porto daquele mulher, a Zilda, cheia de corpo, roliça, peitos de bom parto, a mãe, boa parideira. Chegava ali remando, silencioso e úmido. Canalha! A hora em que a Zilda lavava roupa era sagrada – o marido dela na estrada da mata, colhendo o leite das árvores seringueiras, e ela na beira do igarapé, lavando roupa. Às vezes até cantava, a infeliz. Eram canções que hoje já ninguém conhece, como a que tinha aquele refrão:




            Eu morro, eu perco a vida,


            Mas o amor dela não hei de deixar...




            E ela nem o via. Nunca! Ele de repente surgia na frente! Ela na prancha do cais, acocorada, batia roupa, a espuma saindo assim do muito sabão de borboletas brancas transparentes bolas ensaboadas coloridas em aéreo visitar, bobas bolas brancas voadoras se indo pelo ar da manhã daquilo como crianças de neve ou anjinhos leves de virgem maria. E Zilda de costas de cócoras concentrada na trempe, de sorte que não o tinha visto chegar de tão concentrada estava... ou fingia não ver... e vapt... e vapt... batia roupa branca na espuma do sabão do rio branca se esparzindo pelo ar como bolhas voadoras coloridas.




            – Bons dias...


            Aquela voz a assustava e assustou. Sempre se ouvia falar dele, das mortes e das mulheres estrupadas pelo bugre. O coração disparava. Pois aquela voz reconhecia, repercutia, reproduzia numa cantilena perigosa e mole, pegajosa, dela mesma saindo, era a voz, ela sabia, no que há de se ver do ventre, das suas íntimas facilidades carnes indefesas, ela arrepiava asco, sensação de arrepiante de medo, horror paralisante, r eceio terno, medo quente, temor, pavor, solidão, na repulsa e na aversão do ódio que a dominava pois o marido nunca tinha conseguido fazer com que ela chegasse ao orgasmo, quando não há gente no rio é que tinha mais aquilo que inspirava o horror o show o ouvir daquela voz masculinizada mole de macho que vinha vindo de dentro dela para a visitar sempre daquela maneira, ela sabia, a Zilda, sabia o que ele estava querendo, ela toda guarda fechada indefesa da desconfiança que assim ficava, tinha medo daquele homem, daquele herói, ele sempre teve o que quis, bastava esperar – era assim com a caça e com a pesca – ela ali sozinha, o marido no mato da estrada, o vestido bem molhado, a vírgula tremeluzente, úmida, nua entre as pernas a vigília, a roupa rasgada, as pernas grossas, paradas, olhando nem tristes nem medo nem nada, – pois bastava ele Paxiúba se aproximar para que ela começasse a uma espécie de pânico de um onanismo mental nos paus da margem como se fossem aqueles consolos, e prosseguia e prosseguia sempre ainda meio tomada como que dormindo, aquilo era um asar, aquilo era uma praga, um ser misterioso aquele belo macho, uma cobra, ou víbora venenosa, sonho mau de ainda não acordar no breu da noite soturna, volúpia ensandecida, – bastava saber-se olhada por aqueles olhos fixos para saber-se possuída, arrasada, entregue, atravessada, e cega como se estivesse nas estrelas, na lua, e tudo muito mole na noite no dia, quase nao sentia que ia que queria morrer ou que tinha sido tomada na surdez do êxtase dos limites da morte selvagem, e era assim que Paxiuba queria e conseguia as mulheres, o corpo dela todo doente tremia como se estivesse em transe, – sim, os poetas tinham os poemas, e os homens os seus pertences , – como é? Que é? Quem?




            Era em 1898.


            Era. Eu sei, nesse ponto. Você pensa? Passo as horas vagarosas nesse aqui e posso sonhar comigo, no meu mundo amazônico, sozinho, reconstruindo as cenas que há muito perdi no rumo daquelas águas. Talvez os outros nem saibam que aquilo ainda exista, nem nessa minha velha sala eu posso ver como um filme na parede, ninguém está entre os meus velhos fantasmas, com quem falo, sempre. Em 1898, eu não vivi. Paxiuba tinha 20 anos, naquela época. Mas nunca deixou de ter caça e mulher que quis, a mulher e a caça e a pesca, como sempre quis, no porto do Laurie Costa ou em outro qualquer lugar, ali, no paraná do Igarape Bom Jardim, Rio Jordão, Tarauacá, Juruá, Solimões, Rio Amazonas. 6.000 km de águas barrentas correndo para o mar.

O IGARAPÉ DO INFERNO, 5

O IGARAPÉ DO INFERNO, 5


            ROGEL SAMUEL




            Depois da visão das meninas numas Ribamar não conseguiu adormecer e nada disse para o tio e para o irmão. Não. Mas voltou, no dia seguinte, apaixonado. Olha, rapaz , aquelas pequenas – paradas molhadas olhadas nem alegres nem tristes sem medo sem roupas sem nada, olhavam e eram lindas! Ribamar amou aquilo mergulhou naquilo mas não viu o formigueiro em que se metera e enlouquecido de dor e de formigas de fogo mergulhou no igarapé.


           Mas já estava alegre, e criança, e acena para as índias que, imóveis, se diziam, estátuas e Vênus, as duas.


           Ribamar ofereceu um sorriso aberto, sacana, mas elas nada não reagiam. Ele jogou água nelas e cego de paixão lançou-se para atravessar o rio, foi sair bem mais abaixo, metros abaixo, levado pela correnteza, vindo pela contra-correnteza da margem vindo, aproximando-se, as duas nada não diziam, o sexo da menina maior luminoso perturbava a escuridão dos olhos da emoção do dia, a vista, ele também estava nu, e tudo aquilo era bonito aquilo, a índia estava ali, ele vindo meio bêbado, não, não sei, basta um segundo, ele era excessivo, basta a mão tocar a mão... a menina mais nova lhe dá uma dentada!


           'Ah! ', dentou, ah, bem fundo, o sangue espirra alto e vermelho da mão que o dente morde, afiado, gritado. Mas a menina maior, cunhamuçu, mesmo assim se deixa navegar beliscar gargalhando ih ih ih à moda que escarnecia num namoro selvagem, querendo apalpá-la que ela zombava e brincava ih ih ih e muito se divertia.




            No terceiro dia as índias não estavam ali.


            Não e não, e em nenhum lugar. Elas se transformaram naquela flexa especada,intimidando, um aviso de morte com pena vermelha, que acenava e Ribamar, assustado, voltou ao tapiri e masturbou-se.




            No meio da noite um trovão de fogo o acordou.


            Acordado, o alarido bem forte bastante, era o quê? O quê? O tiro no seu ouvido numa centelha de vivacidade e perigo iminente que luz não mas sim o inferno vivo ali presente, era fogo, fogo os Numas a calamidade em tudo, e irmão já morto uma chuva de flexas invisíveis o tio Genaro atirando a esmo!


           Não se viam os Numas. Nada se via. A casa no incêndio os indios invisiveis e correndo pra fora dali Ribamar fugiu mergulhou naquelas águas e desapareceu na noite profunda e escura do Igarapé do Inferno se arrebatando se arrastando para longe da desgraça no desastre do tapiri em chamas.


           Os Numas não o quiseram ferir, o Ribamar.


           Os índios o respeitaram e o Igarapé do Inferno o engoliu.


           Não o quiseram matar.


           E ele mergulhou levado levado quando de súbito os tiros pararam a fogueira desaparecendo, a luz sobre as árvores se apagou, os gritos sumiram, o silêncio engoliu por inteiro o Igarapé do Inferno, levando levando no muito escuro, no rumo da correnteza, batendo em paus e margens, prosseguindo ainda em sonho o pesadelo da noite breu, sem estrelas e lua tudo muito noite, nem sentia a tragédia hipnotizado torporizado numa surdez e êxtase da vida e dos limites da morte.


           Quando amanheceu estava no porto do Palácio Manixi.


           Sombras, segredo, lágrimas e harmonia.


           Os poetas tinham os poemas, e os homens? como é, porra? quê? que? sei lá! Tudo aquilo aconteceu sim, no Seringal Manixi.


           Ribamar foi trabalhar ali, no Palácio, onde tudo era possível. Ficou uns tempos no Caraocara. Mas tem mais, tem. Tem Ribamar nessa minha estória de nunca acabar, que ainda nem começou, espere espere. As coisas se têm devagar.

VERLAINE

 

A LUA BRANCA



Verlaine


A lua branca
luz sobre o bosque.
De cada ramo,
ouço uma voz
vem da folhagem:

Oh! bem-amada!

O lago reflete,
profundo espelho,
o vulto vago
daquele salgueiro
que uiva ao vento.

Sonhar é a hora...

Do espaço desce
uma entranhada
calma imprecisa
que do céu estrelado
a lua irisa.

A hora indecisa...

(Trad. livre de Rogel Samuel)

terça-feira, 22 de abril de 2014

Inverno antigo




Inverno antigo

Rogel Samuel

É um pequeno poema este de Salvatore Quasimodo. Com o apoio da tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti, ensaio uma tradução:

Desejo tuas mãos claras
na penumbra dessa chama:
sabiam a carvalho, rosas,
ou a morte. Antigo inverno.

Pássaros buscavam milho
e eram súbito feitos neve;
como as palavras.
Um pouco sol, um halo de anjo,
e logo a névoa, as árvores,
e nós, como o ar da manhã.

O poema é obscuro, difícil, como quase tudo que Quasimodo escreveu. Ele era um poeta hermético. As mãos estão em chama, mãos de desejo, mãos secretas, aqueciam no inverno, com ungüento perfumado de madeira e flor. Ou morte, um cheiro de morte. Fora, os pássaros aparecem, vem comer. O frio a neve as palavras. Amanhece? Um pouco de sol sobre as árvores, vence a névoa. E nós? Como o ar da manhã, de manhã o sol é um anjo. Poema difícil, porém belo. Cheio de sugestões, são lembranças? Imagens que passam, em flashes, em cenas desconhecidas, misturadas, compostas como a realidade.

A Elegia Nº1 de Mauro Mota



Elegia Nº1 de Mauro Mota


Vejo-te morta. As brancas mãos pendentes.
Delas agora, sem querer, libertas
a alma dos gestos e, dos lábios quentes
ainda, as frases pensadas só em certas
tardes perdidas. Sob as entreabertas
pálpebras, sinto, em teu olhar presentes,
mundos de imagens que, às regiões desertas
da morte, levarás, que a morte sentes

fria diante de todos os apelos.
Vejo-te morta. Viva, a cabeleira,
teus cabelos voando! ah! teus cabelos!

Gesto de desespero e despedida,
para ficares de qualquer maneira
pelos fios castanhos presa à vida.




As regiões desertas

Rogel Samuel

Em que reside a beleza dessa elegia?
Entre outros elementos pela visão, mãos, lábios, pálpebras, cabeleira, corpo e alma, pendentes por um fio de cabelo.
As mãos libertam gestos. Os lábios frases. As pálpebras, as visões do amor, as regiões desertas.

 
Mauro Ramos da Mota e Albuquerque (Nazaré da Mata, 16 de agosto de 1911Recife, 22 de novembro de 1984) foi um jornalista, professor, poeta, cronista, ensaísta e memorialista brasileiro.
Filho de José Feliciano da Mota e Albuquerque e de Aline Ramos da Mota e Albuquerque, estudou na Escola Dom Vieira, em Nazaré da Mata, no Colégio Salesiano e no Ginásio do Recife. Diplomou-se na Faculdade de Direito do Recife, em 1937.



Lembranças do interior

Mauro Mota

 



CHUVA DE VENTO


De que distância
chega essa chuva
de asas, tangida
pela ventania?

Vem de que tempo?
Noturna agora
a chuva morta
bate na porta.

(As biqueiras da infância, as lavadeiras
correm, tiram as roupas do varal,
relinchos do cavalo na campina,
tangerinas e banhos no quintal,
potes gorgolejando, tanajuras,
os gansos, a lagoa, o milharal.)

De onde vem essa
chuva trazida
na ventania?

Que rosas fez abrir?
Que cabelos molhou?

Estendo-lhe a mão: a chuva fria.


VALSINHA DA BANDA DE MÚSICA MUNICIPAL

Música da
Banda Euterpina
Juvenil de
Nazaré da Mata

tocando ao
luar de prata.
(O seresteiro
achando a rima
da serenata.)
Música pelo
Natal; na festa
da padroeira.
(A procissão,
Nossa Senhora
da Conceição.)
Música nos bailes
de carnaval
e em funeral.

Seu Miguel ensaiava de noite, na Rua
da Palha, para as tocatas coletivas.
Nunca mais deixei de ouvir
as suas noturnas melodias na janela.
Sinto que ele acorda e volta de longe nesta madrugada.
Limpa a farda de tempo e areia,
vem do cemitério de São Sebastião,
vem com a sua valsa de antigamente,
vem com o seu clarinete na mão.


INSTANTÂNEO

No pátio da igreja de São Sebastião,
depois da missa cantada e da comunhão,
Dona Santinha, em perfeito estado de graça,
com o véu, o livro e o terço na mão,
murmurava a um grupinho que Padre João
estava, na sacristia, se derretendo
para a filha mais nova do sacristão.


LEILÃO



– Quanto dão? Quanto dão

– Quem dá mais?, grita mais o leiloeiro.

– Esta bengala de castão de ouro!

– (onde anda sem levá-la o dono
antigo?)

– Esta arca colonial!

–(falam dedicatórias de retratos.
Falam cartas de amor, a voz
trancada.)

– Esta mobília de jacarandá!

–(As visitas na sala, o pai, a mãe,
a irmã, a avó cochila no sofá.)

- Este faqueiro de prata!

– (Cruzados os talheres, as mãos cruzadas.)
– Esta cômoda do século XIX!

–(Soluçam as gavetas, dentro delas,
cheiro de roupa branca e de alecrim.)

– Esta louça azul de Macau!

– (A fumaça (da sopa?) na terrina.
Na borda (asa quebrada) desta
xícara os vestígios dos lábios da
menina.)

– Quem tira as rosas que a moça bota
nos jarros de opaline do consolo?
E a moça presa dentro desse
espelho do toucador do quarto de
dormir!

– Quem dá mais?, grita mais o leiloeiro. Bate o martelo, bate aqui,
dói longe.
 

 

CAMÕES, LUS-42-48

42
Enquanto isto se passa na fermosa
Casa etérea do Olimpo omnipotente,
Cortava o mar a gente belicosa
Já lá da banda do Austro e do Oriente,
Entre a costa Etiópica e a famosa
Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
Queimava então os Deuses que Tifeu
Co temor grande em pexes converteu.

43
Tão brandamente os ventos os levavam
Como quem o Céu tinha por amigo;
Sereno o ar e os tempos se mostravam,
Sem nuvens, sem receio de perigo.
O promontório Prasso já passavam
Na costa de Etiópia, nome antigo,
Quando o mar, descobrindo, lhe mostrava
Novas ilhas, que em torno cerca e lava.

44
Vasco da Gama, o forte Capitão,
Que a tamanhas empresas se oferece,
De soberbo e de altivo coração,
A quem Fortuna sempre favorece,
Pêra se aqui deter não vê razão,
Que inabitada a terra lhe parece.
Por diante passar determinava,
Mas não lhe sucedeu como cuidava.

45
Eis aparecem logo em companhia
Uns pequenos batéis, que vêm daquela
Que mais chegada à terra parecia,
Cortando o longo mar com larga vela.
A gente se alvoroça e, de alegria,
Não sabe mais que olhar a causa dela.
– «Que gente será esta? » (em si diziam)
«Que costumes, que Lei, que Rei teriam?»

46
As embarcações eram na maneira
Mui veloces, estreitas e compridas;
As velas com que vêm eram de esteira,
Duas folhas de palma, bem tecidas;
A gente da cor era verdadeira
Que Fáëton, nas terras acendidas,
Ao mundo deu, de ousado e não prudente
(O Pado o sabe e Lampetusa o sente).

47
De panos de algodão vinham vestidos,
De várias cores, brancos e listrados;
Uns trazem derredor de si cingidos,
Outros em modo airoso sobraçados;
Das cintas pêra cima vêm despidos;
Por armas têm adagas e tarçados;
Com toucas na cabeça; e, navegando,
Anafis sonorosos vão tocando.

48
Cos panos e cos braços acenavam
Às gentes Lusitanas, que esperassem;
Mas já as proas ligeiras se inclinavam,
Pera que junto às Ilhas amainassem.
A gente e marinheiros trabalhavam
Como se aqui os trabalhos s' acabassem:
Tomam velas, amaina-se a verga alta,
Da âncora o mar ferido em cima salta.


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Fotógrafo britânico registra ponto exato entre duas placas tectônicas na Islândia

Fotógrafo britânico registra ponto exato entre duas placas tectônicas na Islândia

 Priscila Reis Miranda


O vão entre a Europa e os Estados Unidos é cada vez maior - aumenta cerca de um centímetro por ano. Alex Mustard, um fotógrafo britânico, mostra, nestas imagens subaquáticas espetaculares, o limite exato entre as duas placas tectônicas de cada continente. Fica na Islândia, em um ponto raso de água doce, a menos de sessenta metros de profundidade.
Alex, de Southampton, na Inglaterra, usou uma Nikon D4 Nauticam, que vem com caixa estanque especialmente criada para imagens embaixo d'água. "As fotos mostram um mergulho no exclusivo mundo subaquático da Islândia, que, como em terra, é formado por uma paisagem vulcânica", relata.
Mais fotos em
 

O IGARAPÉ DO INFERNO, 4

O IGARAPÉ DO INFERNO, 4
 
 
ROGEL SAMUEL

           


            Do fundo do meu coração! Em 1923 apareceu na Amazônia um rapaz. Ribamar se chamava. Não conheceu pai. Se perdeu da mãe. Vinha do Ceará, vinha, e por isso resolveu no Amazonas à procura dos parentes seus: seu tio Genaro, o seu irmão Antonio. Ribamar desembocava em nomes, datas. Embolava vida. Só sabia isso, dois parentes no fim do mundo, trabalhadores do Alto Juruá, vindos de Jantiatuba, de lá o Seringal Pixuna, a 1.270 milhas de Manaus, onde naufragou o "Alfredo". Ribamar foi ver o afluentezinho do Rio, o Eiru, pro Gregório, o Mu, o Paraná da Arrependida, o Tarauacá, o Riozinho do Leonel, o Tejo, o Breu, o Igarapé Corumbam, o Hudson, o Paraná do Pixuna, o Moa, o Paraná dos Alumas, ou Numas, o Juruá-Mirím, o Paraná do Ouro-Preto, o Paraná das Minas, o Amônea. Foi no Paraná dos Numas que encontrou. Estavam lá! Primeiro desembarcou no Seringal Pixuna, que todos conhecem, dali partiu para o Numas, no mês de maio.


            O tio e o irmão eram aviados, sabe?, dos Ramos, e viviam porque nas cabeceiras do Paraná, na direção mesma do Igarapé do Inferno, com que se comunicasse por um furo estreito, os Ramos proprietários daquelas terras, mas sim. Como posso chamar? Varias vezes?

             Ribamar não foi bem recebido, não o vadio. Nem mesmo. Os dois pensando em voltar pro Ceara. No ano voltavam. Ribamar ali, ele era uma má notícia ruim. Ruim da terra. A merda daquela terra só dava mesmo má notícia ruim. Telegrama ali é guerra. E ali Ribamar significou: miséria e morte. Seca secada. Miséria e morte!

            Como era inexperiente, Ribamar ficou fazendo trabalhinho de casa, comida, defumação do látex. Arrumava o tapiri, o mesmo que era.


            Ah, ah, ah, quase em frente do tapiri no que trabalhava e vivia, os dias mortos, os sonhos mortos, o sono o calor, o trecho do Igarapé do Inferno mais gargalo, estreitinho, finório fundo corrido. Nunca ninguém viu passava pros outros lados, sinistros, escuros, terríveis, e lá, porque bem ali e além era o território sagrado, a região dos Numas, dos lendários seres, dos temidos, dos desconhecidos, ainda que se bem que por mais que há muitos anos os Numas andavam sumidos, desaparecidos, esquecidos, idos. Você vê? Você vê? Meu Deus! Você entende? Conforme já vai entender. Sou um velho viciado, prodre e fodido, fedendo a mijo e cagado, faltando à vida por um caminho curto curtinho, mas os Numas... voltaram! Um dia voltaram! Piores putos. O rio Pique Yaco, o Resvaladero, o Torro. Que sei eu!


            Um dia, três horas da tarde, Ribamar sentado num barranco, num toco, perto da parte estreita não se disse depois da Curva do Anil – lugar bonzinho de faveiro, dava sombra, escura e tranqüila –, aquilo era um banco de pesca, à sombra, à fresca, na boa, e Ribamar, sim ele, cismando estava quando apareceram as duas meninas nuas.


            Índias! Numas! Do outro lado do rio, ali, perto. Lá, lá entre as árvores, duas meninas Numas, quer dizer: a menor menina, ali, na beira dagua, com uma cumbuca, entrando na frescura das águas para banho silencioso e gozoso.


            Ribamar chocado! Hipnotizado! Apararição! Elas não ligaram para o jovem? – o vento soprava na direção delas, elas tinham de saber! Ribamar se abaixando, deitando-se no chão, já gozando, olhando aquilo, aquilo! E enquanto olhava foi botando asneira pra fora, era um adolescente.


            Eram meninas Numas.

            Porque a aldeia próxima, daquela vez muito próxima, na vazante, e baixavam das montanhas peruanas, por trás das passagens do ar, e vinham no piso do tapir, da anta, sempre pelo mesmo caminhar. Oh as antas, abundantes, saborosas, por aquelas brenhas, andando por lugares por onde só Numas sabiam, e aquelas belas indias no fundo verde escuro verde cré verde-amazonas verde-nada.


            E foi. Pois no depois elas se foram embora, sumiram, desapareceram entre as folhas.

O mar não tem tamanho, tem dimensão.

 

O mar não tem tamanho, tem dimensão.







O mar não tem tamanho, tem dimensão.


Rogel Samuel


Quem consegue entender? Pois disse Dugpa Rinpochê: "Constrói uma ilha para ti e para
aqueles a quem amas, um templo, uma fortaleza inexpugnável... mas deixa a tua porta aberta dia e noite".

Que a porta está aberta, da fortaleza inexpugnável, do castelo, do templo, da ilha.

A porta da ilha é o amplo mar, com suas algas e ilhas e vôo de gaivota.

Toda a vez que penso, que vejo o mar me lembro do poema de Sebastião Norões, que foi meu professor de geografia.

“Eu quero é o meu mar, o mar azul.
Essa incógnita de anil que se destrança
em ânsias de infinito e me circunda
em grave tom de inquietude langue.
O mar de quando eu era, não agora.
Quando as retinas fixavam tredas
a incompreensível mole líquida e convulsa.
E o pensamento convidava longes,
delimitava imprevisíveis rumos
viagens de herói e de mancebo guapo.
Quando as distâncias fomentavam sonhos.
Rebenta em mim essa aspersão tamanha
que a imagem imatura concebeu
de quando o mar era meu, o mar azul.”

O mar é isso, é a glória do espaço da liberdade, das ânsias de liberdade de voar, o mar antigo. O mar de Austrálias e de luzes. Viagens de Ulisses e de mancebos guapos, de heróis e de barcos bêbados de ondas. O mar dos azulejos de amestistas, o mar que era meu, o meu mar, o mar azul.

Nada mais belo do que isso: ser dono do mar, imaginar-se dono do mar. De quando o mar era meu, essa aspersão ampla e tamanha de tudo, essa viagem de longes, de langues, de anil e de esmeraldas balançantes.

O mar não tem tamanho, tem dimensão.

O mar é o amar.

domingo, 20 de abril de 2014

O IGARAPÉ DO INFERNO 3


O IGARAPÉ DO INFERNO, 3
 
ROGEL SAMUEL

           

 

            Eu passei a vida toda de palavras. Eu passei a vida toda de palavras de nada. É a mesma estória! Esta é a mesma velha merda! Estou só. Estou perdido! Mas sei. Lembro-me de que eu era assim, homem do qual de mal se podia dizer perdido. Do pior. Talvez até fosse um vivente das Amazonas, da exótica Amazônia minha terra, terra santa e mata. Palavra? Nada, nada, as palavras nada valem, eu passei a vida toda de palavras de nada, mais nada, nada mais.

 

            Eu passava os dias e as tardes. A mim. Foi, digo. Trabalhar é executar aquelas danças de índio, sabe? Você vê? Sabe? Também não, não? Você está fazendo o quê aqui, hem? Quando? Você tem medo? Sei. Eu? Ah ah ah, você me faz rir, há o cheiro ácido da morte em cada ponto e canto.

            Eu passei a vida toda de palavras de nada! Canto. Te paguei pra ouvir, te peguei para ler, esse serviço feito. Mas fica de olho, que eu te engano, vê se não acabou. Sim. Ah, estou mais muito mais morto que vivo, sabe, vou até te contar a estória secreta do meu fim, do que vivo desta morte. É, já fiz muita coisa, já.

            Pois eu era assim, tão certo que era. E não parava em canto em ponto algum, incomodado por bicho, viajando, pelos rios, em Manaus, Paris. Às vezes sumia, era assim. Homem dúbio, substituí o sim e o não. Vivia às vezes no Seringal, com índios, nordestinos, homens da balata, e aqueles todos bêbados, na palha da desgraça, tapiris cheios de escorpiões e aranhas caranguejeiras. Beira-d'água tem mosquito, lama. Cheiro podre de peixe, lixo, merda, ácida.

 

            Solteiro. Raramente com alguma cunha, alguma puta, caboclinha nova, de passagem. Dizem que fodi com a Conchita del Carmen, não sei não. Zequinha entre homens, comia com os homens, eles. Dizem que era bicha. Não garanto. Era assim, no quente. Comia peixe molho grande, caldeirada de tambaqui, tucunaré cozido, pacu frito com cará, sardinhas, leite de castanha, pirarucu de casaca, farinha do Arini com banana assada, o no escabeche, no assado na folha da bananeira, tucunaré, pato, no tucupi, tigelas de açaí, beiju, tapioca branca brava, coco ralado, cuscus de milho verde, ralado, cozidos no vapor — tudo com garopa, sono profundo na rede, colo de rede de prazeres, prazeres do quê? Você ainda acredita? Ah ah ah – eu sou ele, porra: o Zequinha Bataillon. Ainda bem. Ah ah ah ah... Sacana. Canto: Zequinha era capaz de embriagar e hipnotizar aqueles homens todos, que o amavam, que o idolatravam, todos, calados, sorumbáticos, mergulhavam num silêncio verde, o silêncio verde, a cola, a sela as almas, vivi aquilo.

 

            Zequinha ficava no Palacete Manixi. Paxiúba dormia debaixo da cama, como um cão. A Caxinauá contava estórias tristes, de Índio, fodia. O Amazonas é um lugar bonito, amaldiçoado... Maldição de Ajuricaba, o herói do Rio Iiaá. Ajuricaba caiu na emboscada dos soldados, amarrado a ferros, posto no fundo. No meio da viagem para Belém se libertou e saiu matando os soldados que estavam no convés com a corrente e gritos lançando-se nas águas escuras do Rio Negro, onde desapareceu. A morte é a escravidão! Queriam-no vivo para o humilhar, os fidalgos portugueses. Não! Antes morrer, amaldiçoou ele no rio. Não há peixe ali. Isso aconteceu em 1729. Depois, Belchior Mendes de Moraes, um capitão, fez a grande chacina, matou mais de 30.000 índios, cerca de 300 malocas, e o rio passou a se chamar Rio Urubu. Mais tarde, 40 mil índios foram mortos por uma epidemia de varíola, espalhada de propósito em presentes, roupas. Varíola infecciosa, contagio por vírus, o corpo cheio de pus, erupções purulentas, muito horror aquela morte, raquialgia, máculas, pápulas, vesículas, pústulas, cegueira, crises nervosas, respiratórias, a morte lenta, no meio da selva, hemorragias cutâneas, o corpo podre comido de formigas carnívoras. Morte.

             Me dá a tua mão! Estou morrendo! Estou dizendo. Tenho pouco pouco tempo de vida. Eu digo. Naquele dia Zequinha deu sumiço de si, no meio da floresta, a mata cheia de cobras, insetos, sanguessugas, moscas de ferrão, o pium, o carapanã, as mutucas, as cabo-verdes, os potós, os catuquis, os morimbondos, as cabas, as muriçocas, as suvelas, os besouros, as formigas. Ah, as formigas. A saúva antropófaga devora um vivente em minutos. Abandonados, os cadáveres da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré quando se ia buscar só ossos brancos. Tem a formiga de fogo, a saca-saia, a lavapés, a manhura, a cabeçuda, a taioca, a carregadeira, a táxi, a tracuá. Principalmente a tocandira, grande, peluda, dói tanto que dá febre. E a formiga roceira, a cortadeira, a guerreira, a correição... Martius disse populações inteiras fugindo das formigas. As açucareiras são capazes de por pra correr um exército. São milhares milhões bilhões de bilhões de formigas. Atravessam matas, rios, em balsas de si mesmas.

 

            Zequinha voltava do Rio Jordão.

            Tinha ido ao Barracão do Manuel de Faria, chamado "Trapiche do Commercio", onde ele comprava os vinhos franceses, os Collares, do Porto, Whisky Black, Alyrrod, Eduardo VII, Whitelys, Black Botle, o licor Benedictine — : Chartreuse, Pipermint, Anesone, Anizete, Curaçao d'Opio, Marraschino, Kümel, Cognac Macieira, Bisquit, Vermouthes. A Champagne Duc de Reims. E fiambre, o presunto português, sardinhas em lata, queijo da Serra da Estrella, queijo Eyssen holandês, a lagosta o salmão, o chá Lontra. E tinha ali Gramofones de Victor, discos de Caruso, máquinas de costura New Home, selas inglesas...

 

            Eu tinha ido ao Rio Juruá, de 3.200 km de extensão — águas velhas, nervosas, barrentas — no copo dágua apresentam em minutos três dedos de argila no fundo. No Juruá viviam 49 tipos de índios — rio cheio de perigos, torrões, salões, pedrais, muiunas, rebojos, ituranas, panelas, eu passei a vida toda de palavras de nada.

DHAMMAPADA I - Tradução de Thanissaro Bhikkhu e R. Samuel

(foto de r. Samuel - Sydney opera house)


 DHAMMAPADA I - Tradução de Thanissaro Bhikkhu e R. Samuel
1-2 *:
Fenômenos são precedidos pelo coração,
regidos pelo coração,
feitos do coração.
Se você fala ou age
com um coração corrompido,
o sofrimento então o segue
como a roda do carro
o rasto do boi
isso puxa aquilo.


Fenômenos são precedidos pelo coração,
regidos pelo coração,
feitos do coração.
Se você fala ou age
com a calma, coração luminoso,
então a felicidade o segue,
como a sombra
que nunca o deixa.


sábado, 19 de abril de 2014

O IGARAPÉ DO INFERNO, 2

  O IGARAPÉ DO INFERNO, 2  


            Zequinha, não. Não e não! Relações exclusivas: Maria Caxinauá e o bugre Paxiúba, o Mulo. Você ri? Ri? Gosto. Você ri. Você acha a minha fala muito velha? À medida que envelheci, reinventei a fala, pra falar, e você sabe. Sabe, tenho pouco tempo de vida. Não, não. Tenho. Já sinto a mordida da morte. Minto?

            Zequinha nasceu em 1890, no Manixi. No meio daqueles índios. Eram os Caxinauás, mansos mansos. Eram os Numas, violentos, assassinos eles.


            O Seringal Manixi se estendia que muito além das margens do Igarapé do Inferno. Aquilo saía no Igarapé Bom Jardim, que sai no Rio Jordão, e deságua no Rio Tarauacá, tributário do Rio Juruá, afluente do Solimões. Não é o fim do mundo? Onde? Onde? Ah, você? Lá, no rendilhado labirinto de ilhas e trilhas, de furos e lagos. Lá nasceu Zequinha, filho da vida do fim do mundo, filho do Pierre Bataillon e da dona Ifigênia, oh, essa mulher hábil, aparentada da família Vellarde, são colombianos, sabe? — seu pai era primo de D. Angel. A lenda ainda circula na cidade de Tarauacá. Atribuem a ela a rainha da riqueza, rainha. As ligações peruanas e colombianas de D. Ifigênia. Na guerra do Acre. Pierre se deu bem com os dois lados. Seu Seringal ficava do outro lado, fora da área conflitada. Fora.


            A educação refinada de Zequinha foi outro caso.


            Em 92, quer dizer, em 1892, a malária dizimava os curumins de todos os lados, todos, nas barrancas do Juruá. A família Bataillon, instalada à bordo do Barão de Juruá, não saía, com medo.

            E cruzou por ali um cargueiro inglês.

            Não, não está gravando, menino, socorro, não tá. Já se foi, se foi. O cargueiro se chamava Santa Maria de la Mar Dulce — o Paraná-guaçu — mas também Vicente Yanes Pinson, pois ia, antes de dizer, que fizera parte de um acordo. O Santa passava por ali, no momento, de bubuia, de descida, de embalo, debaixo do sol dourado, apresentando vasta e esteira branca, bigodão cheio, a proa cortando com fúria as águas pardas em direção a ponta do Fagoroso, do Inhame, do Capareral, talvez de Forso, em virtude da aparência de um perfil de mulher, e dali para as ilhas, rota batida da nossa borracha. O quê? Ah, sim, sim.

            Pois bem, pois bem, pois sim, muito bem. Se você quiser eu paro, paro de contar, muito bem, muito bem, gosto de você, belezinha, assim gosto, me dá um pouco de café, mais forte, estou morrendo, hoje escolhi para morrer. O quê? Já senti a ponta da mordida da morte. Você está ouvindo, surdo? Surdo surdo. Conto conto.


            Em 1894, ou seja, dois anos depois, a epidemia passou, e os Bataillons estavam de volta ao Manixi, quer dizer Zequinha, sua mãe. Sabe: um segredo, voltou só ele e a mãe. Portanto Zequinha ficou até os oito anos de idade entre os índios, sob a influência da Caxinauá. Sinto não sinto. Não e não. Olho pra você e digo: eis ai quem tem. Sinto não.

             Em 1898 Zequinha voltou para capital do Reichland de Alsácia-Lorena, os primeiros estudos. Morava ao lado da catedral famosa, fama. Conheço a catedral de Estrasburgo. O relógio conheço. Aos quinze anos está de volta, no Seringal falando francês, alemão, tocando piano, foi quando amasiou-se com a índia Maria Caxinauá.

            Em 1907, ficou órfão de mãe. D. Ifigênia faleceu. Ele voltou, de novo, para a Europa, voltou para Paris. Morava na Rue de Sevres, se não me engano, em companhia de uma mulher desconhecida. Daí também morre de malária seu pai, em 1910, e ele vem para cá, de novo, já para vender tudo, o Manixi, o império selvagem, homem de muita fortuna. Mas sim. Mas há quem diga que os dois morreram no naufrágio. Mentira, mentira.

            Uma coisa é certa: o jovem Batailon assim como sabia tocar excelentemente uma sonata de Beethoven ao piano, podia, o puto, podia andar inteiramente nu pela mata. Como um índio!

            Sim, seu desaparecimento nunca foi explicado.

            Me dá um pouco de café, estou ficando cego, cansado, não acabo a merda desta estória, oh esse seu Narrador , menino, nunca fique velho, não! mate-se antes, dane-se enquanto jovem, mas não deixe a decomposição da velhice chegar. Isto é humilhante! E estou velho porque tenho medo, medo de morrer. Medo! A velhice é o medo! Medo de morrer. Eu sempre fui suicida, sabe, mas já velho mudei, fraquejei, por isso tenho medo de morrer. O suicida tem medo de morrer. Morre antes, morre logo. Quê? Você quer me matar, é? quer me assaltar? É? Ho ho, sinto, sinto isso, sinto, sinto, conto. E digo, já fui muito rico. Rico! Como é mesmo o seu nome?


            Menti? Não menti. Velho não mente. Inventa. Sou mais velho do que este mundo. Já perdi a noção da Verdade. Bonito? Ah ah. Você evangélico acha isso bonito? Tudo aqui é velho, as fotos, os móveis. Tudo sujo. Vivo aqui há muitos anos. Antes, tinha uma mulher que vinha, limpava, mas a Geralda morreu, morreu. Como é esta morte? Eu vivi, vivi e nao ria, não, o que não sei como é a cara da morte. Nunca saberei. Saberei. Oh, sim, já. Ah ah, você vê? Você vê? Conto, conto. Está uma puta chuva, meu Deus, vai alagar tudo tudo. Que frio!


            Aonde eu? Bem. Foi lá. Lá. Foi na Praia do Cuco, à margem esquerda do Igarapé do Inferno, que foi visto pela última vez. Do outro lado ficava a Ponta do Fedegoso. Ali eram vistos, em outras épocas, os Numas, os guerreiros Numas nus, escondidos na vegetaçao, entre Tacacazeiros da Várzea, os paudebalsa, molongós que ali nascem, entre cipós titicas e cordas de tucum. Ali tem mais , muita sorva assassina, massaranduba, ja foi lugar de viração de tartaruga, de arapoca de cheiro, de ucuúba, de anil. Oh, vida vida. Sabe, menino, você é muito bom para mim. Você me faz bem lembrar. Você até me da vontade de me matar. Viver? Com força, com unhas e dentes, com sangue, com pus, e não quero beber o bolero. Ah ah, não tenha medo, não sou louco. Não. Vi um homem velho morrer abandonado sozinho no seu colchão – ele estava deitado em cima de um mar de suas fezes. Você não que saber o que é a morte? Era aquilo, a cama se tinha transformado numa bacia de fezes, mesmo na parede havia fezes coladas, respingadas, espalhadas, tudo aqui fedia, pois aquele homem era agora uma montanha de excrementos e o fedor era sentido já no corredor da entrada do prédio, como algo estranho, mais que fecal, excrementício, coliforme, como uma borra aveludada de esgoto úmido e pútrido. Aquilo, digo, entrava pelos narizes e não saía nunca mais da narina da gente como se nos infeccionasse e contaminasse e empestasse por dentro com a matéria pestilenta da morte.

O IGARAPÉ DO INFERNO, 1

O IGARAPÉ DO INFERNO, 1

ROGEL SAMUEL    

      
 

            – Vou contar. O quê? Você quer que eu continue? Não, não, meu menino, dos líquidos do corpo, o pus, a gosma, a saliva, o muco, as palavras ingratas: a linfa a fonte o plasma aquoso, amarelo-transparente, entende o que digo?, enzimas, digo, ceras, seivas pegajosas, urina e cerveja, você não sabe o que isso, de ontem, de outra época, das terras voadoras das palavras verazes, elásticas, humores, borracha, pau de leite, sim, tudo que esmaga e esguicha, mas o pior é o sangue, o sangue, mas sim, você me interrompeu com perguntas, e estou pegando o rumo, e você?, e você? Eu passei a vida toda de palavras de nada

 

            Era assim que falava Maneco Bastos, Manuel Bastos Filho, para aquele rapaz. Ele tinha o mesmo nome do falecido pai, Manuel Bastos, dono do Bar Bacurau, na João Coelho.

            A noite prosseguia.

            Estavam na Lapa, no Rio de Janeiro. Somente poucos fregueses ali, bêbados, cansados. Clima de decadência, pobreza.

            – Pois sim sim, disse ele. Meteu a unha na fenda do parafuso, forçou, dali saiu um líquido gomoso e muito vermelho escuro, mas o parafuso não cedeu, nem se moveu, e ele quase não sentia a dor, a cabeça do parafuso fendida rasgou o dedo, pingando suor em cima, cabeça de falo e fendida, emperrado impedia a focalização do binóculo.

            Aquilo era luneta de 1845, merda, por quê?, o quê? agora o olho burro vê, focaliza, e tudo vê, bem nítido e bonito, mas a imagem da orla da Praia do Cuco, a língua branca, de açúcar, que avançava até as águas do Igarapé do Inferno.

            “Tudo bem?”, perguntou ele assim. “Aquilo se move?” Agora aquilo se move?, foi o que ele perguntou e disse, ou o que disseram que ele disse.

            Do convés do “Barão do Juruá” ele observava a orla da Praia do Cuco, a copa das arvores verdes, lindo lindo. Sim, um susto, um gesto. Que é? Não é? Continuava a se mover, tinha visto, continuava ainda vendo? Via. Com nitidez, dentro do círculo de luz do fim do foco. Do fim fundo escuro do foco. Mas nada não disse do que tinha visto e estava vendo. Nunca disse. Zequinha ficou e ninguém viu quando ele desceu do navio para a floresta, e em minutos desaparecia ali.

 

            Oh, oh! – disse ele. O desaparecimento de Zequinha Batelão foi um desastre! Um desastre escandaloso. Ele era dos homens mais ricos e bonitos do Amazonas, do Alto Juruá, na época. Sabe? Sabe? Um segredo: Todas as jóias da família ainda estão lá, até hoje escondidas, num cofre debaixo de uma grande pedra da Praia do Cuco. Inclusive a tiara de esmeraldas e brilhantes que pertenceu à Rainha Vitória. Mas só eu sei onde está.

            O fim de Zequinha foi lá a coisa mais misteriosa, perturbou a imaginação do povo amazônico. Hipóteses absurdas, cabeludas leseiras, injustificadas. Tolices, surpresas de todo tipo do fio fino do destino. O quê? O destino é isso, seu merda. Nós morremos e é só, morremos um pouco a cada agonia. O destino é o pré-dito, os ditos, os feitos, a trama universal. Não, não é acidental. Só quando feito não era o pretendido. Nós agarramos o destino com as mãos de sangue, com as mãos cegas, com as mãos da sobrevivência, com as mãos que sangram. O acidental não tem deliberação. Cega necessidade física. Luta de vida e de morte, contra a causalidade da sorte. Violência não – causa. Quando vejo minha vida, inteira, uma serie de anos e danos escrotos, estéreis, inúteis, impunes, sinto os acontecimentos mas sem as conexões, pois eu não sei ser: ser é esperar, ser é morrer.

            Mas com você me perco. Vamos, vamos continuar.

            Zequinha desapareceu em 1912. Tinha 22 anos. Já vendido o Seringal Manixi a um homem chamado Ferreira, Dr. Antonio Ferreira, de Manaus.

            Zequinha tinha chegado da Europa, Paris era um luxo, eu estive em Paris, morei em Paris, na Rua Fondary, 30, no Hotel Fondary. Era perto da Torre. Zequinha liquidou tudo, menos o “Palácio Manixi”, o "art-nouveau" palácio, como esta minha pessoa diz que aqui falo. Adiou o regresso, meses e meses, e não tinha pressa, esperava acontecimentos.

 

            Zequinha era um rapaz estranho. Mas o descompasso, o contraditório, ah isso era, delicado selvagem culto. Os cabelos lisos e pretos como a mãe índia, quíchua. Ele era uma mistura de índia com uma princesa espanhola. Família Cellis. Olhinhos também pretinhos, muito vivinhos e pretos. Lábios sensuais. Príncipe! Príncipe amazônico, selvagem, sofisticado, adamado, maneiro. Pois a que beleza se reduz a só. Você é belo? O belo é o que aparece belo, para mim só. Ser é parecer. Eu fui, na juventude. Eu era um luxo. Nessa idade? O quê? Quantos anos tenho? Ah, ah, não digo não, no esconso. Tenho o tenho, no que dá. Você quantos tem? Pois, meu caro, meu caríssimo. Nenhuma, você está bêbado, você quer agradar porque eu pago. Faz bem. Continue assim. Mas era assim. Um instinto social, no que de uma propriedade das coisas, um fato em si, mas de um valor lógico, do desejo, da utilidade, do prazer, da vida, valores cognitivos. O Belo é apenas uma frase. Um atributo. Mas eu esqueço que você só tem uns poucos anos. Eu vi, vivi, estou à morte. Estou à morte. Ah, ah, ah. Sim sim. A mor-te! Ah, ah, – ria-se ele.