quinta-feira, 1 de novembro de 2007


Sinfonia Clementina

Rogel Samuel


Doutor, volto para casa, o samba mora lá no meu coração barraco, não, eu não sou daqui, eu não tenho amor — a Clementina a dizer, a cantar, a grande dama, nasceu do trabalho duro, onde mora o samba, no barracão chamado Brasil, canta a mulher trabalhadora e negra na voz transparente pesada de sal do trabalho, chora cuíca, e o olhar assim com desdém, do marinheiro só, não, diz ela, eu não tenho amor, foi no tombo do navio, foi no balanço do gingado todo de branco, sexual, bonezinho do marinheiro só, foi a mãe Clementina, Menina, que o galo cantou às quatro lúdicas da manhã, na linha do mar, pois quem me vê sorrir não há de me ver chorar, na linha do mar, lá vejo o mar, a madrugada foi embora, onde é que ela mora?, a profunda, diz agora, eu não sou daqui, sai da frente, sai, filho de batuqueiro, cambondo de orixá, na batucada da vida sou o primeiro, sou o primeiro a sambar, que quando o galo cantou a lua dormiu, a madrugada chorou, na pele morena o suor, tátá, crioula de taratá, a terra que tem minhoca eu gostá de cavucá, de Clementina a cantar, hum, ela não morreu, o Brasil ela canta, veraz, ela sabe a morada, jazzística, radical, — eu moro na roça, iaiá, nunca morei na cidade, minha gente cheguei agora, com Nossa Senhora, eu moro na roça — compro o jornal da manhã pra saber das novidades – ai minha mãe! — doutor, jogava o Flamengo e eu queria escutar, — chegou, mudou de estação, tem dó, seu doutor, eu dou um pulo no bar... se com desprezo me olha me causa cruentas dores, seus olhos luminosos, ritmada, porque do amor não entende nada, nada, era empregada doméstica por 20 anos, a patroa não gostava daquela voz — «parece miado de gato», o compositor Candeia assim também dizia no «Partido Clementina de Jesus»: «Não vadeia Clementina — Fui feita pra vadiar — Energia nuclear», começou a Clementina, doméstica, engomadeira, banqueteira Clementina, cadê você, cadê seus corimás, jongos Rosa de Ouro e de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, ó rainha Clementina do partido-alto, mudou-se para a Mangueira? ou para as festas das igrejas da Penha e de São Jorge?, cantando cantos de escravo, música de romaria, jongo benguelê milagre dos peixes escravos de Jó? hein?, onde anda a menina Clementina que acompanhava a mãe para acender seu cachimbo, lavando roupa, a mãe fumava, contava, reclamava dela quando se entretinha, cantarolando, ao bater roupa no tanque, dizia a patroa: "Clementina, você está cantando ou está miando?", que Leny Andrade diria depois: "nunca consegui produzir com minha garganta os sons que Clementina emite com a dela. Clementina é o horizonte da música brasileira e também o seu limite" — sim, e foram reencontrá-la no Zicartola, no samba duro e no partido alto recolhido nos quintais cariocas, pagode e santo, lundus, jongos, corimas, modas, incelenças, pontos, chulas e cantos de trabalho, que guardou em sua memória que viria a registrar 50 anos mais tarde, Clemenina cantora de forno e fogão, desagravo do povão, filha de violeiro e capoeirista, com jongos, benditos e ladainhas, sim, Clementina de Jesus morreu sem dinheiro, esquecida, em julho de 1987 — na época dos sertanejos, do pagode, mas continha a voz de negra, em registro grave, de cantora de jongo, a dicção perfeita não era fruto de esforço não, mas resultado de séculos da raça, traduzidos na formação do povo, diáspora negra, que ela até se apresentou na África e na Europa, chegou mesmo a cantar a Marselhesa na França, mas não foi boa vendedora de discos, poderia vender o peixe («eu sou a peixeira faceira») — morreu em 87 aos 85 anos deixando a saudade na raça registrada, e as gerações futuras vão querelar: «Clementina cadê você?», vosmissê na festa da Padroeira e na Taberna da Glória está, tataratatá, iluminada de rendas brancas, partideira minha amada que cantava de alegria, de beleza, de orgia como canto da raiz no ressoar de tambores, nas rezas de ancestrais, na mulata de olho aceso, na pele jambo ou curiboca, de olho preto ou marrom, brancos cabelos e mestiços de matizes, lundus calangos pontos e benditos, novenas, terços à beira-córrego, rituais de vida e da morte no universo rural de Valença e no santuário de Santo Antônio de Carambito; o samba duro, integrado ao corpo, expresso em voz, passo e gesto, canto de senzala, canto sincretizado, e rezas de igreja das festas dos oragos, da força da natureza, como no temporal que desabou na noite de estréia do «Rosa de Ouro», que inundou as ruas de Botafogo, mas abençoando tudo com a água pura da chuva, arrasando com raios e trovões a terra inteira...

Um comentário:

Ana Pallito disse...

Uma biografia com o texto do biografado.

Bela homenagem!