METADE DA VIDA
Heras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a
Lagoa.
Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!
Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? e aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; ao vento
Tatalam bandeiras.
(Trad. Manuel Bandeira)
A rosa
Suave irmã!
Onde irei buscar, quando for Inverno,
As flores, para tecer coroas aos deuses?
Então será, como se eu já não soubera do Divino,
Pois de mim terá partido o espírito da vida;
Quando eu buscar prendas de amor aos deuses,
As flores no campo escalvado,
E te não achar.
(tradução: Paulo Quintela)
sábado, 12 de julho de 2008
HOLDERLIN

POR DE SOL
Onde estás? A alma anoitece-me bêbeda
De tôdas as tuas delícias; um momento
Escutei o sol, amorável adolescente,
Tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite.
Ecoavam ao redor os bosques e as colinas;
Êle no entanto já ia longe, levando a luz
A gentes mais devotas.
Que o honram ainda.
Trad. Manuel Bandeira
E pouco saber...
E pouco saber, mas muita alegria
É dada aos mortais,
Porquê, ó belo Sol, não me bastas tu,
Ó flor das minhas flores! no dia de Maio?
Que sei eu então de mais alto?
Oh, fora eu antes como as crianças são!
Que eu, como os rouxinóis, cantasse
A canção descuidada da minha delícia!
(tradução: Paulo Quintela)
A Natureza e a Arte ou Saturno e Júpiter
Alto tu reinas no dia e a tua lei
Floresce, tens na mão a balança, filho de Saturno!
E reparte as sortes e ledo repousa
Na glória das artes imortais do domínio.
Mas dizem os Poetas que para o abismo
O sacro Pai, o teu próprio, outrora
desterraste e que lá em baixo se chora,
Onde os Indómitos estão justamente antes de ti,
Inocente o deus da idade de ouro há já muito:
Outrora sem custo e maior do que tu, embora
Não tenha ditado nenhum mandamento
E nenhum dos mortais por nome o nomeasse.
Para baixo pois! ou não te envergonhes da gratidão
E se queres ficar, serve ao mais velho
E concede-lhe que antes de todos,
Deuses e homens, o Poeta o nomeie!
Pois, como das nuvens o teu raio, assim dele
Vem o que é teu, olha! dá dele testemunho
O que tu ordenas, e da paz
De Saturno cresceu todo o poder.
E quando eu no coração tiver algo de vivo
Sentido e alvoreça o que tu formaste,
E no seu berço tiver passado a dormir
Em delícia o tempo que muda,
Então eu te reconheço, ó Crónion! então te ouço, a ti
Sábio mestre que, como nós, um filho
Do Tempo, dás leis, e quanto
O santo crepúsculo esconde, anuncias.
(tradução: Paulo Quintela)
Um romance de Assis Brasil

Rogel Samuel
Em ”O prestígio do diabo” (São Paulo, Melhoramentos, 1988) Assis Brasil apresenta o panorama da vida da pequena classe média daquela época com maestria, pois o personagem Lázaro é escriturário, bem comportado, humilde, correto, calmo, preocupado com as aparências (“o que vão pensar?”, “começaram a olhar”, “podiam pensar que fosse um ladrão”), cuidadoso com a mãe e a irmã, tímido (nunca se declarou para Cacilda) e de repente, depois de algumas “quedas” (em que sentia que algo o empurrava ao chão) perde o emprego e começa a mudar. A alteração é lenta, quase imperceptível, mas vai assim até o seu surpreendente fim. O livro é muito bem construído, como todos os de Assis Brasil, e exibe a sociedade carioca das décadas de 60/70, o clima, o cotidiano, o centro da cidade, o subúrbio, no caráter humilde e bem comportado do jovem Lázaro (cujo nome é significativo). Sua mudança lenta e terrível, assim como foi a transformação moral da sociedade carioca. Há no livro um velado questionamento da luta do Bem contra o Mal, onde o “prestígio” do Mal vence.
O principal personagem, porém, é a sociedade carioca, a classe média pobre do Rio de Janeiro, a rua, a decadência das ruas, a vida, a corrupção do meio urbano. O romance é pessimista. Descreve com sutileza a loucura das grandes cidades. Abre a vida sem sentido, o aviltamento da moral brasileira, não só dos políticos ou da classe dominante, mas da sociedade como um todo, e principalmente a perda dos valores morais da classe média, o desvalorizar generalizado da vida privada, a sua favelização. O que está em jogo não é só vida pública, mas a contaminação do familiar, pois o mundo somos nós. O mestre Assis Brasil desse modo se faz herdeiro do romance machadiano.
TEATRO AMAZONAS, 4
A INAUGURAÇÃO
Rogel Samuel
No dia 31 de dezembro de 1896 se inaugurou o Teatro Amazonas, com “La Gioconda”, de Amilcare Ponchielli, sob a regência do maestro brasileiro Joaquim de Carvalho Franco, que foi diretor da Academia Amazonense de Belas Artes. Ele nasceu em Campinas, em 1858/59 e morreu em Manaus em 1927, onde se estabeleceu. Está enterrado no cemitério de São João Batista.
“La Gioconda” era uma novidade em 1896, e sua estréia fora em 1876 com grande sucesso. Foi a única das composições de Ponchielli (1834-1886) a ter sucesso e a manter-se no repertório dos teatros até hoje. Estreou no Teatro alla Scala de Milão, em 08 de abril de 1876 e Ponchielli revisou a obra pelo menos três vezes até o final da vida.
“La Gioconda” está na transição entre o romantismo e o realismo, reunindo elementos das duas escolas, no estilo da “grand-opera” francesa, carregada de melodrama, a ambientação exótica e um balé no meio do espetáculo – no caso a conhecida “Dança das Horas”, imortalizada por Walt Disney. A ópera revela grandiosidade, cenários luxuosos, efeitos de cena, como o incêndio do segundo ato, grandes número de coro, orquestração densa. Exige um elenco de 12 cantores, seis dos quais podem ser considerados principais, com pelo menos uma grande ária para cada um deles.
“La Gioconda” é precursora da escola realista da ópera italiana, com o vilão Barnaba, mais teatral e declamado do que cantado, e a violenta cena final, quando a protagonista comete suicídio num ato de extremo desespero.
O libreto é de Arrigo Boito, um dos artistas que fizeram a renovação do gênero. Boito não acreditou no sucesso da ópera, e preferiu assinar com um anagrama, Tobia Gorrio.
O soprano que interpreta Gioconda tem as partes mais difíceis do espetáculo, cheio de recursos emotivos, alternando sentimentos de ternura, amor, ódio e desespero. O soprano canta exaustivamente nos três primeiros atos, antes de enfrentar no fim o mais extremo esforço cênico e vocal, quando está no palácio em ruínas e prefere suicidar-se a ser morta.
É uma ópera cara e difícil.
A Gioconda era Líbia Drog, soprano dramática. Ela era uma italiana belíssima, famosa na Itália, na Espanha e em São Petesburgo. Ficou famosa porque no Metropólitan Opera House, em novembro de 1894, na ópera Guillermo Tell, esqueceu o texto da ária de Matilde –Selva opaca- pondo em perigo toda a função. Mas em Manaus teve uma de suas melhores atuações.
A multidão que assistia do lado de fora a entrada dos convidados à inauguração viu chegar o primeiro, Raul de Azevedo e sua esposa, Sara. O casal ficou a passear nos jardins do teatro antes de entrar. Raul aproveitou para fumar.
A seguir apareceram Afonso de Carvalho, a esposa e alguns amigos. Era um grupo animado. Entraram logo.
Logo veio Joaquim Cardoso Ramalho Junior, com o filho (a esposa adoentada não veio).
Quando apareceu Erico de Aguiar Picanço todas as pessoas que assistiam a entrada exclamaram um “oh!” de surpresa e admiração. Esmeralda Picanço portava as suas famosas esmeraldas: era um colar e brincos de esmeraldas e diamantes famosos na alta sociedade manauara, realçados pelo belo pescoço e o vestido de seda preta de sua dona. O vestido não tinha nenhum bordado nem enfeite.
E assim foram chegando os convidados, que a elite do Norte do Brasil.
Um dos últimos a chegar foi o Governado Fileto Pires Ferreira, com a esposa. E o último o ex governador Eduardo Gonçalves Ribeiro.
Eduardo Ribeiro como sempre vinha acompanhado por dois soldados. Entrou rapidamente, atravessou o hall sem cumprimentar as pessoas que encontrava no caminho, subiu as escadarias com velocidade e sumiu no camarote simples, ao lado daquele do governador. Os dois soldados ficaram de guarda na porta.
O Teatro ainda não estava ainda totalmente pronto, mas no “Salão Nobre”, em taças de cristal se servia o champanha La Grand Dame Veuve Clicquo e se conspirava. Conspirava-se contra o Governador Fileto Pires Ferreira, que já estava no camarote do Governo, e contra Eduardo Ribeiro, que se escondia na penumbra. Em sussurros no pé do ouvido algumas figuras diziam: “- Fileto vai viajar para Paris...”
- Agora que Fileto e o negro estão rompidos é hora de agir.
No início do espetáculo, o Governador Fileto Pires Ferreira falou. Inaugurou o Teatro. Seu discurso foi recebido friamente pela elite que já conspirava contra ele. E embora tivesse de relações rompidas com o ex-governador, anunciou:
- Temos a satisfação de ver entre nós o grande realizador da obra, o construtor deste imponente Teatro, o Governador Eduardo Ribeiro.
Neste momento irrompeu uma grande vaia, vinda de todos os lados. E no meio da “Dança das horas” ouviu-se alguém gritar:
- É preciso eliminar o negro!
(Risos).
Eduardo Ribeiro nunca mais voltou àquele teatro.
TEATRO AMAZONAS, 3
JOSÉ PARANAGUÁ - 1882
Rogel Samuel
O Presidente da Província José Paranaguá andava de um lado para outro, nervoso, com aqueles papéis e um leque nas mãos. Era um homem inquieto, nervoso, irritadiço, meio gago. Naquele momento tinha o projeto da construção do teatro de alvenaria nas mãos.
Na sua frente, o deputado Fernandes Júnior o olhava com admiração e reverência. Paranaguá era de uma das famílias mais poderosas do país. O deputado aguardava, apoiado na mesa. Parecia clamo, sorridente, gentil, servil, e esperava que Paranaguá não tivesse um ataque de nervos, na sua frente.
No forte calor da tarde, o governador suado agitava os papéis, o leque, levantando os braços no ar.
- Você tem razão, meu caro, disse Paranaguá, ainda andando. “Você tem razão”. Ele tinha o hábito de repetir a mesma frase duas vezes e gostava de falar andando. “Peripatéticamente”, dizia ele.
- Mas... – disse ele.
E não concluiu.
Apertou a mão do deputado e o conduziu, empurrando-o, até a porta.
- Eu o manterei informado, concluiu ele, conduzindo o outro pelo braço, dando-lhe amistosas tapinhas nas costas, enquanto punha Fernandes Junior gentilmente para fora.
José Paranaguá era um homem ilustre, e poderoso em todo o império.
- Mas o quê, Excelência? – perguntou o deputado, já com o corpo todo fora do gabinete.
- O seu projeto é muito modesto... muito modesto!
E voltando a abrir a porta do gabinete gritou:
- Eu o manterei informado. Eu o manterei informado!
Logo que o deputado saiu, entraram João Antony e Leovegildo Coelho. O governador os fez sentar e passou-lhes às mãos o projeto de construção do Teatro Amazonas.
O Teatro Amazonas estava ali, posto em papel, nascendo para ser uma casa de diversões de gente rica. Havia uma sociedade recentemente enriquecida que necessitava canalizar suas energias em festas, reuniões, diversão.
Logo após, em junho de 1882, quando o gigantesco teatro ainda era um sonho, José Paranaguá sancionou a lei n◦ 567 de 10 de maio de 1882 que despendia 10 contos de réis (uma fortuna!) com o contrato de uma companhia dramática.
Mas ainda não havia teatro.
José Lustosa da Cunha Paranaguá era filho do Marquês de Paranaguá, Presidente do Conselho de Ministros do Brasil. Foi Presidente da Província do Amazonas por dois anos.
Chegou em Manaus no dia 17 de março de 1882. No dia 28 de maio do mesmo ano foi explorar a região de Itacoatiara, acompanhado por Thaumaturgo de Azevedo e João Antony.
Thaumaturgo de Azevedo estudou na Escola Militar de realengo, no Rio, e na Faculdade do Recife. Militar engenheiro e advogado, chegou a general e a governador. Teve vida política agitadíssima, cheia de altos e baixos.
João Antony era um engenheiro amazonense de ilustre família. Foi político, desenvolveu uma carreira brilhante e honesta. Era pai do poeta Américo Antony.
Em 1882 a comitiva de José Paranaguá saltou em Amatari à procura do cemitério dos índios Miracauuêra. Em 12 de julho subiu o Rio Negro. Explorou o rio Cuieires à procura dos índios Arauquis, dizimados em 1669 pelo Capitão Favela.
Em 12 de setembro explorou o Baixo Amazonas, acompanhado por comitiva da qual fazia parte José Veríssimo.
Em novembro explorou o Purus.
O governador era um explorador. Detestava burocracia.
Foi na administração dele, José Paranaguá, que se começou a construir o suntuoso Teatro Amazonas.
A lei n◦ 593, de 29 de maio de 1882, sancionada por ele, chamava concorrentes para a execução da planta e dotava 30 contos de réis para o início das obras, não mais orçadas em 60, nem em 120, mas em 250 contos de réis.
Aquilo ficou esquecido durante o resto do ano.
No ano seguinte, numa tarde de março de 1883, estava reunida a comissão administrativa para a construção do teatro numa sala do segundo andar do prédio da prefeitura. A comissão, nomeada por Paranaguá, era constituída por Leovegildo Coelho, João Antony e Charles Brisbin.
Sentado na cabeceira da mesa estava o presidente, Leovegildo, com a xícara de café na mão.
- Há dois orçamentos para examinar, começou ele.
Leovegildo Coelho era um tipo grande, baiano forte, aparência militar. Era engenheiro. Nasceu pobre, foi criado por uma família adotiva e nunca conseguiu saber o nome de seus pais. Estudou em Salvador, depois foi para o Rio de Janeiro, para a Escola Militar. Foi Alferes, serviu no Amazonas e incorporado à “expedição científica”, sob a chefia de Gonçalves Dias, que morou na rua Barroso onde hoje existe o prédio da Biblioteca Pública. Gonçalves Dias depois passou a inspetor escolar e Leovegildo Coelho indicado para verificar o canal do Rio Negro do ponto de vista de sua navegação e fazer sua cartografia.
Leovegildo Coelho era mulato e foi um dos auxiliares do governador negro Eduardo Ribeiro na construção de Manaus. Foi delegado de polícia, deputado, senador e um dos signatários da Constituição Brasileira de 1891. Participou do governo de Floriano Peixoto, de quem era confidente e conselheiro. Deixou um alentado diário íntimo, ainda inédito e nunca publicado, em três volumes, com informações secretas da vida da República.
- Há dois orçamentos, disse Coelho. Um de Celeste Saccardi, de 249 contos; outro do Gabinete Português de Engenharia de Lisboa, de 500 contos.
João Antony ouvia em silêncio, o lápis rodopiando na mão. A seu lado estava o gordo Charles Brisbin, sofisticado, perfumado, com um polpudo lenço na lapela, cofiando o bigode grisalho.
Eles tinham de decidir da planta e orçamento da construção do teatro.
- Acho o projeto Saccardi o melhor e mais barato, disse Coelho, estendendo o pescoço com um puxão.
João Antony pôs-se a examinar o projeto Saccardi.
Depois de algum tempo, disse:
- Faltam fachadas laterais, - falou, dirigindo-se para Coelho.
Brisbin pôs o pincenê de ouro e se aproximou, e os dois passaram a examinar aquelas folhas.
- Sim, falta também a fachada posterior, disse Brisbin.
- Sim, respondeu Antony.
Leovegildo Coelho aproximou-se de onde estavam os dois, e começou a balançar a cabeça, concordando.
- Também não vejo no orçamento o emboço, o reboco e a pintura do edifício.
Examinaram os três.
- Falta o soalho e forro da platéia...
- E o ladrilho da entrada e do saguão...
- O preço da mão de obra da cúpula...
Sucessivamente os defeitos Saccardi foram aparecendo:
- O preço do ferro não é esse, está muito baixo, disse Brisbin, que era dono de uma construtora em Lisboa.
- O da alvenaria também, acrescentou Coelho.
Depois de um tempo, disse Antony:
- Mas como apoiar este projeto português, que custa o dobro?
- Quanto custa?
- Quinhentos contos.
No dia seguinte foram os três ao gabinete do Presidente da Província José Paranaguá.
Depois de ouvir a argumentação, disse o Governador:
- Como não, como não! – exclamou efusivo José Paranaguá, batendo leque na palma da mão e assobiando uma polca. Vamos aproveitar as condições prósperas da província, não vamos adiar a obra, é uma necessidade desta capital.
E depois de rodopiar pelo gabinete:
- Precisamos de um teatro. Precisamos de um teatro! – e assobiou a polca com mais força.
E logo andando de um lado para outro, como sempre fazia, disse em tom de discurso solene:
- Vamos aceitar esta planta portuguesa, vamos aceitar, vou tocar as obras vou tocar. Pagarei um conto de réis pela planta.
E depois de mais uma caminhada de um lado para o outro, agitando os braços, abanando o leque e assobiando a polca:
- Vamos agora escolher, imediatamente, o lugar onde construiremos o nosso teatro! Vamos escolher! Agora! Vamos escolher!
E começaram a discutir entre si e depois escolheram. Mas escolheram mal, como se verá.
Foi assim que obras começaram, mas não em 60, nem em 120, nem em 250, mas em 500 contos de réis.
E depois subiram a milhões.
TEATRO AMAZONAS, 2
NATAL DE 1900
Rogel Samuel
Noite escura.
Jovem para seus 55 anos, Francisco Ferreira de Lima Silva naquela escura noite vinha subindo a escadaria do imponente palacete onde morava Waldemar Scholz e que muitos anos depois foi transformado no “Palácio Rio Negro”, sede do Estado do Amazonas, no governo de Alcântara Bacellar.
Lima Silva envergava terno de linho bege, chapéu de palhinha, gravata borboleta de seda azul-claro, sapatos de verniz, pretos. Elegante.
Vinha pensando, distraído, imaginando no que o velho Waldemar Scholz lhe tinha reservado, pois o riquíssimo Scholz era generoso, e na noite de Natal dava presentes caros. Trazia para o dono da casa um livro de contos, o “Diferentes”, de 1895, de Quintino Cunha, que ainda morava em Manaus e depois publicaria, em Paris, o seu famoso livro de versos “Pelo Solimões”, em 1907, pela Livraria J. Aillaud. Quintino Cunha tornou-se amigo de Aillaud e de outros intelectuais franceses, como Faguet, da Academia Francesa
Para ambos não passarem o Natal só, Scholz convidara o amigo para a ceia. Era um grupo seleto: Lima Silva, que estava novamente separado da mulher; o maestro Adelelmo do Nascimento, mulato, cultíssimo, violinista, estava em Paris; Antonio Bittencourt, pai do professor Agnello Bittencourt, que não pudera vir; e poucos outros.
Lima Silva era jornalista e fez carreira política em Manaus. Escreveu “Efemérides do Amazonas”, em 1884, gigantesca obra que permanece inédita e talvez se tenha perdido. Escreveu também um livro sobre os movimentos revolucionários. Foi deputado estadual, federal e participou do movimento de deposição de Gregório Thaumaturgo de Azevedo, Governador do Amazonas, quando Lima Silva saiu ferido. Homem de oposição, de luta, da esquerda da época. Thaumaturgo foi deposto, Guilherme Moreira assumiu, pois era o primeiro vice, e em poucos dias entregou o governo para Eduardo Ribeiro, o segundo vice.
A paixão dominava Lima Silva. Apesar de casado, pai de duas filhas, o amor por Marinalva o enlouquecia, cabocla pequena, leviana e sensual. Silva não sabia o que fazer. Marinalva o traía. “Até com os trapixeiros!”, pensava Silva, com ódio.
Ao chegar à porta do palacete Scholz parou e esperou que lhe abrissem.
Um empregado, caboclo forte, meio índio, veio abrir:
- Pode entrar, disse o homem.
Na noite anterior, Silva estivera com Marinalva. Junto dela perdoava tudo. Era capaz de beijar seus pés, que aliás eram bonitos. Marinalva tinha os cabelos negros lisos, a pele morena bronzeada, seios pequenos. Olhos de índia, de onça, cor que variava pelo amarelo-ouro-esverdeado, cor indefinível, falsa, perigosa. Marinalva, ela dizia que se chamava assim. Mas como tudo nela era possível, ele não sabia se era verdade. Ela dizia que tinha vindo do Amatari. Não tinha documento. Quando Silva mandava fazer os documentos dela, Marinalva os perdia. Silva a cobria de presentes, roupas e jóias, dizia que queria casar-se com ela, abandonar a esposa, e de fato seria capaz de tudo para ficar com ela. Ela se ria, jurava que sim, e no dia seguinte sumia na orgia da noite, voltava bêbada e louca na manhã seguinte para aquela casa que Silva tinha alugado para ela, na Cachoeirinha. Silva se desesperava, se odiava, jurava que ia abandoná-la, deixava de vê-la, mas quando Marinalva estava sem dinheiro aparecia no Foro, ou na Câmara, ou mesmo na porta da casa dele. Fazia escândalo. Silva segurava o seu braço e a tirava dali, e tudo acabava na cama, ela gemendo por cima dele, ele extasiado de prazer e amor. Não, não tinha cura. Por duas vezes separou-se da esposa, D. Cacilda, mulher de boa família, rica, que tinha voltado para a casa dos pais por causa da Marinalva.
Lima Silva foi entrando no hall de entrada. Deixou o chapéu. Viu ali a famosa escadaria de madeira encaixada, famosa em todo o mundo porque não tem coluna e se sustenta até hoje milagrosamente. Foi para a sala contígua, onde Scholz costumava receber os visitantes e onde, anos depois, se faziam as reuniões de governo.
A decoração era impressionante. Os quadros, os móveis, tudo revelava luxo e bom gosto.
Da janela se via a vivenda de pássaros amazônicos, de que Scholz tanto gostava. Eram pássaros raros, que ele colecionava, junto com as orquídeas. Um dia, como ele se aproximou demais, uma garça do viveiro perfurou-lhe o olho esquerdo e o cegou.
Quando Scholz apareceu, viu que Lima Silva parecia estar à vontade, contemplando a noite. Era uma escura noite de Natal de 1900, pouco tempo depois da morte do Governador Eduardo Ribeiro, em circunstância misteriosa. Eduardo Ribeiro foi o grande construtor do Teatro Amazonas. Foi o construtor de Manaus. Um dos maiores estadistas do Brasil.
Scholz apareceu de roupa leve e branca e pince-nez de ouro. Sentou-se solene em sua frente e disparou, à queima roupa:
- Lima Silva, quem matou Eduardo Ribeiro?
Quando saiu, já de madrugada, do palacete Scholz, Lima Silva foi para casa de Marinalva.
Ela não estava.
Ordenou ao táxi que o levasse à praça de São Sebastião.
Em frente ao Teatro Amazonas parou e saltou. A igreja já estava fechada e a praça vazia.
Quando o táxi partiu, Lima Silva sentou-se na escadaria do Teatro e começou a chorar.
De longe, de bem longe, dos limites da fímbria do horizonte, apareceu um vento úmido e morno vindo da Floresta que passou como um fantasma, uivando nas alamedas do Teatro.
Caía uma chuva fina.
Chorando, Lima Silva foi caminhando, abandonado e só, em direção àquela passagem do aterro onde depois se pavimentou a avenida Eduardo Ribeiro.
Chorava a morte de Eduardo Ribeiro. Chorava a morte de tudo.
Poucos anos depois a economia do Amazonas entrou em decadência e ruína. Manaus quase foi transformada numa cidade fantasma. O manto negro de uma recessão a cobriu durante cinqüenta anos, povoando suas ruas uma legião de mendigos.
O Teatro Amazonas fechou as portas por meio século e durante algum tempo se transformou em depósito de borracha crua.
Todos os espelhos de cristal, os quadros, as estátuas, as cortinas de veludo, os lustres, os tapetes de linho, os jarros de porcelana, os móveis de luxo, as mesas e cadeiras móveis foram roubados.
A Floresta Amazônica ameaçava, na noite escura.
TEATRO AMAZONAS, 1
TEATRO AMAZONAS
Rogel Samuel
1. O TEATRO VAZIO.
Elegante como sempre, na faiscação de seu anel de brilhante, o deputado Fernandes Júnior chegou cedo ao prédio da Assembléia Legislativa Provincial, que ainda estava fechado, pelo que ele teve de entrar pela porta lateral, reservada aos faxineiros, secretários, auxiliares administrativos.
Era uma bela manhã de maio de 1881.
Ele trazia consigo o rascunho do texto que mudaria a história do Amazonas. O deputado prometera à sua mulher, D. Auxiliadora de Nazaré, que naquele mesmo dia levantaria o pleito de se construir um teatro de alvenaria na cidade de Manaus.
Aquela cidade só dispunha de três espaços para espetáculos: o “El Dorado”, o “Éden-teatro” (um barracão de madeira) e uma sala no Edifício da Beneficência Portuguesa, onde se representou “São Benedito”, uma peça popular.
O deputado logo que chegou ao gabinete começou a revisar a redação do texto de seu projeto.
Na noite anterior, no Éden, a exigente D. Auxiliadora assistira “Ghigi”, de Gomes de Amorim. Anos atrás, a “Justiça”, de Camilo Castelo Branco, em 1869.
A vida em Manaus era exuberante, elegante e rica, e bem alegre, já naquela época. Era o início do apogeu de uma sociedade que enriquecia rapidamente, com a extração da borracha. Fernandes Junior e sua mulher, elegantes, viviam em festas, piqueniques e espetáculos teatrais. Os salões de sua casa se abriam todas as semanas, nas noites das sextas-feiras, para receber amigos. E nos domingos, numa grande mesa sob o caramanchão do jardim, era oferecida uma tartarugada, ou uma peixada, almoço festivo regado a vinho português, sucos de diversas frutas, complementado com várias compotas de doces amazônicos e banhos nas águas limpas do igarapé que passava atrás da casa.
Aquilo ia até ao anoitecer: Lima Bacuri, Alarico José Furtado (presidente da província do Amazonas), Emílio Moreira, João Coelho e outros freqüentavam aquela mesa, acompanhados pelas esposas, filhos, babás e empregados, congestionando a rua da Conceição, onde morava o alegre deputado. Entre os convidados, o rico comerciante Manuel de Oliveira Palmeira de Menezes, chefe da casa Menezes, Gomes & Cia, o primeiro contratante da obra de construção do teatro, que depois passou para Alexandre Dantas que passou para Rossi & Irmãos da Itália, todos impossibilitados de realizar a obra pelos 493 contos contratados.
Fernandes Júnior era um dândi, simpático, educado, conhecia Paris, tinha certo refinamento, elegância e alguma cultura, alguma leitura, principalmente de autores portugueses.
Seu projeto era bem modesto, apenas 60 contos de réis, para a construção de um teatro. Aprovaram em 120 contos. Mas as obras pararam. Quase dez anos. E chegaram a milhões de contos de réis. Foi uma obra faraônica, uma das maiores e mais dispendiosa obra da República, até hoje.
O deputado Antonio José Fernandes Junior faleceu no Maranhão no dia 24 de abril de 1894, treze anos depois de ver o seu desejo de construção do Teatro realizado, ainda que com grandes, gigantescas modificações. Chegou a ver o Teatro Amazonas “erguido e em pleno apogeu”, como escreveu sobre ele o grande historiador Mário Ypiranga Monteiro.
Um século depois, estando Paravotti no Brasil em 1995, fez questão de ir a Manaus apenas para conhecer o Teatro, que foi aberto só para ele. E cantou para o Teatro Vazio. Em 1996, foi a vez de José Carreras.
O Teatro estava entretanto lotado.
Em 29 de março de 1990, escreveu Paulo Francis: “- Rio de Janeiro - Leio no suplemento do "Sunday Telegraph" que alguém chamado Mário Ypiranga Monteiro conta (em três volumes...) a história da decadência do Teatro Amazonas, com "grande escrupulosidade", nota o autor do artigo, Nicholas Shakespeare, que é o editor de livros do jornal e convidou Ivan Lessa para resenhar um livro chamado "Samba", de uma gringa, que esta semana, por sinal, está escrevendo sobre a derrota dos sandinistas na "New York". Esqueci o nome da bicha, mas não tem maior importância. Depois eu conto. Pelo nome, é morena como você...
“Monteiro, descrito por Shakespeare como professor (hum... lá vem "outrossim") de literatura, pequeno e de pernas arqueadas, diz ter começado a obra em 1932, e que sua versão é a verdadeira e que a Enciclopédia Britânica errou. Bem, se ele mandar o livro à Folha para mim, prometo ler e resenhar.
“Estreei em teatro no Teatro Amazonas, em 1951 ou 1952, fazendo o frei Lourenço, em "Romeu e Julieta", daquele outro Shakespeare, em tradução em verso de Onestaldo Pennaforte, que, assim, de lembrança, de orelhada, me pareceu bastante boa. Nos ensaios, minha voz não chegava ao fundo do minúsculo teatro Duse, em Santa Tereza, Rio, de propriedade de Paschoal Carlos Magno, crítico e incentivador do teatro brasileiro, que mantinha o Teatro do Estudante. Quando entrei em cena no Teatro Amazonas ouvi uma voz ribombar: "não tarda o sol". É a primeira fala de Frei Lourenço e a voz era a minha que, misteriosamente, soltou-se para sempre. O teatro é belíssimo, apesar de esculhambado como tudo no Brasil. Mas sempre quis saber dessa aventura amazônica de Ford e de outros tipos. Me diverti lá. Mas cá entre nós, o calor é... amazônico. Só me lembro de coisa semelhante na minha breve passagem por este país "gângster", o Iraque, em que um inglês, ao nos despedirmos no hall do hotel, me disse "você vai acordar amanhã às 5 da manhã". Não dei importância, até que acordei às 5 da manhã, porque lá o sol nasce a essa hora e faz 50 graus à sombra. Estive em Manaus, bebi todos os sucos, passeei pelo rio Amazonas, e, Waaal, trabalhamos em várias peças, "Espectros", de Ibsen, "Hécuba", de Eurípides etc. Um massacre, ocasionalmente aliviado pelo talento individual de uns e outros.
“Esta é uma das histórias mais engraçadas da minha vida. Um amigo, Marcelo Aguinaga, e eu estávamos com problemas em casa e resolvemos atender a um anúncio no "Correio da Manhã", pedindo candidatos a atores para uma viagem ao Norte e Nordeste. Tal boca livre, porque jamais pagando, nos atraiu ao já referido teatro Duse, em Santa Teresa, parte da casa de Paschoal Carlos Magno. Isso faz quase 40 anos. Esperávamos, Marcelo e eu, segurar lanças como soldados em algumas produções, em suma, trabalhar como extras, valendo-se da nossa altura incomum no Brasil, e nada mais. Saímos da casa de Paschoal com cinco papéis, cada um, em produções diversas. Fiz bons amigos nessa viagem de quem nunca mais ouvi falar, mas lembro deles com saudades.”
Rogel Samuel
1. O TEATRO VAZIO.
Elegante como sempre, na faiscação de seu anel de brilhante, o deputado Fernandes Júnior chegou cedo ao prédio da Assembléia Legislativa Provincial, que ainda estava fechado, pelo que ele teve de entrar pela porta lateral, reservada aos faxineiros, secretários, auxiliares administrativos.
Era uma bela manhã de maio de 1881.
Ele trazia consigo o rascunho do texto que mudaria a história do Amazonas. O deputado prometera à sua mulher, D. Auxiliadora de Nazaré, que naquele mesmo dia levantaria o pleito de se construir um teatro de alvenaria na cidade de Manaus.
Aquela cidade só dispunha de três espaços para espetáculos: o “El Dorado”, o “Éden-teatro” (um barracão de madeira) e uma sala no Edifício da Beneficência Portuguesa, onde se representou “São Benedito”, uma peça popular.
O deputado logo que chegou ao gabinete começou a revisar a redação do texto de seu projeto.
Na noite anterior, no Éden, a exigente D. Auxiliadora assistira “Ghigi”, de Gomes de Amorim. Anos atrás, a “Justiça”, de Camilo Castelo Branco, em 1869.
A vida em Manaus era exuberante, elegante e rica, e bem alegre, já naquela época. Era o início do apogeu de uma sociedade que enriquecia rapidamente, com a extração da borracha. Fernandes Junior e sua mulher, elegantes, viviam em festas, piqueniques e espetáculos teatrais. Os salões de sua casa se abriam todas as semanas, nas noites das sextas-feiras, para receber amigos. E nos domingos, numa grande mesa sob o caramanchão do jardim, era oferecida uma tartarugada, ou uma peixada, almoço festivo regado a vinho português, sucos de diversas frutas, complementado com várias compotas de doces amazônicos e banhos nas águas limpas do igarapé que passava atrás da casa.
Aquilo ia até ao anoitecer: Lima Bacuri, Alarico José Furtado (presidente da província do Amazonas), Emílio Moreira, João Coelho e outros freqüentavam aquela mesa, acompanhados pelas esposas, filhos, babás e empregados, congestionando a rua da Conceição, onde morava o alegre deputado. Entre os convidados, o rico comerciante Manuel de Oliveira Palmeira de Menezes, chefe da casa Menezes, Gomes & Cia, o primeiro contratante da obra de construção do teatro, que depois passou para Alexandre Dantas que passou para Rossi & Irmãos da Itália, todos impossibilitados de realizar a obra pelos 493 contos contratados.
Fernandes Júnior era um dândi, simpático, educado, conhecia Paris, tinha certo refinamento, elegância e alguma cultura, alguma leitura, principalmente de autores portugueses.
Seu projeto era bem modesto, apenas 60 contos de réis, para a construção de um teatro. Aprovaram em 120 contos. Mas as obras pararam. Quase dez anos. E chegaram a milhões de contos de réis. Foi uma obra faraônica, uma das maiores e mais dispendiosa obra da República, até hoje.
O deputado Antonio José Fernandes Junior faleceu no Maranhão no dia 24 de abril de 1894, treze anos depois de ver o seu desejo de construção do Teatro realizado, ainda que com grandes, gigantescas modificações. Chegou a ver o Teatro Amazonas “erguido e em pleno apogeu”, como escreveu sobre ele o grande historiador Mário Ypiranga Monteiro.
Um século depois, estando Paravotti no Brasil em 1995, fez questão de ir a Manaus apenas para conhecer o Teatro, que foi aberto só para ele. E cantou para o Teatro Vazio. Em 1996, foi a vez de José Carreras.
O Teatro estava entretanto lotado.
Em 29 de março de 1990, escreveu Paulo Francis: “- Rio de Janeiro - Leio no suplemento do "Sunday Telegraph" que alguém chamado Mário Ypiranga Monteiro conta (em três volumes...) a história da decadência do Teatro Amazonas, com "grande escrupulosidade", nota o autor do artigo, Nicholas Shakespeare, que é o editor de livros do jornal e convidou Ivan Lessa para resenhar um livro chamado "Samba", de uma gringa, que esta semana, por sinal, está escrevendo sobre a derrota dos sandinistas na "New York". Esqueci o nome da bicha, mas não tem maior importância. Depois eu conto. Pelo nome, é morena como você...
“Monteiro, descrito por Shakespeare como professor (hum... lá vem "outrossim") de literatura, pequeno e de pernas arqueadas, diz ter começado a obra em 1932, e que sua versão é a verdadeira e que a Enciclopédia Britânica errou. Bem, se ele mandar o livro à Folha para mim, prometo ler e resenhar.
“Estreei em teatro no Teatro Amazonas, em 1951 ou 1952, fazendo o frei Lourenço, em "Romeu e Julieta", daquele outro Shakespeare, em tradução em verso de Onestaldo Pennaforte, que, assim, de lembrança, de orelhada, me pareceu bastante boa. Nos ensaios, minha voz não chegava ao fundo do minúsculo teatro Duse, em Santa Tereza, Rio, de propriedade de Paschoal Carlos Magno, crítico e incentivador do teatro brasileiro, que mantinha o Teatro do Estudante. Quando entrei em cena no Teatro Amazonas ouvi uma voz ribombar: "não tarda o sol". É a primeira fala de Frei Lourenço e a voz era a minha que, misteriosamente, soltou-se para sempre. O teatro é belíssimo, apesar de esculhambado como tudo no Brasil. Mas sempre quis saber dessa aventura amazônica de Ford e de outros tipos. Me diverti lá. Mas cá entre nós, o calor é... amazônico. Só me lembro de coisa semelhante na minha breve passagem por este país "gângster", o Iraque, em que um inglês, ao nos despedirmos no hall do hotel, me disse "você vai acordar amanhã às 5 da manhã". Não dei importância, até que acordei às 5 da manhã, porque lá o sol nasce a essa hora e faz 50 graus à sombra. Estive em Manaus, bebi todos os sucos, passeei pelo rio Amazonas, e, Waaal, trabalhamos em várias peças, "Espectros", de Ibsen, "Hécuba", de Eurípides etc. Um massacre, ocasionalmente aliviado pelo talento individual de uns e outros.
“Esta é uma das histórias mais engraçadas da minha vida. Um amigo, Marcelo Aguinaga, e eu estávamos com problemas em casa e resolvemos atender a um anúncio no "Correio da Manhã", pedindo candidatos a atores para uma viagem ao Norte e Nordeste. Tal boca livre, porque jamais pagando, nos atraiu ao já referido teatro Duse, em Santa Teresa, parte da casa de Paschoal Carlos Magno. Isso faz quase 40 anos. Esperávamos, Marcelo e eu, segurar lanças como soldados em algumas produções, em suma, trabalhar como extras, valendo-se da nossa altura incomum no Brasil, e nada mais. Saímos da casa de Paschoal com cinco papéis, cada um, em produções diversas. Fiz bons amigos nessa viagem de quem nunca mais ouvi falar, mas lembro deles com saudades.”
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Bacellar recebe pensão
Rogel Samuel
“O poeta Luiz Bacelar terá uma pensão do governo do Estado. A matéria foi votada pelos deputados durante a sessão desta quarta-feira” disse o Blog do Holanda. Ele é o maior poeta do Amazonas. Fico muito feliz, ele não recebe nenhuma aposentadoria, mora miseravelmente num quarto alugado no centro de Manaus, tem 80 anos e é um gênio.
O ex-governador Amazonino é seu admirador. Um dia fomos, Bacellar e eu, a um concerto no Teatro Amazonas. Na saída eu disse, curioso: “Vamos esperar a saída do Governador” – “Eu lá quero saber dessa gente!”, respondeu ele, de má vontade. Mas esperamos do outro lado da rua. Na saída, Amazonino o viu, atravessou a rua, veio até ele e estendeu-lhe a mão: “Mestre Bacellar!” Eu disse: “Não foi você quem cumprimentou o Governador, mas o contrário!”. Ele resmungou qualquer coisa, mal humorado como sempre.
Bacellar (ele faz questão dos “ll”) é contraparente de Claudio Santoro. Nasceu em Manaus, 4 de setembro de 1928. Foi jornalista, portuário, comerciário, professor de Literatura e História da Música. Participou da criação do Clube da Madrugada (1954), cujo nome sugeriu. “Frauta de Barro” ganhou, em 1959, o Prêmio Olavo Bilac da Prefeitura do antigo Distrito Federal, de cuja comissão julgadora faziam parte Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Seu segundo livro, “Sol de Feira”, é considerado por Benedito Nunes um dos mais importantes da literatura brasileira na região Norte. Membro da Academia Amazonense de Letras. Escreveu “Quatro movimentos” (Manaus, 1975), “O Crisântemo de cem pétalas” (Manaus, 1985) e “Satori” (Manaus, 1999, com meu prefácio). Também escrevi um prefácio para a quarta edição de “Frauta de Barro”.
Leia o “Soneto da Caixa de Fósforos”:
Minha cápsula de incêndios,
meu cofre de labaredas!
Meu pelotão de alva farda
e altas barretinas pretas:
se só num níquel quem vende-os
lhes aquilata o valor,
teus granadeiros da guarda
não se inflamam de pudor!
Fiat Lux do meu verso,
símbolo vivo do amor:
qualquer fricção te incendeia,
te arranca estrelas de dor,
minha gaveta de chamas
com sementes de calor.
("Frauta de Barro", 1963)
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Recife
Rogel Samuel
Notícias de Recife por mensagens de email. Minha amiga se encontrou com alguém, etc. É uma amizade recente. O Recife é uma vaga lembrança na memória. Por trás da casa estava a praia velha, onde uns poucos barcos dormiam e uns muros caiados me falavam de João Cabral. Depois de uma reta, a subida bem suave para chegar a Olinda, de onde o mar ao luar transparecia como uma toalha de luminosa seda branca. Naquela noite, alguns bares abertos e um vento que vinha do mar batia nos sinos da igreja e pediam perdão. O mundo se apagava no fim da rua e novos cânticos subiam até nós que comemorávamos o fim de um grande enredo que terminou no final do Leblon. Entre o alto de Olinda e o final do Leblon há uma ponte invisível que registra uma história secreta que vai terminar em Frankfurt, na Alemanha. Ainda contarei essa novela e dez capítulos e dez soluços perdidos no tempo em que se ouviam os sinos assobiar no limo do veludo que vinha do oceano distante, no vento que nos vinha salgar, nos ventos que ouviram nossos últimos suspiros e nossas últimas falas de um amor abafado. O Recife assistiu a tudo aquilo. O Recife de pedra suportou tudo. Pode ser que tenhamos vivido aqueles dias em vão, que não era preciso tanto sofrimento. Mas a angústia acumplicia o amante como sua sombra. Minha nova amiga de Recife nem sabe em que solo sagrado está pisando hoje, quando lá deixamos o rastro quase sangrento de nós mesmos.
Os pássaros imaginários

Rogel Samuel
Jorge de Lima, em “Invenção de Orfeu”, produziu um poema certamente eterno, que é o “Canto 1, 26”, que leio sempre com o mesmo antigo prazer:
“Qualquer que seja a chuva desses campos
Devemos esperar pelos estios;
E ao chegar os serões e os fiéis enganos
Amar os sonhos que restarem frios.
Porém senão surgir o que sonhamos
E os ninhos imortais forem vazios,
Há de haver pelo menos por ali
Os pássaros que nós idealizamos.
Feliz de quem com cânticos se esconde
E julga tê-los em seus próprios bicos,
E ao bico alheio em cânticos responde.
E vendo em torno as mais terríveis cenas,
Possa mirar-se as asas depenadas
E contentar-se com as secretas penas”.
Qual o sentido desse estranho início: “Qualquer que seja a chuva desses campos / Devemos esperar pelos estios?” – É esperar que a juventude passe, que os estios da solidão e da velhice apareçam, o poeta sonha a juventude que deve passar e suas possibilidades devem passar e na velhice é quando devemos amar os sonhos que ainda ficarem na memória, os sonhos verdadeiras lembranças e os sonhos inventados, os que nunca tivemos, ou seja, os amores tidos e desaparecidos, fracassados, e os outros, ou que nunca tivemos, e por isso nunca fracassaram, e se não surgirem da memória os grandes amores da juventude que não tivemos, devemos inventá-los, devemos criá-los, devemos vestir e fantasiar a nossa alma com esses sonhos do que poderia ter tido e sido e não foram ou tivemos, pois o amor sonhado, imaginado e mentido vai esconder e vestir o deserto da solidão das lembranças com as muitas flores de um paraíso inexistente que só vai existir na nossa imaginação, inventado de uma ficção poética, e nesses campos imaginados podemos descansar habilitar nossas lembranças de uma felicidade que não tivemos, que nunca conhecemos.
terça-feira, 8 de julho de 2008
O abismo do amar
Rogel Samuel
O belo e doloroso poema de Clarisse de Oliveira “Alceu” é um dos mais fortes poemas de amor da via dolorosa que é o amar, cheia de ficares na estrada, que segue, Via Dolorosa de uma cidade tão velha quanto Jerusalém, da Porta de Santo Estevão até a Igreja do Santo Sepulcro naquela parte ocidental da cidade velha de nossas almas, cuja tradição foi traçar por este caminho a nossa cruz, com suas nove estações da cruz, ou estrada de ferro em brasa, de barro de brasa, de brado, de infidelidades confirmadas e perenes, de abismos de lugares esquecidos do Bardo, do espaço infernal e mortal do já morto, do após-vida, do depois da morte, cheio dos sopros e vendavais daquelas vozes mentirosas e dos grandes gritos dos monstros que nos perseguem, a nós que ainda amamos, que amamos sem esperança, que amamos para perder, que abandonados amantes até mesmo do perdido:
“ALCEU
“Você ficou numa estrada vendo se adiantarem amores, confirmações de fidelidades perenes, e nessa estrada que corta quatro abismos, como um local esquecido do Bardo, o vento sopra levando essas vozes mentirosas enroladas pelos sopros de Monstros Irresponsáveis.
“Os ventos eram tão fortes, que eu, por mais bem intencionada que fosse, não conseguia permanecer perto de você, para, gritando o mais possível, lhe dar
esperanças que os ventos enrolavam, enrolavam...
“Os Monstros esqueceram da Vitória que conquistou ali, sozinho na Estrada e eu sendo arrastada pelos Ventos ainda não havia tido toda a visão da sua Grande Realidade Conquistada...
Clarisse de Oliveira,
http://clarissedeoliveira.blogspot.com/
segunda-feira, 7 de julho de 2008
Música do ar

Rogel Samuel
Armando Freitas Filho é um extraordinário poeta como se pode ler neste seu poema compacto, composto na metafísica das madeiras, mas nada daquilo que na orquestra se chama de som delicado, suave e bucólico: as madeiras compostas por Flautas, Clarinetas, Oboés e Fagotes, mas nem violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, harpas, sopros, flautas, clarinetas, oboés, fagotes, ou seja, música, música de árvores, nada disso, mas o bater do machado bruto, áspero, cortador, pancada de estaca, ou bate-estaca, no crescimento da cidade de concreto em direção estelar:
AR
Música de árvores.
Não a das folhas e ramos.
Mas a outra, para percussão solo.
Madeira, raízes, cascas, nós, galhos.
Tudo que pede machado, corte, pancada.
O que é duro - áspero - bate, e estaca.
O que estala e cresce da terra contra as estrelas.
Armando Freitas Filho, “Cabeça de homem”, Editora Nova Fronteira, 1991
domingo, 6 de julho de 2008
A ceia dos imortais
Rogel Samuel
Contam que um dos fatos literários mais bizarros e hilariantes da literatura brasileira foi aquela eleição de um escritor para a Academia Brasileira de Letras, pois no dia da eleição é costume os outros acadêmicos irem à casa do eleito parabenizá-lo, e alguns até recebem os cumprimentos em casa de um amigo. Mas o apartamento onde morava o novo imortal era um quarto-e-sala num prédio proletário, sujo e de má-fama, a salinha logo cheia e os imortais se espremiam no corredor e davam o fora, pois os vizinhos de porta aberta faziam uma festa e gritos se ouviam pelo corredor do prédio e quando os imortais – ministros, Presidente da República, juristas, ricos empresários - chegavam à casa do novo acadêmico tinham de passar ao som daquela comemoração de uma festa e assim que os acadêmicos chegavam alguém dizia: “É por aqui, senhores!” e encaminhavam os convidados!
sexta-feira, 4 de julho de 2008
O policial
Rogel Samuel
Eles formavam um extravagante casal ou eram mesmo doidos e tudo o que um dizia o outro concordava e um dia ele disse para a esposa que ia deixar o em emprego no banco, no que ela imediatamente concordou, e ele saiu do emprego e vendeu a casa e o carro, comprou um jipe velho, e foram os dois acampar numa praia muito distante e muito deserta levando com eles o filho de três anos. Com o dinheiro apurado também puderam viver muitos anos e depois que o dinheiro acabou venderam o jipe e viveram outros tantos anos comendo somente arroz integral e legumes. Depois, sem mais dinheiro, passaram a vender artesanato na feira dominical e ainda hoje estão lá, vivos, felizes e saudáveis.
O filho, entretanto, cresceu, entrou no Exército e hoje é policial.

Incêndios ameaçam milhares de casas na Califórnia
Agência AFP
WASHINGTON - Mais de mil focos de incêndios ameaçam oito mil casas na Califórnia, nos Estados Unidos. Meio milhão de acres da área rural do Estado já foi devastada pelo fogo.
Um dos maiores focos atingiu cerca de 50 mil acres da floresta na região costeira conhecida como Big Sur, entre São Francisco e Los Angeles. Um bombeiro morreu.
Membros da Guarda Nacional da Califórnia foram chamados para ajudar no combate às chamas.
A estátua pensa

Rogel Samuel
O pensador de Gabriela Mistral, na tradução de Manuel Bandeira:
Apoiando na mão rugosa o queixo fino,
O Pensador reflete que é carne sem defesa:
Carne da cova, nua em face do destino,
Carne que odeia a morte e tremeu de beleza.
E tremeu de amor toda a primavera ardente,
E hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza.
O "havemos de morrer" passa-lhe pela mente
Quando no bronze cai a noturna escureza.
E na angústia seus músculos se fendem sofredores.
Sua carne sulcada enche-se de terrores,
Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte
Que o reclama nos bronzes. Não há árvore torcida
Pelo sol na planície, nem leão de anca ferida,
Crispados como este homem que medita na morte.
“O pensador de Rodin” começa com a mão rugosa que apóia o queixo fino daquele homem-estátua que pensa a morte, daquela estátua pensante que é de carne em bronze, carne-cadáver e morbígena, na morbidez de tudo que pode desaparecer, ou carne cova, infensa, nua sobre seu destino – o Pensador morituro – a filosofia amortalhada, entorpecido no seu cismar da morte que odeia e que ali está eternizada em bronze, ele que tremeu de beleza na juventude e hoje, velho e na verdade e na tristeza pensa destruição e ruína eternizada em arte. E a carne se encrespa e franze, se contrai e se crispa de espasmódico sofrimento, como nenhuma árvore morta o fez ao sol, como nenhum leão moribundo gemeu na contorção planície, da sofrida própria carne cheia de terrores, na aflição introspectiva do pensamento do fim.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Sobre a liberdade
Rogel Samuel
A Internet sempre me lembra o conceito de Fromm para a liberdade, “objetivo cobiçado para uns e para outros uma ameaça”. Como a web é um espaço livre, onde você vê, lê diz e ouve o que quer, muitos a temem. Há os que só podem viver na submissão (de uma religião, de uma lei, de uma autoridade, ou da polícia) para serem éticos. Em grego, “ethos” significa caráter, ou seja, modo de ser. Refere-se ao juízo do bem e do mal social. É uma ciência do relacionamento. As ditaduras odeiam a Internet. A China impunha uma fiscalização e controle rigoroso até nos hotéis. Recentemente decidiu criar uma nova internet, alegando que a estrutura atual da rede mundial de computadores não vai dar conta do número de usuários entrando na internet ao mesmo tempo, principalmente em países muito povoados, como a China, onde atualmente há mais de 120 milhões de internautas, com um potencial de crescimento do tamanho de sua população de mais de 1,2 bilhão.
Talvez seja uma desculpa. Talvez não.
Mas a rede mundial de computadores que hoje usamos nasceu no governo americano, no poderio militar americano. Era um projeto da década de 70, chamado Arpanet, que passou para o meio acadêmico, acabando no que a gente tem hoje, a internet comercial, democrática (com algumas exceções, como a da China), mesmo assim ligada ao governo americano e, claro, às empresas americanas. Até hoje, o ICANN, que é a entidade internacional que “controla” o endereçamento na internet, continua sob o “domínio” do Departamento de Comércio Americano que, jurando neutralidade, agregou representantes de todos os países que queiram participar, inclusive o Brasil.
Mas como escreveu o webjornalista Elis Monteiro, isto pode ser somente a ponta do iceberg de uma revolução que pode vir a explodir a qualquer momento.
Ou de uma guerra virtual.
O cântico do universo

Rogel Samuel
Os buracos negros cantam, dizem os astrônomos.
Eles são regiões do espaço com tanta densidade e força de atração gravitacional que sugam a luz ao redor, por isso só podem ser “vistos” com o que ocorre ao redor.
Acreditam os astrônomos que a maioria das galáxias, inclusive a nossa Via Láctea, contém esses buracos no seu centro. (Será que não seremos nós um dia sugados por seu centro? Não será isto o Inferno?).
Imagine a região central da galáxia Perseus:
- Há uma estranha sinfonia ali. Em tom menor. Um buraco negro pode estar ali, há bilhões de anos, entoando o seu misterioso canto em si bemol.
Sua freqüência é inaudível para os humanos, afirma Andrew Fabian, do Instituto de Astronomia de Cambridge, na Inglaterra.
Penso que o “buraco” funciona como uma imensa tuba, com a freqüência de cerca de 57 oitavas abaixo da nota dó, que fica no meio do teclado do piano.
Isto deve ter inspirado Beethoven, que naquele tempo já era surdo, no seu concerto no4 para piano. A música das esferas.
A música do Universo.
Só ele ouvia.
terça-feira, 1 de julho de 2008
O porvir
Rogel Samuel
“Pensar é transpor”, disse Bloch. Por isso, seu princípio da esperança não é o da “espera”, mas do “avanço” – ou seja, a esperança, ali, já não significa a passividade do esperar, do receber do milagroso céu, do acontecer ao acaso, mas da construção do futuro, ativo alcance da transposição daqueles obstáculos que eterna e repetidamente aparecem na nossa frente. É a construção do futuro. Projetamos um objetivo, ou o buscamos no horizonte infinito? Que queremos nós? Bloch introduz no pensamento marxista este novo cosmorama com esta sua teoria prospectiva. Não existe senão o aqui e agora e o avanço para o futuro. Nós temos de extrair o futuro de suas profundezas misteriosas. E para isso precisamos de nos tornar ao futuro, na aceitação do novo. É este o signo, a chave dessa teoria do progresso social, dessa teoria da revolução própria do princípio da esperança. No que não existe, o sonhar para a frente.
Quem começou este tema fundamental da filosofia foi o russo Dimitri Pissarev (1840-1868) citado por Lênin em “Que fazer?” (São Paulo, Hucitec, 1988, p. 132) que escreveu: “Com o que devemos sonhar? (...) O desacordo entre o sonho e a realidade nada tem de nocivo se, cada vez que sonha, o ser humano acredita seriamente em seu sonho, se observa atentamente a vida, compara suas observações com seus castelos no ar e, de uma forma geral, trabalha conscientemente para a realização de seu sonho. Quando existe contato entre o sonho e a vida, então tudo vai bem”.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
AURORA

AURORA
Rogel Samuel
Releio com assombro e delícia o poema “Aurora” de Adolfo Casais Monteiro de 1954:
“A poesia não é voz — é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:
voo sem pássaro dentro.”
(Adolfo Casais Monteiro in “Voo sem Pássaro Dentro”, 1954). Publicado por Maria Azenha, um marco na poesia da contemporaneidade, em:http://opodaescrita.blogspot.com/2008/06/aurora.html"A poesia não é voz — é uma inflexão", ou seja, um tom de voz, uma modalidade do dizer da voz. A poesia é uma modulação na voz. Quem diz é a prosa, no verso nada se diz, “nada se acrescenta a nada, somente / um jeito impalpável dá figura / ao sonho de cada um, expectativa / das formas por achar”. Depois, no poema, ele diz: “No verso nasce / à palavra uma verdade que não acha / entre os escombros da prosa o seu caminho”. Como vêem é pura estética, é teoria literária, no mais alto grau. Termina o seu poema reconhecendo o implacável: O homem não tem alma, não tem conteúdo, não tem destino, sentido e rumo – “E aos homens um sentido que não há nos gestos nem nas coisas: / vôo sem pássaro dentro.”
Adolfo Casais Monteiro sabia do que falava, pois ele era um excelente crítico literário. Em “Clareza e Mistério da Crítica”, de 1961, ele ataca o pedestal do maior crítico brasileiro, Afrânio Coutinho, razão por que foi odiado entre nós. Mas ele era um crítico independente e altivo! Foi perseguido por Salazar, refugia-se no Brasil, onde leciona Literatura Portuguesa. Em 1962, é professor titular em Araraquara. Mas morreu com 64 anos. Ele recebeu aquela famosa carta de Fernando Pessoa que hoje pode ser lida em:http://www.pessoa.art.br/?p=24
Professor visitante na Universidade de Wisconsin, em Madison, (1968/69), e na Universidade Vanderbilt (Nashville, Tennessee, 1969). Dele, disse Jorge de Sena: Homem de duas pátrias, soube, da maneira mais devotada e sensível, ser inteiramente fiel a ambas, para lá de todas as falácias do nacionalismo. Porque ele foi, acima de tudo e dos condicionalismos da vida, um cidadão do mundo em língua portuguesa, que é uma maneira de esse mundo não saber que possui tal cidadão, e de a língua, que o possui, presa aos seus provincialismos, não apreciar a grandeza que por ela se afirma e realiza. (Jorge de Sena).
sábado, 28 de junho de 2008
O professor era um deus
Rogel Samuel
Naquele tempo o professor era um deus. Estava acima do bem e do mal. Lembro-me de um catedrático, cujo nome não revelo, que nos ministrou uma única aula, por sinal magnífica, em que passou a bibliografia e a pesquisa e se foi para Paris, onde era professor visitante na Sorbonne. Não voltou. No fim do semestre, a assistente nos procurou para recolher os trabalhos, que foram corrigidos por ela. Hoje isso seria inadmissível. A bibliografia toda em línguas estrangeiras e os livros ou revistas tinham de ser consultados na Biblioteca Nacional. Eles eram deuses. Só me lembro de um aluno que, depois de receber a nota, desacatou a professora: e foi expulso da faculdade! Professores absolutos, autocráticos, por isso o ensino era tão bom, tinha o grau de excelência. Para ingressar no magistério universitário não havia concurso (exceto o catedrático), mas indicação. Um colega nosso, já falecido, o Ítalo, foi convidado por dois catedráticos. Ela era bem mais velho do que nós e era mulato. Usava umas grossas lentes de óculos, quase cego. Falava várias línguas, tocava piano, um gênio. Conhecimento musical imenso. Lembro-me dele falando sobre a “Paixão segundo São Mateus” de Bach. Tínhamos colegas e contemporâneos extraordinários. Alguns ficaram famosos, como José Guilherme Merquior, dois anos mais velho, que fazia Filosofia e Direito. Merquior parecia um menino quando proferia aulas e conferências sobre estética. Era uma época de deuses, mas a maioria se dissipou e sucumbiu no magistério mal-remunerado, alguns presos, outros mortos ou torturados. A decadência de nossa geração se deve à decadência do magistério e ao rebaixamento da autoridade do professor.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
No centenário de Guimarães Rosa

Rogel Samuel
Hoje João Guimarães Rosa completaria 100 anos.
Sua obra máxima, “Grande sertão: veredas”, narra a relação real/irreal (Riobaldo/Diadorim) como possibilidade. Diadorim - o objeto, abrangente, cujo sentido escapa sempre, que busca o inconcebível, o que não teve raízes, a misteriosa obscuridade. Desconsolida a condição humana, deixada a descoberto. Um não-ser, uma existência dissolvida, separada dos sistemas do racionalismo, desprotegida. Diadorim - a vitória da emoção dos dramas particulares e anti-heróicos que fizeram o triunfo do romantismo. Como personagem, não se insere num contacto social sistemático, num sistema amplo, num modelo.
“Hoje em dia, não me queixo de nenhuma coisa”, “já não tiro sombra dos buracos” — hoje o sertão desencantado, lentamente se aburguesa, moderniza-se, banaliza-se. Outra a lógica do sertão, o oposto da evidência, lugar de herói trágico.
Agora o sertão ganha nova figura, desaparece. No interior estão instalados aparelhos da TV, porque o sertão era um perigo para a ordem estabelecida, e agora se desencanta, desperta do misticismo. O sertão era místico, mi¬tico e crítico. Lugar das rezas, de Antônios Conselheiros, de Padres Cíceros. O sertão, império da moral, da virgindade. Mas também da guerra. Sertão sagrado. O mundo no seu estado subjetivo. Até bem pouco tempo, eu o vi, não conhecia nem os ecos da primeira revolução industrial. Estava na fase semi-medieval do estado comercial. Havia “reis”, no sertão subjetivo.
Agora é passado, e sempre esteve no passado, nunca projetou-se no futuro. Lírico, subjetivo. A grande maioria dos escritores brasileiros passaram a infância nas casas grandes da subjetividade passada. O sertão do passado tem a pátina da magia dos primitivos desígnios do homem, das primeiras experiências, da emoção dos que sonhavam nas varandas. Por isso, faz com a infância sua subjetividade literária. O heróis nunca serão adultos, velhos, morrem antes, não amadureceram, jovens nos caminhos da guerra. Todo sertão tem de ser assim, visto pelos olhos do sonho, algo perdido, perdido no tempo, longínquo, remotíssimo.
Veredas.
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No centenário de Guimarães Rosa
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Dos sonhos
Dos sonhos
Rogel Samuel
Todos nós temos alguns sonhos, que alimentamos com cuidado e que residem no mais secreto de nossas consciências. Avançamos na velhice alimentando sonhos. Quando deixamos de sonhar, entramos em processo de morte. Dessa forma, a morte é, pois, invenção da vida. A morte também é um dos nossos sonhos. Inventamos a morte, criamos nela o céu, o inferno e tudo o mais. Mas, além da morte, temos outras realizações no domínio dos sonhos.
Somos responsáveis pelo que sonhamos. Cuidado com eles, que facilmente viram realidade. Não pense que eles são “apenas sonhos”. Podem ser tão verdadeiros quanto a realidade, ou podem morar nas regiões mais distantes, e nunca aparecer.
Que são os sonhos? Não os menospreze. Seremos o que sonhamos. Concretizamos as obras que com elas sonhamos antes.
A matéria, diz Aristóteles, é o ser em possibilidade, como a cera é a possibilidade para o sinete, diz Bloch.
“Há muitos graus de realidade. A realidade não traz a justiça em si mesma. Está aberta sobre o porvir, escreveu Ernst BIoch, em “O Homem Como Possibilidade”.
O sonho pode agir criadoramente de maneira concreta. As coisas ainda não estão decididas, acabadas, concluída. Falta o quê? Falta o futuro, o Futuro.
O futuro está no espaço mágico dos sonhos, na sinfonia das nossas esperanças e aspirações, lá, lá onde tudo é possível. É lá que está aquele laranjal florido, aquela casa, aquela montanha, você a conhece?
“Conheces a montanha ao longe enevoada?
A alimária procura entre névoas a estrada...
Lá, a caverna escura onde o dragão habita,
E a rocha donde a prumo a água se precipita...
Não a conheces tu?
Pois lá... bem longe, além,
Vamos, ó tu, meu pai e meu senhor, meu bem!”
(Goethe. “A canção de Mignon”, Trad. de João Ribeiro)
Rogel Samuel
Todos nós temos alguns sonhos, que alimentamos com cuidado e que residem no mais secreto de nossas consciências. Avançamos na velhice alimentando sonhos. Quando deixamos de sonhar, entramos em processo de morte. Dessa forma, a morte é, pois, invenção da vida. A morte também é um dos nossos sonhos. Inventamos a morte, criamos nela o céu, o inferno e tudo o mais. Mas, além da morte, temos outras realizações no domínio dos sonhos.
Somos responsáveis pelo que sonhamos. Cuidado com eles, que facilmente viram realidade. Não pense que eles são “apenas sonhos”. Podem ser tão verdadeiros quanto a realidade, ou podem morar nas regiões mais distantes, e nunca aparecer.
Que são os sonhos? Não os menospreze. Seremos o que sonhamos. Concretizamos as obras que com elas sonhamos antes.
A matéria, diz Aristóteles, é o ser em possibilidade, como a cera é a possibilidade para o sinete, diz Bloch.
“Há muitos graus de realidade. A realidade não traz a justiça em si mesma. Está aberta sobre o porvir, escreveu Ernst BIoch, em “O Homem Como Possibilidade”.
O sonho pode agir criadoramente de maneira concreta. As coisas ainda não estão decididas, acabadas, concluída. Falta o quê? Falta o futuro, o Futuro.
O futuro está no espaço mágico dos sonhos, na sinfonia das nossas esperanças e aspirações, lá, lá onde tudo é possível. É lá que está aquele laranjal florido, aquela casa, aquela montanha, você a conhece?
“Conheces a montanha ao longe enevoada?
A alimária procura entre névoas a estrada...
Lá, a caverna escura onde o dragão habita,
E a rocha donde a prumo a água se precipita...
Não a conheces tu?
Pois lá... bem longe, além,
Vamos, ó tu, meu pai e meu senhor, meu bem!”
(Goethe. “A canção de Mignon”, Trad. de João Ribeiro)
O Professor

Rogel Samuel
Recebi da Professora e Escritora Bernardina Oliveira o seguinte email sobre o Mestre Alceu: “Presente! Também estive presente às aulas do Alceu de Amoroso Lima. De alguma forma há certa similaridade na formação da nossa turma da Fnfi. Marcas num discurso de pedra. Alceu, Cleonice, Celso, Afrânio, Gladstone e outros. A linguagem gestual de Alceu! Lembra-se de que, às vezes, esculpia no espaço do texto oral figuras em espiral ou retilíneas? A linguagem dos gestos, intensificada pelo momento político, com certeza! Houve um natural distanciamento entre os componentes da nossa turma. Mas quando se fala em Alceu... Presente!”
Ela faz referência a Gladstone Chaves de Mello, de quem nunca se pode esquecer, depois de ter sido seu aluno. Nasceu em 1917, em Minas Gerais, Campanha, de família modesta. Quando jovem era amigo de Augusto Magne. Pobre e órfão veio para Belo Horizonte, onde iniciou o estudo de Direito, depois para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso e reencontrou o Padre Augusto Magne, Catedrático de Filologia Românica, na nossa Universidade do Brasil. Por indicação de Magne, indicado a assistente de Língua Portuguesa para Sousa da Silveira, o Catedrático. Trabalhou em comunidades pobres, escreveu 20 livros, artigos nos jornais. Livre docente, doutor, político, diplomata. Lutou contra a ditadura Vargas. Vereador e deputado estadual. Em 1962 voltou para a FNFi, como nosso professor. Depois, Adido Cultural do Brasil em Lisboa, com o embaixador Negrão de Lima. Volta ao magistério depois do golpe de 64. Católico praticante, condecorado pelo Papa. Membro do Conselho Federal de Educação (1970) e do Conselho Federal de Cultura. Adido Cultural em Lisboa em 1972-1974. Faleceu em 2001.
Como professor, Gladstone era terrível: reprovava sempre e muito. Nem dizia por quê. Era capaz de dar zero a um trabalho sem justificativa. Suas aulas eram brilhantes, orais, falava como um parlamentar. Era um tribuno falando, não um professor. Seu misterioso método de avaliação consistia de um trabalho de pesquisa escrito em casa. Mas era implacável! Lembro-me de ter ele dito para nós, em sala de aula, que aquela classe era muito grande - ia reprovar a metade da turma! Como custou a entregar as notas, foi um grupo de alunos bater na porta de sua casa, aflitos.
Milagrosamente me salvei.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
O anel de brilhante
Rogel Samuel
Ela ganhou um anel de brilhante. Quando ficou noiva. Era um anel com um solitário. Aquele anel acompanhou-a a vida inteira. Quando ficou velha, passou o anel para sua neta mais velha, no dia do casamento desta. – “Entregue para sua neta, no dia do casamento dela”, recomendou. Amélia, a neta, recebeu o anel somente quando sua avó estava para morrer. – “Deixe-o para sua neta”, disse-lhe a avó. Maria Antônia, neta de Amélia, deixou por herança o anel para sua neta, que o deixou para sua neta, e depois o anel foi passando, de neta em neta, por um longo período de tempo. Todas morreram, umas bem velhas, outras nem tanto. Mas o anel permaneceu vivo, inteiro e brilhante. O anel é eterno. Ficará até o final dos tempos, e ninguém saberá das vidas que ele acompanhou.
A cadeia foi quebrada por um naufrágio.
Hoje o anel repousa no fundo do mar.
Dizem que olhando, com uma boa lupa, é possível ver o rosto de todas as mulheres que o usaram.
O caminho da floresta
O caminho da floresta
Rogel Samuel
O filósofo Martin Heidegger, em Holzweg, escreveu: “Na floresta há certos caminhos que freqüentemente se perdem, recobertos de ervas, no não-traçado. A gente os chama de Holzwege”. “Cada um segue seu próprio caminho, - continuou ele - mas na mesma floresta. Freqüentemente, parece que um assemelha-se a outro. Mas isto é apenas a aparência. Lenhadores e guardas conhecem os caminhos. Eles sabem o que estou dizendo: se empenhar num Holzwege”.
Segundo o velho filósofo, descrente, retirado do mundo na Floresta Negra, todos vão dar em nenhum lugar... Hoje se costuma acusá-lo de nazista. Bobagem. Cheguei a ver a “Floresta Negra”, de longe. É um aglomerado de altos pinheiros na montanha, um lugar de fantasmas.
Talvez ali esteja o sítio apropriado para pensar. Pensar, para Heidegger, é pensar a origem do ser: “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada? Eis a questão.” – escreveu ele na “Introdução à metafísica”. Tradução de Carneiro Leão. “Todos são atingidos uma vez ou outra pela força secreta (da pergunta) sem saberem ao certo o que lhes acontece. Assim num grande desespero, quando todo peso parece desaparecer das coisas e se obscurece todo sentido, surge a questão”. Essa é a questão fundamental da metafísica. Fundamental significa algo sobre o qual uma coisa tem fundamento, tem solo. A pergunta é: Por existe o que existe, e não antes o Nada? Às vezes, creio que temos esses pensamentos essenciais enquanto caminhamos pela floresta. Solitariamente. A floresta é o lugar ideal para o questionamento de tal profundidade. Como disse o poeta: a montanha é alta, mas só o vale é profundo. Eis o caminho que não leva a nenhum lugar. O Holzweg.
Rogel Samuel
O filósofo Martin Heidegger, em Holzweg, escreveu: “Na floresta há certos caminhos que freqüentemente se perdem, recobertos de ervas, no não-traçado. A gente os chama de Holzwege”. “Cada um segue seu próprio caminho, - continuou ele - mas na mesma floresta. Freqüentemente, parece que um assemelha-se a outro. Mas isto é apenas a aparência. Lenhadores e guardas conhecem os caminhos. Eles sabem o que estou dizendo: se empenhar num Holzwege”.
Segundo o velho filósofo, descrente, retirado do mundo na Floresta Negra, todos vão dar em nenhum lugar... Hoje se costuma acusá-lo de nazista. Bobagem. Cheguei a ver a “Floresta Negra”, de longe. É um aglomerado de altos pinheiros na montanha, um lugar de fantasmas.
Talvez ali esteja o sítio apropriado para pensar. Pensar, para Heidegger, é pensar a origem do ser: “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada? Eis a questão.” – escreveu ele na “Introdução à metafísica”. Tradução de Carneiro Leão. “Todos são atingidos uma vez ou outra pela força secreta (da pergunta) sem saberem ao certo o que lhes acontece. Assim num grande desespero, quando todo peso parece desaparecer das coisas e se obscurece todo sentido, surge a questão”. Essa é a questão fundamental da metafísica. Fundamental significa algo sobre o qual uma coisa tem fundamento, tem solo. A pergunta é: Por existe o que existe, e não antes o Nada? Às vezes, creio que temos esses pensamentos essenciais enquanto caminhamos pela floresta. Solitariamente. A floresta é o lugar ideal para o questionamento de tal profundidade. Como disse o poeta: a montanha é alta, mas só o vale é profundo. Eis o caminho que não leva a nenhum lugar. O Holzweg.
domingo, 22 de junho de 2008
HEIDEGGER
A QUESTÃO FUNDAMENTAL DA METAFÍSICA
Trad. Emmanuel Carneiro Leão
Por que há simplesmente o ente (1) e não antes o Nada? Eis a questão. Certamente não se trata de uma questão qualquer. “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?” - essa é evidentemente a primeira de todas as questões. A primeira, sem dúvida, não na ordem da seqüência cronológica das questões. Em sua caminhada histórica através do tempo o homem e os povos investigam muito. Pesquisam e procuram e examinam muitas coisas antes de se depararem com a questão, “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?” Muitos nunca a encontram, não no sentido de a lerem e ouvirem formulada, mas no sentido de investigarem a questão, i.e, de a levantarem, de a colocarem, de se porem no estado da questão.
E não obstante todos são atingidos uma vez ou outra, talvez mesmo de quando em vez, por sua fôrça secreta, sem saberem ao certo, o que lhes acontece. Assim num grande desespero, quando todo peso parece desaparecer das coisas e se obscurece todo sentido, surge a questão. Talvez apenas insinuada, como uma badalada surda, que ecoa na existência (2) e aos poucos de novo se esboroa. Assim num júbilo da alma, quando as coisas se transfiguram e nos parecem rodear pela primeira vez, como se antes nos fosse possível perceber-lhes a ausência do que a presença e essência. Assim numa monotonia, quando igualmente distamos de júbilo e desespero e a banalidade do ente estende um vazio, onde se nos afigura indiferente, se há o ente ou se não há, o que faz ecoar de forma especial a questão: Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?
Em todo caso, quer seja mesmo investigada ou quer, ignorada como questão, perpasse pela existência como um hálito tênue, quer nos pressione mais duramente ou quer se veja preterida e recalcada por qualquer pretexto, de fato nunca é a questão que na ordem cronológica investigamos por primeiro.
Mas é a primeira questão em outro sentido - a saber quanto à dignidade. O que se explica de três modos. A questão, “por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?”, se constitui para nós na primeira em dignidade antes de tudo por ser a mais vasta, depois por ser a mais profunda e afinal por ser a mais originária das questões.
A questão cobre o máximo de envergadura. Não se detém em nenhum ente de qualquer espécie. Abrange todo ente, i. e, não só o ente atual no sentido mais amplo, como também o ente, que já foi e o que ainda será. O arco da questão encontra seus limites apenas no que absolutamente nunca pode ser, no Nada. Tudo, que não for nada, cai sob seu alcance, no fim até mesmo o próprio Nada. Não certamente por ser alguma coisa, um ente, de vez que dele falamos, mas por “ser” o Nada. É tão vasto o âmbito da questão, que nunca o poderemos ultrapassar. Não investigamos esse ou aquele nem mesmo, percorrendo um por um, todos os entes, mas antecipadamente o ente todo, ou como dizemos, por razões a serem discutidas ainda, o ente como tal na totalidade.
Com ser assim a mais vasta, a questão é ainda a mais profunda: “Por que há simplesmente o ente...? “ “Por que” significa, qual é o fundo? De que fundo provém o ente? Em que fundo descansa o ente? A questão não investiga isso ou aquilo no ente, o que ele é cada vez, aqui ou ali, como é constituído, pelo que pode ser modificado, para que serve etc... Ela procura o fundo do ente enquanto ente. Procurar o fundo, isso é aprofundar. O que se põe em questão, entra assim numa referência com o fundo. sendo, porém, uma questão, fica aberto, se o fundo (Grund) é um fundamento originário (Ur-grund), verdadeiramente fundante, que produz fundação; ou se ele nega qualquer fundação e é assim um abismo (Ab-grund); ou se o fundo não é nem uma nem outra coisa, mas dá simplesmente uma aparência, talvez necessária, de fundação, tornando-se destarte um simulacro de fundamento (Un-grund). Como quer que seja, procura-se decidir a questão no fundo, que dá fundamento para o ente ser, como tal, o ente que é. Essa questão do “por quê” não procura causas de igual espécie e do mesmo plano que o ente. Não se move em nenhuma fácie ou superfície. Afunda-se nas regiões profundas e vai até os últimos limites dos fundos. É avessa a toda superfície e planura, voltada para as profundezas. A mais vasta, é igualmente a mais profunda das questões profundas.
Por ser a mais vasta e profunda das questões, é também a mais originária. O que se deve entender por isso? Ao refletirmos sobre todo o âmbito do que se põe em questão, o ente como tal no seu todo, depara-se-nos fàcilmente o seguinte: Afastamo-nos inteiramente de qualquer ente particular, enquanto este ou aquele. Intencionamos sim o ente em seu todo mas sem qualquer preferência. Apenas um dentre eles sempre de novo se insinua estranhamente: o homem, que investiga a questão. Não obstante, não está em questão nenhum ente particular. No sentido de seu raio ilimitado de ação Lodos os entes se equivalem. Um elefante numa floresta virgem da Índia é tão bem um ente, quanto um fenômeno de combustão química no planeta Marte ou qualquer coisa outra.
Para satisfazermos, portanto, a questão, “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?”, no sentido correto de sua investigação, devemos eliminar a preferência de qualquer ente em particular, inclusive a referência ao homem. Pois o que é esse ente! Imaginemos a terra na imensidão obscura do espaço no universo. Proporcionalmente não passa de um minúsculo grão de areia com um quilômetro de extensão, e o resto é o vácuo Em sua superfície vive rastejando em profusão um punhado entorpecido de animais pretensamente astutos, que por um instante descobriram o conhecimento (Cfr. Nietzsche, Sobre a Verdade e a Mentira no sentido extra-moral, 1873 inédito). E o que significa o espaço de tempo de uma vida humana no curso de milhões de anos? Mal uma pulsação do ponteiro de segundos, um sopro de respiração. Dentro da totalidade do ente não há razão para se privilegiar este ente, que se chama homem e ao qual pertencemos por acaso.
Mas tão logo o ente em seu todo cai no campo de força da questão, investe-o a investigação, com a qual entra numa relação sui generis, porque única. Pois somente nela o ente em seu todo se revela como tal, se abre na direção de seu possível fundamento e assim se mantém em questão. Para ele a investigação não é um fenômeno qualquer dentro do real, como p . e. a queda dos pingos de chuva. A questão do “por quê” defronta-se por assim dizer, com o ente no seu todo. Dele como que se desliga, embora não de todo. E é justamente o que lhe confere uma distinção. Ao defrontar-se com o ente no seu todo, sem, todavia, se lhe poder escapar de todo, repercute o que na questão se investiga, sobre a própria investigação. Por que o por quê? Em que se funda a questão do por quê, que pretende pôr o ente no todo em seu próprio fundo. Será ainda esse “por que” uma questão sobre o fundo entendido, como superfície, de sorte que sempre se procura um ente para fundamento? Não é essa “primeira” questão a primeira em dignidade, considerada segundo o valor intrínseco da questão do Ser (3) e suas modalidades.
Sem dúvida alguma — quer se ponha a questão, “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?”, quer não, em nada se altera o ente em si mesmo. Também sem ela os planetas continuam a percorrer as suas órbitas. Também sem ela o elã da vida continua a pulsar através dos animais e das plantas.
Se, porem, for posta de maneira devida, dar-se-á necessariamente uma repercussão, do que se investiga, sobre a própria investigação. Por isso não se investiga, sobre a própria investigação. Por isso não se trata de um fenômeno qualquer mas de um evento especial, que chamamos um acontecimento.
Como todas as demais questões nela diretamente radica das, nas quais se desenvolve, a questão do “por quê” é irredutível a qualquer outra. Impele ã procura de seu próprio por quê. A primeira vista e considerada de um ponto externo, a questão “por que o por quê? assemelha-se a uma repetição jocosa, que se poderia repetir até ao infinito, da mesma partícula interrogativa. Parece mesmo uma especulação vazia e desvairada sobre significações verbais sem conteúdo. Certamente assim o parece. Trata-se apenas de saber, se nos deixaremos enganar por essa aparência demasiado fácil, dando logo tudo por resolvido, ou se ainda seremos capazes de experimentar na repercussão da questão do “por quê” sobre si mesma um acontecimento provocante.
No caso, porém, de não sermos vitimas de uma ilusão de ótica, havemos de ver, que a questão do “por quê” na qualidade de questão sobre o ente como tal no seu todo, nada tem a ver com qualquer jogo de palavras. Suposto, ainda possuirmos tanta fôrça de espírito para realizarmos verdadeiramente a repercussão sobre seu próprio por quê. Pois tal repercussão não se fará certamente por si mesma. Então faremos a experiência de fundar-se essa questão eminente num salto. No salto, em que se deixa para trás (4) toda e qualquer segurança da existência seja verdadeira ou presumida. Sua investigação ou se concretiza no salto e como salto ou não se realiza nunca. O que significa aqui “salto”, esclarecer-se-á mais adiante. A questão não é o salto. Nele se deve transformar. Ela ainda se acha inocentemente ‘defronte do ente. Por ora basta saber, que o salto dá origem (er-springt) ao próprio fundamento da investigação. Saltando, ela origina para si o fundo, em que se funda. Um tal salto, que origina para si seu próprio fundamento, denominamos, de acordo com a significação verdadeira da palavra, um salto originário. (5) Ora, uma vez que a questão, “por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?” dá origem ao fundamento de toda questão verdadeira e lhe é, nesse sentido, originária, deve-se reconhecê-la, como a mais originária das questões.
Assim, com o ser a mais vasta e profunda questão, é também a mais originária e vice-versa.
[Introdução à metafísica. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1969.]
Paisagem sobre a lagoa
Paisagem sobre a lagoa
Rogel Samuel
Como ler-se pode este estranho poema de Holderlin, “Metade da vida”? A tradução de Manuel Bandeira. A princípio vemos uma “paisagem sobre a lagoa”, feita de trepadeiras amarelas e rosas silvestres. Sobre a lagoa talvez signifique que haja um muro, onde sobem as heras e ao redor de que se encontram as rosas silvestres, que também são trepadeiras, cujo perfume só chega na hora da morte. Como escreveu Clarice Lispector “As rosas silvestres têm um mistério dos mais estranhos e delicados: à medida que vão envelhecendo vão perfumando mais. Quando estão à morte, já amarelando, o perfume fica forte e adocicado, e lembra as perfumadas noites de lua de Recife. Quando finalmente morrem, quando estão mortas, mortas - aí então, como uma flor renascida no berço da terra, é que o perfume que se exala delas nos embriaga. Então mortas, feias, de brancas ficam amarronadas. Mas como jogá-las fora, se mortas, elas têm a alma viva?”
Os primeiros cristãos identificavam as cinco pétalas da rosa silvestre com as cinco chagas de Cristo. Por isso na lagoa os cisnes estão bêbados e mergulham as cabeças naquela água santa.
De repente, diz o poema: “Ai de mim, aonde, se / É inverno agora, achar as / Flores? e aonde / O calor do sol / E a sombra da terra? / Os muros avultam / Mudos e frios; ao vento / Tatalam bandeiras.”
Ou seja, nada daquilo parece existir, nem flores nem calor do sol, só os muros mudos, frios e as bandeiras congeladas. Mas como escreveu Clarice Lispector: “Era assim que eu queria morrer: perfumando de amor. Morta e exalando a alma viva.”
O poema é:
Heras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a
Lagoa.
Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!
Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? e aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; ao vento
Tatalam bandeiras.
Rogel Samuel
Como ler-se pode este estranho poema de Holderlin, “Metade da vida”? A tradução de Manuel Bandeira. A princípio vemos uma “paisagem sobre a lagoa”, feita de trepadeiras amarelas e rosas silvestres. Sobre a lagoa talvez signifique que haja um muro, onde sobem as heras e ao redor de que se encontram as rosas silvestres, que também são trepadeiras, cujo perfume só chega na hora da morte. Como escreveu Clarice Lispector “As rosas silvestres têm um mistério dos mais estranhos e delicados: à medida que vão envelhecendo vão perfumando mais. Quando estão à morte, já amarelando, o perfume fica forte e adocicado, e lembra as perfumadas noites de lua de Recife. Quando finalmente morrem, quando estão mortas, mortas - aí então, como uma flor renascida no berço da terra, é que o perfume que se exala delas nos embriaga. Então mortas, feias, de brancas ficam amarronadas. Mas como jogá-las fora, se mortas, elas têm a alma viva?”
Os primeiros cristãos identificavam as cinco pétalas da rosa silvestre com as cinco chagas de Cristo. Por isso na lagoa os cisnes estão bêbados e mergulham as cabeças naquela água santa.
De repente, diz o poema: “Ai de mim, aonde, se / É inverno agora, achar as / Flores? e aonde / O calor do sol / E a sombra da terra? / Os muros avultam / Mudos e frios; ao vento / Tatalam bandeiras.”
Ou seja, nada daquilo parece existir, nem flores nem calor do sol, só os muros mudos, frios e as bandeiras congeladas. Mas como escreveu Clarice Lispector: “Era assim que eu queria morrer: perfumando de amor. Morta e exalando a alma viva.”
O poema é:
Heras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a
Lagoa.
Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!
Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? e aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; ao vento
Tatalam bandeiras.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Receita de soneto
Rogel Samuel
Em "Para fazer um soneto" descreve Carlos Pena Filho como se deve escrever um poema.
Mas a receita é difícil de seguir.
Pois o primeiro passo diz: "Tome um pouco de azul, se a tarde é clara". Sorver o azul da tarde, tarefa complicada de realizar à risca. Mas é aí que aparece a "palavra inicial" (dada por Deus). Depois, segure bem esta palavra (divina) com uma "atitude avara", ou seja: a partir daí passe a usar apenas o sol que bate na sua cara! Claro, o poeta é de Recife, terra do sol.
Com esta palavra primeira, com o sol e com um pedaço do quintal o poema se constrói.
Mas se não der certo, há uma solução de emergência.
Em vez da luz clara e azul, passe a trabalhar com o tom cinzento e meio obscuro e vago, com o pó que ainda resta em nossas vidas, com os resíduos da memória, a combustão, a borralha de certas substâncias da nossa memória.
Ali está o aniquilamento da nossa infância, o luto da lembrança, a destruição, a humilhação, a dor cinza dessa coisa vaga que são as lembranças da infância.
Não, não se apresse. O curso do rio da voz vai levá-lo ao cerne do poema, àquela escuridão onde se tece a certeza.
Aí sim. Aí o poema começa. Eis:
“Tome um pouco de azul, se a tarde é clara
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.
Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.
Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse,
antes, deixe levá-lo a correnteza.
Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.”
O Amazonas é um rio sem história
Rogel Samuel
“O Amazonas é um rio sem história”, disse Raimundo Morais. Mas em Pebas, 186 milhas acima de Tabatinga, James Orton descobriu uma fileira de conchas marinhas em 1867 e elaborou a “teoria do período glacial”, dizendo que a Amazônia tinha sido mar.
Talvez agora, com o desgelo dos pólos, volte a ser. Já se disse que um dia o sertão vai virar mar. Agora o que se diz é que a Amazônia se transforme num deserto, vire sertão, pois parte dela perdeu a capacidade de se defender do fogo, com pequenas queimadas que podem transformar-se em incêndios gigantescos. Isso foi visto em 1997 por Daniel Nepstad, do Woods Hole Research Center, de Massachusetts, depois de uma pesquisa de sete anos.
Para comprovar esta tese catastrofista, em 96 alguns pesquisadores cavaram poços com dez metros de profundidade em cinco áreas diferentes, nas partes devastadas da floresta amazônica. Anos atrás, ao realizar o mesmo exame, haviam encontrado água. Depois não acharam mais nada”.
Eles borrifaram querosene em várias áreas da floresta e acenderam fósforos: os incêndios foram imediatos. Se as árvores ainda contassem com depósitos de água no subsolo, isso não teria acontecido.
Antes a floresta era bem mais úmida, pois as árvores sugam a água do subsolo através de suas raízes e bombeiam vapor através das folhas. É isso que satura a atmosfera e deflagra as chuvas - disse Nepstad.
As reservas subterrâneas de água estariam secando?
A questão amazônica é de extrema complexidade. Será que a queda da Ministra Marina revela que é impossível conciliar progresso e defesa do meio ambiente?
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quinta-feira, 19 de junho de 2008
O MARIDO DAS VIÚVAS
Rogel Samuel
Couto de Magalhães escreveu que certa tribo da Amazônia mantinha uma estranha tradição, a de escolher um índio para ser o "marido das viúvas". O índio devia possuir certas qualidades como virilidade e força para dar conta da sua tarefa social, e tinha de ser era jovem, bem apessoado, etc. O escolhido não trabalhava e era tratado com toda deferência e cuidado pelo seu harém e respeitado pela tribo.
Quem relata e cita é Raymundo Moraes, um homem sério, não ia inventar. Era introvertido, andava por Manaus sem falar com quase ninguém. Vivia para seus livros.
Couto de Magalhães assim escreveu: “Entre os quatro mil arcos guerreiros das oitenta aldeias de chambioás, carijós, curujaús e pavões, que havia em cada uma dessas malocas um indivíduo robusto, bem apessoado, jovem, que não caçava, não pescava, não remava, não pelejava, não trabalhava, enfim.
Isso levou-o a indagar de um dos chefes, o motivo de tão alto favor no meio dum povo laborioso e enérgico, em cujo seio floresciam as roças, abundavam a pescarias, constatavam-se as lutas com o inimigo. O tuxaua respondeu-lhe, então, que esse indivíduo era apenas e unicamente o marido das viúvas daquela tribo. Não tinha outro mister. E que a paz fruída pela família selvagem desse núcleo, provinha exclusivamente daquele companheiro, alçado ao cargo por uma lei imemorial, instituída entre eles. Nessas tabas, aparentemente ermas de qualquer regimento disciplinador, de qualquer estatuto social, a moralidade se mantinha rígida; e não é só isso, todos gozavam de profunda tranqüilidade. Os zelos, os mexericos, as intrigas, os ciúmes, que as viúvas poderiam, com ou sem motivos, despertar nas casadas, não existiam ali. (Morais, Raimundo. “O país das pedras verdes”. Manaus, Imprensa pública, sd, p.289-299).
Eu o cito da Internet, já que não encontrei meu exemplar.
Morais nasceu em Belém, em 1872, e faleceu em 1941. Já aos 13 anos "prático", ou piloto, no Rio Madeira, junto com seu pai. Autodidata, estudava a bordo, nas horas vagas. Vítima de perseguição política, transferiu-se para o Amazonas. Publicou 15 livros e foi o autor do primeiro "best-seller" da Amazônia, "Na planície amazônica" (Prêmio da Academia Brasileira de Letras), do qual saíram várias edições e é lido até hoje. Eu tive a primeira edição.
Como era “adversário” de Péricles Moraes, nunca entrou para a Academia Amazonense de Letras. Em compensação ostentava título de organismo internacional - a "Societé des americanistes de Paris".
Dizem que o sucesso de "Na planície amazônica" começou quando ele conseguiu fazer chegar às mãos de Getúlio Vargas um exemplar. Getúlio leu, gostou e divulgou.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
LOS ANGELES
Rogel Samuel
Minha amiga Ira tem insistido a visitá-la outra vez em LA. Ela para mim ainda assina "Baby", como éramos quando crianças. Seu convite é tentador, pois gosto muito dela. E amo LA.
Quando lá estive por algumas semanas fui a Malibu, Pasadena, Hollywood, Long Beach, etc. Fiz compras, mergulhei naquela sociedade de consumo barato: livros usados, roupas recicladas, CDs e cartazes. Andar por aquelas calçadas é o melhor programa de LA. Muito verde, muita gente descontraída, bonita. Sim, mas é possível viver em Los Angeles desde que você tenha um carro. Poucos lugares dependem tanto de automóvel. Minha amiga morava muito bem, naquela época. Beverly Hills ficava na esquina. Na sua sala, uma enorme TV exibia as novelas da Globo, da Band. A maior novela era o 11 de setembro, pois estávamos ainda em 2001. Ela vivia numa casa confortável, ampla sala, dois quartos, cozinha e até um pequeno quintal. E um músico brasileiro um pouco nervoso, ciumento, seu namorado na época, no carro de quem rodamos as infindáveis estradas.
Em LA muita coisa para ver, desfrutar, sentir. Apesar de ser uma cidade grande, não é opressiva. Impressionei-me com os museus, jardins, praias. As pessoas em LA tendem ao cinematográfico. É possível ver garota de programa dirigindo Mercedes conversível.
Minha amiga Ira tem insistido a visitá-la outra vez em LA. Ela para mim ainda assina "Baby", como éramos quando crianças. Seu convite é tentador, pois gosto muito dela. E amo LA.
Quando lá estive por algumas semanas fui a Malibu, Pasadena, Hollywood, Long Beach, etc. Fiz compras, mergulhei naquela sociedade de consumo barato: livros usados, roupas recicladas, CDs e cartazes. Andar por aquelas calçadas é o melhor programa de LA. Muito verde, muita gente descontraída, bonita. Sim, mas é possível viver em Los Angeles desde que você tenha um carro. Poucos lugares dependem tanto de automóvel. Minha amiga morava muito bem, naquela época. Beverly Hills ficava na esquina. Na sua sala, uma enorme TV exibia as novelas da Globo, da Band. A maior novela era o 11 de setembro, pois estávamos ainda em 2001. Ela vivia numa casa confortável, ampla sala, dois quartos, cozinha e até um pequeno quintal. E um músico brasileiro um pouco nervoso, ciumento, seu namorado na época, no carro de quem rodamos as infindáveis estradas.
Em LA muita coisa para ver, desfrutar, sentir. Apesar de ser uma cidade grande, não é opressiva. Impressionei-me com os museus, jardins, praias. As pessoas em LA tendem ao cinematográfico. É possível ver garota de programa dirigindo Mercedes conversível.
terça-feira, 17 de junho de 2008
A SIMETRIA DA VIDA HUMANA
A SIMETRIA DA VIDA HUMANA
Luís Serrano
O último livro de Maria Azenha,
"A Chuva nos Espelhos", veio a público, já este ano, através da editora Alma Azul e vem complementado com um prefácio de Henrique Dória.
A inclusão no título da palavra "espelhos" alerta-nos imediatamente para a simetria que é toda a vida humana, reflexão no sentido óptico, metáfora do "outro" que reflectimos e nos reflecte. Apesar da complexidade da vida somos confrontados com uma tendência para a expressão dessa complexidade num sistema de base 2, a base utilizada pelos computadores: vida/morte, amor/ódio, eu/tu, bonito/feio, real/virtual, etc, etc., ou seja o que o espelho mostra e o que o espelho esconde.
Há uma pergunta que me parece plena de significado no poema "Um biombo de açucenas para os espelhos" e que é esta (p.23) "porque nascemos entre mil espelhos?" Nem M. Azenha tem resposta nem eu, mas porventura, estes mil espelhos repetem à saciedade uma imagem que é a nossa e que nos repetimos nos outros. Ou seja, qualquer outro é sempre um "alter-ego" daquele que empresta a sua realidade. Ou ainda, os mil espelhos funcionam como "pontos de vista" que correspondem aos vários narradores do romance polifónico.
Eu diria que há nesta obra dois objectivos principais. O primeiro aparece-nos logo no 1º poema (p.7) e é, de algum modo explicitado nos dois últimos versos
"transportar o sonho de um lado para o outro
abrir com toda a força um buraco nos espelhos"
Abrir um buraco nos espelhos para quê? Para saber o que está por trás deles. Será Deus? Que demiurgo manipula as marionetas que, se calhar, nós somos? Em qualquer dos casos, abrir um buraco nos espelhos corresponde ainda a um desejo de conhecimento.
O segundo objectivo parece estar contido no último poema, "explicação dos espelhos" (p. 43), logo no 1º verso, "e multipliquem os espelhos que cantam" pois quanto maior for o seu número maior será o número daqueles que constituirão outros tantos alter-ego da autora.
Ambos os projectos se integram em "um projecto de água" (p.7) que se abre em "lugares novos espantados" (p.7). A água assume, como se sabe, carácter matricial e é um símbolo de pureza. Não é por acaso que esta palavra é das mais frequentes na obra, quer sob esta forma, quer escondida em "mar" e em "chuva".
A linguagem de Maria Azenha é uma linguagem simples com muitas pausas deixando, pois, que o silêncio adquira uma grande importância nesta poesia. Sem pausas não há música e é aqui que eu acho que Maria Azenha devia investir mais em próximo livro.
Algumas imagens são tão belas que vale a pena citá-las. Por exemplo: "é inverno frio // neva uma rosa" (p.15).
No poema da p. 16 há três versos que nos fazem lembrar uma frase célebre de Picasso: "eu não procuro, eu encontro". Os três versos são estes:
"todos os poemas que escreverei já foram escritos
dou-me apenas ao ofício das trevas
de os revelar em pedaços de argila"
Isto é, ao poeta cabe desvelar a realidade sem qualquer preocupação de explicar. Que há, de facto, uma preocupação de enfatizar a imagem em detrimento do som (visão contra audição) pode deduzir-se, por exemplo da associação de "espelhos" com "olhos", como se pode ver no poema da p.21: "os teus olhos / são ainda / mil / espelhos/.
Trata-se de uma poesia cujo lirismo, ora nos empurra para a memória da infância (há alusões discretas a esse paraíso perdido), ora acorda em nós o tom melancólico mais próprio da maturidade.
Permita-se-me que, a concluir transcreva o poema "sobre a metamorfose das casas" (p.33), seguramente um dos mais belos deste livro:
abrem portadas em Março
ao primeiro calor das árvores.
umas
em flor
outras rendilhadas de andorinhas
derramam
nos
passeios
algumas pétalas de linho.
aves de silêncio e água limpa
Luís Serrano
O último livro de Maria Azenha,
"A Chuva nos Espelhos", veio a público, já este ano, através da editora Alma Azul e vem complementado com um prefácio de Henrique Dória.
A inclusão no título da palavra "espelhos" alerta-nos imediatamente para a simetria que é toda a vida humana, reflexão no sentido óptico, metáfora do "outro" que reflectimos e nos reflecte. Apesar da complexidade da vida somos confrontados com uma tendência para a expressão dessa complexidade num sistema de base 2, a base utilizada pelos computadores: vida/morte, amor/ódio, eu/tu, bonito/feio, real/virtual, etc, etc., ou seja o que o espelho mostra e o que o espelho esconde.
Há uma pergunta que me parece plena de significado no poema "Um biombo de açucenas para os espelhos" e que é esta (p.23) "porque nascemos entre mil espelhos?" Nem M. Azenha tem resposta nem eu, mas porventura, estes mil espelhos repetem à saciedade uma imagem que é a nossa e que nos repetimos nos outros. Ou seja, qualquer outro é sempre um "alter-ego" daquele que empresta a sua realidade. Ou ainda, os mil espelhos funcionam como "pontos de vista" que correspondem aos vários narradores do romance polifónico.
Eu diria que há nesta obra dois objectivos principais. O primeiro aparece-nos logo no 1º poema (p.7) e é, de algum modo explicitado nos dois últimos versos
"transportar o sonho de um lado para o outro
abrir com toda a força um buraco nos espelhos"
Abrir um buraco nos espelhos para quê? Para saber o que está por trás deles. Será Deus? Que demiurgo manipula as marionetas que, se calhar, nós somos? Em qualquer dos casos, abrir um buraco nos espelhos corresponde ainda a um desejo de conhecimento.
O segundo objectivo parece estar contido no último poema, "explicação dos espelhos" (p. 43), logo no 1º verso, "e multipliquem os espelhos que cantam" pois quanto maior for o seu número maior será o número daqueles que constituirão outros tantos alter-ego da autora.
Ambos os projectos se integram em "um projecto de água" (p.7) que se abre em "lugares novos espantados" (p.7). A água assume, como se sabe, carácter matricial e é um símbolo de pureza. Não é por acaso que esta palavra é das mais frequentes na obra, quer sob esta forma, quer escondida em "mar" e em "chuva".
A linguagem de Maria Azenha é uma linguagem simples com muitas pausas deixando, pois, que o silêncio adquira uma grande importância nesta poesia. Sem pausas não há música e é aqui que eu acho que Maria Azenha devia investir mais em próximo livro.
Algumas imagens são tão belas que vale a pena citá-las. Por exemplo: "é inverno frio // neva uma rosa" (p.15).
No poema da p. 16 há três versos que nos fazem lembrar uma frase célebre de Picasso: "eu não procuro, eu encontro". Os três versos são estes:
"todos os poemas que escreverei já foram escritos
dou-me apenas ao ofício das trevas
de os revelar em pedaços de argila"
Isto é, ao poeta cabe desvelar a realidade sem qualquer preocupação de explicar. Que há, de facto, uma preocupação de enfatizar a imagem em detrimento do som (visão contra audição) pode deduzir-se, por exemplo da associação de "espelhos" com "olhos", como se pode ver no poema da p.21: "os teus olhos / são ainda / mil / espelhos/.
Trata-se de uma poesia cujo lirismo, ora nos empurra para a memória da infância (há alusões discretas a esse paraíso perdido), ora acorda em nós o tom melancólico mais próprio da maturidade.
Permita-se-me que, a concluir transcreva o poema "sobre a metamorfose das casas" (p.33), seguramente um dos mais belos deste livro:
abrem portadas em Março
ao primeiro calor das árvores.
umas
em flor
outras rendilhadas de andorinhas
derramam
nos
passeios
algumas pétalas de linho.
aves de silêncio e água limpa
segunda-feira, 16 de junho de 2008
O RAPTO DAS MENINAS
O RAPTO DAS MENINAS
Rogel Samuel
Recentemente duas adolescentes paulistas saíram de casa e ganharam a estrada em longa viagem de carona pelo Sul. Foram capturadas.
Devem ter-se divertido muito!
Infelizmente hoje o mundo está violento e perigoso. Não permite que os jovens agora façam
suas aventuras.
Na década de 60 era diferente. Meu primo e amigo B. - ainda menor de idade - saiu de casa e viveu mais de um ano em casa de desconhecidos em São Paulo. Ninguém sabia dele.
Meu amigo X (hoje pai de três filhos homens) fez uma maravilhosa viagem do Rio a Belém e
de lá desceu o litoral do Nordeste de volta, parando de cidade em cidade. Meses!
No Rio havia um Mosteiro Budista em Santa Teresa capaz de abrigar qualquer mochileiro desconhecido que chegasse. De qualquer nacionalidade. Dizem que lá esteve até o Raul Seixas. Eu mesmo morei lá. O mosteiro ainda está no mesmo lugar. Mas já não pode abrigar ninguém.
Com 18 anos de idade saí de Manaus (com apoio dos pais) e vim estudar no Rio. Nunca mais
voltei. Passei necessidades e aflições, morei em república de estudante, almoçava no Calabouço (palco de episódios políticos memoráveis). Mas foi a minha grande aventura.
A década de 60 era uma maravilha! Acampei em praias desertas durante dias! Acampei na Ilha Grande em plena ditadura, quando ainda havia o presídio. Um companheiro era militar conseguiu nossa permissão. Lá vi “Madame Satã”, já velho.
E acampei no meio de floresta. Fiz caminhadas, às vezes sozinho. Subi montanhas. Até o Pão de Açúcar pela parte mais fácil. Havia praias desertas: o ambiente daquele filme "A praia" estava ao alcance de qualquer jovem nos arredores do Rio de Janeiro.
Hoje só tenho saudades. Também falta-me energia.
Só na imaginação.
O RIO É O CAMPEÃO (DE HOMICÍDIOS)
Rogel Samuel
Há 30 anos atrás se publicou matéria dizendo que o Rio de Janeiro tinha 100 mil bandidos “fichados”. - “É um exército, disse-me uma amiga”. Agora sai nota do IBGE dizendo que o Rio tem número de homicídios maior que a média nacional.
O IBGE diz que a região Sudeste apresentou em 2004 a maior taxa de mortes por homicídios do país, com 32,3 mortes por 100 mil habitantes, mais elevada que a média brasileira (26,9 por 100 mil).
“O trabalho busca revelar em que ponto o Brasil está e para onde sua trajetória aponta no caminho rumo à sustentabilidade ambiental e da qualidade de vida dos brasileiros. O Rio de Janeiro se destaca como o estado com maior índices de homicídios do país. Vêm em seguida neste ranking de mortes os estados de Pernambuco e Espírito Santo”.
O importante seria pensar na causa, ou causas.
Em matéria de planejamento urbano o Brasil tem sido nulo. As grandes cidades cresceram desordenadamente, e transformaram-se em favelas.
Lembro-me do caso de uma gráfica em Frankfurt no ano que estive lá pela primeira vez que precisava comprar uma impressora que não cabia na sala. Pediu licença da Prefeitura para aumentar a sala. A prefeitura disse “não”. A solução foi construir um espaço subterrâneo.
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O RIO É O CAMPEÃO (DE HOMICÍDIOS)
sábado, 14 de junho de 2008
O DNA do passado
O DNA do passado
Rogel Samuel
Augusto dos Anjos escreveu um soneto chamado “Debaixo do Tamarindo”que aqui transcrevo:
“No tempo de meu Pai, sob estes galhos, / Como uma vela fúnebre de cera, / Chorei bilhões de vezes com a canseira / De inexorabilíssimos trabalhos! / Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos, / Guarda, como uma caixa derradeira, / O passado da Flora Brasileira / E a paleontologia dos Carvalhos! / Quando pararem todos os relógios / De minha vida e a voz dos necrológios / Gritar nos noticiários que eu morri, Voltando à pátria da homogeneidade, / Abraçada com a própria Eternidade / A minha sombra há de ficar aqui!”
As pessoas sempre se esquecem de que o poeta era muito novo quando escreveu. Morreu com 29 anos! E o último verso: “a minha sombra há de ficar aqui!” marca que não será senão uma sombra “abraçada com a própria Eternidade” daquela “pátria da homogeneidade” de que ele fala.
A noção de “Eternidade” reside não só na árvore (genealógica?), mas na sombra da árvore. É um DNA do passado que ele vê ali naquela relíquia da flora brasileira.
Outro dia, minha amiga C. de São Paulo mandou-me por email um texto da escritura budista tradicional que diz, na minha tradução:
“O que nasce vai morrer, O que se reuniu será dispersado, O que foi acumulado se gastará, O que foi construído se destruirá, E o que é elevado será rebaixado.”
Eu já tinha lido isto em outro lugar. Parece que pertence ao “Dhamapada” na versão chinesa. Trata da não permanência de todas as coisas. É uma temática também recorrente no classicismo. Onde estão os amigos de infância? Eda adolescência, quando havia uma turma animada e agressiva? Onde estão? Os amigos de faculdade se separaram. Até os casais se separam. Novas reuniões se fazem, sim, é certo. Mas onde está aquilo que faz com que tudo passe, tudo morra, tudo se gaste e se destrua? Está no tempo? Que é o tempo?
Hannah Arendt certa vez disse que depois da destruição do império romano, nada pode ser considerado eteno.
É por isso que o Poeta escreveu que sob aquela sombra esteve “com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos!”
A Eternidade cansa!
Rogel Samuel
Augusto dos Anjos escreveu um soneto chamado “Debaixo do Tamarindo”que aqui transcrevo:
“No tempo de meu Pai, sob estes galhos, / Como uma vela fúnebre de cera, / Chorei bilhões de vezes com a canseira / De inexorabilíssimos trabalhos! / Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos, / Guarda, como uma caixa derradeira, / O passado da Flora Brasileira / E a paleontologia dos Carvalhos! / Quando pararem todos os relógios / De minha vida e a voz dos necrológios / Gritar nos noticiários que eu morri, Voltando à pátria da homogeneidade, / Abraçada com a própria Eternidade / A minha sombra há de ficar aqui!”
As pessoas sempre se esquecem de que o poeta era muito novo quando escreveu. Morreu com 29 anos! E o último verso: “a minha sombra há de ficar aqui!” marca que não será senão uma sombra “abraçada com a própria Eternidade” daquela “pátria da homogeneidade” de que ele fala.
A noção de “Eternidade” reside não só na árvore (genealógica?), mas na sombra da árvore. É um DNA do passado que ele vê ali naquela relíquia da flora brasileira.
Outro dia, minha amiga C. de São Paulo mandou-me por email um texto da escritura budista tradicional que diz, na minha tradução:
“O que nasce vai morrer, O que se reuniu será dispersado, O que foi acumulado se gastará, O que foi construído se destruirá, E o que é elevado será rebaixado.”
Eu já tinha lido isto em outro lugar. Parece que pertence ao “Dhamapada” na versão chinesa. Trata da não permanência de todas as coisas. É uma temática também recorrente no classicismo. Onde estão os amigos de infância? Eda adolescência, quando havia uma turma animada e agressiva? Onde estão? Os amigos de faculdade se separaram. Até os casais se separam. Novas reuniões se fazem, sim, é certo. Mas onde está aquilo que faz com que tudo passe, tudo morra, tudo se gaste e se destrua? Está no tempo? Que é o tempo?
Hannah Arendt certa vez disse que depois da destruição do império romano, nada pode ser considerado eteno.
É por isso que o Poeta escreveu que sob aquela sombra esteve “com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos!”
A Eternidade cansa!
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