terça-feira, 3 de março de 2015

NEUZA MACHADO - DO PENSAMENTO CONTÍNUO À TRANSCENDÊNCIA FORMAL

NEUZA MACHADO - DO PENSAMENTO CONTÍNUO À TRANSCENDÊNCIA FORMAL


Apropriando-se de duas faces contraditórias (a face do algoz e a face da vítima) e colocando-as na figura do narrador, o porta-voz de valores sertanejos está em vias de abandonar para sempre seus conceitos anteriores de narrador experiente, preso às regras e diretrizes substanciais. Aderindo aos devaneios da ação, com direções desejadas, mas não pré-estabelecidas, abandonará também o sossego dos pensamentos repousantes e se envolverá com o dinamismo da criação literária. O ser em luta consigo mesmo é o ser que alcança o plano do silêncio dinamizado.

Agora, falar do araçari, que não musica, apenas ensaia discursos irônicos, tornou-se uma luta discursiva. Descrever é fácil; criar, a partir do escuro, não é fácil. É preciso adivinhar o porvir, o rumo do futuro, já que a desorientação discursiva não conhece o sentido linear de narrativa. Agora, o discurso poético será bem vindo, as onomatopéias também, sem falar da inclusão de versos conhecidos e já conceituados. Assim, as formiguinhas tarús se tornam presas fáceis do pica-pau chanchã, graças ao rataplã barulhento da própria ave que bica a casca da árvore.

O feitiço de Mangolô provoca a cegueira do narrador e o leva à intuição do ato de criar.

Então, eu compreendi que a tragédia era negócio meu particular, e que, no meio de tantos olhos, só os meus tinham cegado; e, pois, só para mim as coisas estavam pretas.166

Eis o privilégio do Artista Literário dinâmico: entre tantos olhos que nada vislumbram, só os dele passarão por um processo de rara iluminação. As coisas pretas refletirão o infinito. Os paradoxos existem, para que se possa refletir sobre eles.

Mas, quem diz que não seja coisa passageira, e que daqui a instante eu não irei tornar a enxergar? Louvado seja Deus, mais a minha boa Santa Luzia, que cuida dos olhos da gente!... "Santa Luzia passou por aqui, com seu cavalinho comendo capim!..." Santa Luzia passou por... Não, não passa coisa nenhuma. Estou mesmo é envolvido e acuado pela má treva, por um escurão de transmundo, e sem atinar com o que fazer.167

A imaginação material ativa, neste segundo segmento da narrativa, procura as experiências estéticas, os devaneios duradouros, a força profunda dos sonhos bem sonhados. Neste novo e poderoso processo (processo de criação), a imaginação vem em primeiro lugar, só depois a forma literária se manifestará, material e dinâmica, revelando as profundas intuições do Artista. Antes, a forma real da natureza aparecia em primeiro lugar, propiciando a imaginação e transformando-a posteriormente em forma literária, simplesmente material, não-ativa.

Este novo processo criativo não se peja em apropriar-se de expressões já conceituadas, de versos já conhecidos, de onomatopéias, porque todas estes dados paraliterários fazem parte do imaginário coletivo, e se a imaginação provinda do plano mágico-substancial vem em primeiro lugar, é natural que todas as contribuições sejam válidas no contexto da narração. Portanto, Santa Luzia não passou coisa nenhuma, e o Artista Literário, em estado de repouso ativado, desmitificou o Mágico.

Mas, calma... calma... Um minuto só, por esforço. Esperar um pouco, sem nervoso, que para tudo há solução. E, com duas engatinhadas, busco maneira de encostar-me à árvore: cobrir bem a retaguarda, primeira coisa a organizar.168

É preciso calma para pelo menos tentar reorganizar o caos que se instalou no contexto narrativo. Mas, o segredo da autêntica criação é exatamente o caos narrativo, que impõe reflexões. O caos dos pensamentos em ebulição impõe a reordenação sim, mas uma nova reordenação, diferente da ordenação do cotidiano.

Tiro o relógio. Só o tique-taque, claro. Experimento um cigarro — não presta, não tem gosto, porque não posso ver a fumaça. Espera, há alguma coisa... Passos? Não. Vozes? Nem. Alguma coisa é; sinto. Mas, longe, longe... O coração está-me batendo forte. Chamado de ameaça, vaga na forma, mas séria: perigo premente. Capto-o. Sinto-o direto, pessoal. Vem do mato? Vem do sul. Todo o sul é o perigo. Abraço-me com a suinã. O coração ribomba. Quero correr.
Não adianta. Longe, no sul. Que será? "Quem será?"... É meu amigo, o poeta. Os bambús. Os reis, os velhos reis assírio-caldaicos, belos barbaças como reis de baralho, que gostavam de vazar os olhos de milhares de vencidos cativos? São meros mansos fantasmas, agora; são meus. Mas, então, qual será a realidade, perigosa, no sul? Não, não é perigosa. É amiga. Outro chamado. Uma ordem. Enérgica e aliada, profunda, aconselhando resistência:
  Güenta o relance, Izé!169

As imagens literárias, agora, saem do mistério da matéria. O Artista abandona temporariamente (observar que, nesta narrativa, ele ainda não assume a total desorientação verbal tão nítida em Grande Sertão: Veredas e nas narrativas seguintes, apesar do aparente fio narrativo que as estruturam) a descrição de belezas já instituídas e passa a agir ativamente sobre a matéria; ele está no momento sob o encantamento da própria energia, e esta não se preocupa com o linear.

No início da narrativa, ele estava propenso a descrever a beleza exterior das formas da floresta e o encantamento exterior das superstições; agora, graças à cegueira e àquela sub-estória intuída, a estória do bambuzal e do poeta desconhecido,

Foi quase logo que eu cheguei ao Calango-Frito, foi logo que eu me cheguei aos bambús. Os grandes colmos jaldes, envernizados, lisíssimos, pediam autógrafo; e alguém já gravara, a canivete ou ponta de faca, letras enormes, enchendo um entrenó:

"Teus olho tão singular
Dessas trancinhas tão preta
Qero morer eim teus braço
Ai fermosa Marieta".

E eu, que vinha vivendo o visto mas vivando estrelas, e tinha um lápis na algibeira, escrevi também, logo abaixo:

Sargon
Assarhaddon
Assurbanipal
Teglattphalasar, Salmanassar
Nabonid, Nabopalassar, Nabucodonosor
Belsazar
Sanekherib

E era para mim um poema esse rol de reis leoninos, agora despojados da vontade sanhuda e só representados na poesia. Não pelos cilindros de ouro e pedras, posto sobre as reais comas eriçadas, nem pelas alargadas barbas, entremeadas de fios de ouro. Só, só por causa dos nomes.170

o novo ficcionista se propõe a mostrar seus próprios esforços para detectar as belezas escondidas na plenitude da forma.

Submetido aos acontecimentos insólitos, ele indaga o que está por vir, já que perdeu, momentaneamente, o controle do narrado. Os sentidos aguçados o alertam quanto ao Desconhecido. O Sul, aqui, representa o mundo da intuição, espaço de criação, da mesma forma que o Norte, em A hora e vez de Augusto Matraga. Os reis assírio-caldaicos, historicamente ferozes, não passam de reis de baralho, porque agora estão submetidos ao poder da criação literária. Enfim, a realidade da criação não é perigosa, pois, após o medo inicial de seu narrador, vem-lhe a certeza de que é ele, o Artista, o senhor de tal mundo; os reis assírio-caldaicos são propriedade dele.

A ordem, enérgica e aliada, profunda, aconselhando resistência: ‘— Güenta o relance, Izé!’, sai do infinito de sua própria vontade de criação: ‘— Güenta o relance, João Guimarães Rosa’. Na ontologia de luta, em que o experiente narrador do sertão põe-se em guarda contra o narrador moderno, a vitória será incontestavelmente do Artista do século XX e seu narrador. Não há como fugir de sua própria realidade estético-histórica.

'Güenta o relance, Izé!
Respiro. Dilato-me. E grito:
— E agüento mesmo!...
Eco não houve, porque a minha clareira tem boa acústica. Mas o tom combativo da minha voz derramou em mim nova coragem. E, imediatamente, abri a tomar ar fundo, movendo as costelas todas, sem pedir licença a ninguém. Vamos ver!171


O narrador abriu a tomar ar fundo, porque não é possível, ficcionalmente e poeticamente, permanecer para sempre ligado à matéria terra, tão estável. Para que haja uma literatura deformante e criadora (atenção: a palavra deformante, aqui, não poderá ser vista como expressão pejorativa) ligada ao elemento terra (a terra real do sertão), o Artista, para escrever, necessitará ter visto muito, precisará somar imaginação, fragmentos do real, lembranças e sentimentos. O bem ver é diferente do bem sonhar. O bem ver foi o objetivo central da estética realista; o bem sonhar é fenômeno da estética modernista e exige trabalho criativo, busca penetrar na essência do elemento. Mesmo assim, o Artista  moderno poderá ultrapassar a crosta da terra e penetrá-la criativamente, mas não ficará restrito a este ato criativo eternamente, pois o Ar é o elemento que o seduz, é o elemento da linguagem da criação. Assim, nesta narrativa, o ficcionista do século XX busca a profundidade do ar, a profundidade das palavras aladas.

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