sábado, 23 de novembro de 2013

O LADO ESCURO DA CASA

O LADO ESCURO DA CASA
 
ROGEL SAMUEL
 
 
Sim, nasci em 1942, 2 de janeiro. O carnaval em Manaus era naquela rua, na Av. Eduardo Ribeiro. A principal da cidade. Em baixo, havia um salão de beleza famoso, a Mezodi. Acho que se escreve assim. Meu pai tinha uma loja, a Radiomotor, na mesma rua, mais abaixo. Mas não me lembro de nada. Nada disso.
Minha primeira lembrança – o berço, madeira escura, um braço de madeira avançando no ar, onde se pendurava um chocalho. Lembro-me bem disso. Sempre me lembrei disso. Das grades ao redor. Aquele quarto, paredes muito altas. Estou só, no berço. Já moramos na rua 24 de Maio, entre Eduardo Ribeiro e Joaquim Sarmento, do lado direito de quem vai em direção à Aparecida, quase na esquina. Deve ser o número 175, não sei. Aquela casa era escura e triste. Lembro-me bem. Depois da porta da rua havia uma escada. Depois um pequeno corredor até a sala.
Em frente, a bela casa da “Belinha”, minha amiga.
Formou-se comigo, na FNfi da Universidade do Brasil. A irmã dela tocava piano, tocava Chopin. E era bom de ouvir. Filhas do senhor Higino.
Belinha, ou Maria Izabel, casou-se com um americano e hoje mora nos Estados Unidos. Na esquina com Eduardo Ribeiro havia a mansão de Sócrates Bonfim, escritor, empresário, que se dizia Socratés, como em grego. Ele explorava minérios. Grande intelectual.
Perto havia uma vila de casas, perto da Eduardo Ribeiro. Ao lado, um casal de portugueses, que tinha um filho.
Manaus triste, as casas escuras.
Apareciam aranhas caranguejeiras nas paredes.
Mundo antigo. Homens tristes, curvados. De paletó preto e chapéu.
Manaus da década de 1940. Plena crise econômica.
A casa era muito grande, muito escura. Grande. Basta dizer que eu tinha dois quartos só para mim, um onde dormia, outro era o quarto dos brinquedos.
Mas aquilo mais aumentava a minha solidão, dentro de casa.
Meu pai, naquela época, comerciante, apesar da crise econômica. Faliu depois da guerra, muito depois.
Tive uma educação estranhamente europeia. Meu avô judeu casou-se com uma peruana e meu pai foi educado em Estrasburgo. Depois em Paris. Falava com fluência sete línguas, tocava piano e violino, tinha uma memória e uma cultura impressionantes, mas vivia no mato, no meio dos rios e lagos da Amazônia, que ele amava. Acabou virando um completo caboclo do mato.
Da minha infância eu só me lembro daquela casa escura e triste. Eu fui um menino triste e doente.
Meu mundo era aquele quarto escuro, mas cheio de brinquedos.

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