sexta-feira, 3 de maio de 2013

A VOZ

 
A VOZ
 
NEUZA MACHADO
 
 
“A voz como era?”, indaga o primeiro narrador, maravilhado
com a sua nova direcao ficcional. Paxiuba, o bruto, possui o poder da voz que representa o heroi mitico. Assim, como uma divindade semihumana, possui voz tonitruante. Somente os herois mitificados possuem

voz poderosa. Este “heroi” e o possuidor da chave simbolica que fara o
 
primeiro narrador, agora tambem mitificado, a percorrer com o proprio

olhar diferenciado, a mao dinamizada e o imaginario fantasticamente


iluminado, os limites magicos do Manixi. “Ah, bem me lembro inteiro


dele sim, a gente fica velho, mas, antes de morrer, a memoria a gente

aviva, e nela vive, ate o tampo do tempo nos apagar”, revela o primeiro

narrador. As lembrancas fazem parte da memoria, e na memoria se

concentra o poder mitico. A memoria mitica so resguarda tempos

heroicos e seres extrarreais, mesmo assim, nao se pode duvidar de sua

verdade. A verdade mitica sera sempre renovada, revestida por novas

roupagens. Neste intervalo narrativo-ficcional, o narrador tera de passar

pela iniciacao do conhecimento primordial e sobrenatural. Paginas

adiante, o segundo e verdadeiro narrador entrara ficcionalmente e

vitoriosamente no “quarto escuro” do repouso fervilhante, para de la


sair renovado. Neste segundo momento ficcional, Paxiuba e o

representante da chave mitica (chave magica). A terceira chave,


transcendental (oriunda do plano da consciencia dinamizada), aquela

que vigorou/vigora no imaginario-em-aberto do escritor Pos-

Moderno/Pos-Modernista de Segunda Geracao, desde o inicio da

narrativa, so sera percebida e interpretada pelos leitores-eleitos

“incomodados” quando o segundo narrador se predispuser a aparecer no

fluxo interativo do recontar renovado.

No entanto, este narrador da pos-modernidade, narrador do

escritor do final do seculo XX e principio do seculo XXI, querendo ou

nao, pois se ve envolvido pelas diferenciadas normas ficcionais de seu

momento social, tera de se valer da técnica do olhar simulador para


apresentar o Manixi, o espaco socio-ficcional de sua narrativa. Assim, o

Palacio do Manixi e as terras que o rodeiam terao de aparecer em toda a

sua grandiosidade e imponencia, a moda dos simulacros televisivos e


cinematograficos que imperaram (imperam) em sua atualidade. Por

enquanto, a saida digna, irrepreensivel, para que, posteriormente, o

verdadeiro narrador possa desmistificar a sua propria realidade vital e a

sua outra diferenciada realidade socio-ficcional, e buscar nos dominios

do mito uma diretriz qualificada que apresente, aos leitores do momento

e aos leitores do futuro, a suntuosidade exigida pelo hodierno momento

historico das grandezas simuladas. O arcabouco mitico sera sempre uma

dimensao que em todo tempo satisfara tais requisitos. Paxiuba e o

guardiao da chave. O narrador tera de eleva-lo a categoria de heroi

mitico-ficcional. No entanto, como semi-humano, o seu aparecer


glorioso, ao longo da segunda etapa da narrativa, nao representara um

simulacro. A verdade da ficcao-arte do Pos-Moderno/Pos-Modernismo

de Segunda Geracao ultrapassa os limites da simulacao do fingir

depreciativo (simulacro), para, em seguida, alcancar a gloria do fingir


da literatura-arte (recriar). E convenhamos: sao poucos os escritores

eleitos para tal missao, neste tempo presente de incomuns calamidades.

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