segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

WOODSTOK

WOODSTOK


Rogel Samuel


À noite, no meu quarto,  leio um poema de James Hopkins. Ele é um poeta americano premiado, autor do livro “ eight pale women”, que ganhou o prêmio “ Word works” da cidade de Washington, conferido por uma organização literária. Hopkins é um rapaz jovem, bonito, de longos cabelos. Conheci-o em Walden, New York. Ele me pede que escreva algo sobre seu livro, por sinal muito bom. 
Naquele dia fui a Woodstook. Estive lá recentemente duas vezes. Na primeira vez chegamos ao anoitecer. Fomos diretos para o alto da montanha, onde nos esperava uma reunião. Quase não sentimos o lugar. Só a sua atmosfera. Não da nostalgia, ou da memória do festival de música de 1969 – que não foi mesmo realizado lá – mas havia no ar algo daquele tempo bom dos hippies que todos fomos, dos cabelos compridos, das nossas sandálias, das nossas artes e almas puras. Sim, porque éramos uma geração de jovens puros que amávamos a música, as fotos, as histórias, a natureza. Não vivíamos, acampávamos neste mundo. Fomos ali, em Woodstock, reencontrar-nos. Woodstock não era uma cidadezinha nas montanhas, mas um lugar no nosso coração. Vi, logo que cheguei, que ali não tínhamos ficado velhos, que ainda estávamos no jogo da vida, que ainda amávamos a nossa jornada.
            Na segunda vez chegamos cedo, na hora do almoço.
            Almoçamos num pequeno restaurante onde, à noite, havia música, ali. Os dois garçons, jovens, andróginos, já era de uma outra era. A cozinha excelente. Depois, por minhas duas amigas americanas, “fomos às compras”. Woodstok é um grande shopping, agora. Particularmente, nada vi interessante. Mas gosto de shopping. O melhor foram as lojas de artigos orientais. Principalmente uma, chamada “Dharmaware”. Mas tudo muito caro, para nós, brasileiros. Entro num sebo. Nada vi, que me interessasse. Um rapaz, na rua, tenta-me desesperadamente vender duas fitas cassetes usadas por dois dólares. Ele tem ansiedade nos olhos, tem pressa. Arrependo-me de não ter comprado, ainda que desconfie por que ou de que ele precisa, ou por isso mesmo.
            Num supermercado comprei uma caneta, que tenho usado até hoje. Barato. É um modelo antigo, de aço inoxidável. Gosto de canetas, e já tive uma boa coleção. A maioria de pena. Mas hoje só consigo escrever no computador.
            Faz calor, em Woodstock. Sinto-me cansado, desanimado. Estou perdendo o interesse pelas coisas. Woodstock perdeu o clima místico de paz e amor dos anos sessenta. Estamos na era Bush. “Os nossos ídolos morreram de overdose” e já não somos os mesmos.
            À noite, no meu quarto,  leio um poema de James Hopkins. O poema diz mais ou menos assim: “ trate \ os fantasmas \ do quase-passado \ com um pouco mais de respeito  -- \ aquelas vaporosas  pistas que derivam dos parques \ aproveitam as ruas \ em segredo. \ o tremor \ apenas \ no vértice \ da escuridão \ quando o vermelho \  escorreu do céu. \ a sombra que pisca \ no canto de seu olho \ antes da noite \  engolir \ a lua”.
            Fecho o livro, a luz da cabeceira. Fecho os olhos.
            Adormeço.

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