quinta-feira, 22 de novembro de 2007


Onças


Rogel Samuel



Alencar é cinematográfico. Estou relendo "O guarani". O livro começa por
um "fio d'água". Alencar seduz pela leveza. Logo aparece uma cena
"impossível": Peri caça uma onça preta com as próprias mãos. Perto de
Manaus vivia um caboclo, caseiro meio índio, forte como touro selvagem.
Certo dia uma jaguatirica, também chamada "gato do mato", do tamanho de
um cão, caiu na armadilha para paca. O animal ficou entrelaçado de
cordas pelo corpo, mal podia mover-se, mas arrancou-se dali. Ele ouviu
aquilo, foi lá com a filha pequena. A onça conseguiu pular sobre a
menina. Mas o animal estava de costas, entrançado de cordas. Ele o pegou
para estrangular. Quando chegaram outros homens a onça estava ainda viva
e, com as unhas da única pata livre, cortava o inimigo que quase morreu.
Em Alencar, Peri enfrenta a onça preta. As onças pretas estão em
extinção. Famosas. Na minha época só existiam no Norte. Meu amigo A.,
que viajou 40 anos pelo Amazonas, só encontrou uma, ele descendo um
igarapé estreito, motor quase em silêncio, sobre um tronco de árvore
caída, ao sol, ela. Deu marcha a ré. O animal voltou-se, soberano. Olhou
com desprezo, voou como um pássaro, atravessou a margem. Conheci um
"matador" de onças, velhote magro, vivia daquilo, no Careiro, perto de
Manaus. Amarrava um porco, subia na árvore, ficava na espera. Nesta
época digital estou relendo Alencar e falando de onça. Alencar é a Mata
Atlântica. Alencar organiza a estória como a história do Brasil, que sai
de sua obra inteira. Sente a floresta, que ele conheceu bem. Sem não me
engano, ele veio, por terra, do Ceará ao Rio de Janeiro. Naquela época,
uma epopéia, uma caminhada digna da coluna Prestes. Lula também fez a
caminhada da cidadania assim. Meu amigo NL viajou com Lula pelo interior
do Amazonas. Marta estava lá, também. Mulher bonita, a Marta.
O guarani, ópera, filme, medieval, com direito a castelo, cavaleiro
(Peri), donzela, rei. Alencar escrevia para o jornal, os romances saíam
em seriados. Ele amava esse país de índios, negros e portugueses. É um
escritor brasileiro. Veio, por terra, do Ceará ao Rio de Janeiro. Como
Prestes. Minha amiga NG ficou furiosa com Lula porque em Manaus
preparou-lhe um almoço com as próprias mãos e depois de comer Lula foi
agradecer à cozinheira: "Companheira..." E deu-lhe um abraço. Ela é
escritora, mas gosta mesmo é de ser elogiada na cozinha. Se você for
almoçar lá e não elogiar a comida ela entra em depressão. Ou fúria. Seu
livro x. está sendo traduzido na França. Prestes eu conheci, já muito
idoso, em conferência no Fundão. Brizola também. Logo que voltou do
exílio, em Nova Iguaçu. Brilhante orador, abriu e fechou o congresso do
PDT. Voz metálica, imagem exata e exaltada. Conheci Juscelino, na
Faculdade de Filosofia. E Lacerda. Só me faltou D. Antonio de Mariz, pai
de Cecília.

Um comentário:

Ana Pallito disse...

Literalmente na toca das onças.

Comove-me o imagético.